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A JANELA DA VIDA

Em meio à quietude da tarde, por opção e prazer, abro o envelope, rompo o lacre e retiro o disco compacto que recebi de presente de José Arimatéia Santos, um homem que mexe há tanto tempo com grandes números e conservou a capacidade de ser simples. Ligo o som, coloco o CD, ajusto graves e agudos procurando qualidade, e associo-me à harmonia, melodia e ritmo tirados dos ajustes das cordas às cravelhas de violino, viola e violoncelo dos músicos do Quarteto Iguaçu. Os arcos de Oliver, Freitas, José Maria e Dany estão prontos e ressoam os primeiros acordes com arranjos de Ricardo Petracca. Fecho os olhos e deixo que os sons das cordas do quarteto se misturem ao vento que entra na janela do meu quarto. Nem todas as janelas são da vida, mas a música que ouço dá vida à janela pela qual vejo, em meio ao casario e tantos prédios, a singeleza da igrejinha de São Pedro, nesta tão bonita, intrigante, discutida e abandonada Praia de Iracema.
De princípio, veio Prelúdio ao Luar, certamente Pensando em Você, mas ainda dá para ver O Sol que Brilha no Mar. Se um dia não tivesse existido Isolete, penso eu, com a sua Mensagem de Amor, certamente não teria acontecido A Janela da Vida. Mas aconteceu. E José de Arimatéia é gente que troca a brisa do mar da cidade grande pelo calor e o amor à Guanacés, um lugarejo quase perdido no interior do Ceará, em Cascavel, onde espalha graça e esparge a sua benquerença com atitudes e afeto, levando saúde, instruindo jovens e formando banda de música. Mesmo não sendo compositor de carteira, pediu aos santos – que obrigatoriamente o acompanham até no nome – inspiração e Deus parece ter atendido nos sons aqui paridos e purificados por um quarteto no Paraná, capitaneado pelo músico cearense José Maria Magalhães Silva.
E enquanto O Pôr do Sol já se aproxima desta Ponte dos Ingleses, aqui nesta terra em que pouca gente ouve música com enlevo e sem remelexo, ecoa O Meu Ceará, com uma viola sofrida e bela. De repente, aparecem A Espera, Você Chegou. Paradoxalmente, acabou-se a espera. É hora d’ A Chegada. Até que enfim, pois o Crepúsculo vai caindo, permitindo que os acordes do Quarteto Iguaçu reavivem os sentimentos nesta tarde-noite em que os sons parecem dar mãos ao marulho das ondas que morrem e renascem nestas pedras e areias com ritmo essencial para dizer que tudo é possível. É, basta abrir a janela para a vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2004.

