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O PAÍS DO SONHO

Uma vez, ao voltar de uma das minhas visitas à Alemanha, escrevi um artigo (Alemanha de raspão) em que disse que aquele país passava a sensação de estar pronto. Lá não há miséria, a segurança é perfeita, a economia é forte, os parques e as florestas são bem cuidados e o povo tem amor próprio. Hoje, após o segundo gol de Ronaldo, agradeci a Deus pelo fato da Alemanha já ter tudo. Nós precisamos de sonho, esperança e não nada mais parecido com o sonho brasileiro que futebol. Ganhamos com a alegria de meninos favelados que conseguiram, com os pés, a reverência de países ricos que os idolatram.
É o menino pobre do interior pernambucano que se soma ao favelado carioca e este ao moleque gaúcho. São tantos, a maioria já rica e consagrada, pela graça de suas fintas e a pontaria de seus chutes.
A Alemanha não precisava do campeonato. A Alemanha tem o Euro e pode trabalhar amanhã com mais afinco em suas milhares de fábricas robotizadas. O brasil sim precisava desta taça, onde não há concavidade, mas uma bola sendo erguida como se fora – e é – um cetro.
Em meio a tanta crise, a uma campanha eleitoral marcada pela perfídia, a espionagem e o uso exacerbado do marketing, ao descrédito mundial provocado pela ganância de investidores sem pátria e sem hora, o brasil precisava beijar o ouro. Mesmo que de forma fugaz. Um país que, quem sabe, precise da rudeza e do sentimentalismo de um sargentão, que está faltando para colocar ordem em nossa grande casa. Avulta, em meio do Delírio coletivo, a certeza de que basta alguém falar grosso, bater na mesa e saber afagar, quando possível. Chega de parecer primeiro mundo. Não dá pra esconder nossas mazelas com a visita obrigatória de autoridades às escolas de samba. É preciso assumir o que somos, mas cozinhar a nossa dignidade com todo o misticismo inato. Paradoxal? Claro. Este é um país assim, nenhum se compara a ele.
Esta lição do futebol nos remete à capacidade de manter acesa a esperança, mesmo que nos vejam com olhos atravessados, torçam o nariz ao nosso exotismo e não acreditam que a bagunça é a ordem do caos com uma pitada de felicidade.
Queremos tão pouco. É só deixar que as favelas exportem talentos, que os intelectuais não sejam tão pomposos e a alegria para substituir a violência. Há neste país muito a fazer. Nada está pronto, tudo precisa ser cuidado e as pessoas podem se unir para isso. O futebol, na sua singeleza, nos aponta o caminho. Acreditem em sonho. Sonho tem cinco letras, as cinco letras do penta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/2002.

