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RÉGIS: O BRASIL SE ACABANDO E NÓS BRINCANDO…” Jornal O Estado

“A doença nasce em silêncio. Seja pela ação de germes, ou substâncias nocivas, ou por processos endógenos, sutis alterações processam-se nas células: é a enfermidade em marcha. Quietamente, imperceptivelmente, implacavelmente. Em algum momento, algo acontecerá, uma dor, falta de ar, palpitação, hemorragia”. Este texto é do escritor e médico Moacyr Scliar no livro “A Paixão Transformada”. Régis Jucá sabia e cuidava disso com a competência de cirurgião, senso de humanidade e o convencimento de terapeuta.
Régis Jucá saía da UFC quando eu ainda estava entrando. Lá, os que fizeram política universitária, tinham conhecimento da trajetória do Régis no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina e no Diretório Central dos Estudantes. Fomos a geração seguinte e nos espelhamos naqueles que nos tinham precedido. Régis era um deles.
Depois, de uma forma espontânea e meio anárquica, formamos há mais de 30 anos, sob os auspícios de Edson Queiroz, o que hoje se chama de “Turma dos Sábados”. Régis foi um dos seus fundadores e expoentes, embora essa turma, por natureza, seja iconoclasta. Ele era assíduo, referência, polêmico e um hábil contador de histórias. Falava de suas viagens, seus cursos e professores, de figuras humanas, entre outras, de Juscelino e Edson.
Leitor voraz, inclusive de jornais, um dia bem cedo me liga e fala que havia acabado de ler uma crônica que eu escrevera: “Hospitais, ante-sala da morte”. Nela eu reclamava da falta de pronto atendimento – no hospital em que Régis pontificava – levando à morte por hemorragia interna o comum amigo Afrânio. Régis lamentou, mas justificou o fato por ser um fim-de-semana próximo do carnaval em que a emergência fica a cargo de médicos residentes.
Recentemente, sua mulher Bia e as filhas do Régis, Juliana, Raquel e Laura resolveram editar, tendo como organizadores Natalício Barroso e Luiz Falcão, o livro “Com O Coração Nas Mãos” que contém escritos seus: crônicas, perfis de personalidades, reflexões, política, temas ligados à saúde, educação e publicações científicas. E o fizeram muito bem. O lançamento foi no começo de uma noite nos jardins da Reitoria da Universidade do Ceará e lá se podia ver familiares, amigos, colegas e pacientes, todos lembrados de histórias vividas com o Régis, semelhantes ou diferentes das que contei acima. Mas, o que me chamou a atenção nessa noite foi o clima cordial, ameno, sem faltar o uísque que o Régis bebia como uma bebida que deve ser tomada lentamente para gerar a espiritualidade que seus ingredientes provocam.

Não é minha intenção fazer uma resenha de .“Com o coração nas mãos”, outros já o fizeram. Mas dizer que é um livro bem feito, gostoso de ler, pela forma simples, direta e limpa com que Régis cuidava das palavras, como se a arte de escrever tivesse que, necessariamente, incluir preparação, assepsia, técnica, a operação em si da escrita e o seus escritos encerrassem com efeitos positivos, como o resultado de uma boa intervenção cirúrgica, tais quais centenas das que ele fez.
Esta crônica, que reproduz alguns trechos por mim já escritos, deveria ter sido publicada no dia 22 de setembro passado, um dia após o 2o. aniversário de morte do Régis mas só sai agora, na Semana do Médico, véspera das eleições – política e medicina eram duas das paixões dele – para o segundo turno e me valho do próprio Régis, com trecho de seu artigo “O Brasil se acabando e nós brincando…” para finaliza-la: “Uma nação, ou mesmo uma cidade, será melhor ou pior conforme mais certa ou mais errada for a nossa decisão de hoje. Eleição é coisa séria, não é brincadeira, não é quermesse nem final de campeonato de futebol. E foi de brincadeira e brincadeira que chegamos onde estamos e pelos nossos erros, poderíamos já estar pior”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/10/2006.

