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ONTEM E HOJE NO BRASIL – Jornal O Estado

Muitos homens, como as crianças, querem uma coisa, mas não as suas consequências. Ortega y Gasset (1883-1955), filósofo espanhol. Muitos homens, como as crianças, querem uma coisa, mas não as suas consequências. Ortega y Gasset(1883-1955), filósofo espanhol. A política vai mal. A gente de Bernardes é de inépcia rara. No Clube Militar escolheram uma comissão, cujos membros têm de declarar autênticas as famosas cartas. Trabalham secretamente como se fossem inquisidores, e os bobos hão de agitar a opinião, declaram-se satisfeitos e esperam passivamente a bomba para protestar depois do estouro. A situação resume-se em duas palavras: bernarda com o rio de lama e dos crocodilos, bernadice com o candidato das alterosas…Tudo quanto for afastar-me do ano de vergonheiras máximas que há de ser o do Centenário me seduz. O texto é do meu patrono (de letras) João Capistrano de Abreu. Foi escrito em 07 de dezembro de 1921 em carta -Correspondência, Volume 3, pag. 60- a seu amigo Sombra (Luís Pena Sombra,). São passados quase 96 anos e parece que o Brasil não mudou muito. “A política vai mal”, igual a deste final do mês de julho de 2017.
Já se invocavam os militares, como os que hoje acreditam que gente fardada possa resolver as nossas mazelas desde o Império (lembra de Deodoro e o que deu?), pois daqui a um lustro, chegaremos ao segundo Centenário do Brasil independente. “Os bobos hão de agitar a opinião”, e como se agita, mestre Capistrano. Sei do seu repúdio ao que acontecia na capital do Brasil de então, o Rio de Janeiro. Hoje, a capital é outra, feita por gente das “alterosas”. De forma rápida e cara. A propósito, houve recentemente rios de lama no interior das Minas Gerais com o rompimento de barragens. Detalhe: uma pequena porção de índios-nada contra eles – que morava por perto da área atingida, vive folgazona, pois cada um está recebendo nove salários mínimos por mês. Muito dinheiro para não fazer nada, acredite. Hoje, historiágrafo Capistrano, há 627 mil funcionários públicos civis ativos no país, perto da metade são do Ministério da Educação, mas, acredite a instrução e o conhecimento do nosso povo, são parcimoniosos.
Ainda há muitos analfabetos e alguns outros apenas sabem garatujar o nome. Vou dizer um número e não sei como traduzi-lo para o ilustre mestre. No ano passado, o Brasil gastou 258 bilhões de reais (a nossa moeda de agora, embora sejamos uma República) com esse amontoado de gente. Diz a imprensa de hoje, bem diferente do seu tempo em que tudo saía nos jornais, segundo as conveniências. Agora, os jornais são apenas um dos meios de comunicações. Alguns, ainda com conveniências. Há outros meios que foram surgindo e quase todos os viventes dão palpites em quase tudo. Muitos são inconvenientes, outros são inconsequentes. Salvam-se poucos. Fico triste em dar notícias assim ao senhor. Na verdade, não sei sequer se irá lê-las. A propósito, poderia me dar um sinal de que a eternidade existe? Do seu afilhado e admirador póstero. João, também.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/07/2017.

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QUEM SALVA OS PROFESSORES? – Jornal O Estado

