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AS TORRES FINCADAS – Diário do Nordeste

E na terça-feira sou chamado por Laéria e Carlos Augusto para almoçar, juntamente, com Sérgio Braga e Antonio Torres. Antonio Torres, escritor brasileiro, nascido no Junco, interior da Bahia e que se fez globe-trotter aos 20 anos, resenraizando-se e ganhando prêmios e mundo. Jornalista, publicitário, mas escritor acima de qualquer dúvida ou compadrio, se fez cearense-visitante pelas mãos pródigas de Sérgio Braga,desde 1997. E esse Antonio Torres é um bom conversador que faz o tempo não descer na ampulheta e nos deixa a todos mais leves olhando, da varanda, os verdes mares bravios. E foi com José de Alencar, esse iracemista escritor, que Antonio Torres se alfabetizou falando ver-des-ma-res-bra-vi-os e sentiu seus olhos cresceram para o que não via, mas intuía. E o Junco foi sendo saudade, mas ficou a sedução da origem, da terra adusta, do formigamento mental do menino que sabia que ali era e não era o seu lugar. E tomou a estrada aérea da vida e foi parar na paulicéia, não a desvairada, mas a que despertava para uma tardia industrialização brasileira e levava a todos, passo a passo, para a escada ou o fosso da globalização.
E a noite, após os camarões laerianamente preparados, apreciados, louvados e deglutidos no almoço, nos encontramos novamente. Aí o cenário era outro: a mesa bem posta do Lautrec, o pequeno reinado de César e Denise, em meio a luminosas micro lâmpadas que a China nos impõe culturalmente nesta quadra do ano. E a conversa ficou leve e se via, mesas ao lado, a beleza sutil de Patrícia Pillar, a inteligência nata de Ciro Gomes, a espirituosidade de Fausto Nilo e o olhar de lince de Arialdo Pinho. E do outro lado, bem próximo, estavam Fernando Costa e Fábio Campos que deixavam suas mentes pousar na essência do que bebiam e conversavam com José Carlos. Criara-se um halo virtual de bem-estar, do prazeroso convívio, cada mesa no seu universo privativo. Mas, a estrela da noite era Antonio Torres, com o ar sereno-maroto que a maturidade permite aos que ainda têm perguntas não respondidas e os solados dos pés estão esfolados das andanças pelas estradas do pensamento e dos lugares vistos de soslaio ou em profundidade.
E veio o outro dia, a hora do almoço se fazia tardia e o Carlos Augusto nos impunha o Ideal, sua descoberta fim-de-século. E na cumplicidade com Sérgio Braga, desviamos a rota e aportamos em um pós-moderno self-service, essa comodidade que se impôs e está ficando. E o Carlos Augusto, fervoroso seguidor de Baco, bradava contra o calor pelo vinho tinto não bebido por ele, voraz quase-enólogo que, vencido, em meio às folhagens de seu prato, tomava uma prosaica Coca-Cola. E éramos homens-meninos na intimação costumeira e o Antonio Torres, naquele instante, em meio a doces saborosos, se consolidava no peito de cada um de nós, descrentes e crentes figuras, andarilhos não da região da Mancha de Cervantes, mas destas pequenas paragens e alegrias que nos transformam a todos em cavaleiros errantes nesta nau (des)governada que é a vida.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/12/2006.

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ZÉ FLÁVIO, O PAI DAS MUDANÇAS – Jornal O Estado

