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OS APARATOS DA SOLIDÃO

A maioria das pessoas reclama de solidão. E há até os que enxergam solidão nos outros, mas não veem as suas próprias. Criou-se na sociedade urbana atual um verdadeiro aparato para proteger a nossa privacidade. Temos carros com vidros escuros, travas elétricas, alarmes e até blindagem. Usamos telefone que recebe mensagens, ligações, mas tem bina para triar com que achamos por bem falar. As casas têm porteiros eletrônicos, cercas protetoras, grades, muros altos e cães ou vigias. O edifício tem vigias, vigilância eletrônica, interfones, câmeras e até os elevadores têm códigos ou chaves. As empresas são ou imaginam ser verdadeiras cidadelas. Tudo trancado, confinado, filmado.
A cada dia as pessoas vão se isolando mais. Para alguns, o trajeto no elevador, em que o vizinho é companhia eventual, parece um tempo demasiado longo quando são apenas segundos. Trocam meros cumprimentos, se trocam. Há até os que entram no elevador, não enxergam o outro e ficam olhando para o infinito que esbarra na porta a centímetros dos seus narizes. O outro é o morador do 201 e não o fulano. A outra é aquela moça do carro cinza e sem nome E no mesmo prédio podem morar solidões a procura de companhia e ai os sites de amizades virtuais imaginam substituir as relações vivas entre gente de carne e osso.
Lembro da minha casa da infância e juventude de porta sem chave, carro sem trava, irmãos entrando e saindo, vizinhos pedindo para dar um telefonema ou trocando gentilezas. Hoje, as pessoas se quedam no silêncio, extravasam seus problemas no consultório de analistas ou na ilusão da bebida em bares e restaurantes onde o barulho do som embota as conversas. O ombro amigo, aquele que ouve e cala, vai ficando longe da realidade. Não se confia, não se confidencia, não se fia. E aí se poderia objetar que a pessoa amada deveria ser esse confidente. Na verdade, seria bom se assim fosse, mas não é a regra geral. Mostrar “as fraquezas” poderá ser fatal e aí não se desce à essência e os dois vivem em mundos paralelos e dessemelhantes.
Há saída? É claro que deve haver e isso vai depender de cada um admitir que o outro é alguém parecido com ele, padecendo dos mesmos males e ansiando por ter com quem possa trocar dois dedos de conversa ou de afagos sem medo de retaliações ou censuras, pois as nossas vidas, mesmo que não queiramos, acabam enredadas nas teias dos relacionamentos. Há um provérbio que diz: “Não declares que as estrelas estão mortas só porque o céu está nublado.” Assim, espere que as nuvens passem e descubra as estrelas.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/08/2005.

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EU, O COMPUTADOR E A INTERNET

