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BRASILULA

Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja.
A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas tem o pé na miséria. Ou melhor, tem os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências.
Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se acultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimentos de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor.
Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe – que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal. Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental. Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, aceita-se. Assim é a democracia que, entre outras coisas, tem a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado.
Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre socialismo, neoliberalismo e política de resultados. A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver, uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável – que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres. Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/10/2002.

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ELAS NÃO FALAM

Para quem não sabe: sou um “cinemeiro”. Gosto de filmes em tela grande e dos que mexem com a nossa cabeça. Gosto de ver além do filme, atento aos detalhes. É um exercício a que me proponho desde a juventude e fico alegre quando por quase duas horas somos, por exemplo, impactados pela dureza e a beleza das danações do Pedro Almodóvar em “Fale com Ela”. Não se pode, por menos que se deseje, dissociar a opção sexual e o amor extremado à mãe de Pedro Amodóvar das situações que cria neste seu novo filme. Benigno é o filho da mãe. Aquele que sacrifica vinte anos de sua vida ao lado de uma mãe que dele exige tudo. Resta-lhe a réstia de uma janela onde a sua utopia de amor é transferida para uma desconhecida inatingível, Alicia. São dois vidros, uma rua e um mar de diferenças. A carteira caída ao chão, apanhada por Benigno e entregue à Alicia, um clássico recurso, não serve para atar os laços pretendidos. E ela se vai por trás do grave portão. Fazer-se analisado pelo pai dela é uma tentativa de aproximação e mostra a sua ambigüidade como ser humano o que o habilitará, paradoxalmente, no futuro, a cuidar de Alicia.
Na outra trama, Lydia e Marco vivem uma relação conflituosa e a toureira destemida tem medo de cobras. O matador de cobras é um homem que chora ao ouvir música e ambos se encontram em seus descaminhos de segunda ronda.
Para unir essas situações díspares surge o hospital “El bosque”, – seria uma alegoria à Bela Adormecida no bosque? – ao qual são levadas, em tempos diferentes, em coma profundo, as duas mulheres do filme, Alicia e Lydia. É nesse cenário em que as relações de dois homens diferentes por suas naturezas – um é enfermeiro-terapeuta e outro é jornalista-escritor – passam a se casar. E o casar aí é a minha mordacidade, pois Almodóvar faz questão de manter um clima de amizade que beira à amor.
E tudo acontece de forma surrealista, mas com uma naturalidade que faz rir e comover. Não importa se o que se conta é verossímil, não importa nada. O que Almodóvar e seus personagens desejam passar é, entre outras coisas, a mensagem que as pessoas só se comunicam quando um fala e o outro, bem o outro é o outro.
Não se discute o final do filme, as razões das músicas cantadas por Caetano, visualmente parecido com a toureira Lydia, e Elis Regina em “off” – quando a toureira é golpeada – mas a sua tessitura intimista, limítrofe de monólogos recheados de sensualidade não compartilhada e a consciência de que é possível amar unilateralmente, mesmo que isso doa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/11/2002.

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A CORNUCÓPIA E O OBOÉ

Na mitologia grega dizia-se que Zeus ou Júpiter tinha o poder de fazer com que um chifre de cabra – a cornucópia -enchesse com tudo o que se desejasse. E a criou em retribuição às ninfas que cuidaram dele, abandonado que fora, em sua infância. Seria o símbolo da abundância. Hoje serve como símbolo de negócios. A par disso, sabe-se que o oboé é um instrumento de sopro surgido há milênios, remontando à China ou à antiga Grécia de onde derivaria do aulo, que também era soprado, tinha palheta simples ou dupla, com um ou dois tubos furados por onde saiam os sons. O oboé é feito de madeira com um tubo ligeiramente cônico e emite, quando soprado, sons que são preciosos em uma orquestra sinfônica.
E qual a relação entre uma cornucópia e um oboé? Nada e tudo.
Nada se os virmos de forma isolada. Uma, a cornucópia, é fruto da antiga civilização grega e passou à história da humanidade sob a forma didática da mitologia. O outro, o oboé, é resultado de trabalho de artesãos que o foram aprimorando por séculos e séculos e hoje tem palheta dupla, três chaves, e é soprado, saindo o som por seis orifícios. Tudo, se admitirmos que, visualmente, os dois têm algo de parecido e que, talvez sem saber, um contador que, por profissão, vê tudo pelo método cartesiano das partidas dobradas quando há ou não abundância ou lucro, os uniu. Uniu mitologia à música e, querendo ou não, passou a fazer artes em meio a números. Paradoxal? Mas o que é a própria vida senão um grande e indecifrável paradoxo?
Pois foi assim que Newton Freitas, ao procurar sedimentar a imagem cultural de seu negócio de valores despeja sobre seus clientes e amigos uma cornucópia de informações sob a forma de dicionários. Já misturou finanças com vinhos e artes. E o faz de forma didática, como se estivesse analisando contas, expressando pensamentos de “auditores culturais”, com a simplicidade capaz de dar aos não iniciados um caminho para a informação básica que, sedimentada, poderá se transformar em conhecimento. E o conhecimento é que gera, por decantação e apuro, a cultura.
É bom que nestes tempos alguém ouse coligir verbetes, os reúna sob a forma de dicionários e os distribua com prodigalidade na esperança de que sirvam para a alegria dos que ainda acreditam que não se vive só de cornucópias ou valores, mas é preciso também ouvir oboés em meio a sinfonias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/11/2002.

