Sem categoria

GABO E A SOLIDÃO

Um dia desses alguém me perguntou se deveria ler o livro ´Cem anos de solidão´, de Gabriel (Gabo) Garcia Márquez. E argumentava: ´já não aguento a minha própria solidão, pois não sei administrá-la. Como perder meu tempo lendo um século de solidão?´
Cada pessoa é livre e ler é um ato individual que exige vontade e concentração. É uma decisão pessoal em que os olhos passam a comandar os nossos sentidos e nos fazem deixar o mundo real para penetrar em uma seara imaginária em que tudo é permitido, pois depende do contrato de adesão entre a mente de quem lê e foco de quem escreve. Ler pode até ser perda de tempo, mas é uma das perdas de tempo mais gratificantes da vida. O ser humano começa a ler quando identifica a mãe, o pai e o lugar onde vive. Antes de falar, os olhos já leem. Depois, passa a entender símbolos: as letras do alfabeto. Em seguida, junta os símbolos e faz um primeiro jogo com as palavras: bola, pé, papai, mamãe etc. De repente, o jogo clareia e as palavras formam frases. É claro que o ambiente familiar e a formação escolar ajudam a formar leitores. Se observa os pais lendo e há jornais, livros e revistas em casa é um passo para a criança passar a ser um leitor, especialmente se foi acostumada, desde cedo, a ouvir histórias antes de dormir. Igualmente, se a escola a estimula a ler para fazer pesquisas, aprender biografias e História. Feito isso, será mais fácil gostar de escrever e compreender melhor o que lê.
Voltemos ao livro. Não vou fazer resenha nem aconselhar. Apenas tal pergunta aguçou minha curiosidade. Resolvi procurar o meu velho livro ´Cem anos de solidão´ e verifiquei que o permanente costume de marcar frases estava lá. A marcação de frases pode representar o que se pensa no momento da leitura, concordância ou discordância com o que diz o autor através de seus personagens.
Entre amigos que gostam de ler há intercâmbio de livros ´marcados´, isto é, já lidos. A partir das marcações, fazem até psicanálise de brincadeira e identificam os pontos que têm em comum, apesar de, muitas vezes, terem nascido em lugares ou países distintos e profissões diferentes.
Vou mostrar as minhas marcações de frases sobre o que dizem os personagens de Márquez no ´Cem Anos de Solidão´. Cito apenas sete: 01. As coisas têm vida própria. Tudo é questão de despertar a sua alma. 02. A curiosidade pode mais que o temor. 03. Na verdade estavam ligados até à morte por um vínculo mais sólido que o amor: uma dor comum de consciência. 04. O tempo põe as coisas no lugar. 05. Não suplique a ninguém, nem se rebaixe diante de ninguém. 06. Só ele sabia, naquele tempo, que o seu aturdido coração estava condenado para sempre à incerteza. 07. A armadilha da saudade… Que se há de fazer, o tempo passa. É verdade. Mas não tanto.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2003.