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FALTA UMA SEMANA – Diário do Nordeste

Não importa em quem você vai votar, importa a razão pela qual vai votar. Não se vota por vingança, gratidão, compadrio ou simpatia, vota-se por convicção de que estamos fazendo o mais certo. Dessa forma, é bom que você tenha uma conversa com você mesmo. Só você sabe de suas razões e das suas convicções. Este festival de obviedades que estou a dizer é, quem sabe, necessário. Algumas pessoas acreditam piamente no que dizem os candidatos. É preciso ter cuidado, ir mais fundo, saber a diferença entre a mistificação e a verdade, entre os nossos valores pessoais e os apregoados pelos que tentam nos encantar com imagens e promessas.
É preciso pensar mais um pouco no Brasil, este grande teto que nos abriga a quase todos. Desde os confins da Amazônia, com suas riquezas e ainda mistérios, até ao Rio Grande com seus pampas tão belos. Há tantos brasis em cada região, estado e até em cada cidade. A filosofia, o inconsciente coletivo, o jeito de ser de cada comunidade, são frutos da história prosaica que acontece no dia-a-dia, nas necessidades ou desejos não realizados, na luta árdua ou amena pela educação, sobrevivência e sustento de cada família ou pessoa.
Assim é que, sem essa de sociólogo, antropólogo, cientista político ou reformador social, fico matutando sobre o que deve levar um brasileiro pobre do Alto Xingu a escolher um candidato. Igualmente, um solitário morador de um povoado distante e paupérrimo, no oeste do Piauí, no sertão central do Ceará ou das Alagoas, do norte de Minas e por tantos outros lugares desvalidos que ainda traduzem a miséria e aclaram a indiferença coletiva. A incapacidade política de transformar milhões de pessoas em cidadãos cônscios dos seus direitos e deveres, aptos a decidir o seu destino, sem esperar milagres que nunca chegam, olhando a abastança que passa ao largo, vivendo a pobreza que os consume e os incapacita de ver e julgar por conta da educação que nunca receberam e das oportunidades que não lhes foram dadas.
Falta uma semana. Depois dela, qualquer que seja o eleito, novos circos serão armados, os das alianças indispensáveis à governabilidade, e os que estiveram em lados opostos talvez se componham. Será nessa hora que precisaremos estar, mais uma vez, atentos, não apenas como meros leitores não-críticos de publicações e emissoras que querem nos impor seus disfarçados interesses, mas como brasileiros que não estão mais deixando ser tutelados por mistificações e engodos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/10/2006.

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LIVROS – Jornal O Estado

Hoje é o Dia do Livro. “Os livros governam o mundo, ou pelo menos aquelas nações que têm uma linguagem escrita. As outras não contam”. Quem disse isso foi Voltaire, escritor francês do século XVIII. E o padre Antônio Vieira dizia que “o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Ora, se o livro é tudo isso, por que se lê tão pouco neste Brasil? Será por que o livro é caro? Será por que não sabemos ler? Ou por que esta é uma nação que não conta? Já foi dito que um país pode ser considerado como civilizado quando se gasta mais com livros do que com goma de mascar.
Tenho, por prova provada, a convicção de que não há solidão quando se tem um bom livro. Pelo contrário, muitas vezes, ser interrompido ao ler, pode nos deixar tristes, embora acompanhados. O mundo atual tem encantos mais fáceis que a leitura de um livro. A televisão é uma delas, mas o livro nos faz pensar, criar, criticar, perceber, distinguir, elucidar, duvidar, enfim, nos dá capacidade de raciocinar criticamente. De não aceitar verdades que nos são impostas, de assumir atitudes dissonantes da maioria, de ter autocrítica, de rir de nós mesmos.
Ter livros, abri-los, lê-los, grifa-los, guardá-los ou emprestá-los são movimentos que dignificam uma pessoa, mesmo sendo tão simples. Alegrar-se ou indignar-se com o conteúdo de um livro é uma forma de demonstrar que estamos vivos, não desistimos de nossos sonhos, temos convicções, alimentamos esperanças e não nos acomodamos com a mediocridade do viver supérfluo, sem mergulhos na essência do existir.
Ler nos faz escrever com um pouco mais de segurança esta língua portuguesa tão cheia de armadilhas. Saber o usar o ponto, a crase, a vírgula. A propósito, conta a lenda que alguém foi condenado à morte pela Corte. Recorreu à autoridade suprema. Esta, respondeu: “Se o Tribunal condena eu não absolvo”. O réu verificou que a decisão não tinha pontuação, resolveu, então, pontuá-la a seu modo e, assim ficou: “Se o Tribunal condena, eu não: absolvo.” E, ladinamente, foi solto. Lendas à parte, os pontos e as vírgulas fazem sutis diferenças. mas para tentar aprender a usá-los é preciso ler. E ler sempre.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/10/2006.

