Sem categoria

LIBERDADE, IGUALDADE E OPORTUNIDADE

Há pouco tempo passei a virada do ano em Paris. Fazia frio, não havia táxis nas ruas e os metrôs estavam superlotados, porque gratuitos naquele dia. Depois do jantar, resolvi dar uma caminhada na região de Trocadéro, onde fica a Torre Eiffel. É um grande parque, lindamente gramado, fontes jorrando, bem iluminado, próxima do Rio Sena e da ponte D’Iéda.
Desci as escadarias. Havia muita gente, especialmente famílias, mas notei que poucos pareciam franceses ou, pelo menos, o que imaginava ainda pudesse ser o biótipo do francês. Ninguém parecido com Alain Delon, Jacques Chirac, Jean Paul Belmondo e afins. Havia gente parecida com Zidane e com os muitos franceses -ou não- oriundos das colônias africanas. Havia muitos árabes ou filhos de árabes. O leito do Sena estava sujo de garrafas vazias, camelôs vendiam quinquilharias luminosas e a algaravia de idiomas me deixava desconcertado.
O meu olhar procurara um táxi salvador, pois já viera de metrô. Era a primeira hora dia do novo ano e eu em meio à turba que cantava, bebia, vendia, enquanto outros, já entregues ao cansaço, dormiam sobre a relva. Naquele instante, passou o filme de minha primeira visita à França, em 1965. Era outro o país, não sei se melhor ou pior, mas o povo parecia ter uma maior identidade com a sua história. Ali, naquela madrugada, eu via algo como uma ocupação de imigrantes ou de seus filhos que tentavam se amalgamar aos costumes franceses, mas pareciam estranhos à terra, embora essa fosse deles.
Tudo isso me voltou à mente ao acompanhar o que está acontecendo nestes dias na França. Milhares de carros são queimados nas vias públicas e a imprensa destaca que os incêndios são provocados por jovens negros e de origem árabe, todos na faixa de 20 anos, que reclamam de discriminação no mercado de trabalho, poucas oportunidades de empregos e sentimento de marginalização social. Esse caos, que já se espalha pela Europa, é o retrato de um mundo desigual que teima em não ver a realidade, tão dura quanto próxima da vida de todos. O premiê francês, Dominique de Villepin, meio perplexo, diz que é preciso respeitar a todos e cada um pelo que são, mas, ao mesmo tempo, destaca que os atos de violência são “inaceitáveis e indesculpáveis”. E a Europa passa a viver o rescaldo da imigração, talvez uma resposta tardia à colonização que pode ter originado esse drama cujo primeiro ato estamos vendo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/11/2005.

Sem categoria

A REPÚBLICA E A BANDEIRA

Terça-feira, 15, foi Dia da Proclamação da República. Feriado Nacional. O “brasileiro é um feriado”, já dizia Nelson Rodrigues. Foi dia de empresas paralisadas, repartições fechadas, cerveja, livros/jornais abertos, sol e papo furado. Poderia ser também o dia em que cada um tivesse pensado na sua relação com a República, o Estado organizado, a coisa pública que deveria ser comum a todos nós, mas parece ser mais de alguns que de todos. Nós, quer queiramos ou não, somos republicanos.
Quando Deodoro da Fonseca proclamou a República, em 15 de novembro de 1889, havia um clamor nacional, uma vontade imensa de mudar os destinos do Brasil, este país colossal, rico e poderoso, que, apesar disso, se confunde com uma seleção de futebol. Não é brincadeira. Se alguém fizer uma pesquisa e perguntar: o que significa Brasil? Muitos, muitos mesmo, responderão que é a seleção canarinha, o time dos ronaldinhos e do Parreira. É pena. E aí desfraldam a bandeira e torcem. Ora pois.
Ontem, 19, foi o Dia da Bandeira, um símbolo da Pátria, mas poucos se dão conta disso. Tampouco sabem que Brasil deveria significar República, nação organizada, um conjunto de valores e de ordem para servir à sociedade. E por que isso não acontece? Pelo nosso descivismo, descrença, desinformação e a presumida incapacidade de mudar as coisas que aí estão, como se tudo fosse fatalidade. Não é.
Fazemos sempre do mesmo jeito porque ainda não desenvolvemos a cidadania, não admitimos que nós é que transferimos a alguém a capacidade de cuidar dos nossos anseios, a responsabilidade de agir e decidir. Isso se faz pelo voto, um a um. Só isso. Não cobramos. E não damos o troco na hora certa. Apenas isso, nada mais.
Ao comparar, escolher, votar e eleger, estamos dizendo a uma pessoa que ela tem o nosso aval, autoridade e poder para agir. Ora, se a pessoa não age bem, se não fez aquilo que desejávamos, será tempo de mudar. Para isso é que existem eleições. Isso vale para o condomínio, clube, escola, associação de classe, cidade, estado e o País. Ninguém é insubstituível, especialmente se trata a coisa pública como se fosse um bem particular de que pode se apropriar e não tem o cuidado de escolher certo quem o acompanha. É simples, bem mais simples do que se pensa.
Não são a pompa e a posição que tornam uma pessoa digna, são os cuidados com o que faz, o modo como trata o que é coletivo e a sua responsabilidade social. Responsabilidade social não é modismo, é a consciência amplificada e tornada prática, coerente no dizer, sentir, viver e fazer.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/11/2005.