Sem categoria

DISCURSOS E IMAGENS DE PRESIDENTE

Quem viveu ou estudou os anos 60/70 na América Latina sabe que era comum o tratamento ´companheiro´ entre os jovens e militantes de esquerda. Vieram os anos de repressão, a clandestinidade, as guerrilhas e a volta gradual à democracia.
Quem viveu ou estudou os anos 60/70 no mundo sabe da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, da guerra do Vietnã e da intensa propaganda feita por Moscou e Washington para demonstrar isso ou aquilo.
A queda do muro de Berlim em 89 e o esfacelamento da União Soviética nos anos 90 tornaram a balança favorável aos Estados Unidos. Esse fato não fez diminuir a existência de grupos e correntes de esquerda na América Latina e a expressão ´companheiros´ continuou em voga.
Ano 2003, Brasil. Um antigo companheiro chega à Presidência da República. Assume com um apoio popular imenso, enquanto a credibilidade externa do país está em baixa. Em seis meses de governo pode ter sido o Presidente que mais tenha feito discursos. É natural que um político que criou e viu crescer o Partido dos Trabalhadores até chegar ao poder, tenha ânsia de dizer a que veio, o que pretende e o que espera de políticos e da sociedade. Por outro lado, mais natural ainda é que os seus assessores, que se esmeram em apresentá-lo bem vestido e cuidado, tenham a coragem de dizer-lhe que já é tempo de participar de menos reuniões. Qualquer assessor presidencial sabe que o chefe da Nação é o ´Primeiro Magistrado´. O que quer dizer isso? Que a pessoa que ocupa os palácios da Alvorada e do Planalto é o delegado de todos nós para governar e distribuir justiça.
O discurso não deve ser o foco. O foco é a governabilidade e a distribuição da justiça sem precisar, por exemplo, vestir a camisa de times de futebol, receber misses ou usar bonés seja de quem for. Alguém precisa ser mais leal ao Presidente. Lealdade não passa pela subserviência e a aprovação popular não deve ser entendida como aval para dissipar o tempo em cerimônias e viagens que podem ser evitadas. O Presidente tem ministros e assessores e esses são, naturalmente, seus representantes nessas solenidades menores. O Presidente deveria ser mais resguardado para manter incólume a credibilidade que granjeou em meio à esperança de todos.
O Brasil precisa sair mais do noticiário. A imprensa brasileira atual, especialmente a da televisão, só tem duas vertentes: a denúncia e o governo. A mídia deveria ser mais responsável e criativa. Ao invés de espalhar maledicência e flagrar o presidente comendo um biscoito ou falando de sua mulher, deveria estar preocupada em melhorar a qualidade do que informa, pagar seus impostos e ver o Brasil não como um produto, mas como um país a ser respeitado.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2003.

Sem categoria

FOFOCA E PRIVACIDADE

Pesquisas revelam que o Brasil é o país da fofoca. Fortaleza seria a cidade-rainha da fofoca. É por estas e por outras, que cada pessoa deve preservar mais a sua intimidade. Assim, seja você como for, não permita que invadam a sua privacidade, lute para afastar os que se adonam de você de forma explícita ou não. Não existem só os meios tradicionais de invasão que você conhece (os que se fazem de íntimos, os amigos de todo mundo e de ninguém, os bisbilhoteiros contumazes, pessoas que você não vê há séculos e dão as caras, parentes com quem não convive e tecem redes de intriga etc). Não dê trela a quem, por não ter satisfação com a própria vida, vive de bisbilhotar e distorcer as dos outros.
Hoje, neste mundo em que a informática e a comunicação têm um lugar destacado, há outras invasões menos sentidas, mas também danosas. Por exemplo, há alguns anos foram criadas as mailing-lists ou listas de correspondência. Se você compra em loja, se tem um ou mais cartões de crédito, faz parte de alguma entidade ou clube, assina revistas etc, certamente integrará as famigeradas mailing-lists e receberá cartas, cartões, convites, propagandas e outros que tais. Hoje, no Brasil, há empresas especializadas em vender listas de correspondência e faturam alto com o nosso nome.
Se você utiliza computador, tem um e-mail e cai na tolice de responder a alguém que lhe manda correntes de orações, piadinhas, protestos contra políticos etc., sem dúvida entrará em muitas listas de ´spam´, que é o lixo da Internet. O spam é, em outras palavras, tudo aquilo que você recebe sem pedir e querer e que lhe dá trabalho de, literalmente, colocar na lixeira
Outra invasão é aquela feita através do seu telefone fixo ou celular. Há pessoas que adoram números de telefones de amigos ou de gente importante e têm o desplante de passarem para frente, o que alguém lhe confiou ou conseguiu, por mera bisbilhotice. Outros, sem perguntar se você está ocupado, ligam dizendo que querem trocar duas palavras e passam um tempo maior que a sua paciência permite. Isso tudo é quebra de um tácito contrato social de privacidade/civilidade que lhe deixa vulnerável a pessoas que violam a intimidade a que todos têm direito, especialmente fora do exercício de uma função pública. Ouça gente que sabe que a sua imagem (fotos, filmagens etc) não pode ser utilizada sem a sua autorização e se deixam embevecer pelo flash que espoca ou o aparato de uma filmagem.
É claro que não podemos viver como Howard Hugues, um excêntrico bilionário americano que se isolou do mundo e acabou morrendo sozinho. Você deve estar atento à infiltração contínua da sua privacidade e lutar para que fantasias, interesses, fantasmas e fofocas não sejam criados a partir da imaginação dos que, costumam ter a inveja como prumo e o desatino como rumo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2003.

