Quem se dá ao trabalho de ler jornais, revistas e ver televisão deve estar apavorado de tanto ouvir, de um lado, notícia de concordatas e falências de tradicionais empresas. Do outro, a cada dia acontecem aquisições de empresas e bancos nacionais por empresas estrangeiras e, nos noticiários internacionais, são mostradas megafusões de conglomerados industriais e de serviços. Até clubes tradicionais de futebol como Corinthians, Flamengo e Vasco estão atrelados a contratos que os tornam joguetes e fontes de lucro.
Nós, enquanto pessoas, somos absolutamente frágeis e não sabemos aonde, nem como e quando essa estória de globalização vai parar. Todos os ramos de atividade estão sob os olhos de lince de equipes de empresas que identificam oportunidades, têm acesso a crédito com juros baixos, conversam tranquilamente com ministros e presidentes de república (especialmente os do hemisfério sul) e têm poderes para aniquilar os que não se rederem às suas propostas, sejam decentes e indecentes.
As empresas brasileiras, especialmente as de pequeno e médio porte, estão absolutamente desprotegidas e sem defensores à altura de seus problemas. Ora, se até grandes bancos e empresas brasileiras já foram vendidos ou estão sendo pressionados a fazê-lo, o que acontecerá com quem não faz parte dos círculos de poder que manipulam e tecem as teias dessa nova economia sem pátria e movida unicamente por interesses?
O que dizer aos jovens que viram suas famílias trabalhar anos e anos e, de repente, veem tudo indo para o espaço pela falta de crédito, pela incapacidade de oferecer preços competitivos em face da concorrência desleal ou pela substituição de hábitos de consumo que alijam seus produtos ou serviços?
Esse retrato pungente e assustador me faz lembrar uma frase do escritor russo Leon Tolstoi, bem no princípio do século XX: “O homem só pode melhorar uma coisa, a única que está em seu poder: ele próprio. Mas, para melhorar a si mesmo, é necessário que cada um reconheça que não é bom; e isto é a última coisa que o homem admite e quer”.
Pois esta é a hora de admitir que não somos bons e temos de melhorar, crescer como gente e, paralelamente a isso, espantar a nossa ignorância e tratar de aperfeiçoar os nossos níveis de informação e conhecimento, sob pena de nos vermos absolutamente engolfados nesse turbilhão que não tem tempo previsto de parar.
É prudente ter medo, é lógico ter receios, mas é preciso que cada pessoa ou empresa não sucumba às primeiras águas. É hora de aprender a nadar contra a correnteza, repetir o fenômeno da piracema a descobrir as nascentes dos novos rios que nunca pararão de correr, até porque não se passa duas vezes pelo mesmo rio, segundo Heráclito.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2000.
TODOS OU QUASE
Cheguei cedo e tive tempo de trocar algumas palavras com ele. Leve, adocicado pelo tempo, retemperado pelas dores da vida e com o olhar de vaga mundo que se auto exilou para ter o distanciamento crítico. E voltar ou quase.
Respondi às suas gentilezas e prometi-lhe uma encomenda para a Rua Mons. Bruno. Educado, levantou-se e trocou aquele abraço caloroso que só os que acreditam na sua masculinidade podem dar em ouro homem.
O lugar era quase o mesmo do passado, tingido de verde na esperança de novas glórias como se as festas e farras pudessem ter “revivals”. Postei-me equidistante e pude acompanhar a nuvem de gente que chegava. Uns por pura, franca e duradoura amizade, outros por supina vaidade e ainda uns outros que estão sempre, aconteçam o que acontecer.
Via-se de tudo, desde o jornalista com e sem jornal, ao político com e sem mandato, o empresário com e sem empresa, os que contam e os não, os que pensam, os que registram, os que fofocam, os colunáveis, os emergentes de todas as castas e quase todos pouco ligavam quanto tempo esperariam pelo autógrafo absolutamente personalizado e carinhoso.
O tempo passava e como manda quem pode, fez-se uma mesa solene e muitos se postaram atentos e, por minutos, se quedaram mudos. Basta dizer do carinho de quem o apresentou, amigo sem jaça, mosqueteiro de tantas andanças e esclarecedor de detalhes vívidos de um passado que se fez presente e tão dourado como a cor da camisa daquele que falava com a simplicidade de quem conta o que sabe, do jeito que sabe, gostem ou não.
