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A CORÉIA JÁ GANHOU

Amanheci o dia de ontem vendo a prorrogação do jogo entre a Espanha e a Coréia do Sul. Não discuto os erros do juiz egípcio. O concreto é que a Coréia do Sul saiu classificada e vai disputar uma das semifinais da Copa do Mundo de Futebol. Como não sou cronista esportivo, o que me veio à mente ao ver aquele mar de camisas vermelhas no estádio foi o espírito do povo coreano. Estive na Coréia e no Japão e, observando atentamente, pude ver como são diferentes essas duas civilizações.
“Japonês e coreano é tudo igual”, dizemos nós. Puro engano. O Japão é imperial, cauteloso, cerimonioso e de cultura milenar. A Coréia é revolucionária, rebelde, descontraída, obstinada e ainda guarda a mágoa da dominação, por séculos, do Japão. Qualquer enciclopédia mostra isso. Dê uma olhada.
Na segunda metade do Século XX a Coréia foi dividida em duas e teve uma luta fratricida que ainda hoje perdura. A “Guerra da Coréia” ocorreu logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A Coréia foi dividida em duas. Os Estados Unidos colocaram seu tacão na Coréia do Sul e os comunistas na Coréia do Norte.
A Coréia do Norte ainda vive em situação adversa e as tentativas de união, embora lentas, prosseguem. Mas, o que vai destacar aqui é o espírito do povo da Coréia do Sul. E, certamente, é esse espírito, a tal da autoestima, o grande vencedor dessa competição particular travada entre a Coréia do Sul e o Japão. A Coréia do Sul não perdoa as humilhações sofridas dos dominadores japoneses. Houve um tempo em que os coreanos eram apenas mão-de-obra barata, quase escrava, para o Japão.
Depois da Constituição de 1980 a Coréia tomou, literalmente, um chá de dignidade e resolveu crescer, sempre com o objetivo de suplantar o Japão. O que, na verdade, ainda hoje está longe de acontecer.
Mas, sediou, com sucesso, as Olimpíadas de Seul em 1998 e a sua capital é bonita e alegre. Fez fincapé e não aceitou que o Japão fizesse sozinho a Copa de Futebol deste ano de 2002. Lutou e é co-anfitriã.
A primeira vez no mundo em que uma copa é disputada em dois países.
Em qualquer cidade da Coréia do Sul as pessoas riem nas ruas, recebem bem os turistas e todos, especialmente os jovens, têm uma meta: suplantar o Japão. Ontem, no futebol, a Coréia do Sul lavou a sua honra. Está entre as quatro melhores seleções de futebol do mundo e o Japão, desclassificado. Essa é a copa particular já vencida, mas, obstinada, quem sabe, vai lutar por mais, como é de sua índole.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/06/2002.