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LUA DA MEL

Procurei descobrir a origem da expressão lua-de-mel e encontrei quatro versões. Todas muitas antigas, as duas primeiras meras lendas. Na antiga Germânia, Alemanha de hoje, os noivos casavam à época da lua-nova e levavam uma mistura de água e mel para beber ao luar em busca da felicidade. A segunda: no tempo em que as jovens eram capturadas, muitas vezes contra sua vontade, os raptores escondiam-nas por um mês, de uma lua-cheia a outra lua-cheia, para apaixoná-las, ou convencê-las a casar e, para isso, davam-lhes uma bebida afrodisíaca à base de mel que, segundo a lenda, surtia bom efeito. A terceira, deve-se a um costume dos romanos que untavam com mel a soleira das portas dos noivos. E a quarta, entre os povos orientais, os noivos recebiam mel e vinho e depois se retiravam, permanecendo longe do povoado por certo tempo, o equivalente a uma lua, que poderia significar uma semana ou um mês.
Não é preciso conhecer a origem da expressão vinda do latim (luna, lua e melle, mel), nem o tratado sobre as abelhas, a melissografia, para saber ser o mel tirado do néctar das flores, e guardado em favos ou alvéolos, para servir de alimento às suas larvas ou às pessoas. E também que designa, desde tempos imemoriais, as primeiras semanas seguintes ao casamento.
Anteontem foi lua cheia. Fase em que esse astro feminino está visível, claro, belo e pleno de luz. Saí de onde estava e, por momentos, fiquei só, ao relento, olhando para a distante lua, a me fazer perguntas sem encontrar respostas. Era plenilúnio. O terceiro dia de lua cheia quando ela refletia o esplendor de sua luminosidade naquela noite entre preces, risos, cânticos, choros, cumprimentos, abraços, votos, luzes, flashes, músicas, comidas e bebidas, De vez em quando uma nuvem branca, outra mais espessa, encobria a fosforescência da regente das marés e das mentes. Soprava um vento e eu absorvia o ar como fonte de energia, pois a emoção dava um sacolejo na alma fazendo o corpo responder por reflexo. Mas, como a volubilidade da própria lua, isso também passou.
Anteontem, para quem não se lembra, foi primeiro de março. Sessenta dias desde que o ano começou e, como se sabe, o ano é o pai de todos os meses e dias. Segundo um calendário-folhinha, editado em Petrópolis, era o Dia da Oração da Mulher. Sou pouco de ave-marias e pais-nossos. Mesmo assim, por mais alinhavada que fosse, brotou lá de dentro uma oração em meio a sentimentos vários. Nessa mesma folhinha, um pensamento de Madame de Staël: “quando sozinhos, vigiemos nossos pensamentos; em família, nosso gênio; em público, nossa língua”. Pois é.
Voltei a olhar a lua e ela não estava entre os astros distraída. Batia firme, bisbilhoteira, espreitava tudo, teimava em pratear as flores. Independente das cores, mostrava sua face inteira, arredondada, como a dizer que o mundo gira e nos leva de roldão, sem que o presente seja sempre a linha reta ligada ao passado e tampouco o futuro a mera e única esperança do hoje. Quis fazer mais uma pergunta e eis que uma nuvem a cobriu, por certo a esquivando de mim.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/03/2002.

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A MULHER SOBE

Anteontem foi o Dia Internacional da Mulher, como todos já sabem. Foram prestadas homenagens naturais e muita coisa foi dita e escrita. Nesse dia 08, por dever de ofício, acompanhei Cecília Soto, embaixadora do México no Brasil. Cecília não é diferente da maioria das mulheres da geração que nasceu nos anos 50. Órfã de mãe, estudou em colégio católico, formou-se em jornalismo, casou com um biólogo – que não era o preferido por seu pai -, teve um casal de filhos e, contestadora, ingressou na política, por conta de suas opiniões firmes nos artigos que escrevia em muitos jornais mexicanos.
Elegeu-se deputada estadual e, posteriormente, deputada federal. Fugindo dos grandes partidos de seu país, PRI e PAN, filiou-se a um pequeno, o Partido do Trabalho – uma espécie de PT deles, com coloração esquerdista – e teve a ousadia de se candidatar à presidência da República do México. Sem recursos financeiros e não dispondo do apoio da grande mídia, conseguiu uma consagradora votação, mas não foi eleita.
Voltou ao jornalismo, sendo seus artigos de opinião republicados por dezenas de jornais em vários estados mexicanos. Na última eleição presidencial criticou os candidatos em debates, programas de rádio, televisão e em seus artigos deixava claro suas opiniões sobre o que entendia ser o melhor para o seu país. Ganhou Vicente Fox, a quem criticara, derrubando a dinastia do PRI que comandou o país por mais de 70 anos, prometendo mudanças fortes na estrutura de poder.
Cecília Soto foi surpreendida por um convite que nunca imaginou receber. Jorge Castañeda, ministro das Relações Exteriores, em nome do presidente Fox, a convocava para ser a embaixadora do México no Brasil, considerado o maior posto diplomático em toda a América Latina. Pensou e aceitou com o objetivo de aproximar os dois países tão parecidos, mas ainda distantes em relações de negócios.
Hoje, com a desenvoltura de uma diplomata de carreira, Cecília Soto trafega em meio a dirigentes de organismos internacionais, ministros e chefes de estado. Em Fortaleza, para a assembleia anual dos governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, conseguiu conciliar a sua agenda oficial com contatos com a imprensa, da qual nunca se desligou, e passar mensagens positivas em reunião com mulheres das mais diversas profissões. Uma jovem senhora acercou-se dela e perguntou qual o segredo de tanta energia. Ela não teve dúvida em responder em meio ao riso que a caracteriza: fazer cada coisa no tempo devido, com amor e acreditar que o trabalho é uma forma de mostrar a cada mulher o seu valor.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/03/2002.

