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REVISITA À PESSOA – Diário do Nordeste

Os que fizeram a universidade nos anos 1960/1970 elegeram Fernando Pessoa (1888­1935)como o poeta a ser lido e estudado. Ele e os seus heterônimos. Preciso dizer que optei por Bernardo Soares: “sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças”. A colega Maria Luiza Rodrigues e eu passávamos horas lendo a edição, em papel bíblia, do esquivo poeta lusitano.
Pessoa, após a morte do pai, acompanhou a mãe que emigrou ­ e casou, novamente ­para a África do Sul, na cidade de Durban. Em África, Pessoa fez o curso secundário e aprendeu o inglês que usou como tradutor e publicitário, já em Lisboa. Em julho de 2015, os filhos do pesquisador inglês Hubert Jennings, morto em 1992, resolveram o que fazer com o espólio cultural do pai, especialista em Pessoa, com pesquisas “in loco” dos arquivos do vate, antes de terem ido parar na Biblioteca Nacional Portuguesa.
O acervo de Jennings foi doado à Brown University, nos Estados Unidos. A Brown concentra estudos sobre literatura portuguesa e publica a Revista “Pessoa Plural”. Entre os arquivos, foi encontrado o livro inédito de Pessoa “The Poet of Many Faces”, em inglês.
Soube por Maurício Meireles, FSP, C3, agora em 16 de janeiro. São destacados como “pessoanos” o argentino Patrício Ferrari, o brasileiro Carlos Pittela­Leite, o mexicano Octavio Paz e o italiano Antonio Tabucchi.
Para mim, “A Tabacaria” e o “Livro do Desassossego” são o cume de Pessoa que, exangue, disse, em inglês: I know not what tomorrow will bring (Eu não sei o que amanhã trará).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/01/2016.

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PERDAS SENTIDAS – YOLANDA QUEIROZ, IVENS DIAS BRANCO – Jornal O Estado

A morte, independente da crença, do agnosticismo ou do ateísmo das pessoas é ainda, para não fugir ao lugar comum, mistério. Pensadores, não os mais recentes, debruçaram-se sobre o fim da vida. Cito dois para mostrar o impacto quando alguém está próximo do fim ou quando se disserta sobre a morte.
Sêneca, sempre citado, foi coevo de Cristo. Ele, em “Cartas a Lucílio”, afirma: “Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte”.
Em contraponto, o escritor francês L-F. Céline, morto em 1961, destoa: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento”. Mas faz ressalvas, logo em seguida: “Outras começam a morrer e a se ocupar da morte vinte anos antes, e às vezes até mais. São os infelizes da terra”.
Recentemente, no curto espaço de uma semana, perdemos duas pessoas que viveram até o último momento. Yolanda Vidal Queiroz e Francisco Ivens Sá Dias Branco foram combatentes ao longo de suas vidas.
D. Yolanda, em 1982, perdeu o marido, o empresário Edson Queiroz, de forma abrupta. Abatida, mas não desistente, apegou-se à fé que possuía e, em pouco tempo, com a parceria da família e o seu primogênito Airton José Vidal Queiroz, a lhe dar força e o ombro, tomou jeito e gosto para a sua nova, longa, árdua e vitoriosa caminhada.
D. Yolanda comandava o Grupo Edson Queiroz-GEQ que tem como joia da coroa a Universidade de Fortaleza. Afora a Unifor, a partir do escritório do seu pranteado marido, transformado em relicário, D. Yolanda dirigia um complexo empresarial que se dá ao luxo de ser fechado. Sem espaço para IPO ou abertura de capital. Ela sabia o que acontecia, em âmbito nacional, nas suas áreas tentaculares de comunicação, distribuição de gás, fábrica de eletrodomésticos e forte presença agropecuária.
O GEQ representa hoje a doçura e a tenacidade de D. Yolanda aliada à meticulosa alma profissional e sensibilidade do filho Airton compor o mundo pelas versões multiformes do paisagismo e da arte espraiada na Unifor. A par disso, emergem a energia e as possibilidades da terceira gestão.
Na missa de 7º. Dia de D. Yolanda, a neta Joana falou: “Minha avó sempre foi o centro de nossa família e ainda vamos ter que aprender a viver sem sua referência fisicamente conosco”.
Ivens, desde cedo, foi companheiro de seu pai, o panificador português Manuel Dias Branco, vitorioso no interior do Ceará e de lá para Fortaleza. Já industrial de sucesso, Manuel, com saudade da terra mãe, transfere ao jovem Ivens, em 1953, o comando de uma emergente indústria.
A partir daí, a desenvoltura foi a práxis da M. Dias Branco e da Idibra que, ano após ano, cresciam e mereciam o reconhecimento da sociedade do Ceará e do Brasil. A citação de Ivens entre os bilionários brasileiros na lista anual da revista “Forbes” não é uma contraprestação de favor, mas reconhecimento que se consolidara em pouco mais de 60 anos de sua gestão, sempre espartana.
Para os que não sabem, Ivens era viajor e leitor qualificado, curioso, com olhar de “insider” empresarial ao identificar, implantar e equilibrar em sua balança empresarial atividades distintas, como empreendimentos imobiliários, fábrica de cimento e moinho de trigo, ao seu “core business” de líder nacional na área de massas e biscoitos.
Sempre ligado à família, já na terceira geração, lutou como fazem os fortes surpreendidos por doenças graves. A discrição, o arrojo e a organização eram as suas características basilares, aliadas ao bem fazer aos seus colaboradores acometidos por males do bolso, do corpo ou da alma. Suas empresas, consolidadas, continuam fortes e antenadas sob o olhar capaz do predefinido sucessor, Ivens Jr., coadjuvado pela família.
Ambos, Yolanda e Ivens, profissionalizaram as diversas empresas que compõem os seus distintos grupos. Tiveram o discernimento de, no tempo devido, auscultar familiares, diretores e consultores externos para dar formatação e continuidade aos complexos meandros de suas organizações que compõem a dura vida empresarial brasileira. Filhos e netos cresceram vendo exemplos, a forma mais próxima da verdade de educar e de dar sentido ao que se faz por destino, amor e coragem.
Às famílias Queiroz e Dias Branco, o meu pesar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/07/2016.