Sem categoria

MINDLIN

Já faz alguns decênios que acompanho a trajetória de José Mindlin. O que me fazia curioso era entender a capacidade dele de ter sido empresário vitorioso e, ao mesmo tempo, intelectual consistente. Na verdade, o descendente de judeus russos, formado em Direito em São Paulo, foi sempre um ser múltiplo. Ao mesmo tempo em que conduzia com aprumo, desenvoltura e bom senso, a Metal Leve, empresa que comandou por dezenas de anos, ia consolidando a sua capacidade de leitura e, pouco a pouco, se transformando no maior amante de livros do Brasil.
Nesta semana, José Mindlin esteve por aqui para dar nome a comenda criada pela Sociedade Brasileira de Bibliófilos. Veio, acompanhado por sua filha Betty, e esteve em rodas com apreciadores de livros, com a sabedoria acumulada em seus produtivos 92 anos. Por pouco tempo, bem menos que gostaria, estive a seu lado. Era admiração explícita, adulta, sem inveja e com a certeza de que aquele era um momento raro. E nesse instante me encabulou a fala de José Macedo, outro longevo, fraterno e bravo empresário, ao apresentar-me a ele como “o Mindlin cearense”. Agradeço a referência do amigo José Macedo, mas nunca serei bibliófilo, tampouco intelectual, apenas misturo o construir realidades com o enlevo da leitura, dispersa e vária, vício antigo e incorrigível. Não tenho livros raros. Longe, bem longe disso.
Não há outros Mindlins por este Brasil. Quanto muito, há pessoas que vão se transformando em amantes de livro, ao mesmo tempo em que exercem outras atividades. Ser amante de livros é um processo, uma história longa que tem começo e não termina nunca. O bibliófilo é o amante depurado de livros. Não bastam as compulsões da compra. Valem a paciência na procura, o sonho da leitura e da posse, o tratamento que empresta à antiguidade da obra, a análise do seu conteúdo, a certeza do seu valor histórico e o básico de ser primeira edição, com ou sem anotações de seu primitivo dono.
José Mindlin se confessa leitor, em média, de 100 livros por ano. Lê a quase 80 anos, o que daria um total de 8.000 livros já lidos, mas tem uma biblioteca imensa de quase 30 mil títulos, o que torna clara a sua paixão, quase uma obsessão. Essa paixão não embotou a sua lucidez e permitiu que doasse à Universidade de São Paulo o seu acervo de obras chamado de “brasilianas”. A Biblioteca José Mindlin na USP tem 10 mil títulos e ocupará 10.000m2, o que já a torna um dos maiores centros difusores do conhecimento nacional.
Este contar aligeirado é apenas um assentamento de admiração e respeito.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/11/2005

