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PESSOA MARAVILHOSA

Depois que algumas pessoas descobrem o nosso e-mail somos bombardeados com estorinhas, fábulas, contos, mensagens, pedidos, pesquisas, correntes, cartoons etc. Isso faz parte da aldeia global em que nós, índios incultos, estamos ainda engatinhando, sem saber onde isso tudo vai dar.
Um desses textos, de autoria de Olavo de Carvalho, extraído do livro “O Imbecil Coletivo”, mostra o que o cada um deve fazer para ser “politicamente correto”. Pessoas mal comportadas como eu, sem a sabedoria para falar o que os outros desejam ouvir ou calar diante de asneiras ou poltrices, precisam conhecer, pelo menos, um capítulo que trata de “como se tornar uma pessoa maravilhosa”.
O sonho de todo mundo é ser feliz, se mostrar culto, inteligente, agradável, suave e socialmente aceito. Pois bem, ai vão algumas normas de conduta e frases chaves que adaptei a serem usadas nos coquetéis, nos bate papos, nas conversas com intelectuais etc. Conheço gente, por exemplo, que não lê livros e pergunta com um ar pseudo-interessado: “qual o livro que você está lendo?”. Não é para esse tipo de pessoa que estou escrevendo. Estou escrevendo para os que ainda não sabem fingir e dizem o que pensam. Aproveite, a sociedade gosta de gente leve, agradável e falsamente cordial.
01. Não fale dos outros. Fale apenas do que já estão queimados tipo: Collor, Maluf, Quércia, George Soros, Bill Gates e aquele direitista austríaco, Haider. Os demais devem ser tratados como “pessoas maravilhosas”, “um ser humano muito especial” etc
02. Procure não entrar em disputas verbais. Caso entre, não tente provar que suas convicções são verdadeiras. Saia-se com a frase “não há verdades absolutas”.
03. As idéias conservadoras ou conhecidas como tais devem ser tratadas como “preconceitos”. O uso da palavra preconceito poderá ser muito útil e é vaga.
04. Trate de saber o que o grupo ao qual você está inserido pensa e não martele contra. Seja suave nos seus juízos de valor. Contemporize.
05. O socialite adora posar de socialista. Veja, por exemplo, com simpatia os movimentos dos sem terra, o PT e o “Greenpeace” (grinpice).
06. Em matéria de sexo concorde com a maioria, sem ter medo de passar a imagem de avançado, de quebrador de regras. Fale em sexo seguro e diga que o governo deveria destinar mais verba para as campanhas e tratamento da Aids.
07. Em manifestações sociais trate de expressar os sentimentos coletivos, mas não esqueça de se mostrar um pouco herético, não-conformista e um quê de excluído.
08. Não fale que é católico, protestante, espírita etc. Fale em duendes, anjos, manifestações afro, new age, Lair Ribeiro, Paulo Coelho, Santiago de Compostella, ficar zen etc.
09. Em papos literários é preciso mostrar um ar atento quando citarem alguma obra. Diga, com um jeito blasé, que “ela rompe com as convenções do gênero”. Não significa nada, mas agrada.
10. Demonstre saúde, bem-estar e prosperidade para ser uma pessoa maravilhosa.
Boa sorte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2000.