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JOHN GAY, WEILL, BRECHT E A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS – Jornal O Estado

“O ritmo tem algo mágico; chega a nos fazer acreditar que o sublime nos pertence”. J.W. Goethe(1749-1832), em Máximas e reflexões, XIII, 6.
Esta semana, vendo apenas a parte derradeira de um filme, fui surpreendido pelo arranjo diferente de música já ouvida, por mim, tantas vezes. De tão ouvida, ouso, mesmo sendo desafinado, assobiá-la. Ela ficou na minha cabeça e decidi revolver um pouco mais de sua história, da sua letra, da sua harmonia, dos seus autores e das inúmeras quantidades de intérpretes que, através dela, fizeram sucesso.
“The Beggar´s Opera” (A ópera dos Mendigos), escrita por John Gay, composta em 1728, com anseio de texto épico, revolucionário, conta a miséria e a situação crítica de desemprego, a vida de criminosos e de mendigos, de então. Para se livrar de questões, a Itália foi usada como o pretenso local da ópera.
Damos um pulo ao começo do século 20. Exato no ano de 1928, quando o compositor Kurt Weill encontra-se com o ainda não famoso dramaturgo Bertold Brecht, ambos alemães. Eles transformam a obra de Gay, na “Die Dreigroschenoper” ou “Ópera dos três vinténs”.
A letra de Brecht produz um anti-herói, Mackie Messer, vilão consagrado, bígamo, charmoso, metido com polícia e assassino. Brecht, tal qual Gay, a situa em outro país. Elege a Londres de então, com misérias, igualmente, como pano de fundo para contar as injustiças sociais decorrentes da implantada Revolução Industrial.
A canção “Mackie Messer” virou “Mack, the Knife” ou Mack, o facão ou navalha, quando foi descoberta, nos anos 20 do século passado, pelos americanos. Tantas foram as traduções do original, quanto os intérpretes, a partir de Louis Armstrong, na versão de Marc Blitzstein. Depois, vieram Frank Sinatra, Bob Darin, outros e, recentemente, até o Michael Bublé ousou cantá-la do seu jeito e modo. O sucesso, como peça, nos Estados Unidos, em New York, começou fora da Broadway, mas virou enxame.
Depois do acontecimento vieram outras adaptações para mais de 18 línguas. Aqui no Brasil, Chico Buarque, em 1978, monta a sua intertextualidade de Mackie Messer como “Ópera do Malandro”, que teve êxito como música, peça e filme. A história, lógico, é apoderada e abrasileirada na música “Malandro”, com o mesmo ritmo, melodia e harmonia da criação de Weill e Brecht. Chico age com liberdade poética. Contextualiza a sua história no Brasil pré-industrial, anos 40, para fugir do rigor da censura vigente.
Os leitores deste texto despretensioso, feito no calor da recordação de música com quase 100 anos de composta, podem procurar – facilmente encontrarão – as muitas versões de “Mack, the Knife”, na internet. Cantoras de vozes potentes, Elza Soares e Alcione, também entoaram a versão brasileira de “Mack, the Knife”.
Glória, pois, a Weill e a Brecht, que souberam divisar na ópera original de Gay os vieses sociais, políticos e revolucionários. No compasso lento emerge, de soslaio, uma história sempre nova, pois fala das fraquezas humanas na figura de um mendigo/marginal, o personagem central. Vale ouvir e conferir a letra, em qualquer versão.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2016.