Sem categoria

MEMÓRIA

Adam Phillips é um psicanalista que, atualmente, coordena a tradução, para o inglês, das obras completas de Sigmund Freud. Consequentemente, Phillips tem escrito sobre memória. De seu último ensaio, “A Memória Forçada”, vou tentar, na medida da minha incompetência psicanalítica, tirar alguns trechos. Foi originariamente, publicado na revista “Index on Censorship” e, posteriormente, no caderno de cultura “Mais”, neste novembro.
Segundo ele, “Existe uma crença esperançosa sob o mito redentor da memória: a de aquilo que deve ser lembrado – desde que nos lembremos das coisas certas e da maneira certa -beneficia o nosso bem-estar e até mesmo a nossa virtude. Recordar, se o fizermos da maneira apropriada, nos dará as vidas que desejamos”.
Adam Phillips pretende demonstrar, parece ser, que muitas memórias não têm nada de espontaneidade histórica e, provavelmente, apaziguam sentimentos. Na verdade, a memória é aquilo que não se esquece espontaneamente e a história registra independente do passar do tempo. Reparem quando diz: “A memória pode até nos manter cordatos. Mas, na verdade, estamos conscientes, em área distinta de nossas mentes, que a memória seja mais virtuosa do que aqueles que a manifestam”.
E explica porque isso acontece: “Nosso medo (moderno) é o de que não obtenhamos sucesso no esquecimento ou de que o esquecimento não seja possível”. E vai em frente: “Fazer com que as pessoas recordem tende a presumir que seja possível calcular as respostas que terão às memórias. É uma tentativa de impor uma solução artificial, quando soluções artificiais são parte do problema. A recordação forçada – a absurda ideia de que seria possível aprender de cor a história pessoal e em uma visão correta – na verdade demonstra medo da história: um bem fundamentado temor de que o passado esteja sujeito a múltiplas e variadas interpretações”.
Dito isto, pois de memória entendo pouco, embora imagine ter sentimentos que guardo e preservo, lembro-me do que escreveu, dia desses, Carlos Heitor Cony: “Leitores, se os tenho, reclamam aos canais competentes dos assuntos que abordo em minhas crônicas, que não considero colunas, mas crônicas mesmo”.
Assim, falar de memórias, mesmo fazendo citações, pode até parecer que não seja crônica, mas talvez seja. E, para encerrar, uma de Gilberto Amado (A Chave de Salomão): “Todas as desgraças humanas vêm da memória. O homem junta-lhe ainda a inquietação do futuro.”

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/12/2005.

Sem categoria

GUARDADOS EXISTENCIAIS

Quando nascemos o pacote já vem pronto. Temos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Tudo isso junto vai formando o tempo de viver. Essa vida que recebemos sem querer ou saber e, só a partir de um determinado instante, muito depois, dela tomamos vera consciência. E isso acontece, por exemplo, quando se completa 40 anos de formatura em Direito. Nesse instante é que nos perguntamos: E agora? Agora é aquele momento em que se para e recebe um sacolejo, procurando respostas que não sabemos ou a pouca audácia nos impede de descobrir.
Esta época do ano não é só de justas comemorações, nem apenas o tempo de se fazer listas de presentes, comer, beber ou programar o que fazer com as sobras do salário. Ela é um tempo em que muitos ficam a pensar nos sonhos que imaginou, realizou ou os perdeu pelo caminho. Nos desejos jogados para escanteio em nome da preservação de relações, interesses ou medos. É a procura, quem sabe, daquilo que deveria ter sido feito e não foi.
Isso bate mesmo. Bate para o Papa, o Rei da Espanha, o Zé da mercearia, o Dirceu, a Marília, o Bush, enfim, sobra para todos os que estão mexendo com o exercício de viver. E bate porque sabemos que para tudo há começo, meio e fim. E quando chegamos ao que se acredita seja o meio de tudo isso, aí a vontade vem de roldão e nos fustiga a coragem, mexe com as entranhas e estranhos juízos passam pela cabeça.
É o tempo de remexer nos guardados existenciais, os que colocam uma espécie de Sonrisal no presente e dele não saem só borbulhas de amor, como quer o Fagner. Seria um tempo de revelação, mesmo que fugidio como o passo da gazela ou sutil como o pousar de uma borboleta. Essa estação que se quer eterna — e não o é, mas um mero ciclo, quiçá um breve ciclone que provoca cismas, — passa e deixa sedimentos de esperanças que não podem ser desperdiçados. Fugazes são e precisam ser capturados pelo obturador que repousa em nossos sentimentos.
Como não podemos viver na ante-sala do amanhã, precisamos ralar o chão do presente, tentar dissipar as teias que nos enredam, escoimar o que não nos diz respeito e abrigar os que queremos bem, os que estão conosco para o que der e vier. Estes, são poucos. E justamente por serem raros têm de ser rastreados com destreza e atados pelos fios da benquerença em laços que não devem ser afrouxados pelo tempo, esse déspota que não descansa.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/12/2005.