“O homem não é nada além do que a educação faz dele”. Immanuel Kant
Sábado passado foi dia chuvoso. Tempo de ler. Debrucei-me sobre um caderno especial da Folha: “Inovação Educativa”. O que isto quer dizer? Passo a vocês parte do que li. Desculpem pelos números. São necessários ao entendimento. Se é que assimilei.
Neste país de mais 200 milhões de habitantes há oito milhões de pessoas matriculadas em ensino superior. Equivale a dizer que 4% da população cuida de estudar mais. Desses, quase um milhão e 500 mil optaram por cursos de licenciatura. Na licenciatura são formados professores.
Quando se fala em licenciatura é preciso dizer que cursos a integram. Pela ordem, são: Pedagogia (44% do total), Educação Física (11,4 %), História (5,9%), Matemática (5,6%), Ciências Biológicas (5,3%), Geografia (3,5%), Química (2,3%), Letras/Língua Portuguesa (1,3), Letras/ Português e Inglês (1,9%) e Letras/ Inglês (1,7%).
Os cursos dividem-se em presenciais (63,6%) e a distância (34,6%). Embora 74,6% sejam originários de escolas públicas de ensino médio, há uma escolha majoritária dos estudantes na área por cursos superiores de licenciatura privados (61,3%), talvez por serem noturnos, baixos preços e pouco exigirem de conteúdo. Só 38,7% optam por universidades e faculdades públicas.
Os dados são do Censo de Educação de Ensino Superior Inep-MEC, 2015. O que isso nos leva a concluir? Peço ajuda a Paulo Saldaña, da Folha, e a tantos outros que participaram do 2º. Fórum de Inovação Educativa, realizado há pouco na capital de São Paulo.
Por que nós temos um nível baixo de ensino nos cursos médios? Muitos professores desistem de ensinar, 20% alegam o desrespeito dos alunos. O baixo salário desestimula outros 17%.
Priscila Cruz, fundadora e executiva do movimento “Todos pela Educação”, diz que “a sociedade precisa superar a ideia de que professores se equiparam a sacerdotes, que devem trabalhar por amor. Temos de tratá-los como profissionais”.
Os salários dos professores ficam bem abaixo do que o mercado paga a outros profissionais com a mesma escolaridade, em outras áreas. Em tempos de crise só se fala em cortes, mas se os professores não forem valorizados a situação não melhorará e o Brasil não produzirá eleitores com senso crítico para avaliar candidatos. Logo, tudo voltará.
A ideia tida como nova é o ensino investigativo e isso está na recente Base Nacional Comum Curricular. Teresa Pontual, diretora de currículos e de ensino integral do Ministério da Educação, assevera: “A base nacional traz os conteúdos que os alunos têm que aprender o que já é um avanço. Mas a gente não consegue garantir que os professores saibam os conteúdos que precisam ensinar”.
Data venia. Peço permissão para responder a Sra. Teresa Pontual. O que não se consegue garantir é que os professores ganhem o suficiente para manter as suas famílias e, um pouco, para aprimorar os seus conhecimentos. O resto é consequência da baixa remuneração. O cadeado do saber só se abre com motivação e salários justos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/06/2017.

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AO BALANÇO DA LEITURA BRASILEIRA – Jornal O Estado