Há cerca de três semanas conversei, por algumas vezes, com Zé Flávio. Expliquei para ele a ideia “Gente Que Conta” em que entrevisto pessoas que com histórias para contar, entrelaçadas com as próprias vidas. Ele topou ser entrevistado, esbocei o questionário, mas não deu. Ele, já alquebrado, não resistiu. Hoje, é História.
José Flávio Costa Lima nasceu em 1921 às margens do Rio Jaguaribe, na cidade de Aracati, de onde partem os ventos que amenizam a temperatura de Fortaleza. Era o primeiro filho homem de um casal que tinha gerado quatro filhas mulheres. Seus pais, Alexanzito e Egisa, provinham de troncos frondosos que se enraizaram e, juntos, formaram uma nova estirpe. E o menino cresceu – ou pensava demais – para ficar no Aracati e veio estudar na capital. Anos depois, faz vestibular para direito em Fortaleza, ainda brejeira e pachorrenta, cursou dois anos e seguiu para a Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou. Era a eterna necessidade de ares mais plenos, da não aceitação da mesmice, da descoberta do que imaginava existir além do que seus olhos viam e onde o corpo pisava. Estava na plenitude da 2a. Guerra Mundial. Quem sabe, tenha pensado em se alistar como voluntário ou ir lutar na Itália. Esse conflito, que abalou o mundo, certamente foi basilar para a sua formação democrática, entender os dissensos, pensar na carreira política de seu pai, Alexanzito, prefeito e deputado estadual.
A guerra acaba. Diploma na parede e muitas ideias na cabeça. Ficar em São Paulo, a cidade grande que o acolhera ou voltar para o Ceará? Casar com uma paulista? Decide voltar, mas havia surgido D. Hebe em sua vida e, com ela, a alegria da chegada gradativa de Alexandre, Valéria, Urbano e Artur, seus filhos. No Ceará, encara a realidade como um “Costa Lima” do Aracati e procura centrar-se nos negócios da família de exportação e importação. De repente, ou lentamente, vai surgindo o germe da política classista em seu caminho e se viu engolfado na realidade cearense. O que realmente aconteceu nesses idos da década de 50, quando Vargas se suicidou e Juscelino ascende à vida pública nacional, teve ter sido o aflorar do atavismo paterno, doublé de empresário e político. E a política de verdade, a partidária, misturou-se ao seu sangue de empresário. Corria o tempo da União Democrática Nacional- UDN, do Partido Social Democrático-PSD e do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB. E foi com emoção e razão que se deixou enredar e não saberia dizer se isso alavancou ou prejudicou seus negócios.
O pouco que sei é que foi secretário de estado da indústria e comércio, se fez bravo deputado federal por dois mandatos, lutou pela institucionalização, efervescência e equanimidade da Sudene e atou-se à política classista, sendo um dos sérios presidentes da Federação das Indústrias do Ceará, administrando-a por nove anos, ao mesmo tempo em que firmava posições sólidas na Confederação Nacional da Indústria. E aí, de seu pensar criativo e destemor, fez ressurgir o Centro Industrial do Ceará, CIC, que, por seus membros mais jovens e inquietos, modificou o panorama político do Estado, de forma irreversível, fazendo eclodir “o governo das mudanças”. A esse homem, espécie de Dílson Funaro cearense, devem a nossa indústria e a história política prestar reverência, por sua trajetória, inteligência aguçada e sentimento de que futuro não se espera, se planta com trabalho, decisão, inovação e capacidade.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/12/2006.

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FRENTE PARA O MAR – Diário do Nordeste

Vou chamá-los de João e Maria. Moram ali defronte ao Atlântico que se espraia e quebra quase ao pé deles. Não plantaram a árvore, mas gostam de sua sombra e é sob ela, dia após dia, que cuidam de morar. Um atrelado ao outro, quase atados, roupas empilhadas, banho a poucos passos, iluminação boa, sem IPTU, cabine da Polícia a poucos passos e brisa permanente. E com eles está o Japi, digamos assim, o pequenino cão misturado à alegria dos dois. Japi, João e Maria, entre alegres, sonolentos e dengosos, se aninham sobre uma relíquia de colchão graciosamente disposto sobre o carpete cinza que envolve o chão vermelho de ladrilho. E a alegria se constata na forma como as mãos jovens de Maria catam aquilo na cabeça de João que, vaidoso, peito nu, ainda porta uma dessas barbichas ralas.
Como todo os casais, brigam, ralham um com o outro, mudam roupas e até se amam ali mesmo, com a brisa a abençoar o clímax. Os olhares curiosos, dia e noite, são muitos, alguns balançam cabeças burguesas e não entendem talvez essa postura crítica, vanguardista, o descompromisso firme com o de trabalho, como se esse conjunto seja uma instalação viva de artista pós-tudo a chocar a plateia, cutucando a insensibilidade sócio-existencial que desnuda a indiferença dos provocadores dessa permitida atitude de ‘gentileza urbana’.
E aí chega um casal de estrangeiros, sentam ao chão e, em português arrevesado, dizem que são de uma ONG em favor da aceitação do homem em seu habitat e prometem um movimento internacional com base no amor telúrico, no direito inalienável de escolher o local de morada e citam o Pe. Lebret para um João confuso e uma Maria perplexa, enquanto Japi lambe um caroço de manga. Ao final, tudo documentado em uma câmera portátil comprovando o alcance desse gesto solidário.
E João e Maria se pensassem, admitiriam que bem cabe uma análise sociológica tendo como substrato o direito de morar bem e receber, com ou sem protetor solar, raios do sol acompanhando o ócio diário com amassos, saídas fisiológicas e comer o que não lhes falta, pois, prazerosos por sua companhia os vizinhos, sugerem que não instalem fogão, pois a dificultaria a ação dos bicos de gás.
E assim, como nas belas histórias de amor, essa conjunção de almas é abençoada contra a maldade dos que se arvoram de donos do pedaço e gastam energias em caminhadas vãs, pois nada mais são que sobrepesados burgueses queimando excessos de alimento que falta a outros. Eles, João e Maria, devem ficar defronte ao mar.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2006.