Sem categoria

INTELIGENTE, EDUCADO E ESTUPEFADO

A maioria das pessoas que se considera inteligente, educada e sabida se diz estupefata com a realidade crua de o Brasil ainda ser um país de Terceiro Mundo. A culpa sempre é dos outros, do governo e dessa ´gente sem educação e princípios´. Ora, ´essa gente´ somos todos nós, os que vemos sempre os defeitos do outro e esquecemos os nossos.
Três exemplos: 01. Tudo pode começar no esporte: não importa que o nosso time faça um gol-de-mão aos 45 minutos do segundo tempo, o importante é que ganhe. 02.Passa pela mídia: Não importa que se saiba do preconceito disfarçado que há contra os nordestinos pobres. O nordestino só é manchete quando algo ridículo (comer rato, morar sob viaduto ou ter uma bicicleta muito enfeitada) possa ser levado à televisão, ou retratado em filmes caricatos. Isso vem de longe e ainda não se absorveu na cultura nacional a migração como fator natural. O nordestino é sempre o ´baiano´ e, quando se faz algo errado no trânsito, é uma ´baianada´. 03. Nem o dado inquestionável do presidente da República ser nordestino tem sido poupado. Muito pelo contrário, serve de motivo para piadas em jornais e o disse-me-disse em rodas que pretendem ter a hegemonia da educação, das regras de convivência e etiqueta sociais. As elites o engolem como alguém inevitável e porque precisam dos favores oficiais, não porque o assimilaram.
Provavelmente, o início do ano deveria servir para crônica mais amena, menos óbvia e contundente, mas está na hora de se pensar em brasilidade, isto é, na capacidade de aceitar as peculiaridades e identidades de cada um, sem prejuízo do esforço coletivo de todos, para dar a este país um sentimento nacional de respeito ao outro, que nada mais é que ele visto por mim, ou eu visto por ele.
Se assumíssemos que não somos inteligentes, sabidos e educados, não ficaríamos tão estupefatos com certos índices de desenvolvimento humano e econômico. Quase 50% da população mora em sub-habitações, mais de 12% da população ativa está sem emprego. Dados como esses refletem o quanto ainda precisamos aprender a crescer, para sermos, pelo menos, um país em que as desigualdades não tenham que ser resolvidas apenas com programas de combate à fome e à mortalidade infantil. Um país que enfrente a convivência com o favelamento, a que sucumbem as grandes e médias cidades brasileiras; onde falar de segurança pública, por exemplo, possa não parecer piada, já que a criminalidade não é apenas efeito, mas também causa dessa indiferença de todos os que se imaginam inteligentes, educados e sabidos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2004.

