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GUILHERME NETO

No quase final dos anos 60, saído da universidade, eu escrevia uma coluna diária no jornal Correio do Ceará, dos Diários Associados. Tinha o pomposo nome de “Administração e Negócios”. A coluna cuidava de escrever sobre essa profissão que surgia e, por conta disso, li e comentei sobre as minas do Amapá e a exploração de manganês pela Indústria e Comércio de Minérios – Icomi. Seu controlador, Azevedo Antunes, resolveu me convidar para conhecer “in loco” a extração e a exportação do manganês e o fez com liberalidade: “convide os jornalistas que quiser.”
Assim o fiz. Chamei sete. Mas, o que importa nessa história é que João Guilherme da Silva Neto era um dos convidados. Os Diários Associados ainda estavam em seu auge e Guilherme Neto era uma espécie de faz tudo na TV-Ceará, onde hoje fica a “holding” do Grupo Edson Queiroz. Fazia direção, tele-teatro, redação e cantava. E fazia tudo muito bem, com os limitados recursos técnicos de então, dando asas ao seu imaginário e inventividade. Hoje ele é astro do “Clube dos Gatos”.
Não frequento o “O Clube dos Gatos”, uma irreverência semanal etílico-literária onde a sabedoria do falar manso e a beleza de voz de Guilherme Neto se fazem ouvir. Mas, louvo os que ali se reúnem em torno de Baco e das canções com o descompromisso que a amizade deixa fluir. Embora distante, considero-me amigo do Guilherme Neto, pois dizia Emerson sobre a verdadeira amizade: “não precisamos nos encontrar, nem conversar, nem corresponder, nem trocar lembranças”. Basta ser.
Voltando à viagem, saímos de Fortaleza de avião para Belém e de lá para Macapá. Em Macapá, tomamos um charmoso trem privativo e fomos para Porto Amazonas, quando tivemos oportunidade de descansar dos ares e da estrada de ferro. Foi lá que descobri quem era Guilherme Neto, uma figura já madura, mas leve, humana, companheira e agradável. Fizemos uma boa camaradagem, instigados por Lúcio Brasileiro, que também estava no grupo. Anos depois, Lúcio, com a sua mania de nos tornar maiores que somos, resolve chamar Guilherme Neto de “Barão”. Pois não é que acertou. Na realidade, no Ceará nunca houve baronato por nobreza e sim por concessão do poder vigente. Pois Lúcio se tornou o poder concedente e o fez muito bem.
Agora, outro poder concedente, a Câmara Municipal de Fortaleza, outorgou a Guilherme Neto a Comenda Boticário Ferreira e o fez por justiça. E lá no Cumbuco, no seu exílio voluntário, certamente Lúcio Brasileiro, ao polir a dignificante 1ª. Medalha Régis Jucá que recebeu do Ideal Clube, no mesmo dia e hora em que o “Barão” recebia a Boticário Ferreira, verificará que seu gesto jornalístico antecipou em anos a homenagem que a cidade de Fortaleza devia a Guilherme Neto, gente de bem. E gente de bem fica para sempre.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/06/2005.

