“A doença nasce em silêncio. Seja pela ação de germes, ou substâncias nocivas, ou por processos endógenos, sutis alterações processam-se nas células: é a enfermidade em marcha. Quietamente, imperceptivelmente, implacavelmente. Em algum momento, algo acontecerá, uma dor, falta de ar, palpitação, hemorragia”. Este texto é do escritor e médico Moacyr Scliar no livro “A Paixão Transformada”. Régis Jucá sabia e cuidava disso com a competência de cirurgião, senso de humanidade e o convencimento de terapeuta.
Régis Jucá saía da UFC quando eu ainda estava entrando. Lá, os que fizeram política universitária, tinham conhecimento da trajetória do Régis no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina e no Diretório Central dos Estudantes. Fomos a geração seguinte e nos espelhamos nos que tinham nos precedido. Régis era um deles.
Depois, de uma forma espontânea e meio anárquica, formou-se há mais de 30 anos sob os auspícios de Edson Queiroz o que hoje se chama de “Turma dos Sábados”. Régis foi um dos fundadores e expoentes, embora essa turma, por sua natureza, seja iconoclasta. Ele era assíduo, referência e um hábil contador de histórias. Falava de suas viagens, seus cursos e professores, de figuras humanas, entre outras, de Juscelino e Edson Queiroz, mas pouco se referia aos seus êxitos como cirurgião. Tivemos divergências. Mas a sós, conversávamos e víamos que tudo era bobagem, mera bobagem.
Leitor de jornais, um dia bem cedo me liga e fala que havia acabado de ler um artigo que eu escrevera: “Hospitais, ante-sala da morte”. Nele eu reclamava da falta de pronto atendimento – no hospital em que Régis pontificava – levando à morte (hemorragia interna) o nosso amigo comum Afrânio Santa Cruz. Régis justificou o fato por ser um fim-de-semana próximo do carnaval em que a emergência fica a cargo de médicos neófitos e conversamos longamente. Régis era um defensor de sua categoria, mas não fazia alarde disso. Agia assim, em surdina.
Outra história: Régis era candidato ao Senado, seu partido começou a boicotá-lo e ele renunciou à postulação. Escrevi um artigo elogiando a renúncia do Régis em face das injustiças cometidas pelo partido. Ele telefona agradecendo o apoio e tenta justificar a fraqueza dos homens. Deixava de ser candidato, mas continuava um animal político, opinando, escrevendo e influenciando pessoas do seu vasto círculo. Falava com convicção e tinha estofo.
Ontem, foi o primeiro sábado da turma sem o Régis. Essa turma já perdeu grandes figuras: Astrolábio e Edson Queiroz, Alcimor Rocha, Newton Gonçalves, Raul Fontenelle, Tancredo Carvalho e agora, Régis Jucá. Certamente, Régis terá muito com quem conversar e debater, pois os que já se foram são um time de primeira grandeza, brilhantes e polêmicos. Creio que os amigos não desaparecem, mudam de dimensão.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/10/2004
DEPOIS DAS ELEIÇÕES, VEM A PRÁXIS POLÍTICA
Desde agosto que o povo brasileiro está envolvido com as eleições municipais. Todos ouviram, leram, viram, meditaram e, muitas vezes, ainda ficaram inseguros. Agora, veio o segundo turno, e parece que muita gente estabeleceu, conforme seus padrões de referência, uma espécie de empática lúcida. A empatia lúcida, nestes tempos de hoje, é votar não só com quem nos identificamos, mas no provável e possível vencedor.
Os eleitores, calejados de tantas decepções, ainda assim aceitam os cenários, as falas, as tramas e as promessas. Mas, hoje não gostam de perder, querem votar no vencedor, mesmo sem entenderem bem o porquê. Não é para isso que as pesquisas existem?