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O NATAL E A FOME

Fala-se em Natal sem fome. Pensa-se que um, dois ou cem quilos de alimentos aplacam nossa consciência. Cuida-se que um cartão de Natal nos redime dos esquecimentos do ano todo. Pensa-se tanta coisa nesta época. E até se pensa que só agora é preciso pensar mais nos outros. Entender, por fim, que a vida é uma sucessão de elos nos tornando brutos ou gente. Tenta-se usar um spray que espalhe pelo ar a fragrância da fraternidade e, ao mesmo tempo, estanque a dor de tanta gente querida. Gente que está aqui lutando para viver, em meio às apreensões e dúvidas do dia a vir.
A fome não se aplaca com meros quilos de alimentos de segunda. A fome só acabará com atitudes de primeira. Menos melodrama e mais consciência. Menos espetáculo e mais ação. Vivemos num mundo em que se gasta mais na mídia para se dizer que se construiu uma creche que o valor da própria creche. É preciso dar um fim ao mundo do faz-de-conta e viver num mundo em que o outro é quem conta. Não importa o que vai ao ar ou fica escrito, importa o que faço pelo outro, sem que ninguém veja ou saiba. Sem o estardalhaço da fraternidade religiosa ou midiática. É dentro de nós que a fome de aparecer tem que começar a acabar. Tirar das entranhas dos nossos sentimentos as respostas ao bem-querer verdadeiro, em que o outro não seja apenas alguém que vejo, mas com quem interajo, troco sonhos e busco soluções para nossa vida e a dos outros.
Há, certamente, gente a quem amamos, mas é preciso que se tenha a coragem de dizer isso a ele ou a ela. Olha, eu o(a) amo. Vamos nos inteirar, deixarmos de ser meros pedaços de nós mesmos e formar vidas inteiras. Quando tivermos a coragem de amar de verdade, sem peias, aí o mundo vai ficar com menos fome. Não importa quem seja você, nem quão bom se ache. Há muito a melhorar. E isso não é pieguice de época de Natal. É um sacolejo que devemos fazer sempre em nossas vidas. A fome não é só produto da injustiça social. Ela é a cara da nossa indiferença pessoal, desse individualismo que nos isola até dos mais próximos. Prometa a você: vou dizer a alguém que ele – ou ela – é importante para mim. Não importa que ele – ou ela – não lhe dê ouvidos. Insista, invada a sua privacidade e achegue-se. Achegue-se, abanque-se, troque energia, chore, ria dos erros cometidos. Perdoe. Perdoe-se. A vida é assim mesmo, complicada. Descomplique-se, pois. Apresse-se, a fome só se aplaca se você se der. Mexa-se. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/12/2002.

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ESCRITOR OU EMPRESÁRIO?