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MULHER TEM DIA?

Não concordo que 8 de março seja o Dia das Mulheres. Aliás, concordo apenas do ponto de vista da comemoração, da luta contra os preconceitos e das vitórias que alcançaram, mesmo com ou apesar de muitos homens.
Não vou cair no exagero de dizer que todo dia é dia da mulher. Tampouco direi que todo dia é dia do homem. Mulheres e homens de hoje ainda são herdeiros de preconceitos, desacertos, afetividades truncadas e vidas sofridas. Estão se redescobrindo, estão ensaiando relações novas, mas pecam em seus fundamentos.
Mulheres e homens se chateiam, veem diferentemente as suas relações afetivas, têm níveis de paciência diversos e as suas crenças nos seres humanos e no trabalho obedecem a juízos de valor com níveis distintos de percepção.
Mulheres e homens precisam muito descobrir porque as suas diferenças básicas não podem ser diminuídas, rediscutidas e acertadas. Se não acertadas, mas aceitas.
Neste tempo de hoje em que quase todos estamos, em menor ou maior grau, insatisfeitos com o desenrolar de nossas vidas é preciso humildade e sabedoria para discutir o simples. Porque ele não tem o mesmo nível de paciência dela. Porque ela se apega a detalhes que não ele não vê. Porque ela reclama da sua desorganização e ele não aceita a pia coberta de cremes, colônias e perfumes. Porque ainda não descobrimos uma forma cordial e leve de entender a função do dinheiro em nossas vidas tão diferentes, mas complementares.
Porque não vemos os filhos com olhos similares e os criamos divididos com as nossas formas diferentes de amor. Porque nos apropriamos de frases soltas ditas no calor de uma discussão e fazemos disso um grande problema. Por que traímos, não o amor, mas o que não aceitamos na outra pessoa, tão frágil quanto nós.
Porque discutimos sem o uso da razão e deixamos que tudo vá mais longe que o necessário, porque não aprendemos a pedir desculpas e não cultivamos o riso e a descontração como bases de uma relação, mesmo que ela seja difícil e pesada. Por que temos que ser vitoriosos em decisões bobas que vão se tornando maiores que queríamos. Por que?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2005.

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AS TINTAS COLORIDAS DO ESCRITOR