“Os leitores são os meus
vampiros”. Ítalo Calvino
Semana passada, escrevi sobre a baixa remuneração dos professores e a consequência disso no fraco aprendizado do brasileiro. Hoje, vou repassar para vocês as informações que a Câmara Brasileira do Livro, a Fundação de Pesquisas Econômicas, o Ibope Inteligência, o Instituto Pró-Livro e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros tornaram públicas na edição do dia 02 deste junho, do Caderno Eu&Fim de Semana, do Valor.
Foram lançados 51.819 livros em 2016, menos 1,16% do que os 52.427 publicados em 2015. De qualquer forma, são 427,2 milhões de exemplares. O total das vendas desses exemplares corresponde a 5,27 bilhões de reais. É um número razoável, não fosse a quantidade de brasileiros aptos a comprar um livro e não o fazem. Desses 5,27 bilhões foram gastos 1, 40 bilhões de reais em aquisição pela administração pública federal, estadual e municipal.
Nesse trabalho está dito que 56% dos brasileiros admitem ser leitores. Indagados se gostam de ler, as respostas foram: 30% gostam muito, 4% não sabem ler, 23% não gostam de ler e 43% admitem que gostam um pouco. Indagados se compraram um livro nos últimos três meses, 26% afirmam ter adquirido. Enquanto isso, 74% falaram que não.
O que parece ir ficando claro é o provável desapego da maioria dos brasileiros pelo hábito da leitura, pois 30% nunca compraram um livro sequer. Por outro lado, neutralizando o fato, 31% afirmam que compraram um livro nos últimos três meses, enquanto 6% dizem que o fizeram nos últimos seis meses.
Os que leem são influenciados pelos fatores a seguir: assunto(30%), dicas de terceiros (11%) autor (12%), título (11%), cap a(11%), dicas de professores (7%), críticas ou resenhas (5%), publicidade (2%), editora (2%), redes sociais (1%), outro (1%) e 8% não sabem ou não responderam.
Sei que ler números não é prazeroso para muita gente. Todavia, os que compram livros, influenciados pelos fatores acima, necessariamente, não concluem as suas leituras, mas isso não foi levantado pelos que compõem o mercado editorial brasileiro que está em crise. Comprar não significa ler.
O que me alegrou foi o fato do Nordeste possuir 26,2 milhões de leitores que são comprados por 25% da população. No Sul, ao contrário, só há 13,7 milhões de leitores. O Sudeste fica com 48,3 milhões de leitores, enquanto o Centro-Oeste conta apenas oito milhões de leitores, o mesmo número que a região Norte.
Como se vê, apesar de não termos grandes editoras, ficamos em segundo lugar, leitores, perdendo apenas para a região Sudeste.
De tudo o que foi enumerado e dito, conclui-se que estamos um passo atrás dos leitores europeus. Ora direis, eles têm tradição em leitura. Por essa razão é que devemos tentar ultrapassá-los. Em outra fonte, fica claro que a Bíblia é, bem longe dos demais, o livro mais lido ou consultado do planeta Terra apesar dos cristãos não serem, longe, a maioria, dos habitantes.
Vou ficando por aqui. Não poderia deixar de dizer, mais uma vez, que esta semana é crucial para o Brasil, o país das crises ininterruptas. Os brasileiros estão todos ressabiados e crentes que um milagre aconteça. Afinal, Deus é brasileiro e o Papa é “hermano” argentino.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/06/2017.

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VOLTANDO O CALENDÁRIO – Jornal O Estado

