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VOLTANDO O CALENDÁRIO – Jornal O Estado

A votação no Tribunal Superior Eleitoral foi 4 a 3, a favor da cassação da chapa presidencial Dilma- Temer. O Presidente Temer resiste, entra com recurso ao Supremo Tribunal Federal-STF. Há dúvida, se será decidido por ministro, turma ou pleno. Fachin, antecipa-se, nega efeito suspensivo.
O interino legal da Presidência da República é Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, do DEM, do Rio de janeiro. Ele aproveita alguns ministros do Governo Temer. Destrona outros. Há brigas entre deputados e senadores ao indicar novos nomes, todos velhos conhecidos, no terceiro rateio de ministérios, estatais, agências, BNDES, Banco do Brasil, Caixa, cargos nos Estados, no Distrito Federal e tudo o mais que compõe o complexo organograma do Governo Federal.
Os jornais aumentam tiragens e as televisões fazem contínuas transmissões ao vivo. Raul Jungmann é mantido no Ministério da Defesa. As Forças Armadas ficam de sobreaviso. Estados, em conjunto, decretam ponto facultativo para evitar tumultos.
Temer, aconselhado por Romero Jucá, não sair Palácio do Jaburu, como se nada tivesse acontecido no Planalto. Governos paralelos. Uma das alegações é que o meio ano letivo do Michelzinho ainda não terminou.
Estamos em período em que os partidos fazem sondagens para um novo governo de coalização. O Brasil fica sem chanceler. Faltou nome de consenso. Três embaixadores devem ser removidos. Embalaram pertences, mas o Itamaraty não tem quem autorize os traslados.
A Chikungunya faz mais uma vítima, o jovem e robusto Presidente da Câmara/República, Rodrigo Maia. Tem febre alta, convulsões e se faz necessário o rápido internamento em grande e bem cotado hospital. Passam-se dois dias discutindo que ele não deve ir para o Sírio Libanês ou o Einstein, em São Paulo.
É honroso ir para o Rio de Janeiro, a terra natal de Maia. Neurologista famoso é consultado, e, naturalmente, indica a sua clínica carioca. A Segurança da Presidência faz restrições ao local, por ser próximo de comunidades. O Estado de Maia se agrava e o novo Ministro da Saúde, Senador Ronaldo Caiado, decide o impasse. Vai mesmo para São Paulo.
Três dias se passam e as tarefas burocráticas, interrompidas, embora assinadas, teimosamente, por Temer. Índios do Pará marcham, acompanhados de membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, para desagravo em Belém do Pará. Marina Silva chega para acompanhar a marcha. Pretendem bloquear o Mercado Ver o Peso e o Aeroporto Val de Cãs.
Não há quem autorize a concretização da concorrência para o trecho que ligaria Milagres, no Ceará, às sonhadas águas do Rio São Francisco. Deputados e senadores cearenses ficam indignados. Há greve nos portos de Paranaguá e de Santos, em solidariedade a Michel Temer.
O VLT do Rio é incendiado por manifestantes e membros de comunidades invadem o Museu do Amanhã. Em São Paulo, os ex-ocupantes da Cracolândia resolvem fazer marcha pela Avenida Paulista e ocupar o vão do Museu de Arte de SP- MASP. Brasileiros de Nova Iorque levam bandeira e batucada para o Central Park. A polícia local os prende.
O jato da FAB pousa em Congonhas e Rodrigo Maia é levado, sob escolta, para o Einstein. Febre de 40º, sudorese excessiva e incapacidade de falar sobre as suas queixas por problema na glote. Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva chegam juntos para visitar o enfermo presidente, mas não têm êxito. Maia está em isolamento, em face da gravidade do quadro.
Cai uma chuva forte seguida de rajadas de vento, fico molhado e acordo. Sonho doido.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/06/2017.