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ALDEOTA, 20 ANOS DEPOIS

Há exatos 20 anos um grupo de jovens empresários e profissionais liberais, a maioria já rotarianos, decidiu fundar um novo clube de Rotary. Imaginavam que poderiam fazer algo diferente e tinham gás para isso. Procuraram o saudoso Cláudio Martins, o guru rotário de então, e esse deu total apoio e sinal verde. Foi a tramitação mais rápida, até então, de toda a história do Rotary. Em questão de dias o “International Board” aprovou a criação do Rotary Club de Foraleza – Aldeota.
Para quem não sabe o que é Rotary eu diria que a ideia partiu, em 1905, de um advogado americano chamado Paul Percy Harris que, sentindo-se isolado em Chicago, resolveu juntar um grupo de pessoas de profissões diferentes para a troca de informações e ter algumas metas sociais, éticas e filantrópicas. Essas pessoas reuniam-se em locais diversos por sistema rotativo, daí a palavra “rotary”.
A ideia de Paul Harrys tornou-se grande, mais do que ele pensava e difundiu-se pelo mundo afora dando um destaque especial ao que se tornou o maior clube de serviço do mundo, com 1,2 milhões de asssociados e 27 mil unidades. Para ser rotariano você tem que responder a uma prova quádrupla: é a verdade?, é justo?, criará boa vontade e amizade? e será benéfico para todos?
Anteontem o Rotary-Aldeota comemorou os seus primeiros vinte anos de existência e, se me lembro bem, logo após sua fundação, teve o crédito da ideia e da participação na execução da campanha de geração de recursos e doação de mil cadeiras de rodas a deficientes físicos. Igualmente, conseguiu, nos seus primeiros anos, um número razoável de palestrantes de excelente nível e ter frequência 100% .
Àquela época foi produzido um documento com o título: ” Um novo Rotary – da ideia à realidade”, que dizia, em um dos trechos, o seguinte: “O poder de um clube de serviço reside no esforço, na capacidade e na ação conjunta de seus membros em favor de um objetivo comum, de modo a assegurar a sua presença no espaço social. Por conseguinte, a importância de um clube não deve ser medida em função de anos de existência e do número de associados mas, e principalmente, pelo papel que desempenha , no efeito-demonstração que exerce na comunidade a que serve, na autoridade que reflete no círculo social da área em que está inscrito e da rede de sociabilidade que gera”.
Há muito deixei o Rotary-Aldeota, mas lembro bem dos ex-companheiros e da camaradagem entre a maioria. Sei que há novos membros, inclusive mulheres, ideia que advoguei à época. Tenho a convicção de que os atuais dirigentes do Aldeota estão reenergizando o clube e preparando-o para entrar na idade adulta dentro da coerência, confiança e continuidade, indispensáveis ao cumprimento da visão atual do Rotary. Parabéns.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/03/2000.

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COMPARTILHANDO

Preenchi um formulário há algum tempo em que a Amana-Key e a Personal, empresas de consultoria, me indagavam se gostaria de participar de um encontro nacional de estratégia de país e, concomitantemente, de um sobre gestão compartilhada. Tempos depois, recebi a confirmação de minha participação.
Entre curioso e desconfiado fui lá conferir. Hoje, depois de tantos cursos, seminários, palestras e encontros, ando meio ressabiado com conversa mole e palavras da moda como cenário, facilitação, paradigma, globalização, milênio, virtual etc. Confesso que ainda não as absorvi de todo. A curiosidade, no meu caso, é sempre maior que a desconfiança e isso mostrou que a minha intuição havia acertado, apesar de tantos erros passados.
Gente de bom nível de todo o país, mais da área pública que da privada, se reuniu e tentou, durante três dias, demonstrar o óbvio: é preciso aprender a compartilhar. É tão óbvio que precisa ser dito a exaustão, pois a maioria das pessoas é, como eu também, desconfiada e precisa se convencer do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.
A despeito da pieguice do encontro ter se iniciado e encerrado com o “Hino Nacional” e das pessoas se dado as mãos fazendo uma corrente, havia pureza, boa vontade e honestidade na maioria dos presentes. Esses elementos perduraram em todo o transcorrer do encontro, especialmente em depoimentos significativos de integrantes de organizações não governamentais e de gestores de projetos de desenvolvimento sustentável.
Para os que não têm obrigação de saber o que significa “estratégia de país” eu diria que são caminhos diferentes dos que estão sendo trilhados pela maioria dos governantes. Partem de um raciocínio estratégico em que se minimiza o empirismo, o imediatismo e se tenta descobrir maneiras de fazer acontecer e de encontrar alternativas e soluções que permitam a sustentabilidade das futuras gerações em convivência pacífica com o meio ambiente.
Acrescente-se a tudo isso que há gente capaz envolvida na condução e coordenação desse processo. Faltam a difusão na mídia, o comprometimento de políticos e de grande parte da sociedade organizada, ainda alheia a essa nova onda. Hoje, mais do que nunca, vivemos em ondas.
Esses encontros tendem a proliferar e ganhar corpo. São o fio de um novelo condutor que poderá tecer uma teia em todo o país, sem partidos e interesses menores. Criticam, analisam, mas não visam a derrubada de ninguém. Querem correção de rumo, enquanto há tempo. São, como se depreende de um documento entregue, tais plantadores que vão jogando sementes de idéias para fora, às vezes até desconexas, sem sentido e que germinam, transformando-se em conhecimento, procurando encontrar respostas para os problemas brasileiros.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2000.