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RECEITA DE BOLO

Pediram-me que escrevesse sobre a vida. Eu que ainda não aprendi. Vão alguns pensamentos alinhavados sobre vários ângulos do ato de viver. É uma mera receita de bolo. Posso ter errado nos ingredientes e nunca soube cozinhar. Apesar disso, desobrigo-me. Leia devagar. Frase por frase, como se fossem parágrafos.
Aja com clareza, faça planos e tente atingi-los, pode ser hora de acreditar em você sem, necessariamente, descrer dos outros. Não esqueça os detalhes, simples números são o segredo para abrir um grande cofre. É preciso mesclar as coisas da vida: não se pode viver só estudando, trabalhando e sonhando. Tenha alegria, misture-se com gente, ore, cante, troque energia. Não se ache o melhor ou pior, cure a sua ferida e ria do que passou. É hora de alegrar-se, a tristeza é feia. Acredite, não há tantas certezas. Transforme suas dúvidas em atos de fé e vá em frente. Não tenha medo ou se tiver, enfrente as questões no tempo certo.
O amor pode chegar derrubando porteiras ou manso e mexe com todos os seus sentimentos: curta-o, breve ou longo que seja. A mentira sempre retorna e você passa a desacreditar em si próprio. Os outros são você do lado de lá: fique no lugar deles e sinta. Sem amigos, você é um carro sem combustível: não vai a lugar nenhum e sobra estacionamento. Creia: sem acreditar que as coisas darão certas elas começarão com erros. Você é o seu maior torcedor: vista a sua própria camisa e atue para ganhar. Conheça-se: é difícil, mas tente. Não se vista para os outros. Vista-se para agradar a você e, se puder, aos outros. Estilo é quando você se repete. Espere: há situações em que precisa cautela; pondere, mas não pare. Siga sempre, mesmo que tenha que mudar de estrada ou de sapatos. Respire, puxe a sujeira que está dentro de você e expire devagar. Imagine o que quer e inspire fundo. É preciso trocar de ar, sempre.
Ouça música, boa música. Boa música é a que você ouve sozinho e gosta. Faça tal qual o leão: seja forte, mas calmo. Cace o que precisa para sobreviver. Respeite e ame os mais velhos. Eles são iguais a você. A diferença está no seu olhar. Reexamine-se, olhe-se, questione-se, corrija-se. Todo o dia é hora de rever o errado e mirar o futuro. Não reclame da dor no braço, lembre-se do maneta. Levante cedo, respire fundo, dê língua para o espelho e enfrente tudo. Descalce os sapatos, pise no chão e sinta a energia da terra. Ande. Mexa-se. Você é terra, mesmo que precise de ar, água e luz. Tente acertar. Não deu certo, paciência. Vá em frente, ninguém sabe o que encontrar em rua nova. Mude de rua, mude de lua. Você é a história. Descubra a resposta, ela está no bolso da sua razão ou do seu sentimento. Compartilhe, especialmente atitudes. Pense sempre nos outros, mas não esqueça o seu maior companheiro: você. Ficar calado, às vezes é um ato de profunda sabedoria. Fale pouco, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2004.

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Cidade de Deus ou do Diabo?

Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indicações (direção, roteiro, edição e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido não fosse ´Cidade de Deus´. Vi o filme de Fernando Meireles com atenção e respeito, mas confesso que não encontro razões para tanto incenso a uma produção que tem como base a banalização da violência, o uso do que se convencionou chamar de ´cosmética da fome´, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, ´o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza.
Para ficar no passado recente, desde o filme ´Central do Brasil´, de Walter Salles, outro discípulo da ´cosmética da fome´, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O país mostrado nesses dois filmes é parte da realidade nacional, mas não é o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. São, ao contrário, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas não são bons produtos de exportação. Estão mais para a execração, ainda que lastreados em fatos reais.
A imagem brasileira, já tão desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos países desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como ´terceiro mundo´. Aqui não é nenhum paraíso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil é uma grande ´Cidade de Deus´. Há muito argumento, além das favelas, o agreste esquálido do Nordeste e o crime organizado ou desorganizado, que são as motivações essenciais de quase todos os últimos filmes brasileiros.
Não se trata de esconder as nossas mazelas ou deixar de mostrar a face discriminatória de grande parte da sociedade brasileira. Mas há tantos outros ´brasis´ e enredos a serem mapeados para filmes de boa tessitura, que chega a parecer ranço ou aproveitamento esse renitente e repetido uso do que temos de mais feio, sob o ponto de vista estético, mais cruel, sob o aspecto social e segregacionista, na visão racial.
Se eu estiver errado, peço desculpas, mas seria bom que os filmes brasileiros fossem não apenas denunciadores das graves e grandes desigualdades sociais, mas, igualmente, tentassem melhorar a nossa imagem externa tão combalida, repito. Que venham as estatuetas, se possível, mas é urgente se rediscutir o enfoque da filmografia brasileira tão ciosa de apoios do governo e de mecenas, mas imbricada apenas com o lado ´noir´ de uma nação colorida e diversa que precisa respirar, viver e sonhar com ares menos catastróficos e densos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2004.