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SOBRE O QUE ESCREVER NESTES DIAS – Jornal O Estado

Há uma tendência natural, a todos os que escrevem semanalmente em jornal, a enfocar o cotidiano. O Brasil, desde 2003, virou quase um país “bolivariano”, apesar de não termos o espanhol como língua nativa, tampouco tradição de guerras fraticidas.
Vou por este caminho. Simón José Antonio de Santíssima Trinidade Bolívar Palacios Ponte-Andrade y Blanco, nasceu no ano de 1783, em área de domínio espanhol que, depois passaria a ser a Venezuela de hoje.
Era filho de descendentes (creoles) hispânicos de posses. Órfão do pai aos três anos de idade. Aos nove, morreu-lhe a mãe. Teve preceptor indicado por tio abonado e, aos 16 anos, foi mandado estudar na Espanha. Aos 19 anos casa-se, em 1802, com Maria Teresa. Volve à América Latina.
Sua mulher morre em 1803. Ele, triste, faz votos de nunca mais casar. Retorna à Espanha. Poucos anos após, por atividade política, é expulso de lá e se exila na França, onde fermentavam os ideais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, com foco no Iluminismo.
Em 1806, volta a terra berço nesta sul América e começa a lutar pela libertação de sua pátria. Como todos sabem, em 1808, Napoleão – em sua dominação da Europa – invade Espanha e Portugal, daí a vinda fugida da família Real para o Brasil (Colônia). Bolívar participa com San Martin-José Francisco de San Martin y Matorras, argentino, descendente de espanhóis e ex-oficial da Espanha, da Confederação dos países hispânicos, a Grã-Colômbia que produz a independência do Peru, Bolívia, Equador e Colômbia.
Parte desse território passa a ser chamado de Venezuela, sob o comando de Simón Bolívar. O fundador do bolivarianismo sofreu duras penas e, por conta disso, exila-se na Ilha de Santa Marta, onde morreu aos 47 anos, em 1830. A Venezuela de hoje, em 2017, está quase em guerra civil por conta de bolivarianismo perrengue que emergiu com Hugo Chávez e permanece. Esta é apenas uma versão que conto.
Toda essa conversa foi para tentar fugir da História do Brasil que, com a da queda de Napoleão, volta da família Real a Lisboa, em 1821, levando muito mais ouro do que trouxera. O Brasil passa a ter um Príncipe Regente, D. Pedro I, ainda imberbe que, em 07 de setembro de 1822, viria a dar o “Grito do Ipiranga”. Sem nenhuma gota de sangue derramada, estabelece a separação da Colônia do Reinado de Portugal. Esse mesmo “nosso” libertador, D. Pedro I, passa, poucos anos depois, a ser D. Pedro IV, para os portugueses. A estátua dele fica no Rossio, no centro de Lisboa.
… Vem a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, outra ação pacífica entre amigos e fruto de falso boato da prisão de Deodoro. Alguns do próprio governo imperial (Rui Barbosa, inclusive), positivistas, maçons e os do comércio, formaram esse Governo Provisório que começou oferecendo cinco mil contos ao ex-Imperador D. Pedro II, que os recusou, e partiu para o exílio.
Instituiu-se um ministério com oito componentes, com civis e militares. No curto período de dois anos houve fechamento do novo Congresso, Estado de Sítio, censura à imprensa e a renúncia do 1o Presidente, que também era Grão-Mestre da Maçonaria. Estamos, neste junho de 2017, igual, melhor ou pior do que começamos?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/06/2017.

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O GRANDE CIRCO DE NÓS TODOS – Jornal O Estado

“Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe o amanhã”. Drummond citado por Edmílson Caminha.
Passei, como todas as pessoas, pelas múltiplas crises brasileiras. Agora, estamos em meio a uma procela gigante. Apesar disso, posso garantir: sairemos todos dessa enrascada a nos consumir no dia a dia. A resposta não será de economistas, sequer dos grandes veículos de comunicação com grandes e pecaminosos anunciantes, dos cérebros acadêmicos e tampouco de deputados federais e de senadores. A grande vitória dessa crise em curso é a união do Ministério Público Federal com a Polícia e os juízes federais. Ao lado deles está a população brasileira. Ou melhor, a parte da população que pensa e consegue estabelecer sinapses sem o ranço partidário ou ideológico.
O Supremo Tribunal Federal – STF é a instância última e, por essa razão, há de se comportar de forma moderada, política e consequente, pois depois do STF só há o limbo ou o dilúvio. O Brasil, apesar de todos os desmandos cometidos, continua no seu processo lento de crescimento institucional e econômico, atingido, primeiro, pela ressaca da marola gigantesca de 2008. Não há, todos sabem disso, ninguém imune às crises cíclicas internacionais.
Depois, veio a Lava-Jato, quando o Brasil desejava ser um “player”(palavra dos financistas empolados e de tolos repetidores) internacional de primeira linha. Houve exagero nos financiamentos do BNDES, da Caixa, parcerias dos Fundos de Pensão etc.
A par disso, houve a megalomania em patrocinar dois grandes eventos internacionais como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio, de 2016, tudo sob o apoio da grande mídia, a de grandes anunciantes. Sem falar na Copa das Confederações, em 2013. Não precisávamos de tanto ufanismo, participar de sorteios e de desmontar estruturas de alguns estádios, muitos deles em pleno uso e com recentes reformas. A falácia dos “cadernos de encargos” e do “padrão FIFA” foi imposta de cima para baixo. Brasil afora.
Não foram só os estádios, mas vias de acesso, shows, aeroportos e tudo imaginável. A FIFA, descobriu-se em seguida, era uma grande empresa internacional dirigida por pessoas rastreadas pelos órgãos dos EEUU. Deu em prisões e banimento.
O Rio de Janeiro, da mesma forma, foi revirado de ponta cabeça, bilhões gastos por sofrível participação com algumas medalhas já perdendo a coloração. Um grande engano. O Comitê Olímpico Internacional-COI não é muito diferente da FIFA. Há muitas histórias e estórias sobre o sorteio das sedes das Olimpíadas e das copas do mundo. Jornalistas investigativos lançam livros sobre esses processos e do modo como foram escolhidas as empresas que detonaram e reconstruíram estádios. Falar do passado é fácil. Só um cego em gestão pública não sabe que um país em desenvolvimento há que se concentrar em áreas carentes como saneamento básico, infraestrutura, habitação e educação. A “pujança” e exibicionismo acabaram mal. Todos conhecem os desdobramentos dos fatos.
Essa minha reiteração patética não é em vão. Apesar dos pesares, sairemos desse e demais malogros compartilhados com os mesmos órgãos de comunicação que hoje fustigam a todos com os desdobramentos dos bravos e preparados trintões, quarentões e cinquentinhas da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal de 1º. Grau. Alguns, que deitam falação, e são meros coadjuvantes, desses circos armados em que nós todos fomos tratados como palhaços. A certeza é que a impermanência vence.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/06/2017.

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BRASILULA – 15 ANOS DEPOIS – Jornal O Estado

Este artigo foi publicado, originariamente, no dia 27 de outubro de 2002, no Diário do Nordeste. Após 13 anos, em 2015, o republiquei neste “O Estado”. Agora, peço aos leitores que façam uma nova reflexão sobre o seu conteúdo. Vejam parágrafo por parágrafo, o acentuado, as dúvidas e o que realmente ocorreu, nos dois governos Lula e, em seguida, no de Dilma.
Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja.
A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas tem o pé na miséria. Ou melhor, tem os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências.
Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se a cultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimento de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor.
Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe – que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal. Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental.
Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, se aceita. Assim é a Democracia que, entre outras coisas, tem a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado.
Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim, tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre Socialismo, Neoliberalismo e política de resultados. A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente, após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver, uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável – que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres.
Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/05/2017.

