E na terça-feira sou chamado por Laéria e Carlos Augusto para almoçar, juntamente, com Sérgio Braga e Antonio Torres. Antonio Torres, escritor brasileiro, nascido no Junco, interior da Bahia e que se fez globe-trotter aos 20 anos, resenraizando-se e ganhando prêmios e mundo. Jornalista, publicitário, mas escritor acima de qualquer dúvida ou compadrio, se fez cearense-visitante pelas mãos pródigas de Sérgio Braga,desde 1997. E esse Antonio Torres é um bom conversador que faz o tempo não descer na ampulheta e nos deixa a todos mais leves olhando, da varanda, os verdes mares bravios. E foi com José de Alencar, esse iracemista escritor, que Antonio Torres se alfabetizou falando ver-des-ma-res-bra-vi-os e sentiu seus olhos cresceram para o que não via, mas intuía. E o Junco foi sendo saudade, mas ficou a sedução da origem, da terra adusta, do formigamento mental do menino que sabia que ali era e não era o seu lugar. E tomou a estrada aérea da vida e foi parar na paulicéia, não a desvairada, mas a que despertava para uma tardia industrialização brasileira e levava a todos, passo a passo, para a escada ou o fosso da globalização.
E a noite, após os camarões laerianamente preparados, apreciados, louvados e deglutidos no almoço, nos encontramos novamente. Aí o cenário era outro: a mesa bem posta do Lautrec, o pequeno reinado de César e Denise, em meio a luminosas micro lâmpadas que a China nos impõe culturalmente nesta quadra do ano. E a conversa ficou leve e se via, mesas ao lado, a beleza sutil de Patrícia Pillar, a inteligência nata de Ciro Gomes, a espirituosidade de Fausto Nilo e o olhar de lince de Arialdo Pinho. E do outro lado, bem próximo, estavam Fernando Costa e Fábio Campos que deixavam suas mentes pousar na essência do que bebiam e conversavam com José Carlos. Criara-se um halo virtual de bem-estar, do prazeroso convívio, cada mesa no seu universo privativo. Mas, a estrela da noite era Antonio Torres, com o ar sereno-maroto que a maturidade permite aos que ainda têm perguntas não respondidas e os solados dos pés estão esfolados das andanças pelas estradas do pensamento e dos lugares vistos de soslaio ou em profundidade.
E veio o outro dia, a hora do almoço se fazia tardia e o Carlos Augusto nos impunha o Ideal, sua descoberta fim-de-século. E na cumplicidade com Sérgio Braga, desviamos a rota e aportamos em um pós-moderno self-service, essa comodidade que se impôs e está ficando. E o Carlos Augusto, fervoroso seguidor de Baco, bradava contra o calor pelo vinho tinto não bebido por ele, voraz quase-enólogo que, vencido, em meio às folhagens de seu prato, tomava uma prosaica Coca-Cola. E éramos homens-meninos na intimação costumeira e o Antonio Torres, naquele instante, em meio a doces saborosos, se consolidava no peito de cada um de nós, descrentes e crentes figuras, andarilhos não da região da Mancha de Cervantes, mas destas pequenas paragens e alegrias que nos transformam a todos em cavaleiros errantes nesta nau (des)governada que é a vida.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/12/2006.