Foi aí que me veio à memória que eu e o autor festejado, fomos sempre quase. Éramos meros João e Antônio, simples netos ou netos simples. Quase companheiros de jornalismo em eras de 60, quase colegas da mesma faculdade, quase ensinamos juntos e quase fomos bons amigos. E nessa condição de quase é que estou aqui para dizer quase nada. Direi apenas que minha memória visual penetrou na sala da Vila Angelita e se permitiu criar asas: vi chegar à redação e pegar um paletó emprestado para ir à Assembleia. Tomar um avião para Cuba, dar prego no meio de uma estrada, transformar sonhos de uma mera jangada em frota de desejos, mudar para Brasília, desfazer-se de parte do passado – como se isso fora possível – e tornar-se alado para pousar agora com asas cansadas por tantas estranjas e encher de luzes as coisas que remexem a memória e azucrinam o coração, pois dão aquela arritmia que nos impele a escrever sem a preocupação do memorialista, mas dos que ainda imaginam ter o direito de falar. Pois como bem disse a citada Susan Cheever: “O passado é um lugar perigoso”. Ou quase…
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/02/2000.
ANA E MERYL
Eu não sou chegado a novelas, mas não posso ignorar o sucesso de Ana Paula Arósio, uma jovem de 21 anos que, de repente, começou a aparecer na mídia e passou a ser considerada uma das mulheres brasileiras mais bonitas do século.
O sucesso leva, muitas vezes, a faturamentos extras em publicidade, fotos, desfiles. festas e merchandising. De repente, a Ana em questão ficou “rica” e passou a ser o xodó do Brasil como já tantas outras foram.
Esse exemplo pode dar a falsa ideia de que é fácil atingir o sucesso. Basta uma cara e um corpo bonitos, um pouco de talento e muita sorte. Não é bem assim. A sorte pode até ajudar, mas ela tem muitos a quem atender e é extremamente volúvel.
Ninguém tem bola de cristal para saber do futuro, mas há uma receita quase certa para o sucesso em qualquer área da atividade humana: competência, persistência, responsabilidade e profissionalismo. Quantos atores e atrizes já se acharam o máximo e hoje, passados poucos anos, se contentam em fazer papéis secundários em novelas e filmes com salários que mal dão para dividir um apartamento de sala e quarto.
Há uma artista americana por quem tenho a maior admiração: Meryl Streep. Não é bonita, não tem esse charme todo, mas é uma atriz competente, responsável e altamente profissional. E isso não foi construído em um conto de fadas, ela se preparou. Estudou no Vassar College (uma faculdade charmosa que conheço para mulheres) e, após isso, fez o mestrado em dramaturgia na Universidade de Yale. Resumindo: criou uma bagagem intelectual e foi à luta com os cabelos tingidos de louro, seu nariz fora dos padrões estéticos e se fez protagonista em 1978 do filme “O franco atirador”.
Passados mais de 20 anos e quase 30 filmes depois (quem não lembra, por exemplo, de Kramer vs. Kramer, A Escolha de Sofia e Os Dálmatas), ela continua dando o mesmo duro da época em que caçava trabalho. Com 47 anos, ela já ganhou dois Oscars e um Emmy.
Não se pode comparar as trajetórias de Ana Paula Arósio e Meryl Streep. Uma está no orgasmo da glória inicial e a outra sedimenta a sua saga de formiga como se fora uma trabalhadora intelectual e não um objeto do desejo.
O que pretendo passar para alguns poucos jovens leitores é que o talento é importante em qualquer profissão. Uma boa aparência ajuda bastante, a sorte pode fazer diferença, mas sem base intelectual, sem profissionalismo e a essência do conhecimento, ninguém chega a lugar nenhum.No máximo, ficará olhando para a efêmera glória que se esvai como se fora um comprimido efervescente. Como já disse alguém: “uma rosa não pode nascer de uma cebola”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2000.
SALÃO DE BELEZA
Acordo com a unha do dedão do pé esquerdo quebrada, um pouco de sangue e o estrago feito. A saída foi procurar onde dar um jeito naquilo. Alguém me diz que os salões de beleza não costumam, talvez por falta de freguesia, abrir às segundas pela manhã. Felizmente, uma alma caridosa me indica um que abriria às 8:00 horas e lá se fui eu com o meu dedão do pé inchado.