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PAIS, IGNORÂNCIA E APRENDIZADO

Quando minhas filhas foram nascendo, procurei em livrarias do Rio e de São Paulo algo que me desse subsídio para entender de crianças. Não havia nada, exceto “O Livro do Bebê”, do dr. Delamare e chatos livretos de fundamentação religiosa. Fiquei meio perdido. Já havia feito cursos disso e daquilo, aqui e no exterior, mas não tinha aprendido nada sobre a difícil tarefa de ser pai. Falava com pais mais velhos e não recebia muita luz. “Cada filho é um filho”, “palmada só se perde a que não dói” e outros que tais. Resolvi pensar sobre o assunto. Lembrei da minha infância, éramos nove irmãos, compartilhando quartos, banheiros, toalhas, sabonetes, fardas que passavam dos mais velhos aos mais jovens e os livros escolares encadernados com papel madeira para durar dois ou mais anos.
Depois de um tempo matutando, inventei dois personagens, Rosinha e Paulinho. Os dois seriam um pouco mais velhos que minhas filhas e não estudariam no mesmo colégio, pois assim poderia ser descoberto o mistério. Rosinha seria um bom exemplo de estudante, sempre uma das primeiras da turma, alegre, comunicativa, compreensiva e não se deixaria abater quando o Paulinho brigasse com ela ou não quisesse dividir a merenda etc.
Deu certo. Quando algo acontecia fora do “script” familiar, eu me valia da Rosinha e do Paulinho. Eles tomavam banho quando voltavam da escola, não deixavam roupa molhada sobre a cama, faziam o dever de casa, dividiam as coisas, moravam no mesmo quarto e brincavam muito. Paulinho e Rosinha “existiram” até minhas filhas ficarem adolescentes. Nessa época, falei para elas da minha “invenção” como um recurso para lhes passar mensagens, ensinamentos, especialmente sobre o compartilhar, amizade etc. As minhas filhas riram muito, pois nunca “encontravam” a Rosinha e o Paulinho, a quem elas tanto queriam conhecer, especialmente quando passeávamos de carro ou íamos à praia. Sempre eu dava um jeito: eles acabavam de sair, estavam viajando etc.
Recentemente, uma filha, já casada, disse-me que tinha “ressuscitado” a Rosinha e o Paulinho. Estava falando com sua filha – e minha neta – sobre o bom comportamento da Rosinha e do Paulinho, especialmente sobre cuidados com livros, a atitude de compartilhar, aceitar as diferenças e ouvir. Agora, havia chegado a minha hora de rir.
Hoje, com tantos livros de autoajuda, Internet, reuniões de pais e mestres, talvez não seja mais necessário inventar personagens, mas alegra olhar para o passado e lembrar que vivências podem decorrer da mera imaginação e interação dos pais com os filhos. Procurando não ser caretas, mas realçando exemplos, respeitando o próximo e gerando união através de pequenos gestos, como o que faziam, entre outras coisas, as minhas filhas que passavam o ano poupando e guardando presentes para distribuir, pessoal e anonimamente, no Natal. Coisa que só vim a saber tempos depois.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2005

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HOLLYWOOD E A ESTÉTICA DA MISÉRIA

