Inédito

CAPISTRANO, POR QUEM E PARA QUEM NÃO O CONHECE

João Soares Neto, ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras.
Diz Gabriel Garcia Márquez que “um escritor já nasce escritor, nasce com o dom e a vocação, precisando apenas aprender a escrever”. Capistrano dizia que “aprender a escrever é aprender a ler”, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura crítica de livros, textos, traduções e documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja. Historia como se fizesse uma longa crônica, um ensaio, um romance e há trechos até que são poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos.
José Aurélio Saraiva Câmara, um de seus biógrafos, diz com propriedade: “Descrever uma vida como a de Capistrano de Abreu é enfrentar um seríssimo tropeço: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferença do operário face a audácia e à afirmação granítica do trabalho realizado. Na sua história, o homem diz pouco e a obra diz tudo.”
Tenho consciência disso. Falta-me maior intimidade com a sua obra. Sou curioso e o conhecimento não tem dono, mas neófito sou em admirá-lo. Não vejo em mim autoridade para descrever a vida, tampouco a obra, pois além do embasamento que não tenho, some-se a isso o exíguo tempo de menos de uma semana, sem prejuízo dos meus outros afazeres, em que fui gentilmente compelido por esta Academia Fortalezense de Letras a escrever este relato.
Sabem com que credenciais? A qualidade única de ocupante da cadeira que tem Capistrano como patrono. Louvo-me da aversão declarada de Capistrano às academias e sociedades a que não quis pertencer para ter a certeza de que, na dimensão em que ele estiver, não se ocupará de dar atenção ao que aqui será brevemente mal dito.
As comemorações dos 150 anos de nascimento de João Capistrano de Abreu ecoam por todo o Brasil. No Ceará houve um calendário oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreciável número de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A propósito, compulsando a memória do Jornal “O Povo” de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lançou um concurso público sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centenário. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos.
Fosse hoje, certamente, dezenas o fariam. De qualquer modo, não é mais necessário pedir vênia aos meus pares, pois declaro pública a minha incapacidade de cumprir com brilho a missão que, se juízo tivesse, não teria aceitado. Este trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o próprio Capistrano: “As obras de amor são as únicas que pagam o sacrifício”. Vamos, pois, ao sacrifício.
No último dia 23 deste mês de outubro de 2003 fez 150 anos que João Capistrano de Abreu, filho de Antônia e Joaquim Honório de Abreu, nasceu na Ladeira Grande, no sítio Columinjuba, Maranguape e de lá partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro.
De família simples, solitário, crítico, irônico e taciturno, foi sempre maior do que os colégios onde estudou: o Colégio de Educandos (onde hoje fica o Colégio da Imaculada Conceição), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Seminário da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por não ser vocacionado para padre. Posteriormente, já aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparatórios para a Faculdade de Direito do Recife.
Foi reprovado nos preparatórios porque seu aprendizado não se cingia ao conteúdo programático estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas já se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tomás Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. Já se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, inglês e francês. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o correspondente em Recife e seu pai, Jerônimo Honório.
Debaixo de repreensões, foi para o cabo de uma enxada como um cabloco qualquer, em meio a um alambique para destilar cachaça, um engenho de açúcar e rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna. Engajou-se, em seguida, em movimentos literários e culturais de Fortaleza quando escreveu “Perfis Juvenis”, que era, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edições sucessivas no “Maranguapense”, jornal recém criado em Maranguape.
Foi nessa época que retomou os contatos com Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agitação literária chamada jocosamente de “Academia Francesa” que reunia jovens quase imberbes.
Capistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe Júnior, João Lopes, Rocha Lima e Tomás Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna – A Escola Popular – que objetivava educar operários, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constituição, de 02 de junho de 1874: “A escola noturna popular, além das aulas de primeiras letras, gramática, francês, inglês, geografia e aritmética, que começaram a funcionar, abrirá espaço para uma série de conferências do gênero das que estão fazendo na Corte com tanta aceitação
Fundaram também o jornal Fraternidade, de origem maçônica e inspiração positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libertário contra a religiosidade do clero e dos fiéis, apregoada pelo jornal A Tribuna Católica.
É provável que a figura admirada e já então mítica de José de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado à Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Ceará.
Capistrano, aos 21 anos, tinha os pés na província e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi. De Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Teófilo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: “A impressão que teve o consagrado homem de letras e político, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Começaram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admiração, viu que ali não estava um simples sertanejo, porém um erudito.”
Era efervescência demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a benção ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guará no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria José de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano.
A partir daí é que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser súdito do Império, mas não abria mão de ser, ao mesmo tempo, um cidadão brasileiro. É assim que José de Alencar apresenta Capistrano: “Esse moço, que já é fácil e elegante escritor, aspira ao estágio da imprensa desta Corte. Creio eu que, além de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da glória, que lhe estão atribuindo acidentes mínimos.”
Os caminhos da sua vida nunca foram fáceis, apesar das relações tão procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. É provável que começasse aí o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar português e francês no Colégio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores.