Sem categoria

O TRONCO DA BIANCA

Saio do hospital onde fui ver Bianca nascer. É dia claro, os ventos são fortes nesta manhã venturosa e a poeira levantada me faz fechar os olhos, entrar numa viagem no tempo. Tempo que se confunde e infunde tantas vidas. Eis a narrativa da viagem: era o primeiro filho… Não lhe deram nem o sobrenome da mãe, tampouco o do pai. Herdara um dos dois sobrenomes do avô paterno, exatamente o que o dito-cujo avô não incluíra na certidão de batismo do seu pai. Assim, sem pedir, viera ao mundo desconectado dos nomes do pai e da mãe que o conceberam e amaram. E o avô voou cedo para outras paragens, lá ficou e finou. Não herdou fama, nem desfama. Era apenas um neto usando o nome do avô.
E descobriu depois, quando vieram os irmãos, que também eles não tinham nada do seu nome. Era neto, filho e irmão desconectado de sobrenome. Parece que seria ele, só, sempre.
Foi crescendo em meio a essa confusão e um dia amou e pretendeu casar. Casar nos dois, no religioso e no civil com comunhão total de bem-querer e de bens. Precisava do batistério, prova de que era cristão, sua cabeça havia sido banhada na água-benta, ungido nos santos óleos e provara o sal da salvação. Juntou o batistério à certidão de nascimento. Não conferiam. Um ano as separava. Um ano não vivido. No limbo. Era mais velho para a lei dos homens, sem ser, e só fora recebido na igreja no ano seguinte. Nem era ainda cristão, mas já era pagão, sem ter corpo ou alma.
Explicou-se tudo, muitas vezes e devagar. Entenderam quando um parente bispo, apaziguou os ânimos, disse ser um erro do cartório e o casamento foi acertado. A noiva, por seu turno, resolvera retirar, ao casar, o sobrenome duplo do pai. Assim, os filhos deles, o novo casal, teriam o sobrenome dele, sem nada a ver com o de seus irmãos e pais. E o dela, apenas com o sobrenome da mãe. Era uma genealogia nova e diferente. E gente, nascida do e por amor, foi brotando, surgindo um novo tronco. As velhas raízes que sustentavam a árvore haviam sido podadas e só restara aquele novo a crescer e esgalhar.
Deus – ou o destino-, por pirraça, por não entender a confusão ou em represália, quem sabe, ao podar as raízes paternas, determinou com seus poderes supremos e mágicos que só vingaria mulher naquele novo tronco que formaria outras famílias. Vieram quatro filhas, frutos da nova árvore-base. Cresceram, apaixonaram-se e duas delas, com os seus eleitos maridos, geraram novas quatro filhas, incluindo a que chegou agora, nesta última quarta-feira, 30 de julho: Bianca, leonina, nascida sob os ares do sol, uma melodia, canto novo, plena de graça, verdadeira prenda para seus pais, bonita, sadia, abençoada por Deus. Nova vida, novo ciclo, quem sabe.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/08/2003.

Sem categoria

PARAÍSO SEXUAL?