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XODÓ BEM ANTIGO

Dizia Mark Twain que “a pessoa que não lê bons livros não tem mais mérito que o homem que não sabe ler”. Foi por acidente que comecei a gostar de ler. E a cada dia que passa vou ficando mais ligado aos livros. É uma antiga história de xodó. Eu tinha menos de 14 anos quando uma camioneta de cargas parou defronte à nossa casa. Dela fizeram descer duas estantes de madeira com vidros. Na frente de uma estava entalhada no frontespício a palavra “Ateneu” (que significa academia ou escola e é também o nome de um romance – O Ateneu -de Raul Pompéia, escrito em 1888). Pois bem, começava ali, naquele dia, o meu xodó com os livros. Meu pai havia comprado toda a biblioteca de José Maia de Almeida. Sei disso porque em todos os livros estava a assinatura com letras bem desenhadas de Almeida. Até hoje não sei quem é ou foi José Maia de Almeida. Alguém sabe?
A maioria dos livros, todos encapados em papel madeira, era de bons autores brasileiros, tipo Machado de Assis e José de Alencar. Havia poucos estrangeiros, alguns livros de História Geral e do Brasil e enciclopédias. Mandei fazer um carimbo e apelidei as duas estantes de “Biblioteca Bezerra de Oliveira” e, em cada livro, dava um número, a partir do 1.
Faço a máquina do tempo girar e me vejo agora na Associação Brasileira de Bibliófilos, por obra e convite de José Augusto Bezerra, este sim, um bibliófilo apaixonado. Bibliófilo é quem ama e cuida de livros, os de primeira edição e, especialmente, os raros. Vai daí que recebi no dia 31 de maio passado, junto ao jornal Folha de São Paulo, o caderno Sinapse, um suplemento que a cada 30 dias traz matérias gostosas de se ler. Pois bem, a edição trazia na capa a manchete “Por amor aos livros” e falava de bibliófilos e de suas coleções. Mandei, com um bilhetinho, a tal Sinapse para o José Augusto Bezerra que, por sinal, acaba de ingressar, por méritos, no Instituto Histórico do Ceará. Foi aí que se viu a injustiça que a Folha cometeu com a nossa ABB. Deu destaque à Confraria dos Bibliófilos do Brasil que só tem 10 anos e esqueceu de lembrar da nossa Associação dos Bibliófilos do Brasil que faz exposições periódicas (agora mesmo tem uma sobre Don Quixote na Academia Cearense de Letras) e se orgulha dos bibliófilos que a integram. Está feito o registro. Que a Folha faça a correção, e breve. Caso contrário, mandaremos à sua redação qualquer livro-bomba, que certamente não fez e nunca fará parte de nossos acervos, pois como dizia Voltaire:” acontece com os livros o mesmo que com os homens: um pequeno grupo desempenha um grande papel”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2005.

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UMA FORTALEZA SEM FIOS

Ano passado, em uma noite de céu claro em Madri, descobri que não havia nenhum fio ou cabo entre os diversos postes da cidade. Tudo era subterrâneo. A paisagem ficava mais limpa e o céu parecia livre dos tentáculos dos fios e cabos que conduzem a eletricidade, a telefonia e as televisões a cabo. É claro que muitas cidades do mundo são assim (Brasília era assim, porém …) e isso não é privilégio de Madri, mas foi lá que tal fato me chamou a atenção. Imaginem uma cidade sem fios e cabos, pois é bonito, posso dizer.
Agora, para alegria minha, vejo que na cidade de São Paulo foi aprovado o projeto de lei nº 248/01 do vereador Milton Leite, do PMDB. Só precisa agora que o prefeito José Serra sancione. Se não sancionar, tenho pena do futuro político dele. Deixo tudo claro para que algum vereador de Fortaleza procure o texto na Internet ou tente fazer algo semelhante em Fortaleza. E a lei em questão prevê que tudo seja resolvido em cinco anos pelas concessionárias e que no local de cada poste retirado seja plantada uma árvore. Como seria bom que esta cidade se livrasse do emaranhado de fios e cabos e, consequentemente, dos furtos que provocam mortes, acidentes e desligamentos, sem falar nos “gatos” que encarecem a energia de todos, na melhoria visual da paisagem urbana e nas podas de árvores, nem sempre adequadas, que as concessionárias de energia e telefonia fazem.
O plantio de árvores, por outro lado, poderia oferecer créditos de gás carbono à Fortaleza, instrumento normatizado pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto. Trocando em miúdos, a cidade agregaria valor do ponto de vista ambiental e teria condições de pleitear financiamentos nacionais e internacionais e negociações a fundo perdido para aplicar em meio ambiente. Hoje, já há mercado de negociações para as cidades que melhoram a poluição ambiental, aumentam o plantio de árvores, semeiam parques, despoluem cursos d’água e dão demonstrações claras de que lutam por um desenvolvimento sustentável.
O desenvolvimento sustentável para mim, que não sou ecologista, é, pelo menos, a consciência e a ação dos que vivem hoje de que não podem abusar dos recursos naturais sob pena de prejudicar os que virão depois. Se não for assim, é algo parecido. O importante é que a responsabilidade social, não só a dos políticos, mas a de todos nós, se torne clara e não seja um mero exercício de retórica.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/07/2005.