Hoje é noite de Oscar em Hollywood. Não tem nenhum filme brasileiro (Diários de Motocicleta é falado em espanhol e é uma coprodução de vários países) na disputa e, se tivesse, certamente não ganharia. Quais as razões? Não sei, mas desconfio. Os diretores e produtores brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em fazer filmes que realçam a tal estética da miséria ou contar, em parceria, por exemplo, a história do jovem Che Guevara (Diários de Motocicleta). Filmes como Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido no critério hollywoodiano de escolher os vencedores da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem indicado foi.
Não adianta fazer lobby, associar-se com gringos, dar entrevistas e sonhar. Aliás, sonhar é bom, mas o sonho da turma de cineastas e produtores americanos é diferente do nosso. Eles não veem estética na nossa exposição de miséria. As nossas fraturas sociais não dizem respeito à traumatologia cinematográfica da era Bush.
A festa da noite de hoje é, quer nós queiramos ou não, a festa da futilidade, exibição, filmes coloridos com histórias limitadas, grandes efeitos especiais, apresentador engraçado e entrevistas abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades nuas e cruas ou discutir o essencial. É o cinema quase inconsequente ou glamouroso. Lá o fórum é outro. É alienado, desengonçado e segue a estética das limusines, vestidos vaporosos, artistas com gel no cabelo, s esperando os “flashes’ e olhando para as câmeras. As críticas, quando as há, são em favor de alguma minoria ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada. É querer muito. Se é tempo de guerra no Iraque, miséria na África, “tsunami” na Ásia e guerrilhas na América Latina, os membros do júri do Oscar não querem ver, saber ou discutir disso.
E parece que, mesmo assim, os filmes americanos continuam sendo admirados por aqui. O filme “Hitch” (Tennant, diretor e Will Smith, ator), uma comédia sobre um conselheiro sentimental, onde o espectador não precisa pensar, foi visto por mais de 262 mil brasileiros no último fim de semana. O “Aviador”(Scorsese e De Caprio) que é um pouco, só um pouco, letrado, pois conta a história, fragmentada, de uma das muitas versões de Howard Hughes, empreendedor rico, cínico e visionário que enveredou pelo transtorno obsessivo compulsivo e terminou louco, foi visto por 121 mil. E olha que não estou falando dos filmes “Menina de Ouro”, de Eastwood com Hillary Swank (a moça lutadora de Box) e “Sideways”, de Alexander Payne com Paul Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando conquistas e depressões) que mexem com sentimentos. Parece que os brasileiros estão cansados ou cansando do uso da miséria para os mais diversos fins.
Quem sabe se mandarmos no próximo ano um filme da Xuxa ou do Renato Aragão não teremos mais chances de indicações?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2005.

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MULHER TEM DIA?

Não concordo que 8 de março seja o Dia das Mulheres. Aliás, concordo apenas do ponto de vista da comemoração, da luta contra os preconceitos e das vitórias que alcançaram, mesmo com ou apesar de muitos homens.
Não vou cair no exagero de dizer que todo dia é dia da mulher. Tampouco direi que todo dia é dia do homem. Mulheres e homens de hoje ainda são herdeiros de preconceitos, desacertos, afetividades truncadas e vidas sofridas. Estão se redescobrindo, estão ensaiando relações novas, mas pecam em seus fundamentos.
Mulheres e homens se chateiam, veem diferentemente as suas relações afetivas, têm níveis de paciência diversos e as suas crenças nos seres humanos e no trabalho obedecem a juízos de valor com níveis distintos de percepção.
Mulheres e homens precisam muito descobrir porque as suas diferenças básicas não podem ser diminuídas, rediscutidas e acertadas. Se não acertadas, mas aceitas.
Neste tempo de hoje em que quase todos estamos, em menor ou maior grau, insatisfeitos com o desenrolar de nossas vidas é preciso humildade e sabedoria para discutir o simples. Porque ele não tem o mesmo nível de paciência dela. Porque ela se apega a detalhes que não ele não vê. Porque ela reclama da sua desorganização e ele não aceita a pia coberta de cremes, colônias e perfumes. Porque ainda não descobrimos uma forma cordial e leve de entender a função do dinheiro em nossas vidas tão diferentes, mas complementares.
Porque não vemos os filhos com olhos similares e os criamos divididos com as nossas formas diferentes de amor. Porque nos apropriamos de frases soltas ditas no calor de uma discussão e fazemos disso um grande problema. Por que traímos, não o amor, mas o que não aceitamos na outra pessoa, tão frágil quanto nós.
Porque discutimos sem o uso da razão e deixamos que tudo vá mais longe que o necessário, porque não aprendemos a pedir desculpas e não cultivamos o riso e a descontração como bases de uma relação, mesmo que ela seja difícil e pesada. Por que temos que ser vitoriosos em decisões bobas que vão se tornando maiores que queríamos. Por que?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2005.

