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PORTUGAL DO EURO

Revi Portugal. Todo viajante leva uma mala com roupas e outra, invisível, com a sua história, seus preconceitos. Não sou diferente. Portugal, para mim, é um país ainda a ser descoberto. Por mais que tenha estado lá, pouco entendo de seu ritmo, da essência do seu povo, da cultura de seus autores consagrados e da que exala de seus sobrados, monumentos, mosteiros e igrejas. Não entendo, mas tento.
A primeira vez que estive em Portugal foi em 1965. Nessa época reinava a ditadura de Antônio Salazar e as cidades portuguesas pareciam tristes como o andamento do fado e a roupa preta das mulheres. Nem a língua comum permitia ouvir dos portugueses o pulsar real de suas queixas. Ela se fecha em lamentos surdos e pouco se extrai da dor –nostalgia- avassaladora que parece ser a sua essência. Como se a dor alimentasse o semblante quase sempre carregado.
Quando da Revolução dos Cravos, em 1974, estive por lá e fiquei alegre por ver em Mário Soares um sopro da redescoberta intrauterina de Portugal. Parecia uma catarse coletiva e o país despedia-se da era salazarista à procura de uma nova identidade. Voltei outras vezes e vi nas décadas de 80 e 90 que o país tentava esquecer o ultramar perdido e abria-se para a Europa, sendo visto pelos países ricos como novo destino turístico, campo crescente para a implantação de indústrias, até culminar com a sua entrada na Comunidade Europeia em 1986.
Foram feitas privatizações. As multinacionais baixaram em Portugal e saíram comprando o que podiam. Grandes grupos portugueses se consolidaram. Aí parece ter ocorrido um erro de perspectiva. Com dinheiro fácil para novos negócios o país foi ficando endividado e, hoje, neste inverno de 2003, revi Lisboa como uma cidade mais moderna, com as reformas introduzidas para a realização da Expo-98 com o belo e grandioso Parque da Exposição, mas com um certo ar de recessão.
A euforia parece ceder, novamente, ao lamento e há até quem diga que o Euro, introduzido em 1999, não tenha feito bem a algumas pessoas que teimam em raciocinar em escudos e contos de réis. O choque da europeização de Portugal ainda é um fenômeno novo, mas o fado parece voltar a ter sentido, pois se reacendem os sentimentos de pesar, como se o progresso tivesse minado a alma de quase todos. Os preços subiram e o rico dinheirinho que era mandado de volta para as famílias pelos emigrados porteiros, motoristas, governantas, recepcionistas e garçons espalhados por toda a Europa rica não tem mais o encanto de outrora.
Disse, no início, não conhecer bem a essência da alma portuguesa, mas retrato o visto e ouvido nas minhas andanças pelo velho Chiado, a Baixa e tantos outros lugares. E o faço com o que tenho de Caminha e Soares no sangue. Gostaria de estar errado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2003.

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BUSHUSSEIN: O SHOW DA VIDA E DA MORTE