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MICROCONTOS A PEDIDOS

Alguns benevolentes leitores me pedem – e eu atendo – para publicar mais microcontos, Para os que ainda não leram, explico. Os microcontos: são curtíssimos, ilógicos, tem começo e fim. Espero que agradem:
MC 01
Viu o monstro. Não teve medo. Era sua imagem refletida no espelho.
MC 02
Recebera um beijo, não sabia de quem. Estava no necrotério. Ficou.
MC 03
Na suite principal do Kremlin viu um vulto barbado (seria Marx?) deitado a seu lado e sentiu um calafrio. Uma alma? Não poderia ser, comunista não acredita nisso.
MC 04
Policial e bandido estavam mortos. De mãos dadas, um segurando o revólver do outro.
MC 05
Ajeitou a gravata, entrou solene e foi preso. Estava nu.
MC 06
Acordara do sonho. Tivera a mulher desejada em seus braços. Virou para o lado e sua companheira roncava.
MC 07
Feriadão. Preguiça muita e mulher pouca. Alô, é do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos à CUT, estamos em greve.
MC 08
Copenhague, outono, fim de tarde. Saiu do Tívoli Park à pé rumo ao centro. Não viu a jovem na bicicleta. Hoje, manca um pouco, mas é um adepto do ciclismo.
MC 09
Reprovada até ontem. Hoje, a aluna provocante passara na prova. Que prova.
MC 10
Quanto mais orava, mais pecava. Pedia a Deus coragem mas continuava com aquela pessoa que não lhe dizia nada. Seus corpos estavam nus e sós.
MC 11
Enxugou-se na toalha rala do motel e cantarolou. Estava feliz. Sua mulher descobrira agora que ele era impotente também fora de casa.
MC 12
Vontade incontida de chorar. As lágrimas saiam aos borbotões. Qual a razão? Não sabia. Saiu do velório e recebeu pêsames pela morte do marido.
MC 13
No curso da invasão de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao chão, o rifle tombou e ela tomou posse dele.
MC 14
O Juiz leu a sentença e deu um telefonema. Queria almoçar com a ré, que recusou.
MC 15
O gerente do banco foi solícito. Cheque especial na mão, comprou a passagem que a libertaria. Fez um bilhete agradecendo ao gerente e devolveu os cheques não usados.
MC 16
Tinha consciência de suas limitações e isso lhe machucava. Abriu o sorriso e continuou a fingir.
MC 17
A mulher ligou para a polícia, tirou um cigarro do bolso dele, acendeu, deu uma longa tragada até formar cinza e despejou sobre o corpo do seu homem, morto. Cansara de apanhar.
MC 18
Tirou a barba postiça com cuidado e a roupa vermelha de papai noel. Dormiu e sonhou chorando pedindo um presente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/04/2000.

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OS NOVOS MOINHOS DE CASTILLA