A votação no Tribunal Superior Eleitoral foi 4 a 3, a favor da cassação da chapa presidencial Dilma- Temer. O Presidente Temer resiste, entra com recurso ao Supremo Tribunal Federal-STF. Há dúvida, se será decidido por ministro, turma ou pleno. Fachin, antecipa-se, nega efeito suspensivo.
O interino legal da Presidência da República é Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, do DEM, do Rio de janeiro. Ele aproveita alguns ministros do Governo Temer. Destrona outros. Há brigas entre deputados e senadores ao indicar novos nomes, todos velhos conhecidos, no terceiro rateio de ministérios, estatais, agências, BNDES, Banco do Brasil, Caixa, cargos nos Estados, no Distrito Federal e tudo o mais que compõe o complexo organograma do Governo Federal.
Os jornais aumentam tiragens e as televisões fazem contínuas transmissões ao vivo. Raul Jungmann é mantido no Ministério da Defesa. As Forças Armadas ficam de sobreaviso. Estados, em conjunto, decretam ponto facultativo para evitar tumultos.
Temer, aconselhado por Romero Jucá, não sair Palácio do Jaburu, como se nada tivesse acontecido no Planalto. Governos paralelos. Uma das alegações é que o meio ano letivo do Michelzinho ainda não terminou.
Estamos em período em que os partidos fazem sondagens para um novo governo de coalização. O Brasil fica sem chanceler. Faltou nome de consenso. Três embaixadores devem ser removidos. Embalaram pertences, mas o Itamaraty não tem quem autorize os traslados.
A Chikungunya faz mais uma vítima, o jovem e robusto Presidente da Câmara/República, Rodrigo Maia. Tem febre alta, convulsões e se faz necessário o rápido internamento em grande e bem cotado hospital. Passam-se dois dias discutindo que ele não deve ir para o Sírio Libanês ou o Einstein, em São Paulo.
É honroso ir para o Rio de Janeiro, a terra natal de Maia. Neurologista famoso é consultado, e, naturalmente, indica a sua clínica carioca. A Segurança da Presidência faz restrições ao local, por ser próximo de comunidades. O Estado de Maia se agrava e o novo Ministro da Saúde, Senador Ronaldo Caiado, decide o impasse. Vai mesmo para São Paulo.
Três dias se passam e as tarefas burocráticas, interrompidas, embora assinadas, teimosamente, por Temer. Índios do Pará marcham, acompanhados de membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, para desagravo em Belém do Pará. Marina Silva chega para acompanhar a marcha. Pretendem bloquear o Mercado Ver o Peso e o Aeroporto Val de Cãs.
Não há quem autorize a concretização da concorrência para o trecho que ligaria Milagres, no Ceará, às sonhadas águas do Rio São Francisco. Deputados e senadores cearenses ficam indignados. Há greve nos portos de Paranaguá e de Santos, em solidariedade a Michel Temer.
O VLT do Rio é incendiado por manifestantes e membros de comunidades invadem o Museu do Amanhã. Em São Paulo, os ex-ocupantes da Cracolândia resolvem fazer marcha pela Avenida Paulista e ocupar o vão do Museu de Arte de SP- MASP. Brasileiros de Nova Iorque levam bandeira e batucada para o Central Park. A polícia local os prende.
O jato da FAB pousa em Congonhas e Rodrigo Maia é levado, sob escolta, para o Einstein. Febre de 40º, sudorese excessiva e incapacidade de falar sobre as suas queixas por problema na glote. Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva chegam juntos para visitar o enfermo presidente, mas não têm êxito. Maia está em isolamento, em face da gravidade do quadro.
Cai uma chuva forte seguida de rajadas de vento, fico molhado e acordo. Sonho doido.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/06/2017.

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SOBRE O QUE ESCREVER NESTES DIAS – Jornal O Estado

Há uma tendência natural, a todos os que escrevem semanalmente em jornal, a enfocar o cotidiano. O Brasil, desde 2003, virou quase um país “bolivariano”, apesar de não termos o espanhol como língua nativa, tampouco tradição de guerras fraticidas.
Vou por este caminho. Simón José Antonio de Santíssima Trinidade Bolívar Palacios Ponte-Andrade y Blanco, nasceu no ano de 1783, em área de domínio espanhol que, depois passaria a ser a Venezuela de hoje.
Era filho de descendentes (creoles) hispânicos de posses. Órfão do pai aos três anos de idade. Aos nove, morreu-lhe a mãe. Teve preceptor indicado por tio abonado e, aos 16 anos, foi mandado estudar na Espanha. Aos 19 anos casa-se, em 1802, com Maria Teresa. Volve à América Latina.
Sua mulher morre em 1803. Ele, triste, faz votos de nunca mais casar. Retorna à Espanha. Poucos anos após, por atividade política, é expulso de lá e se exila na França, onde fermentavam os ideais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, com foco no Iluminismo.
Em 1806, volta a terra berço nesta sul América e começa a lutar pela libertação de sua pátria. Como todos sabem, em 1808, Napoleão – em sua dominação da Europa – invade Espanha e Portugal, daí a vinda fugida da família Real para o Brasil (Colônia). Bolívar participa com San Martin-José Francisco de San Martin y Matorras, argentino, descendente de espanhóis e ex-oficial da Espanha, da Confederação dos países hispânicos, a Grã-Colômbia que produz a independência do Peru, Bolívia, Equador e Colômbia.
Parte desse território passa a ser chamado de Venezuela, sob o comando de Simón Bolívar. O fundador do bolivarianismo sofreu duras penas e, por conta disso, exila-se na Ilha de Santa Marta, onde morreu aos 47 anos, em 1830. A Venezuela de hoje, em 2017, está quase em guerra civil por conta de bolivarianismo perrengue que emergiu com Hugo Chávez e permanece. Esta é apenas uma versão que conto.
Toda essa conversa foi para tentar fugir da História do Brasil que, com a da queda de Napoleão, volta da família Real a Lisboa, em 1821, levando muito mais ouro do que trouxera. O Brasil passa a ter um Príncipe Regente, D. Pedro I, ainda imberbe que, em 07 de setembro de 1822, viria a dar o “Grito do Ipiranga”. Sem nenhuma gota de sangue derramada, estabelece a separação da Colônia do Reinado de Portugal. Esse mesmo “nosso” libertador, D. Pedro I, passa, poucos anos depois, a ser D. Pedro IV, para os portugueses. A estátua dele fica no Rossio, no centro de Lisboa.
… Vem a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, outra ação pacífica entre amigos e fruto de falso boato da prisão de Deodoro. Alguns do próprio governo imperial (Rui Barbosa, inclusive), positivistas, maçons e os do comércio, formaram esse Governo Provisório que começou oferecendo cinco mil contos ao ex-Imperador D. Pedro II, que os recusou, e partiu para o exílio.
Instituiu-se um ministério com oito componentes, com civis e militares. No curto período de dois anos houve fechamento do novo Congresso, Estado de Sítio, censura à imprensa e a renúncia do 1o Presidente, que também era Grão-Mestre da Maçonaria. Estamos, neste junho de 2017, igual, melhor ou pior do que começamos?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/06/2017.