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TRISTE BRASIL – Diário do Nordeste

O Brasil possui, hoje, quase 12 milhões de desempregados. Se erro houver, não me culpem. Escrevo o que leio e ouço. De cada dez desempregados, um entra em depressão. Entre os sem emprego, 1,2 milhão estão abisonhados, desiludidos e sujeitos aos efeitos dessa doença danosa.
Este País é um paradoxo. A soma dos desvios já sabidos, apenas neste século, nos colocaria, se bem utilizados, em outro patamar. Aqui ao lado, Peru e Chile mostram como deve um país passar de exótico a lógico.
O economista e filósofo mineiro Eduardo Gianetti derivou da análise economicista para, em reclusões filosóficas, procurar entender o País. O seu último livro, “Trópicos Utópicos”, pode não ser novidade, mas releitura contextualizada.
O belga Claude Lévi­Strauss, em 1934 foi professor pioneiro de sociologia da novel USP. Anos depois, em 1955, o seu livro “Tristes Tópicos” narra viagens ao interior do Brasil e sua vivência com índios. Vai além, ao estudar o Islamismo em cáusticas lições escritas. O mau humor seria por não haver chegado ao “Collège de France”.
Agora, mudam­-se tristes para utópicos, na análise de Gianetti: “Ao juízo da fria métrica ocidental, o Brasil, se não chega a ser um malogro, não passa de um país medíocre: nossa contribuição à história da ciência e da tecnologia modernas -­ assim como à filosofia e às humanidades -­ resume-se a uma dispensável nota de rodapé”.
Considero séria e pessimista a fleuma das conclusões dele. Mesmo assim, creio neste País, que se vê logrado por, entre outras razões, não separar o público do privado. Feito isso, decolaremos.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2016

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CORPOS CANSADOS – Jornal O Estado

Amigo liga e reclama do cansaço. Fala da fadiga em dirigir para chegar ao trabalho. Reclama dos pedintes, dos flanelinhas, dos manifestantes, dos desvios, das motos e do ar-condicionado quebrado, o que lhe dá duas opções: baixar o vidro e ficar inseguro ou subir o vidro e torrar a paciência com o calor. Liga o rádio e só ouve desgraça. Desliga. Sugiro que mande consertar o ar-condicionado do carro. Ele fala alto: como, se não tenho tempo.
Coloca um CD e lembra que já o ouviu tantas vezes que sabe até a sequência das músicas. Uma delas é de Roberto Carlos. Está cheio das notícias com os pré-candidatos às eleições de 2014 e com a polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas do dito Roberto Carlos e das posições do Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Resume para mim o seu pensamento: as pessoas passam mais da metade da vida querendo ser famosos ou conhecidos e, em seguida, rejeitam o assédio, a crítica sobre detalhes de sua vida privada que preferem esquecer ou não tornar público.
Uma ligação está na espera e peço desculpas para desligar. Zanga-se comigo. Respondo com o meu resto de resignação: retornarei. Atendo o novo chamado. A vida vai nos mostrando situações comuns às das outras criaturas. Há fatos e situações, mesmo administrados, que permeiam a nossa cota de resiliência. Todos passamos por situações semelhantes. Vivemos acossados por obrigações e somos instados a cumprir até três expedientes diários. Cobram-nos quando, exaustos, deixamos de ir a algum compromisso social ou de classe. Que jeito.