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ROSEBUD E A JANGADA

Quem conhece a filmografia de Orson Welles sabe que o criador de “Cidadão Kane” era um ser estranho, mercê de toda a sua genialidade. Revi, nestes dias, Cidadão Kane e, em seguida, li o livro “Orson Welles no Ceará”, do crítico de cinema Firmino Holanda.Com maestria, Holanda narra a filmagem não concluída de “It’s all true” (É tudo verdade) e, especialmente, descreve, como agradável cronista, a ambiência da época. O livro é bom no começo, meio e fim.
O filme Cidadão Kane, para os que ainda não ouviram falar sobre ele ou não tiveram a ventura de assisti-lo, trata, em rápidas pinceladas, da história de um menino pobre que, ao receber uma inesperada herança, sai da província, estuda, cresce e vira um magnata da imprensa, casa, tem uma amante, tenta a carreira política, sofre chantagem e cai em desgraça. Durante as suas filmagens, Orson Welles, que tinha como referência a vida do empresário jornalístico William Randolph Hearst, monta um jogo psicológico forte e, por conta disso, padeceu deste todas as formas de restrições, ameaças e bloqueios, só concluindo-as graças à tenacidade que os seus 24 anos lhe conferia. Foi acusado até de comunista, por atacar um ícone do capitalismo americano e mostrar a sua decadência. Era 1941, os Estados Unidos entrava na II ª Guerra Mundial e o patriotismo americano, como acontece em épocas de crise, estava exacerbado.
Talvez para provar não ser comunista, Orson Welles, fazendo parte da “política da boa vizinhança” encetada pelos Estados Unidos, veio filmar no Brasil no ano seguinte, 1942, o que seria o filme não concluído, “Tudo é verdade”. Filmou o carnaval de 42 no Rio de Janeiro e veio ao Ceará, motivado por uma reportagem da revista “Time” sobre a aventura de quatro jangadeiros cearenses que viajaram mar afora, sem bússola e sem mapa, de Fortaleza ao Rio de Janeiro. Welles desceu no campo de pouso do Alto da Balança, hospedou-se no Excelsior Hotel, enturmou-se no Jangada Clube, um bucólico bangalô na Praia de Iracema à beira mar, onde parte da elite de Fortaleza se encontrava, e reuniu os heróis do mar para ouvir a narrativa de sua epopeia.
Conviveu com ricos, mas tomou-se de amores pelos pescadores que, àquela época, aportavam suas jangadas na Praia de Iracema, especialmente Manoel Jacaré, o líder do grupo do raid destemido. Manoel e os seus companheiros voltaram ao Rio para, com Welles, filmarem a chegada triunfal (já acontecida) à antiga capital da República. Um barco – com os equipamentos e o pessoal de filmagem – puxava a jangada. O cabo soltou-se, a jangada virou e Manoel Jacaré desapareceu para sempre na baía da Guanabara.
Volto ao Cidadão Kane para falar de um pequeno trenó que o personagem principal, quando criança, usava para deslizar no gelo e cujo nome, Rosebud, é uma espécie de enigma até o final do filme. Agora, uma ideai me ocorreu: seria a jangada uma espécie de trenó dos mares a fazer uma ligação no imaginário de Welles? Ou o mastro que teria batido na cabeça de Manoel Jacaré seria a antevisão da marca da maldade de Welles?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/03/2002.