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IDEALIZAR OU DEMONIZAR O OUTRO

Um dia, por um motivo qualquer, perdemos a confiança em alguém. A relação, que havia sido construída, acaba. E o pior é que nós ficamos ruminando, pensando, procurando descobrir as razões. Nessas horas, sempre idealizamos ou demonizamos o outro. Até o instante da perda da relação, o outro faz parte do nós, pois o nós depende de, pelo menos, duas pessoas. Assim, parece ser na vida familiar, afetiva, profissional, social e até nos sonhos políticos e de grandeza que sempre mantemos acessos para o nosso país em cada eleição.
De dois em dois anos, quer queiramos ou não, somos obrigados a estabelecer uma relação lógica e lúcida com candidatos, mas somos afetivos. Temos que escolher, fazer um juízo de valor, mas, quase sempre, optamos por gostar mais de A do que dos outros. Por isso, o escolhemos. E como o brasileiro é passional, embora não vigie e nem cuide, imagina que tem um vínculo com o seu candidato. E o mais sério, cada um imagina que o seu candidato também tem um vínculo com ele. Basta uma frase bem dita na televisão, uma ideia salvadora, um gesto forte, a mensagem de que tudo será diferente e o vínculo está atado. Ele é o nosso candidato e herói e pensamos que vai fazer lá o que nós gostaríamos. Para nossa alegria, ele vai eleito. E aí torcemos para que tudo dê certo e as promessas sejam cumpridas.
O tempo passa. Um dia, por outro motivo qualquer, perdemos a confiança na pessoa que foi eleita. Mas, para isso acontecer, durou um tempo anterior de desconfiança. Primeiro, foram os hábitos que mudaram. Depois, as companhias. Enfim, o comportamento. E aí o desengano, como se ele deixasse de fazer parte do nós afetivo que, unilateralmente, criamos. Pois o brasileiro não é apenas eleitor, é uma espécie de avalista afetivo do seu candidato. É claro que estou falando do eleitor que se imagina esclarecido, do que se acredita politizado, do que sempre faz planos para o futuro.
E como os nossos políticos gostam de falar de improviso, isso me leva ao filósofo Thomas Hobbes, em seu famoso Leviatã, escrito em 1651, há 454 anos, e que pretendia ser matéria, forma e poder de um estado (eclesiástico e) civil. Pois Hobbes, talvez admitindo política como negócio, diz na página 256 do seu Leviatã: “Em qualquer negócio, por mais capazes que sejam os conselheiros, o benefício do seu conselho é maior quando o dão a qualquer pessoa sua opinião juntamente com as razões dela, do que quando fazem por meio de um discurso numa assembleia. É tanto maior quando pensaram antes o que vão dizer do que quando fazem de improviso. Porque em ambos os casos tiveram mais tempo para examinar as consequências da ação e estão menos sujeitos a cair em contradição, devido à inveja, à emulação ou a outras paixões que surgem da diversidade de opiniões”.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/07/2005.

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PARAÍSO SEXUAL?