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APRENDENDO A DESAPRENDER

Estudo administração há muitos anos e tive sempre o cuidado de andar pelo mundo, de olhos bem abertos, para ver o que ensinavam e praticavam por aí afora. Li livros, revistas, teses e artigos. Participei de cursos, congressos, seminários, debates, mesas-redondas e jornadas. Escrevi ensaios, artigos, dirigi empresas e elaborei planos e projetos. Hoje, vejo sem medo, que é preciso desaprender quase tudo o que aprendi. As mudanças na área de gestão foram muito grandes e a velocidade da informação mexeu com todos os paradigmas válidos até quase o final do século passado.
Para citar um exemplo, Maurício Góis, publicou em fevereiro deste ano, no Venda Mais, on line, uma série de maneiras novas de pensar, chamadas de mudanças, que precisam ser entendidas e seguidas para que se tenha a capacidade de sobreviver no trabalho ou na direção de uma equipe ou empresa. Hoje, sabe-se que o trabalho não é mais emprego, no sentido de segurança. Você hoje está empregável. Amanhã, sabe Deus.
Por outro lado, o profissional, qualquer que seja o nível, não deve ser um mero subalterno, mas um colaborador, alguém que critica e interage, pois deve ter a cabeça arejada, grau razoável de sociabilidade e ter, vá lá, a tal da inteligência emocional, entendendo o que é dito e, principalmente, o não verbalizado por palavras, mas atitudes. É preciso fugir das ideias velhas e procurar novas, sempre. Pesquise, invente, descubra oportunidades e faça as coisas certas, repasse os seus conhecimentos para o maior número de pessoas e veja o mundo como se fosse a antiga idéia de país.
O talento, a informação, o conhecimento e a responsabilidade social são o capital que darão qualidade ao seu desempenho e longevidade à sua vida como trabalhador ou chefe. Não esqueça nunca que você está fazendo alguma coisa para alguém. Esse alguém é o cliente. E cliente é para ser bem tratado e não enrolado ou enganado. Se o seu serviço não presta o cliente não volta. Daí é preciso que todos os integrantes da micro à grande empresa, isto é, da birosca da esquina à grande indústria, melhorem a qualidade dos serviços, modificando processos sempre, e persevere na avaliações de desempenhos. Se você não ajuda com afinco a sua empresa, ela vai para o brejo e o seu emprego para o espaço.
Não acredite em chefes ou patrões bonzinhos. Acredite em pessoas justas que cobrem eficácia e estejam dispostas a ajudá-lo a aprimorar os seus conhecimentos seja em cursos, videoconferências, viagens ou lazer e artes. Não acredite que o tempo resolve tudo. Você é que vai passando, o tempo é o tempo, nada mais. Atualize-se, pois a cada dia mais gente está querendo o seu lugar ou montando uma empresa parecida com a sua.
O uso que fará de seu tempo é que mostrará a eficácia do seu talento, capacidade e energia despendidos. Não esqueça nunca de viver em paz com você mesmo e lembre-se de que pensar sempre é, talvez, a grande diferença. Afinal, como é óbvio, o dia tem a mesma duração para todas as pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/07/2002.

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VINTE ANOS SEM ELE

Ontem fez 20 anos. Fortaleza amanheceu estarrecida com o acidente do avião da Vasp na serra de Pacatuba. Naquela oportunidade, publiquei, neste mesmo DN, o artigo que ora tomo a liberdade de reproduzir.
“É difícil entender certas coisas. A morte, por exemplo. É cruel admitir a nossa dimensão diante dos fatos. Quem não está abalado e, guardadas as proporções, um pouco morto com o desastre de ontem?
Senti, com a minha incapacidade de mudar os fatos consumados o drama pungente de tantas famílias hoje esfaceladas. É triste reconhecer que a mão do destino atingiu, de uma só vez, tantas pessoas que, na sua maioria, tinham o único objetivo de trabalhar e produzir. Desse binômio, trabalho e produção, fizeram sua crença e sobre ele montaram suas empresas, tais quais templos contra o subdesenvolvimento.
Imagino a alegria dos que voltavam da Fenit, alguns pela primeira vez. Extasiados pelo sucesso do que produziram, jamais poderiam admitir que seus compromissos não iriam tão longe. Desses jovens empresários, forjados na camaradagem e na disputa que, ao mesmo tempo, os unia e separava, fica a lembrança de que, de forma espontânea, estavam dando uma contribuição valiosa e decisiva para o futuro do Ceará.
Cada um deles, na dimensão de seu universo, estava se sentindo um Edson Queiroz e o destino trouxe exatamente esse mesmo Edson Queiroz para paraninfá-los em sua última viagem.
Sobre Edson Queiroz não se pode falar sem passionalidade, sem que se invoque tudo o que ele fez. O que dizer de um vitorioso? O que dizer de um obstinado? O que dizer de um líder? O que dizer de um fanático do progresso? O que dizer de um idealista prático? Se é que se pode ser idealista e prático ao mesmo tempo.
De nossa parte, fica a lembrança de um homem quase sisudo, com risos largos quando descontraído, um homem nervoso como todos os que têm uma dimensão maior do universo e um trabalho com 10.000 companheiros que o tinham como comandante.
O engraçado ou paradoxal é que ele morreu como viveu: em um avião de classe econômica, aproveitando a noite para ter mais disponibilidade de tempo para o trabalho, voltando para a sua terra querida, em alta velocidade e, mesmo sem o querer, como a estrela maior desse acontecimento”.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2002.