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O GRANDE CIRCO DE NÓS TODOS – Jornal O Estado

“Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe o amanhã”. Drummond citado por Edmílson Caminha.
Passei, como todas as pessoas, pelas múltiplas crises brasileiras. Agora, estamos em meio a uma procela gigante. Apesar disso, posso garantir: sairemos todos dessa enrascada a nos consumir no dia a dia. A resposta não será de economistas, sequer dos grandes veículos de comunicação com grandes e pecaminosos anunciantes, dos cérebros acadêmicos e tampouco de deputados federais e de senadores. A grande vitória dessa crise em curso é a união do Ministério Público Federal com a Polícia e os juízes federais. Ao lado deles está a população brasileira. Ou melhor, a parte da população que pensa e consegue estabelecer sinapses sem o ranço partidário ou ideológico.
O Supremo Tribunal Federal – STF é a instância última e, por essa razão, há de se comportar de forma moderada, política e consequente, pois depois do STF só há o limbo ou o dilúvio. O Brasil, apesar de todos os desmandos cometidos, continua no seu processo lento de crescimento institucional e econômico, atingido, primeiro, pela ressaca da marola gigantesca de 2008. Não há, todos sabem disso, ninguém imune às crises cíclicas internacionais.
Depois, veio a Lava-Jato, quando o Brasil desejava ser um “player”(palavra dos financistas empolados e de tolos repetidores) internacional de primeira linha. Houve exagero nos financiamentos do BNDES, da Caixa, parcerias dos Fundos de Pensão etc.
A par disso, houve a megalomania em patrocinar dois grandes eventos internacionais como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio, de 2016, tudo sob o apoio da grande mídia, a de grandes anunciantes. Sem falar na Copa das Confederações, em 2013. Não precisávamos de tanto ufanismo, participar de sorteios e de desmontar estruturas de alguns estádios, muitos deles em pleno uso e com recentes reformas. A falácia dos “cadernos de encargos” e do “padrão FIFA” foi imposta de cima para baixo. Brasil afora.
Não foram só os estádios, mas vias de acesso, shows, aeroportos e tudo imaginável. A FIFA, descobriu-se em seguida, era uma grande empresa internacional dirigida por pessoas rastreadas pelos órgãos dos EEUU. Deu em prisões e banimento.
O Rio de Janeiro, da mesma forma, foi revirado de ponta cabeça, bilhões gastos por sofrível participação com algumas medalhas já perdendo a coloração. Um grande engano. O Comitê Olímpico Internacional-COI não é muito diferente da FIFA. Há muitas histórias e estórias sobre o sorteio das sedes das Olimpíadas e das copas do mundo. Jornalistas investigativos lançam livros sobre esses processos e do modo como foram escolhidas as empresas que detonaram e reconstruíram estádios. Falar do passado é fácil. Só um cego em gestão pública não sabe que um país em desenvolvimento há que se concentrar em áreas carentes como saneamento básico, infraestrutura, habitação e educação. A “pujança” e exibicionismo acabaram mal. Todos conhecem os desdobramentos dos fatos.
Essa minha reiteração patética não é em vão. Apesar dos pesares, sairemos desse e demais malogros compartilhados com os mesmos órgãos de comunicação que hoje fustigam a todos com os desdobramentos dos bravos e preparados trintões, quarentões e cinquentinhas da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal de 1º. Grau. Alguns, que deitam falação, e são meros coadjuvantes, desses circos armados em que nós todos fomos tratados como palhaços. A certeza é que a impermanência vence.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/06/2017.