Não quero ter na consciência o peso da indiferença ou da omissão. Os canais de TV estão fazendo da guerra do Golfo Pérsico um ato vil, sádico, desumano e tornando as pessoas insensíveis ao absurdo da agressão mútua e da morte descabida. Pintar Saddam Hussein e George Bush de tiranos ou defensores ou o quer que seja, é um filme tão ultrapassado, de retórica antiga, consistente como um pudim e defensável como uma freira fazendo ´strip-tease´.
Nenhum analista político americano ou iraquiano teve a coragem de ser explícito: a guerra é um emaranhado de mentiras, de embustes, de interesses econômicos contrariados e a pretensa defesa ou conquista de um emirado do Oriente Médio – que há pouco mais de trinta anos era parte de um protetorado britânico – não dá a ninguém o direito de fazer o que está sendo feito.
O Iraque brigou oito anos com o Irã e ninguém se meteu. Até armas químicas foram usadas. Os Estados Unidos invadiram Granada e o Panamá e a ONU ficou calada. A Rússia quase dizimou a Letônia e nada. A Letônia, o Panamá e Granada não têm petróleo. O Irã era inimigo dos Estados Unidos e o Iraque – até recentemente – seu aliado. Estes são os fatos. Não consigo entender a razão pela qual os canais de TV, inclusive a poderosa CNN americana, se rendem – ou se vendem? – a um ilusionismo digno de Houdini. Esse canais são dirigidos por pessoas como nós e se rendem a uma ignóbil propaganda, a mesma utilizada por Goebbels na Alemanha nazista. O elevado índice de aceitação (79%) por parte da opinião pública americana da posição adotada por Bush e o gen. Collin Powell, o primeiro negro a comandar uma guerra nos Estados Unidos, reflete a maciça propaganda mostrando que cabe aos Estados Unidos defender o mundo. Para defender o mundo, os Estados Unidos estão com um contingente onde a maioria é constituída pelas minorias raciais. Basta dizer que, segundo o jornal New York Times de 25 de janeiro último, 24,6% do total de soldados é de cor preta. Outro tanto é constituído de latinos, eslavos, italianos etc. A parcela WASP (anglo-saxônica, branca e protestante) é menos que 50% do total de americanos envolvidos no conflito.
A humanidade sofre com a fome do terceiro mundo, onde a África e a América Latina são contrapontos na orgia de mísseis e tecnologias que devoram, por dia, a dívida externa da Bolívia. Os cientistas do primeiro mundo dão uma demonstração patente de ausência de humanismo, de falta de preocupação de males como a fome, o câncer, a Aids e as doenças endêmicas resultantes de atraso e do descaso de uma comunidade de seres privilegiados e alheados da realidade social.
Ninguém pode se orgulhar de uma guerra com data marcada, correspondentes a postos como se fosse uma olimpíada, bilhões de dólares em equipamentos e em pessoal para serem dizimados em uma contabilidade onde o registro de uma façanha destruidora é motivo de uma edição extra por locutores com emoções orgásticas citando número de mortos e feridos. Para concluir, só um detalhe: este artigo foi escrito e publicado neste Diário no dia 07 de fevereiro de 1991. Filme em reprise?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/03/2003.

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A CIDADANIA

José Gutiérrez nasceu em um bairro pobre da Guatemala. Viu que seria pobre eternamente e descobriu-se sonhando com um futuro mais promissor. Não seria como seus pais, já velhos e sem perspectivas com menos de 50 anos. O mundo estava aí para ser conquistado. Trabalhou, juntou tudo o que tinha e fugiu para os Estados Unidos. Foi dar com os costados na Califórnia, lugar lindo, rico, em que tudo parecia funcionar. Viajava de trens, ônibus, caronas, mesmo que dormisse em prédios abandonados e vivesse se escondendo da “la migra”, como é chamada a polícia migratória.
Acreditava haver encontrado um sentido para a sua vida e uma nova casa. Não voltaria para a pobreza guatemalteca. Sonhava em ser um novo Antonio Banderas ou, quem sabe, um dono de uma daquelas lanchonetes em que a comida era cheirosa, serviam água com gelo e nos banheiros limpos fazia, escondido, os seus asseios.
Um dia, sem que esperasse, foi preso pela “la migra”. Desolado, soube por outros imigrantes ilegais que a melhor maneira de se safar era declarar-se refugiado. Assim o fez. Saiu das grades e viu que a única saída para ser igual aos outros que viviam na América era ter um “status”. Se não tinha dinheiro, não falava bem o inglês, mas era forte e jovem, a solução seria ingressar nas forças armadas, onde já estavam 130 mil latinos como ele, e conseguir o “green card”.
Era vidrado em filmes de guerra em que os “marines” sempre venciam as batalhas e tinham as mulheres que queriam. Seria um deles e mandaria fotos coloridas para seus pais e amigos da Guatemala. Escolheu o Corpo de Fuzileiros Navais. Agora era mais uma praça, o “Joe”.
Veio a oportunidade sonhada: a Guerra do Iraque. Não sabia bem qual a razão dela, mas isso pouco importava. Teria viagens, bom soldo, promoções e gostaria de conhecer de perto aquelas mulheres que se cobriam todas. Tiraria os seus panos e mostraria porque se achava um Antonio Banderas.
Viajou em um grande avião com farda camuflada e viu, ao chegar, que a coisa não era bem o que pensava. O Iraque lembrava a pobreza de sua Guatemala e o calor fazia ferver o seu sangue latino.Logo foi destacado para uma missão de reconhecimento em uma cidade que não sabia pronunciar o nome. Mascando chicletes, com toda uma parafernália de munições, equipamentos e armas, pensava estar protagonizando um daqueles filmes em que os “marines” sempre vencem. Seguia o que seu sargento mandava fazer e gostava de colocar os óculos em que via no escuro, como se fosse dia. Era, enfim um americano. O “Joe”. Em um instante, José Gutiérrez estava morto. Uma bala perdida ou dirigida, nunca se saberá, o encontrou. Era o segundo americano morto em operações no Iraque. Nem aí teve a glória de ser o primeiro. Seu corpo foi resgatado e colocado em um caixão de zinco enrolado em uma bandeira americana. Voltou no porão de um avião de guerra. A América concedeu a José Gutiérrez a cidadania post mortem, não precisaria mais do “green card”.