O processo democrático das eleições é uma forma elegante de se prometer mais do que se pode cumprir. Isso não é regra apenas para as eleições municipais. Vale para todas as eleições, até para a badalada eleição americana, tão ciosa de seus padrões éticos e tão vulnerável na sua antiquada forma de colégio eleitoral. O que se viu nos últimos meses, do Acre ao Rio Grande do Sul, foi a tentativa de misturar política com moral. Esqueceram -ou até será que estavam lembrados, mas faziam de conta que não? – os especialistas em marketing que política e moral são assuntos de filosofia. A crueza da realidade do marketing político imagina que a pessoa em si vale pouco, o que conta são os grupos na formação da opinião. A moral é uma questão individual, mas os grupos agem, influenciam e contam. Por tal razão é que as pessoas tentam não se isolar, formam grupos de naturezas diversas, e disso os políticos sabem muito bem como cuidar.
E sabem também, que ao contrário da filosofia e da ciência política, a atividade política não antagoniza o saber e a ignorância, a mentira e a sinceridade. Na verdade, a práxis da política dos candidatos mexe com forças e opções. Os políticos não são testados, são escolhidos, em um combate meio insano de correlação de forças e valores.
Passada a pirotécnica das duas eleições, aqui e alhures, é hora de deixar os marqueteiros em remunerado descanso e partir para a outra práxis, a da arte de governar em meio às restrições legais, institucionais e as promessas que fizeram, sem as quais, poucos teriam sido eleitos. Estes quase dois meses de transição que antecedem as posses serão consumidos na montagem das equipes, no acompanhamento das eleições das mesas das câmaras de vereadores e na elaboração das ações de governo, não necessariamente as que nos palanques bradavam, mas as que a realidade e a urgência clamam. Sorte para todos.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/11/2004
O CÓDIGO DA VINCI E A ARTE DE VENDER.
Junte Leonardo Da Vinci e a sua obra, um professor de Harvard quarentão e bem apessoado, uma bela policial especialista em criptologia(ocultismo), um assassinato em pleno Museu do Louvre, um monge albino fanático, um rico inglês com sequela de poliomielite e uma “intricada” história sobre Jesus, Maria Madalena e sociedades secretas, em meio a uma caçada policial entre Paris e Londres, envolvendo jatinho e limusine, e terá todas as misturas que o escritor Dan Brown utilizou para escrever o romance “O Código Da Vinci”, um fenômeno editorial no mundo, pois se diz ter vendido 15 milhões de exemplares.
E o pior é que tive de ler o livro, pois o ganhei de presente e sempre era perguntado: Já leu? Acabei lendo e o li com atenção, embora não tenha, desde o começo, gostado. É claro que tudo que se escrever sobre o livro dará a ele a publicidade que a Editora Doubleday, ardilosa como a maioria das grandes editoras norte-americanas, soube construir. De cara, mandou 10 mil exemplares de graça para jornalistas, donos de livraria e outros. Depois, começou a fomentar a “polêmica” de que o livro trazia um grande segredo que poderia destruir a fé católica.
A Editora Sextante, responsável pela tradução e venda no Brasil, não fez por menos. Distribuiu, com livrarias e críticos literários, brochuras com os quatro primeiros capítulos do livro e criou uma falsa ansiedade, além de grandes reportagens na mídia. O resultado é a grande vendagem. Desconfio que a grande maioria compra, começa a ler, folheia e não conclui a leitura. O livro tem 475 páginas e, adivinhem o que tem na página 476? O resumo-propaganda do próximo lançamento no Brasil do livro do mesmo Dan Brown, “Anjos e Demônios”, com o mesmo professor de Harvard, Robert Langdon, como protagonista principal.
Paralelo a isso, já está em andamento a filmagem do “O Código Da Vinci” que, certamente, terá uma grande bilheteria, pois o seu diretor, Ron Howard, é o do filme “Uma Mente Brilhante”, que ganhou o Oscar em 2002. Tom Hanks será o protagonista principal. Tudo o que escrevi serve apenas para mostrar como nós, pobres leitores, somos levados, muitas vezes, a achar “excelentes” autores que apenas trilham um caminho já conhecido da construção de livros com descrição pormenorizada de lugares, coisas, objetos e instituições, respaldado por um suporte bem urdido de marketing de editora. Rever a história, descrever pessoas, lugares, objetos e instituições são hoje atos profundamente simples, que podem parecer ao leitor como erudição e talento, quando não passam de mera pesquisa que pode ser feita pelo próprio autor, qualquer boa bibliotecária ou historiadora. A propósito, a mulher de Brown, Blythe, é historiadora de arte.