Aprendi a mexer em computador meio desastradamente. Fiz um curso há muito tempo na IBM. Era uma sala gelada e o computador, imenso. O formal professor usava o inglês-ferramenta e a linguagem era Cobol. Sai mais tonto do que entrei, porém ficou alguma coisa. Depois, comprei um micro e fui batucando aqui e ali, mais errando que acertando. O tempo passou, vieram novos computadores e as limitações continuaram. Hoje, sou um mero usuário, sem método e sem fundamentação teórica (agora, tudo tem que se basear “em fundamentos”, o que também não sei o que significa). Como não tenho outro jeito, vou mexendo, errando e tentando aprender.
Tenho uma assistente de plantão, Josilene Lima, inteligente e preparada, que quebra os meus galhos – e de amigos – quando o computador para e parece dizer que sou burro. Ligo, ela vem e conserta, na maioria das vezes. E ainda ri para mim: era só isso?
Por tanto mexer, pesquisar, catar ensaios, livros e que tais, tenho que conviver com o Google, um “buscador” que responde tudo ou quase tudo. Se não sei, por exemplo, sobre Chopin, escrevo a palavra e mando procurar. É ai que surge o problema: tudo o que é Chopin aparece. Assim é preciso refinar a pesquisa, dizer qual Chopin e eu escrevo Frederic –sem acentos – Chopin, pois a Internet não trabalha com acentos nas palavras. Brevemente, sim. Enquanto isso, não coloco til, cedilha ou qualquer tipo de acento, grave, agudo ou circunflexo. O que estou dizendo é o básico, óbvio.
Voltando ao fio da conversa: procuro o que desejo de Frédéric – com acentos – Chopin, o compositor polonês, amigo do pintor Delacroix e de Liszt. Leio e seleciono. Assim, não pensem que sei muita coisa. O que faço é pesquisar e, às vezes, encontro. Também ocorre de procurar um fato e descobrir outro ou me perder no labirinto. Há, pasmem, 600 bilhões de páginas na Internet.
Mas, o que eu queria mesmo dizer é que no próprio Google descobri um tal de “google earth”. Earth é terra em inglês. O “google earth” é um site que se serve de satélites com recursos para mostrar fotos aéreas de tudo o que há no planeta Terra. É verdade. Tentei “Fortaleza” e apareceu a cidade, vista de cima. Tem uma mãozinha que você vai comandando com o “mouse”, e ele lhe leva para onde você quer. Pois não é que vi – e imprimi-os locais onde trabalho e moro e até os calçadões destroçados das praias. A propósito, li na Folha(FSP), de 31.08.05, pág. F2, que as tecnologias para exploração das profundezas da internet são consideradas questões e ferramentas de Estado. Paranóia ou medo? Valha-nos Deus.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/09/2005.

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QUATRO ANOS DEPOIS.

Faz hoje quatro anos. O século mal havia começado. Todos nós imaginávamos que o novo século e o novo milênio seriam de bem-aventuranças. O muro de Berlim tinha caído, já não existia a polarização que durou por toda a Guerra Fria, a briga milenar continuava na faixa de Gaza, o Afeganistão era dizimado, a África continuava a morrer de fome e de doenças endêmicas, a Colômbia convivia com o narcotráfico, a Iugoslávia ia desaparecendo, mas, apesar disso e muito mais, acreditávamos que era assim mesmo e a vida ia sendo tocada como cada um podia.
E o dia de hoje amanheceu. E o dia tinha sol em metade da Terra. As pessoas se encaminhavam para os seus trabalhos ou começavam as suas lidas. Bilhões de pessoas, pois somos perto de sete bi de todas as cores, raças, credos, idades, patrimônios, misérias, dores e sonhos. Todos em trânsito, mas o transe iria eclodir.
De repente, todos fomos atingidos, não porque estivéssemos lá ou cá, mas por estarmos. Víamos tudo e do jeito que ainda estava acontecendo. Parecia loucura e era. A tragédia não era uma farsa. Era o cruel do real, do que a mente atormentada gera, do sucesso da insensatez ou do que a fé distorcida provoca. O que fosse. Era a vingança ou o delírio. Estava lá. Era fogo querendo aprisionar olhares, eram mergulhos nos ares criando um mar de desencanto. E as pedras rolavam, como se fossem puxadas pela gravidade. E havia gravidade, não a lei da gravidade, mas a de instintos que plantaram cântaros de ódio e os espargiram com um esgar mortífero. E respirações pararam para sempre.
Atônitos, olhávamos uns para os outros, os meios de comunicação estavam a pleno, todos falando entre si, sem que uma língua comum existisse. Babel XXI. Éramos parvos a soletrar palavras desconexas e, disléxicos, mexíamos os braços sem saber onde colocar as mãos e os sentimentos.
Desespero, era. Desilusão, era. Perplexidade, era. Medo, era. Desafio, era. E era uma Nova Era que chegava ao mundo, de forma tribal, sem limites e quiçá que não por muito. O dia custava a passar e nada do que se ouvia fazia sentido, embora todos os nossos sentidos estivessem alertas. E o pior é que não houve alerta, tudo foi de surpresa, não havia anunciação, chegou o dia de soslaio, como uma pedra que se joga no rio da humanidade e mata parte da fauna. Descobrimo-nos faunos e mergulhamos na busca dos homens que imaginávamos que fossemos. A noite chegou. O dia terminou. Quatro anos passaram, outros dias como aquele pulularam e, neste mesmo dia de hoje, nada mais tem a cor do céu de antes. É o mesmo azul, o céu eterno, as orquídeas florescem, mas os pintores são outros, e a plástica que se cria não inspira mais a ilusão que os olhares ainda acreditavam possuir.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/09/2005.