Escrito por João Soares Neto, a partir de notícia verídica do jornal “El Clarín”, de Buenos Aires, edição de 29.03.2003
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2003.

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A PRIMAVERA DA AMÉRICA

Sou uma espécie de peregrino sem caminho preestabelecido. Penso estar aqui e me surpreendo voando. Não que voar seja o meu fraco, pois não sou alado e tenho que me render aos aviões. Dois voos após, estava na América. Na América pós-Iraque, nestes feriados da Páscoa emendados com Tiradentes. Por desligamento, entrei na imigração na fila dos americanos. Pedi desculpa e ia saindo. O agente que estava atendendo riu e disse: fique. Mostrei o passaporte e eu fui quem fez perguntas sobre o seu sobrenome não americano grafado no crachá. Falou-me dos pais imigrantes, carimbou o passaporte e deu votos de boas-vindas. Estava na América de Bush. Na terra em que de cada dez carros, pelo menos quatro, portam bandeiras americanas. Onde os prédios públicos e privados e as escolas vivem uma febre patriótica exacerbada. Paciência, as eleições americanas foram o que foram. Eles são assim, pensam que pensam certo e agem errado, até, vá lá, por boa-fé.
Saí do aeroporto e me dei conta da primavera que iluminava o sol, mas deixava ainda um friozinho na pele. Peguei a estrada. Tinha milhas e milhas a percorrer e promessas a cumprir antes de dormir, como diria Robert Frost. Duzentos e oitenta milhas depois estava na casa de amigos, por quem o meu coração clamava. Casa grande, bonita, quase centenária em uma pequena e nobre alameda de apenas duzentos metros, povoada de árvores frondosas que pareciam chorar pelas galhas. No pórtico: duas bandeiras. Uma americana, outra brasileira. Ainda bem. Limpei os pés e toquei a campainha. Era hora de estar lá. Sem promessas, mas com a espada da benquerença desembainhada. Falamos tanto, como se houvesse uma guerra ao silêncio que cercava o medo. Falamos sem peias, expressando tudo. E o passado se fez ali para, mesmo que em vão, descobrirmos as origens das feridas sorrateiras a corroer o corpo quando a alma silencia.
Éramos irmãos, mesmo que de países diferentes, falando de coisas sérias e duras com uma candura imprópria a homens maduros. Só as árvores testemunhavam o nosso entendimento à beira da hora da verdade. Após tudo ter sido dito, passamos a ser três. Achegou-se a irmã de sangue, embora prenhe de costumes americanos. Sabíamos que podíamos escancarar a alma e que ninguém estava ali por acaso. Ali fui levado pela linguagem da alma. Não tinha nada a dar, mas precisava ir. Era tempo de chegar, da adição do olho no olho. Do aperto de mão verdadeiro, do conforto mútuo e da consciência de que estávamos prontos, mesmo sem saber para que. A vida põe âncoras em pessoas em portos não escolhidos e vai-se gastando o tempo da ampulheta do destino quando surgem os terremotos. Mas os que se respeitam e creem no que fazem, logo encontram o chão firme e não têm receio do vazio. Há sempre plenitude na racionalização e no emaranhado de sentimentos que teimam em florescer.
Fez-se hora de voltar. Nada é permanente, a não ser a efemeridade do instante. Tudo fora dito e sabíamos que voltarei qualquer hora dessas, desejando seja novamente primavera e as bandeiras, as duas, ali continuem.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2003.