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VIOLÊNCIA AO VIVO

Estava dirigindo meu carro em estreita rua da cidade, com veículos estacionados em paralelo, enquanto um jovem, conduzindo uma pick-up preta incrementada, ia à minha frente. De repente, freou bruscamente. Já desceu de punhos cerrados e saiu batendo em dois homens, bêbados e completamente fora da realidade, andavam abraçados no meio da via, atrapalhando o já conturbado trânsito.
Em questão de segundos, vi um festival de pancadaria. O jovem motorista, de camiseta cavada e tatuado em um dos braços, sentiu-se incomodado com os bêbados que, mais para lá do que para cá, tiveram a audácia de, nos seus andares cambaleantes, encostarem-se na reluzente camioneta.
Sentado estava, sentado fiquei a observar. Atônito, descobri que o vidro do para-brisa do meu carro parecia uma tela de cinema com um filme violento em versão local. A agressão do jovem motorista não ficou só nas pancadas desferidas. Quando os dois bêbados tentaram, de forma atabalhoada e até cômica, reagir, como se também atletas fossem, o rapaz tatuado correu, abriu a porta de sua camioneta e de lá retirou uma arma com a qual passou a ameaçar os “perigosos” bêbados. Felizmente, não houve tiros, pois muita gente foi juntando até que apareceram uns pedindo calma e levando os bêbados, já cheios de hematomas, para longe.
Buzinei, olhei para o agressor e, por gestos, falei que o seu carro – atravessado e de porta aberta – estava atrapalhando o trânsito. Olhou firme para mim e, talvez por minha calma, resolveu sair e me dar passagem. Tudo isso ocorreu nesta semana. Durou uns dez a quinze minutos, em pleno cair da noite na Rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema, área turística da cidade.
Não apareceu nenhum policial, civil ou militar, tampouco os guardas azuis da autarquia do Trânsito, a AMC. Alguns turistas estrangeiros, apreensivos, ficaram longe e olhavam desconfiados. Talvez imaginassem também estar assistindo uma filmagem com cenas de violência, mas não havia nenhuma câmera em ação. Era apenas a realidade de mais um início de noite na Praia de Iracema, com seus pontos de venda de drogas, suas prostitutas nas esquinas e onde alguns bares são meros antros de pedofilia.
Não adianta construir hotéis, planejar um monumental centro de feiras e convenções, se não se cuida do básico, a segurança pública, sem a qual nada disso vale nada. Quem escapar da violência, verá.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/04/2002.

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ESCOLARIZAR A SELEÇÃO

Parece que os brasileiros com razoável nível de conhecimento não confiam muito na capacidade de Felipe Scolari. Suas entrevistas às estações de televisão demonstram, salvo erro da maioria, como é tosco o técnico da seleção brasileira de futebol. Quando jogador era defensor, daqueles que a bola passa e o adversário fica. Dizem que Felipe Scolari tem curso de educação física. Se o tiver, deve ter sido um desses muitos que pululam por aí afora e que não merecem comentários.
Já vai longe o tempo em que um técnico em qualquer área esportiva era um mero entregador de camisas. Os técnicos modernos, além de conhecerem a sua profissão, devem ser proativos, motivadores, líderes com características de ousadia e intuição da exigência de novos conceitos para modificar velhas abordagens, de tal modo a aproveitar o potencial de cada atleta. E, para usar uma palavra da moda, precisam entender de planejamento estratégico.
Basta ver o comercial de um refrigerante em que Felipe Scolari atua como garoto-propaganda para sentir que, apesar de todos os ensaios e recursos publicitários, o nosso selecionador fica de sofrível a medíocre. Não precisa ser filólogo para saber que os aumentativos usados nos prenomes são, via de regra, resultantes de dois fatos: ou a pessoa é gorda ou é considerada bronca, desajeitada, debochada etc. O nosso Felipe é Felipão e não é gordo.
A futrica da convocação ou não, de Romário demonstra à saciedade o nível do futebol brasileiro atual. Romário ainda é um grande jogador, mas está com 36 anos e leva uma vida extracampo que todos conhecem. Apesar disso, é objeto de pesquisas, pedidos de políticos e destemperos verbais do treinador. Ora, se um país deseja que a sua seleção de futebol seja campeã não deve – e nem pode – depender de qualquer jogador e sim de uma equipe homogênea, mas a cada jogo a escalação muda e um empate com Portugal é saudado como positivo.
Espero que estas minhas observações, feitas 40 dias antes do início da Copa, estejam erradas e que a seleção brasileira de futebol saía da Ásia como campeã, mas desafio a qualquer leitor para dizer agora, pelo menos, o nome de sete jogadores que considera titulares. Escreva e confira depois. Desafio também que digam os nomes dos clubes e os países em que esses jogadores atuam. Hoje, mais que nunca, o futebol está contaminado por interesses de empresas multinacionais sem pátria ou emoção e de muitas pessoas que vivem do futebol sem saber nada dele.
Vou torcer pela seleção, é claro. Mas não acredito que haja tempo de escolarizar esta seleção, de torná-la crível. Acordarei pela madrugada, gritarei, xingarei, mas, em sã consciência, não faço fé. Aceitam apostas?