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CÂNCER: DE LEIGO PARA LEIGOS

Estou convivendo com duas pessoas queridas que lutam contra o câncer. Um homem e uma mulher. Ambos maduros e que, apesar de inteligentes, não se cuidavam bem. O homem não fazia os exames rotineiros para detectar o câncer de próstata. Quando foi cuidar, o câncer havia se instalado e ameaçava a área periférica. Chorou, reclamou, desanimou. Eu e outras pessoas amigas fomos duros e ele se mandou para São Paulo. Fez radioterapia, reclamava muito dos enjoos e do sofrimento. Voltou mais magro e com o marcador (psa)ainda alterado. Tomou injeções de hormônio na barriga e já está com ótimo peso, marcador (psa) no nível normal, pintou o cabelo, anda de moto nos fins de semana e trabalha com afinco.
A mulher parece que deu azar. Apareceu uma “tal de água na barriga”, já era o câncer saindo da área primitiva e subindo. Enfrentou e enfrenta tudo com muita raça, perdeu a conta de quantas cirurgias já fez e continua lutando sem medo. Faz quimioterapia em casa, utiliza os recursos da alopatia e da homeopatia e tem um “savoir-vivre” de fazer inveja. A sua família faz a diferença.
Não estou devassando a privacidade de pessoas queridas. O que estou tentando fazer é utilizar este espaço em que escrevo, para alertar a todos, mulheres e homens, da necessidade de ser informado fazer prevenções de saúde. Basta reservar algum tempo e fazer os exames por um plano de saúde ou até pelo SUS. O que não se pode é ignorar que existem formas de prevenir. Admitindo, só para continuar o papo, que alguém seja surpreendido por um câncer. Chore, reclame, dê muro na parede. Quando o choro secar, vá à luta. Não se considere derrotado de véspera. Há muitos recursos médicos, desde que bem ser utilizados e no tempo adequado.
Se você não tiver dinheiro, venda qualquer bem, reúna a família e os amigos, conte a sua história e peça ajuda sem medo. Se não tiver quem ajude, vá atrás de seus direitos de cidadão na Secretária de Saúde, no Decon ou denuncie a um promotor ou procurador. O direito à cura é fundamental. A única coisa que um doente com câncer não pode fazer é desanimar e deixar que a depressão roube as suas defesas. Pelo contrário, descubra-se forte, pergunte, leia, encha o saco dos médicos, converse com quem já passou por algo semelhante, e vá em frente, com fé e sem essa de coitadinho.
Antes de terminar, se tudo estiver bem com a sua saúde, dê graças a Deus e, se for o caso, cuide para não ficar obeso, ande, mantenha uma dieta balanceada com frutas, legumes e carnes brancas, apague o cigarro, modere no álcool, informe-se, não esqueça dos exames de rotina e faça as pazes com quem brigou. Ódio é a pior doença.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/02/2004