Sua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Notícias. Já em 1882, Valentim Magalhães, na seção Tipos e Tipões, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: “(…) quem seja aquele rapaz forte, de estatura meã, grosso de tronco, de cabeça um tanto cúbica, dessas que vêm bradando aos olhos da gente: ‘eu sou do norte’, de pescoço atlético, olhos pequeninos, piscos, míopes, escandalosamente míopes; trajando escuro com filosófico descuido, chapéu raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ninguém sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente à parede, cabeça levemente à banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(…)(…) Pois esse rapaz é o Capistrano de Abreu, a cabeça mais ilustrada, mais pensadora, mais ‘curvada’ ao trabalho de quantos funcionam no escritório da Gazeta( …).”
Nesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotecário e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de então, começaria a consolidar a sua carreira de historiador.
Seriam transformadas em marca-páginas da história suas incursões brilhantes como crítico ou ensaísta literário. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Colégio Pedro II, mantido pelo Império. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, já criticava o ensino de História do colégio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro “Historia do Brasil”. Matoso Maia lhe pede para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: ”Não poder satisfazê-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para então o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.”
Tomava forma o grande historiador com ênfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a história. Segundo José Honório Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrológio que publicou no Jornal do Comércio, Capistrano mostrou: “m modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiográfico, exemplar pelo espírito crítico, a orientação metodológica, o domínio filosófico.”
Casou, em 1881, com Maria José de Castro Fonseca, filha de um Almirante, a quem dera aulas particulares, particulares até demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: “Casei-me a 30 de março, isto é, dois meses antes do que esperava. Ainda não tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obstáculos que poderiam ser insuperáveis.”
Desse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria José de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspondência são: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria José de Jesus, beatificada pela Igreja Católica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse mês e cuja morte prematura, de pneumonia dupla, em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade.
Em 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin Távora, consegue realizar o sonho de ser professor do Colégio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descrição geográfica de um país, região, província ou município e História do Brasil, com a tese Descobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no Século XVI. Em 1889 foi excluída do currículo escolar do Colégio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar História Geral, denuncia o fato e é posto em disponibilidade.
Nesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Capítulos da História Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. É nela que fica realçada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e não um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas.
Capistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou método crítico com três elementos básicos: testemunha visual, caráter lógico do relato e coerência entre o texto e realidade, renovou os métodos de investigação científica e de interpretação historiográfica brasileira da época, partindo do determinismo sociológico – positivista que foi e deixou de ser – para, em seguida, descobrir a essência do que regia a sociedade colonial.Fica claro que sua análise da sociedade brasileira, lastreada na influência teórica da teoria realista alemã de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corográficos, da miscigenação da raça, dos aspectos econômicos e psicológicos,sempre realçando a conquista do interior pelo brasileiro mestiço.
Para ele, já mostrando a sua face republicana, o destaque não é o português ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem expressão política, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolução histórica, deixando, cada vez mais patente, a desimportância do Rei, vice-rei, governadores e dos heróis.O povo é o sujeito da história.
Por outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua ótica corográfica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, sociólogo e antropólogo fosse, com quase um século de antecedência, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas.
Capistrano denuncia isso em carta a João Lúcio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: “Muita gente é amiga dos morros e cita em seu favor a opinião dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou adversário convicto: enquanto não for arrasada a maioria, morros são compartimentos estanques que impedem a circulação social.”
Autodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede e para onde viajava pelo Brasil – quase sempre para casa de amigos – a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, não sossegou até aprender a língua alemã, além do latim, francês e inglês que já manejava.
Sem nunca ter saído do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avançadíssima para a média de vida do brasileiro de sua época, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de João Ninguém, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspondência aos amigos.
Sua correspondência, organizada pacientemente por José Honório Rodrigues em três volumes, é, segundo alguns, a sua segunda grande obra. É ela uma demonstração de apreço aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doenças, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou ate à morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em féretro a, pé, o levaram ao Cemitério.
Provavelmente, a melhor descrição de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo João Pandiá Calógeras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Histórico e Geográfico, logo após a sua morte. Diz Calógeras: “Rude, em sua terrível franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hipócritas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destituído de toda inveja. Indulgente, quando explicável a falta por um motivo mais alto, por amor à inteligência ou à bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intratável em questões de honra, de lealdade e de afeição, não admitia atenuantes para o delinquente.”
Este perfil poderia ser resumido em uma frase do próprio Capistrano: “Eu proporia que se substituíssem todos os artigos da Constituição por: Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara”. Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas:“Todo artista tem um germe original que é a base e o ‘substratum’ de seu talento” e, “Nunca pensei que eu pudesse morrer”.
Na verdade, não morreu. Transformou-se.