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AS TINTAS COLORIDAS DO ESCRITOR

Juarez Leitão surgiu na ´turma dos sábados´, um grupo heterodoxo de pessoas que se permite sair do sério entre falações e Baco, pelas mãos de Dorian Sampaio, se não me engano. Eram os anos 90. Chegou e se tornou cativo. Contador de ´causos´, orador fluente, sabedor de seus dotes, misturando o quase recato de antigo seminarista ao escracho da vida real, foi sendo absorvido e querido. Daí que resolveu contar, em livro, o que ouvia, sentia e intuía. Desta salada saiu o livro ´Sábado, Estação de Viver´, memória, estória e história.
O Juarez poeta passava a perder espaço para o cronista de uma cidade resoluta, dissoluta e desvairada. O espaço da ´turma dos sábados´ foi apenas o mote para a desenvoltura artística de Juarez.
Além de cronista, fez-se pintor e retratou cada um de seus pares. A cada um entregou um retrato emoldurado e os inseriu nas páginas do livro. Era como se estivesse dizendo: ´a vida tem todos os matizes com os quais o vejo´. E assim, foi entremeando estórias da turma, com estórias de domínio público e privado da Fortaleza que o recebeu e adotou como filho.
Surgia, naquele fim de década de 90, um novo Juarez. Enturmado, hilariante, mas cioso e ciente que estava sendo transformado. A palavra estação do título poderia ser entendida como uma parada em sua vida, em que tomou um novo trem e o destino, capcioso e curioso, sorria com a mudança.
Sábado, Estação de Viver´, em nada se assemelha a outras duas estações que conheço, também cantadas em livro. Nada tem a ver com o romance (A Próxima Estação) de Teoberto Landim ou ao célebre ´Rumo à Estação Finlândia´, de Edmund Wilson. Enquanto Landim, professor e escritor, narra as aventuras e desventuras de um bolsista (Thomas) brasileiro na Alemanha e sua volta ao interior do Brasil, Edmund Wilson, americano, crítico literário, jornalista e escritor, vai mexer, ensaiar polemicamente sobre Marx, Engels e o socialismo.
Juarez se permite, e o faz com maestria, a não seguir com organicidade o manual acadêmico de escrever, não vai procurar o problema do sujeito situado de Heidegger ou busca validar o saber e o conhecimento. Nada disso. Juarez se faz livre.
Escreve como contador de histórias, sem preocupações filosóficas, como se estivesse – e realmente estava – em uma tarde de sábado olhando para um caís e visse, com o seu novo olhar de pintor, pessoas, navios, barcos e jangadas sossegados, mas cientes de que o destino de cada um é o desassossego da vida e do mar. Assim é o livro, tem remansos, mas é prenhe de ondas em que quase todos são jogados como o vai e vem das marés. Escapam todos na celebração.
A partir de ´Sábado, Estação de Viver´, o trem literário e existencial de Juarez Leitão toma novo rumo, não o das indagações profundas de Edmund Wilson, tampouco o questionamento pessoal do personagem Thomas de ´A Próxima Estação´, de Teoberto Landim. E esse novo rumo é misturado com as fortes tintas em que retrata seus muitos amigos, colorindo-os, mesmo que o gris de seus cabelos pedisse comportamento mais comedido. Nada de gris. Nada de pastel. É o exagero do contador de causos também por trás da vida e do pincel. Some-se a isso sutilezas e não sutilezas que vão sendo expostas nas estórias relatadas como se achasse o contador de pernas estiradas, chapéu de palha na cabeça, camisa estampada, ventre protuso, copo à mão, e um grupo de amigos ruidosos, curiosos e atentos à escuta.

João Soares Neto
Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2005.