Joao Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/2004.
CELA NA UNIFOR
Tomei o carro, segui pela Av. Washington Soares, dobrei à esquerda na entrada da Unifor, contornei o Centro de Convenções e estacionei em uma área bem cuidada e com sombra farta, em frente ao discreto e belo Espaço Cultural Unifor. Fui ver a exposição de Raimundo Cela em meio a um dia de trabalho. Parei tudo o que estava fazendo e fui. Fui só. Havia recusado convites, inclusive o da abertura. A arte pictórica, para mim, é para ser contemplada sem troca de conversas, sem auxílio de bebida e com o silêncio que nos ajuda na concentração e no foco que a retina pede. Na tarde em que fui, só ouvia o leve ruído do ar condicionado, não quebrado pelas atendentes e vigilantes, tão discretos e eficientes como costumam ser os que mourejam na Unifor. Eram poucos os quietos visitantes.
Entrei devagar, com o respeito de quem já conhecia a história – e parte da obra – do pintor cearense Raimundo Cela (1890 -1954), que me foi passada na juventude por um já falecido colega, Valério Cela Militão Menescal. Segui o roteiro que o meu jeito manda. Vejo as coisas da esquerda para a direita, canhoto que sou. E foi assim que ia, pouco a pouco, me deliciando com as pinturas, desenhos e gravuras que começaram em Camocim, passaram por Fortaleza e Rio de Janeiro, vararam parte da Europa, retornaram a Fortaleza e se quedaram em Niterói.
É claro que tudo já foi dito na apresentação de Airton Queiroz, na introdução de Max Perlingeiro, no Prefácio de Estrigas, na cronologia apurada e nas críticas de Fábio Magalhães (pinturas), Cláudio Valério Teixeira (desenhos) e Adir Botelho (gravuras). O que mais eu poderia acrescentar a essa primorosa iniciativa cultural da Unifor? Apenas duas ideias, se é que já não foram tomadas. Primeira: prorrogar a exposição pelo período das férias escolares de dezembro a fevereiro, incluindo-a nos roteiros de operadoras de turismo nacionais e estrangeiras que trazem grupos de pessoas a Fortaleza. Segunda: produzir um filme em 35mm ou DVD para posteriores projeções em escolas públicas e privadas de todos os níveis do Ceará e do Brasil, servindo de exemplo a quantos desejam fazer da arte o seu caminho básico. Ou mesmo que assim não seja, possam ir aprimorando o olhar.
Essa exposição, pela riqueza de seu acervo, bom gosto no seu layout, coerência na iluminação e curadoria profissional, tem o jeito low profile que Airton Queiroz, um amante das artes, sempre impõe as coisas que faz sem alardes, mas com competência. Mesmo que as minhas duas sugestões não sejam acatadas, veja se você consegue umas duas horas do seu tempo e vá lá até o próximo dia 12 e descubra porque William Somerset Maugham dizia que “a arte é um dos grandes valores da vida e ensina aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade”.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/12/2004
O FORTALEZA É ASSIM
Nasci em Fortaleza. Sou Fortaleza. Criança ainda acompanhava meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, que foi Presidente do Fortaleza Esporte Clube nos anos 50/60, aos treinos no Quartel do 23º BC, às concentrações no Balneário de Pirapora, em Maranguape, e ao velho Presidente Vargas. Depois, meu pai comprou a sede da Rua Júlio César, no Benfica. Era uma casa simples, recuada, uma espécie de bangalô, próxima do Estádio Presidente Vargas. Vieram o Estádio Alcides Santos e a sede do Pici, o Castelão foi inaugurado e o resto todos sabem.