Do lado direito de onde moro existe um prédio. Poderia ser mais um entre tantos, mas é desses do tipo “flat”. Flat é uma palavra inglesa que pode significar apartamento, mas não necessariamente. E significa também planície ou plano. Mas resolveram entender que “Flat” seria um conjunto de apartamentos pequenos, entre 25 e 60 m², para venda ou locação, administrado como se fora um hotel, sem sê-lo.
Ocorreu uma profusão de construção de “flats” no final dos anos 80 e por toda a década de 90. O “Flat” é uma entidade híbrida: nem é edifício residencial, nem deixa de ser, e também não é um hotel, embora reúna algumas de suas características . Pois bem, esses tais “flats” são, em boa parte, ocupados por residentes nativos, pessoas comuns e ordeiras de todas as cidades, mas a sua população variável é composta, quase sempre, de estrangeiros, que vêm para cá na certeza de que isto aqui é um paraíso sexual. Não escrevi tropical, escrevi sexual.
Quem quiser ver cenas de nudez e correlatos é só se demorar um pouco olhando para os tais “flats”. Há de tudo. Recentemente, por exemplo, vi um já combalido senhor, em plena calma e total nudez,de pé na minúscula varanda, como se estivesse em uma colônia nudista. E o fazia como se fosse o único habitante da selva, tal qual um Tarzan, mas sem a tanga. De outra feita, vi as figuras e ouvi todos os ruídos, sussurros e os gritos finais de uma relação entre uma bem jovem morena e um brancoso quarentão.
Nada de puritanismo, tampouco de estupefação, mas esta terra precisa de uma definição turística mais lisonjeira. Hoje, quase todo taxista que estaciona seu carro defronte a esses flats, alguns bares e boates, sabe a razão dessas viagens organizadas por operadoras estrangeiras que praticam preços baixíssimos em moeda estrangeira. Os turistas, na maioria homens em grupos, trazem endereços, cotações dos serviços, fotos e outras indicações que tais.
O que causa constrangimento é ler nos jornais que o turismo está sendo incrementado e que devemos receber bem os nossos visitantes. O que realmente é importante, justo e até bíblico. Mas, os que cuidam do turismo não podem fazer vistas grossas de tantos fatos sabidos, repetidos, comprovados e divulgados pela imprensa. Não vale a pena a quantidade de turistas de segunda classe que chegam, até infectam pessoas, degradam áreas, gastam míseros reais e saem propagando que aqui é terra de ninguém. E novas hordas chegam ávidas. Basta acompanhar os roteiros que fazem. É simples constatar. O que falta?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/12/2005.

Sem categoria

BOAS FESTAS OU FELIZ NATAL?

Estão discutindo por este mundo afora, como se isso resolvesse alguma coisa, se devemos dizer Boas Festas ou Feliz Natal. Argumentam que, pelo menos, 30% da população do mundo não têm nada a ver com o mundo ocidental e cristão. Para eles, este tempo é uma quadra qualquer. E dizem que nós não celebramos Buda e Maomé. De qualquer modo, fico com as duas. Esses, os questionadores, os tais politicamente corretos, preferem Boas Festas.
Argumentam, repito, que nem todos acreditam na natividade, no menino que nasceu em Belém e já há mais de 2.000 anos mexe com a cabeça das cabeças. Mexe com o que temos de mais profundo, o que revelávamos ao padre confessor, no tempo em que isso existia da forma que era. Mexe ainda hoje, quando, meio cínico e meio crente, nos perguntamos como anda a nossa fé. Essa fé que, com altos e baixos, nos remete ao nosso eu mais denso, quando mergulhamos no mar dos nossos pensamentos, sonhos e palmilhamos a estrada do que já passou e ficou. E nos faz, quando faz, orar em silêncio, sem repetir fórmulas prontas.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as festas, não essas a que somos obrigados a ir e todos já chegam com ar de enfado, o olho no relógio e a desculpa de que há ainda caminhos e caminhos a percorrer. As festas são os brilhos que saem dos nossos olhos quando estamos com gente que nos diz respeito, com quem o abraço não é uma pantomima, mas um halo de aconchego, um jeito seguro de ficar, sem que o tempo nos incomode. É festa quando as palavras não são policiadas e a delicadeza não é fruto de ensaio.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com o Feliz Natal, não pelos presentes, pelas árvores ou a alegria consumista, mas a certeza de que precisamos estar juntos, não por laços de engodo, mas pelo enlevo e a suspeita de que somos únicos, uns para os outros. Não só pela fé renovada ou combalida, mas pela esperança. E é essa esperança que nos chama ao convívio e à celebração, mesmo que tudo seja efêmero.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as duas, pois não há como dissociá-las, embora algum leitor possa não acreditar nos meus sentimentos. A crença é o produto da confiança e da história de cada um. E neste dia de hoje, em que paramos e pairamos sobre as nossas diferenças, há como ter perspectiva de que o amanhã virá melhor se não dissimularmos o que sentimos. Assim, de verdade, Boas Festas e Feliz Natal.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/12/2005.