Sebastião Salgado
Hoje, estampa a capa do nosso caderno Linha Azul o consagrado fotógrafo Sebastião Salgado. Premiado internacionalmente, Salgado é considerado um dos maiores talentos da fotografia mundial pelo teor social em seu trabalho. Sua exposição Êxodos está em cartaz na Caixa Cultural, até dia 20 maio. Para chegar ao resultado de Êxodos, ele viajou durante seis anos, por 40 países, para mostrar a humanidade em trânsito, provocando uma reflexão sobre as questões políticas, sociais e econômicas de pessoas que foram obrigadas a deixar a sua terra natal. A curadoria é de sua esposa Lélia Deluiz Wanick Salgado e foi justamente com a câmera Leica, de Lélia, que Salgado iniciou no mundo da fotografia. Sebastião Ribeiro Salgado nasceu em Aimorés (MG), mais especificamente na Vila Conceição do Capim. Sua infância passou em expedicionário Alicio. Graduou-se em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1964-1967) e realizou pós-graduação na Universidade de São Paulo. No mesmo ano, casou-se com a pianista Lélia Deluiz Wanick. Eles se engajaram no movimento de esquerda contra a ditadura militar. Depois de emigrarem, em 1969, para Paris, ele escreveu uma tese em ciências econômicas, enquanto ela ingressou na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts para estudar arquitetura. Salgado inicialmente trabalhou como secretário para a Organização Internacional do Café (OIC). Em suas viagens de trabalho para a África, muitas vezes encomendado conjuntamente pelo Banco Mundial, fez suas primeiras sessões de fotos com a Leica da sua esposa. Fotografar o inspirou tanto que logo depois ele tornou-se independente em 1973, como fotojornalista. Em 1979, depois de passagens pelas agências de fotografia Sygma e Gamma, entrou para a Magnum. Encarregado de uma série de fotos sobre os primeiros 100 dias de governo de Ronald Reagan, Salgado documentou o atentado, a tiros, cometido por John Hinckley Jr. contra o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, no dia 30 de março de 1981, em Washington. A venda das fotos para jornais de todo o mundo permitiu ao brasileiro financiar seu primeiro projeto pessoal: uma viagem à África.
Seu primeiro livro, Outras Américas, sobre os pobres na América Latina, foi publicado em 1986. Na sequência, publicou Sahel: O “Homem em Pânico” (também publicado em 1986), resultado de uma longa colaboração, de 12 meses com a ONG Médicos sem Fronteiras, cobrindo a seca no Norte da África. Entre 1986 e 1992, ele concentrou-se na documentação do trabalho manual em todo o mundo publicada e exibida sob o nome “Trabalhadores rurais”, um feito monumental que confirmou sua reputação como foto documentarista de primeira linha. De 1993 a 1999, ele voltou sua atenção para o fenômeno global de desalojamento em massa de pessoas, que resultou em Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo, publicados em 2000 e aclamados internacionalmente.
Na introdução de Êxodos, escreveu: “Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”. Ao longo dos anos, Sebastião Salgado tem contribuído, generosamente, com organizações humanitárias incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, (ACNUR), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONG Médicos sem Fronteiras e a Anistia Internacional. Com sua mulher Lélia mantém a ONG TERRA, em Aimorés, um projeto de reflorestamento e revitalização comunitária.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/03/2018.