As citações estão contidas na Bibliografia consultada:

– AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme, Correspondência Cordial – Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003.
– BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular – Capistrano de Abreu e Madre Maria José, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003.
– CÂMARA, José Aurélio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999.
– Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Disponível: www.modernosdescobrimentos.inf.br [22.10.2003].
– RODRIGUES, José Honório (Org.). Correspondência – Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1977.
– SÁEZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumiço de Capistrano de Abreu [on line]. Florianópolis UFSC. Disponível: www.cfh.ufsc.br [26.10.2003]

Inédito

SARAMINDA E O SARNEY SENSUAL

O nosso comum amigo, César Asfor Rocha, surpreendeu-me no Natal passado com a sua encomendada, mas especial dedicatória (“Ao João Soares, que tem a paixão pela letras, o abraço do José Sarney) no livro “Saraminda”.
Li-o no dealbar do ano e, passado o processo eleitoral do Senado e pensadas as dores das suas incisões vesiculares, vi-me aprestado a lhe agradecer a gentileza.
Aviso-o que não sou crítico literário. Faço da empresa o meu viver, sem esquecer de tecer sonhos com os sentidos. Perpetro escritos, meras crônicas descompromissadas e publicadas e, guardados estão poemas ainda virgens de outros olhos, pois a auto-censura os enclausura
Além do amigo comum, restam-nos apenas a identidade do Jota e do Esse que emolduram o seu e o meu nome, mas isto é alongar conversa, para a qual não recebi permissão.
Receba, como agradecimento, o que escrevi abaixo, tão isento quanto pode ser um pré- sessentão encantado por Saraminda, nossa amada.
Cordialmente,
João Soares Neto
SARAMINDA E O SARNEY SENSUAL
Saraminda prova que José Sarney não é normal. É preciso ter muito de louco para misturar personagens, beirar a criação de um realismo fantástico (“Você não está morta? Aqui todos morrem e vivem.”) com uma latinidade que o escritor brasileiro não costuma exercer e falar de comida (“Um brochete de rabo de jacaré, frito com banha de anta e conhaque, um hoko e um assado de cochon bois”), moda ( “O vestido tinha a saia comprida, de pregas que caíam da cintura e eram acompanhados pelas dobras até a barra da saia circundada por uma cinta de rendas e de franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas também rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas além da cintura, ladeadas por duas fileiras de botões cobertos de cetim e pequenos bordados”) e de uma guerra pelo território do Amapá (“acabo de saber que a França perdeu estas terras que agora são do Brasil. Foi uma decisão da Suíça.
Amanhã, só vai haver uma bandeira, a do Brasil”) que não houve entre dois países tão distintos quanto o Brasil e França.
Saraminda prova que José Sarney não é político, pois expõe, mesmo sem querer ou querendo, o seu lado sensual ao descrever como um retratista de pico de pena ou crayon o corpo(“Nela o sangue bretão, judeu, índio, banto misturou-se ao longo dos séculos, concentrou-se nos olhos, afinou os lábios, alongou-lhe o pescoço, deu-lhe sorte e sedução”), a faceirice( “Eu quero que você tenha alegria e felicidade.
Prazer de coisa de amor de gente que se junta… Quero que você receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda, enrolado em veludo, cheirando a patchuli”), as falas(”Seu Cleto, me trate com respeito. Não sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas não sou uma sem-vergonha”) dessa mulher tão simples e paradoxal, como se fora uma personagem vivida pela Sônia Braga dos áureos tempos.
Saraminda prova que José Sarney não é rico. Se o fora não descreveria com tanta paixão a avidez dos garimpeiros, a cobiça(“O garimpo é de uma solidão imensa. Quando a gente olha, parece que não é no mundo. O ouro não tem cheiro. Se tivesse, o homem ia farejar e saberia onde ele está”) e a luxúria(“tive vontade de beijar, beijar com força, ficar deitado nele, mas me controlei , não dei modos para não verem onde estava minha bestitude”)que o ouro( “Não achei que fosse ouro, de tão feia, e pude então compreender que a beleza do ouro está nos homens”.) exerce sobre a razão e o imaginário de pessoas rudes com estéticas comprometidas pelas rugas e as rusgas que terminam em sangue para aplacar a ira dos deuses.
Saraminda atesta que José Sarney não é romancista. É um espécime novo, um poemancista com imagens (“Na casa de sombras, era o remoer da lembrança que alimentava os fantasmas”) e figuras(“Era um brinquedo muito triste esse jogo de gostar”) dignas de um Borgesïï
Saraminda fez enfim, José Sarney calar os que ainda não têm olhos para ver que, além da sua matreirice, da lhaneza, do faro e da capacidade de focar a política, sobram-lhe sentimentos lustrados em palavras ajuntadas em bateias de idéias que brotam como florestas de uma amazônia de encantamentos.

João Soares Neto,
especial para o DN.

Inédito

INTENÇÃO, PROPÓSITO E REALIDADE

Ninguém desconhece existir boa intenção e firme propósito do Governo Lula em resolver, entre muitos outros, os problemas gravíssimos da fome, do desemprego, da assistência médica pública e dos desequilíbrios regionais. Lula tem fé de ofício nessas áreas. Saiu de Pernambuco em um Pau-de-arara, amargou fome com a família, viu a primeira mulher morrer por falta de assistência médica e foi um sindicalista proeminente no combate ao desemprego.Vivia na São Paulo dos pobres, sem participar da São Paulo dos ricos que hoje são os seus mais recentes amigos de infância. Conhece, de prova provada, o que é desequilíbrio regional. Lula tem a formação de vida nitidamente paulista, mas trás na sua história genética a dor e a angústia do nordestino retirante.
Ninguém desconhece que grande parte dos atuais ministros de Lula não tinha experiência provada na gestão de graves e complexos problemas a necessitarem de soluções urgentes e equilibradas. Isto não quer dizer que as pessoas escolhidas não possam adquirir experiência, mas é preciso saber que a palavra experiência deriva de experimentar ou experienciar. Em outras palavras: leva tempo.
Por outro lado, o Brasil entregue à Lula e sua equipe era e é ainda um país dividido em Capitanias na mão de lobbistas, políticos e partidos praticando pouco do que falam, especialmente diante de microfones ou em entrevistas públicas. Acresça-se a isso, a existência de uma burocracia pesada, cara e pouco eficaz, sem entender ou não querendo entender a necessidade da agilidade no serviço público. Os agentes públicos precisam ficar cientes de que todos os brasileiros, direta ou indiretamente, são contribuintes e os verdadeiros pagadores de seus salários. Ao entrar em uma repartição qualquer brasileiro se sente aturdido e desestimulado pela morosidade das informações e, muitas vezes, pela indiferença ao que acredita ser legítimo pleitear. Todo brasileiro é cliente da máquina estatal e por tal razão merece ser bem tratado, independe do que ganha, da roupa que veste ou da função que exerce.
Já ouvimos falar de várias reformas, especialmente as previdenciária (para diminuir despesas) e a tributária (para gerar mais receitas). Não se falou, contudo, da necessidade de uma reforma administrativa ou gerencial para que tudo funcione. Isto me faz lembrar das intenções e propósitos de Hélio Beltrão e Paulo Lustosa que pretendiam desburocratizar o Brasil. A realidade mostrou que foram vencidos pela máquina kafkaniana da burocracia. Está na hora de mudar.

João Soares Neto,
administrador e escritor

Inédito

CAPISTRANO, 170 ANOS

João Soares Neto, ex-ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras, da Academia Cearense de Letras, do Instituto do Ceará e da Associação Brasileira de Imprensa

Dizia Gabriel Garcia Márquez que “um escritor já nasce escritor, nasce com o dom e a vocação, precisando apenas aprender a escrever”.