Do lado direito de onde moro existe um prédio. Poderia ser mais um entre tantos, mas é desses do tipo “flat”. Flat é uma palavra inglesa que pode significar apartamento, mas não necessariamente. E significa também planície ou plano. Mas resolveram entender que “Flat” seria um conjunto de apartamentos pequenos, entre 25 e 60 m², para venda ou locação, administrado como se fora um hotel, sem sê-lo.
Ocorreu uma profusão de construção de “flats” no final dos anos 80 e por toda a década de 90. O “Flat” é uma entidade híbrida: nem é edifício residencial, nem deixa de ser, e também não é um hotel, embora reúna algumas de suas características . Pois bem, esses tais “flats” são, em boa parte, ocupados por residentes nativos, pessoas comuns e ordeiras de todas as cidades, mas a sua população variável é composta, quase sempre, de estrangeiros, que vêm para cá na certeza de que isto aqui é um paraíso sexual. Não escrevi tropical, escrevi sexual.
Quem quiser ver cenas de nudez e correlatos é só se demorar um pouco olhando para os tais “flats”. Há de tudo. Recentemente, por exemplo, vi um já combalido senhor, em plena calma e total nudez,de pé na minúscula varanda, como se estivesse em uma colônia nudista. E o fazia como se fosse o único habitante da selva, tal qual um Tarzan, mas sem a tanga. De outra feita, vi as figuras e ouvi todos os ruídos, sussurros e os gritos finais de uma relação entre uma bem jovem morena e um brancoso quarentão.
Nada de puritanismo, tampouco de estupefação, mas esta terra precisa de uma definição turística mais lisonjeira. Hoje, quase todo taxista que estaciona seu carro defronte a esses flats, alguns bares e boates, sabe a razão dessas viagens organizadas por operadoras estrangeiras que praticam preços baixíssimos em moeda estrangeira. Os turistas, na maioria homens em grupos, trazem endereços, cotações dos serviços, fotos e outras indicações que tais.
O que causa constrangimento é ler nos jornais que o turismo está sendo incrementado e que devemos receber bem os nossos visitantes. O que realmente é importante, justo e até bíblico. Mas, os que cuidam do turismo não podem fazer vistas grossas de tantos fatos sabidos, repetidos, comprovados e divulgados pela imprensa. Não vale a pena a quantidade de turistas de segunda classe que chegam, até infectam pessoas, degradam áreas, gastam míseros reais e saem propagando que aqui é terra de ninguém. E novas hordas chegam ávidas. Basta acompanhar os roteiros que fazem. É simples constatar. O que falta?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/12/2005.

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INTELIGENTE, EDUCADO E ESTUPEFADO

A maioria das pessoas que se considera inteligente, educada e sabida se diz estupefata com a realidade crua de o Brasil ainda ser um país de Terceiro Mundo. A culpa sempre é dos outros, do governo e dessa ´gente sem educação e princípios´. Ora, ´essa gente´ somos todos nós, os que vemos sempre os defeitos do outro e esquecemos os nossos.
Três exemplos: 01. Tudo pode começar no esporte: não importa que o nosso time faça um gol-de-mão aos 45 minutos do segundo tempo, o importante é que ganhe. 02.Passa pela mídia: Não importa que se saiba do preconceito disfarçado que há contra os nordestinos pobres. O nordestino só é manchete quando algo ridículo (comer rato, morar sob viaduto ou ter uma bicicleta muito enfeitada) possa ser levado à televisão, ou retratado em filmes caricatos. Isso vem de longe e ainda não se absorveu na cultura nacional a migração como fator natural. O nordestino é sempre o ´baiano´ e, quando se faz algo errado no trânsito, é uma ´baianada´. 03. Nem o dado inquestionável do presidente da República ser nordestino tem sido poupado. Muito pelo contrário, serve de motivo para piadas em jornais e o disse-me-disse em rodas que pretendem ter a hegemonia da educação, das regras de convivência e etiqueta sociais. As elites o engolem como alguém inevitável e porque precisam dos favores oficiais, não porque o assimilaram.
Provavelmente, o início do ano deveria servir para crônica mais amena, menos óbvia e contundente, mas está na hora de se pensar em brasilidade, isto é, na capacidade de aceitar as peculiaridades e identidades de cada um, sem prejuízo do esforço coletivo de todos, para dar a este país um sentimento nacional de respeito ao outro, que nada mais é que ele visto por mim, ou eu visto por ele.
Se assumíssemos que não somos inteligentes, sabidos e educados, não ficaríamos tão estupefatos com certos índices de desenvolvimento humano e econômico. Quase 50% da população mora em sub-habitações, mais de 12% da população ativa está sem emprego. Dados como esses refletem o quanto ainda precisamos aprender a crescer, para sermos, pelo menos, um país em que as desigualdades não tenham que ser resolvidas apenas com programas de combate à fome e à mortalidade infantil. Um país que enfrente a convivência com o favelamento, a que sucumbem as grandes e médias cidades brasileiras; onde falar de segurança pública, por exemplo, possa não parecer piada, já que a criminalidade não é apenas efeito, mas também causa dessa indiferença de todos os que se imaginam inteligentes, educados e sabidos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2004.

