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O CELIBATO E A IGREJA

Há uma antologia feita por William J. Bennett que se chama “O Livro das Virtudes -O tesouro das grandes histórias morais”. O livro foi traduzido e adaptado para o Português por Luiz Raul Machado e publicado pela Editora Nova Fronteira.
Esse livro enumera uma lista de virtudes que não são as únicas necessárias a um ser humano, mas básicas ou fundamentais. É claro que toda preferência implica em uma supressão. Mas, o que gostaria de levantar é que entre essas virtudes citadas não há o celibato. Neste começo de Século XXI, o celibato ainda é uma das mais fortes decisões dogmáticas, políticas ou estratégicas da Igreja Católica Apostólica Romana, remontando a sua consolidação ao Século XVI, no Concílio de Trento.
Voltemos às virtudes citadas por Bennett. São elas: Disciplina, Compaixão, Responsabilidade, Amizade, Trabalho, Coragem, Perseverança, Honestidade, Lealdade e Fé. São 10 as virtudes. Iguais aos mandamentos da Igreja, mas não há nenhuma referência a celibato e olha que o livro trata das qualidades essenciais à formação ética das pessoas.
Falemos um pouco de celibato. A Enciclopédia Larousse e o Aurélio dizem que “celibato é estado de celibatário, condição de solteiro” ou “o estado de uma pessoa que se mantém solteira”. De uma forma ou de outra, deduz-se que é uma opção pessoal. No caso da Igreja, deixa de ser uma opção para ser um ato de disciplina, responsabilidade, coragem, perseverança, honestidade, lealdade e fé. Em outras palavras, na visão estrita da Igreja, o celibato precisa de várias outras virtudes, mas não é, em si, uma virtude.
Tudo isso me vem à mente por várias razões. Uma delas: na minha adolescência quis ser padre, mas já achava antinatural que se considerasse pecado até uma simples polução (polução mesmo) noturna de um jovem com hormônios à flor da pele. Havia ainda o voto de castidade eterna que estava implícito no celibato. Era demais para mim.
Essa questão vem, tempos em tempos, à tona. Nesta semana, a revista Veja (edição de 12.01.2005), na sua página 86, sob o título Anunciado, traz a seguinte matéria: “acordo da Igreja Católica da Califórnia com 87 vítimas de abusos sexuais praticados por membros da diocese local contra menores nas últimas seis décadas. Serão pagos 100 milhões de dólares em indenizações. Em 2003, a diocese de Boston pagou 85 milhões em acordo semelhante. Calcula-se que o total de indenização no gênero nos Estados Unidos possa atingir 01 bilhão de dólares”.
A minha pergunta – e de tantos outros – volta com mais intensidade: qual a razão dos padres serem celibatários, se a natureza e a fisiologia humanas indicam o contrário? Por qual motivo, a Igreja Católica ainda insiste em não enxergar o mal que faz a homens de fé, virtude, honestidade e outras virtudes, mas que sentem, mais fortes que suas vontades, o desejo de se acasalar? Não encontrando o apoio de sua igreja, muitos apelam, entre outras soluções, para o homossexualismo e causam constrangimento a tantas pessoas que veem com tristeza a cegueira de Roma que já dura cinco séculos. Até quando?
João Soares Neto,Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2005.