Algumas pessoas perguntam por que, ao lado do meu nome aí no título, está a palavra escritor. Ora, certamente, porque estou exercendo aqui neste espaço o ofício de escrever. Não contentes com a resposta, alguns perguntam: mas você não é empresário? Sou, também. Ninguém tem que ter obrigatoriamente um só ofício, um só dom, um só problema e uma única solução. Todo o saber – ou a prática acumulada – vai sendo dirigida ao que se precisa para viver e também ao que nos dá prazer. Escrever, para mim, foi e é uma das atividades mais prazerosas. Tentei ser pianista, não consegui. Só pintei um quadro e fui um esportista de terceira categoria, até um braço quebrei jogando vôlei.
Agora, escrever foi um hábito que veio desde a adolescência, quando já lia muito, fazia diários e imaginava que escrevia crítica de cinema. De repente, estava formado e precisava cuidar de ser advogado ou administrador. Já tinha trabalhado em jornal e sido correspondente de uma revista. Optei por ser administrador e fui juntando a pouca experiência com muita pretensão e destemor. Sem que me desse conta, virei empresário. Foi duro, muito duro. Deus sabe.
Isso foi há 35 anos. Em março de 1969 era empresário com a coragem e a cara e, logo em maio, casei. A família é a base de tudo. No dia 31 de agosto do mesmo ano o Presidente Costa e Silva tiveram um derrame e assume uma junta Militar. O Brasil pára. E eu fico tonto. Decidem escolher Médici e o país volta a funcionar. Eu tento acompanhar o ritmo. Em 1974 o Gen. Geisel assume o poder, coincidindo com o fim do milagre econômico. Eu procuro entender e fico aturdido. De Geisel para cá já tivemos 09 presidentes (Geisel, Figueiredo, Tancredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula). Esses 09 presidentes já criaram 09 moedas diferentes, tivemos 05 planos econômicos e 18 ministros da Fazenda. Todos tinham a pretensão de salvar o Brasil e fizeram o que sabiam. Eu é que ia entendendo menos. Ora, com tanta confusão, crises econômicas, impostos novos e problemas para resolver, é preciso que um empresário – ou qualquer outra pessoa – procure uma válvula de escape. A minha sempre foi ler e escrever. Mania essa, como já disse, vinda de longe. Em meio a jornadas de trabalho de até três turnos, viagens de todas as naturezas e para quase todas as partes do mundo, o livro sempre foi a companhia indispensável. A par disso, ia escrevendo em máquinas de escrever, em todo pedaço de papel que encontrava, até que o computador pessoal entrou na minha vida. Sem querer – ou querendo – já faz mais de 20 anos que publico artigos, sempre aos domingos. O grande escritor Monteiro Lobato também era empresário e brigão. Tá explicado?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/2004

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O AMOR ATUAL

Somos todos frutos do amor. Seja ele duradouro ou circunstancial. De uma forma ou de outra, temos uma família que nos insere no mundo. Um dia, deixamos de ser filhos, e passamos a ver o amor como a mais legítima forma de estabelecer novos laços afetivos. A partir desse dia, vemos que é preciso encontrar uma pessoa a quem possamos amar, através de um processo de aproximação sucessiva, manter essa relação atraente, não desgastante-sufocante e viva com o correr do tempo, seja curto ou longo. E ao lado do amor, deixar fluir a vida real.
Vivemos, quer queiramos ou não, o tempo da pós-modernidade, essa coisa meio chata de definir, mas que pode ser encarada de vários ângulos e aspectos. Por sermos humanos, não temos selos de garantia, somos fracos e falhos. E temos urgência em viver relacionamentos que nos deem prazer, apoio e danifiquem o menos possível os nossos sentimentos. Além de tudo isso, como vivemos contextualizados, não podemos fugir muito das regras sociais da família, grupo e local. Somos comparados e comparamos. Temos que crescer profissionalmente, também. “Isto é básico”, na linguagem atual.
Esse mundo pós-moderno (do computador, celular, emprego externo ou em casa, contas divididas, insegurança pessoal e coletiva, caixa eletrônico, carro, liberdade, viagras e hormônios, corpos malhados ou remodelados querendo parar o tempo, motéis e da fragilidade dos relacionamentos) fez o ser humano ficar ainda mais tímido e confuso, admitindo que o seu amor pode se esvair rapidamente.
Hoje, além de todas as artimanhas do amor, os casais têm que formar uma sólida base econômico-financeira que os proteja da volatilidade dos empregos e da incerteza do futuro que é a única certeza.
Por tudo isso é que já não se estranha que uma pessoa entre em um relacionamento sem encerrar as contas do anterior, de modo a descobrir no outro o que falta “naquele, de antes”. Se der certo, fecha as contas de um e abre outra. Há, ainda, as categorias de casados-mornos ou casados-(a)parentes. Nelas, os parceiros têm consciência do desgaste da relação, esperam que os filhos cresçam ou que o tempo faça um milagre.
Os amores, até em casas separadas, e não mais apenas em quartos separados, são indícios da fragilidade da consistência afetiva entre as pessoas. Por outro lado, a liberdade atingida permite ainda a troca continua de parceiros, o que banaliza o relacionamento. Ficar com alguém é distinto de amar alguém. Sair para ver o que vai dar é diferente daquela busca romântica e finita do outro. O verdadeiro encontro ou prazer só se dá com o amor. O tempo não é santo, pois é contaminado pelo dia-a-dia da vida crua e nua, que vemos dentro e fora de nossas janelas. O resto é ato.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/2004.