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AS MÃES-MENINAS

Seria bom que o dia de hoje fosse um dia alegre para todas as mães brasileiras. Seria bom que todos os filhos pudessem homenageá-las e vê-las felizes. Seria bom que todos nós tivéssemos a consciência tranquila de que as mães são assistidas, respeitadas, amadas e festejadas. Neste País em que 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, a história real é bem diferente da mostrada nos elaborados comerciais de televisão, jornais e emissoras de rádio. Não haverá festa, nem presentes para a maioria das mães brasileiras, especialmente as mães-meninas. Será mais um dia de cão.
Em qualquer pequena, média ou grande cidade brasileira você viu, vê e verá, dia e noite, adolescentes grávidas ou jovens mães vestidas com andrajos levando crianças ao colo ou puxando pela mão como aval para mendigar nos semáforos, praças, avenidas e portas de templos religiosos. Este é um retrato cruel, sem retoques e malsinado de um país que se arvora de ser uma das maiores economias do mundo.
Neste dia das mães é para essas meninas-mães ou mães-meninas que a lembrança acode. Não estudaram, suas famílias são desestruturadas, têm na face a desnutrição, nos olhos carregam a desilusão, no corpo as mazelas, mas não puderam conter o fogo natural da juventude, perdidas na voracidade das noites em que tudo é permitido, nada é vigiado e o sol custa a nascer.
Sem saber nada de nada, estavam grávidas a troco de qualquer coisa e jogadas em um mundo cruel que as discrimina e desampara. O que dizer de tudo isso? O que é tudo isso? Há dezenas de órgãos de proteção aos menores. Há um Estatuto da Criança e do Adolescente e tudo continua na mesma, sem que nenhuma orientação seja dada ou providência tomada. Não são raros os casos de mães que entregam seus filhos por qualquer ninharia e o fazem, quem sabe, como um último ato de amor. Se não podem mantê-los têm, pelo menos a esperança ou a ilusão de que a pessoa que ´comprou´ sua criança cuidará dela melhor e a criará ´feito gente´.
Pode ser indelicado falar, no dia de hoje, nesta face cruel que tentamos esquecer ou ignorar. Por outro lado, seria bom que cada pessoa de bem pudesse sair de seus casulos e em meio às suas festas pantagruélicas sentisse um pouco dessa dor e compartilhasse da solução com responsabilidade solidária, a partir de engajamentos cívicos, sem demagogia ou alardes.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2003.

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ENTREGA À MÃE-TERRA

Voltei mais rápido que esperava e desejava. As bandeiras me chamaram. Estava, novamente, na terra do chapéu Stetson e aonde foi selada a vitória de Bush sobre Gore. Foi agora em maio e eu me lembrei, mesmo sem querer, da entrega do Oscar deste ano, quando um americano meio fora do padrão, Michael Moore, ganhou a estatueta de melhor documentário com o filme “Tiros em Columbine”, brandindo horrores contra o Sistema americano por ser uma nação louca por armas. A América é muito complexa para ser descrita em um só filme. É um país tão multifacetado que cabe não só em “Tiros em Columbine”, como no filme “Pães e Rosas” e em tantos outros.
Voltava às pressas, a chamado de sentimentos. Os mesmos voos, a mesma estrada, as mesmas árvores, a rua tranquila. Faltavam as bandeiras americana e brasileira. O pórtico estava apenas com os aros. As bandeiras haviam sido retiradas. Estavam em outro lugar. E foi para lá que fui.
Era uma igreja católica. Bonita, moderna. Estrutura de aço, mas toda recoberta por madeira. Parecendo ser o que não era. Ou era o que não parecia. Lá estavam as bandeiras, lado a lado. De pé. A diferença é que havia alguém deitado para sempre e outra tentando, com todas as suas forças, manter-se de pé. Um padre jovem, alto, bem-apessoado, de voz canora, fazia às vezes da casa. Houve cânticos, discursos, rosário, missa de corpo presente, música sacra, gaitas irlandesas, encomendação e a gentileza dos homens de preto que cuidavam de tudo.
Era chegada a hora de tomar outra estrada, afinal. Partimos para a cidade onde Jeb Bush trabalha. Chegamos à noite e, em poucas horas, novamente, uma igreja. Desta vez ela era americana assumida, batista, inflável, de plástico, climatizada e poderia ser também uma quadra esportiva. As bandeiras já estavam lá. Haviam sido transportadas. Houve mais preces, cânticos e até um longo discurso do Procurador Geral do Estado. Reminiscências. A música cessou e apareceu a limusine. Sem limusine não estaria encerrada a participação dos homens obrigados a estar ali. Tomamos a limusine. Gente das duas bandeiras. Vimos a estrada nos levando para uma floresta bonita. A limusine fez uma curva, saiu da estrada, e parou. Pisávamos em chão batido. Descemos e ficamos em posição. Éramos das duas bandeiras. Estávamos ali para entregar à mãe-terra alguém que quis ficar em meio a ciprestes e a seus ancestrais, fora da estrada e ao reencontro de sua verdadeira natureza. Pássaros cantaram e saímos silentes.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/05/2003