Capistrano falava que “aprender a escrever é aprender a ler”, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura crítica de livros, textos, traduções, documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja.
História como se fizesse uma longa crônica, um ensaio, um romance e há trechos até que são poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos.
José Aurélio Saraiva Câmara, um de seus biógrafos, diz com propriedade: “Descrever uma vida como a de Capistrano de Abreu é enfrentar um seríssimo tropeço: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferença do operário face a audácia e à afirmação granítica do trabalho realizado. Na sua história, o homem diz pouco e a obra
Louvo-me da aversão declarada de Capistrano às academias e as sociedades a que não quis pertencer para ter a certeza de que, na dimensão em que ele estiver, não se ocupará de dar atenção ao que aqui será descrito.
As comemorações dos 170 anos de nascimento de João Capistrano de Abreu ecoam, pouco visíveis, por todo o Brasil.
No Ceará, nos 150 anos, houve um calendário oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreciável número de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A propósito, compulsando a memória do Jornal “O Povo” de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lançou um concurso público sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centenário. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos.
Fosse hoje, certamente, alguns o fariam. De qualquer modo, não é mais necessário pedir vênia aos meus pares, pois declaro pública a minha incapacidade de cumprir com brilho a missão que, se juízo tivesse, não teria aceitado.
Esse trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o próprio Capistrano: “As obras de amor são as únicas que pagam o sacrifício”. Vamos, pois, ao sacrifício.
No dia 23 do mês de outubro de 2003 fez 150 anos que João Capistrano de Abreu, filho de Antônia e Joaquim Honório de Abreu. Nasceu na Ladeira Grande, no sítio Columinjuba, Maranguape e de lá partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro.
De família simples, solitário, crítico, irônico e taciturno, foi sempre maior do que os colégios onde estudou: o Colégio de Educandos (onde hoje fica o Colégio da Imaculada Conceição), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Seminário da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por não ser vocacionado para padre. Posteriormente, já aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparatórios para a Faculdade de Direito do Recife.
Foi reprovado porque seu aprendizado não se cingia ao conteúdo programático estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas já se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tomás Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. Já se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, inglês e francês. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o seu tutor/correspondente em Recife e seu pai, Jerônimo Honório.
Debaixo de repreensões, foi para o cabo de enxada como caboclo qualquer, em meio a um alambique para destilar cachaça, um engenho de açúcar, rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna. Engajou-se, em seguida, em movimentos literários e culturais de Fortaleza quando escreveu “Perfis Juvenis”, que eram, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edições sucessivas no “Maranguapense”, jornal recém criado na pequena cidade de Maranguape.
Foi nessa época que retomou os contatos com Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agitação literária chamada jocosamente de “Academia Francesa” a reunir jovens quase imberbes.
Capistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe Júnior, João Lopes, Rocha Lima e Tomás Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna – A Escola Popular – que objetivava educar operários, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constituição, de 02 de junho de 1874: “A escola noturna popular, além das aulas de primeiras letras, gramática, francês, inglês, geografia e aritmética, que começaram a funcionar, abrirá espaço para uma série de conferências do gênero das que estão fazendo na Corte com tanta aceitação.
Fundaram também o jornal Fraternidade, de origem maçônica e inspiração positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libertário contra a religiosidade do clero e dos fiéis, apregoado pelo jornal A Tribuna Católica.
É provável que a figura admirada e já então mítica de José de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado a Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Ceará.
Capistrano, aos 21 anos, tinha os pés na província e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi.
De Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Teófilo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: “A impressão que teve o consagrado homem de letras e político, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Começaram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admiração, viu que ali não estava um simples sertanejo, porém um erudito.”
Era efervescência demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a benção ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guará no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria José de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano.
A partir daí é que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser súdito do Império, mas não abria mão de ser, ao mesmo tempo, um cidadão brasileiro. É assim que José de Alencar apresenta Capistrano: “Esse moço, que já é fácil e elegante escritor, aspira ao estágio da imprensa desta Corte. Creio eu que, além de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da glória, que lhe estão atribuindo acidentes mínimos.”
Os caminhos da sua vida nunca foram fáceis, apesar das relações tão procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. É provável que começasse aí o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar português e francês no Colégio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores.
Sua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Notícias. Já em 1882, Valentim Magalhães, na seção Tipos e Tipões, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: “(…) quem seja aquele rapaz forte, de estatura meã, grosso de tronco, de cabeça um tanto cúbica, dessas que vêm bradando aos olhos da gente: ‘eu sou do norte’, de pescoço atlético, olhos pequeninos, piscos, míopes, escandalosamente míopes; trajando escuro com filosófico descuido, chapéu raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ninguém sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente à parede, cabeça levemente à banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(…)(…) Pois esse rapaz é o Capistrano de Abreu, a cabeça mais ilustrada, mais pensadora, mais ‘curvada’ ao trabalho de quantos funcionam no escritório da Gazeta( …).”
Nesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotecário e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de então, começaria a consolidar a sua carreira de historiador.
Seriam transformadas em marca-páginas da história suas incursões brilhantes como crítico ou ensaísta literário. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Colégio Pedro II, mantido pelo Império. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, já criticava o ensino de História do colégio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro “História do Brasil”. Matoso Maia pede-lhe para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: ”Não poder satisfazê-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para então o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.”
Tomava forma o grande historiador com ênfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a história. Segundo José Honório Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrológio que publicou no Jornal do Comércio, Capistrano mostrou: “um modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiográfico, exemplar pelo espírito crítico, a orientação metodológica, o domínio filosófico.”
Casou, em 1881, com Maria José de Castro Fonseca, filha de um Almirante. A ela dera aulas particulares, particulares até demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: “Casei-me a 30 de março, isto é, dois meses antes do que esperava. Ainda não tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obstáculos que poderiam ser insuperáveis.”
Desse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria José de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspondência são: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria José de Jesus, beatificada pela Igreja Católica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse mês e cuja morte prematura, de pneumonia dupla, em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade.
Em 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin Távora, consegue realizar o sonho de ser professor do Colégio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descrição geográfica de um país, região, província ou município e História do Brasil, com a tese “Descobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no Século XVI. “
Em 1889 foi excluída do currículo escolar do Colégio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar História Geral, denuncia o fato e é posto em disponibilidade.
Nesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Capítulos da História Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. É nela que fica realçada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e não um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas.
Capistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou método crítico com três elementos básicos: testemunha visual, caráter lógico do relato e coerência entre o texto e realidade, renovou os métodos de investigação científica e de interpretação historiográfica brasileira da época, partindo do determinismo sociológico – positivista que foi e deixou de ser – para, em seguida, descobrir a essência do que regia a sociedade colonial. Fica claro que sua análise da sociedade brasileira, lastreada na influência teórica da teoria realista alemã de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corográficos, da miscigenação da raça, dos aspectos econômicos e psicológicos, sempre realçando a conquista do interior pelo brasileiro mestiço.
Para ele, já mostrando a sua face republicana, o destaque não é o português ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem expressão política, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolução histórica, deixando, cada vez mais patente, a desimportância do Rei, vice-rei, governadores e dos heróis. O povo é o sujeito da história.
Por outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua ótica corográfica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, sociólogo e antropólogo fosse, com quase um século de antecedência, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas.
Capistrano denuncia isso em carta a João Lúcio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: “Muita gente é amiga dos morros e cita em seu favor a opinião dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou adversário convicto: enquanto não for arrasada a maioria, morros são compartimentos estanques que impedem a circulação social.”
Autodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede de dormir e para onde viajava pelo Brasil – quase sempre para casa de amigos – a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, não sossegou até aprender a língua alemã, além do latim, francês e inglês que já manejava.
Sem nunca ter saído do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avançadíssima para a média de vida do brasileiro de sua época, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de João Ninguém, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspondência aos amigos.
Sua correspondência, organizada pacientemente por José Honório Rodrigues em três volumes, é, segundo alguns, a sua segunda grande obra. É ela uma demonstração de apreço aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doenças, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou até à morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em féretro a, pé, o levaram ao Cemitério.
Provavelmente, a melhor descrição de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo João Pandiá Calógeras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Histórico e Geográfico, logo após a sua morte. Diz Calógeras: “Rude, em sua terrível franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hipócritas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destituído de toda inveja. Indulgente, quando explicável a falta por um motivo mais alto, por amor à inteligência ou à bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intratável em questões de honra, de lealdade e de afeição, não admitia atenuantes para o delinquente.”
Esse perfil poderia ser resumido em uma frase do próprio Capistrano: “Eu proporia que se substituíssem todos os artigos da Constituição por: Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara”. Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas: “Todo artista tem um germe original que é a base e o ‘substratum’ de seu talento” e, “Nunca pensei que eu pudesse morrer”.
Na verdade, não morreu. Transformou-se.