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ENTREVISTA COM MÁRCIO CATUNDA – Jornal O Estado

Semana passada escrevi sobre Gerardo Mello Mourão- GMM e citei o poeta e diplomata Márcio Catunda, expert em GMM. Fizera-lhe algumas perguntas. Ele as respondeu. Assim, com alegria, dou espaço a Márcio. GMM merece reverências e Márcio Catunda, tem autoridade para isso:
JSN – Como você vê a trajetória de vida do poeta e do político GMM?
MC – Com admiração e apreço. Ele foi um dos mais ilustres cearenses e um dos maiores poetas da língua portuguesa. Foi mais poeta que político. Mas sua erudição, sua inteligência e sua sensibilidade contribuíram para que ele desempenhasse, de forma brilhante, toda e qualquer atividade. Na literatura, foi polígrafo, imensamente criativo e fecundo. Escreveu poesia, ensaio, romance, conto, artigo de jornal e biografia. Fez até hagiografia, ao contar a vida e os milagres de São Gerardo Majella, seu patronímico.
JSN – A entrada dele no integralismo foi arroubo de juventude ou pregação de Plínio Salgado?
MC – Foram as duas coisas e mais. O integralismo aparecia como nacionalista com forte vertente católica, cujo Guru principal, para Gerardo, foi o filósofo e ensaísta Alceu Amoroso Lima(Tristão de Athayde) que aderiu ao Movimento. Durante a Ditadura Militar, teve cassado o seu mandato de deputado federal por Alagoas (pelo PTB) e esteve no cárcere por algumas semanas. Ameaçado de morte, saiu de Brasília com documentos falsos, embarcou para Ponta Porã, atravessou a fronteira e foi até o Paraguai. Em Assunção, foi de avião para o Chile, onde passou dois anos exilado.
JSN – Depois, ele foi comunista ou era nova onda?
MC – Não foi comunista em nenhum momento da vida. Já havia, no entanto, renegado o credo integralista e, em razão de sua obra e sua capacidade de fazer amigos, ficou ligado a Leonel Brizola e Darci Ribeiro, que lhe reconheceram os méritos de grande intelectual e o nomearam presidente da Fundação Rio-Arte.
JSN – Como você destacaria a obra de GMM?
MC – Uma obra de profunda sensibilidade, humanismo e inspiração, pautada por sua erudição clássica. Gerardo fez uma poesia eclética, versátil, em que misturava imagens e signos do seu torrão nativo, Ipueiras, com a antiga história e os mitos da Grécia e de Roma. Essas referências extraordinárias de sua poesia estão marcadamente registradas nos livros Rastro de Apolo, Peripécia de Gerardo e O País dos Mourões. Escreveu outros livros magníficos, como Invenção do Mar, epopeia das navegações e da fundação da terra brasileira, que recebeu o Prêmio Jabuti em 1999, e Algumas Partituras, este a meu ver, o mais primoroso de seus livros, escrito já na maturidade, e publicado em 2002, cinco anos antes de sua morte. Veja o que GMM me declarou, de viva voz, quando tive a satisfação de entrevistá-lo em 1998:
“Rimbaud nunca vendeu nenhum livro, mas há pouco tempo uma edição daquele poeta vendeu 60 mil exemplares numa semana, quando distribuíram um de seus livros nas bancas de jornal. Nem Camões, nem Dante, nem mesmo Tales, na Grécia, encontrou mercado de trabalho para o triângulo retângulo, nem para o isósceles. No entanto, se ainda hoje existe um país chamado Grécia é porque um vadio, sem mercado de trabalho, talvez mesmo um cego de feira, chamado Homero, criou a língua e a glória sobre a qual se fundou a eternidade de uma nação”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2017.