O que não sabem é que na tarde em que meu pai foi enterrado, um domingo, 22 de novembro de 1991, quando voltava do Cemitério Parque da Paz, passei pelo Castelão. Era um FortalezaXCeará. Abri momentaneamente o rádio do carro e ouvi que o Fortaleza perdia por 1X0. Em um diálogo mudo com meu pai eu falei: além de morrer, ainda perde para o Ceará. Fechei o rádio. Cheguei em casa, abri o rádio: Fortaleza 2XCeará1.
Ontem, 11 de dezembro de 2004, era o último jogo do Fortaleza na série B do Campeonato Brasileiro. Segundo os matemáticos e estatísticos, o Fortaleza era o time que tinha menos possibilidade de ir para a primeira divisão, de onde saiu, em parte por arbitragens desastrosas, na única vaga que existia. A outra já estava definida, do jeito Brasiliense de ser. Mas isso é outra história. Pois bem, foi o Fortaleza, o que disputava com mais três, o que matematicamente tinha menos probabilidade de vencer, quem ganhou o jogo e se classificou, a despeito da crônica esportiva do Rio e São Paulo que torcia por Bahia e Avaí e já dava o Fortaleza como permanente na Segunda Divisão. O Fortaleza é assim, surpreende, desmoraliza cronistas esportivos, desfaz projeções estatísticas, faz a gente sorrir e chorar. Faz também a gente voltar a ser menino e ficar ligando para os amigos dividindo a alegria que cura até gripe. E o Fortaleza manda sempre mensagens aos seus dirigentes. Ontem, foi passada uma nova mensagem. O gol da vitória foi de Ronaldo Angelim, que veio lá de Juazeiro do Norte e não dos muitos bondes que vieram de fora e precisam ser devolvidos o quanto antes.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/12/2004.
A UFC DE TODOS NÓS
A história da Universidade Federal do Ceará coincide com a maioria das estórias pessoais dos cearenses nascidos a partir do século passado. Ou somos professores, ex-professores, funcionários, egressos da UFC, ou pais, filhos e parentes dos quase 60 mil estudantes que passaram por ela nestes seus 50 anos de vida. É ainda uma curta história de 50 anos, mas já é tempo suficiente para mostrar resultados que vão além das áreas do conhecimento em seus diversos centros e faculdades.
Muita gente, mesmo professores, funcionários, estudantes e egressos, não tem noção exata da dimensão da UFC. Geralmente se pensa que as áreas de graduação, pesquisa, pós-graduação e extensão, que constituem – aparentemente – o seu foco principal, são tudo o que a UFC faz. Esquecem que há uma atuação discreta, mas consistente, na área de assistência aos estudantes, com residências universitárias, restaurante universitário a preços simbólicos e um meio milhar de bolsistas de iniciação científica.
Além disso, a UFC mantém a Casa de José Alencar, patrimônio histórico nacional; um Museu de Arte, com rico acervo; a Casa Amarela, que disponibiliza cursos de cinema e correlatos; um Curso de Arte Dramática; uma Orquestra de Câmara, em parceria com o Sesi; uma Rádio Universitária; 14 bibliotecas; seis Casas de Cultura Estrangeira; uma Editora; uma Maternidade-Escola; um Instituto de Ciências do Mar, o Labomar; e um grande Hospital Universitário.
Tudo isso é a UFC, mas ela poderia ser bem maior se os ex-alunos, entre os quais me incluo, tivessem uma organização social institucionalizada de apoio às suas múltiplas atividades que beneficiam grande parte da sociedade cearense. Creio que é tempo, sempre é tempo, de retribuir o que a UFC fez por todos nós. É hora de se criar uma entidade de ex-alunos que possa captar e fomentar recursos privados, sob a forma de mensalidades, doações e outras ações inteligentes de suporte para criar, manter e oferecer um diferencial qualitativo ainda maior que o atual.