Andei pelas terras de Castilla neste outono chuvoso e quase frio de meados de outubro. Não montava o ´Rocinante´, tampouco estava atrás de uma ´Dulcinéia´, mas percorri a região que serviu de palco imaginário para a obra de Miguel de Cervantes. Foram 750 km, entre ir e vir, e descobri que os moinhos de ventos só existem agora nas duas partes do romance Dom Quixote, escrito entre 1605 e 1615 e que hoje faz parte da boa literatura universal.
Passei – e parei – por Toledo, patrimônio histórico da humanidade, tão linda com sua mistura de influência espanhola e moura, circundei o rio Tajo, que é o nosso Tejo português, e tomei a estrada moderna, sinalizada e sem pedágios que dá acesso a Albacete, nosso destino naquele dia.
Chovia, o sol era tímido e o ar montanhoso mostrava uma região inóspita, tal qual o Nordeste brasileiro. As pedras afloram do chão e a vegetação não consegue esconder que suas raízes sofrem ao penetrar no solo rochoso. Ovelhas lanzudas pastam como em uma eterna espera pelas diatribes de Sancho Pança, fiel escudeiro e servidor do cavaleiro Quixote.
Próximo a Albacete o sol reaparece e mostra que moinhos novos estão surgindo nos morros a 1.000m acima do nível do mar. São quase 200 aerogeradores imensos, com 54m de altura, captando a energia eólica e a transformando em riqueza para acionar o desenvolvimento da Espanha arvorada, com sucesso, a pertencer ao time das nações desenvolvidas. Fecho os olhos e penso nos ventos cearenses tão fortes quanto inaproveitados. É bem verdade que já temos alguns aerogeradores espalhados pelo Titanzinho, na entrada da Prainha, e na Taíba. Mas são tão poucos, quase nada em frente à realidade que ora vejo no silêncio desta tarde que me molha o corpo, mas não impede que o meu espírito continue a sonhar, tal qual um Quixote, por um Ceará em que as suas potencialidades sejam aproveitadas, sem que sucumbamos no mar de vaidades e quase nenhuma ação.
E por tal razão é que nesse dia tive a alegria de alinhavar palavras em papel para tentar sedimentar, mediante um protocolo de intenções, com a Universidade de Castilla – La Mancha e a Federação das Indústrias do Ceará, uma perspectiva de criação em Fortaleza de um Instituto de Energia Renovável com a absorção de tecnologia que transforme os nossos ventos na riqueza tão necessária para que não se percam como os sonhos mirabolantes de Dom Quixote.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2003.

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KENNEDY, 40 ANOS DEPOIS

Ontem, 22 de novembro, fez 40 anos que John Fitzgerald Kennedy morreu. Todos lembram ou ouviram falar do fato acontecido em Dallas, Texas. Eu tinha 21 anos e, com a vaidade boba dos jovens, orgulhava-me de ter ganho, por concurso, uma bolsa de estudos para os Estados Unidos. Era uma bolsa privilegiada e, ao final, incluía uma visita à Casa Branca. Não aos seus corredores, mas um encontro nos jardins internos com o Presidente, o jovem quarentão John Kennedy.
Pois bem, fomos todos de paletó e gravata falar com o homem. Ele nos recebeu de terno azul marinho, camisa branca e gravata vermelha. Alto, olhos miúdos com rugas ao redor, sardento, louro, jeito descontraído, parecendo estar à vontade. Era a época da “Aliança Para o Progresso”, angariando simpatias e fustigando Fidel Castro, que já incomodava Washington.
A conversa foi amena, fotos tiradas, gravação pela Voz da América, apertos de mão trocados e saímos todos com os nossos minutos de glória. Não é todo o dia que se é recebido pelo Presidente. Voltamos ao Brasil em agosto e aqui as coisas já esquentavam. João Goulart sofria pressão por “reformas de base” e os militares começavam a se articular. Mas isto é outra conversa.
Exato no 22 de novembro de 1963 estava eu escrevendo na redação dos Diários Associados, em Fortaleza, quando chegou a notícia do assassinato de Kennedy. Foi um alvoroço geral e eu ajudei a compor a matéria. Meses depois, conheci uma moça, funcionária do Dnocs, que estava em Dallas no dia do atentado. Explico: o Dnocs fazia a manutenção de um avião seu em Dallas e ela, amiga do piloto, pegara uma carona. Ocorre que, Lee Oswald, suposto matador de Kennedy, quando era levado à prisão, foi assassinado diante das câmeras. Ela me disse que assistia à TV quando reconheceu Jack Ruby, com quem havia dançado em uma boite. De repente, Ruby puxou de um revólver e matou Oswald. Soube-se depois que Ruby seria ligado à Máfia. Mundo pequeno.
Voltando à história, tem-se hoje quase certeza de que Lee Oswald, foi tido – e mantido – como o assassino oficial de Kennedy, mas o seu rifle de 13 dólares, não teria a precisão de dar os três tiros fatais, especialmente o último que destruiu o crânio do Presidente. A versão atual é que o real homicida foi o corso Lucien Sarti, contratado pela Máfia. E como a memória é episódica, tudo isso me fez lembrar o caso dos compadres (por procuração, via consulado) nordestinos dos Kennedy. Zé chegando alvoroçado da roça e dizendo para Maria: “Mataram compadre Kennedy.”. E Maria respondendo aflita: “Como ficará a comadre Jacqueline?” Pois é…