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O INCONFORMISMO DO OLHAR

Quem olha com mais atenção em geral é inconformado. O que vê não é apenas o que se pretende mostrar. Vê muito mais. Os olhos inconformados fazem leituras, filmam, auscultam, pintam e veem além da paisagem ou da pessoa. Vão lá dentro da alma, da essência e sentem o outro em sua fisiognomonia das aparências e dos gestos. E isso produz uma visão crítica severa, a de entender o outro não pelo que diz, mas pelo que se infere da sua e da nossa história.
Os artistas, especialmente os pintores, escultores, compositores, cineastas, poetas e escritores têm, quase sempre, esse viés. Não se contentam com a realidade aparente ou a aparente realidade. Fixam o olho e extraem a essência, aquilo que não fica exposto, embora seja uma fratura.
Os que viram o filme ´Frida´ puderam observar que ela possuía inconformismo no olhar e isso a fez ser a pessoa que foi, mesmo tendo ao seu lado a figura consagrada do pintor e muralista Diego Rivera. Eram avançados para o seu tempo e os seus olhos viam mais do que o mundo mostrava. Despetalavam a realidade e com o seu inconformismo, a transformavam na loucura real em que viviam.
Virgínia Woolf, tão pouco lida, mas muito comentada depois que um filme mostrou uma réstia da sua vida, era outra pessoa com inconformação no olhar. Acabei de ler ´Mal de Amores´, da consagrada escritora mexicana Angelles Mastretta. A personagem principal, Emília, tem o mesmo mal ou bem. Não repousa o seu olhar apenas nas paisagens de Puebla, mas o distribui por todo o México e dá rasantes na América, sem nunca esquecer de seus dois amores, tão diferentes quanto preservados e relevantes em sua vida singular e dupla. Por aqui há uma mulher de olhar inconformado: Natércia Campos, cansou-se de ser filha, esposa e mãe, e deu a si o direito de construir uma casa com o olhar tão amplo quanto os seus sonhos reprimidos. Sonhos transbordados em prosa tão luminosa quanto a dramática trama de seu livro ´A Casa´, um libelo pouco entendido, mesmo para os que o imaginaram ler com atenção. Será preciso ter olhar inconformado para conseguir ver ´A Casa´ em toda a sua plenitude e assombrações, este livro sobre pessoas, mas com almas e as lamas permeando o seu enredo.
Talvez valesse dizer aos namorados, festejados no próximo dia 12, que deem vazão ao inconformismo preso em seus olhares. Não finjam sentimentos e poupem quem espera amor e não apenas presentes. É preciso ser verdadeiro neste tempo de tantas mentiras. É preciso ter os olhos inconformados para adonar-se da vida, abrí-los para ver além. Depois, fechá-los e ouvir a sua voz interior. A que realmente conta.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/06/2003.