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A DURA ARTE DE VENDER LIVROS

No início da década de 80 tentei ser editor. Criei uma pequena editora. Só consegui fazer uma publicação técnica e dei o negócio por encerrado. Não me atreveria a voltar a ser editor. É uma tarefa difícil, incompreendida e de resultados imprevisíveis. Isso não impede que observe e admire os editores profissionais. Há pouco tempo, por dever, curiosidade e convite, participei de duas feiras de livro. Uma em Fortaleza, outra no México.
Na Feira de Fortaleza, anfitrionei mexicanos desejosos de conhecer o nosso jeito de fazer feiras e fiz uma travessia literária com Moacyr Scliar. A Feira é realizada no ambiente refrigerado do Centro de Convenções, em meio à dificuldade de estacionamento e a uma circulação forçada por pisos diferentes.
Na Feira da cidade do México, fui como convidado e vi a sua montagem em uma grande e plana praça central com pequenas, médias e gigantes tendas brancas, armadas ao ar livre em meio a bonitas esculturas e a uma vegetação em vasos. Ao canto, área para shows. Ao seu derredor, circulavam veículos, inclusive ônibus, sem falar na estação de metrô no subsolo. O povo se misturava naturalmente à Feira, pois ela estava no meio deles.
Em ambas, vi o cuidado dos organizadores, editores, livreiros e autores, em apresentar opções várias de livros, especialmente os de preços populares. Das feiras, fiz dois registros.
O primeiro, em Fortaleza: Sérgio Braga, que trafega entre a livraria e a editoria, revelou-me que as boas vendas foram apenas as de livros a preços abaixo do mercado, os chamados saldos. O segundo, no México: Luiz Falcão, da Imprensa da UFC, que comandou a venda de livros na bem decorada tenda do Ceará, viu como é duro vender livros em Português. Ao final, resolveu doar os livros que sobraram a instituições universitárias, culturais e à Embaixada do Brasil, sob pena de se pagar o frete de volta. Valeram os contatos.
Na última Feira Nacional do Livro, em Porto Alegre, que também usa tendas e abomina os estandes e refrigeração, ficou clara a dura realidade do mercado de livros que encolheu 8% no último ano. O Brasil não tem ainda “a fome de livros”, projeto que o ministro Gilberto Gil tenta incrementar. Apenas 26 milhões de brasileiros são leitores ativos. Eleitores, sim. temos mais de 110 milhões. Mas isto é outra estória para livros de História.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/09/2005.