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O CELIBATO E A IGREJA

Há uma antologia feita por William J. Bennett que se chama “O Livro das Virtudes -O tesouro das grandes histórias morais”. O livro foi traduzido e adaptado para o Português por Luiz Raul Machado e publicado pela Editora Nova Fronteira.
Esse livro enumera uma lista de virtudes que não são as únicas necessárias a um ser humano, mas básicas ou fundamentais. É claro que toda preferência implica em uma supressão. Mas, o que gostaria de levantar é que entre essas virtudes citadas não há o celibato. Neste começo de Século XXI, o celibato ainda é uma das mais fortes decisões dogmáticas, políticas ou estratégicas da Igreja Católica Apostólica Romana, remontando a sua consolidação ao Século XVI, no Concílio de Trento.
Voltemos às virtudes citadas por Bennett. São elas: Disciplina, Compaixão, Responsabilidade, Amizade, Trabalho, Coragem, Perseverança, Honestidade, Lealdade e Fé. São 10 as virtudes. Iguais aos mandamentos da Igreja, mas não há nenhuma referência a celibato e olha que o livro trata das qualidades essenciais à formação ética das pessoas.
Falemos um pouco de celibato. A Enciclopédia Larousse e o Aurélio dizem que “celibato é estado de celibatário, condição de solteiro” ou “o estado de uma pessoa que se mantém solteira”. De uma forma ou de outra, deduz-se que é uma opção pessoal. No caso da Igreja, deixa de ser uma opção para ser um ato de disciplina, responsabilidade, coragem, perseverança, honestidade, lealdade e fé. Em outras palavras, na visão estrita da Igreja, o celibato precisa de várias outras virtudes, mas não é, em si, uma virtude.
Tudo isso me vem à mente por várias razões. Uma delas: na minha adolescência quis ser padre, mas já achava antinatural que se considerasse pecado até uma simples polução (polução mesmo) noturna de um jovem com hormônios à flor da pele. Havia ainda o voto de castidade eterna que estava implícito no celibato. Era demais para mim.
Essa questão vem, tempos em tempos, à tona. Nesta semana, a revista Veja (edição de 12.01.2005), na sua página 86, sob o título Anunciado, traz a seguinte matéria: “acordo da Igreja Católica da Califórnia com 87 vítimas de abusos sexuais praticados por membros da diocese local contra menores nas últimas seis décadas. Serão pagos 100 milhões de dólares em indenizações. Em 2003, a diocese de Boston pagou 85 milhões em acordo semelhante. Calcula-se que o total de indenização no gênero nos Estados Unidos possa atingir 01 bilhão de dólares”.
A minha pergunta – e de tantos outros – volta com mais intensidade: qual a razão dos padres serem celibatários, se a natureza e a fisiologia humanas indicam o contrário? Por qual motivo, a Igreja Católica ainda insiste em não enxergar o mal que faz a homens de fé, virtude, honestidade e outras virtudes, mas que sentem, mais fortes que suas vontades, o desejo de se acasalar? Não encontrando o apoio de sua igreja, muitos apelam, entre outras soluções, para o homossexualismo e causam constrangimento a tantas pessoas que veem com tristeza a cegueira de Roma que já dura cinco séculos. Até quando?
João Soares Neto,Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2005.

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NÉLIDA PIÑON: DUAS PALAVRAS

Na semana que passou, a escritora Nélida Pinõn visitou a Academia Fortalezense de Letras. Coube a mim a tarefa de saudá-la e ´dizer duas palavras´. As duas palavras seriam: Nélida Pinõn. Bastaria isso. Procurei, todavia, fazer apenas algumas rápidas observações sobre essa ilustre visitante. Ei-las: Nélida é um nome novo que com ela nasceu e que veio a existir pela criatividade de seu pai, Lino. Nélida é uma anagrama de Daniel, seu avô materno. Piñon significa um pinhão ou descanso de gatilho. Pinhão é uma engrenagem que se mexe, movimenta e gira. Nélida tem sido essa engrenagem na literatura brasileira. Professora de Criação Literária na UFRJ, romancista e contista, saiu de Vila Isabel, no Rio, e foi para a Galícia de seus pais dos 10 aos 12 anos. Voltou e aqui sedimentou a sua formação. A partir daí virou cidadã letrada do mundo, descansando o seu gatilho ou mexendo as suas engrenagens do saber na City University of New York, Columbia University, Miami University, John Hopkins University, Universidad Católica de Lima e na Universidad Complutense de Madrid.
Suas engrenagens literárias continuaram a girar. Dessa vez em direção aos dicionários e à imortalidade.Pois foi ela, em 1990, a sucessora de ninguém menos que Aurélio Buarque de Holanda na Academia Brasileira de Letras e, em 1996, substituiu a Antônio Houaiss na Presidência da ABL. Era a primeira mulher – e única até hoje – a ser presidente da Academia Brasileira de Letras. Uma mulher de letras, cercada por muitos fardões, guardada ou guardando Aurélio e o Houaiss, os filólogos e os dicionários.
A obra de Nélida é vasta. Não cabe analisá-la neste arremedo de apresentação. Mas recomendaria, entre tantos romances e contos, pelo menos um breve conto: I love my husband. Nesse conto, Nélida vai quase nocauteando o leitor, mas o deixa consciente para a reflexão sobre o viver a dois nesta terra brasilis, ainda tão machista.
A nossa ilustre convidada é mulher de muita premiação. Em 1995, entre outros, ganhou o Prêmio Internacional de Literatura Juan Rulfo, da Universidad de Guadalajara, no México. Antes, já havia ganhado os prêmios nacionais Walmap, Mário de Andrade, Pen Clube, Bienal Nestlé, Golfinho de Ouro e outros.
Em seus romances (Guia-mapa de Miguel Arcanjo, Madeira feita cruz, Fundador, A Casa da Paixão, Tebas do meu coração, A República dos sonhos, A doce canção de Caetana, Vozes do Deserto etc) e contos ( Tempos das frutas, Sala de armas, O calor das coisas etc), Nélida deixa flagrante a sua rara habilidade em tratar dos mistérios, dilemas e angústias do fazer literário, e isso parece incomodar aos que não sabem que a glória de quem escreve é ser bem lido por seu povo, tornando-o mais reflexivo e consciente das dores e amores do mundo. Nélida faz isso e os seus leitores sabem disso há mais de quarenta anos. Fique bem-vinda, sempre.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2005