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O FORTALEZA E A SUA TORCIDA – Jornal O Estado

Converso com pessoa esclarecida e, sem querer, o futebol vem à baila. Ela diz: sou torcedor do “Fortaleza Esporte Clube” e creio falar por mim e alguns sócios torcedores, conselheiros, admiradores e afins. Há uma teimosia em trazer jogadores e técnicos rodados, sem nenhum amor ao Fortaleza.
Lembrem-se do jogo Fortaleza com o Ferroviário em que ganhava por 1X0 até os 46 minutos do segundo tempo. Displicência, falta de orientação, desamor e um gol do adversário. Esse empate, somado à derrota anterior, ocasionaram o clima do terceiro jogo.
Façam pesquisas e verão que o Fortaleza perdeu – ou empatou – nos últimos minutos de vários jogos. Foi assim – por algumas vezes – na Série C. Agora, também no campeonato deste ano. O gol do empate de 1X1 com o Ferroviário veio aos 46 minutos do segundo tempo. Os “estrangeiros” do Fortaleza, cansados de tantas camisas, não se importavam com o detalhe de que o jogo estava ainda em curso.
Neste ano, ficou fora da decisão contra um time que não gasta mais que 10% da folha dos jogadores e da comissão técnica do Fortaleza. Azar? Não! Incompetência, imprevidência e soberba. Tudo junto e misturado.
Agora, neste maio de 2017, resta ao Fortaleza a 3ª. Divisão do futebol brasileiro, da qual é membro há oito anos. Também há a Taça Fares Lopes. Não se pode – e nem se deve – brincar com essa torcida que já colocou mais de 63 mil pessoas em jogo, em que o Fortaleza decepcionou.
Neste Brasil desesperançado o futebol ainda é uma válvula de escape para os que se afeiçoam a um clube. A quase ausência de torcedores nestes primeiros meses do ano de 2017 mostra a falta de credibilidade na equipe. O Fortaleza foi desclassificado de todas as competições jogadas até agora por falta de competência e garra. Isso é triste e estranho para um clube acostumado a vencer.
Manter os mesmos jogadores e o técnico perdedor seria escárnio. O ideal é acreditar em meninos do sub-20, dos subúrbios e do interior do Estado e mesclar com alguns mais experientes. Isso não é poesia ou ingenuidade. É alternativa.
Se erraram durante oito anos, precisa-se, sem dúvida, mudar o que fizeram nesse período. Sei que falar, reclamar e apontar erros é fácil. A lógica, entretanto, não perdoa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/05/2017.

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ANTÔNIO CÂNDIDO – A CRÍTICA QUE MORRE? – Jornal O Estado

“Sua obra fundamental encerra o ciclo de grandes ensaios de interpretação do Brasil”. Manoel da Costa Pinto, prof. de Teoria Literária, da USP
Antonio Candido, crítico literário, morreu aos 98 anos, sexta passada, 12 de maio deste 2017. A Folha de São Paulo, no dia 14, domingo, resolveu reproduzir a primeira crítica literária escrita por ele no dia 07 de janeiro de 1943. A crítica tem o nome francês “Ouverture” ou Abertura, em Português. A língua gaulesa dominava a literatura da época. Depois, o inglês. Agora, é o internetês.
Nela, Antonio Candido desfila os seus postulados, que, no seu pensar de 24 anos, configurariam um padrão ou referência para alguém se tornar crítico literário. Ele diz: “Do crítico, espera-se geralmente muita coisa. Antes de mais nada, que defina o que é a crítica para ele. Acho isso muito justo, uma vez que ele é um indivíduo que vai emitir opiniões tendentes, em suma, a explicar uma obra ou um autor”.
Em seguida, ele fala na possível imodéstia de um crítico literário: “Este aspecto metacrítico do ofício – que é porventura o seu fundamento e o seu mais firme esteio – é, no entanto, às vezes, uma questão de tal modo pessoal, revestindo-se de uma necessária imodéstia no seu enunciar-se, que melhor seria pedir ao crítico literário qual a sua ética – quais as imposições que se faz e quais os princípios de trabalho com os quais não transige”.
A pergunta que faço aos professores Sânzio de Azevedo, Linhares Filho e Carlos Augusto Viana é se hoje, passados 74 anos desse enunciado, tais princípios teóricos subsistem?
Claro que eles não podem me responder agora, sequer sei se aceitarão essa lisonjeira provocação. Entretanto, emendo com outra questão que pode ou não ser pertinente: como anda a crítica literária brasileira, nestes tempos em que os escritores formam grupos para aparecer em eventos culturais estados afora, em memória de mortos ilustres, bienais de livros, nos possíveis encontros na “Casa do Saber”, seja no Rio de Janeiro e em em São Paulo. Ou, ainda, nas anuais edições da Festa Literária de Paraty.
Como se tivesse premonição, Candido afirma: “Sobretudo porque acredito que as atitudes intelectuais têm valor em função da época em que se manifestam e à qual se dirigem. Sendo assim, a tarefa do crítico será porventura integrar a significação de uma obra no seu momento cultural do que, tomando-a como pretexto, procurar tirar dela uma série de variações pessoais”.
Contextualizando essa época ao hoje, em que a inteligência artificial pode até produzir “obras” de todos os gêneros e a internet das coisas nos coloca em um baú em que sensos estéticos – duvido, ainda ‒ derivam de algoritmos de programas literários de grandes universidades, mundo afora. Ouso perguntar aos doutos Antonio Torres e Edmilson Caminha: estarei errado?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/05/2017.