Salão moderno, piso de granito, luzes, espelhos em profusão, ar condicionado e tudo já funcionando àquela hora da manhã. Pedirão meu nome, dei João. Pediram o sobrenome e falei o Soares. Abriram uma nota de serviço e entreguei o meu pé a umas dessas moças do subúrbio distante, mas que estava ali com alegria nos olhos, equilibrando o corpo não tão pequeno em uma cadeirinha minúscula. Não me sinto bem colocando o pé no colo de alguém como se fora um paxá. Era o jeito.
A gerente me entregou uma revista. Fiquei feliz, não era “Caras”. Era “Dinheiro”, talvez tenha sido o meu jeito circunspecto. Os olhos estavam livres. Vi ser o único homem do local. Procurei me concentrar na revista, mas de vez em quando passeava os olhos pelo salão espelhado e via quase tudo em dose dupla.
Eram muitas as mulheres cuidando da beleza. De todas as idades. Umas pintavam os cabelos, outras tinham máscaras na face, algumas ficavam embaixo do secador e poucas já estavam nos arremates finais, o penteado, ou a maquiagem, ou ambos. Uma jovem não largava o celular, colocou o que soube ser “papelotes” e parecia o “Arc”, aquele marciano da “Veja” que acha estranho as coisas por aqui. Eu também.
Dizem que ser mulher e ficar calada é impossível. Imaginem em um salão de beleza. Elas falam, gesticulam, andam, tomam cafezinho, fumam e agora com a praga do celular aí que a coisa complica. Uma senhora discutia a nova cor dos cabelos a potes, revistas e, mesmo sem ouvir o diálogo, parece-me pretender sair parecida com Catherine Deneuve ou a Sharon Stone.
Tinha até gente conhecida. Uma amiga da minha faixa de idade, recém separada, veio falar comigo com o cabelo já feito e disse do amor novo surgido em meio a uma solenidade. Estava feliz e parecia fazer fé nessa nova relação amorosa com alguém também separado. E lá se foi ela com a sua esperança para o sol do dia. Toda nos trinques, naturalmente.
Depois de cortes, mertiolate, unguentos, água quente e mãos competentes sai de lá com o pé bem melhor. Saí, mas voltei. Esquecera o celular e ao voltar, vi que novas mulheres estavam chegando e saindo com aquele jeito de ser tão especial que transforma a vaidade de um pecado capital em uma necessidade básica no comportamento feminino.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/02/2000.
MÉDICOS E (IM)PACIENTES
Há quase 400 anos William Shakespeare se valia do personagem Helena, na peça “Bem está o que bem acaba”, para dizer no primeiro ato: “Às vezes está em nós a medicina que em vão ao céu pedimos”. Nós, não médicos, muitas vezes pensamos que o médico é um ser milagroso. Paradoxalmente, alguns médicos se deixam levar por essa mesma ideia. Todos estão errados.
As relações entre pacientes e médicos não são relações comuns, pois plasmadas, de um lado, por dependência e, não raro, um ar de enfado, mesmo disfarçado por boas maneiras, do outro. Muitas respostas pedidas não podem ser dadas, mesmo após uma anamnese (o relato dos padecimentos, segundo Miguel Torga, médico e escritor português) bem-feita ou uma bateria de exames laboratoriais ou de imagem. Há muito de não explicado, até pelos médicos que cuidam das mentes das pessoas. O médico não é apenas um elemento importante na engrenagem das respostas dadas pelo nosso corpo às dores, sejam elas reais ou imaginárias. Ele é o fio condutor do processo.
É provável estar com Platão a resposta: “O maior erro dos médicos é tentar curar o corpo sem procurar curar a alma. Entretanto, corpo e alma são um e não podem ser tratados separadamente. “Um médico e escritor, Moacyr Scliar, parece concordar com Platão quando diz no livro “A Paixão Transformada”: “A situação mudou por várias razões: em primeiro lugar, o médico perdeu a posição aristocrática que muitas vezes o caracterizava no passado. Depois, a medicina foi adquirindo um caráter mais técnico, pouco compatível com a expressão humanista”.
O outro lado da história é quando se fala em qualidade de vida dos médicos. É lúcido concluir necessitar o médico de um mínimo de condições de vida para ser uma pessoa razoavelmente feliz e, conseqüentemente, ter gosto pelo que faz. Por ter alguns amigos médicos posso me permitir fazer estar observações. Sei como são responsáveis, trabalhadores, estressados, ganhando relativamente pouco, tão carentes de afeto quanto seus pacientes, mas têm, por ofício, de tomar decisões rápidas que podem salvar ou não vidas ou não. Essa rotina não os robotiza, mas pode lhes dar aquele ar de enfado já referido.