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O ZÉ DO CAMPANÁRIO

Audifax Rios galopa com maestria pelas areias da cidade imaginária ou imaginada de Campanário. Desloca-se na garra de um homem novo pela floresta adentro e o traz de volta com muito ouro e disposição. Tudo para dar sentido, vida, sustança e destino a Zé do Egito ou Zegito.
Detalha com cinzel de artesão, pincel naife, linguajar de escritor maduro, prosa livre de cantador sem viola e a propriedade de etnógrafo, o que vai ocorrendo na vida e nas circunstâncias do Zegito. Como se fora um ferrador de gado, vai marcando, vezes sem conta, o que passa na mente e nos possuídos desse matuto brabo nascido no ano de 191. E o trás pelo cabresto, ao final desenfreado, até os recentes idos de 1964. Há tanta beleza na narrativa de Audifax que é difícil pinçar trechos, sem cometer injustiça, trechos entre os que embevecem, prendem e seduzem o leitor. Apenas dois exemplos:
Um: ´Pois eu lhe conto uns tantos e quantos sucessos das gentes deste lugar perdido nos cafundós do sertão nordestino, que bem poderia ser um qualquer outro pedaço esquecido do planeta. Conversa fiada sobre alguns viventes de um chão abençoado e maldito, empoeirado pelo arrastado das bestas-feras e burras-de padre povoantes destes pagos em noite de espanto.
Dois: ´E durante este tríduo de chuvas nefastas continuaram a desabar raios de pouca monta em comparação com a bola gigantesca e queimaram-se todos os bicos de luz, as válvulas dos rádios rabos-quentes e seus esmeraldos olhos mágicos. Enguiçaram também os aparelhos alto-falantes e o Morse do telégrafo e tudo quanto dependia de magnetos e galenas e outras maravilhas da ciência elétrica e mais descobertas deslumbrantes naqueles tempos de progresso.
Com o jeito de quem conhece a estrada onde pisou e´as gentes deste lugar perdido´, Audifax Rios vai tecendo as teias do tecido social de uma cidade que recebe, em 1946, Zegito em seu retorno de herói-bandido das terras molhadas do Amazonas. Alforje pleno de ouro, um curumim-filho a tiracolo e uma disposição imensa de mostrar a todos quem era e quem seria, chega e finca os seus mourões, o dito José do Egito. De sobrenome tão grande quanto desnecessário, pois a fama daí para frente construída é fruto do Zegito, um agitador que tinha as rédeas da cidade e o beneplácito do céu pela intercessão do Pe.Justiniano, que acumulava as funções de seu amigo, confidente, sócio e beneficiário das suas diatribes.
São tantos os personagens fortes ou sutis, marcantes ou marcados desta mini-epopéia que me indago a razão do destaque aos búfalos que, nada fizeram além de um galope alucinado igreja a dentro e da beberagem tomada pelos irracionais e racionais, todos animais, explodindo a capacidade ´viagrática´ de uma procriação maltusiana que nos faz lembrar o melhor da fantástica criação dos escritores latinos de língua hispânica.

Não é preciso sair citando, um a um, os coadjuvantes dessa cidade-circo mambembe que nos lembra as reinações de Ariano Suassuna e, longe, muito longe, a fase primeira de Jorge Amado, nos confins das terras dos cacaus.
Tão rico é Zegito que o aposto- é aposto mesmo – de Major é supérfluo e descabido. Essa patente teria sido ´comprada a peso de ouro à Guarda Nacional´, entidade extinta pelo presidente Wenceslau Brás desde 1918 e, por tal razão, desconectada da cronologia da narrativa. Tal fato, sem macular o brilho da história, dá a Audifax o condão que tem os autores de mexerem com a temporalidade, sem que isso perturbe ou aflija quem lê este livro.
Ora, Candinha, Orapronobias, , Padre Justiniano, Henrique Imaginário, Maria Guayana, Messias Salvador e muitos outros são mais relevantes e revelantes que os 12 búfalos trazidos da Ilha de Marajó e que, incontidos em sua sexualidade, transgrediram as leis da natureza e receberam, quem sabe, por castigo a morte coletiva ´à beira do abismo inacabado´.
Cada um desses coadjuvantes marca com ´letras capitulares´ todo o enredo que conta a saga, com um fim aligeirado, e a volta-fuga não bem explicada de Zegito para a Amazônia. Por estas e por outras não contadas é que me rendo ao título marquetado de ´Os Búfalos de Campanário´, mas faria, igualmente, elogios ao brilhante Audifax se ´O Zé do Campanário´ estivesse incrustado no frontispício deste primoroso livro que fecha com fulgor o ano da graça de 2003, tão rico em surpresa, quanto em desencanto, mas que prenuncia alvíssaras para todos no raiar do 2004. Os búfalos, afinal, já se foram.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2004.