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BONDADE TEM LIMITE – Jornal O Estado

O tremendo “quiproquó” em que se transformou a luta da Prefeitura de Fortaleza para desmontar a pocilga a céu aberto em que foi transformada a Rua José Avelino, via estratégica para a mobilidade urbana da Capital, já era aguardada, tendo em vista a maneira como o poder público foi leniente com a ampliação daquele “fuzuê” em forma de feira. Para mais complicar a balbúrdia em torno do problema, alguns setores concordaram com isso. A prefeita Luizianne, por exemplo, poderia muito bem ter dado um freio, mas não o fez para não perder votos.
No âmbito da Justiça, o Ministério Público Estadual, há mais de quatro anos, vinha cobrando da Prefeitura medidas urgentes e rigorosas para acabar com a bagunça, que servia para ajudar a sufocar o trânsito, além de causar incômodo auditivo e muita sujeira. Agora, o mesmo MP tentou deter a ação da PMF para melhorar aquela artéria. Agora, tentou impedir os trabalhos, cobrando diálogo da parte do prefeito Roberto Cláudio com os feirantes. Como a medida foi suspensa, continuam as obras da requalificação daquele local.
Confusões à parte, alguns problemas terão de ser melhor investigados, em relação aos feirantes a serem deslocados para outros locais. Um deles, de extrema gravidade: a origem de muitos dos produtos comercializados, que, segundo denúncias, não são nada claras. Juntem-se a isso às perdas da municipalidade, ante a grossa sonegação de impostos a serem pagos pelos verdadeiros donos das mercadorias, muitos deles escondidos à sombra de pequenos comerciantes que eles colocavam no “feirão”. Essa confusão vai servir para desmascarar muita “marmota”.
TURISMO – Quem denuncia é a Veja Online: a “marcha de prefeitos” (mais uma) está fadada a resultados pífios para os municípios ali representados. A principal causa é mais do que evidente: os ministérios de quem os prefeitos esperam muito, não têm muito a oferecer. Por conta disso, preferem mostrar suas ações em “stands” a serem admirados. E só, porque, a bem da verdade, todos os ministros estão empenhados mesmo é em captar votos pelas reformas.
LAVA JATO – Não dá para evitar abordar a luta do MPF, PF e Operação Lava-Jato para limpar o terreno político do País da sujeira do “mensalão” e pelo “petrolão”. O destaque é o destino do ex-presidente Lula, mais escorregadio que baba de quiabo. Pesquisa da “Folha” entre os leitores sobre o que pode ocorrer ao filho de Garanhuns mostra: 61% dizem que será condenado; 34%, que será condenado e preso. Apenas 3% acham que ele sairá livre e solto.
IDADE SAUDÁVEL – Ontem, no Parque Adhail Barreto, o prefeito Roberto Cláudio, acompanhado de secretários, assinou compromisso com o movimento Parceria para Cidades Saudáveis, instituição coordenada em apenas 50 cidades do Mundo, pela fundação norte-americana Blooberg Philanthropies. O objetivo principal é tornar essas cidades mais atrativas para os visitantes e confortáveis para os seus habitantes, em termos de mobilidade urbana.
PERDAS & DANOS – Não tem como abandonar a discussão dos problemas gerados pela “embromação” dos cearenses pelo Governo Federal, que deixou o nosso estado em último lugar para receber as águas da transposição, projeto abandonado por uma empresa inidônea. Para o deputado Roberto Mesquita (PSD), o problema, agora, é saber “quem irá recompensar a economia do estado do Ceará pelas imensas perdas geradas por essa irresponsabilidade”.
CONTRA A PAREDE – Um dos assuntos mais importantes discutidos em Brasília, nos últimos dias, veio rebentar em cima dos deputados federais de todos os estados, incluindo do Ceará. Trata-se da “colher de chá” do Governo Federal a milhares de prefeituras dispensadas de parte de suas dívidas com a Previdência. Satisfeitos, os gestores podem “levar à parede” os ilustres deputados por ele votados e eleitos. Se não votarem pela reforma da Previdência, adeus, votos em 2018…
SEM DESPERDÍCIO – A Secretaria das Cidades, do Ceará, realiza o Seminário Internacional de Resíduos da Construção Civil. O tema é importante, tendo em vista que o objetivo é o aproveitamento de milhares de toneladas de entulho de obras civis, que em muitos países, depois devidamente reciclados são aproveitados para outras obras, principalmente em se tratando de moradias para pessoas sem teto. Aqui, até agora, esse material só causa incômodo e sujeira.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/05/2017.