Sem categoria

O ZÉ DO CAMPANÁRIO

Audifax Rios galopa com maestria pelas areias da cidade imaginária ou imaginada de Campanário. Desloca-se na garra de um homem novo pela floresta adentro e o traz de volta com muito ouro e disposição. Tudo para dar sentido, vida, sustança e destino a Zé do Egito ou Zegito.
Detalha com cinzel de artesão, pincel naife, linguajar de escritor maduro, prosa livre de cantador sem viola e a propriedade de etnógrafo, o que vai ocorrendo na vida e nas circunstâncias do Zegito. Como se fora um ferrador de gado, vai marcando, vezes sem conta, o que passa na mente e nos possuídos desse matuto brabo nascido no ano de 191. E o trás pelo cabresto, ao final desenfreado, até os recentes idos de 1964. Há tanta beleza na narrativa de Audifax que é difícil pinçar trechos, sem cometer injustiça, trechos entre os que embevecem, prendem e seduzem o leitor. Apenas dois exemplos:
Um: ´Pois eu lhe conto uns tantos e quantos sucessos das gentes deste lugar perdido nos cafundós do sertão nordestino, que bem poderia ser um qualquer outro pedaço esquecido do planeta. Conversa fiada sobre alguns viventes de um chão abençoado e maldito, empoeirado pelo arrastado das bestas-feras e burras-de padre povoantes destes pagos em noite de espanto.
Dois: ´E durante este tríduo de chuvas nefastas continuaram a desabar raios de pouca monta em comparação com a bola gigantesca e queimaram-se todos os bicos de luz, as válvulas dos rádios rabos-quentes e seus esmeraldos olhos mágicos. Enguiçaram também os aparelhos alto-falantes e o Morse do telégrafo e tudo quanto dependia de magnetos e galenas e outras maravilhas da ciência elétrica e mais descobertas deslumbrantes naqueles tempos de progresso.
Com o jeito de quem conhece a estrada onde pisou e´as gentes deste lugar perdido´, Audifax Rios vai tecendo as teias do tecido social de uma cidade que recebe, em 1946, Zegito em seu retorno de herói-bandido das terras molhadas do Amazonas. Alforje pleno de ouro, um curumim-filho a tiracolo e uma disposição imensa de mostrar a todos quem era e quem seria, chega e finca os seus mourões, o dito José do Egito. De sobrenome tão grande quanto desnecessário, pois a fama daí para frente construída é fruto do Zegito, um agitador que tinha as rédeas da cidade e o beneplácito do céu pela intercessão do Pe.Justiniano, que acumulava as funções de seu amigo, confidente, sócio e beneficiário das suas diatribes.
São tantos os personagens fortes ou sutis, marcantes ou marcados desta mini-epopéia que me indago a razão do destaque aos búfalos que, nada fizeram além de um galope alucinado igreja a dentro e da beberagem tomada pelos irracionais e racionais, todos animais, explodindo a capacidade ´viagrática´ de uma procriação maltusiana que nos faz lembrar o melhor da fantástica criação dos escritores latinos de língua hispânica.

Não é preciso sair citando, um a um, os coadjuvantes dessa cidade-circo mambembe que nos lembra as reinações de Ariano Suassuna e, longe, muito longe, a fase primeira de Jorge Amado, nos confins das terras dos cacaus.
Tão rico é Zegito que o aposto- é aposto mesmo – de Major é supérfluo e descabido. Essa patente teria sido ´comprada a peso de ouro à Guarda Nacional´, entidade extinta pelo presidente Wenceslau Brás desde 1918 e, por tal razão, desconectada da cronologia da narrativa. Tal fato, sem macular o brilho da história, dá a Audifax o condão que tem os autores de mexerem com a temporalidade, sem que isso perturbe ou aflija quem lê este livro.
Ora, Candinha, Orapronobias, , Padre Justiniano, Henrique Imaginário, Maria Guayana, Messias Salvador e muitos outros são mais relevantes e revelantes que os 12 búfalos trazidos da Ilha de Marajó e que, incontidos em sua sexualidade, transgrediram as leis da natureza e receberam, quem sabe, por castigo a morte coletiva ´à beira do abismo inacabado´.
Cada um desses coadjuvantes marca com ´letras capitulares´ todo o enredo que conta a saga, com um fim aligeirado, e a volta-fuga não bem explicada de Zegito para a Amazônia. Por estas e por outras não contadas é que me rendo ao título marquetado de ´Os Búfalos de Campanário´, mas faria, igualmente, elogios ao brilhante Audifax se ´O Zé do Campanário´ estivesse incrustado no frontispício deste primoroso livro que fecha com fulgor o ano da graça de 2003, tão rico em surpresa, quanto em desencanto, mas que prenuncia alvíssaras para todos no raiar do 2004. Os búfalos, afinal, já se foram.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2004.