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NÉLIDA PIÑON: DUAS PALAVRAS

Na semana que passou, a escritora Nélida Pinõn visitou a Academia Fortalezense de Letras. Coube a mim a tarefa de saudá-la e ´dizer duas palavras´. As duas palavras seriam: Nélida Pinõn. Bastaria isso. Procurei, todavia, fazer apenas algumas rápidas observações sobre essa ilustre visitante. Ei-las: Nélida é um nome novo que com ela nasceu e que veio a existir pela criatividade de seu pai, Lino. Nélida é uma anagrama de Daniel, seu avô materno. Piñon significa um pinhão ou descanso de gatilho. Pinhão é uma engrenagem que se mexe, movimenta e gira. Nélida tem sido essa engrenagem na literatura brasileira. Professora de Criação Literária na UFRJ, romancista e contista, saiu de Vila Isabel, no Rio, e foi para a Galícia de seus pais dos 10 aos 12 anos. Voltou e aqui sedimentou a sua formação. A partir daí virou cidadã letrada do mundo, descansando o seu gatilho ou mexendo as suas engrenagens do saber na City University of New York, Columbia University, Miami University, John Hopkins University, Universidad Católica de Lima e na Universidad Complutense de Madrid.
Suas engrenagens literárias continuaram a girar. Dessa vez em direção aos dicionários e à imortalidade.Pois foi ela, em 1990, a sucessora de ninguém menos que Aurélio Buarque de Holanda na Academia Brasileira de Letras e, em 1996, substituiu a Antônio Houaiss na Presidência da ABL. Era a primeira mulher – e única até hoje – a ser presidente da Academia Brasileira de Letras. Uma mulher de letras, cercada por muitos fardões, guardada ou guardando Aurélio e o Houaiss, os filólogos e os dicionários.
A obra de Nélida é vasta. Não cabe analisá-la neste arremedo de apresentação. Mas recomendaria, entre tantos romances e contos, pelo menos um breve conto: I love my husband. Nesse conto, Nélida vai quase nocauteando o leitor, mas o deixa consciente para a reflexão sobre o viver a dois nesta terra brasilis, ainda tão machista.
A nossa ilustre convidada é mulher de muita premiação. Em 1995, entre outros, ganhou o Prêmio Internacional de Literatura Juan Rulfo, da Universidad de Guadalajara, no México. Antes, já havia ganhado os prêmios nacionais Walmap, Mário de Andrade, Pen Clube, Bienal Nestlé, Golfinho de Ouro e outros.
Em seus romances (Guia-mapa de Miguel Arcanjo, Madeira feita cruz, Fundador, A Casa da Paixão, Tebas do meu coração, A República dos sonhos, A doce canção de Caetana, Vozes do Deserto etc) e contos ( Tempos das frutas, Sala de armas, O calor das coisas etc), Nélida deixa flagrante a sua rara habilidade em tratar dos mistérios, dilemas e angústias do fazer literário, e isso parece incomodar aos que não sabem que a glória de quem escreve é ser bem lido por seu povo, tornando-o mais reflexivo e consciente das dores e amores do mundo. Nélida faz isso e os seus leitores sabem disso há mais de quarenta anos. Fique bem-vinda, sempre.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2005

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PAIS, IGNORÂNCIA E APRENDIZADO

Quando minhas filhas foram nascendo, procurei em livrarias do Rio e de São Paulo algo que me desse subsídio para entender de crianças. Não havia nada, exceto “O Livro do Bebê”, do dr. Delamare e chatos livretos de fundamentação religiosa. Fiquei meio perdido. Já havia feito cursos disso e daquilo, aqui e no exterior, mas não tinha aprendido nada sobre a difícil tarefa de ser pai. Falava com pais mais velhos e não recebia muita luz. “Cada filho é um filho”, “palmada só se perde a que não dói” e outros que tais. Resolvi pensar sobre o assunto. Lembrei da minha infância, éramos nove irmãos, compartilhando quartos, banheiros, toalhas, sabonetes, fardas que passavam dos mais velhos aos mais jovens e os livros escolares encadernados com papel madeira para durar dois ou mais anos.
Depois de um tempo matutando, inventei dois personagens, Rosinha e Paulinho. Os dois seriam um pouco mais velhos que minhas filhas e não estudariam no mesmo colégio, pois assim poderia ser descoberto o mistério. Rosinha seria um bom exemplo de estudante, sempre uma das primeiras da turma, alegre, comunicativa, compreensiva e não se deixaria abater quando o Paulinho brigasse com ela ou não quisesse dividir a merenda etc.
Deu certo. Quando algo acontecia fora do “script” familiar, eu me valia da Rosinha e do Paulinho. Eles tomavam banho quando voltavam da escola, não deixavam roupa molhada sobre a cama, faziam o dever de casa, dividiam as coisas, moravam no mesmo quarto e brincavam muito. Paulinho e Rosinha “existiram” até minhas filhas ficarem adolescentes. Nessa época, falei para elas da minha “invenção” como um recurso para lhes passar mensagens, ensinamentos, especialmente sobre o compartilhar, amizade etc. As minhas filhas riram muito, pois nunca “encontravam” a Rosinha e o Paulinho, a quem elas tanto queriam conhecer, especialmente quando passeávamos de carro ou íamos à praia. Sempre eu dava um jeito: eles acabavam de sair, estavam viajando etc.
Recentemente, uma filha, já casada, disse-me que tinha “ressuscitado” a Rosinha e o Paulinho. Estava falando com sua filha – e minha neta – sobre o bom comportamento da Rosinha e do Paulinho, especialmente sobre cuidados com livros, a atitude de compartilhar, aceitar as diferenças e ouvir. Agora, havia chegado a minha hora de rir.
Hoje, com tantos livros de autoajuda, Internet, reuniões de pais e mestres, talvez não seja mais necessário inventar personagens, mas alegra olhar para o passado e lembrar que vivências podem decorrer da mera imaginação e interação dos pais com os filhos. Procurando não ser caretas, mas realçando exemplos, respeitando o próximo e gerando união através de pequenos gestos, como o que faziam, entre outras coisas, as minhas filhas que passavam o ano poupando e guardando presentes para distribuir, pessoal e anonimamente, no Natal. Coisa que só vim a saber tempos depois.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2005