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RELEITURA DE NILTO MACIEL UMA LUZ QUE AZULA – Jornal O Estado

Estava na despedida de Nilto Maciel da face da terra, em 29 de abril de 2014. Será que um escritor do calibre de Nilto Maciel desaparece ao ir para além do além? Nilto me acolheu no meu começo e não era raro trocarmos ideias entre as suas baforadas de cigarro que borravam as suas grossas lentes de ler.
Quem quiser saber dele poderá ler seus livros ou consultar a Wikipédia. Lá estão a produção literária e os prêmios recebidos. É fácil perceber o descortino desse cearense, formado em Direito e nas ciências da vida. Foi-se para Brasília, mediante concurso público. Cumprido o tempo, aportou em Fortaleza e aqui se espraiava em contos, poemas e romances.
No oferecimento que me fez no livro de contos “Luz Vermelha Que se Azula”, Prêmio Moreira Campos, ele diz: “Ao amigo João Soares Neto, que escreve certo, estas linhas tortas”. Na verdade, Nilto não era homem de linhas tortas, tampouco de linhas óbvias, era um criador que se metamorfoseava em personagens nas histórias que criava.
Dou a palavra a NM: “A maioria das minhas composições literárias surge por acaso, de inopino ou inspiração, o que deve acontecer com quase todos os criadores, Não as busco. Vêm num piscar de olhos. Não as cato nas ruas. Apresentam-se a mim como folhas mortas, papéis velhos, cacos de vidro, esterco. Acolho algumas. Lapido-as, lavo-as e faço delas literatura”.
NM continua: “Outras, porém, não existem nem como ideias e, se existem, estão bem enterradas ou perdidas nas páginas de velhos alfarrábios. É o caso de algumas aqui reunidas. Fui procurá-las nas enciclopédias, nos dicionários, nas biografias, nos compêndios de história”.
Interrompo a dicção de NM e passo a palavra a Aíla Sampaio, que foi minha confreira na Academia Fortalezense de Letras:
“(…) O equilíbrio está no talento de Nilto Maciel para amalgamar realidade e ficção. Munido de vasta bagagem de leituras e domínio das técnicas de construção do texto literário, ele percorre veredas diversas, com seu apurado trabalho de linguagem, dá unidade ao que é diverso, puxa o leitor por caminhos inusitados e consegue, sem exauri-lo no longo percurso que se impõe da primeira à última página, prendê-lo espontaneamente ao universo de seres alucinados e fatigados de sua aventura existencial”.
Agora, neste abril de 2017, três anos após, relembro aos leitores, colegas, amigos e familiares a certeza de que Nilto Maciel está em todos os lugares por onde passou e espargiu a sua premiada literatura.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/04/2017.

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CLICHÊS DE UNS E DE OUTROS – Jornal O Estado

“Diga-me uma coisa, compadre: por que você está brigando?” Gabriel Garcia Márquez
Não faz muito tempo os empresários resumiam as suas vidas em cuidar de suas famílias e de suas empresas. Depois dos anos foram surgindo entidades e alguns dos que antes mourejavam nos chãos dos seus negócios pequenos e médios passaram a ser líderes, encaminhando pleitos a governos municipais, estaduais e federal. Viraram seres falantes.
Foram tomando gosto e assentos em diretorias e conselhos, alguns remunerados, viajando por conta de nós todos e se acreditaram detentores de conhecimento, além do dia a dia de seus interesses por conta de um sistema rico e poderoso.
Para os alinhados a governos, partidos políticos e os que souberam descobrir licitações, concessões, aprovações de projetos por órgãos locais ou os de desenvolvimento regionais, tipo Sudene, Zona Franca de Manaus etc., o mundo se abria risonho e franco.
Depois, anos à frente, aos maiores ou audaciosos desejosos de crescer exponencialmente, os Fundos de Pensão das estatais, os bancos públicos regionais, a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social- BNDES abriam créditos a juros subsidiados, bem amaradas. Criou-se um compadrio de resultados. O governo passou a ser sócio de muitas empresas privadas.
Nomes desconhecidos foram surgindo em reportagens amestradas a tecer loas a seus méritos, descortinos e as múltiplas empresas que criavam e, subitamente, passavam a fazer parte das listas de maiores e melhores. Prêmios para cá. Prêmios para lá.
Em cada Estado brasileiro há figuras assim. Do nada para o Olimpo, em pouco tempo. Ralar, por anos, é coisa de gente atrasada que não possui “networking”, aqui traduzida como a capacidade de conhecer e influenciar pessoas, gestores e políticos, com recepções opíparas, viagens conjuntas mundo afora e logo entrar no circuito dos muitos influentes.
Outros, que abriram empresas e não se deram bem, viravam consultores, diretores, assessores e, sempre simpáticos, circulavam em festas e ambientes em que bilhões eram cifras citadas sem medo e a certeza de que caminhos políticos e classistas os fariam participar do mundo dos muito ricos, esse lugar para poucos, em país de miseráveis.
Faço uma digressão e procuro em Lucy Kellaway, jornalista do “Financial Times”, de Londres, via Valor, no artigo “Como uma empresa consegue citar dez clichês em uma frase” comparativo com a linguagem empolada e vazia dos que pouco se instruíram e resolvem ser experts e oradores.
Ela registra o caso da empresa Mondelez, fabricante de biscoitos e chocolates, ao procurar um executivo na área de marketing. O texto: “Nossa busca por um sucessor vai se concentrar em encontrar um líder que seja ‘digital-first` (que dê prioridade, ou atue na esfera digital), disruptivo, inovador, que possa ampliar o legado e mobilizar um marketing em um cenário consumidor global em plena mutação”.
Como se vê, há bobagens ditas e escritas pomposamente não só aqui em Pindorama, mas em países desenvolvidos. Como todas as semanas brasileiras viraram cruciais, saio desta sinuca por escrever de véspera e não saber o desfecho no mundo real, do qual tento evadir-me com estes alinhavos meio “disruptivos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/05/2017.