Bibliografia consultada

– AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme, Correspondência Cordial – Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003.
– BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular – Capistrano de Abreu e Madre Maria José, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003.
– Câmara , José Aurélio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999.
– Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Disponível: www.modernosdescobrimentos.inf.br
– RODRIGUES, José Honório (Org.). Correspondência – Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1977.
– SÁEZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumiço de Capistrano de Abreu [on line]. Florianópolis UFSC. Disponível: www.cfh.ufsc.br

Inédito

NÓS E OS GRUPOS

Assisti há alguns dias a uma entrevista do sociólogo Domenico De Masi concedida ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura de São Paulo. Posteriormente, li uma entrevista do mesmo De Masi à revista Exame. Para concluir, descobri, entre os meus livros, “A Emoção e a Regra”, uma coletânea de ensaios sobre grupos criativos na Europa entre 1850 e 1950, organizado por Domenico De Masi e editado pela José Olympio.
Para quem nunca ouviu falar em Domenico De Masi eu direi que é italiano, 61 anos, sociólogo do trabalho que, além de ser professor universitário em Roma, vive pelo mundo afora a dar palestras. Quem estiver interessado em ideias novas, com um excelente respaldo cultural e estético, é bom conhecer o trabalho de De Masi.
Por ora, para justificar o título do artigo, ficarei apenas no livro “A Emoção e a Regra”, especificamente no ensaio feito por Emma Gori sobre o grupo de Bloomsbury. Nesse ensaio de 40 páginas se pode conhecer o surgimento, o desenvolvimento e o papel transformador de um punhado de pessoas à frente de seu tempo. Desse grupo que se reunia no bairro de Bloomsbury, na cidade de Londres, nos primeiros anos deste século, fazia parte gente de todos os matizes culturais que se reunia pelo prazer de estar junto e, ao mesmo tempo, trocar ideias sobre o que estava acontecendo no mundo.
Virginia Woolf (escritora famosa e mulher de comportamento liberado), Leonard Woolf (editor e marido de Virgínia), Clive Bell (negociante de arte e marido de Vanessa, irmã de Virgínia), Duncan Grant (pintor), Vanessa Bell, Maynard Keynes (economista famoso em todo o mundo) e tantos outros eram os integrantes desse grupo diletante que se reunia sob dois nomes. Um deles era a Sociedade dos Apóstolos(Apostles Society) e outro, pasmem vocês, Sociedade da Meia-noite (Midnight Society) que se reunia às sextas-feiras à meia noite.
Ora, perguntarão vocês, o que é que essa lenga-lenga tem a ver com os dias de hoje e o precioso tempo que gastamos para ler este artigo? Simples. Estou tentando demonstrar que, se há quase um século, pessoas diferentes se reuniam para trocar ideias, essa carência ainda hoje persiste. O corre-corre que nos estressa e o isolamento em nossos trabalhos demonstra a necessidade de nos reunirmos em grupos para deixar que surjam coletivos criativos. Para isso existem os clubes de serviços, as associações de classe, os clubes sociais, as entidades culturais e as científicas. Além dessas organizações formais, existem os grupos informais de amigos (como o de Bloomsbury) das mais diversas profissões e visões que se gratificam em jogar conversa fora. Na realidade, não estão jogando conversa fora, pois cada um relata as suas experiências e fantasias, tornando a discussão rica e proveitosa.
Da minha parte eu faço grande fé em grupos. Sejam formais ou informais. Desde adolescente tenho participado dos mais variados grupos. Atualmente, sou diretor, conselheiro e membro de várias entidades. Além disso, tenho meus grupos informais de amigos. Um deles tem mais de 25 anos.
Permaneço até o instante em que a relação entre os pares é espontânea, instigante e gratificante. Na hora em que a mera obrigatoriedade, a mesmice e a futrica surgem, eu dou um tempo ou saio. Se você faz parte de grupos, meus parabéns. Você está utilizando um antioxidante para o corpo e para a mente. Se você ainda vive isolado, descubra a sua turma. Não se preocupe se alguém ou alguns não gostarem muito de você, isso pode ser prova de que você não é o que eles são. De minha parte, nunca vi uma pessoa que fosse unanimidade ser ou fazer alguma coisa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/1999.