Sem categoria

A JANELA DA VIDA

Em meio à quietude da tarde, por opção e prazer, abro o envelope, rompo o lacre e retiro o disco compacto que recebi de presente de José Arimatéia Santos, um homem que mexe há tanto tempo com grandes números e conservou a capacidade de ser simples. Ligo o som, coloco o CD, ajusto graves e agudos procurando qualidade, e associo-me à harmonia, melodia e ritmo tirados dos ajustes das cordas às cravelhas de violino, viola e violoncelo dos músicos do Quarteto Iguaçu. Os arcos de Oliver, Freitas, José Maria e Dany estão prontos e ressoam os primeiros acordes com arranjos de Ricardo Petracca. Fecho os olhos e deixo que os sons das cordas do quarteto se misturem ao vento que entra na janela do meu quarto. Nem todas as janelas são da vida, mas a música que ouço dá vida à janela pela qual vejo, em meio ao casario e tantos prédios, a singeleza da igrejinha de São Pedro, nesta tão bonita, intrigante, discutida e abandonada Praia de Iracema.
De princípio, veio Prelúdio ao Luar, certamente Pensando em Você, mas ainda dá para ver O Sol que Brilha no Mar. Se um dia não tivesse existido Isolete, penso eu, com a sua Mensagem de Amor, certamente não teria acontecido A Janela da Vida. Mas aconteceu. E José de Arimatéia é gente que troca a brisa do mar da cidade grande pelo calor e o amor à Guanacés, um lugarejo quase perdido no interior do Ceará, em Cascavel, onde espalha graça e esparge a sua benquerença com atitudes e afeto, levando saúde, instruindo jovens e formando banda de música. Mesmo não sendo compositor de carteira, pediu aos santos – que obrigatoriamente o acompanham até no nome – inspiração e Deus parece ter atendido nos sons aqui paridos e purificados por um quarteto no Paraná, capitaneado pelo músico cearense José Maria Magalhães Silva.
E enquanto O Pôr do Sol já se aproxima desta Ponte dos Ingleses, aqui nesta terra em que pouca gente ouve música com enlevo e sem remelexo, ecoa O Meu Ceará, com uma viola sofrida e bela. De repente, aparecem A Espera, Você Chegou. Paradoxalmente, acabou-se a espera. É hora d’ A Chegada. Até que enfim, pois o Crepúsculo vai caindo, permitindo que os acordes do Quarteto Iguaçu reavivem os sentimentos nesta tarde-noite em que os sons parecem dar mãos ao marulho das ondas que morrem e renascem nestas pedras e areias com ritmo essencial para dizer que tudo é possível. É, basta abrir a janela para a vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2004.

