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CLICHÊS DE UNS E DE OUTROS – Jornal O Estado

“Diga-me uma coisa, compadre: por que você está brigando?” Gabriel Garcia Márquez
Não faz muito tempo os empresários resumiam as suas vidas em cuidar de suas famílias e de suas empresas. Depois dos anos foram surgindo entidades e alguns dos que antes mourejavam nos chãos dos seus negócios pequenos e médios passaram a ser líderes, encaminhando pleitos a governos municipais, estaduais e federal. Viraram seres falantes.
Foram tomando gosto e assentos em diretorias e conselhos, alguns remunerados, viajando por conta de nós todos e se acreditaram detentores de conhecimento, além do dia a dia de seus interesses por conta de um sistema rico e poderoso.
Para os alinhados a governos, partidos políticos e os que souberam descobrir licitações, concessões, aprovações de projetos por órgãos locais ou os de desenvolvimento regionais, tipo Sudene, Zona Franca de Manaus etc., o mundo se abria risonho e franco.
Depois, anos à frente, aos maiores ou audaciosos desejosos de crescer exponencialmente, os Fundos de Pensão das estatais, os bancos públicos regionais, a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social- BNDES abriam créditos a juros subsidiados, bem amaradas. Criou-se um compadrio de resultados. O governo passou a ser sócio de muitas empresas privadas.
Nomes desconhecidos foram surgindo em reportagens amestradas a tecer loas a seus méritos, descortinos e as múltiplas empresas que criavam e, subitamente, passavam a fazer parte das listas de maiores e melhores. Prêmios para cá. Prêmios para lá.
Em cada Estado brasileiro há figuras assim. Do nada para o Olimpo, em pouco tempo. Ralar, por anos, é coisa de gente atrasada que não possui “networking”, aqui traduzida como a capacidade de conhecer e influenciar pessoas, gestores e políticos, com recepções opíparas, viagens conjuntas mundo afora e logo entrar no circuito dos muitos influentes.
Outros, que abriram empresas e não se deram bem, viravam consultores, diretores, assessores e, sempre simpáticos, circulavam em festas e ambientes em que bilhões eram cifras citadas sem medo e a certeza de que caminhos políticos e classistas os fariam participar do mundo dos muito ricos, esse lugar para poucos, em país de miseráveis.
Faço uma digressão e procuro em Lucy Kellaway, jornalista do “Financial Times”, de Londres, via Valor, no artigo “Como uma empresa consegue citar dez clichês em uma frase” comparativo com a linguagem empolada e vazia dos que pouco se instruíram e resolvem ser experts e oradores.
Ela registra o caso da empresa Mondelez, fabricante de biscoitos e chocolates, ao procurar um executivo na área de marketing. O texto: “Nossa busca por um sucessor vai se concentrar em encontrar um líder que seja ‘digital-first` (que dê prioridade, ou atue na esfera digital), disruptivo, inovador, que possa ampliar o legado e mobilizar um marketing em um cenário consumidor global em plena mutação”.
Como se vê, há bobagens ditas e escritas pomposamente não só aqui em Pindorama, mas em países desenvolvidos. Como todas as semanas brasileiras viraram cruciais, saio desta sinuca por escrever de véspera e não saber o desfecho no mundo real, do qual tento evadir-me com estes alinhavos meio “disruptivos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/05/2017.

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PAUSA FRENÉTICA E NOTAS ESPARSAS – Jornal O Estado