Inédito

ESCREVENDO MICROCONTOS

O conto é um dos gêneros literários que mais me atraem. É claro que gosto de romances, ensaios e poesias. Mas, o conto tem seus encantos. Por ser breve e ter um final, quase sempre, surpreendente, ele agrada e, muitas vezes, choca.. Segundo Alexandre Severino, autor de “The Brazilian Short Stories: Reflections of a Changing Society”, “o conto… com sua capacidade segmentada – a apreensão ilógica e inexplicada do momento atual da verdade – é a forma literária mais apropriada para a descrição da sociedade brasileira contemporânea”. Eu me arriscaria a dizer que não só da sociedade brasileira.
Uma condição do conto é ser curto, mas alguns autores teimam em escrevê-lo longo, quase um romance. A partir dessa premissa de que o conto deve ser curto, resolvi me questionar: e por quê não curtíssimo, um mero parágrafo que reflita um momento, uma história, uma fantasia, uma loucura, um sabor picante ou cáustico?
Passei então a escrever o que chamei de microcontos. Já escrevi quase cem deles. Mostrei ao Juarez Leitão e ao Pedro Henrique Saraiva Leão, intelectuais de carteirinha acadêmica, e eles disseram ter gostado. Julguem vocês.
Como a ideia é nova, é preciso que o leitor leia o microconto (MC) com atenção.
MC01. A música era forte e o som aumentava. Desistiu de matricular-se em uma escola de surdos e foi atropelado pelo carro silencioso.
MC02. O bandido olhou para o corpo morto e coçou a cabeça. Era o seu segundo engano. Precisa usar óculos.
MC03. No escuro do cinema sentiu a mão sobre sua coxa. Continuou olhando firme para a tela. Gostara do imprevisto. No final do filme, outro imprevisto. Era seu marido.
MC04. Lera Machado, Eça, Drummond, Trevisan, Rubião e só lhe perguntavam se conhecia Brida, de Paulo Coelho. Suicidou-se.
MC05. Londres, meia noite. Olhou para o Big Ben e viu a Lady Diana pendurada nos ponteiros do relógio e as badaladas não soaram. Meia noite e um minuto.
MC06. Subiu a escada do avião rezando. Sentou, afivelou o cinto, tomou o calmante e dormiu. Sonhou que estava dormindo e nunca mais acordou.
MC07. Era engenheiro de decisões concretas. Resolveria todas as dívidas. Caiu no caminhão betoneira. A viúva recebeu o seguro, não pagou as dívidas e casou com o dono da betoneira.
MC08. Aquela vontade no corpo e mulher nenhuma. Alô, é do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos a CUT, estamos em greve.
MC09. Correu atrás do pivete que lhe roubara o relógio. Depois de duas quadras o alcançou. Tomou o relógio, olhou as horas. Devolveu-o ao pivete e saiu correndo. Estava atrasado.
MC10. A mulher lhe obedecia, estava em um spa para emagrecer. Na data marcada, não voltou. Fugiu com um gordo.
MC11. A primeira equipe do FMI que chegou ao hotel foi logo abrindo as agendas e telefonando para as meninas indicadas pelo Ministro. Queriam acertar as contas atrasadas.
MC12. Era um novo rico perfeito. Depois que colocou as dentaduras superior e inferior, passou a usar flúor.
Apreciaria receber comentários dos leitores a respeito dos microcontos (e-mail jsn@planos.com.br).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/1999.