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PÁSCOA: COMIDAS, BEBIDAS E REFLEXÕES

Já não há mais queimação ou malhação de Judas nos sítios arrumados com os longos testamentos e a algazarra dos meninos. Agora tudo é intramuros. São outros tempos. Tempos de insegurança. Os que podem trancam suas portas, das casas os lazeres, e vão de queijos e vinhos, peixes, ovos de páscoa e afins. Os outros, a maioria, ficam como já estavam a espera do que não sabem bem. Mas esperam. De que qualquer modo, hoje é domingo de Páscoa.
A festa da Páscoa, instituída pela Igreja Católica Romana no Primeiro Concílio de Nicéia, no ano 325 depois de Jesus Cristo, é uma festa móvel, para louvar a ressurreição de Cristo e sempre celebrada no domingo que segue a lua cheia da passagem do equinócio. O primeiro equinócio, pois há outro em fins de setembro. O equinócio é um fenômeno da natureza, em função da posição do Sol em relação à Terra, e é a época do ano, aqui no hemisfério sul ou abaixo do equador, em que o dia e a noite tem, cada um, exatas doze horas.
A religião, desde sempre, misturou ciência, fé e crenças populares. Daí acredito, marcar-se no Ceará o 19 de março, o dia do santo padroeiro, São José, bem próximo à passagem do Equinócio, quando pode haver a consolidação das chuvas ou a esperança de inverno. Se chove, haverá inverno. Por esta razão e outras mais, celebremos.
A Páscoa é, pois, uma celebração coletiva dos cristãos, maior que cada um de nós. Nesta festa anual dos cristãos, onde se comemora a ressurreição de Cristo – aquele que teve a vida pública menor que um mandato político e mudou a história – é preciso que se exalte o amor ao próximo, o bem querer e a louvação à vida. Neste tempo de páscoa ou passagem de uma vida a outra, é bom que cada um reflita sobre o seu caminho e busque respostas para as suas dúvidas. Ora, se a vida é passagem, Páscoa também é passagem. Logo, tudo é trânsito, o eterno é o que fica.
Como esta crônica está parecendo pregação de pastor, deixo claro que os tempos de alegria, e a Páscoa é um deles, devem ser momentos para regozijo coletivo ou de avaliações e ajustes pessoais, com a fé ou com os nossos botões.
É bom que neste domingo de Páscoa, em que muitos se dão conta de que usaram apenas os feriados para libação a Baco ou investidas pantagruélicas ou, em português nosso de cada dia, beber e comer muito, ainda haja tempo para refletir sobre a nossa passagem por aqui, tão mais breve que imaginamos, mas tão mais longa que sobra tempo para uma parada essencial em nós mesmos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/03/2005.

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“AMÉRICA” E A REALIDADE

A novela “América”, que não assisto ou vou assistir, mas sobre a qual ouço comentários e leio releases, notícias e sinopses, mostra e mostrará, entre rodeios, tapas, fugas e beijos, a crueza da luta de imigrantes ilegais brasileiros, via fronteira mexicana, para atingir os Estados Unidos, “fazer a América” e conseguir “ser gente”. Tudo por falta de oportunidade por aqui. Verdade e mentira. É verdade que milhares de brasileiros tentam, com risco de vida, fazer isso, desde sempre.
É mentira que o Brasil não seja um país de oportunidades. Os grandes problemas do Brasil são a desigualdade na distribuição de renda, na formação educacional ou cultural das pessoas. Os que conseguem estudar, de verdade, têm oportunidade por aqui. A regra vigente há tempos neste país, e consolidada neste início de século XXI, é a de que só os de ponta obterão acesso às riquezas. Não haverá mais lugar para os mais ou menos ou para os que, por falta de oportunidade, não tiveram boa ou nenhuma formação, sem falar nas exceções. Daí o êxodo. Ele é o retrato de todos nós, ricos ou pobres, malditos ou miseráveis.
Mas, estava eu no Palácio do Itamaraty, em Brasília, em julho de 2002, quando os presidentes Fernando Henrique e Vicente Fox assinaram o Acordo de Complementação Econômica entre o Brasil e o México. Por esse acordo, os dois países decidiram a redução ou a eliminação de tarifas de 800 bens ou produtos. Por coincidência ou não, bem perto de mim estava atento o empresário mexicano Carlos Slim, hoje um grande investidor no Brasil, dono, entre outras empresas, da antiga estatal Embratel. A tudo ouviam as embaixadoras do México no Brasil, Cecília Soto e a dos Estados Unidos, Donna Hrinak, hoje, casada com um brasileiro e atuando como consultora de investimentos. Em seguida, em conversa informal, falávamos que aquele instante estabelecia um novo marco na relação entre os dois países. Dito e feito.
Hoje o México é um dos grandes mercados brasileiros. Basta dizer que, de 1998 para 2004 as exportações brasileiras para lá cresceram 300%, com ênfase nos três últimos anos. Por outro lado, as exportações mexicanas para o Brasil deram um pulo. Só em 2004 cresceram 34% e isso é bom para brasileiros e mexicanos, mas em nenhum dos dois lados a desigualdade tem diminuído. E isso é ruim, também para os dois.
Estamos, Brasil e México, prestes a virar países ricos, desde que saibamos superar desafios nas relações internacionais. Podem crer. É questão de poucas décadas. Mas será, se acontecer, uma riqueza talvez sem alegria, pois ainda calcada na desigualdade, que esperávamos ver diminuída. É ela que dá origem ao sucesso de novelas como “América” que, além de levantar o problema, queira Deus não sirva de incentivo para os muitos que não têm vez e voz por aqui.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/04/2005.