No Brasil tudo é exagerado. Na sexta-feira passada, todos estavam ansiosos pela folga do carnaval. No expediente da tarde as coisas se arrastavam. Ninguém queria mais nada com nada. Perguntei aos meus próximos o que iriam fazer. Praias, viagens longas de até 1.200 quilômetros de carro, serras e que tais. Dos que ficaram em suas casas, poucos os com um livro às mãos. Estavam a mudar de canal para ver mais do mesmo ou trocavam mensagens e fotos em seus celulares. São os tais solitários conectados, quase sempre em busca de fatos desairosos ou de humor duvidoso.
A característica desse tempo foi a obrigatoriedade de parar a “chata” vida e fazer dos dias de folga o que bem aprouver. Cada qual com a alegria surgida do nada. Férias curtas com desgaste de energia e de dinheiro. Época da concessão geral e do encontro com o outro eu, aquele sem censura, enrustido nas conveniências do grupo em que cada um se enquadra.
Em Fortaleza, consolida-se uma forma auspiciosa de fazer carnaval. A partir da descentralização das áreas de atração em diversos bairros, dos muitos blocos, dos cordões, dos abomináveis paredões de som e o “aterrinho” da Praia de Iracema como palco principal da festança. Na Avenida Domingos Olímpio, os combatentes, novos ou antigos, dos maracatus, das escolas de sambas e dos cordões têm bem cuidado espaço reservado no breve corredor e uma estrutura profissional de arquibancadas, locais de filmagens e boa iluminação.
As mortes em estradas, os assassinatos, passam como meras estatísticas, enquanto famílias perdem provedores e entes queridos. Os acidentes com os grandes carros alegóricos no Sambódromo do Rio de Janeiro a causar 32 feridos, ganham manchetes e mostram a necessidade de acompanhamento técnico na fabricação e montagem das estruturas metálicas, suas interconexões e suas soldas. Isso é assunto de engenharia. O motorista, de um dos carros, sequer tinha visão livre, em face dos adereços.
Na volta ao mundo real, que não parou lá fora, o Brasil retoma, na próxima segunda-feira, o feijão com arroz da político-econômica, enquanto jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, retomam a mesma pauta. A mesma de sempre.
Além do carnaval, só as notícias do “Oscar”, com erro grave da PwC, encarregada da gestão dos votos, na principal decisão da noite: o melhor –não para mim – filme (Moonlight, sob a Luz do Luar). Um diretor negro, Barry Jenkis, de 31 anos, ganha, depois do duplo equívoco de Faye Dunaway e Warren Beatty (será que enxergavam direito o que liam?). Os do filme “La la Land” que, haviam subido ao palco, devolveram os troféus recebidos, tiveram cinco minutos de glória e o resto da vida de desapontamento.
No “Oscar” do ano passado houve queixa geral por não figurar um só ator ou diretor afrodescendente entre os vitoriosos. Este ano aconteceu o inverso. Hollywood mudou de tom e exagerou na dose. A cerimônia é longa e chata. São tantas as categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor filme estrangeiro, melhor animação – desenho animado, melhor roteiro original e, para não cansar mais, fico por aqui.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/03/2017.

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IVAN, O POSSÍVEL – Jornal O Estado

O nome Ivan Sérgio pode ser oriundo de romances de Tolstói, Dostoiévski e de outros russos, lidos por Fran e Lúcia Martins, pais literatos e viajores. Houve nove czares com o nome Ivan. Um cognominado, o Terrível.
Ivan Sérgio Fernandes Martins, filho de Fran e Lúcia Martins, nasceu, viveu e trabalhou no Outeiro, dito Aldeota, quiçá Meireles, do qual fazia parte o loteamento de nome Lidiapólis. Era de propriedade de Antônio Cristalino Fernandes, pai de Lúcia, sua única filha e herdeira universal.
Era muita terra para ser cuidada por um casal de letrados que viam, ano a ano, o Imposto Predial subir. Poucas casas alugadas, o resto era de terrenos ao longo da hoje Av. D. Luiz. Fran era professor da Universidade Federal do Ceará, com notório saber em Direito Comercial, tendo publicado livros de uso corrente em quase todos os cursos de Direito, Brasil afora.
A casa da família ficava na D. Luiz, murada e com cachorros soltos para vigiar a área que era deserta, salvo umas casas na Av. Desembargador Moreira e muitos casebres. Alguns não sabem que o apodo cachorro se originou dos amigos – vamos a casa do Ivan, dos cachorros – e depois, o singularizam.
Bem criado e apessoado, no tempo certo lá se foi Ivan fazer intercâmbio de High School, em Michigan, Estados Unidos. O menino que foi, voltou guapo rapaz com muitas ideias na cabeça. Fez Administração, prevendo ser o fiel depositário da Imobiliária LM, de Lúcia Martins que pagava muito Imposto Predial nas casas que alugava na Av. Desembargador Moreira e nos terrenos ao longo da Av. Dom Luiz. Os aluguéis não cobriam o total a ser pago de IPTU. Surge, então, a Construtora
LM, comandada por Ivan, Vânia, irmã; e Stênio, sobrinho-irmão. Construiu shoppings na Av. Luiz e um no Cariri.
No que seria o último, Ivan ousou. Fez um complexo integrado com shopping, torres residenciais e comerciais. Obra de vulto, projeto de André Sá. Procurou um banco para obter a linha de financiamento do BNDES. Fez o contrato. O financiamento não saía (hoje, sabe-se a razão – era só para os amigos do poder). Entrou no cheque especial e a dívida crescendo. Banco não possui amigos. Nada de BNDES. Virou, mexeu e lembrou-se de usar um capítulo escrito por seu pai para o Código Comercial, a Recuperação Judicial.
A obra atrasou e Ivan, com a coragem inata, reuniu os seus credores no Cine São Luiz e prometeu pagar a todos, dando os seus bens pessoais como garantia. Não saiu de lá apedrejado, como agouravam alguns. Saiu pela porta da frente, triste e altaneiro. Dito e feito, quitou as dívidas e lá se foi para São Paulo, morar com a filha Lina, única e querida.
Redivivo, planeja e executa, com novos parceiros, o residencial “Cidade Jardim”, no bairro do Mondubim, ao lado da Cidade José Walter. Milhares de casas, com urbanização a incluir árvores em áreas definidas, retiradas de um viveiro/jardim que ele, certa vez, me mostrou com orgulho. Mais casas não foram construídas por culpa do Governo Federal, a atrasar desembolsos. Ivan, fez o possível.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/03/2017.