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KOSOVO E DENVER

Um leitor pede-me para escrever sobre Kosovo. Não sei nada sobre guerras. O que aprendi no curso de oficiais da reserva, já esqueci. Mesmo que ainda lembrasse, de nada serviria na análise dessa idiotia que levou quase 20 países a se reunirem, sob o manto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), para atacar a Iugoslávia com mísseis e bombas, com o pretexto de serem delegados de uma Europa civilizada e democrática, atuarem contra o inimigo ditador e perverso.
Na ótica do Presidente americano, Bill Clinton, “nossa aliança quer por fim à crise, ao sofrimento dos kosovares, às provações suportadas por uma população sérvia forçada a se envolver numa luta por um líder cínico que despreza seu bem-estar, que esconde dela a verdade sobre o que está acontecendo em Kosovo”. E arremata: “A tragédia de Kosovo deve e precisa incentivar os esforços dos países da Otan, que deverão prolongar-se por algum tempo, para dar suporte ao aprofundamento da democracia e tolerância e à integração étnica e religiosa entre as nações do sudeste europeu”.
Por outro lado, o Presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, não tem o direito de promover matanças e discriminações em nome de uma pureza étnica. É outro idiota. As atrocidades por ele cometidas devem ter o repúdio da comunidade internacional, mas isso não dá o direito a ninguém de fomentar uma nova guerra sob o pretexto de uma intervenção humanística.
Serão os americanos que choram o deplorável e brutal atentado à uma escola em Denver os mesmos que aplaudem a insensatez dos mísseis? Será que os mortos americanos são mais mortos que os mortos da Iugoslávia, sejam sérvios ou kosovares?
A leitura verdadeira de uma guerra, como a que está sendo travada, passa pelo poderoso “lobby” da indústria armamentista, apátrida e sem escrúpulos, pela necessidade de demonstração de poderio militar e de vigilância continental que a OTAN faz na Europa, sob os olhares submissos da Organização das Nações Unidas.
Enquanto isso, na África, milhares de angolanos morrem há anos em luta fratricida e ninguém se interessa ou faz nada. Será que a ONU é cega ou não vê a guerra civil em Angola por que os combatentes são negros e pobres? Igualmente, lá na Ásia, exatamente no Laos, na planície de Jars, se desenvolve outra guerra interna com outros milhares de vítimas. Ora, no Laos eles são asiáticos e pobres, parece dizer a indiferente ONU.
Não há lógica nessa aberração de Kosovo, a chamada “Albright’s War”, como referência à Secretária de Estado americano, Madeleine Albright, e nenhum político, militar ou comentarista de jornal ou televisão consegue dourar a pílula dessa guerra tecnológica, que se dizia asséptica e instantânea.
Noam Chomsky, ativista político americano, é um dos críticos da guerra de Kosovo. Segundo ele, “existe um regime de lei internacional e ordem internacional ao qual todos têm a obrigação de se sujeitar, baseado na Carta e nas resoluções subsequentes da ONU e nas decisões da Corte Internacional de Justiça… Se você não consegue imaginar nenhum meio de obedecer àquele princípio elementar, então não faça nada. Sempre haverá meios que poderão ser considerados. A diplomacia e as negociações nunca serão esgotadas”.
Quem achar que sabe quando e como vai acabar esse conflito pode estar fazendo um arriscado exercício de futurologia. A insensatez dos homens armados e empoleirados em seus aviões e helicópteros é comandada por homens engravatados que sempre afirmam estar lutando pela paz. Quem acreditar nessa história merece um prêmio: uma passagem de ida para Kosovo, com opcionais para Angola e Laos, com tudo pago, até a mortalha.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/05/1999.

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LISBOA E BARCELONA

Estou voltando de Barcelona. Foi o cansaço quem me mandou viajar. A corda estava esticada demais e resolvi dar uma paradinha de uns dias. Nada mais que isso. Direto, rápido e revigorante.
Primeiro foi Lisboa. Tenho uma relação muito amistosa com Lisboa. A primeira vez que vim ainda era tempo de Salazar, o velho ditador. Apaixonei-me pelo jeito meio pachorrento da Lisboa da década de 60. Os bondes, o fado, a velha Alfama, as ruas estreitas, a estufa fria, o Museu dos Coches, a Universidade de Lisboa, a Fundação Gulbekian, o Mosteiro dos Jerônimos, a praça Marquês de Pombal, onde, por uma dessas coincidências da vida encontrei agora dando autógrafos, como um autor comum, na Feira do Livro de Lisboa, José Saramago. Revi o Bairro Alto e o Rio Tejo de tantos versos e muita prosa. Comi a boa comida portuguesa que parece sempre, ter sido feita por uma velha tia gorda. Foi em Lisboa que conheci Victor Manuel Ribeiro, um português gentil que nos serviu de cicerone e veio dar com os costados aí no Brasil e passou a trabalhar comigo até a sua morte.
Hoje, Lisboa e Portugal, por extensão, tentam se ajustar às regras da Comunidade Europeia. Correm contra o atraso que os indicadores sociais demonstravam. Portugal é um país em transformação, uma viva ebulição, tentando promover o turismo, criar novas indústrias e serviços para os patrícios que saíam para empregos subalternos na França, Inglaterra e Alemanha e mandavam cheques mensais para suas recatadas mulheres, semi-analfabetas com suas roupas pudicas a cuidar dos miúdos.
Durante o período obscuro da ditadura de Franco, especialmente na Guerra Civil Espanhola, Barcelona, como catalã, se constituiu o núcleo central da resistência. Hoje é uma cidade onde os turistas se misturam aos nativos apressados no exercício de suas atividades, especialmente na metalurgia de transformação, na química fina e no imenso parque gráfico. Falar apenas na Costa do Sol e na Costa Brava como rotas turísticas que tem Barcelona como centro irradiador é ser simplista. Barcelona é muito mais do que se pode dizer em uma mera visita aos seus diversos museus, onde se destacam Miró e Picasso, a avenida La Rambla, o charmoso bairro Barceloneta, a Vila Olímpica, suas belíssimas igrejas, destacando-se a da Sagrada Família com a irreverência artística de Gaudí. O novo complexo turístico de Maremagnum com os seus restaurantes, bares e o passeio marítimo, é uma espécie de avenida à beira mar, frente ao mar Mediterrâneo.
Nesta primavera europeia, no meio de pessoas de uma língua assemelhada à nossa, embora martelado pelas ligações internacionais que teimam em reavivar os problemas e a cobrar minha volta, eu tento, em meio a “tapas” e “paellas”, recarregar minhas baterias jogando conversa fora, por exemplo, com uma tradutora americana, um editor espanhol de origem basca, um empresário brasileiro e um mestrando de comércio exterior.
Tudo isso com o bom propósito de reoxigenar-me e tentar assimilar as diatribes do nosso Brasil, tão rico e, paradoxalmente, tão pobre. É bom vir, mesmo com limitação de tempo. Melhor mesmo é voltar, pois em nossa terra é que tudo faz sentido, mesmo quando não há explicação lógica. O Brasil é como aquela pessoa a quem amamos muito, apesar de conhecer seus defeitos. Bendito Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/05/1999.