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VATICANO, WOJTYLA E VOTO

Corria o ano de 1965, era outubro, e eu estava em Roma. Primeira viagem à Europa e acontecia o Concílio Vaticano II. Ver como ele acontecia era um desejo curioso de um jovem adulto. Por sorte, havia um bispo amigo da família. Ele, literalmente, abriu as portas e passei sob as vistas da guarda suíça. Vi o alvoroço interno. Eram cardeais, bispos, padres e civis cuidando daquela reforma que marcaria o pontificado de Paulo VI. Depois, fui ao Colégio Pio Brasileiro e conversei com padres que faziam doutorado em teologia.
Vivia-se um tempo diferente. O mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e as posições ideológicas eram extremadas. Mas, a Igreja Católica Romana, analisava e montava suas novas estruturas teológica, pastoral, política e social, desde 1962. O Concílio, no meu olhar, trabalhava a partir da ideia de fé e fraternidade universal, considerando o domínio de novas técnicas, o progresso da ciência, as transformações psicológicas, morais e religiosas da humanidade e os muitos problemas pessoais, familiares e coletivos. Tudo isso, objetivando satisfazer as aspirações do gênero humano e tendo Jesus, como solução e resposta.
Depois de sentir o pulsar do Concílio Vaticano II, fui ver a Capela Sistina e os museus do Vaticano. Confesso ter ficado chocado com a riqueza, pompa e tradição. Ao mesmo tempo, lembrava das parcas coletas de esmola para as ditas Obras das Vocações Sacerdotais aqui no Brasil. Não tinha eu ainda a noção da Igreja como Estado e de que seu acervo de obras de arte se confunde com ela própria. Se tudo fosse vendido e repartido, a miséria do mundo não acabaria. A miséria é maior e mais profunda.
O tempo passou. Veio 1978, o ano dos três papas. A morte de Paulo VI; a escolha e infarto fatal, 35 dias após, de João Paulo 1º; e, a eleição de João Paulo 2º, ora sepultado. Wojtyla, eslavo, operário, ex-soldado, ex-ator, quebrou a centralidade italiana de 450 anos, foi um grande diplomata e midiático propagador da Igreja. Alguns teólogos, L. Boff entre eles, o intitulam de ultraconservador. No tempo do seu pontificado, participando ele ou não, foi que a guerra fria acabou, o muro de Berlim caiu, a URSS se dividiu e a Comunidade Europeia surgiu. Neste 2005 ainda é cedo para julgar o pontificado de 26 anos desse polonês que misturava, é verdade, uma mão de ferro na gestão da Igreja ao carisma nas muitas viagens pelo mundo. Sabe-se que o Vaticano, lento em mudanças, costuma ser rápido, como regente de votos, em tempos de crise. E a morte, apesar da ressurreição sonhada e prometida, ainda é uma grande crise.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2005.