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/04/2002.

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O SILÊNCIO NA MESA

Estávamos, os mesmos de sempre, almoçando na sexta-feira passada, quando o telefone tocou e fomos informados da morte de Tancredo Carvalho. A conta já havia sido pedida e não existia mais ambiente para conversa. Faltava ânimo, sobravam silêncio e tristeza em homens que já estão aprendendo a perder amigos. Não se disse mais palavra. Cada um saiu à sua maneira, pois, apesar da gravidade da doença, ainda contávamos com a esperança.
Tancredo era um velho amigo desde os tempos de juventude que se tornou jornalista por seus próprios méritos. Ainda adolescente fez jornalismo esportivo. Adulto, abraçou o jornalismo político com fé e descortino. Colunista, passou a editor político consagrado, transmudando-se em editor chefe, dando conta do recado, sempre com profissionalismo, mas com a afabilidade e a bonomia que o caracterizavam.
Convidado por César Cals, foi seu porta-voz no Governo do Ceará, permanecendo amigo de seus amigos, mas sabendo sempre distinguir o público, do privado. Ao ser escolhido Ministro de Minas e Energia, César Cals o convidou, mais uma vez, para assessorá-lo. Com simplicidade, dignificou o seu cargo, sendo sempre o conselheiro arguto, discreto e leal, acompanhando-o pelo mundo afora, cuidando com zelo da imagem de um ministro que tinha contra si o fato de ser nordestino, em meio a um mar de interesses.
Voltando ao jornalismo, reviu-se editor-chefe, até que foi chamado a implantar e dirigir, com equilíbrio, uma emissora de televisão onde fez brilhar o seu espírito alegre e vivaz criando tipos e personagens que hoje fazem escola. Ao mesmo tempo em que cuidava de sua atividade profissional era sempre o eterno namorado de sua mulher e cuidadoso pai de filhos que estão aí adultos e bem-criados, tendo como exemplo a parcimônia de um homem honrado que conhecia e vivia dentro de seus limites.
Há anos, muitos anos, éramos amigos de convivência semanal integrando um grande grupo, além de um regular almoço às sextas-feiras.
Pois foi justo numa sexta-feira que Tancredo nos deu uma lição, expirando na hora em que acabávamos de almoçar, como se nos mostrasse, sem alardes, que seu tempo estava cumprido e alertava para a nossa desimportância.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/05/2002.