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CLICHÊS DE UNS E DE OUTROS – Jornal O Estado

“Diga-me uma coisa, compadre: por que você está brigando?” Gabriel Garcia Márquez
Não faz muito tempo os empresários resumiam as suas vidas em cuidar de suas famílias e de suas empresas. Depois dos anos foram surgindo entidades e alguns dos que antes mourejavam nos chãos dos seus negócios pequenos e médios passaram a ser líderes, encaminhando pleitos a governos municipais, estaduais e federal. Viraram seres falantes.
Foram tomando gosto e assentos em diretorias e conselhos, alguns remunerados, viajando por conta de nós todos e se acreditaram detentores de conhecimento, além do dia a dia de seus interesses por conta de um sistema rico e poderoso.
Para os alinhados a governos, partidos políticos e os que souberam descobrir licitações, concessões, aprovações de projetos por órgãos locais ou os de desenvolvimento regionais, tipo Sudene, Zona Franca de Manaus etc., o mundo se abria risonho e franco.
Depois, anos à frente, aos maiores ou audaciosos desejosos de crescer exponencialmente, os Fundos de Pensão das estatais, os bancos públicos regionais, a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social- BNDES abriam créditos a juros subsidiados, bem amaradas. Criou-se um compadrio de resultados. O governo passou a ser sócio de muitas empresas privadas.
Nomes desconhecidos foram surgindo em reportagens amestradas a tecer loas a seus méritos, descortinos e as múltiplas empresas que criavam e, subitamente, passavam a fazer parte das listas de maiores e melhores. Prêmios para cá. Prêmios para lá.
Em cada Estado brasileiro há figuras assim. Do nada para o Olimpo, em pouco tempo. Ralar, por anos, é coisa de gente atrasada que não possui “networking”, aqui traduzida como a capacidade de conhecer e influenciar pessoas, gestores e políticos, com recepções opíparas, viagens conjuntas mundo afora e logo entrar no circuito dos muitos influentes.
Outros, que abriram empresas e não se deram bem, viravam consultores, diretores, assessores e, sempre simpáticos, circulavam em festas e ambientes em que bilhões eram cifras citadas sem medo e a certeza de que caminhos políticos e classistas os fariam participar do mundo dos muito ricos, esse lugar para poucos, em país de miseráveis.
Faço uma digressão e procuro em Lucy Kellaway, jornalista do “Financial Times”, de Londres, via Valor, no artigo “Como uma empresa consegue citar dez clichês em uma frase” comparativo com a linguagem empolada e vazia dos que pouco se instruíram e resolvem ser experts e oradores.
Ela registra o caso da empresa Mondelez, fabricante de biscoitos e chocolates, ao procurar um executivo na área de marketing. O texto: “Nossa busca por um sucessor vai se concentrar em encontrar um líder que seja ‘digital-first` (que dê prioridade, ou atue na esfera digital), disruptivo, inovador, que possa ampliar o legado e mobilizar um marketing em um cenário consumidor global em plena mutação”.
Como se vê, há bobagens ditas e escritas pomposamente não só aqui em Pindorama, mas em países desenvolvidos. Como todas as semanas brasileiras viraram cruciais, saio desta sinuca por escrever de véspera e não saber o desfecho no mundo real, do qual tento evadir-me com estes alinhavos meio “disruptivos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/05/2017.