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HOLLYWOOD E A ESTÉTICA DA MISÉRIA

Hoje é noite de Oscar em Hollywood. Não tem nenhum filme brasileiro (Diários de Motocicleta é falado em espanhol e é uma coprodução de vários países) na disputa e, se tivesse, certamente não ganharia. Quais as razões? Não sei, mas desconfio. Os diretores e produtores brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em fazer filmes que realçam a tal estética da miséria ou contar, em parceria, por exemplo, a história do jovem Che Guevara (Diários de Motocicleta). Filmes como Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido no critério hollywoodiano de escolher os vencedores da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem indicado foi.
Não adianta fazer lobby, associar-se com gringos, dar entrevistas e sonhar. Aliás, sonhar é bom, mas o sonho da turma de cineastas e produtores americanos é diferente do nosso. Eles não veem estética na nossa exposição de miséria. As nossas fraturas sociais não dizem respeito à traumatologia cinematográfica da era Bush.
A festa da noite de hoje é, quer nós queiramos ou não, a festa da futilidade, exibição, filmes coloridos com histórias limitadas, grandes efeitos especiais, apresentador engraçado e entrevistas abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades nuas e cruas ou discutir o essencial. É o cinema quase inconsequente ou glamouroso. Lá o fórum é outro. É alienado, desengonçado e segue a estética das limusines, vestidos vaporosos, artistas com gel no cabelo, s esperando os “flashes’ e olhando para as câmeras. As críticas, quando as há, são em favor de alguma minoria ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada. É querer muito. Se é tempo de guerra no Iraque, miséria na África, “tsunami” na Ásia e guerrilhas na América Latina, os membros do júri do Oscar não querem ver, saber ou discutir disso.
E parece que, mesmo assim, os filmes americanos continuam sendo admirados por aqui. O filme “Hitch” (Tennant, diretor e Will Smith, ator), uma comédia sobre um conselheiro sentimental, onde o espectador não precisa pensar, foi visto por mais de 262 mil brasileiros no último fim de semana. O “Aviador”(Scorsese e De Caprio) que é um pouco, só um pouco, letrado, pois conta a história, fragmentada, de uma das muitas versões de Howard Hughes, empreendedor rico, cínico e visionário que enveredou pelo transtorno obsessivo compulsivo e terminou louco, foi visto por 121 mil. E olha que não estou falando dos filmes “Menina de Ouro”, de Eastwood com Hillary Swank (a moça lutadora de Box) e “Sideways”, de Alexander Payne com Paul Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando conquistas e depressões) que mexem com sentimentos. Parece que os brasileiros estão cansados ou cansando do uso da miséria para os mais diversos fins.
Quem sabe se mandarmos no próximo ano um filme da Xuxa ou do Renato Aragão não teremos mais chances de indicações?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2005.