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O AMOR CURA?

Em uma cidade qualquer deste mundo morava um homem muito solitário. Até aí nada de novo ou surpreendente, pois em todas as cidades há pessoas, homens e mulheres, muito solitárias. Mas esse se imaginava muito mais solitário, de verdade. E a sua solidão era tão forte que, ele próprio, ao olhar no seu rachado, manchado e quase opaco espelho, falava a si próprio: – como vai? E ele próprio respondia: vou só.
Não tinha amigos, colegas, conhecidos, adversários, confidentes, amores, ex-amores ou parentes. Morava só, no fim de uma rua esburacada, num casebre velho que nem chave tinha, bastava uma tramela por dentro e um pano que servia de calço ao sair pela única porta. Herdara de uma tia-avó que morrera tísica, o único parente que lhe restara, pois a mãe faleceu no seu parto e nunca conheceu o pai. Herdara era maneira de dizer, pois nem a tia, tampouco ele, tinha qualquer documento de propriedade. Também ninguém se importava com isso.
Era biscateiro. Pintava ruim, as torneiras consertadas logo voltavam a vazar, os pregos pregados saiam tortos, as paredes rebocadas nunca ficavam lisas e, um dia, ao se meter a eletricista, levou um choque, caiu da escada e daí levado a um hospital público com politraumatismo. Ficou em coma e ao acordar não se lembrava sequer do nome do hospital onde estava. Sabia ser grande, fracas luzes, cheirando a urina e a éter, ouvindo dia e noite choros, gemidos e gritos, e as pessoas de branco o tratando apenas como o prontuário 35 da enfermaria 07.
Engessaram braços, tronco e pernas. Enfaixaram a cabeça. Ninguém dizia seu nome, não falavam com ele. Apenas aplicavam injeções, faziam curativos, abriam sua boca e colocam pílulas com um pouco de água. Todo engessado criara escaras nas costas. Ele sabia que ia morrer, até porque a vida não o interessava mais.
Gemia baixo até quando sentiu que uma auxiliar de enfermagem o tratava com muito carinho. Não sabia nada de amor, mas notou que ela ficava mais tempo que as outras ao lado dele. Limpava-o, penteava seu cabelo, brincava com ele, mas pouco se falavam. Os olhos eram os mensageiros. Ela aparecia pela manhã e ficava até o fim da tarde. Às vezes, pela madrugada. Tirava turnos de colegas, o cobria de atenções e sempre arranjava uma comidinha extra. Ele foi dando atenção à vida. Viu-se pedindo a Deus para ficar bom.
Um ano depois, estava sarado, com pequenas sequelas e uma carteira de aposentado na mão rendendo um salário mínimo mensal. Olhou para a auxiliar de enfermagem, a sua, ao sair do hospital e criou coragem para perguntar: quer morar comigo? Ela respondeu: não. Você é que vai morar comigo. E saiu protegendo o seu ainda lento andar. O dia estava claro e as nuvens brincavam nos céus.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/07/2002.