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MULHER, EDUCAÇÃO E RECONHECIMENTO – Jornal O Estado

Recebi, dia desses, uma mensagem pelo WhatsApp: “Primeiro, Deus criou o homem. Depois teve uma ideia melhor. Criou a mulher.”
Meus parabéns a todas as mulheres pela passagem, no último dia oito, do Dia da Mulher. Ele foi o resultado de lutas centenárias pela igualdade de direitos e deveres entre os seres humanos.
Terça, 14 de março, foi o Dia da Poesia, homenagem a Antonio Frederico de Castro Alves. Parabenizo a todos e a todas poetas. Como dizia a nossa conterrânea Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras: “Cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado”.
Nesse mesmo dia 14 aconteceu a Edição 2017, do Projeto Gente de Bem. Um laurel que se caracteriza pela isenção, pela justiça e pela certeza de que as pessoas homenageadas são ou foram, até a data da cerimônia, destacadas figuras em suas áreas de atuação.
Escolhemos duas educadoras, longevas, viúvas de homens honrados, mães de famílias exemplares. Elas deram a seus filhos a educação e a responsabilidade que os preparou para a vida real, esta que se impõe a cada sol que levanta. Dáulia Bringel e Suzana Ribeiro.
D.Dáulia é mãe de Edite, Natércia, Edmundo, Darival, Querubina, Graça, Edval, Euvaldo e Jânio. É viúva do Sr. Edmundo Olinda D.Suzana é mãe de Nadja, Zoya, Anya, Carlos e Isabel. É viúva do Dr. José Carlos Ribeiro.
Choraram as suas perdas, mas souberam continuar a dura tarefa de professora e de manter os filhos dentro de padrões de dignidade e honra. Tempo em que as mulheres, na maioria, eram donas de casa.
As águas dos rios Ipuçaba, em Ipu, e o rio Jardim, na cidade do mesmo nome, tais como o Rio Jordão, deram a Suzana e a Dáulia os batismos dos simples. O condão necessário para aliar coragem à atitude, para a conquista de suas vitórias pessoais e a de seus familiares. Hoje, pode parecer fácil. Não foi. Nunca foram aquietadas, pois as suas vidas são plenas e múltiplas, sem prejuízo das atividades profissionais e dos familiares.
Cada um dos cinco filhos de D. Suzana é importante por si mesmo. Igualmente, os nove da D. Dáulia são pessoas de relevância no Ceará.
Este Ceará que hoje alcança uma posição destacada na área da educação fundamental por suas escolas públicas eficazes, com 77 entre as 100 melhores do Brasil. Fortaleza está fazendo a sua parte e já se destaca. Educar é a saída.
Aos seus netos e bisnetos, eu disse: orgulhem-se de suas avós e bisavós. As medalhas de prata e os diplomas que hoje recebem são provas, provadas de que suas vidas resultaram em benefícios aos outros.
A todos os leitores, trago uma mensagem de Monteiro Lobato, minha referência como escritor e empresário, perseguido por suas ideias à frente do seu tempo: “Seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/03/2017.

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O CÓDIGO DA VINCI E A ARTE DE VENDER