Sem categoria

INTELIGENTE, EDUCADO E ESTUPEFADO

A maioria das pessoas que se considera inteligente, educada e sabida se diz estupefata com a realidade crua de o Brasil ainda ser um país de Terceiro Mundo. A culpa sempre é dos outros, do governo e dessa ´gente sem educação e princípios´. Ora, ´essa gente´ somos todos nós, os que vemos sempre os defeitos do outro e esquecemos os nossos.
Três exemplos: 01. Tudo pode começar no esporte: não importa que o nosso time faça um gol-de-mão aos 45 minutos do segundo tempo, o importante é que ganhe. 02.Passa pela mídia: Não importa que se saiba do preconceito disfarçado que há contra os nordestinos pobres. O nordestino só é manchete quando algo ridículo (comer rato, morar sob viaduto ou ter uma bicicleta muito enfeitada) possa ser levado à televisão, ou retratado em filmes caricatos. Isso vem de longe e ainda não se absorveu na cultura nacional a migração como fator natural. O nordestino é sempre o ´baiano´ e, quando se faz algo errado no trânsito, é uma ´baianada´. 03. Nem o dado inquestionável do presidente da República ser nordestino tem sido poupado. Muito pelo contrário, serve de motivo para piadas em jornais e o disse-me-disse em rodas que pretendem ter a hegemonia da educação, das regras de convivência e etiqueta sociais. As elites o engolem como alguém inevitável e porque precisam dos favores oficiais, não porque o assimilaram.
Provavelmente, o início do ano deveria servir para crônica mais amena, menos óbvia e contundente, mas está na hora de se pensar em brasilidade, isto é, na capacidade de aceitar as peculiaridades e identidades de cada um, sem prejuízo do esforço coletivo de todos, para dar a este país um sentimento nacional de respeito ao outro, que nada mais é que ele visto por mim, ou eu visto por ele.
Se assumíssemos que não somos inteligentes, sabidos e educados, não ficaríamos tão estupefatos com certos índices de desenvolvimento humano e econômico. Quase 50% da população mora em sub-habitações, mais de 12% da população ativa está sem emprego. Dados como esses refletem o quanto ainda precisamos aprender a crescer, para sermos, pelo menos, um país em que as desigualdades não tenham que ser resolvidas apenas com programas de combate à fome e à mortalidade infantil. Um país que enfrente a convivência com o favelamento, a que sucumbem as grandes e médias cidades brasileiras; onde falar de segurança pública, por exemplo, possa não parecer piada, já que a criminalidade não é apenas efeito, mas também causa dessa indiferença de todos os que se imaginam inteligentes, educados e sabidos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2004.

Sem categoria

O ZÉ DO CAMPANÁRIO

Audifax Rios galopa com maestria pelas areias da cidade imaginária ou imaginada de Campanário. Desloca-se na garra de um homem novo pela floresta adentro e o traz de volta com muito ouro e disposição. Tudo para dar sentido, vida, sustança e destino a Zé do Egito ou Zegito.
Detalha com cinzel de artesão, pincel naife, linguajar de escritor maduro, prosa livre de cantador sem viola e a propriedade de etnógrafo, o que vai ocorrendo na vida e nas circunstâncias do Zegito. Como se fora um ferrador de gado, vai marcando, vezes sem conta, o que passa na mente e nos possuídos desse matuto brabo nascido no ano de 191. E o trás pelo cabresto, ao final desenfreado, até os recentes idos de 1964. Há tanta beleza na narrativa de Audifax que é difícil pinçar trechos, sem cometer injustiça, trechos entre os que embevecem, prendem e seduzem o leitor. Apenas dois exemplos:
Um: ´Pois eu lhe conto uns tantos e quantos sucessos das gentes deste lugar perdido nos cafundós do sertão nordestino, que bem poderia ser um qualquer outro pedaço esquecido do planeta. Conversa fiada sobre alguns viventes de um chão abençoado e maldito, empoeirado pelo arrastado das bestas-feras e burras-de padre povoantes destes pagos em noite de espanto.
Dois: ´E durante este tríduo de chuvas nefastas continuaram a desabar raios de pouca monta em comparação com a bola gigantesca e queimaram-se todos os bicos de luz, as válvulas dos rádios rabos-quentes e seus esmeraldos olhos mágicos. Enguiçaram também os aparelhos alto-falantes e o Morse do telégrafo e tudo quanto dependia de magnetos e galenas e outras maravilhas da ciência elétrica e mais descobertas deslumbrantes naqueles tempos de progresso.
Com o jeito de quem conhece a estrada onde pisou e´as gentes deste lugar perdido´, Audifax Rios vai tecendo as teias do tecido social de uma cidade que recebe, em 1946, Zegito em seu retorno de herói-bandido das terras molhadas do Amazonas. Alforje pleno de ouro, um curumim-filho a tiracolo e uma disposição imensa de mostrar a todos quem era e quem seria, chega e finca os seus mourões, o dito José do Egito. De sobrenome tão grande quanto desnecessário, pois a fama daí para frente construída é fruto do Zegito, um agitador que tinha as rédeas da cidade e o beneplácito do céu pela intercessão do Pe.Justiniano, que acumulava as funções de seu amigo, confidente, sócio e beneficiário das suas diatribes.
São tantos os personagens fortes ou sutis, marcantes ou marcados desta mini-epopéia que me indago a razão do destaque aos búfalos que, nada fizeram além de um galope alucinado igreja a dentro e da beberagem tomada pelos irracionais e racionais, todos animais, explodindo a capacidade ´viagrática´ de uma procriação maltusiana que nos faz lembrar o melhor da fantástica criação dos escritores latinos de língua hispânica.