Pode ser até exagero ou inadequada a expressão enfado. Melhor seria, quem sasbe, incômodo, pela quase real incapacidade de estabelecer um diálogo racional com o paciente. Enquanto o médico procura em seus alfarrábios mentais e na farmacologia o cutelo para ceifar a doença, o paciente – e sua família – quer respostas, sejam mágicas ou milagrosas.
Talvez pudesse ser inferido, com relativa margem de erro, que os médicos ao não se sensibilizarem com os dramas dos doentes possam, em contrapartida, maximizar os seus e de familiares, tornando-se frágeis para resistir às suas próprias dores.
A reportagem sensacionalista da revista Veja da semana passada sobre o uso de álcool e drogas por médicos, reflete um percentual significativo. o mesmo escrito sobre médicos pode ser dito de jornalistas, políticos, empresários etc. Por outro lado, a atual situação social-econômico-financeira dos profissionais da medicina parece ser crítica, mas não sei da existência de pesquisas e estudos sobre tal fato e, especialmente, a respeito da saúde física e mental dos médicos. Se há, gostaria de conhecer. Não existindo, é tempo de fazer. Poderiam ser úteis aos conselhos regionais de medicina e aos sindicatos dos médicos. Forneceriam elementos para reflexões e reivindicações importantes para o exercício digno dessa profissão que alia ciência e arte.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2000.
A FLOR AMERICANA
Eu vi na pré-estreia numa última sessão de uma noite de sexta-feira. Fiquei chocado e, ao mesmo tempo, entusiasmado. Passei a indicar, no dia seguinte, para amigos de um grupo que frequento aos sábados.
Bonito e doloroso. Meigo e cruel. Sensível e lancinante. Doce fel. Tedioso e eletrizante. Agora, passada três semanas e quando já entrou em cartaz regular, me permito falar sobre “beleza americana”, um filme dirigida por um jovem inglês, 34 anos, descendência portuguesa, chamado Sam Mendes. O seu filme conseguiu impactar e mexer com a cabeça de milhões de pessoa.
Quem acompanha a história da sociedade americana neste último quartel do século XX sabe do orgulho dos estadunidenses em proclamar e exportar o “american way of life”. A alta classe media americana é a baluarte e condutora de todo o processo comportamental e de mídia do “grande irmão”do norte. Lá, como aqui, a alta classe média traduz padrões de referências e vive de um sonho que se baseia na família estruturada, no status social e no consumo. Pois bem, o “beleza americano”trata disso com a sensibilidade de uma batuda de maestro, a sutileza de um misturi de um cirurgião, o ponta pé de um carateca e um soco de um lutador peso pesado de boxe.
A voz em “off”, no início do filme, do ator Kevin Spacey, soa lenta e modorrenta como o subúrbio em que se desenrola o filme. O personagem Laster Burnaham diz que vai morrer e que ainda não sabe disso. Ora, todos sabemos que vamos morrer, apenas não queremos pensar nisso. Ele, contudo, fala em morte próxima.
O filme passa a derrubar o primeiro ícone da sociedade americana: a idéia de que o automóvel feito em Detroit ou outras cidades dos Estados Unidos é o melhor do mundo e toda família deve tê-lo. Os dois carros do casal são um japonês Camry da Toyota e uma mini-van Mercedes Benz alemã.
O segundo ícone desmistificado é a propaganda americana com seus apelos ao consumo: Spacey/Levin trabalha há 14 anos em uma agência de publicidade e ao sentir que vai ser despedido relata todos os “podres”dos dirigentes e o embuste que é o seu emprego. Sua Mulher(Annete Bening) é o exemplo da corretora de imóveis padrão que ensaia as conversas para clientes e tenta vender gato por lebre.
O casal é uma farsa, pois o marido e a mulher estão distanciado física e mentalmente, tornando claro que nada resistiu ao tempo e que um sofá de “chintz” de 4.000 dólares é mais importante que a tentativa de reaproximação, possivelmente salvadora.
A juventude da escola secundária é mostrado sem rodeios: consumo e tráfico de maconha, fantasias eródicas, líderes de torcida e distância de pensamento, comunicação e identidade com os pais.