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O SER, O TER E O PARECER

Contardo Calligaris é um psicanalista italiano que já morou no Brasil e hoje vive entre os Estados Unidos, a Europa e o nosso país. Leitor de almas e escritor sofisticado, comparece às quintas-feiras na Folha de São Paulo. Na semana passada abordou a “crise do mercado ou a crise do sujeito?”, uma crônica-ensaio que me levou a utilizar o finito espaço-tempo usado para devaneios em direção a caminhos sem saber exatamente as saídas. Daí, por exemplo, ter questionado três aspectos da vida: o ser, o ter e o parecer.
O ser é a base. É onde ficam o país, o estado, a cidade, o bairro, a casa em que nasceu, o tipo de família que lhe trouxe ao mundo, com raça, origem e categoria social e formou a sua educação, seja doméstica, formal pela escola, professores e colegas, informal ou social e no que o espelho e a sua consciência revelam e se aceita com ou sem questionamentos.
O ter é aquilo que se agregou a você, sejam bens materiais ou a bagagens cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos valores que acredita positivos para a sua existência. O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu é, sendo.
O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas pessoas querem parecer o que não são e viver o que não têm. É o mundo da aparência, do supérfluo em que uma camisa ou um vestido, por exemplo, é aceita não por sua qualidade intrínseca, mas por ostentar uma marca de alta significação para a imagem de quem usa. Um relógio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as horas, mas pode definir uma posição social de quem, diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é movediço.
A sociedade e, por mais que não queiramos estamos nela envolvidos, cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízos de valor falsos ou verdadeiros. É aquilo que pode ser fabricado com “marketing pessoal “e o sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensa o vazio de não poder ficar consigo mesmo e gostar disso. Algumas pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas. Essas pessoas, certamente, ficam à cata do que se chama de validação. A validação é acreditar no que o outro diz para admitir-se ser aquilo. Não pesa, para o validado, a referência própria, aquilo que a sua essência profunda diz, mas o que lhe é soprado ou gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito.
Esse eterno questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa, talvez necessariamente, pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar e ver a autoestima a partir da própria consciência. Mas, descubro ter começado um assunto que não cabe em crônica. Bem apropriado seria em ensaio ou tese para os quais, infelizmente, faltam-me engenho, densidade e tempo. Como disse Chamfort: “há tolices bem vestidas como há tolos bem vestidos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2002.

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VIAGEM COLORIDA EM PRETO E BRANCO

Recentemente, fiz uma viagem sentado numa cadeira em meio a coisas de ontem. Em duas horas, o tempo de uma sessão de cinema, passeei entre os anos de 38, que antecederam à 2a Guerra Mundial, e o de 63, o que precedeu a Revolução de 64. Mas, fora a contextualização, o que vi foi uma história de amor, simples e bonita. Vi partes de Fortaleza tão aquietada e dolente. A praia de Iracema, com ruas estreitas, sem máculas, e uma lagoa, também de Iracema, mas lá na Messejana provinciana e, então, distante. Vi as cercanias da cidade, serras nativas sem doenças, um navio, o seu tombadilho com cadeiras longas de madeiras, numa viagem mostrando frações de uma natureza rica, com sua graça escancarada e ainda não aviltada.
Vi mais do que isso. Vi o nascer de uma família que, de tão simples, se dignificou. Uma mãe, desmodelada para os dias de hoje, fazia, a bico de pena, singelas e belas ilustrações, acompanhadas de palavras que diziam do momento captado pelo obturador. Vi textos apaixonados de uma mulher. E os de um homem que se transmudava em papai Noel para enlevar a companheira de uma tropa em formação. Vi uma menina nascendo, crescendo, fazendo careta, rindo, sempre pronta e bem cuidada como para ir a uma festa. E era sempre festa, pois eles estavam em comunhão e essa é a maior de todas as festas. Vi outra menina nascendo, formando uma dupla faceira, brejeira e lampeira. E aí veio o príncipe para formar o trio ou o quinteto enamorado da casa no final da ruela da praia.
Vi famílias se ajuntando, compartilhando parentesco e amizade. E, como se fora um conto de fadas, uma menina se fez moça, de amigas se acercou e virou princesa por um dia eternizado. Não deixei de notar a argamassa dessa união consolidada numa casa que ficava bem do outro lado da cidade, perto de uma igreja onde havia remédio para as suas almas. Vi mais, muito mais, entre esmaecidas páginas de álbuns, com cartolinas antigas e papéis de seda clara, que se tornaram de cor sépia, meras fotos em preto e branco, mas coloridas pela essência de vida que transmitem e pelo calor virtuoso e virtual que perpassa as mãos de quem, atento, as perceba com os olhos de sonho.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/09/2002.

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VOCÊ É EMPREENDEDOR?