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CEARÁ: A FORTAL DA CULTURA

O mês de julho serviu para debates e embates jurídicos se haveria ou não o Fortal, o carnaval fora de época. Cada dia parecia uma luta por medalha. Hoje, perde. Amanhã, ganha. Acabou havendo. Agora, neste final do mês de agosto, o Ceará vai virando um banco de cultura, do jeito que Lúcio Alcântara gosta e tenta, como intelectual assumido, sedimentar em nossa terra. Estou dizendo banco, no sentido de dizer que a cultura está viva por aqui, pulsando, com a troca de energia que torna as pessoas mais instruídas e valorizadas.
De um lado, no aterro da Praia de Iracema, encerra-se hoje o Circuito Cultural Banco do Brasil que tenta popularizar a cultura, torná-la pública, com atividades gratuitas e outras a preços baixos. Armou tendas na praia e apostou em atrair público, especialmente o jovem, aquele que ainda está descobrindo que a curiosidade é filha da informação. E a informação é mãe do conhecimento. E o pai de tudo isso é o saber. Essa coisa que vai ficando sedimentada em nós, depois que todos os nossos sentidos são aguçados e resta lá no fundo da mente. O objetivo era que os jovens de idade e os de espírito deixassem suas tocas, unissem suas tribos e vestissem suas roupas de guerra, os seus “abadás”, nesta Fortal cultural, sem música baiana e sem confusão, e se misturassem, perguntassem, ouvissem, cantassem, discutissem e tentassem aprender e apreender um pouco sobre a arte e a cultura.
Ao mesmo tempo, já começou a Bienal Internacional do Livro do Ceará, um charmoso evento que vai até o dia 07 de setembro. Com sede fixa no Centro de Convenções, estará também espalhada por alguns pontos da cidade. Será a Bienal fora da Bienal. É só acompanhar a programação pelo jornal, que dará destaques diários aos acontecimentos. A Bienal tem milhares de livros de autores consagrados, estreantes, clássicos e populares e as muitas editoras vão brigar para vender bem. Haverá mostras, reuniões, shows, atrações musicais, debates, travessias, gastronomia, declamações, instalações, e, claro, até vendas de livros a preços promocionais com a presença e autógrafos de escritores brasileiros e estrangeiros.
O livro, desde que lido, é uma excelente moeda de troca no jogo da vida, especialmente neste Século XXI. O livro é também o amigo mais disponível e nunca reclama quando mexemos com ele. Ninguém é solitário se gosta de ler. A Bienal é uma feira livre de cultura, mercado aberto do saber e lugar agradável para se ver gente inteligente ou que posa de “culturette” com alguns livros debaixo do braço ou em uma sacola. Essa é uma programação recomendada até para quem não gosta de ler, o que não é o seu caso, pois se assim fosse você não estaria finalizando a leitura deste artigo.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/2004.