Daria para falar mais, muito mais, especialmente da paulada que dá nas forças armadas americanas ao criar um coronel reformado dos fuzileiros navais, sua moral, a submissão e alheamento de sua mulher e seus desejos(dele) inconfessáveis.
Mais não digo, para não tirar o prazer de quem não assistiu a esse intrigante filme que luta por oito “Oscars”. A quem já viu, peço que reflita e veja que as coisas por cá, embora sejam diferentes, não são muitas. Afinal, nós temos a mania de copiar e os Estados Unidos são a nossa maior referência, para o bem e o mal. Ia esquecendo: O título do artigo refere-se à flor (Americana Beauty) que dá nome ao filme: é linda, mas não tem cheiro.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/03/2000.
BOB FIELDS
Os que foram estudantes universitários na tumultuada década de 60 recordam estas duas palavras: Bob Fields. Era assim que os universitários, na sua maioria, chamavam o embaixador e ministro Roberto Campos. Essa era uma maneira de chamá-lo de entreguista, vendido aos americanos, calhorda, direitista etc. Ainda não se usava o epíteto neoliberal da forma pejorativa como é feita hoje.
Roberto Campos era a imagem do cão, o vendilhão da pátria e outros adjetivos não menos nobres. Pois não é que, por conta de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, conheci o dito cujo, então Embaixador do Brasil em Washington. A embaixada oferecera uma recepção aos bolsistas e o próprio nos recebeu de paletó e sua marca registrada, a camisa social listrada com a abotoadura no colarinho como os americanos e ingleses mais tradicionais usam e, obviamente, a gravata.
Lembro bem. Ele era um homem no esplendor do início da maturidade e se fazia acompanhar de SanThiago Dantas, já acometido e em tratamento do câncer que lhe mataria tempos depois.
Campos e Dantas eram, à época, o que de mais expressivo existia de intelectuais exercendo cargos públicos. San Thiago havia dado uma palestra em um congresso da UNE do qual participara e, acidentalmente, o recebi e com ele travei uma ligeira conversa.
Como gancho, voltando à recepção da embaixada, relembrei tal fato a San Thiago e ele, por delicadeza ou com a bonomia própria dos que estão com a sorte selada, disse relembrar.
Formamos então um pequeno grupo e, receosos do seu decantado encanto pessoal, passamos a ouvir a fala mansa e de timbre característico de Roberto Campos. Ele estava solto e falava com sabedoria e conhecimento que, mesmo os seus adversários, sempre souberam reconhecer. De repente, um colega bolsista, Flávio de Sá Bienrrebach, paulista de bigodes retorcidos que viria a ser deputado federal, começa a falar sobre o “imperialismo americano”. Sem alterar a voz e com o ar de ironia que o caracteriza, Roberto Campos perguntou a que tipo de imperialismo Flávio se referia. Flávio tentou explicar. Campos retomou o fio da conversa e disse que conhecia sete formas diferentes de imperialismo e tome história, informação e conhecimento. Quedei-me mudo e absorto, o Flávio colocou a viola no saco e resolvemos mudar de assunto.
Anos depois, em Londres, fui encontrar uma pessoa que o visitara já na condição de embaixador brasileiro na Inglaterra. Essa pessoa falava de suas gentilezas e do seu fino humor. Campos foi eleito, em seguida, deputado federal e senador, por Mato Grosso e Rio de Janeiro. Ouvi muitas de suas palestras. Apesar de não concordar com suas idéias, gostava de ouvi-lo. Na penúltima delas, quando lançou o livro “A Lanterna de Popa”. Anos depois, o ouvi novamente e senti que ele estava se repetindo, não tinha mais nada de novo a dizer, era apenas um octogenário vivendo de sua fama. Retirei-me da sala, antes de concluída sua palestra.
Agora, aos 82 anos, tenta se recuperar de uma lesão cerebral que uma hipoglicemia fez eclodir. Prefiro lembrar dele como o detestado Bob Fields, a quem nunca reverenciei como político, mas respeitei como intelectual. Algumas frases suas são um primor. Vamos a quatro delas: 1. A burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor. 2. O governo não é uma orquestra afinada. É um forró com muitos zabumbeiros. 3. O camelo é um cavalo planejado por um comitê de economistas, nem por isso é um animal inútil. 4. Os elogios incondicionais que estou recebendo estão transformando esta solenidade em meu obituário.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/03/2000.