Junte Leonardo Da Vinci e a sua obra, um professor de Harvard quarentão e bem apessoado, uma bela policial especialista em criptologia(ocultismo), um assassinato em pleno Museu do Louvre, um monge albino fanático, um rico inglês com sequela de poliomielite e uma “intricada” história sobre Jesus, Maria Madalena e sociedades secretas, em meio a uma caçada policial entre Paris e Londres, envolvendo jatinho e limusine, e terá todas as misturas que o escritor Dan Brown utilizou para escrever o romance “O Código Da Vinci”, um fenômeno editorial no mundo, pois se diz ter vendido 15 milhões de exemplares.
E o pior é que tive de ler o livro, pois o ganhei de presente e sempre era perguntado: Já leu? Acabei lendo e o li com atenção, embora não tenha, desde o começo, gostado. É claro que tudo que se escrever sobre o livro dará a ele a publicidade que a Editora Doubleday, ardilosa como a maioria das grandes editoras norte-americanas, soube construir. De cara, mandou 10 mil exemplares de graça para jornalistas, donos de livraria e outros. Depois, começou a fomentar a “polêmica” de que o livro trazia um grande segredo que poderia destruir a fé católica.
A Editora Sextante, responsável pela tradução e venda no Brasil, não fez por menos. Distribuiu, com livrarias e críticos literários, brochuras com os quatro primeiros capítulos do livro e criou uma falsa ansiedade, além de grandes reportagens na mídia. O resultado é a grande vendagem. Desconfio que a grande maioria compra, começa a ler, folheia e não conclui a leitura. O livro tem 475 páginas e, adivinhem o que tem na página 476? O resumo-propaganda do próximo lançamento no Brasil do livro do mesmo Dan Brown, “Anjos e Demônios”, com o mesmo professor de Harvard, Robert Langdon, como protagonista principal.
Paralelo a isso, já está em andamento a filmagem do “O Código Da Vinci” que, certamente, terá uma grande bilheteria, pois o seu diretor, Ron Howard, é o do filme “Uma Mente Brilhante”, que ganhou o Oscar em 2002. Tom Hanks será o protagonista principal. Tudo o que escrevi serve apenas para mostrar como nós, pobres leitores, somos levados, muitas vezes, a achar “excelentes” autores que apenas trilham um caminho já conhecido da construção de livros com descrição pormenorizada de lugares, coisas, objetos e instituições, respaldado por um suporte bem urdido de marketing de editora. Rever a história, descrever pessoas, lugares, objetos e instituições são hoje atos profundamente simples, que podem parecer ao leitor como erudição e talento, quando não passam de mera pesquisa que pode ser feita pelo próprio autor, qualquer boa bibliotecária ou historiadora. A propósito, a mulher de Brown, Blythe, é historiadora de arte.

João Soares Neto

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A ARTE EM CADA CANTO

Mais uma vez, o Shopping Benfica abre as portas da Galeria Benficarte para receber, com alegria e respeito, seis artistas consagradas Emília Porto, Jussara Correia, Lira Juraci, Maíra Ortins, Maria Thereza Pinto e Nice Firmeza.
São MULHERES EM TRÊS MOVIMENTOS que traduzem, de forma pictórica diversa, toda a sua criatividade, utilizando histórias pessoais e vivências artísticas como pano de fundo.
Os pincéis são apenas meios de expressão de seus sonhos, desditas e emoções. As telas são ‘cintilografias’ artísticas e registros de seus olhares sobre o mundo e as suas coisas.
Pelos currículos das “MULHERES EM TRÊS MOVIMENTOS ” cada pessoa poderá ver, com olhos e alma, as razões e os matizes que se agregam às telas e traduzem o somatório de suas experiências.
Apreciar a arte é pausar os olhos, aquietar modos e ver-se dentro do “espírito” do que lhe é mostrado com carinho.
Cada quadro é um universo especial. Cada visitante terá uma absorção diferente, mas isso não importa.
O que vale a pena a se ver numa exposição como MULHERES EM TRÊS MOVIMENTOS é o que fica no espírito e o rastreamento do ato de criar de cada uma das seis diferentes artistas, mulheres de um mundo vário, com suas histórias, escolas, estilos, formas e cores.

Sejam bem-vindos, artistas e público.
João Soares Neto, não é crítico de arte

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A ORELHA DO PEDRO

O Pedro José Negreiros de Andrade e eu somos companheiros matutinos há anos. Andamos, procurando a forma física que nunca teremos, trocamos prosas e, aqui ou acolá, temos a tola pretensão de alterar o mundo. E o que fazemos de concreto: lemos e escrevemos. E o Pedro, médico-cardiologista, professor universitário devotado e escritor diletante, não se esconde no que escreve, mas o que ressalta em seus artigos é o seu aggionarmento, a contemporaneidade e a atitude diferenciada.
Ele não é só o médico e professor, mas um espécime raro, um ‘woodstockiano’ ou virtual espadachim do bem em pleno fim da primeira década do Século XXI, este que nos acena com longevidade, mas não nos diz como apascentar nossas almas inquietas. E a alma inquieta de Pedro José juntou seus escritos em ‘Ensaios politicamente incorretos” em que se espelha na Revolução Francesa para chegar às deformações da burocracia soviética.
Crítico atilado e inconformado com as leis de cotas para estudantes não brancos neste país mulato, Pedro afirma: “O chamado estatuto de igualdade racial, assim como as leis de cotas deveriam ser chamadas de estatutos da desigualdade racial”. E explica por que: “raças não existem em um país profundamente miscigenado como o nosso”. Mas, o médico e o professor também dão as caras, quando, entre outros escritos, elabora regras para evitar que se conduza mal um caso médico mostrando os caminhos do erro aos que falam de forma complexa e dão pouca atenção à queixa do paciente.
Fica em dúvida, mas absolve, por sua latinidade, a Fidel Castro e até dá sugestão para reformular a Copa do Mundo, tentando acabar com os empates nas prorrogações da finalíssima, recomendando a substituição de todos os jogadores, mas admitindo a decisão por penais.
Pedro é: tão destemido que me pede para escrever a orelha de um livro seu que a transcrevo em jornal com o objetivo de anunciar, antecipadamente, a todos os seus colegas médicos cardiologistas, amigos, alunos, colegas de docência da Faculdade de Medicina, que vem aí mais um livro de Pedro Negreiros um especialista genérico, um professor difuso, um cardiologista apaixonado por idéias intricadas que vão mexer com sua adrenalina por escrever o que lhe apraz, sem medo de variações sistólicas ou diastólicas de terceiros.