Um dia destes, fui instado a responder o que era ser empreendedor. A resposta poderá, quem sabe, ser útil a jovens, única razão pela qual a repasso tal qual respondi.
Nasci e cresci em Fortaleza. A cidade estava evoluindo com energia e sempre pensei em crescer com ela, pois havia muito a fazer. Foi o que tentei, desde cedo. Cursei Direito e, ao mesmo tempo, integrei a turma pioneira da Escola de Administração do Ceará, fiz política estudantil e tive o privilégio de conhecer Edson Queiroz, empresário cearense precocemente morto em desastre aéreo, a quem ouvia. Isso me fez procurar ser curioso, instigante, trabalhador e saudável. Quis ser e, pouco a pouco, tornei-me o que se chama hoje de empreendedor.
Empreendedor é quem identifica uma oportunidade e, mesmo que temeroso, enfrenta a luta e atinge o objetivo. Minha primeira experiência foi, ainda estudante, comandar uma pesquisa com 300 homens no campo. Em seguida, descobri que pouca gente trabalhava com planejamento e o BNH havia surgido. Era o nicho. Depois, concluí: se posso planejar para os outros, por que não planejar e fazer para mim? Descobri que a melhor maneira seria estudando sempre, a maioria das vezes por mera curiosidade e de forma casuística. Ao mesmo tempo: viajava, lia muito, assistia a todo tipo de palestra, feira, seminário, congresso e cursos e farejava oportunidades. Cuidava disso com muito trabalho, determinação e objetividade.
Nunca me empolguei com incentivos fiscais e deles nunca me utilizei. Sabia desde cedo que credibilidade só se consegue comprando e pagando em dia, nunca devendo a bancos, tentando fazer as coisas certas ou corrigindo os erros, recrutando gente jovem e potencialmente capaz para ajudar a conduzir o barco do trabalho que, mesmo sem se desejar, pega mares revoltos.
Sou um mutante, pois o novo me atrai e a experiência tenta regular o meu passo. Procuro administrar os medos, agir com cautela, mas com decisão. Parto da certeza de que a mudança é uma constante. O que me obriga, reafirmo, a ser mutante e tentar superar as dificuldades que são muitas e imprevisíveis. Procuro ajustar-me às intempéries, a continuar com liquidez, renovando, sempre, pois as nuvens de incertezas brasileira e mundial são visíveis, mas parto da convicção de que descobriremos saídas. Temos que lutar por isso. Todos os meses, e não necessariamente em outubro, somente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/10/2002.

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BRASILULA

Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja.
A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas tem o pé na miséria. Ou melhor, tem os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências.
Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se acultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimentos de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor.
Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe – que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal. Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental. Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, aceita-se. Assim é a democracia que, entre outras coisas, tem a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado.
Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre socialismo, neoliberalismo e política de resultados. A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver, uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável – que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres. Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/10/2002.