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AS TINTAS COLORIDAS DO ESCRITOR

Juarez Leitão surgiu na ´turma dos sábados´, um grupo heterodoxo de pessoas que se permite sair do sério entre falações e Baco, pelas mãos de Dorian Sampaio, se não me engano. Eram os anos 90. Chegou e se tornou cativo. Contador de ´causos´, orador fluente, sabedor de seus dotes, misturando o quase recato de antigo seminarista ao escracho da vida real, foi sendo absorvido e querido. Daí que resolveu contar, em livro, o que ouvia, sentia e intuía. Desta salada saiu o livro ´Sábado, Estação de Viver´, memória, estória e história.
O Juarez poeta passava a perder espaço para o cronista de uma cidade resoluta, dissoluta e desvairada. O espaço da ´turma dos sábados´ foi apenas o mote para a desenvoltura artística de Juarez.
Além de cronista, fez-se pintor e retratou cada um de seus pares. A cada um entregou um retrato emoldurado e os inseriu nas páginas do livro. Era como se estivesse dizendo: ´a vida tem todos os matizes com os quais o vejo´. E assim, foi entremeando estórias da turma, com estórias de domínio público e privado da Fortaleza que o recebeu e adotou como filho.
Surgia, naquele fim de década de 90, um novo Juarez. Enturmado, hilariante, mas cioso e ciente que estava sendo transformado. A palavra estação do título poderia ser entendida como uma parada em sua vida, em que tomou um novo trem e o destino, capcioso e curioso, sorria com a mudança.
Sábado, Estação de Viver´, em nada se assemelha a outras duas estações que conheço, também cantadas em livro. Nada tem a ver com o romance (A Próxima Estação) de Teoberto Landim ou ao célebre ´Rumo à Estação Finlândia´, de Edmund Wilson. Enquanto Landim, professor e escritor, narra as aventuras e desventuras de um bolsista (Thomas) brasileiro na Alemanha e sua volta ao interior do Brasil, Edmund Wilson, americano, crítico literário, jornalista e escritor, vai mexer, ensaiar polemicamente sobre Marx, Engels e o socialismo.
Juarez se permite, e o faz com maestria, a não seguir com organicidade o manual acadêmico de escrever, não vai procurar o problema do sujeito situado de Heidegger ou busca validar o saber e o conhecimento. Nada disso. Juarez se faz livre.
Escreve como contador de histórias, sem preocupações filosóficas, como se estivesse – e realmente estava – em uma tarde de sábado olhando para um caís e visse, com o seu novo olhar de pintor, pessoas, navios, barcos e jangadas sossegados, mas cientes de que o destino de cada um é o desassossego da vida e do mar. Assim é o livro, tem remansos, mas é prenhe de ondas em que quase todos são jogados como o vai e vem das marés. Escapam todos na celebração.
A partir de ´Sábado, Estação de Viver´, o trem literário e existencial de Juarez Leitão toma novo rumo, não o das indagações profundas de Edmund Wilson, tampouco o questionamento pessoal do personagem Thomas de ´A Próxima Estação´, de Teoberto Landim. E esse novo rumo é misturado com as fortes tintas em que retrata seus muitos amigos, colorindo-os, mesmo que o gris de seus cabelos pedisse comportamento mais comedido. Nada de gris. Nada de pastel. É o exagero do contador de causos também por trás da vida e do pincel. Some-se a isso sutilezas e não sutilezas que vão sendo expostas nas estórias relatadas como se achasse o contador de pernas estiradas, chapéu de palha na cabeça, camisa estampada, ventre protuso, copo à mão, e um grupo de amigos ruidosos, curiosos e atentos à escuta.

João Soares Neto
Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2005.