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MEMÓRIA

Adam Phillips é um psicanalista que, atualmente, coordena a tradução, para o inglês, das obras completas de Sigmund Freud. Consequentemente, Phillips tem escrito sobre memória. De seu último ensaio, “A Memória Forçada”, vou tentar, na medida da minha incompetência psicanalítica, tirar alguns trechos. Foi originariamente, publicado na revista “Index on Censorship” e, posteriormente, no caderno de cultura “Mais”, neste novembro.
Segundo ele, “Existe uma crença esperançosa sob o mito redentor da memória: a de aquilo que deve ser lembrado – desde que nos lembremos das coisas certas e da maneira certa -beneficia o nosso bem-estar e até mesmo a nossa virtude. Recordar, se o fizermos da maneira apropriada, nos dará as vidas que desejamos”.
Adam Phillips pretende demonstrar, parece ser, que muitas memórias não têm nada de espontaneidade histórica e, provavelmente, apaziguam sentimentos. Na verdade, a memória é aquilo que não se esquece espontaneamente e a história registra independente do passar do tempo. Reparem quando diz: “A memória pode até nos manter cordatos. Mas, na verdade, estamos conscientes, em área distinta de nossas mentes, que a memória seja mais virtuosa do que aqueles que a manifestam”.
E explica porque isso acontece: “Nosso medo (moderno) é o de que não obtenhamos sucesso no esquecimento ou de que o esquecimento não seja possível”. E vai em frente: “Fazer com que as pessoas recordem tende a presumir que seja possível calcular as respostas que terão às memórias. É uma tentativa de impor uma solução artificial, quando soluções artificiais são parte do problema. A recordação forçada – a absurda ideia de que seria possível aprender de cor a história pessoal e em uma visão correta – na verdade demonstra medo da história: um bem fundamentado temor de que o passado esteja sujeito a múltiplas e variadas interpretações”.
Dito isto, pois de memória entendo pouco, embora imagine ter sentimentos que guardo e preservo, lembro-me do que escreveu, dia desses, Carlos Heitor Cony: “Leitores, se os tenho, reclamam aos canais competentes dos assuntos que abordo em minhas crônicas, que não considero colunas, mas crônicas mesmo”.
Assim, falar de memórias, mesmo fazendo citações, pode até parecer que não seja crônica, mas talvez seja. E, para encerrar, uma de Gilberto Amado (A Chave de Salomão): “Todas as desgraças humanas vêm da memória. O homem junta-lhe ainda a inquietação do futuro.”

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/12/2005.

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GUARDADOS EXISTENCIAIS

Quando nascemos o pacote já vem pronto. Temos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Tudo isso junto vai formando o tempo de viver. Essa vida que recebemos sem querer ou saber e, só a partir de um determinado instante, muito depois, dela tomamos vera consciência. E isso acontece, por exemplo, quando se completa 40 anos de formatura em Direito. Nesse instante é que nos perguntamos: E agora? Agora é aquele momento em que se para e recebe um sacolejo, procurando respostas que não sabemos ou a pouca audácia nos impede de descobrir.
Esta época do ano não é só de justas comemorações, nem apenas o tempo de se fazer listas de presentes, comer, beber ou programar o que fazer com as sobras do salário. Ela é um tempo em que muitos ficam a pensar nos sonhos que imaginou, realizou ou os perdeu pelo caminho. Nos desejos jogados para escanteio em nome da preservação de relações, interesses ou medos. É a procura, quem sabe, daquilo que deveria ter sido feito e não foi.
Isso bate mesmo. Bate para o Papa, o Rei da Espanha, o Zé da mercearia, o Dirceu, a Marília, o Bush, enfim, sobra para todos os que estão mexendo com o exercício de viver. E bate porque sabemos que para tudo há começo, meio e fim. E quando chegamos ao que se acredita seja o meio de tudo isso, aí a vontade vem de roldão e nos fustiga a coragem, mexe com as entranhas e estranhos juízos passam pela cabeça.
É o tempo de remexer nos guardados existenciais, os que colocam uma espécie de Sonrisal no presente e dele não saem só borbulhas de amor, como quer o Fagner. Seria um tempo de revelação, mesmo que fugidio como o passo da gazela ou sutil como o pousar de uma borboleta. Essa estação que se quer eterna — e não o é, mas um mero ciclo, quiçá um breve ciclone que provoca cismas, — passa e deixa sedimentos de esperanças que não podem ser desperdiçados. Fugazes são e precisam ser capturados pelo obturador que repousa em nossos sentimentos.
Como não podemos viver na ante-sala do amanhã, precisamos ralar o chão do presente, tentar dissipar as teias que nos enredam, escoimar o que não nos diz respeito e abrigar os que queremos bem, os que estão conosco para o que der e vier. Estes, são poucos. E justamente por serem raros têm de ser rastreados com destreza e atados pelos fios da benquerença em laços que não devem ser afrouxados pelo tempo, esse déspota que não descansa.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/12/2005.