Não é preciso sair citando, um a um, os coadjuvantes dessa cidade-circo mambembe que nos lembra as reinações de Ariano Suassuna e, longe, muito longe, a fase primeira de Jorge Amado, nos confins das terras dos cacaus.
Tão rico é Zegito que o aposto- é aposto mesmo – de Major é supérfluo e descabido. Essa patente teria sido ´comprada a peso de ouro à Guarda Nacional´, entidade extinta pelo presidente Wenceslau Brás desde 1918 e, por tal razão, desconectada da cronologia da narrativa. Tal fato, sem macular o brilho da história, dá a Audifax o condão que tem os autores de mexerem com a temporalidade, sem que isso perturbe ou aflija quem lê este livro.
Ora, Candinha, Orapronobias, , Padre Justiniano, Henrique Imaginário, Maria Guayana, Messias Salvador e muitos outros são mais relevantes e revelantes que os 12 búfalos trazidos da Ilha de Marajó e que, incontidos em sua sexualidade, transgrediram as leis da natureza e receberam, quem sabe, por castigo a morte coletiva ´à beira do abismo inacabado´.
Cada um desses coadjuvantes marca com ´letras capitulares´ todo o enredo que conta a saga, com um fim aligeirado, e a volta-fuga não bem explicada de Zegito para a Amazônia. Por estas e por outras não contadas é que me rendo ao título marquetado de ´Os Búfalos de Campanário´, mas faria, igualmente, elogios ao brilhante Audifax se ´O Zé do Campanário´ estivesse incrustado no frontispício deste primoroso livro que fecha com fulgor o ano da graça de 2003, tão rico em surpresa, quanto em desencanto, mas que prenuncia alvíssaras para todos no raiar do 2004. Os búfalos, afinal, já se foram.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2004.

Sem categoria

A JANELA DA VIDA

Em meio à quietude da tarde, por opção e prazer, abro o envelope, rompo o lacre e retiro o disco compacto que recebi de presente de José Arimatéia Santos, um homem que mexe há tanto tempo com grandes números e conservou a capacidade de ser simples. Ligo o som, coloco o CD, ajusto graves e agudos procurando qualidade, e associo-me à harmonia, melodia e ritmo tirados dos ajustes das cordas às cravelhas de violino, viola e violoncelo dos músicos do Quarteto Iguaçu. Os arcos de Oliver, Freitas, José Maria e Dany estão prontos e ressoam os primeiros acordes com arranjos de Ricardo Petracca. Fecho os olhos e deixo que os sons das cordas do quarteto se misturem ao vento que entra na janela do meu quarto. Nem todas as janelas são da vida, mas a música que ouço dá vida à janela pela qual vejo, em meio ao casario e tantos prédios, a singeleza da igrejinha de São Pedro, nesta tão bonita, intrigante, discutida e abandonada Praia de Iracema.
De princípio, veio Prelúdio ao Luar, certamente Pensando em Você, mas ainda dá para ver O Sol que Brilha no Mar. Se um dia não tivesse existido Isolete, penso eu, com a sua Mensagem de Amor, certamente não teria acontecido A Janela da Vida. Mas aconteceu. E José de Arimatéia é gente que troca a brisa do mar da cidade grande pelo calor e o amor à Guanacés, um lugarejo quase perdido no interior do Ceará, em Cascavel, onde espalha graça e esparge a sua benquerença com atitudes e afeto, levando saúde, instruindo jovens e formando banda de música. Mesmo não sendo compositor de carteira, pediu aos santos – que obrigatoriamente o acompanham até no nome – inspiração e Deus parece ter atendido nos sons aqui paridos e purificados por um quarteto no Paraná, capitaneado pelo músico cearense José Maria Magalhães Silva.
E enquanto O Pôr do Sol já se aproxima desta Ponte dos Ingleses, aqui nesta terra em que pouca gente ouve música com enlevo e sem remelexo, ecoa O Meu Ceará, com uma viola sofrida e bela. De repente, aparecem A Espera, Você Chegou. Paradoxalmente, acabou-se a espera. É hora d’ A Chegada. Até que enfim, pois o Crepúsculo vai caindo, permitindo que os acordes do Quarteto Iguaçu reavivem os sentimentos nesta tarde-noite em que os sons parecem dar mãos ao marulho das ondas que morrem e renascem nestas pedras e areias com ritmo essencial para dizer que tudo é possível. É, basta abrir a janela para a vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2004.