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BRASILULA – 15 ANOS DEPOIS – Jornal O Estado

Este artigo foi publicado, originariamente, no dia 27 de outubro de 2002, no Diário do Nordeste. Após 13 anos, em 2015, o republiquei neste “O Estado”. Agora, peço aos leitores que façam uma nova reflexão sobre o seu conteúdo. Vejam parágrafo por parágrafo, o acentuado, as dúvidas e o que realmente ocorreu, nos dois governos Lula e, em seguida, no de Dilma.
Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja.
A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas tem o pé na miséria. Ou melhor, tem os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências.
Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se a cultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimento de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor.
Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe – que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal. Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental.
Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, se aceita. Assim é a Democracia que, entre outras coisas, tem a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado.
Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim, tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre Socialismo, Neoliberalismo e política de resultados. A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente, após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver, uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável – que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres.
Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/05/2017.

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O FORTALEZA E A SUA TORCIDA – Jornal O Estado

Converso com pessoa esclarecida e, sem querer, o futebol vem à baila. Ela diz: sou torcedor do “Fortaleza Esporte Clube” e creio falar por mim e alguns sócios torcedores, conselheiros, admiradores e afins. Há uma teimosia em trazer jogadores e técnicos rodados, sem nenhum amor ao Fortaleza.
Lembrem-se do jogo Fortaleza com o Ferroviário em que ganhava por 1X0 até os 46 minutos do segundo tempo. Displicência, falta de orientação, desamor e um gol do adversário. Esse empate, somado à derrota anterior, ocasionaram o clima do terceiro jogo.
Façam pesquisas e verão que o Fortaleza perdeu – ou empatou – nos últimos minutos de vários jogos. Foi assim – por algumas vezes – na Série C. Agora, também no campeonato deste ano. O gol do empate de 1X1 com o Ferroviário veio aos 46 minutos do segundo tempo. Os “estrangeiros” do Fortaleza, cansados de tantas camisas, não se importavam com o detalhe de que o jogo estava ainda em curso.
Neste ano, ficou fora da decisão contra um time que não gasta mais que 10% da folha dos jogadores e da comissão técnica do Fortaleza. Azar? Não! Incompetência, imprevidência e soberba. Tudo junto e misturado.
Agora, neste maio de 2017, resta ao Fortaleza a 3ª. Divisão do futebol brasileiro, da qual é membro há oito anos. Também há a Taça Fares Lopes. Não se pode – e nem se deve – brincar com essa torcida que já colocou mais de 63 mil pessoas em jogo, em que o Fortaleza decepcionou.
Neste Brasil desesperançado o futebol ainda é uma válvula de escape para os que se afeiçoam a um clube. A quase ausência de torcedores nestes primeiros meses do ano de 2017 mostra a falta de credibilidade na equipe. O Fortaleza foi desclassificado de todas as competições jogadas até agora por falta de competência e garra. Isso é triste e estranho para um clube acostumado a vencer.
Manter os mesmos jogadores e o técnico perdedor seria escárnio. O ideal é acreditar em meninos do sub-20, dos subúrbios e do interior do Estado e mesclar com alguns mais experientes. Isso não é poesia ou ingenuidade. É alternativa.
Se erraram durante oito anos, precisa-se, sem dúvida, mudar o que fizeram nesse período. Sei que falar, reclamar e apontar erros é fácil. A lógica, entretanto, não perdoa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/05/2017.