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BOAS FESTAS OU FELIZ NATAL?

Estão discutindo por este mundo afora, como se isso resolvesse alguma coisa, se devemos dizer Boas Festas ou Feliz Natal. Argumentam que, pelo menos, 30% da população do mundo não têm nada a ver com o mundo ocidental e cristão. Para eles, este tempo é uma quadra qualquer. E dizem que nós não celebramos Buda e Maomé. De qualquer modo, fico com as duas. Esses, os questionadores, os tais politicamente corretos, preferem Boas Festas.
Argumentam, repito, que nem todos acreditam na natividade, no menino que nasceu em Belém e já há mais de 2.000 anos mexe com a cabeça das cabeças. Mexe com o que temos de mais profundo, o que revelávamos ao padre confessor, no tempo em que isso existia da forma que era. Mexe ainda hoje, quando, meio cínico e meio crente, nos perguntamos como anda a nossa fé. Essa fé que, com altos e baixos, nos remete ao nosso eu mais denso, quando mergulhamos no mar dos nossos pensamentos, sonhos e palmilhamos a estrada do que já passou e ficou. E nos faz, quando faz, orar em silêncio, sem repetir fórmulas prontas.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as festas, não essas a que somos obrigados a ir e todos já chegam com ar de enfado, o olho no relógio e a desculpa de que há ainda caminhos e caminhos a percorrer. As festas são os brilhos que saem dos nossos olhos quando estamos com gente que nos diz respeito, com quem o abraço não é uma pantomima, mas um halo de aconchego, um jeito seguro de ficar, sem que o tempo nos incomode. É festa quando as palavras não são policiadas e a delicadeza não é fruto de ensaio.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com o Feliz Natal, não pelos presentes, pelas árvores ou a alegria consumista, mas a certeza de que precisamos estar juntos, não por laços de engodo, mas pelo enlevo e a suspeita de que somos únicos, uns para os outros. Não só pela fé renovada ou combalida, mas pela esperança. E é essa esperança que nos chama ao convívio e à celebração, mesmo que tudo seja efêmero.
Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as duas, pois não há como dissociá-las, embora algum leitor possa não acreditar nos meus sentimentos. A crença é o produto da confiança e da história de cada um. E neste dia de hoje, em que paramos e pairamos sobre as nossas diferenças, há como ter perspectiva de que o amanhã virá melhor se não dissimularmos o que sentimos. Assim, de verdade, Boas Festas e Feliz Natal.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/12/2005.

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INTELIGENTE, EDUCADO E ESTUPEFADO

A maioria das pessoas que se considera inteligente, educada e sabida se diz estupefata com a realidade crua de o Brasil ainda ser um país de Terceiro Mundo. A culpa sempre é dos outros, do governo e dessa ´gente sem educação e princípios´. Ora, ´essa gente´ somos todos nós, os que vemos sempre os defeitos do outro e esquecemos os nossos.
Três exemplos: 01. Tudo pode começar no esporte: não importa que o nosso time faça um gol-de-mão aos 45 minutos do segundo tempo, o importante é que ganhe. 02.Passa pela mídia: Não importa que se saiba do preconceito disfarçado que há contra os nordestinos pobres. O nordestino só é manchete quando algo ridículo (comer rato, morar sob viaduto ou ter uma bicicleta muito enfeitada) possa ser levado à televisão, ou retratado em filmes caricatos. Isso vem de longe e ainda não se absorveu na cultura nacional a migração como fator natural. O nordestino é sempre o ´baiano´ e, quando se faz algo errado no trânsito, é uma ´baianada´. 03. Nem o dado inquestionável do presidente da República ser nordestino tem sido poupado. Muito pelo contrário, serve de motivo para piadas em jornais e o disse-me-disse em rodas que pretendem ter a hegemonia da educação, das regras de convivência e etiqueta sociais. As elites o engolem como alguém inevitável e porque precisam dos favores oficiais, não porque o assimilaram.
Provavelmente, o início do ano deveria servir para crônica mais amena, menos óbvia e contundente, mas está na hora de se pensar em brasilidade, isto é, na capacidade de aceitar as peculiaridades e identidades de cada um, sem prejuízo do esforço coletivo de todos, para dar a este país um sentimento nacional de respeito ao outro, que nada mais é que ele visto por mim, ou eu visto por ele.
Se assumíssemos que não somos inteligentes, sabidos e educados, não ficaríamos tão estupefatos com certos índices de desenvolvimento humano e econômico. Quase 50% da população mora em sub-habitações, mais de 12% da população ativa está sem emprego. Dados como esses refletem o quanto ainda precisamos aprender a crescer, para sermos, pelo menos, um país em que as desigualdades não tenham que ser resolvidas apenas com programas de combate à fome e à mortalidade infantil. Um país que enfrente a convivência com o favelamento, a que sucumbem as grandes e médias cidades brasileiras; onde falar de segurança pública, por exemplo, possa não parecer piada, já que a criminalidade não é apenas efeito, mas também causa dessa indiferença de todos os que se imaginam inteligentes, educados e sabidos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2004.