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AS TRÊS BEBIDAS

Era a primeira vez em que essas três mulheres estavam reunidas. E foi à noite, na mesa de um bar, em meio à rua, ouvindo os passantes e até os ruídos de um camelô imitando gatos num saco. Somavam anos, enganos e desenganos, mas se mostravam educadas e gentis, embora, como já disse alguém: mulher é sempre muito severa ao julgar uma semelhante.
Sem que combinassem, sorviam bebidas diferentes. Uma, a mais velha, a observadora, ficava com o gosto amargo do Campari, como se estivesse sentada em uma pizza italiana. A outra, a risonha, deliciava-se com o calor da tequila transformada em Marguerita numa imaginária bodega mexicana. A terceira, a sonhadora, foi buscar nas terras altas da Escócia o seu néctar e, como se num pub londrino estivesse, bebia goles do seu uísque.
O Campari poderia ser apenas uma bebida, mas também retratar uma trajetória, mostrando como nada havia sido doce e ameno. O amargor da bebida parecia ser a confirmação da luta já tão larga em tempo e que ainda não quedara suave, pois ora navegava em meio a procelas, sem que fosse barcaça ou timoneira.
A Marguerita talvez simbolizasse a sexualidade forte, aguçada pelo sal da borda da taça. Só que não se vive na borda e aí o agave da tequila mostrava a crueza da aguardente, sem refino e sem sofismas.
O Uísque é uma bebida longa que vai entorpecendo as dores, aguçando os sentidos e tentando repor a alma em seu devido canto, mesmo que o pranto já não brote pelos olhos, mas umedeça o coração.
E a conversou tomou o rumo dos descompromissos. A mais velha usou de sua argúcia para dizer verdades, misturando verve com a crueza da realidade, sem perder o senso de humor que se fazia vário.
A da marguerita apenas intervia, como uma moderadora de diálogos, a espicaçar, fustigar e plantar revelações na boca de cada interlocutora.
A terceira, despia-se de suas mágoas e mostrava a inquietude guardada com cautela, mas transbordante em gestos e amuos.
A carne crua do salmão era o único elo entre elas. Um elo tenro que, pouco a pouco, desaparecia entre pequenas e literais garfadas, só acompanhadas do pão torrado que já perdera suas características e propriedades. Mas, era noite leve e tudo se dizia sem medo, sem reparar que, em mesa contígua, pessoas estranhas a tudo ouvissem. Importava não, eram as dores do mundo que as tornavam semelhantes, embora, quem sabe, pouco tivessem em comum.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/05/2002.

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A CORÉIA JÁ GANHOU

Amanheci o dia de ontem vendo a prorrogação do jogo entre a Espanha e a Coréia do Sul. Não discuto os erros do juiz egípcio. O concreto é que a Coréia do Sul saiu classificada e vai disputar uma das semifinais da Copa do Mundo de Futebol. Como não sou cronista esportivo, o que me veio à mente ao ver aquele mar de camisas vermelhas no estádio foi o espírito do povo coreano. Estive na Coréia e no Japão e, observando atentamente, pude ver como são diferentes essas duas civilizações.
“Japonês e coreano é tudo igual”, dizemos nós. Puro engano. O Japão é imperial, cauteloso, cerimonioso e de cultura milenar. A Coréia é revolucionária, rebelde, descontraída, obstinada e ainda guarda a mágoa da dominação, por séculos, do Japão. Qualquer enciclopédia mostra isso. Dê uma olhada.
Na segunda metade do Século XX a Coréia foi dividida em duas e teve uma luta fratricida que ainda hoje perdura. A “Guerra da Coréia” ocorreu logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A Coréia foi dividida em duas. Os Estados Unidos colocaram seu tacão na Coréia do Sul e os comunistas na Coréia do Norte.
A Coréia do Norte ainda vive em situação adversa e as tentativas de união, embora lentas, prosseguem. Mas, o que vai destacar aqui é o espírito do povo da Coréia do Sul. E, certamente, é esse espírito, a tal da autoestima, o grande vencedor dessa competição particular travada entre a Coréia do Sul e o Japão. A Coréia do Sul não perdoa as humilhações sofridas dos dominadores japoneses. Houve um tempo em que os coreanos eram apenas mão-de-obra barata, quase escrava, para o Japão.
Depois da Constituição de 1980 a Coréia tomou, literalmente, um chá de dignidade e resolveu crescer, sempre com o objetivo de suplantar o Japão. O que, na verdade, ainda hoje está longe de acontecer.
Mas, sediou, com sucesso, as Olimpíadas de Seul em 1998 e a sua capital é bonita e alegre. Fez fincapé e não aceitou que o Japão fizesse sozinho a Copa de Futebol deste ano de 2002. Lutou e é co-anfitriã.
A primeira vez no mundo em que uma copa é disputada em dois países.
Em qualquer cidade da Coréia do Sul as pessoas riem nas ruas, recebem bem os turistas e todos, especialmente os jovens, têm uma meta: suplantar o Japão. Ontem, no futebol, a Coréia do Sul lavou a sua honra. Está entre as quatro melhores seleções de futebol do mundo e o Japão, desclassificado. Essa é a copa particular já vencida, mas, obstinada, quem sabe, vai lutar por mais, como é de sua índole.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/06/2002.