João Soares Neto,
cronista

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A VIÚVA ENCARNADA NO VESTIDO

Conheço José Maria Barros Pinho desde 1961. Fomos colegas da turma pioneira da Escola de Administração do Ceará. Barros Pinho chegara do Piauí, via Crateús, e assentara-se na Pedro Pereira com Padre Mororó. Estudamos, lutamos, viajamos e fizemos política estudantil. Barros Pinho, por sua liderança, pagou um preço muito alto. A vida política quase pagou essa conta. Mas isto é outra história.
Desde esse tempo, Barros Pinho aliava à sua retórica a veia poética que ele teima em situar nas barrancas do Rio Parnaíba. Sua poética transcende às nascentes e a foz de um rio, ela se fez mar e inundou a praia onde moureja seus versos há mais de quatro décadas.
Agora, na juventude de sua maturidade, envereda pelo gênero da crônica, salvo incursão ligeira numa antologia de cronistas novos em 1971. Primeiro concorreu com o conto “O Zeca do tiro no bode da Nazária” ao Prêmio Ideal de Literatura, ano 2000, merecendo destaque. Depois, neste livro, reuniu 16 contos, editados pela Record, 2002, e, já na estréia oficial como contista, teve a honra de ser prefaciado por Gerardo Melo Mourão, o maior intelectual vivo nascido no Ceará e, sem dúvida, um dos maiores do Brasil. Se isso não bastasse, José Alcides Pinto (na orelha), Cineas Santos e Francisco Carvalho (na contra-capa) dão o fechamento, aprovação e louvação à obra de Barros Pinho. O que dizer ainda, até porque não sou crítico literário. Sou sim, um leitor crítico. Concordo com Lya Luft, no seu livro “O Rio do Meio”, p. 134/135, quando diz:
Impressiona-me que outros analisem com tanta clareza textos que escrevi: comentários eruditos, profundas aproximações, fazem-me parecer tão grave que chego a me inquietar, como se, de volta aos bancos de escola, andasse outra vez distraída de tarefas importantes. Essa de que aí falam sou realmente eu?
Pois é, Barros Pinho, embora possa ser vaidoso de sua trajetória, não é uma pessoa grave. Barros Pinho não se desfaz da veia poética:
O sol era o mais claro referencial da manhã. O rio, a mesma indiferença de sempre. A capela, no alto, erguia-se para o céu. (p.20).
E vai em frente:
Os peitos dela, mal comparando, eram duas nascentes de bicos finos, ver bico de beija-flor atacando no mato das veredas no início das águas (p.44)
Por outro lado, constrói frases próprias de cronistas não derramados, mas aprumados em suas tramas:
Os dias eram uma gulodice comendo o tempo”(p.28). “Vive da sala para o quarto, onde padece seu sofrimento de dor dentro dela. É tanto que a gente sem querer, olhando para ela, bota água nos olhos com gosto de não parar”(p.47). “Fêmea comigo hoje não tem preço e pode até custar a vida de quem meter tramela na minha tão grande vontade (p.67).
Destaque-se, ainda, o tratamento dado aos personagens, com suas falas, pensamentos, medos, modos, com a pureza de um mundo não urbano talvez não mais existente, perdido em meio a rios sempre recorrentes, mesmo que o conto seja outro, e as margens dêem em lugares diferentes e nos quais nunca pisamos.
Há contos com personagens duros e dramáticos em seus conteúdos, gestados na infância, paridos nesta maturidade libertária de fantasmas agourentos, trazem epílogos cruéis ou fantásticos, apascentando a alma de quem escreve, disfarçando a dor vinda de longe, não se perde com o tempo e se recria no imaginário da prosa curta, mas firme. Assim é com Zeca:
O Zeca se rezava, rezava com o punhal na mão”(p.60), Bené Gavião “O Bené pulou este batente e saiu daqui com uma cabeça de onça, o corpo de homem e asas de gavião encantado (p.85)
Ou com Tia Donana:
Vestia o vestido encarnado da promessa feita ao italiano, seu marido, sob o olhar espantado de quantos se preparavam para assistir a cerimônia oficiada pelo cônego Deusdedith de Freitas, que nos dentros dos botões de sua batina viveu atormentado por muito tempo (p.127).