Juarez Leitão surgiu na ´turma dos sábados´, um grupo heterodoxo de pessoas que se permite sair do sério entre falações e Baco, pelas mãos de Dorian Sampaio, se não me engano. Eram os anos 90. Chegou e se tornou cativo. Contador de ´causos´, orador fluente, sabedor de seus dotes, misturando o quase recato de antigo seminarista ao escracho da vida real, foi sendo absorvido e querido. Daí que resolveu contar, em livro, o que ouvia, sentia e intuía. Desta salada saiu o livro ´Sábado, Estação de Viver´, memória, estória e história.
O Juarez poeta passava a perder espaço para o cronista de uma cidade resoluta, dissoluta e desvairada. O espaço da ´turma dos sábados´ foi apenas o mote para a desenvoltura artística de Juarez.
Além de cronista, fez-se pintor e retratou cada um de seus pares. A cada um entregou um retrato emoldurado e os inseriu nas páginas do livro. Era como se estivesse dizendo: ´a vida tem todos os matizes com os quais o vejo´. E assim, foi entremeando estórias da turma, com estórias de domínio público e privado da Fortaleza que o recebeu e adotou como filho.
Surgia, naquele fim de década de 90, um novo Juarez. Enturmado, hilariante, mas cioso e ciente que estava sendo transformado. A palavra estação do título poderia ser entendida como uma parada em sua vida, em que tomou um novo trem e o destino, capcioso e curioso, sorria com a mudança.
Sábado, Estação de Viver´, em nada se assemelha a outras duas estações que conheço, também cantadas em livro. Nada tem a ver com o romance (A Próxima Estação) de Teoberto Landim ou ao célebre ´Rumo à Estação Finlândia´, de Edmund Wilson. Enquanto Landim, professor e escritor, narra as aventuras e desventuras de um bolsista (Thomas) brasileiro na Alemanha e sua volta ao interior do Brasil, Edmund Wilson, americano, crítico literário, jornalista e escritor, vai mexer, ensaiar polemicamente sobre Marx, Engels e o socialismo.
Juarez se permite, e o faz com maestria, a não seguir com organicidade o manual acadêmico de escrever, não vai procurar o problema do sujeito situado de Heidegger ou busca validar o saber e o conhecimento. Nada disso. Juarez se faz livre.
Escreve como contador de histórias, sem preocupações filosóficas, como se estivesse – e realmente estava – em uma tarde de sábado olhando para um caís e visse, com o seu novo olhar de pintor, pessoas, navios, barcos e jangadas sossegados, mas cientes de que o destino de cada um é o desassossego da vida e do mar. Assim é o livro, tem remansos, mas é prenhe de ondas em que quase todos são jogados como o vai e vem das marés. Escapam todos na celebração.
A partir de ´Sábado, Estação de Viver´, o trem literário e existencial de Juarez Leitão toma novo rumo, não o das indagações profundas de Edmund Wilson, tampouco o questionamento pessoal do personagem Thomas de ´A Próxima Estação´, de Teoberto Landim. E esse novo rumo é misturado com as fortes tintas em que retrata seus muitos amigos, colorindo-os, mesmo que o gris de seus cabelos pedisse comportamento mais comedido. Nada de gris. Nada de pastel. É o exagero do contador de causos também por trás da vida e do pincel. Some-se a isso sutilezas e não sutilezas que vão sendo expostas nas estórias relatadas como se achasse o contador de pernas estiradas, chapéu de palha na cabeça, camisa estampada, ventre protuso, copo à mão, e um grupo de amigos ruidosos, curiosos e atentos à escuta.

João Soares Neto
Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2005.

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PÁSCOA: COMIDAS, BEBIDAS E REFLEXÕES

Já não há mais queimação ou malhação de Judas nos sítios arrumados com os longos testamentos e a algazarra dos meninos. Agora tudo é intramuros. São outros tempos. Tempos de insegurança. Os que podem trancam suas portas, das casas os lazeres, e vão de queijos e vinhos, peixes, ovos de páscoa e afins. Os outros, a maioria, ficam como já estavam a espera do que não sabem bem. Mas esperam. De que qualquer modo, hoje é domingo de Páscoa.
A festa da Páscoa, instituída pela Igreja Católica Romana no Primeiro Concílio de Nicéia, no ano 325 depois de Jesus Cristo, é uma festa móvel, para louvar a ressurreição de Cristo e sempre celebrada no domingo que segue a lua cheia da passagem do equinócio. O primeiro equinócio, pois há outro em fins de setembro. O equinócio é um fenômeno da natureza, em função da posição do Sol em relação à Terra, e é a época do ano, aqui no hemisfério sul ou abaixo do equador, em que o dia e a noite tem, cada um, exatas doze horas.
A religião, desde sempre, misturou ciência, fé e crenças populares. Daí acredito, marcar-se no Ceará o 19 de março, o dia do santo padroeiro, São José, bem próximo à passagem do Equinócio, quando pode haver a consolidação das chuvas ou a esperança de inverno. Se chove, haverá inverno. Por esta razão e outras mais, celebremos.
A Páscoa é, pois, uma celebração coletiva dos cristãos, maior que cada um de nós. Nesta festa anual dos cristãos, onde se comemora a ressurreição de Cristo – aquele que teve a vida pública menor que um mandato político e mudou a história – é preciso que se exalte o amor ao próximo, o bem querer e a louvação à vida. Neste tempo de páscoa ou passagem de uma vida a outra, é bom que cada um reflita sobre o seu caminho e busque respostas para as suas dúvidas. Ora, se a vida é passagem, Páscoa também é passagem. Logo, tudo é trânsito, o eterno é o que fica.
Como esta crônica está parecendo pregação de pastor, deixo claro que os tempos de alegria, e a Páscoa é um deles, devem ser momentos para regozijo coletivo ou de avaliações e ajustes pessoais, com a fé ou com os nossos botões.
É bom que neste domingo de Páscoa, em que muitos se dão conta de que usaram apenas os feriados para libação a Baco ou investidas pantagruélicas ou, em português nosso de cada dia, beber e comer muito, ainda haja tempo para refletir sobre a nossa passagem por aqui, tão mais breve que imaginamos, mas tão mais longa que sobra tempo para uma parada essencial em nós mesmos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/03/2005.