Inédito

A NOVA MÃE

As coisas do mundo mudam muito rápidas. Fui criado no tempo da mãe tempo integral. Os filhos e o marido eram o seu universo. E o restante, orações. Mulheres jovens reuniam os filhos à seis da tarde para “tirar” o terço. Mulheres aguardando o marido para mandar servir o jantar e, se o marido atrasava muito, corriam para o quarto e choravam quietas para os filhos não ouvirem. Mulheres, muitas delas envelhecidas aos 40 anos, se comprazendo em manter os filhos limpos, sadios e estudando. Mulheres “tementes a Deus”, com muitos filhos, empregadas ou irmãs e tias ajudando a cuidar da casa, o marido reinando absoluto. Provedor e ditador.
Hoje, as mães são fruto de uma revolução feita pelas próprias mulheres, sem a ajuda dos homens, nestas últimas décadas, à custa de muito sacrifício, de batalhas públicas e privadas assegurando-lhes uma nova dimensão.
As mães de hoje são outras, enquanto cuidam do filho insone fazem uma tarefa do seu trabalho ou arriscam o olho em um livro ou numa televisão multifacetada abrindo-lhe as portas do mundo, sejam cafonices, pieguices, devaneios ou a informação em tempo real.
Essas novas mulheres são corajosas, fortes, diligentes, mesclam o dever com o prazer e multiplicam seu tempo para ser mãe, trabalhadora, dona de casa, cuidar do corpo e prender o marido. Esse bicho danado e teimoso querendo criar asas, embora seja um mero bípede e, muitas vezes, não sabe nem onde pisa.
A nova mãe não é um estereótipo, é um ser mutante tentando conviver num mundo novo, lado a lado, com um parceiro incapaz de esconder suas fraquezas, pois visíveis. Divide despesas, faz orçamentos, leva filhos a médicos e dentistas, cozinha ou compra congelados, copia modelos de vestidos, aproveita liquidações, estuda e/ou trabalha fora, briga por vaga em escola gratuita ou por mensalidades mais baixas e defende seus pontos de vista nas reuniões de pais (e mães) e mestres, integra uma turma de amigas, possui a liberdade oferecida por um celular e teme o futuro. É um ser estressado como se fora um homem, trabalhando, às vezes, mais que ele e se quer bonita, alegre e saudável.
Ela só deixa de trabalhar nos últimos dias da gravidez, vai para o parto já com uma cinta pronta para recompor a silhueta e 24 horas após está em casa administrando o caos. Decide se vai usar o Diu, ligar as trompas ou pedir ao marido para fazer vasectomia.
Não há um novo homem pronto e acabado para essa nova mulher e mãe. Os homens ainda não se deram conta de sua mãe não servir mais de modelo e os édipos estão sendo sepultados, mesmo à força.
Atônitos, despreparados, procuram em seus pares as explicações sonegadas por suas mentes. Aos poucos, passam a ver sua mulher como alguém exatamente igual a ele e isso lhes amedronta, pois sabem do que são capazes. Se eles são, elas também. Do receio talvez surja o respeito oxigenador dessa relação ainda difusa e confusa tendente a se alicerçar na independência mútua e, paradoxalmente, venha a ser o elo faltante dessa nova convivência.
A essa nova mãe, fruto de todos os acontecimentos deste final de século, nos cabe homenagear como alguém emergente do meio de tantos desencontros entre pessoas ainda não aptas a trilhar o caminho dessa estrada libertária e amedrontadora, por ser desconhecida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/1999.

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SOCIALITE

Muita gente usa a palavra “socialite” sem saber exatamente o seu significado. Aliás, por não saber, a forma incorreta como é usada passa a ter cânone de verdadeira. Diz-se, de um modo geral, ser uma mulher “socialite” quando ela é colunável socialmente. Os(as) colunistas sabem, por viverem paparicados(as), quem seriam as “socialites”, as alpinistas e as “informantes”, integrantes de uma espécie de SNI social, que transformam um trivial almoço com alguns poucos familiares e amigos, uma viagem boba, um fato qualquer, em uma nota de jornal.
O que essas “socialites” ainda não se deram conta é que o perfil da coluna, dita social, mudou. O(a) colunista já sabe disso há anos. Hoje, ela é um misto de política, negócios, eventos culturais e sociais e, como todo mundo gosta, um pouco de mexerico que serve para apimentar.
Algumas pessoas só acreditam em suas festas, casamentos, vitórias empresariais, sucesso acadêmico ou profissional, quando a versão glamourosa é contada no jornal. Não deu no jornal, não aconteceu. Isso vai alimentando “a fogueira das vaidades”, referida por Tom Wolfe em seu romance homônimo lançado no fim da década de 80, usando como pano de fundo os novos ricos de Wall Street, Nova Iorque.
O fenômeno é mundial e não se limita à cidades tidas como provincianas. Cientes desse filão inesgotável, a vaidade humana, surgem revistas tipo “Caras”, a expressão pura e acabada da futilidade e do exibicionismo. De uns tempos para cá começaram a aparecer, na mesma esteira, programas de televisão alimentados pela vaidade encobrindo a insegurança ou pela insegurança geradora da vaidade. Revelam preferências, inaugurações, festas de toda natureza, casas prontas para mostrar, simulam entrevistas deixando patentes a pose e o ridículo; e fazem a alegria e a glória de quem precisa de uma alta exposição para aplacar, em alguns casos, o seu vazio. Além disso, dão ao comum dos leitores ou telespectadores uma pretensa intimidade com “gente muito importante” ou Vip (very important people).
Mas, afinal, o que significa o termo “socialite”? Esse neologismo, “newyorquismo” ou anglicismo foi gerado por jornalistas com a fusão das palavras social e socialista. A revista “Time”, nos anos 60, descobriu existir um tipo de mulher de Nova Iorque aliando à sua condição de frequentadora da sociedade a de “socialista”. Seria, mais ou menos, o equivalente ao conhecido no Brasil como “esquerda festiva”, esquerda de coquetel ou botequim ou, trazendo para os tempos atuais, uma espécie de “Radical Chic” engajada.
Um exemplo desse tipo de “socialite” seria, talvez, como satiriza a intelectual multimídia Susan Sontag, ao criticar as pessoas que vão assistir à peça “Esperando Godot”, de Samuel Beckett: “Esperando Godot é chique, todo mundo acha profundo, porque ninguém entende nada”. Ou como disse Antônio Gramsci: “ O otimismo da barbárie é o pessimismo da inteligência”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/05/1999.