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DIALOGAR COM MOACYR SCLIAR

LIVROS
Moacyr Scliar na bienal
Fui avisado, na semana passada, por uma das coordenadoras desta Bienal, que tinha sido escolhido para dialogar com Moacyr Scliar. Por que eu? João, deixe de conversa, será sexta-feira, dia 3, às 19 horas. Um beijo e desligou. Fico matutando e lembro que li recentemente uma pequena coleção chamada de “Vozes do Golpe”, da Companhia das Letras, e que um desses pequenos e preciosos quatro livros, era “Mãe Judia”, 1964, de Moacyr Scliar.
Certamente, o exercício a que se propôs Scliar é prova de sua reconhecida capacidade de transposição do real para o imaginário e, ao mesmo tempo, de misturar real e imaginário ao criar uma mãe doente mental, que se vê em um hospital psiquiátrico e passa a falar de seu filho desaparecido e da sua vida para uma capela vazia e é objeto de escuta psiquiátrica e política, pois a coisa vem de longe, não é de agora. Relembro de Max e os Felinos e, certamente, de O Centauro e o Jardim, entre outros. E claro, de suas gostosas e sarcásticas crônicas, das segundas feiras, na 2ª página do caderno Cotidiano, da Folha de São Paulo, do qual sou assinante há décadas.
Encabulado, ligo para a casa de Moacyr Scliar. Era fim de tarde. Ele está em meio a uma entrevista e falamos rapidamente. Digo, de saída, a verdade. Sou um mero escrevinhador amador de província e que tinha sido designado para um bate-papo com ele na Bienal. Ele responde rápido e vai retomar a sua entrevista.
É cobra criada e uma bienal a mais não fará diferença para ele. Para mim, sim, pois estava falando com um ficcionista do tamanho dos pampas com uma experiência literária que faz inveja a qualquer grande escritor latino americano.
Traduzido, entre outras línguas, em espanhol, inglês, alemão, holandês, sueco, francês e hebraico, Moacyr Scliar tem prêmios que dariam para tornar célebres muitos escritores. Um escritor para cada prêmio.
Quem tem os prêmios Joaquim Manoel de Macedo, Érico Veríssimo, Cidade de Porto Alegre, Guimarães Rosa, Brasília, Jaboti, Associação Paulista de Críticos de Arte, Casa de Las Américas, em Cuba, Pen Clube do Brasil, José Lins do Rego, este da Academia Brasileira de Letras, pode, e tem o direito, de ser consciente de sua capacidade literária e receber de todo o público brasileiro a consagração que merece.
E eu metido com ele. Imagina a minha perturbação.
Resolvo, de forma audaciosa, mandar um livro meu para ele por Sedex e, após três dias, ligo novamente. Ele ainda não havia recebido o livro. Falei da minha apreensão sobre o nosso bate-papo. Moacyr disse que não carecia de eu me preocupar. E eu tremendo de medo. Tudo bem. Chegou a hora.
Trocamos poucos e-mails e estou aqui nesta arena tal qual os cristãos lutando contra leões na Roma antiga. Seja o que Deus quiser.
Direi apenas, o que todos já sabem, Moacyr Jaime Scliar é uma das maiores referências da literatura brasileira dos últimos 30 anos e, certamente, esta é a razão básica de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 2003, com 35 votos entre 36 eleitores.
Sua história pode ser sumariada assim: Seus pais vieram da Besarábia para trabalhar em um projeto de colonização agrícola no interior do Rio Grande do Sul. Ocorre que o projeto já estava no fim e eles mudaram para Porto Alegre onde Moacyr Scliar nasceu no ano em que Vargas, seu conterrâneo, resolveu criar o Estado Novo, sob a inspiração do jurista Francisco Campos com toda a roupagem do fascismo que se instalava na Europa e começava a fustigar os judeus e toda a humanidade.
A família morava no Bairro do Bom Fim, área de imigrantes, e Moacyr, além dos ensinamentos básicos recebidos de sua mãe, foi estudar, em 1943, na Escola Iídiche, que viria a ser futuramente o Colégio Israelita Brasileiro. Em seguida, em 1948, Scliar é transferido por sua família para um educandário católico, o Colégio Rosário. Menino, já era o escritor da família e do seu bairro, pois tudo colocava no papel, de pão que fosse.
Em 1955, entra na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de onde sai formado no ano em que o seu conterrâneo João Goulart comemorava o primeiro ano de governo. Mal sabia ele o que viria depois.
Diploma na mão e já com um primeiro livro pronto, “Histórias de um Médico em Formação”, em que conta a sua experiência acadêmica.
Ingressa no SAMDU, uma instituição médica pública que a Revolução resolveu extinguir. Especializa-se em saúde pública com ênfase em medicina sanitária. A sua vocação de médico, exercida em plenitude, o fez estudar a vida e a obra de Noel Nutels e Oswaldo Cruz. Desse estudo, saíram dois livros.
A partir de 68, o ano que antecedeu o Ato Institucional nº 05, surgiu “O Carnaval dos Animais” e não parou até hoje. São quase 70 livros entre romances, novelas, contos, ficção juvenil e ensaios, expostos nas livrarias da Bienal do Livro do Ceará que teve a honra de recebê-lo sexta à noite.

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2004.