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A JANELA DA VIDA

Em meio à quietude da tarde, por opção e prazer, abro o envelope, rompo o lacre e retiro o disco compacto que recebi de presente de José Arimatéia Santos, um homem que mexe há tanto tempo com grandes números e conservou a capacidade de ser simples. Ligo o som, coloco o CD, ajusto graves e agudos procurando qualidade, e associo-me à harmonia, melodia e ritmo tirados dos ajustes das cordas às cravelhas de violino, viola e violoncelo dos músicos do Quarteto Iguaçu. Os arcos de Oliver, Freitas, José Maria e Dany estão prontos e ressoam os primeiros acordes com arranjos de Ricardo Petracca. Fecho os olhos e deixo que os sons das cordas do quarteto se misturem ao vento que entra na janela do meu quarto. Nem todas as janelas são da vida, mas a música que ouço dá vida à janela pela qual vejo, em meio ao casario e tantos prédios, a singeleza da igrejinha de São Pedro, nesta tão bonita, intrigante, discutida e abandonada Praia de Iracema.
De princípio, veio Prelúdio ao Luar, certamente Pensando em Você, mas ainda dá para ver O Sol que Brilha no Mar. Se um dia não tivesse existido Isolete, penso eu, com a sua Mensagem de Amor, certamente não teria acontecido A Janela da Vida. Mas aconteceu. E José de Arimatéia é gente que troca a brisa do mar da cidade grande pelo calor e o amor à Guanacés, um lugarejo quase perdido no interior do Ceará, em Cascavel, onde espalha graça e esparge a sua benquerença com atitudes e afeto, levando saúde, instruindo jovens e formando banda de música. Mesmo não sendo compositor de carteira, pediu aos santos – que obrigatoriamente o acompanham até no nome – inspiração e Deus parece ter atendido nos sons aqui paridos e purificados por um quarteto no Paraná, capitaneado pelo músico cearense José Maria Magalhães Silva.
E enquanto O Pôr do Sol já se aproxima desta Ponte dos Ingleses, aqui nesta terra em que pouca gente ouve música com enlevo e sem remelexo, ecoa O Meu Ceará, com uma viola sofrida e bela. De repente, aparecem A Espera, Você Chegou. Paradoxalmente, acabou-se a espera. É hora d’ A Chegada. Até que enfim, pois o Crepúsculo vai caindo, permitindo que os acordes do Quarteto Iguaçu reavivem os sentimentos nesta tarde-noite em que os sons parecem dar mãos ao marulho das ondas que morrem e renascem nestas pedras e areias com ritmo essencial para dizer que tudo é possível. É, basta abrir a janela para a vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2004.