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“AMÉRICA” E A REALIDADE

A novela “América”, que não assisto ou vou assistir, mas sobre a qual ouço comentários e leio releases, notícias e sinopses, mostra e mostrará, entre rodeios, tapas, fugas e beijos, a crueza da luta de imigrantes ilegais brasileiros, via fronteira mexicana, para atingir os Estados Unidos, “fazer a América” e conseguir “ser gente”. Tudo por falta de oportunidade por aqui. Verdade e mentira. É verdade que milhares de brasileiros tentam, com risco de vida, fazer isso, desde sempre.
É mentira que o Brasil não seja um país de oportunidades. Os grandes problemas do Brasil são a desigualdade na distribuição de renda, na formação educacional ou cultural das pessoas. Os que conseguem estudar, de verdade, têm oportunidade por aqui. A regra vigente há tempos neste país, e consolidada neste início de século XXI, é a de que só os de ponta obterão acesso às riquezas. Não haverá mais lugar para os mais ou menos ou para os que, por falta de oportunidade, não tiveram boa ou nenhuma formação, sem falar nas exceções. Daí o êxodo. Ele é o retrato de todos nós, ricos ou pobres, malditos ou miseráveis.
Mas, estava eu no Palácio do Itamaraty, em Brasília, em julho de 2002, quando os presidentes Fernando Henrique e Vicente Fox assinaram o Acordo de Complementação Econômica entre o Brasil e o México. Por esse acordo, os dois países decidiram a redução ou a eliminação de tarifas de 800 bens ou produtos. Por coincidência ou não, bem perto de mim estava atento o empresário mexicano Carlos Slim, hoje um grande investidor no Brasil, dono, entre outras empresas, da antiga estatal Embratel. A tudo ouviam as embaixadoras do México no Brasil, Cecília Soto e a dos Estados Unidos, Donna Hrinak, hoje, casada com um brasileiro e atuando como consultora de investimentos. Em seguida, em conversa informal, falávamos que aquele instante estabelecia um novo marco na relação entre os dois países. Dito e feito.
Hoje o México é um dos grandes mercados brasileiros. Basta dizer que, de 1998 para 2004 as exportações brasileiras para lá cresceram 300%, com ênfase nos três últimos anos. Por outro lado, as exportações mexicanas para o Brasil deram um pulo. Só em 2004 cresceram 34% e isso é bom para brasileiros e mexicanos, mas em nenhum dos dois lados a desigualdade tem diminuído. E isso é ruim, também para os dois.
Estamos, Brasil e México, prestes a virar países ricos, desde que saibamos superar desafios nas relações internacionais. Podem crer. É questão de poucas décadas. Mas será, se acontecer, uma riqueza talvez sem alegria, pois ainda calcada na desigualdade, que esperávamos ver diminuída. É ela que dá origem ao sucesso de novelas como “América” que, além de levantar o problema, queira Deus não sirva de incentivo para os muitos que não têm vez e voz por aqui.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/04/2005.