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/11/2003.

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MALEDICÊNCIAS E DESENTENDIMENTOS

Uma pessoa reclama das leituras erradas que fazem do que fala e de como vive. Diz que é incompreendida e que alguns, de boa ou má-fé, resolveram espalhar inverdades a seu respeito. Lamenta que não a conheçam na sua essência e façam coro a estórias, sem ouvir a sua palavra. Reclama que alguns não a conheçam como realmente é, desconheçam as atitudes que toma em situações emergenciais quando é preciso ter bom senso, comandar, discernir e ajudar o próximo.
Pois é. O comum, e mais cômodo, é as pessoas fazerem leituras erradas dos outros. Os sentimentos de empatia, simpatia e antipatia são muito próximos, limítrofes, e dependem sempre da história de vida, da essência, do olho e do ouvido do outro. Nós somos o que somos, mas os outros imaginam que somos o que pensam que somos. E aí é que residem as grandes querelas entre gente que se amou, foi colega ou amiga. Um dia, rompem.
São fatos, atitudes, e boatos que minam as relações de benquerença e amor. Chega um dia em que os arautos da maledicência são os ‘vencedores’, por plantarem a discórdia, a desunião e até a separação de pessoas que, mesmo cometendo erros, gostariam de ter alguém que lhes trouxesse alento. Falta, nestas horas, um pacificador, alguém leal às partes envolvidas, sem tomar partido. Ao contrário, sobram os que põem lenha na fogueira das fofocas, os que referendam leituras erradas, aqueles que trazem a ‘solidariedade’ não pedida, fazendo eco às tais maledicências e desentendimentos. Os maledicentes depois voltam para as suas vidas, tristes, alegres ou indiferentes por terem insuflado o rompimento de colegas, familiares, casais ou amigos.Os rompidos ficam lá, em suas solidões induzidas, questões a resolver, sem ter mais o apoio dos que lhes minaram a relação e que, via de regra, já estão atrás de outras estórias, fofocas e vítimas. Os ‘solidários’ voltam, quando muito, como Pilatos no Credo, de mãos lavadas, sem a emoção e o comprometimento da coragem para dizer: reconsiderem, reexaminem, não foi bem assim e, se foi assim, desculpem ou perdoem.
Cada um precisa encontrar a sua própria resposta, sem medo de ceder e sem ódio. E não seria perda de tempo conhecer a letra traduzida da música ´My Way´. Cada um tem o seu jeito, o seu modo de viver, reagir, amar e ser amigo. E o importante é que o nosso jeito de ser possa, apesar dos pesares, aceitar o jeito de ser do outro. E vice-versa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/12/2003.

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SE É NATAL, POR QUÊ LER?