Estas minhas observações são fruto de observação pessoal, por participar, com muita honra, da Comissão que cuidou, neste ano de 2004, do cinquentenário da UFC. Pude observar o nível de benquerença e interesse que reina entre todos os seus integrantes e isso se deve ao jeito simples e competência com que o reitor René Barreira conduz as reuniões, mostrando os seus sonhos, limitados pela crua realidade de um orçamento que não dá margem a quase nada. Os sonhos da UFC de hoje precisam ser compartilhados por todos nós, especialmente os que nela mourejaram e nela obtiveram ensinamentos que serviram de base e alavanca para suas realizações pessoais e profissionais. E é bom que ninguém esqueça e tudo fique mais claro do que já é: isso se deu graças a um sonhador inveterado, Antônio Martins Filho, que no próximo dia 22 completaria cem anos. O sonho se tornou a realidade, hoje festejada com orgulho e reverência.
João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/12/2004.
NOVOS PLANOS
Estamos no começo de um ano. É hora de agendar-se, planejar o que se deseja fazer. Que tal estabelecer duas metas por mês? É claro que é só sugestão, cada um faça as suas, se desejar. Apenas levanto questões, bagunço, nada mais que isso. – Em janeiro, o mês do novo ano: 1. Estabeleça: neste ano agirei com clareza, farei planos e tentarei atingi-los. É a hora de acreditar em mim. 2. Cuide: não esqueça os detalhes. Simples números são o segredo para abrir um grande cofre. – Fevereiro, o carnaval se aproxima: 1. Decida: É preciso mesclar as coisas da vida. Não se deve viver só estudando e trabalhando. É preciso alegria, misturar-se, trocar energia. 2. Simplifique: não se ache o melhor ou pior, cure a sua ferida. É hora de alegrar-se. A tristeza é feia.- Março, quando já aparecem dúvidas 1. Acredite: não há tantas certezas. Transforme suas dúvidas em atos de fé e vá em frente. Não tenha medo ou se tiver, enfrente as questões. 2. Ame: o amor quando chega derruba porteiras e mexe com os sentimentos. Curta-o, mas não machuque. – Abril, que começa com o dia da mentira: 1. Não minta: a mentira retorna e você passa a desacreditar em si próprio. Os outros são você do lado de lá. 2. Amizade: sem amigos, você é um carro sem combustível. Não vai a lugar nenhum e sobra estacionamento. Maio é um mês de fé: 1. Creia: sem acreditar, as coisas começarão com erros. Vista a sua própria camisa e atue para ganhar. 2. Moda: Não se vista para os outros. Vista-se para agradar a você. Estilo é quando você se repete – Junho, quando as fogueiras começam a acender: 1. Espere: há situações em que precisa cautela. Pondere, mas não pare. Siga sempre, mesmo que tenha que mudar de estrada ou de sapatos. 2. Mistério: não conte tudo. É sempre bom um mistério. Dá a você o domínio sobre o fato. – Julho, para quem pode tirar férias: 1. Respire: puxe a sujeira que está dentro de você e expire. Imagine o que de novo quer e inspire. É preciso trocar de ar, sempre. 2. Música: ouça música, boa música. Boa música para você é a que ouve sozinho e gosta. -Agosto, que é de gosto para uns e desgosto para outros: 1. Lute: faça tal o leão. Seja forte, mas calmo. Não desista. 2. Velhice: respeite e ame os mais velhos. Eles são iguais a você. A diferença está no seu olhar. -Setembro, o mês da pátria: 1. Sinta: Reexamine-se, olhe-se, questione-se, corrija-se. Todo dia é tempo de escoimar o errado e mirar o futuro. 2. Saúde: Não reclame da dor no braço, lembre-se do maneta. Levante cedo, respire fundo, dê língua para o espelho e enfrente tudo.- Outubro, mês do médico e do professor: 1. Chão: descalce os sapatos, pise no chão e sinta a energia da terra. Você é terra, mesmo precisando de ar, água e luz. 2. Arrependimento: Não deu certo, paciência. Vá em frente, ninguém sabe o que encontrar em rua nova. Mude de rua, mude de lua. -Novembro, quando o ano já está a acabar: 1. Pense: se não deu ainda certo, olhe para você. Você é a história. Descubra a resposta, ela está no bolso da sua razão ou do seu sentimento. 2. Fotos: não mostre fotos antigas, faça com que as fotos de hoje sejam melhores. – Em dezembro quando tudo é plano novo: 1. Compartilhe: é época de troca, especialmente de atitudes. Pense nos outros, mas não esqueça de você. 2. Sabedoria: Ficar calado, às vezes é um ato de profunda sabedoria. Sorria, faça caras e bocas, mas fale pouco, sempre.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/01/2003.