Sem categoria

RECEITA DE BOLO

Pediram-me que escrevesse sobre a vida. Eu que ainda não aprendi. Vão alguns pensamentos alinhavados sobre vários ângulos do ato de viver. É uma mera receita de bolo. Posso ter errado nos ingredientes e nunca soube cozinhar. Apesar disso, desobrigo-me. Leia devagar. Frase por frase, como se fossem parágrafos.
Aja com clareza, faça planos e tente atingi-los, pode ser hora de acreditar em você sem, necessariamente, descrer dos outros. Não esqueça os detalhes, simples números são o segredo para abrir um grande cofre. É preciso mesclar as coisas da vida: não se pode viver só estudando, trabalhando e sonhando. Tenha alegria, misture-se com gente, ore, cante, troque energia. Não se ache o melhor ou pior, cure a sua ferida e ria do que passou. É hora de alegrar-se, a tristeza é feia. Acredite, não há tantas certezas. Transforme suas dúvidas em atos de fé e vá em frente. Não tenha medo ou se tiver, enfrente as questões no tempo certo.
O amor pode chegar derrubando porteiras ou manso e mexe com todos os seus sentimentos: curta-o, breve ou longo que seja. A mentira sempre retorna e você passa a desacreditar em si próprio. Os outros são você do lado de lá: fique no lugar deles e sinta. Sem amigos, você é um carro sem combustível: não vai a lugar nenhum e sobra estacionamento. Creia: sem acreditar que as coisas darão certas elas começarão com erros. Você é o seu maior torcedor: vista a sua própria camisa e atue para ganhar. Conheça-se: é difícil, mas tente. Não se vista para os outros. Vista-se para agradar a você e, se puder, aos outros. Estilo é quando você se repete. Espere: há situações em que precisa cautela; pondere, mas não pare. Siga sempre, mesmo que tenha que mudar de estrada ou de sapatos. Respire, puxe a sujeira que está dentro de você e expire devagar. Imagine o que quer e inspire fundo. É preciso trocar de ar, sempre.
Ouça música, boa música. Boa música é a que você ouve sozinho e gosta. Faça tal qual o leão: seja forte, mas calmo. Cace o que precisa para sobreviver. Respeite e ame os mais velhos. Eles são iguais a você. A diferença está no seu olhar. Reexamine-se, olhe-se, questione-se, corrija-se. Todo o dia é hora de rever o errado e mirar o futuro. Não reclame da dor no braço, lembre-se do maneta. Levante cedo, respire fundo, dê língua para o espelho e enfrente tudo. Descalce os sapatos, pise no chão e sinta a energia da terra. Ande. Mexa-se. Você é terra, mesmo que precise de ar, água e luz. Tente acertar. Não deu certo, paciência. Vá em frente, ninguém sabe o que encontrar em rua nova. Mude de rua, mude de lua. Você é a história. Descubra a resposta, ela está no bolso da sua razão ou do seu sentimento. Compartilhe, especialmente atitudes. Pense sempre nos outros, mas não esqueça o seu maior companheiro: você. Ficar calado, às vezes é um ato de profunda sabedoria. Fale pouco, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2004.

Sem categoria

Cidade de Deus ou do Diabo?

Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indicações (direção, roteiro, edição e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido não fosse ´Cidade de Deus´. Vi o filme de Fernando Meireles com atenção e respeito, mas confesso que não encontro razões para tanto incenso a uma produção que tem como base a banalização da violência, o uso do que se convencionou chamar de ´cosmética da fome´, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, ´o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza.
Para ficar no passado recente, desde o filme ´Central do Brasil´, de Walter Salles, outro discípulo da ´cosmética da fome´, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O país mostrado nesses dois filmes é parte da realidade nacional, mas não é o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. São, ao contrário, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas não são bons produtos de exportação. Estão mais para a execração, ainda que lastreados em fatos reais.
A imagem brasileira, já tão desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos países desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como ´terceiro mundo´. Aqui não é nenhum paraíso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil é uma grande ´Cidade de Deus´. Há muito argumento, além das favelas, o agreste esquálido do Nordeste e o crime organizado ou desorganizado, que são as motivações essenciais de quase todos os últimos filmes brasileiros.
Não se trata de esconder as nossas mazelas ou deixar de mostrar a face discriminatória de grande parte da sociedade brasileira. Mas há tantos outros ´brasis´ e enredos a serem mapeados para filmes de boa tessitura, que chega a parecer ranço ou aproveitamento esse renitente e repetido uso do que temos de mais feio, sob o ponto de vista estético, mais cruel, sob o aspecto social e segregacionista, na visão racial.
Se eu estiver errado, peço desculpas, mas seria bom que os filmes brasileiros fossem não apenas denunciadores das graves e grandes desigualdades sociais, mas, igualmente, tentassem melhorar a nossa imagem externa tão combalida, repito. Que venham as estatuetas, se possível, mas é urgente se rediscutir o enfoque da filmografia brasileira tão ciosa de apoios do governo e de mecenas, mas imbricada apenas com o lado ´noir´ de uma nação colorida e diversa que precisa respirar, viver e sonhar com ares menos catastróficos e densos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2004.