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ANTÔNIO CÂNDIDO – A CRÍTICA QUE MORRE? – Jornal O Estado

“Sua obra fundamental encerra o ciclo de grandes ensaios de interpretação do Brasil”. Manoel da Costa Pinto, prof. de Teoria Literária, da USP
Antonio Candido, crítico literário, morreu aos 98 anos, sexta passada, 12 de maio deste 2017. A Folha de São Paulo, no dia 14, domingo, resolveu reproduzir a primeira crítica literária escrita por ele no dia 07 de janeiro de 1943. A crítica tem o nome francês “Ouverture” ou Abertura, em Português. A língua gaulesa dominava a literatura da época. Depois, o inglês. Agora, é o internetês.
Nela, Antonio Candido desfila os seus postulados, que, no seu pensar de 24 anos, configurariam um padrão ou referência para alguém se tornar crítico literário. Ele diz: “Do crítico, espera-se geralmente muita coisa. Antes de mais nada, que defina o que é a crítica para ele. Acho isso muito justo, uma vez que ele é um indivíduo que vai emitir opiniões tendentes, em suma, a explicar uma obra ou um autor”.
Em seguida, ele fala na possível imodéstia de um crítico literário: “Este aspecto metacrítico do ofício – que é porventura o seu fundamento e o seu mais firme esteio – é, no entanto, às vezes, uma questão de tal modo pessoal, revestindo-se de uma necessária imodéstia no seu enunciar-se, que melhor seria pedir ao crítico literário qual a sua ética – quais as imposições que se faz e quais os princípios de trabalho com os quais não transige”.
A pergunta que faço aos professores Sânzio de Azevedo, Linhares Filho e Carlos Augusto Viana é se hoje, passados 74 anos desse enunciado, tais princípios teóricos subsistem?
Claro que eles não podem me responder agora, sequer sei se aceitarão essa lisonjeira provocação. Entretanto, emendo com outra questão que pode ou não ser pertinente: como anda a crítica literária brasileira, nestes tempos em que os escritores formam grupos para aparecer em eventos culturais estados afora, em memória de mortos ilustres, bienais de livros, nos possíveis encontros na “Casa do Saber”, seja no Rio de Janeiro e em em São Paulo. Ou, ainda, nas anuais edições da Festa Literária de Paraty.
Como se tivesse premonição, Candido afirma: “Sobretudo porque acredito que as atitudes intelectuais têm valor em função da época em que se manifestam e à qual se dirigem. Sendo assim, a tarefa do crítico será porventura integrar a significação de uma obra no seu momento cultural do que, tomando-a como pretexto, procurar tirar dela uma série de variações pessoais”.
Contextualizando essa época ao hoje, em que a inteligência artificial pode até produzir “obras” de todos os gêneros e a internet das coisas nos coloca em um baú em que sensos estéticos – duvido, ainda ‒ derivam de algoritmos de programas literários de grandes universidades, mundo afora. Ouso perguntar aos doutos Antonio Torres e Edmilson Caminha: estarei errado?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/05/2017.