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PAUSA FRENÉTICA E NOTAS ESPARSAS – Jornal O Estado

No Brasil tudo é exagerado. Na sexta-feira passada, todos estavam ansiosos pela folga do carnaval. No expediente da tarde as coisas se arrastavam. Ninguém queria mais nada com nada. Perguntei aos meus próximos o que iriam fazer. Praias, viagens longas de até 1.200 quilômetros de carro, serras e que tais. Dos que ficaram em suas casas, poucos os com um livro às mãos. Estavam a mudar de canal para ver mais do mesmo ou trocavam mensagens e fotos em seus celulares. São os tais solitários conectados, quase sempre em busca de fatos desairosos ou de humor duvidoso.
A característica desse tempo foi a obrigatoriedade de parar a “chata” vida e fazer dos dias de folga o que bem aprouver. Cada qual com a alegria surgida do nada. Férias curtas com desgaste de energia e de dinheiro. Época da concessão geral e do encontro com o outro eu, aquele sem censura, enrustido nas conveniências do grupo em que cada um se enquadra.
Em Fortaleza, consolida-se uma forma auspiciosa de fazer carnaval. A partir da descentralização das áreas de atração em diversos bairros, dos muitos blocos, dos cordões, dos abomináveis paredões de som e o “aterrinho” da Praia de Iracema como palco principal da festança. Na Avenida Domingos Olímpio, os combatentes, novos ou antigos, dos maracatus, das escolas de sambas e dos cordões têm bem cuidado espaço reservado no breve corredor e uma estrutura profissional de arquibancadas, locais de filmagens e boa iluminação.
As mortes em estradas, os assassinatos, passam como meras estatísticas, enquanto famílias perdem provedores e entes queridos. Os acidentes com os grandes carros alegóricos no Sambódromo do Rio de Janeiro a causar 32 feridos, ganham manchetes e mostram a necessidade de acompanhamento técnico na fabricação e montagem das estruturas metálicas, suas interconexões e suas soldas. Isso é assunto de engenharia. O motorista, de um dos carros, sequer tinha visão livre, em face dos adereços.
Na volta ao mundo real, que não parou lá fora, o Brasil retoma, na próxima segunda-feira, o feijão com arroz da político-econômica, enquanto jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, retomam a mesma pauta. A mesma de sempre.
Além do carnaval, só as notícias do “Oscar”, com erro grave da PwC, encarregada da gestão dos votos, na principal decisão da noite: o melhor –não para mim – filme (Moonlight, sob a Luz do Luar). Um diretor negro, Barry Jenkis, de 31 anos, ganha, depois do duplo equívoco de Faye Dunaway e Warren Beatty (será que enxergavam direito o que liam?). Os do filme “La la Land” que, haviam subido ao palco, devolveram os troféus recebidos, tiveram cinco minutos de glória e o resto da vida de desapontamento.
No “Oscar” do ano passado houve queixa geral por não figurar um só ator ou diretor afrodescendente entre os vitoriosos. Este ano aconteceu o inverso. Hollywood mudou de tom e exagerou na dose. A cerimônia é longa e chata. São tantas as categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor filme estrangeiro, melhor animação – desenho animado, melhor roteiro original e, para não cansar mais, fico por aqui.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/03/2017.