A FESTA DE PARIS
Por um desses acasos, na virada do ano, estive em Paris. Relembrei Hemingway no livro ´Paris é uma festa´. Preparado para a noite fria, misturei-me à multidão na vasta região que fica entre a Av. Champs-Elysées e a Torre Eiffel. Táxi, nem pensar. O jeito foi mergulhar na estação George V e emergir do metrô superlotado em Bir Hakeim perto do Trocadero ao pé da obra de Gustave Eiffel. Na noite do dia 31 de dezembro os metrôs de Paris são gratuitos, pois não há possibilidade de controlar a multidão e os táxis somem. Há policiais de carro, moto, bicicleta e todos ficam atentos, mas distantes.
Restaurantes cheios, gente de todo o mundo e uma turba imensa soltando fogos de artifício, bebendo, esquecendo a baixa temperatura que sombreava a noite, mas deixava resplandecer os lampiões e a iluminação especial que adornava a torre de mais de 300 metros de altura. Depois do jantar gostoso, cheguei à base da torre onde camelôs vendiam brincos e colares fosforescentes, bebidas e comidas. Foi então que descobri que grande parte do povo na rua parecia de origem muçulmana ou africana. As roupas coloridas, a cor da pele, as famílias com muitas crianças sendo puxadas por pais severos, o som característico das suas línguas denunciavam a ´invasão´ turística ou permanente tão reclamada pelos franceses. ´A França é dos franceses´, dizem os xenófobos, mas não haverá lei, tratado ou força militar que consiga mais desentranhar dali os que chegam ou vieram das antigas colônias e se apropriam da metrópole, repetindo sem saber, o que dizia o socialista utópico francês Proudhon ser a propriedade um roubo.
À meia-noite não houve contagem regressiva. Cada qual viu em sua própria hora chegar o novo ano e os fogos que nem de longe lembravam Copacabana ou qualquer grande cidade brasileira coloriam a noite de forma tímida, enquanto garrafas vazias de champanha entulhavam os canteiros e até desciam para repouso nas águas do Sena. Pouco a pouco, como se houvesse uma chamada geral, as pessoas foram se dispersando. Os mais afoitos e liberados se cumprimentavam, trocavam abraços e se beijavam. Era 2003 e o jeito foi pagar mais euros que o devido a um taxista que, usando o seu carro particular, aproveitava a oportunidade, para garantir a compra dos queijos que, certamente, comeria na manhã do novo ano que já despontava.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/01/2003.
CAMINHOS
Tenho recebido alguns convites de formatura das várias universidades que hoje pululam por aí. Todos muito arrumados. Feitos para durar. Há mensagens (aos pais, mestres, amigos, amores, ausentes etc.) imagens, fotos sorridentes, papel de qualidade, diagramações cuidadas e espaços para oferecimentos. Isso mostra, por um lado, o zelo dos formandos. Por outro, salvo engano, a vaidade de parecer dizer a alguém: ´o meu é mais bonito que o seu´. Pois o público que vai a essas solenidades é constituído, como todos sabem, dos pais, namorados, amigos e os antigos colegas de colégio que seguiram ou tentaram carreira diferente. Estarei errado?