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RECEITA DE BOLO

Pediram-me que escrevesse sobre a vida. Eu que ainda não aprendi. Vão alguns pensamentos alinhavados sobre vários ângulos do ato de viver. É uma mera receita de bolo. Posso ter errado nos ingredientes e nunca soube cozinhar. Apesar disso, desobrigo-me. Leia devagar. Frase por frase, como se fossem parágrafos.
Aja com clareza, faça planos e tente atingi-los, pode ser hora de acreditar em você sem, necessariamente, descrer dos outros. Não esqueça os detalhes, simples números são o segredo para abrir um grande cofre. É preciso mesclar as coisas da vida: não se pode viver só estudando, trabalhando e sonhando. Tenha alegria, misture-se com gente, ore, cante, troque energia. Não se ache o melhor ou pior, cure a sua ferida e ria do que passou. É hora de alegrar-se, a tristeza é feia. Acredite, não há tantas certezas. Transforme suas dúvidas em atos de fé e vá em frente. Não tenha medo ou se tiver, enfrente as questões no tempo certo.
O amor pode chegar derrubando porteiras ou manso e mexe com todos os seus sentimentos: curta-o, breve ou longo que seja. A mentira sempre retorna e você passa a desacreditar em si próprio. Os outros são você do lado de lá: fique no lugar deles e sinta. Sem amigos, você é um carro sem combustível: não vai a lugar nenhum e sobra estacionamento. Creia: sem acreditar que as coisas darão certas elas começarão com erros. Você é o seu maior torcedor: vista a sua própria camisa e atue para ganhar. Conheça-se: é difícil, mas tente. Não se vista para os outros. Vista-se para agradar a você e, se puder, aos outros. Estilo é quando você se repete. Espere: há situações em que precisa cautela; pondere, mas não pare. Siga sempre, mesmo que tenha que mudar de estrada ou de sapatos. Respire, puxe a sujeira que está dentro de você e expire devagar. Imagine o que quer e inspire fundo. É preciso trocar de ar, sempre.
Ouça música, boa música. Boa música é a que você ouve sozinho e gosta. Faça tal qual o leão: seja forte, mas calmo. Cace o que precisa para sobreviver. Respeite e ame os mais velhos. Eles são iguais a você. A diferença está no seu olhar. Reexamine-se, olhe-se, questione-se, corrija-se. Todo o dia é hora de rever o errado e mirar o futuro. Não reclame da dor no braço, lembre-se do maneta. Levante cedo, respire fundo, dê língua para o espelho e enfrente tudo. Descalce os sapatos, pise no chão e sinta a energia da terra. Ande. Mexa-se. Você é terra, mesmo que precise de ar, água e luz. Tente acertar. Não deu certo, paciência. Vá em frente, ninguém sabe o que encontrar em rua nova. Mude de rua, mude de lua. Você é a história. Descubra a resposta, ela está no bolso da sua razão ou do seu sentimento. Compartilhe, especialmente atitudes. Pense sempre nos outros, mas não esqueça o seu maior companheiro: você. Ficar calado, às vezes é um ato de profunda sabedoria. Fale pouco, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2004.

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Cidade de Deus ou do Diabo?

Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indicações (direção, roteiro, edição e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido não fosse ´Cidade de Deus´. Vi o filme de Fernando Meireles com atenção e respeito, mas confesso que não encontro razões para tanto incenso a uma produção que tem como base a banalização da violência, o uso do que se convencionou chamar de ´cosmética da fome´, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, ´o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza.
Para ficar no passado recente, desde o filme ´Central do Brasil´, de Walter Salles, outro discípulo da ´cosmética da fome´, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O país mostrado nesses dois filmes é parte da realidade nacional, mas não é o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. São, ao contrário, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas não são bons produtos de exportação. Estão mais para a execração, ainda que lastreados em fatos reais.
A imagem brasileira, já tão desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos países desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como ´terceiro mundo´. Aqui não é nenhum paraíso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil é uma grande ´Cidade de Deus´. Há muito argumento, além das favelas, o agreste esquálido do Nordeste e o crime organizado ou desorganizado, que são as motivações essenciais de quase todos os últimos filmes brasileiros.
Não se trata de esconder as nossas mazelas ou deixar de mostrar a face discriminatória de grande parte da sociedade brasileira. Mas há tantos outros ´brasis´ e enredos a serem mapeados para filmes de boa tessitura, que chega a parecer ranço ou aproveitamento esse renitente e repetido uso do que temos de mais feio, sob o ponto de vista estético, mais cruel, sob o aspecto social e segregacionista, na visão racial.
Se eu estiver errado, peço desculpas, mas seria bom que os filmes brasileiros fossem não apenas denunciadores das graves e grandes desigualdades sociais, mas, igualmente, tentassem melhorar a nossa imagem externa tão combalida, repito. Que venham as estatuetas, se possível, mas é urgente se rediscutir o enfoque da filmografia brasileira tão ciosa de apoios do governo e de mecenas, mas imbricada apenas com o lado ´noir´ de uma nação colorida e diversa que precisa respirar, viver e sonhar com ares menos catastróficos e densos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2004.