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HOLLYWOOD E A ESTÉTICA DA MISÉRIA

Hoje é noite de Oscar em Hollywood. Não tem nenhum filme brasileiro (Diários de Motocicleta é falado em espanhol e é uma coprodução de vários países) na disputa e, se tivesse, certamente não ganharia. Quais as razões? Não sei, mas desconfio. Os diretores e produtores brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em fazer filmes que realçam a tal estética da miséria ou contar, em parceria, por exemplo, a história do jovem Che Guevara (Diários de Motocicleta). Filmes como Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido no critério hollywoodiano de escolher os vencedores da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem indicado foi.
Não adianta fazer lobby, associar-se com gringos, dar entrevistas e sonhar. Aliás, sonhar é bom, mas o sonho da turma de cineastas e produtores americanos é diferente do nosso. Eles não veem estética na nossa exposição de miséria. As nossas fraturas sociais não dizem respeito à traumatologia cinematográfica da era Bush.
A festa da noite de hoje é, quer nós queiramos ou não, a festa da futilidade, exibição, filmes coloridos com histórias limitadas, grandes efeitos especiais, apresentador engraçado e entrevistas abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades nuas e cruas ou discutir o essencial. É o cinema quase inconsequente ou glamouroso. Lá o fórum é outro. É alienado, desengonçado e segue a estética das limusines, vestidos vaporosos, artistas com gel no cabelo, s esperando os “flashes’ e olhando para as câmeras. As críticas, quando as há, são em favor de alguma minoria ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada. É querer muito. Se é tempo de guerra no Iraque, miséria na África, “tsunami” na Ásia e guerrilhas na América Latina, os membros do júri do Oscar não querem ver, saber ou discutir disso.
E parece que, mesmo assim, os filmes americanos continuam sendo admirados por aqui. O filme “Hitch” (Tennant, diretor e Will Smith, ator), uma comédia sobre um conselheiro sentimental, onde o espectador não precisa pensar, foi visto por mais de 262 mil brasileiros no último fim de semana. O “Aviador”(Scorsese e De Caprio) que é um pouco, só um pouco, letrado, pois conta a história, fragmentada, de uma das muitas versões de Howard Hughes, empreendedor rico, cínico e visionário que enveredou pelo transtorno obsessivo compulsivo e terminou louco, foi visto por 121 mil. E olha que não estou falando dos filmes “Menina de Ouro”, de Eastwood com Hillary Swank (a moça lutadora de Box) e “Sideways”, de Alexander Payne com Paul Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando conquistas e depressões) que mexem com sentimentos. Parece que os brasileiros estão cansados ou cansando do uso da miséria para os mais diversos fins.
Quem sabe se mandarmos no próximo ano um filme da Xuxa ou do Renato Aragão não teremos mais chances de indicações?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2005.

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MULHER TEM DIA?