Neste domingo, você escolheu, entre tantas opções, ler esta crônica. Obrigado. Vá juntando as palavras e frases e veja se elas fazem sentido para você. Uma crônica é um relato simples, uma mistura da intuição de quem escreve e a sua oportunidade de falar do cotidiano. Hoje, o mote é dizer do Natal que aí está. Um natal sem fome, pregam uns. Um natal de paz, oram outros. Um natal sem injustiças, pedem todos. Um natal de amor, enfim. Mas, poucos se dão conta de que o Natal é uma etapa, o nascimento, a délivrance, a expulsão de um feto que deixa o útero após meses de gestação e, para viver, chora.
Assim é o ensinamento deste Natal, mesmo que a nossa fé seja interesseira, a solidariedade seja falsa e amor se esfume na primeira intriga. De repente, não importa a nossa história pessoal. Estamos todos, queiramos ou não, envolvidos na aura de um tempo que há de vir. Sempre foi assim e é assim que deve ser, pois não importa o que somos, vale agora como estamos e o queremos vir a ser.
E como estamos? Estamos perplexos pela pouca preparação de vida de cada um de nós para esta festa, repetida todos os anos, como se fosse um aviso ou chamamento que, independente do que compramos ou comemos, dá um sacolejo em nossas entranhas, tornando estranhas as mesquinharias a que todos estamos sujeitos. Esta festa é uma espécie de incenso virtual inalado, a penetrar em nossa pequenez. A fumaça perpassa, simbolicamente, os nossos chacras, sentimentos, a razão e as áreas de nossos corpos e mentes. Corpos e mentes talvez afetados por males reais ou imaginários, e sai… Sai, subindo o espaço sideral e leva uma radiografia do que somos, temos e podemos nos transformar ainda.
Precisamos reescrever novos roteiros pessoais, mesmo que isso nos custe caro e as incompreensões surjam. Não é uma garfada segura que nos garante o alimento que necessitamos, mas o ofício de reescrever sempre o que precisamos e devemos, com os sinos da esperança que teimam em tocar dentro de nós, por mais descrentes e indiferentes que estejamos.
Vale o lugar comum: este é um tempo mágico, mas, paradoxalmente, temos de arremessar fora cartola, habilidades de mágico e cartas marcadas. A magia de que se fala é uma conjunção e você, despido de suas verdades e certezas, pode sair do abstrato de sua realidade atual e imprimir o sonho que nunca teve coragem de viver.
Se você chegou até aqui é porque valeu a pena. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2003.

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O VENDAVAL E O VOTO

Todos nós estamos atônitos. O século XXI continua a aprontar. Depois dos atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro do ano passado, a eterna briga entre israelenses e palestinos parece coisa da Idade Média. Enquanto isso os Estados Unidos ameaçam invadir o Iraque com armas nucleares e segundo especialistas em fome a cada 04 segundos uma pessoa morre por absoluta falta de comida no mundo. Os índices de violência, sequestro, estupro, pedofilia e crimes contra a vida aumentam de forma assustadora e os economistas descobriram tardiamente, o que todos desconfiavam, não sabem fazer previsões e continuam falando. Há recessão, desemprego, inadimplência, denúncias de corrupção, falta dinheiro para as empresas girarem seus negócios, o dólar dispara, a credibilidade do Brasil fica comparada à da Nigéria, os funcionários públicos reclamam por aumentos, o governo consolida impostos que se diziam temporários, as fiscalizações exorbitam, os advogados aumentam suas clientelas e a Justiça fica abarrotada de ações.
Por outro lado, cá em entre nós, haverá eleições em outubro e tudo é prometido, além de tudo ser permitido a uma imprensa dita investigativa, a maioria a serviço de interesses, mas que falseia a verdade, julga sem provas e condena, como se tribunal fosse, os que não são de seu agrado. Os marqueteiros, senhores da ilusão e criadores de mitos, exultam pela capacidade de mistificar, de propor o que sabem não ser possível realizar. O que vale é iludir, confundir, difundir e denegrir o outro. É como se fosse um grande festival de ilusionismo misturado com centrais de fofocas e fofoqueiros espalhados por todo o país.
A partir desta semana serão abertas as caixas de pandora com os programas eleitorais gratuitos nas emissoras de rádio e televisão. Todos terão soluções, serão simpáticos, mostrarão suas famílias, brincarão com crianças, abraçarão velhos, dirão que são melhores que os adversários e justificarão alianças.
Vejam com os seus próprios olhos e escutem com as suas ouças. Julguem pelas histórias de vida de cada um, esqueçam os gestos teatrais, os cenários, as falas melífluas de locutores e os ares de bonzinhos. Você não perde tempo em ouvir e ver, desde que descubra, por seu próprio caminho, o que é cidadania, a certeza de que está no gozo de seus direitos civis e políticos e a responsabilidade ou dever de exercê-los.
Tenha a capacidade de se indignar ou apaixonar, dar respostas aos criadores de vendavais, aos que estão aí há muito tempo e só falam em futuro, como se eles não estivessem comprometidos até agora com o nosso passado e não vivessem neste presente tão árduo e carente de homens públicos verdadeiros.
Sua arma contra o vendaval é o voto. É a sua flecha da esperança. E você poderá usá-la de forma silenciosa, sem medo, sem alardes, com os olhos no futuro que deseja e espera, sem esquecer o que prometeram e não fizeram no passado e presente, embora rindo, apertando mãos e dourando pílulas que ainda amargam em nossas entranhas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2002.