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PÁSCOA: COMIDAS, BEBIDAS E REFLEXÕES

Já não há mais queimação ou malhação de Judas nos sítios arrumados com os longos testamentos e a algazarra dos meninos. Agora tudo é intramuros. São outros tempos. Tempos de insegurança. Os que podem trancam suas portas, das casas os lazeres, e vão de queijos e vinhos, peixes, ovos de páscoa e afins. Os outros, a maioria, ficam como já estavam a espera do que não sabem bem. Mas esperam. De que qualquer modo, hoje é domingo de Páscoa.
A festa da Páscoa, instituída pela Igreja Católica Romana no Primeiro Concílio de Nicéia, no ano 325 depois de Jesus Cristo, é uma festa móvel, para louvar a ressurreição de Cristo e sempre celebrada no domingo que segue a lua cheia da passagem do equinócio. O primeiro equinócio, pois há outro em fins de setembro. O equinócio é um fenômeno da natureza, em função da posição do Sol em relação à Terra, e é a época do ano, aqui no hemisfério sul ou abaixo do equador, em que o dia e a noite tem, cada um, exatas doze horas.
A religião, desde sempre, misturou ciência, fé e crenças populares. Daí acredito, marcar-se no Ceará o 19 de março, o dia do santo padroeiro, São José, bem próximo à passagem do Equinócio, quando pode haver a consolidação das chuvas ou a esperança de inverno. Se chove, haverá inverno. Por esta razão e outras mais, celebremos.
A Páscoa é, pois, uma celebração coletiva dos cristãos, maior que cada um de nós. Nesta festa anual dos cristãos, onde se comemora a ressurreição de Cristo – aquele que teve a vida pública menor que um mandato político e mudou a história – é preciso que se exalte o amor ao próximo, o bem querer e a louvação à vida. Neste tempo de páscoa ou passagem de uma vida a outra, é bom que cada um reflita sobre o seu caminho e busque respostas para as suas dúvidas. Ora, se a vida é passagem, Páscoa também é passagem. Logo, tudo é trânsito, o eterno é o que fica.
Como esta crônica está parecendo pregação de pastor, deixo claro que os tempos de alegria, e a Páscoa é um deles, devem ser momentos para regozijo coletivo ou de avaliações e ajustes pessoais, com a fé ou com os nossos botões.
É bom que neste domingo de Páscoa, em que muitos se dão conta de que usaram apenas os feriados para libação a Baco ou investidas pantagruélicas ou, em português nosso de cada dia, beber e comer muito, ainda haja tempo para refletir sobre a nossa passagem por aqui, tão mais breve que imaginamos, mas tão mais longa que sobra tempo para uma parada essencial em nós mesmos.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/03/2005.