Não concordo que 8 de março seja o Dia das Mulheres. Aliás, concordo apenas do ponto de vista da comemoração, da luta contra os preconceitos e das vitórias que alcançaram, mesmo com ou apesar de muitos homens.
Não vou cair no exagero de dizer que todo dia é dia da mulher. Tampouco direi que todo dia é dia do homem. Mulheres e homens de hoje ainda são herdeiros de preconceitos, desacertos, afetividades truncadas e vidas sofridas. Estão se redescobrindo, estão ensaiando relações novas, mas pecam em seus fundamentos.
Mulheres e homens se chateiam, veem diferentemente as suas relações afetivas, têm níveis de paciência diversos e as suas crenças nos seres humanos e no trabalho obedecem a juízos de valor com níveis distintos de percepção.
Mulheres e homens precisam muito descobrir porque as suas diferenças básicas não podem ser diminuídas, rediscutidas e acertadas. Se não acertadas, mas aceitas.
Neste tempo de hoje em que quase todos estamos, em menor ou maior grau, insatisfeitos com o desenrolar de nossas vidas é preciso humildade e sabedoria para discutir o simples. Porque ele não tem o mesmo nível de paciência dela. Porque ela se apega a detalhes que não ele não vê. Porque ela reclama da sua desorganização e ele não aceita a pia coberta de cremes, colônias e perfumes. Porque ainda não descobrimos uma forma cordial e leve de entender a função do dinheiro em nossas vidas tão diferentes, mas complementares.
Porque não vemos os filhos com olhos similares e os criamos divididos com as nossas formas diferentes de amor. Porque nos apropriamos de frases soltas ditas no calor de uma discussão e fazemos disso um grande problema. Por que traímos, não o amor, mas o que não aceitamos na outra pessoa, tão frágil quanto nós.
Porque discutimos sem o uso da razão e deixamos que tudo vá mais longe que o necessário, porque não aprendemos a pedir desculpas e não cultivamos o riso e a descontração como bases de uma relação, mesmo que ela seja difícil e pesada. Por que temos que ser vitoriosos em decisões bobas que vão se tornando maiores que queríamos. Por que?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2005.

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AS TINTAS COLORIDAS DO ESCRITOR

Juarez Leitão surgiu na ´turma dos sábados´, um grupo heterodoxo de pessoas que se permite sair do sério entre falações e Baco, pelas mãos de Dorian Sampaio, se não me engano. Eram os anos 90. Chegou e se tornou cativo. Contador de ´causos´, orador fluente, sabedor de seus dotes, misturando o quase recato de antigo seminarista ao escracho da vida real, foi sendo absorvido e querido. Daí que resolveu contar, em livro, o que ouvia, sentia e intuía. Desta salada saiu o livro ´Sábado, Estação de Viver´, memória, estória e história.
O Juarez poeta passava a perder espaço para o cronista de uma cidade resoluta, dissoluta e desvairada. O espaço da ´turma dos sábados´ foi apenas o mote para a desenvoltura artística de Juarez.
Além de cronista, fez-se pintor e retratou cada um de seus pares. A cada um entregou um retrato emoldurado e os inseriu nas páginas do livro. Era como se estivesse dizendo: ´a vida tem todos os matizes com os quais o vejo´. E assim, foi entremeando estórias da turma, com estórias de domínio público e privado da Fortaleza que o recebeu e adotou como filho.
Surgia, naquele fim de década de 90, um novo Juarez. Enturmado, hilariante, mas cioso e ciente que estava sendo transformado. A palavra estação do título poderia ser entendida como uma parada em sua vida, em que tomou um novo trem e o destino, capcioso e curioso, sorria com a mudança.
Sábado, Estação de Viver´, em nada se assemelha a outras duas estações que conheço, também cantadas em livro. Nada tem a ver com o romance (A Próxima Estação) de Teoberto Landim ou ao célebre ´Rumo à Estação Finlândia´, de Edmund Wilson. Enquanto Landim, professor e escritor, narra as aventuras e desventuras de um bolsista (Thomas) brasileiro na Alemanha e sua volta ao interior do Brasil, Edmund Wilson, americano, crítico literário, jornalista e escritor, vai mexer, ensaiar polemicamente sobre Marx, Engels e o socialismo.
Juarez se permite, e o faz com maestria, a não seguir com organicidade o manual acadêmico de escrever, não vai procurar o problema do sujeito situado de Heidegger ou busca validar o saber e o conhecimento. Nada disso. Juarez se faz livre.
Escreve como contador de histórias, sem preocupações filosóficas, como se estivesse – e realmente estava – em uma tarde de sábado olhando para um caís e visse, com o seu novo olhar de pintor, pessoas, navios, barcos e jangadas sossegados, mas cientes de que o destino de cada um é o desassossego da vida e do mar. Assim é o livro, tem remansos, mas é prenhe de ondas em que quase todos são jogados como o vai e vem das marés. Escapam todos na celebração.
A partir de ´Sábado, Estação de Viver´, o trem literário e existencial de Juarez Leitão toma novo rumo, não o das indagações profundas de Edmund Wilson, tampouco o questionamento pessoal do personagem Thomas de ´A Próxima Estação´, de Teoberto Landim. E esse novo rumo é misturado com as fortes tintas em que retrata seus muitos amigos, colorindo-os, mesmo que o gris de seus cabelos pedisse comportamento mais comedido. Nada de gris. Nada de pastel. É o exagero do contador de causos também por trás da vida e do pincel. Some-se a isso sutilezas e não sutilezas que vão sendo expostas nas estórias relatadas como se achasse o contador de pernas estiradas, chapéu de palha na cabeça, camisa estampada, ventre protuso, copo à mão, e um grupo de amigos ruidosos, curiosos e atentos à escuta.