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ELAS NÃO FALAM

Para quem não sabe: sou um “cinemeiro”. Gosto de filmes em tela grande e dos que mexem com a nossa cabeça. Gosto de ver além do filme, atento aos detalhes. É um exercício a que me proponho desde a juventude e fico alegre quando por quase duas horas somos, por exemplo, impactados pela dureza e a beleza das danações do Pedro Almodóvar em “Fale com Ela”. Não se pode, por menos que se deseje, dissociar a opção sexual e o amor extremado à mãe de Pedro Amodóvar das situações que cria neste seu novo filme. Benigno é o filho da mãe. Aquele que sacrifica vinte anos de sua vida ao lado de uma mãe que dele exige tudo. Resta-lhe a réstia de uma janela onde a sua utopia de amor é transferida para uma desconhecida inatingível, Alicia. São dois vidros, uma rua e um mar de diferenças. A carteira caída ao chão, apanhada por Benigno e entregue à Alicia, um clássico recurso, não serve para atar os laços pretendidos. E ela se vai por trás do grave portão. Fazer-se analisado pelo pai dela é uma tentativa de aproximação e mostra a sua ambigüidade como ser humano o que o habilitará, paradoxalmente, no futuro, a cuidar de Alicia.
Na outra trama, Lydia e Marco vivem uma relação conflituosa e a toureira destemida tem medo de cobras. O matador de cobras é um homem que chora ao ouvir música e ambos se encontram em seus descaminhos de segunda ronda.
Para unir essas situações díspares surge o hospital “El bosque”, – seria uma alegoria à Bela Adormecida no bosque? – ao qual são levadas, em tempos diferentes, em coma profundo, as duas mulheres do filme, Alicia e Lydia. É nesse cenário em que as relações de dois homens diferentes por suas naturezas – um é enfermeiro-terapeuta e outro é jornalista-escritor – passam a se casar. E o casar aí é a minha mordacidade, pois Almodóvar faz questão de manter um clima de amizade que beira à amor.
E tudo acontece de forma surrealista, mas com uma naturalidade que faz rir e comover. Não importa se o que se conta é verossímil, não importa nada. O que Almodóvar e seus personagens desejam passar é, entre outras coisas, a mensagem que as pessoas só se comunicam quando um fala e o outro, bem o outro é o outro.
Não se discute o final do filme, as razões das músicas cantadas por Caetano, visualmente parecido com a toureira Lydia, e Elis Regina em “off” – quando a toureira é golpeada – mas a sua tessitura intimista, limítrofe de monólogos recheados de sensualidade não compartilhada e a consciência de que é possível amar unilateralmente, mesmo que isso doa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/11/2002.

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A CORNUCÓPIA E O OBOÉ

Na mitologia grega dizia-se que Zeus ou Júpiter tinha o poder de fazer com que um chifre de cabra – a cornucópia -enchesse com tudo o que se desejasse. E a criou em retribuição às ninfas que cuidaram dele, abandonado que fora, em sua infância. Seria o símbolo da abundância. Hoje serve como símbolo de negócios. A par disso, sabe-se que o oboé é um instrumento de sopro surgido há milênios, remontando à China ou à antiga Grécia de onde derivaria do aulo, que também era soprado, tinha palheta simples ou dupla, com um ou dois tubos furados por onde saiam os sons. O oboé é feito de madeira com um tubo ligeiramente cônico e emite, quando soprado, sons que são preciosos em uma orquestra sinfônica.
E qual a relação entre uma cornucópia e um oboé? Nada e tudo.
Nada se os virmos de forma isolada. Uma, a cornucópia, é fruto da antiga civilização grega e passou à história da humanidade sob a forma didática da mitologia. O outro, o oboé, é resultado de trabalho de artesãos que o foram aprimorando por séculos e séculos e hoje tem palheta dupla, três chaves, e é soprado, saindo o som por seis orifícios. Tudo, se admitirmos que, visualmente, os dois têm algo de parecido e que, talvez sem saber, um contador que, por profissão, vê tudo pelo método cartesiano das partidas dobradas quando há ou não abundância ou lucro, os uniu. Uniu mitologia à música e, querendo ou não, passou a fazer artes em meio a números. Paradoxal? Mas o que é a própria vida senão um grande e indecifrável paradoxo?
Pois foi assim que Newton Freitas, ao procurar sedimentar a imagem cultural de seu negócio de valores despeja sobre seus clientes e amigos uma cornucópia de informações sob a forma de dicionários. Já misturou finanças com vinhos e artes. E o faz de forma didática, como se estivesse analisando contas, expressando pensamentos de “auditores culturais”, com a simplicidade capaz de dar aos não iniciados um caminho para a informação básica que, sedimentada, poderá se transformar em conhecimento. E o conhecimento é que gera, por decantação e apuro, a cultura.
É bom que nestes tempos alguém ouse coligir verbetes, os reúna sob a forma de dicionários e os distribua com prodigalidade na esperança de que sirvam para a alegria dos que ainda acreditam que não se vive só de cornucópias ou valores, mas é preciso também ouvir oboés em meio a sinfonias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/11/2002.