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O ZÉ DO CAMPANÁRIO

Audifax Rios galopa com maestria pelas areias da cidade imaginária ou imaginada de Campanário. Desloca-se na garra de um homem novo pela floresta adentro e o traz de volta com muito ouro e disposição. Tudo para dar sentido, vida, sustança e destino a Zé do Egito ou Zegito.
Detalha com cinzel de artesão, pincel naife, linguajar de escritor maduro, prosa livre de cantador sem viola e a propriedade de etnógrafo, o que vai ocorrendo na vida e nas circunstâncias do Zegito. Como se fora um ferrador de gado, vai marcando, vezes sem conta, o que passa na mente e nos possuídos desse matuto brabo nascido no ano de 191. E o trás pelo cabresto, ao final desenfreado, até os recentes idos de 1964. Há tanta beleza na narrativa de Audifax que é difícil pinçar trechos, sem cometer injustiça, trechos entre os que embevecem, prendem e seduzem o leitor. Apenas dois exemplos:
Um: ´Pois eu lhe conto uns tantos e quantos sucessos das gentes deste lugar perdido nos cafundós do sertão nordestino, que bem poderia ser um qualquer outro pedaço esquecido do planeta. Conversa fiada sobre alguns viventes de um chão abençoado e maldito, empoeirado pelo arrastado das bestas-feras e burras-de padre povoantes destes pagos em noite de espanto.
Dois: ´E durante este tríduo de chuvas nefastas continuaram a desabar raios de pouca monta em comparação com a bola gigantesca e queimaram-se todos os bicos de luz, as válvulas dos rádios rabos-quentes e seus esmeraldos olhos mágicos. Enguiçaram também os aparelhos alto-falantes e o Morse do telégrafo e tudo quanto dependia de magnetos e galenas e outras maravilhas da ciência elétrica e mais descobertas deslumbrantes naqueles tempos de progresso.
Com o jeito de quem conhece a estrada onde pisou e´as gentes deste lugar perdido´, Audifax Rios vai tecendo as teias do tecido social de uma cidade que recebe, em 1946, Zegito em seu retorno de herói-bandido das terras molhadas do Amazonas. Alforje pleno de ouro, um curumim-filho a tiracolo e uma disposição imensa de mostrar a todos quem era e quem seria, chega e finca os seus mourões, o dito José do Egito. De sobrenome tão grande quanto desnecessário, pois a fama daí para frente construída é fruto do Zegito, um agitador que tinha as rédeas da cidade e o beneplácito do céu pela intercessão do Pe.Justiniano, que acumulava as funções de seu amigo, confidente, sócio e beneficiário das suas diatribes.
São tantos os personagens fortes ou sutis, marcantes ou marcados desta mini-epopéia que me indago a razão do destaque aos búfalos que, nada fizeram além de um galope alucinado igreja a dentro e da beberagem tomada pelos irracionais e racionais, todos animais, explodindo a capacidade ´viagrática´ de uma procriação maltusiana que nos faz lembrar o melhor da fantástica criação dos escritores latinos de língua hispânica.