João Soares Neto
Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2005.

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PÁSCOA: COMIDAS, BEBIDAS E REFLEXÕES

Já não há mais queimação ou malhação de Judas nos sítios arrumados com os longos testamentos e a algazarra dos meninos. Agora tudo é intramuros. São outros tempos. Tempos de insegurança. Os que podem trancam suas portas, das casas os lazeres, e vão de queijos e vinhos, peixes, ovos de páscoa e afins. Os outros, a maioria, ficam como já estavam a espera do que não sabem bem. Mas esperam. De que qualquer modo, hoje é domingo de Páscoa.
A festa da Páscoa, instituída pela Igreja Católica Romana no Primeiro Concílio de Nicéia, no ano 325 depois de Jesus Cristo, é uma festa móvel, para louvar a ressurreição de Cristo e sempre celebrada no domingo que segue a lua cheia da passagem do equinócio. O primeiro equinócio, pois há outro em fins de setembro. O equinócio é um fenômeno da natureza, em função da posição do Sol em relação à Terra, e é a época do ano, aqui no hemisfério sul ou abaixo do equador, em que o dia e a noite tem, cada um, exatas doze horas.
A religião, desde sempre, misturou ciência, fé e crenças populares. Daí acredito, marcar-se no Ceará o 19 de março, o dia do santo padroeiro, São José, bem próximo à passagem do Equinócio, quando pode haver a consolidação das chuvas ou a esperança de inverno. Se chove, haverá inverno. Por esta razão e outras mais, celebremos.
A Páscoa é, pois, uma celebração coletiva dos cristãos, maior que cada um de nós. Nesta festa anual dos cristãos, onde se comemora a ressurreição de Cristo – aquele que teve a vida pública menor que um mandato político e mudou a história – é preciso que se exalte o amor ao próximo, o bem querer e a louvação à vida. Neste tempo de páscoa ou passagem de uma vida a outra, é bom que cada um reflita sobre o seu caminho e busque respostas para as suas dúvidas. Ora, se a vida é passagem, Páscoa também é passagem. Logo, tudo é trânsito, o eterno é o que fica.
Como esta crônica está parecendo pregação de pastor, deixo claro que os tempos de alegria, e a Páscoa é um deles, devem ser momentos para regozijo coletivo ou de avaliações e ajustes pessoais, com a fé ou com os nossos botões.
É bom que neste domingo de Páscoa, em que muitos se dão conta de que usaram apenas os feriados para libação a Baco ou investidas pantagruélicas ou, em português nosso de cada dia, beber e comer muito, ainda haja tempo para refletir sobre a nossa passagem por aqui, tão mais breve que imaginamos, mas tão mais longa que sobra tempo para uma parada essencial em nós mesmos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/03/2005.