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GABO E A SOLIDÃO

Um dia desses alguém me perguntou se deveria ler o livro ´Cem anos de solidão´, de Gabriel (Gabo) Garcia Márquez. E argumentava: ´já não aguento a minha própria solidão, pois não sei administrá-la. Como perder meu tempo lendo um século de solidão?´
Cada pessoa é livre e ler é um ato individual que exige vontade e concentração. É uma decisão pessoal em que os olhos passam a comandar os nossos sentidos e nos fazem deixar o mundo real para penetrar em uma seara imaginária em que tudo é permitido, pois depende do contrato de adesão entre a mente de quem lê e foco de quem escreve. Ler pode até ser perda de tempo, mas é uma das perdas de tempo mais gratificantes da vida. O ser humano começa a ler quando identifica a mãe, o pai e o lugar onde vive. Antes de falar, os olhos já leem. Depois, passa a entender símbolos: as letras do alfabeto. Em seguida, junta os símbolos e faz um primeiro jogo com as palavras: bola, pé, papai, mamãe etc. De repente, o jogo clareia e as palavras formam frases. É claro que o ambiente familiar e a formação escolar ajudam a formar leitores. Se observa os pais lendo e há jornais, livros e revistas em casa é um passo para a criança passar a ser um leitor, especialmente se foi acostumada, desde cedo, a ouvir histórias antes de dormir. Igualmente, se a escola a estimula a ler para fazer pesquisas, aprender biografias e História. Feito isso, será mais fácil gostar de escrever e compreender melhor o que lê.
Voltemos ao livro. Não vou fazer resenha nem aconselhar. Apenas tal pergunta aguçou minha curiosidade. Resolvi procurar o meu velho livro ´Cem anos de solidão´ e verifiquei que o permanente costume de marcar frases estava lá. A marcação de frases pode representar o que se pensa no momento da leitura, concordância ou discordância com o que diz o autor através de seus personagens.
Entre amigos que gostam de ler há intercâmbio de livros ´marcados´, isto é, já lidos. A partir das marcações, fazem até psicanálise de brincadeira e identificam os pontos que têm em comum, apesar de, muitas vezes, terem nascido em lugares ou países distintos e profissões diferentes.
Vou mostrar as minhas marcações de frases sobre o que dizem os personagens de Márquez no ´Cem Anos de Solidão´. Cito apenas sete: 01. As coisas têm vida própria. Tudo é questão de despertar a sua alma. 02. A curiosidade pode mais que o temor. 03. Na verdade estavam ligados até à morte por um vínculo mais sólido que o amor: uma dor comum de consciência. 04. O tempo põe as coisas no lugar. 05. Não suplique a ninguém, nem se rebaixe diante de ninguém. 06. Só ele sabia, naquele tempo, que o seu aturdido coração estava condenado para sempre à incerteza. 07. A armadilha da saudade… Que se há de fazer, o tempo passa. É verdade. Mas não tanto.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2003.

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DISCURSOS E IMAGENS DE PRESIDENTE

Quem viveu ou estudou os anos 60/70 na América Latina sabe que era comum o tratamento ´companheiro´ entre os jovens e militantes de esquerda. Vieram os anos de repressão, a clandestinidade, as guerrilhas e a volta gradual à democracia.
Quem viveu ou estudou os anos 60/70 no mundo sabe da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, da guerra do Vietnã e da intensa propaganda feita por Moscou e Washington para demonstrar isso ou aquilo.
A queda do muro de Berlim em 89 e o esfacelamento da União Soviética nos anos 90 tornaram a balança favorável aos Estados Unidos. Esse fato não fez diminuir a existência de grupos e correntes de esquerda na América Latina e a expressão ´companheiros´ continuou em voga.
Ano 2003, Brasil. Um antigo companheiro chega à Presidência da República. Assume com um apoio popular imenso, enquanto a credibilidade externa do país está em baixa. Em seis meses de governo pode ter sido o Presidente que mais tenha feito discursos. É natural que um político que criou e viu crescer o Partido dos Trabalhadores até chegar ao poder, tenha ânsia de dizer a que veio, o que pretende e o que espera de políticos e da sociedade. Por outro lado, mais natural ainda é que os seus assessores, que se esmeram em apresentá-lo bem vestido e cuidado, tenham a coragem de dizer-lhe que já é tempo de participar de menos reuniões. Qualquer assessor presidencial sabe que o chefe da Nação é o ´Primeiro Magistrado´. O que quer dizer isso? Que a pessoa que ocupa os palácios da Alvorada e do Planalto é o delegado de todos nós para governar e distribuir justiça.
O discurso não deve ser o foco. O foco é a governabilidade e a distribuição da justiça sem precisar, por exemplo, vestir a camisa de times de futebol, receber misses ou usar bonés seja de quem for. Alguém precisa ser mais leal ao Presidente. Lealdade não passa pela subserviência e a aprovação popular não deve ser entendida como aval para dissipar o tempo em cerimônias e viagens que podem ser evitadas. O Presidente tem ministros e assessores e esses são, naturalmente, seus representantes nessas solenidades menores. O Presidente deveria ser mais resguardado para manter incólume a credibilidade que granjeou em meio à esperança de todos.
O Brasil precisa sair mais do noticiário. A imprensa brasileira atual, especialmente a da televisão, só tem duas vertentes: a denúncia e o governo. A mídia deveria ser mais responsável e criativa. Ao invés de espalhar maledicência e flagrar o presidente comendo um biscoito ou falando de sua mulher, deveria estar preocupada em melhorar a qualidade do que informa, pagar seus impostos e ver o Brasil não como um produto, mas como um país a ser respeitado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2003.