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BONDADE TEM LIMITE – Jornal O Estado

O tremendo “quiproquó” em que se transformou a luta da Prefeitura de Fortaleza para desmontar a pocilga a céu aberto em que foi transformada a Rua José Avelino, via estratégica para a mobilidade urbana da Capital, já era aguardada, tendo em vista a maneira como o poder público foi leniente com a ampliação daquele “fuzuê” em forma de feira. Para mais complicar a balbúrdia em torno do problema, alguns setores concordaram com isso. A prefeita Luizianne, por exemplo, poderia muito bem ter dado um freio, mas não o fez para não perder votos.
No âmbito da Justiça, o Ministério Público Estadual, há mais de quatro anos, vinha cobrando da Prefeitura medidas urgentes e rigorosas para acabar com a bagunça, que servia para ajudar a sufocar o trânsito, além de causar incômodo auditivo e muita sujeira. Agora, o mesmo MP tentou deter a ação da PMF para melhorar aquela artéria. Agora, tentou impedir os trabalhos, cobrando diálogo da parte do prefeito Roberto Cláudio com os feirantes. Como a medida foi suspensa, continuam as obras da requalificação daquele local.
Confusões à parte, alguns problemas terão de ser melhor investigados, em relação aos feirantes a serem deslocados para outros locais. Um deles, de extrema gravidade: a origem de muitos dos produtos comercializados, que, segundo denúncias, não são nada claras. Juntem-se a isso às perdas da municipalidade, ante a grossa sonegação de impostos a serem pagos pelos verdadeiros donos das mercadorias, muitos deles escondidos à sombra de pequenos comerciantes que eles colocavam no “feirão”. Essa confusão vai servir para desmascarar muita “marmota”.
TURISMO – Quem denuncia é a Veja Online: a “marcha de prefeitos” (mais uma) está fadada a resultados pífios para os municípios ali representados. A principal causa é mais do que evidente: os ministérios de quem os prefeitos esperam muito, não têm muito a oferecer. Por conta disso, preferem mostrar suas ações em “stands” a serem admirados. E só, porque, a bem da verdade, todos os ministros estão empenhados mesmo é em captar votos pelas reformas.
LAVA JATO – Não dá para evitar abordar a luta do MPF, PF e Operação Lava-Jato para limpar o terreno político do País da sujeira do “mensalão” e pelo “petrolão”. O destaque é o destino do ex-presidente Lula, mais escorregadio que baba de quiabo. Pesquisa da “Folha” entre os leitores sobre o que pode ocorrer ao filho de Garanhuns mostra: 61% dizem que será condenado; 34%, que será condenado e preso. Apenas 3% acham que ele sairá livre e solto.
IDADE SAUDÁVEL – Ontem, no Parque Adhail Barreto, o prefeito Roberto Cláudio, acompanhado de secretários, assinou compromisso com o movimento Parceria para Cidades Saudáveis, instituição coordenada em apenas 50 cidades do Mundo, pela fundação norte-americana Blooberg Philanthropies. O objetivo principal é tornar essas cidades mais atrativas para os visitantes e confortáveis para os seus habitantes, em termos de mobilidade urbana.
PERDAS & DANOS – Não tem como abandonar a discussão dos problemas gerados pela “embromação” dos cearenses pelo Governo Federal, que deixou o nosso estado em último lugar para receber as águas da transposição, projeto abandonado por uma empresa inidônea. Para o deputado Roberto Mesquita (PSD), o problema, agora, é saber “quem irá recompensar a economia do estado do Ceará pelas imensas perdas geradas por essa irresponsabilidade”.
CONTRA A PAREDE – Um dos assuntos mais importantes discutidos em Brasília, nos últimos dias, veio rebentar em cima dos deputados federais de todos os estados, incluindo do Ceará. Trata-se da “colher de chá” do Governo Federal a milhares de prefeituras dispensadas de parte de suas dívidas com a Previdência. Satisfeitos, os gestores podem “levar à parede” os ilustres deputados por ele votados e eleitos. Se não votarem pela reforma da Previdência, adeus, votos em 2018…
SEM DESPERDÍCIO – A Secretaria das Cidades, do Ceará, realiza o Seminário Internacional de Resíduos da Construção Civil. O tema é importante, tendo em vista que o objetivo é o aproveitamento de milhares de toneladas de entulho de obras civis, que em muitos países, depois devidamente reciclados são aproveitados para outras obras, principalmente em se tratando de moradias para pessoas sem teto. Aqui, até agora, esse material só causa incômodo e sujeira.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/05/2017.