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PAUSA FRENÉTICA E NOTAS ESPARSAS – Jornal O Estado

No Brasil tudo é exagerado. Na sexta-feira passada, todos estavam ansiosos pela folga do carnaval. No expediente da tarde as coisas se arrastavam. Ninguém queria mais nada com nada. Perguntei aos meus próximos o que iriam fazer. Praias, viagens longas de até 1.200 quilômetros de carro, serras e que tais. Dos que ficaram em suas casas, poucos os com um livro às mãos. Estavam a mudar de canal para ver mais do mesmo ou trocavam mensagens e fotos em seus celulares. São os tais solitários conectados, quase sempre em busca de fatos desairosos ou de humor duvidoso.
A característica desse tempo foi a obrigatoriedade de parar a “chata” vida e fazer dos dias de folga o que bem aprouver. Cada qual com a alegria surgida do nada. Férias curtas com desgaste de energia e de dinheiro. Época da concessão geral e do encontro com o outro eu, aquele sem censura, enrustido nas conveniências do grupo em que cada um se enquadra.
Em Fortaleza, consolida-se uma forma auspiciosa de fazer carnaval. A partir da descentralização das áreas de atração em diversos bairros, dos muitos blocos, dos cordões, dos abomináveis paredões de som e o “aterrinho” da Praia de Iracema como palco principal da festança. Na Avenida Domingos Olímpio, os combatentes, novos ou antigos, dos maracatus, das escolas de sambas e dos cordões têm bem cuidado espaço reservado no breve corredor e uma estrutura profissional de arquibancadas, locais de filmagens e boa iluminação.
As mortes em estradas, os assassinatos, passam como meras estatísticas, enquanto famílias perdem provedores e entes queridos. Os acidentes com os grandes carros alegóricos no Sambódromo do Rio de Janeiro a causar 32 feridos, ganham manchetes e mostram a necessidade de acompanhamento técnico na fabricação e montagem das estruturas metálicas, suas interconexões e suas soldas. Isso é assunto de engenharia. O motorista, de um dos carros, sequer tinha visão livre, em face dos adereços.
Na volta ao mundo real, que não parou lá fora, o Brasil retoma, na próxima segunda-feira, o feijão com arroz da político-econômica, enquanto jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, retomam a mesma pauta. A mesma de sempre.
Além do carnaval, só as notícias do “Oscar”, com erro grave da PwC, encarregada da gestão dos votos, na principal decisão da noite: o melhor –não para mim – filme (Moonlight, sob a Luz do Luar). Um diretor negro, Barry Jenkis, de 31 anos, ganha, depois do duplo equívoco de Faye Dunaway e Warren Beatty (será que enxergavam direito o que liam?). Os do filme “La la Land” que, haviam subido ao palco, devolveram os troféus recebidos, tiveram cinco minutos de glória e o resto da vida de desapontamento.
No “Oscar” do ano passado houve queixa geral por não figurar um só ator ou diretor afrodescendente entre os vitoriosos. Este ano aconteceu o inverso. Hollywood mudou de tom e exagerou na dose. A cerimônia é longa e chata. São tantas as categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor filme estrangeiro, melhor animação – desenho animado, melhor roteiro original e, para não cansar mais, fico por aqui.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/03/2017.