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IVAN, O POSSÍVEL – Jornal O Estado

O nome Ivan Sérgio pode ser oriundo de romances de Tolstói, Dostoiévski e de outros russos, lidos por Fran e Lúcia Martins, pais literatos e viajores. Houve nove czares com o nome Ivan. Um cognominado, o Terrível.
Ivan Sérgio Fernandes Martins, filho de Fran e Lúcia Martins, nasceu, viveu e trabalhou no Outeiro, dito Aldeota, quiçá Meireles, do qual fazia parte o loteamento de nome Lidiapólis. Era de propriedade de Antônio Cristalino Fernandes, pai de Lúcia, sua única filha e herdeira universal.
Era muita terra para ser cuidada por um casal de letrados que viam, ano a ano, o Imposto Predial subir. Poucas casas alugadas, o resto era de terrenos ao longo da hoje Av. D. Luiz. Fran era professor da Universidade Federal do Ceará, com notório saber em Direito Comercial, tendo publicado livros de uso corrente em quase todos os cursos de Direito, Brasil afora.
A casa da família ficava na D. Luiz, murada e com cachorros soltos para vigiar a área que era deserta, salvo umas casas na Av. Desembargador Moreira e muitos casebres. Alguns não sabem que o apodo cachorro se originou dos amigos – vamos a casa do Ivan, dos cachorros – e depois, o singularizam.
Bem criado e apessoado, no tempo certo lá se foi Ivan fazer intercâmbio de High School, em Michigan, Estados Unidos. O menino que foi, voltou guapo rapaz com muitas ideias na cabeça. Fez Administração, prevendo ser o fiel depositário da Imobiliária LM, de Lúcia Martins que pagava muito Imposto Predial nas casas que alugava na Av. Desembargador Moreira e nos terrenos ao longo da Av. Dom Luiz. Os aluguéis não cobriam o total a ser pago de IPTU. Surge, então, a Construtora
LM, comandada por Ivan, Vânia, irmã; e Stênio, sobrinho-irmão. Construiu shoppings na Av. Luiz e um no Cariri.
No que seria o último, Ivan ousou. Fez um complexo integrado com shopping, torres residenciais e comerciais. Obra de vulto, projeto de André Sá. Procurou um banco para obter a linha de financiamento do BNDES. Fez o contrato. O financiamento não saía (hoje, sabe-se a razão – era só para os amigos do poder). Entrou no cheque especial e a dívida crescendo. Banco não possui amigos. Nada de BNDES. Virou, mexeu e lembrou-se de usar um capítulo escrito por seu pai para o Código Comercial, a Recuperação Judicial.
A obra atrasou e Ivan, com a coragem inata, reuniu os seus credores no Cine São Luiz e prometeu pagar a todos, dando os seus bens pessoais como garantia. Não saiu de lá apedrejado, como agouravam alguns. Saiu pela porta da frente, triste e altaneiro. Dito e feito, quitou as dívidas e lá se foi para São Paulo, morar com a filha Lina, única e querida.
Redivivo, planeja e executa, com novos parceiros, o residencial “Cidade Jardim”, no bairro do Mondubim, ao lado da Cidade José Walter. Milhares de casas, com urbanização a incluir árvores em áreas definidas, retiradas de um viveiro/jardim que ele, certa vez, me mostrou com orgulho. Mais casas não foram construídas por culpa do Governo Federal, a atrasar desembolsos. Ivan, fez o possível.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/03/2017.