Não é preciso sair citando, um a um, os coadjuvantes dessa cidade-circo mambembe que nos lembra as reinações de Ariano Suassuna e, longe, muito longe, a fase primeira de Jorge Amado, nos confins das terras dos cacaus.
Tão rico é Zegito que o aposto- é aposto mesmo – de Major é supérfluo e descabido. Essa patente teria sido ´comprada a peso de ouro à Guarda Nacional´, entidade extinta pelo presidente Wenceslau Brás desde 1918 e, por tal razão, desconectada da cronologia da narrativa. Tal fato, sem macular o brilho da história, dá a Audifax o condão que tem os autores de mexerem com a temporalidade, sem que isso perturbe ou aflija quem lê este livro.
Ora, Candinha, Orapronobias, , Padre Justiniano, Henrique Imaginário, Maria Guayana, Messias Salvador e muitos outros são mais relevantes e revelantes que os 12 búfalos trazidos da Ilha de Marajó e que, incontidos em sua sexualidade, transgrediram as leis da natureza e receberam, quem sabe, por castigo a morte coletiva ´à beira do abismo inacabado´.
Cada um desses coadjuvantes marca com ´letras capitulares´ todo o enredo que conta a saga, com um fim aligeirado, e a volta-fuga não bem explicada de Zegito para a Amazônia. Por estas e por outras não contadas é que me rendo ao título marquetado de ´Os Búfalos de Campanário´, mas faria, igualmente, elogios ao brilhante Audifax se ´O Zé do Campanário´ estivesse incrustado no frontispício deste primoroso livro que fecha com fulgor o ano da graça de 2003, tão rico em surpresa, quanto em desencanto, mas que prenuncia alvíssaras para todos no raiar do 2004. Os búfalos, afinal, já se foram.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2004.

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Cidade de Deus ou do Diabo?

Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indicações (direção, roteiro, edição e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido não fosse ´Cidade de Deus´. Vi o filme de Fernando Meireles com atenção e respeito, mas confesso que não encontro razões para tanto incenso a uma produção que tem como base a banalização da violência, o uso do que se convencionou chamar de ´cosmética da fome´, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, ´o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza.
Para ficar no passado recente, desde o filme ´Central do Brasil´, de Walter Salles, outro discípulo da ´cosmética da fome´, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O país mostrado nesses dois filmes é parte da realidade nacional, mas não é o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. São, ao contrário, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas não são bons produtos de exportação. Estão mais para a execração, ainda que lastreados em fatos reais.
A imagem brasileira, já tão desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos países desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como ´terceiro mundo´. Aqui não é nenhum paraíso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil é uma grande ´Cidade de Deus´. Há muito argumento, além das favelas, o agreste esquálido do Nordeste e o crime organizado ou desorganizado, que são as motivações essenciais de quase todos os últimos filmes brasileiros.
Não se trata de esconder as nossas mazelas ou deixar de mostrar a face discriminatória de grande parte da sociedade brasileira. Mas há tantos outros ´brasis´ e enredos a serem mapeados para filmes de boa tessitura, que chega a parecer ranço ou aproveitamento esse renitente e repetido uso do que temos de mais feio, sob o ponto de vista estético, mais cruel, sob o aspecto social e segregacionista, na visão racial.
Se eu estiver errado, peço desculpas, mas seria bom que os filmes brasileiros fossem não apenas denunciadores das graves e grandes desigualdades sociais, mas, igualmente, tentassem melhorar a nossa imagem externa tão combalida, repito. Que venham as estatuetas, se possível, mas é urgente se rediscutir o enfoque da filmografia brasileira tão ciosa de apoios do governo e de mecenas, mas imbricada apenas com o lado ´noir´ de uma nação colorida e diversa que precisa respirar, viver e sonhar com ares menos catastróficos e densos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2004.