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MÉXICO NO CEARÁ

Neste início de setembro, o México se fez presente no Ceará em duas áreas distintas. Primeiro, foi a participação de Felipe Ehremberg, Adido Cultural da Embaixada Mexicana no Brasil, e Mário Gutiérrez, da Secretaria de Cultura da Cidade do México, que vieram apresentar, na Bienal Internacional do Livro, o programa “Arte por todas as partes”, um caleidoscópio de arte que culminou com a reafirmação do convite oficial para que Fortaleza e o Ceará se façam representar, por artistas e escritores, na Feira de Zócallo, uma grande feira artístico-cultural que começará em 08 de outubro próximo e que terá a duração de dez dias.
A Feira de Zócallo fica na parte central da cidade do México e terá uma área destinada preferencialmente ao Ceará, o Estado convidado, de forma a permitir uma maior aproximação entre as culturas mexicana e brasileira, tão ricas e tão desconhecidas uma da outra. É de se acreditar que esta oportunidade seja correspondida e que Fortaleza e o Ceará possam levar uma delegação à altura de nossas aspirações de inserção no mundo, tão duramente perseguida por Floriano Martins, em um trabalho sem trégua.
Em segundo lugar, a Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo, com uma grande comitiva, veio com professores, pesquisadores e até empresários, para a formatação e assinatura de convênio com a Universidade Estadual do Ceará, bem como contatos com o Padetec, Partec, Unidade de Agropólos, Banco do Nordeste e com a Federação das Indústrias, onde foram examinadas possibilidades de cooperação científica e tecnológica.
Estes dois fatos mostram o interesse objetivo que o México tem demonstrado de aproximar-se do Brasil e, por conta de um trabalho que já se faz maduro, especialmente com o Ceará, que tem procurado a superação de dificuldades e dar um salto de qualidade, tanto na área cultural, como em suas exportações, ainda tão pouco significativas. Não basta procurar, é preciso expor e expor-se.

João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2004.

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LEITURA DE BORDO

Costumo ler quando viajo em aviões. E, naturalmente, procuro ver o que os passageiros ao alcance da minha vista estão lendo. Nas viagens de curta duração há uma tendência para a leitura de jornais e revistas da semana, distribuídos pelos comissários. A maioria folheia e passa pouco tempo lendo. Depois, vêm as revistas das próprias companhias aéreas. Elas são bem diagramadas, geralmente bilíngues com propagandas de bens e artigos finos. Trazem matérias leves, bem-humoradas e, quase sempre, mostram assuntos de moda, variedades e fotos em profusão em reportagens sobre cidades onde há escalas ou interesses. Nessas revistas, há espaços para cronistas consagrados que, com sutileza, tentam distrair os passageiros do medo de viajar, dos raros vácuos, da proibição de fumar, cintos atados e até do gordo vizinho que teima em aboletar-se do braço da poltrona que, imaginávamos, seria nosso.
Nos voos de ponte-aérea é comum a leitura de relatórios empresariais, uso de notebooks, e a preparação de agenda de trabalho. Nos voos longos aí a coisa fica mais nítida, e se descobre quem realmente gosta de ler. É raro, mas há pessoas que leem romances e ensaios. Essas são as que se fecham e se isolam. Geralmente usam óculos e, quase sempre, são maiores de 30 anos. Não sei dizer se a maioria dos leitores é constituída por homens ou mulheres, considerando que cerca de 60 a 70% dos passageiros, via de regra, é formada por homens a trabalho. Mas não é raro mulheres executivas, com pretinhos básicos ou blazers, lendo, mexendo em suas geringonças eletrônicas ou, distraidamente, folheando revistas de fofocas com celebridades ou emergentes.
Como o avião ainda é um meio de transporte teoricamente elitista, fácil é a constatação de que o brasileiro escolarizado não é muito chegado à leitura, mesmo descontando o tédio de ficar algumas horas no ambiente confinado, poluído e comunitário de uma cabine fechada em que sons e odores se misturam com o ar seco e artificial. No último voo que fiz, em uma escala, esqueceram, na poltrona vizinha, algumas revistas dais quais eu nunca tinha ouvido falar: Up Date, Revista Mensal da Câmara Americana de Comércio; B2B (computação em ambiente de negócios); IC World, publicação da Siemens sobre informação e comunicação; Ao lado de títulos técnicos como estes, um horóscopo chinês e um mapa astral de pessoa bastante conhecida, anunciando que poderia morrer em acidente. Ainda bem que ela não estava no voo.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2004