JOÃO SOARES NETO
Academia Fortalezense De Letras
Agosto de 2003.

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APRESENTAÇÃO

JOÃO SOARES NETO, CÔNSUL HONORÁRIO DO MÉXICO
E MEMBRO DA ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS

José Luís Lira tem caminhado, nos últimos anos, em várias direções. Profissionalmente, escudou-se na sua formação jurídica e galgou o patamar de professor da universidade do vale que circunda a região onde moram seus sentimentos. Paralelo a isso, aportou afinidades com Mathusaila Santiago e dessa amizade surgiram duas academias. A fé gerada enquanto infante o acompanha hoje, pois sedimentada, no estudo hagiológico. E faz mais, amou Rachel de Queiroz na sua velhice e dela extraiu elementos que transformou em livro. E vai em frente. Lira é assim, inquieto, decidido, abridor de portas e de livros com o tempo que sobra aos que optam pela castidade e solteirice. Assim é José Luís. E por ser José Luís imagino-o mexendo no Google a descobrir algo que contivesse os seus dois pré-nomes. E não é que ele descobriu e bem. Surge, em sua vida, a figura beatificada de José Luís Sánchez Del Río, um jovem adolescente mexicano, nascido em 1913 e falecido aos 15 anos.
O processo de canonização de uma pessoa morta passa por quatro etapas. Na primeira, um bispo ou arcebispo que responde pela Diocese em que o candidato vivia abre um processo. Esse lento processo precisa de um postulador, isto é, de alguém que advogue a sua causa, devidamente indicado pelo bispo, pelo menos cinco anos após a morte do servo de Deus em exame. Por outro lado, a Santa Sé procura, detalhadamente, a descoberta de falhas ou lacunas que invalidem a postulação.
Vencida esta etapa, o Servo de Deus, por seu representante, passa a postular ser Venerável, quando é provado a teólogos, historiadores e membros da Igreja que o candidato teve uma vida ilibada com realce para suas virtudes católicas ou que faleceu em defesa da fé em Cristo. A terceira fase é a Beatificação, quando a grande burocracia do Vaticano escoima todas as questões e o “encaminha” à santificação. Foi nesta fase que Lira já encontrou seu homônimo. Para ser Santo, José Luís Sánchez Del Río tem que comprovar ainda que realizou, pelo menos, dois milagres.
Com a argúcia de um “hacker” católico, Lira foi-se apropriando da história da revolução “cristera”, movimento que no final dos anos 20 colocou em cheque as relações entre a Igreja e o Estado Mexicano, originando a morte de milhares de pessoas, dentre elas a de José Luís Sánchez Del Río e viu todo o caminho percorrido até a já beatificação desse adolescente e o fez com o cuidado de um parente na fé cristã e na irmandade que possa advir da feliz coincidência de terem ambos pré-nomes idênticos.
Mais não comento para não tirar o prazer da incursão em percurso tão rico na história mexicana do início do século passado, violenta, estonteante e definida, na forma cautelosa e carinhosa com que Lira cuidou de compor o “Mártir do Cristo Rei: José Luis Sánchez Del Río”. Ele mesmo diz: “O jovem beato José Sánchez Del Río deve estimular-nos a todos, principalmente, a vós, jovens, a serdes capazes de dar testemunho de Cristo na nossa vida quotidiana”. Esse livro-documento, por sua pesquisa, fará certamente parte das leituras e comentários dos que professam a fé católica, os que procuram conhecer a história mexicana, bem como os que integram a Academia Brasileira de Hagiologia, da qual é um dos membros mais atuantes.
Propagar a fé em época tão carente de santidade é um ato de amor a Deus e ao próximo, ao mesmo tempo em que qualifica seu autor no caminho pessoal pelo uso da razão e da pesquisa. Como dizia Santo Agostinho: “Fé é acreditarmos no que não vemos, e a recompensa dessa fé é vermos aquilo em que acreditamos”