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APRENDENDO A DESAPRENDER

Estudo administração há muitos anos e tive sempre o cuidado de andar pelo mundo, de olhos bem abertos, para ver o que ensinavam e praticavam por aí afora. Li livros, revistas, teses e artigos. Participei de cursos, congressos, seminários, debates, mesas-redondas e jornadas. Escrevi ensaios, artigos, dirigi empresas e elaborei planos e projetos. Hoje, vejo sem medo, que é preciso desaprender quase tudo o que aprendi. As mudanças na área de gestão foram muito grandes e a velocidade da informação mexeu com todos os paradigmas válidos até quase o final do século passado.
Para citar um exemplo, Maurício Góis, publicou em fevereiro deste ano, no Venda Mais, on line, uma série de maneiras novas de pensar, chamadas de mudanças, que precisam ser entendidas e seguidas para que se tenha a capacidade de sobreviver no trabalho ou na direção de uma equipe ou empresa. Hoje, sabe-se que o trabalho não é mais emprego, no sentido de segurança. Você hoje está empregável. Amanhã, sabe Deus.
Por outro lado, o profissional, qualquer que seja o nível, não deve ser um mero subalterno, mas um colaborador, alguém que critica e interage, pois deve ter a cabeça arejada, grau razoável de sociabilidade e ter, vá lá, a tal da inteligência emocional, entendendo o que é dito e, principalmente, o não verbalizado por palavras, mas atitudes. É preciso fugir das ideias velhas e procurar novas, sempre. Pesquise, invente, descubra oportunidades e faça as coisas certas, repasse os seus conhecimentos para o maior número de pessoas e veja o mundo como se fosse a antiga idéia de país.
O talento, a informação, o conhecimento e a responsabilidade social são o capital que darão qualidade ao seu desempenho e longevidade à sua vida como trabalhador ou chefe. Não esqueça nunca que você está fazendo alguma coisa para alguém. Esse alguém é o cliente. E cliente é para ser bem tratado e não enrolado ou enganado. Se o seu serviço não presta o cliente não volta. Daí é preciso que todos os integrantes da micro à grande empresa, isto é, da birosca da esquina à grande indústria, melhorem a qualidade dos serviços, modificando processos sempre, e persevere na avaliações de desempenhos. Se você não ajuda com afinco a sua empresa, ela vai para o brejo e o seu emprego para o espaço.
Não acredite em chefes ou patrões bonzinhos. Acredite em pessoas justas que cobrem eficácia e estejam dispostas a ajudá-lo a aprimorar os seus conhecimentos seja em cursos, videoconferências, viagens ou lazer e artes. Não acredite que o tempo resolve tudo. Você é que vai passando, o tempo é o tempo, nada mais. Atualize-se, pois a cada dia mais gente está querendo o seu lugar ou montando uma empresa parecida com a sua.
O uso que fará de seu tempo é que mostrará a eficácia do seu talento, capacidade e energia despendidos. Não esqueça nunca de viver em paz com você mesmo e lembre-se de que pensar sempre é, talvez, a grande diferença. Afinal, como é óbvio, o dia tem a mesma duração para todas as pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/07/2002.