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CARNAVAL E CUCA

Hoje é domingo de carnaval. Este país imenso está imerso em fantasias e em quimeras e a realidade crua vai chegar, independente da nossa vontade, já na quarta-feira. Nelson Rodrigues falava com a sua rabugice costumeira: “nosso carnaval moderno é uma sucessão de quartas-feiras de cinza.”
É claro que todos devemos ter consciência de que, vez por outra, é preciso dar uma parada. As pessoas, muito mais que as máquinas, precisam de descanso. Mas, o que é descanso para uns pode ser cansaço para outros. E este espaço não serve para dar receitas de bem viver, até porque minha vida também não é lá essas coisas todas.
Dizia que toda pessoa, vez por outra, precisa de uma parada. Mas, como a máquina, essa parada só tem razão se auxiliar o nosso bem-estar. Imaginemos, por exemplo, uma pessoa que, dirigindo um carro, saiu de sua cidade com a família no dia de ontem, cheio de bagagem, dirige centenas de quilômetros em estradas ruins e movimentadas, vai para um local qualquer onde, via de regra, fica bem menos acomodada que em sua casa, come e bebe mais que o normal, dorme pouco porque vai a festas ou fica a ver os desfiles das escolas de samba. Terça ou quarta tome estrada de novo, e lá se vem mais uma família estressada, apesar dos cinco dias de descanso. Marido e mulher discutindo e meninos reclamando, isto sem falar no trânsito.
Posso estar exagerando, é verdade. A pergunta, porém, persiste: valeu o “descanso”? Cada um pode responder a essa pergunta, mas seria bom imaginarmos porque, por exemplo, os fabricantes de automóveis estabelecem revisões – que são paradas – periódicas. Nessas paradas é feito um exame de todo o veículo. Da mesma forma, deveríamos aproveitar essas paradas que o calendário nos dá. Fazer coisas simples. Dar uma geral em nosso corpo e nossa cuca: como cortar cabelos, examinar as unhas, medir a cinturinha e comparar com o furo do cinturão velho. Abrir a boca, olhar os dentes, tentar fazer aquele exercício que nos foi recomendado e relaxamos. Conversar, brincar com os filhos, rasgar papel velho, andar a pé, separar roupa que não se usa mais, telefonar para alguém distante, ler, escrever ou ver aqueles filmes velhos tipo Casablanca, Cidadão Kane, Tempos Modernos, Cinema Paradiso e outros atuais à sua escolha.
É claro que, para quem gosta, vale a pena dar seus pulinhos, tomar cerveja e se meter no meio do frege. Faça o que gosta, mas tome cuidado para não virar estatística, pois os jornais, as rádios e as televisões ficam de plantão só para dizer dos acidentes fatais, dos comas alcoólicos, das brigas de ruas e de tudo o que foge ao normal. Dê um jeito de esquecer o computador, esse tóxico que causa dependência e não nos deixa desligar. Permita-se andar descalço, ficar alheio, rindo até das bobagens que já fez, e tente segurar, com carinho, a mão de quem você gosta. É tão simples e faz bem à cuca. Caso contrário, previna-se.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2002.