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FOFOCA E PRIVACIDADE

Pesquisas revelam que o Brasil é o país da fofoca. Fortaleza seria a cidade-rainha da fofoca. É por estas e por outras, que cada pessoa deve preservar mais a sua intimidade. Assim, seja você como for, não permita que invadam a sua privacidade, lute para afastar os que se adonam de você de forma explícita ou não. Não existem só os meios tradicionais de invasão que você conhece (os que se fazem de íntimos, os amigos de todo mundo e de ninguém, os bisbilhoteiros contumazes, pessoas que você não vê há séculos e dão as caras, parentes com quem não convive e tecem redes de intriga etc). Não dê trela a quem, por não ter satisfação com a própria vida, vive de bisbilhotar e distorcer as dos outros.
Hoje, neste mundo em que a informática e a comunicação têm um lugar destacado, há outras invasões menos sentidas, mas também danosas. Por exemplo, há alguns anos foram criadas as mailing-lists ou listas de correspondência. Se você compra em loja, se tem um ou mais cartões de crédito, faz parte de alguma entidade ou clube, assina revistas etc, certamente integrará as famigeradas mailing-lists e receberá cartas, cartões, convites, propagandas e outros que tais. Hoje, no Brasil, há empresas especializadas em vender listas de correspondência e faturam alto com o nosso nome.
Se você utiliza computador, tem um e-mail e cai na tolice de responder a alguém que lhe manda correntes de orações, piadinhas, protestos contra políticos etc., sem dúvida entrará em muitas listas de ´spam´, que é o lixo da Internet. O spam é, em outras palavras, tudo aquilo que você recebe sem pedir e querer e que lhe dá trabalho de, literalmente, colocar na lixeira
Outra invasão é aquela feita através do seu telefone fixo ou celular. Há pessoas que adoram números de telefones de amigos ou de gente importante e têm o desplante de passarem para frente, o que alguém lhe confiou ou conseguiu, por mera bisbilhotice. Outros, sem perguntar se você está ocupado, ligam dizendo que querem trocar duas palavras e passam um tempo maior que a sua paciência permite. Isso tudo é quebra de um tácito contrato social de privacidade/civilidade que lhe deixa vulnerável a pessoas que violam a intimidade a que todos têm direito, especialmente fora do exercício de uma função pública. Ouça gente que sabe que a sua imagem (fotos, filmagens etc) não pode ser utilizada sem a sua autorização e se deixam embevecer pelo flash que espoca ou o aparato de uma filmagem.
É claro que não podemos viver como Howard Hugues, um excêntrico bilionário americano que se isolou do mundo e acabou morrendo sozinho. Você deve estar atento à infiltração contínua da sua privacidade e lutar para que fantasias, interesses, fantasmas e fofocas não sejam criados a partir da imaginação dos que, costumam ter a inveja como prumo e o desatino como rumo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2003.