PESSOA MARAVILHOSA
Depois que algumas pessoas descobrem o nosso e-mail somos bombardeados com estorinhas, fábulas, contos, mensagens, pedidos, pesquisas, correntes, cartoons etc. Isso faz parte da aldeia global em que nós, índios incultos, estamos ainda engatinhando, sem saber onde isso tudo vai dar.
Um desses textos, de autoria de Olavo de Carvalho, extraído do livro “O Imbecil Coletivo”, mostra o que o cada um deve fazer para ser “politicamente correto”. Pessoas mal comportadas como eu, sem a sabedoria para falar o que os outros desejam ouvir ou calar diante de asneiras ou poltrices, precisam conhecer, pelo menos, um capítulo que trata de “como se tornar uma pessoa maravilhosa”.
O sonho de todo mundo é ser feliz, se mostrar culto, inteligente, agradável, suave e socialmente aceito. Pois bem, ai vão algumas normas de conduta e frases chaves que adaptei a serem usadas nos coquetéis, nos bate papos, nas conversas com intelectuais etc. Conheço gente, por exemplo, que não lê livros e pergunta com um ar pseudo-interessado: “qual o livro que você está lendo?”. Não é para esse tipo de pessoa que estou escrevendo. Estou escrevendo para os que ainda não sabem fingir e dizem o que pensam. Aproveite, a sociedade gosta de gente leve, agradável e falsamente cordial.
01. Não fale dos outros. Fale apenas do que já estão queimados tipo: Collor, Maluf, Quércia, George Soros, Bill Gates e aquele direitista austríaco, Haider. Os demais devem ser tratados como “pessoas maravilhosas”, “um ser humano muito especial” etc
02. Procure não entrar em disputas verbais. Caso entre, não tente provar que suas convicções são verdadeiras. Saia-se com a frase “não há verdades absolutas”.
03. As idéias conservadoras ou conhecidas como tais devem ser tratadas como “preconceitos”. O uso da palavra preconceito poderá ser muito útil e é vaga.
04. Trate de saber o que o grupo ao qual você está inserido pensa e não martele contra. Seja suave nos seus juízos de valor. Contemporize.
05. O socialite adora posar de socialista. Veja, por exemplo, com simpatia os movimentos dos sem terra, o PT e o “Greenpeace” (grinpice).
06. Em matéria de sexo concorde com a maioria, sem ter medo de passar a imagem de avançado, de quebrador de regras. Fale em sexo seguro e diga que o governo deveria destinar mais verba para as campanhas e tratamento da Aids.
07. Em manifestações sociais trate de expressar os sentimentos coletivos, mas não esqueça de se mostrar um pouco herético, não-conformista e um quê de excluído.
08. Não fale que é católico, protestante, espírita etc. Fale em duendes, anjos, manifestações afro, new age, Lair Ribeiro, Paulo Coelho, Santiago de Compostella, ficar zen etc.
09. Em papos literários é preciso mostrar um ar atento quando citarem alguma obra. Diga, com um jeito blasé, que “ela rompe com as convenções do gênero”. Não significa nada, mas agrada.
10. Demonstre saúde, bem-estar e prosperidade para ser uma pessoa maravilhosa.
Boa sorte.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2000.
ALDEOTA, 20 ANOS DEPOIS
Há exatos 20 anos um grupo de jovens empresários e profissionais liberais, a maioria já rotarianos, decidiu fundar um novo clube de Rotary. Imaginavam que poderiam fazer algo diferente e tinham gás para isso. Procuraram o saudoso Cláudio Martins, o guru rotário de então, e esse deu total apoio e sinal verde. Foi a tramitação mais rápida, até então, de toda a história do Rotary. Em questão de dias o “International Board” aprovou a criação do Rotary Club de Foraleza – Aldeota.
Para quem não sabe o que é Rotary eu diria que a ideia partiu, em 1905, de um advogado americano chamado Paul Percy Harris que, sentindo-se isolado em Chicago, resolveu juntar um grupo de pessoas de profissões diferentes para a troca de informações e ter algumas metas sociais, éticas e filantrópicas. Essas pessoas reuniam-se em locais diversos por sistema rotativo, daí a palavra “rotary”.