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IVAN, O POSSÍVEL – Jornal O Estado

O nome Ivan Sérgio pode ser oriundo de romances de Tolstói, Dostoiévski e de outros russos, lidos por Fran e Lúcia Martins, pais literatos e viajores. Houve nove czares com o nome Ivan. Um cognominado, o Terrível.
Ivan Sérgio Fernandes Martins, filho de Fran e Lúcia Martins, nasceu, viveu e trabalhou no Outeiro, dito Aldeota, quiçá Meireles, do qual fazia parte o loteamento de nome Lidiapólis. Era de propriedade de Antônio Cristalino Fernandes, pai de Lúcia, sua única filha e herdeira universal.
Era muita terra para ser cuidada por um casal de letrados que viam, ano a ano, o Imposto Predial subir. Poucas casas alugadas, o resto era de terrenos ao longo da hoje Av. D. Luiz. Fran era professor da Universidade Federal do Ceará, com notório saber em Direito Comercial, tendo publicado livros de uso corrente em quase todos os cursos de Direito, Brasil afora.
A casa da família ficava na D. Luiz, murada e com cachorros soltos para vigiar a área que era deserta, salvo umas casas na Av. Desembargador Moreira e muitos casebres. Alguns não sabem que o apodo cachorro se originou dos amigos – vamos a casa do Ivan, dos cachorros – e depois, o singularizam.
Bem criado e apessoado, no tempo certo lá se foi Ivan fazer intercâmbio de High School, em Michigan, Estados Unidos. O menino que foi, voltou guapo rapaz com muitas ideias na cabeça. Fez Administração, prevendo ser o fiel depositário da Imobiliária LM, de Lúcia Martins que pagava muito Imposto Predial nas casas que alugava na Av. Desembargador Moreira e nos terrenos ao longo da Av. Dom Luiz. Os aluguéis não cobriam o total a ser pago de IPTU. Surge, então, a Construtora
LM, comandada por Ivan, Vânia, irmã; e Stênio, sobrinho-irmão. Construiu shoppings na Av. Luiz e um no Cariri.
No que seria o último, Ivan ousou. Fez um complexo integrado com shopping, torres residenciais e comerciais. Obra de vulto, projeto de André Sá. Procurou um banco para obter a linha de financiamento do BNDES. Fez o contrato. O financiamento não saía (hoje, sabe-se a razão – era só para os amigos do poder). Entrou no cheque especial e a dívida crescendo. Banco não possui amigos. Nada de BNDES. Virou, mexeu e lembrou-se de usar um capítulo escrito por seu pai para o Código Comercial, a Recuperação Judicial.
A obra atrasou e Ivan, com a coragem inata, reuniu os seus credores no Cine São Luiz e prometeu pagar a todos, dando os seus bens pessoais como garantia. Não saiu de lá apedrejado, como agouravam alguns. Saiu pela porta da frente, triste e altaneiro. Dito e feito, quitou as dívidas e lá se foi para São Paulo, morar com a filha Lina, única e querida.
Redivivo, planeja e executa, com novos parceiros, o residencial “Cidade Jardim”, no bairro do Mondubim, ao lado da Cidade José Walter. Milhares de casas, com urbanização a incluir árvores em áreas definidas, retiradas de um viveiro/jardim que ele, certa vez, me mostrou com orgulho. Mais casas não foram construídas por culpa do Governo Federal, a atrasar desembolsos. Ivan, fez o possível.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/03/2017.