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VATICANO, WOJTYLA E VOTO

Corria o ano de 1965, era outubro, e eu estava em Roma. Primeira viagem à Europa e acontecia o Concílio Vaticano II. Ver como ele acontecia era um desejo curioso de um jovem adulto. Por sorte, havia um bispo amigo da família. Ele, literalmente, abriu as portas e passei sob as vistas da guarda suíça. Vi o alvoroço interno. Eram cardeais, bispos, padres e civis cuidando daquela reforma que marcaria o pontificado de Paulo VI. Depois, fui ao Colégio Pio Brasileiro e conversei com padres que faziam doutorado em teologia.
Vivia-se um tempo diferente. O mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e as posições ideológicas eram extremadas. Mas, a Igreja Católica Romana, analisava e montava suas novas estruturas teológica, pastoral, política e social, desde 1962. O Concílio, no meu olhar, trabalhava a partir da ideia de fé e fraternidade universal, considerando o domínio de novas técnicas, o progresso da ciência, as transformações psicológicas, morais e religiosas da humanidade e os muitos problemas pessoais, familiares e coletivos. Tudo isso, objetivando satisfazer as aspirações do gênero humano e tendo Jesus, como solução e resposta.
Depois de sentir o pulsar do Concílio Vaticano II, fui ver a Capela Sistina e os museus do Vaticano. Confesso ter ficado chocado com a riqueza, pompa e tradição. Ao mesmo tempo, lembrava das parcas coletas de esmola para as ditas Obras das Vocações Sacerdotais aqui no Brasil. Não tinha eu ainda a noção da Igreja como Estado e de que seu acervo de obras de arte se confunde com ela própria. Se tudo fosse vendido e repartido, a miséria do mundo não acabaria. A miséria é maior e mais profunda.
O tempo passou. Veio 1978, o ano dos três papas. A morte de Paulo VI; a escolha e infarto fatal, 35 dias após, de João Paulo 1º; e, a eleição de João Paulo 2º, ora sepultado. Wojtyla, eslavo, operário, ex-soldado, ex-ator, quebrou a centralidade italiana de 450 anos, foi um grande diplomata e midiático propagador da Igreja. Alguns teólogos, L. Boff entre eles, o intitulam de ultraconservador. No tempo do seu pontificado, participando ele ou não, foi que a guerra fria acabou, o muro de Berlim caiu, a URSS se dividiu e a Comunidade Europeia surgiu. Neste 2005 ainda é cedo para julgar o pontificado de 26 anos desse polonês que misturava, é verdade, uma mão de ferro na gestão da Igreja ao carisma nas muitas viagens pelo mundo. Sabe-se que o Vaticano, lento em mudanças, costuma ser rápido, como regente de votos, em tempos de crise. E a morte, apesar da ressurreição sonhada e prometida, ainda é uma grande crise.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2005.