João Soares Neto

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CAPISTRANO, POR QUEM E PARA QUEM NÃO O CONHECE

João Soares Neto, ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras.
Diz Gabriel Garcia Márquez que “um escritor já nasce escritor, nasce com o dom e a vocação, precisando apenas aprender a escrever”. Capistrano dizia que “aprender a escrever é aprender a ler”, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura crítica de livros, textos, traduções e documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja. Historia como se fizesse uma longa crônica, um ensaio, um romance e há trechos até que são poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos.
José Aurélio Saraiva Câmara, um de seus biógrafos, diz com propriedade: “Descrever uma vida como a de Capistrano de Abreu é enfrentar um seríssimo tropeço: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferença do operário face a audácia e à afirmação granítica do trabalho realizado. Na sua história, o homem diz pouco e a obra diz tudo.”
Tenho consciência disso. Falta-me maior intimidade com a sua obra. Sou curioso e o conhecimento não tem dono, mas neófito sou em admirá-lo. Não vejo em mim autoridade para descrever a vida, tampouco a obra, pois além do embasamento que não tenho, some-se a isso o exíguo tempo de menos de uma semana, sem prejuízo dos meus outros afazeres, em que fui gentilmente compelido por esta Academia Fortalezense de Letras a escrever este relato.
Sabem com que credenciais? A qualidade única de ocupante da cadeira que tem Capistrano como patrono. Louvo-me da aversão declarada de Capistrano às academias e sociedades a que não quis pertencer para ter a certeza de que, na dimensão em que ele estiver, não se ocupará de dar atenção ao que aqui será brevemente mal dito.
As comemorações dos 150 anos de nascimento de João Capistrano de Abreu ecoam por todo o Brasil. No Ceará houve um calendário oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreciável número de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A propósito, compulsando a memória do Jornal “O Povo” de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lançou um concurso público sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centenário. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos.
Fosse hoje, certamente, dezenas o fariam. De qualquer modo, não é mais necessário pedir vênia aos meus pares, pois declaro pública a minha incapacidade de cumprir com brilho a missão que, se juízo tivesse, não teria aceitado. Este trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o próprio Capistrano: “As obras de amor são as únicas que pagam o sacrifício”. Vamos, pois, ao sacrifício.
No último dia 23 deste mês de outubro de 2003 fez 150 anos que João Capistrano de Abreu, filho de Antônia e Joaquim Honório de Abreu, nasceu na Ladeira Grande, no sítio Columinjuba, Maranguape e de lá partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro.
De família simples, solitário, crítico, irônico e taciturno, foi sempre maior do que os colégios onde estudou: o Colégio de Educandos (onde hoje fica o Colégio da Imaculada Conceição), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Seminário da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por não ser vocacionado para padre. Posteriormente, já aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparatórios para a Faculdade de Direito do Recife.
Foi reprovado nos preparatórios porque seu aprendizado não se cingia ao conteúdo programático estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas já se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tomás Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. Já se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, inglês e francês. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o correspondente em Recife e seu pai, Jerônimo Honório.
Debaixo de repreensões, foi para o cabo de uma enxada como um cabloco qualquer, em meio a um alambique para destilar cachaça, um engenho de açúcar e rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna. Engajou-se, em seguida, em movimentos literários e culturais de Fortaleza quando escreveu “Perfis Juvenis”, que era, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edições sucessivas no “Maranguapense”, jornal recém criado em Maranguape.
Foi nessa época que retomou os contatos com Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agitação literária chamada jocosamente de “Academia Francesa” que reunia jovens quase imberbes.
Capistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe Júnior, João Lopes, Rocha Lima e Tomás Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna – A Escola Popular – que objetivava educar operários, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constituição, de 02 de junho de 1874: “A escola noturna popular, além das aulas de primeiras letras, gramática, francês, inglês, geografia e aritmética, que começaram a funcionar, abrirá espaço para uma série de conferências do gênero das que estão fazendo na Corte com tanta aceitação
Fundaram também o jornal Fraternidade, de origem maçônica e inspiração positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libertário contra a religiosidade do clero e dos fiéis, apregoada pelo jornal A Tribuna Católica.
É provável que a figura admirada e já então mítica de José de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado à Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Ceará.
Capistrano, aos 21 anos, tinha os pés na província e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi. De Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Teófilo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: “A impressão que teve o consagrado homem de letras e político, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Começaram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admiração, viu que ali não estava um simples sertanejo, porém um erudito.”
Era efervescência demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a benção ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guará no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria José de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano.
A partir daí é que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser súdito do Império, mas não abria mão de ser, ao mesmo tempo, um cidadão brasileiro. É assim que José de Alencar apresenta Capistrano: “Esse moço, que já é fácil e elegante escritor, aspira ao estágio da imprensa desta Corte. Creio eu que, além de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da glória, que lhe estão atribuindo acidentes mínimos.”
Os caminhos da sua vida nunca foram fáceis, apesar das relações tão procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. É provável que começasse aí o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar português e francês no Colégio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores.
Sua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Notícias. Já em 1882, Valentim Magalhães, na seção Tipos e Tipões, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: “(…) quem seja aquele rapaz forte, de estatura meã, grosso de tronco, de cabeça um tanto cúbica, dessas que vêm bradando aos olhos da gente: ‘eu sou do norte’, de pescoço atlético, olhos pequeninos, piscos, míopes, escandalosamente míopes; trajando escuro com filosófico descuido, chapéu raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ninguém sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente à parede, cabeça levemente à banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(…)(…) Pois esse rapaz é o Capistrano de Abreu, a cabeça mais ilustrada, mais pensadora, mais ‘curvada’ ao trabalho de quantos funcionam no escritório da Gazeta( …).”
Nesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotecário e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de então, começaria a consolidar a sua carreira de historiador.
Seriam transformadas em marca-páginas da história suas incursões brilhantes como crítico ou ensaísta literário. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Colégio Pedro II, mantido pelo Império. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, já criticava o ensino de História do colégio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro “Historia do Brasil”. Matoso Maia lhe pede para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: ”Não poder satisfazê-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para então o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.”
Tomava forma o grande historiador com ênfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a história. Segundo José Honório Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrológio que publicou no Jornal do Comércio, Capistrano mostrou: “m modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiográfico, exemplar pelo espírito crítico, a orientação metodológica, o domínio filosófico.”
Casou, em 1881, com Maria José de Castro Fonseca, filha de um Almirante, a quem dera aulas particulares, particulares até demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: “Casei-me a 30 de março, isto é, dois meses antes do que esperava. Ainda não tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obstáculos que poderiam ser insuperáveis.”
Desse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria José de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspondência são: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria José de Jesus, beatificada pela Igreja Católica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse mês e cuja morte prematura, de pneumonia dupla, em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade.
Em 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin Távora, consegue realizar o sonho de ser professor do Colégio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descrição geográfica de um país, região, província ou município e História do Brasil, com a tese Descobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no Século XVI. Em 1889 foi excluída do currículo escolar do Colégio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar História Geral, denuncia o fato e é posto em disponibilidade.
Nesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Capítulos da História Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. É nela que fica realçada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e não um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas.
Capistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou método crítico com três elementos básicos: testemunha visual, caráter lógico do relato e coerência entre o texto e realidade, renovou os métodos de investigação científica e de interpretação historiográfica brasileira da época, partindo do determinismo sociológico – positivista que foi e deixou de ser – para, em seguida, descobrir a essência do que regia a sociedade colonial.Fica claro que sua análise da sociedade brasileira, lastreada na influência teórica da teoria realista alemã de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corográficos, da miscigenação da raça, dos aspectos econômicos e psicológicos,sempre realçando a conquista do interior pelo brasileiro mestiço.
Para ele, já mostrando a sua face republicana, o destaque não é o português ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem expressão política, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolução histórica, deixando, cada vez mais patente, a desimportância do Rei, vice-rei, governadores e dos heróis.O povo é o sujeito da história.
Por outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua ótica corográfica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, sociólogo e antropólogo fosse, com quase um século de antecedência, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas.
Capistrano denuncia isso em carta a João Lúcio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: “Muita gente é amiga dos morros e cita em seu favor a opinião dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou adversário convicto: enquanto não for arrasada a maioria, morros são compartimentos estanques que impedem a circulação social.”
Autodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede e para onde viajava pelo Brasil – quase sempre para casa de amigos – a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, não sossegou até aprender a língua alemã, além do latim, francês e inglês que já manejava.
Sem nunca ter saído do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avançadíssima para a média de vida do brasileiro de sua época, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de João Ninguém, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspondência aos amigos.
Sua correspondência, organizada pacientemente por José Honório Rodrigues em três volumes, é, segundo alguns, a sua segunda grande obra. É ela uma demonstração de apreço aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doenças, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou ate à morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em féretro a, pé, o levaram ao Cemitério.
Provavelmente, a melhor descrição de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo João Pandiá Calógeras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Histórico e Geográfico, logo após a sua morte. Diz Calógeras: “Rude, em sua terrível franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hipócritas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destituído de toda inveja. Indulgente, quando explicável a falta por um motivo mais alto, por amor à inteligência ou à bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intratável em questões de honra, de lealdade e de afeição, não admitia atenuantes para o delinquente.”
Este perfil poderia ser resumido em uma frase do próprio Capistrano: “Eu proporia que se substituíssem todos os artigos da Constituição por: Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara”. Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas:“Todo artista tem um germe original que é a base e o ‘substratum’ de seu talento” e, “Nunca pensei que eu pudesse morrer”.
Na verdade, não morreu. Transformou-se.

As citações estão contidas na Bibliografia consultada:

– AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme, Correspondência Cordial – Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003.
– BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular – Capistrano de Abreu e Madre Maria José, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003.
– CÂMARA, José Aurélio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999.
– Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Disponível: www.modernosdescobrimentos.inf.br [22.10.2003].
– RODRIGUES, José Honório (Org.). Correspondência – Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1977.
– SÁEZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumiço de Capistrano de Abreu [on line]. Florianópolis UFSC. Disponível: www.cfh.ufsc.br [26.10.2003]