A ideia de Paul Harrys tornou-se grande, mais do que ele pensava e difundiu-se pelo mundo afora dando um destaque especial ao que se tornou o maior clube de serviço do mundo, com 1,2 milhões de asssociados e 27 mil unidades. Para ser rotariano você tem que responder a uma prova quádrupla: é a verdade?, é justo?, criará boa vontade e amizade? e será benéfico para todos?
Anteontem o Rotary-Aldeota comemorou os seus primeiros vinte anos de existência e, se me lembro bem, logo após sua fundação, teve o crédito da ideia e da participação na execução da campanha de geração de recursos e doação de mil cadeiras de rodas a deficientes físicos. Igualmente, conseguiu, nos seus primeiros anos, um número razoável de palestrantes de excelente nível e ter frequência 100% .
Àquela época foi produzido um documento com o título: ” Um novo Rotary – da ideia à realidade”, que dizia, em um dos trechos, o seguinte: “O poder de um clube de serviço reside no esforço, na capacidade e na ação conjunta de seus membros em favor de um objetivo comum, de modo a assegurar a sua presença no espaço social. Por conseguinte, a importância de um clube não deve ser medida em função de anos de existência e do número de associados mas, e principalmente, pelo papel que desempenha , no efeito-demonstração que exerce na comunidade a que serve, na autoridade que reflete no círculo social da área em que está inscrito e da rede de sociabilidade que gera”.
Há muito deixei o Rotary-Aldeota, mas lembro bem dos ex-companheiros e da camaradagem entre a maioria. Sei que há novos membros, inclusive mulheres, ideia que advoguei à época. Tenho a convicção de que os atuais dirigentes do Aldeota estão reenergizando o clube e preparando-o para entrar na idade adulta dentro da coerência, confiança e continuidade, indispensáveis ao cumprimento da visão atual do Rotary. Parabéns.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/03/2000.
COMPARTILHANDO
Preenchi um formulário há algum tempo em que a Amana-Key e a Personal, empresas de consultoria, me indagavam se gostaria de participar de um encontro nacional de estratégia de país e, concomitantemente, de um sobre gestão compartilhada. Tempos depois, recebi a confirmação de minha participação.
Entre curioso e desconfiado fui lá conferir. Hoje, depois de tantos cursos, seminários, palestras e encontros, ando meio ressabiado com conversa mole e palavras da moda como cenário, facilitação, paradigma, globalização, milênio, virtual etc. Confesso que ainda não as absorvi de todo. A curiosidade, no meu caso, é sempre maior que a desconfiança e isso mostrou que a minha intuição havia acertado, apesar de tantos erros passados.
Gente de bom nível de todo o país, mais da área pública que da privada, se reuniu e tentou, durante três dias, demonstrar o óbvio: é preciso aprender a compartilhar. É tão óbvio que precisa ser dito a exaustão, pois a maioria das pessoas é, como eu também, desconfiada e precisa se convencer do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.
A despeito da pieguice do encontro ter se iniciado e encerrado com o “Hino Nacional” e das pessoas se dado as mãos fazendo uma corrente, havia pureza, boa vontade e honestidade na maioria dos presentes. Esses elementos perduraram em todo o transcorrer do encontro, especialmente em depoimentos significativos de integrantes de organizações não governamentais e de gestores de projetos de desenvolvimento sustentável.
Para os que não têm obrigação de saber o que significa “estratégia de país” eu diria que são caminhos diferentes dos que estão sendo trilhados pela maioria dos governantes. Partem de um raciocínio estratégico em que se minimiza o empirismo, o imediatismo e se tenta descobrir maneiras de fazer acontecer e de encontrar alternativas e soluções que permitam a sustentabilidade das futuras gerações em convivência pacífica com o meio ambiente.
Acrescente-se a tudo isso que há gente capaz envolvida na condução e coordenação desse processo. Faltam a difusão na mídia, o comprometimento de políticos e de grande parte da sociedade organizada, ainda alheia a essa nova onda. Hoje, mais do que nunca, vivemos em ondas.
Esses encontros tendem a proliferar e ganhar corpo. São o fio de um novelo condutor que poderá tecer uma teia em todo o país, sem partidos e interesses menores. Criticam, analisam, mas não visam a derrubada de ninguém. Querem correção de rumo, enquanto há tempo. São, como se depreende de um documento entregue, tais plantadores que vão jogando sementes de idéias para fora, às vezes até desconexas, sem sentido e que germinam, transformando-se em conhecimento, procurando encontrar respostas para os problemas brasileiros.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2000.