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SAINDO DA FOSSA

O tempo de cada pessoa passa, segundo a segundo. A consciência desse detalhe acaciano nos faz pensar em não gastar mal a nossa máquina de viver, o corpo, que se imagina também possa abrigar uma alma. Como o tempo pode nos oferecer, sem que se peça: rugas, gorduras, celulites, dor nas costas, olheiras, pressão alta, insônia, visão curta, torcicolos, cabelos ralos etc., vamos nos olhando nos espelhos e procurando respostas. A resposta é o próprio tempo. Essa ampulheta cruel que não para. Entretanto, muita gente acredita que há formas de ir enganando o tempo, como se fora um Mefistófeles, e imagina fazer plásticas, regimes que aparecem em revistas e se submeter a uma ditadura da estética que não tem referência padrão, mas que mexe com a cabeça de muitos. Ou ler autoajuda.
Um cara, sem profissão conhecida, resolve escrever um livro de medicina alternativa e vende milhares de exemplares. Mera e insossa colagem de publicações antigas de medicina natural. Mas os incautos compram e acreditam que, fazendo isso e aquilo, conseguem atrasar o seu relógio vital. Outros oferecem respostas prontinhas para o dia-a-dia em livros dito interessantes ou milagrosos que servem para dar conselhos, lições de vida, imaginam muitos. Cópias deslavadas. Apesar de tudo isso, de repente, caem na real vida e lá vem crise existencial. Um dia desses, por exemplo, uma pessoa amiga ligou e falou que a sua vida não valia mais nada, pois mesmo com plástica, regime, botox, alongamento, personal, acumputura, Reik, florais de Bach e uma vidente, o seu relacionamento havia ido para o brejo. Estava na fossa. Não concluiu. Caiu no choro e desligou.
Dei um tempo e liguei de volta. Vi que não adiantava repisar conselhos manjados. Não era simples fossa, parecia uma depressão pra valer. Imaginei que só resolveria com ajuda psiquiátrica. Foi daí que perguntei a tal pessoa: você tem plano de saúde tal? Ela falou que sim. Recomendei, então, o nome de um amigo psiquiatra. Maduro, fumante, ouve música, toma umas e outras nos fins de semana, escreve sempre e lê tanto que está quase cego, mas entende de farmacologia e da alma humana, vivido e sofrido que é.
Havia esquecido do fato. Após poucos meses eis que a pessoa me liga de volta, voz firme: “alegre e feliz com o que tem e o que é, sem essa de chorar o relacionamento que já estava falido mesmo” e diz que está “partindo para outra”. E ressalta que a ligação era para agradecer-me a indicação do nome do médico que a ajudou a “sair do buraco e recuperar a autoestima”. O que mais destacou: “não pagou nada”, bastou mostrar o cartão do plano de saúde e foi atendida com profissionalismo e descontração”. E pede para que eu faça uma crônica e diga o nome do médico que a atendeu. Não sei se ele vai gostar, mas o nome é Airton Monte. Pedido satisfeito.

João Soares Neto,
Escritor,
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2005

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VESTIBULAR – A PRIMEIRA MARATONA

A imagem que me ocorre no momento é a de que a vida é uma espécie de longa maratona. Você sabe como os atletas se preparam para uma maratona? Fazem exames médicos, usam roupas e sapatos adequados, estudam as regras da corrida, formam um pequeno grupo para treinar junto, contratam um treinador, passam anos e anos a acordar cedo aprendendo a correr.
A vida real, não a ideal, é mais ou menos assim. Sempre – e para tudo – é preciso ter boa saúde. Imagine que você consegue ser empregado(a) de uma farmácia. Além de passar o dia todo de pé, o que exige um bom preparo físico, ainda terá que interagir com clientes, decorar nomes de remédios, saber para quais doenças servem e entregar ficha com o seu nome na hora da venda. Se, ao final do mês, a quantidade de fichas e os valores dos remédios forem compatíveis com o que determina a gerência, você fica. Caso contrário, será despedido(a).
Sendo você mais ambicioso(a), não desejará ser apenas balconista. Digamos que deseje fazer um curso superior sério. Aí vai precisar estudar regularmente, escolher a profissão que mais se assemelha ao seu jeito de ser e tentar um vestibular. A dúvida na escolha da profissão é cruel, pois somos jovens e indecisos à hora de fazer um vestibular. Há tantas carreiras charmosas e a que escolhemos sempre nos parece a mais chata e a que exige maior dedicação. Não é verdade. Todas as carreiras exigem a tal da regularidade no estudo e perseverança. A perseverança é a coragem de ir em frente quando temos vontade de mandar tudo para as cucuias. É deixar de ir àquela festa ou praia e meter a cara nos livros, enquanto o irmãozinho fica nos azucrinando o juízo pedindo para consertar a sua velha bicicleta, que já foi nossa.
O vestibular é também um exercício de memória, a contraprestação do aprendido, sem esquecer dos outros maratonistas que estão ao nosso lado. Todos correm na mesma direção, para entrar na primeira experiência como quase adultos, que é o estudo superior. Ora, se é superior, certamente é porque nos exigem que sejamos acima da média. Se ficarmos na média, estaremos no limbo, que é aquele espaço entre o céu – ou a felicidade – e o inferno – ou a infelicidade. Ninguém deseja ficar no limbo. Para isso é preciso estudar, estudar sempre e com método. O vestibular é uma espécie de hall de entrada da vida, um vestíbulo, em que os espelhos das paredes refletem se estamos adequados para entrar.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/04/2005.