Além de ter recebido vários, alguém teve a coragem de me pedir idéias sobre mais um convite. Queriam fazer algo diferente. É provável que vá estragar a surpresa, mas resolvi sugerir a abertura com Patativa do Assaré: ´É um me chama para cá, me leva para lá, diploma, festejo, uma louvação danada´. Sugeri também uma reflexão de Rainer Maria Rilke: ´Você está olhando para fora, e é justamente isso o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou julgar. Ninguém. Só há um caminho: procure entrar em você mesmo´
Recomendei ainda citações de Einstein, Camus, Emerson, Cantares (8:6-7), mas fiquei encantado com uma, especialmente do quase esquecido Carlos Castañeda, tão lido pelos jovens contestadores dos anos 70. Diz ele: ´Cada caminho é apenas um entre milhões. Se você acha que não deve segui-lo, não precisa ir adiante. O fato de abandoná-lo não pode agredir você, nem pode ofender ninguém. A sua decisão de seguir ou abandonar um caminho deve ser livre de medo ou ambição. Eu lhe aviso: examine cada caminho com atenção e propósito. Experimente-o tantas vezes quanto julgar necessário. E pergunte a você mesmo: esse caminho tem coração? Se tiver, o caminho é bom. Se não tiver, não tem utilidade´. Depois que repassei o material, li e reli. Descobri que não só os formandos com as euforias naturais, mas os pais, os amigos, os namorados e os mestres deveriam meditar sobre os seus próprios caminhos, tão difíceis nesta época em que as pessoas ficam cheias das próprias certezas por não terem coragem de abandonar comportamento, vertebrarem-se, que não agregam muita felicidade e isolam entendimentos.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/02/2003.
A BIENAL ARTE CABEÇA
Visitei, com olhos de leigo, uma parte da Bienal de Artes das Américas. A própria bienal se diz “ponta-cabeça”. É uma proposta de vanguarda, experimentação, rupturas, instalações e objetos. Certamente sem rigor, conceito, conteúdo e formas consagradas. Ponta-cabeça pode dizer muita coisa ou não expressar quase nada.
Sabemos que a arte pode ser um choque, uma distorção da realidade, um desfocar sobre a visão dita normal. Sabemos também que toda arte, como já pensava Picasso, é uma espécie de mentira por meio da qual se procura perceber a verdade. O artista, no caso em espécie, é, tal os poetas, um fingidor, e dá aos seus desvarios uma expressão viva dos seus sentimentos, engajamento social ou político e, quiçá, de sua alienação.
A “ponta-cabeça” parece não ter feito a maioria das cabeças das pessoas que estavam por lá. Tive o cuidado de perguntar e o desapontamento era maior que o regozijo. Coisa de leigo, quem sabe. Embora não possa dizer que baldes plásticos agrupados não sejam uma expressão artística. Tampouco tenho autoridade para discordar que graxa espalhada em um encontro de paredes seja, em sua negritude, uma manifestação fértil a perturbar a retina de quem vê. Arte é perturbação. Nesse caso, a graxa está bem aplicada. Pregos em uma parede branca com iluminação artificial podem ter efeitos inquietantes. E arte é também inquietação. Jornais espalhados e um caminho a percorrer entre eles pode não ter uma finalidade precípua. E arte não tem finalidade. Tem simbologia, alegoria e reflexos. E quem sou eu para dizer que não havia reflexos e simbologia em meio ao caminho que passei entre vales e montanhas de páginas políticas, econômicas, sociais, esportivas etc.
Vi águas da Tailândia em um vídeo que poderiam ser de um rio qualquer, mas eram da Ásia e revoltas. E águas revoltas, de qualquer continente, serão até manifestação de arte. Tudo o que mexe com a nossa inércia mental, provoca pensar, prazer, desconforto, sentir, e poderá ser arte. Talvez tenha sido essa a intenção do artista filmador.
E, de sala em sala, vi ainda retratos em que as íris dos olhos eram máscaras de homens engravatados, como a dizer algo que o artista percebeu. Artista vê com o terceiro olho, como os yoguis. Quase a sair, outro vídeo. Este, de pessoas tentando fazer o jogo da velha em meio a um cruzamento de um trânsito louco, em que semáforos não oportunizam o pintar dos jovens ajudantes do câmera inquieto que dirige a cena sobre o asfalto pintado em xis. No final, uma grande bola, com pequenas reentrâncias, quase monocromáticas, assimétricas, como a nos dizer da imperfeição de todos nós, especialmente os que, como eu, não entendem de arte.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/02/2003.