Sem categoria

RECEITA DE BOLO

Pediram-me que escrevesse sobre a vida. Eu que ainda não aprendi. Vão alguns pensamentos alinhavados sobre vários ângulos do ato de viver. É uma mera receita de bolo. Posso ter errado nos ingredientes e nunca soube cozinhar. Apesar disso, desobrigo-me. Leia devagar. Frase por frase, como se fossem parágrafos.
Aja com clareza, faça planos e tente atingi-los, pode ser hora de acreditar em você sem, necessariamente, descrer dos outros. Não esqueça os detalhes, simples números são o segredo para abrir um grande cofre. É preciso mesclar as coisas da vida: não se pode viver só estudando, trabalhando e sonhando. Tenha alegria, misture-se com gente, ore, cante, troque energia. Não se ache o melhor ou pior, cure a sua ferida e ria do que passou. É hora de alegrar-se, a tristeza é feia. Acredite, não há tantas certezas. Transforme suas dúvidas em atos de fé e vá em frente. Não tenha medo ou se tiver, enfrente as questões no tempo certo.
O amor pode chegar derrubando porteiras ou manso e mexe com todos os seus sentimentos: curta-o, breve ou longo que seja. A mentira sempre retorna e você passa a desacreditar em si próprio. Os outros são você do lado de lá: fique no lugar deles e sinta. Sem amigos, você é um carro sem combustível: não vai a lugar nenhum e sobra estacionamento. Creia: sem acreditar que as coisas darão certas elas começarão com erros. Você é o seu maior torcedor: vista a sua própria camisa e atue para ganhar. Conheça-se: é difícil, mas tente. Não se vista para os outros. Vista-se para agradar a você e, se puder, aos outros. Estilo é quando você se repete. Espere: há situações em que precisa cautela; pondere, mas não pare. Siga sempre, mesmo que tenha que mudar de estrada ou de sapatos. Respire, puxe a sujeira que está dentro de você e expire devagar. Imagine o que quer e inspire fundo. É preciso trocar de ar, sempre.
Ouça música, boa música. Boa música é a que você ouve sozinho e gosta. Faça tal qual o leão: seja forte, mas calmo. Cace o que precisa para sobreviver. Respeite e ame os mais velhos. Eles são iguais a você. A diferença está no seu olhar. Reexamine-se, olhe-se, questione-se, corrija-se. Todo o dia é hora de rever o errado e mirar o futuro. Não reclame da dor no braço, lembre-se do maneta. Levante cedo, respire fundo, dê língua para o espelho e enfrente tudo. Descalce os sapatos, pise no chão e sinta a energia da terra. Ande. Mexa-se. Você é terra, mesmo que precise de ar, água e luz. Tente acertar. Não deu certo, paciência. Vá em frente, ninguém sabe o que encontrar em rua nova. Mude de rua, mude de lua. Você é a história. Descubra a resposta, ela está no bolso da sua razão ou do seu sentimento. Compartilhe, especialmente atitudes. Pense sempre nos outros, mas não esqueça o seu maior companheiro: você. Ficar calado, às vezes é um ato de profunda sabedoria. Fale pouco, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2004.