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“AMÉRICA” E A REALIDADE

A novela “América”, que não assisto ou vou assistir, mas sobre a qual ouço comentários e leio releases, notícias e sinopses, mostra e mostrará, entre rodeios, tapas, fugas e beijos, a crueza da luta de imigrantes ilegais brasileiros, via fronteira mexicana, para atingir os Estados Unidos, “fazer a América” e conseguir “ser gente”. Tudo por falta de oportunidade por aqui. Verdade e mentira. É verdade que milhares de brasileiros tentam, com risco de vida, fazer isso, desde sempre.
É mentira que o Brasil não seja um país de oportunidades. Os grandes problemas do Brasil são a desigualdade na distribuição de renda, na formação educacional ou cultural das pessoas. Os que conseguem estudar, de verdade, têm oportunidade por aqui. A regra vigente há tempos neste país, e consolidada neste início de século XXI, é a de que só os de ponta obterão acesso às riquezas. Não haverá mais lugar para os mais ou menos ou para os que, por falta de oportunidade, não tiveram boa ou nenhuma formação, sem falar nas exceções. Daí o êxodo. Ele é o retrato de todos nós, ricos ou pobres, malditos ou miseráveis.
Mas, estava eu no Palácio do Itamaraty, em Brasília, em julho de 2002, quando os presidentes Fernando Henrique e Vicente Fox assinaram o Acordo de Complementação Econômica entre o Brasil e o México. Por esse acordo, os dois países decidiram a redução ou a eliminação de tarifas de 800 bens ou produtos. Por coincidência ou não, bem perto de mim estava atento o empresário mexicano Carlos Slim, hoje um grande investidor no Brasil, dono, entre outras empresas, da antiga estatal Embratel. A tudo ouviam as embaixadoras do México no Brasil, Cecília Soto e a dos Estados Unidos, Donna Hrinak, hoje, casada com um brasileiro e atuando como consultora de investimentos. Em seguida, em conversa informal, falávamos que aquele instante estabelecia um novo marco na relação entre os dois países. Dito e feito.
Hoje o México é um dos grandes mercados brasileiros. Basta dizer que, de 1998 para 2004 as exportações brasileiras para lá cresceram 300%, com ênfase nos três últimos anos. Por outro lado, as exportações mexicanas para o Brasil deram um pulo. Só em 2004 cresceram 34% e isso é bom para brasileiros e mexicanos, mas em nenhum dos dois lados a desigualdade tem diminuído. E isso é ruim, também para os dois.
Estamos, Brasil e México, prestes a virar países ricos, desde que saibamos superar desafios nas relações internacionais. Podem crer. É questão de poucas décadas. Mas será, se acontecer, uma riqueza talvez sem alegria, pois ainda calcada na desigualdade, que esperávamos ver diminuída. É ela que dá origem ao sucesso de novelas como “América” que, além de levantar o problema, queira Deus não sirva de incentivo para os muitos que não têm vez e voz por aqui.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/04/2005.

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VATICANO, WOJTYLA E VOTO

Corria o ano de 1965, era outubro, e eu estava em Roma. Primeira viagem à Europa e acontecia o Concílio Vaticano II. Ver como ele acontecia era um desejo curioso de um jovem adulto. Por sorte, havia um bispo amigo da família. Ele, literalmente, abriu as portas e passei sob as vistas da guarda suíça. Vi o alvoroço interno. Eram cardeais, bispos, padres e civis cuidando daquela reforma que marcaria o pontificado de Paulo VI. Depois, fui ao Colégio Pio Brasileiro e conversei com padres que faziam doutorado em teologia.
Vivia-se um tempo diferente. O mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e as posições ideológicas eram extremadas. Mas, a Igreja Católica Romana, analisava e montava suas novas estruturas teológica, pastoral, política e social, desde 1962. O Concílio, no meu olhar, trabalhava a partir da ideia de fé e fraternidade universal, considerando o domínio de novas técnicas, o progresso da ciência, as transformações psicológicas, morais e religiosas da humanidade e os muitos problemas pessoais, familiares e coletivos. Tudo isso, objetivando satisfazer as aspirações do gênero humano e tendo Jesus, como solução e resposta.
Depois de sentir o pulsar do Concílio Vaticano II, fui ver a Capela Sistina e os museus do Vaticano. Confesso ter ficado chocado com a riqueza, pompa e tradição. Ao mesmo tempo, lembrava das parcas coletas de esmola para as ditas Obras das Vocações Sacerdotais aqui no Brasil. Não tinha eu ainda a noção da Igreja como Estado e de que seu acervo de obras de arte se confunde com ela própria. Se tudo fosse vendido e repartido, a miséria do mundo não acabaria. A miséria é maior e mais profunda.
O tempo passou. Veio 1978, o ano dos três papas. A morte de Paulo VI; a escolha e infarto fatal, 35 dias após, de João Paulo 1º; e, a eleição de João Paulo 2º, ora sepultado. Wojtyla, eslavo, operário, ex-soldado, ex-ator, quebrou a centralidade italiana de 450 anos, foi um grande diplomata e midiático propagador da Igreja. Alguns teólogos, L. Boff entre eles, o intitulam de ultraconservador. No tempo do seu pontificado, participando ele ou não, foi que a guerra fria acabou, o muro de Berlim caiu, a URSS se dividiu e a Comunidade Europeia surgiu. Neste 2005 ainda é cedo para julgar o pontificado de 26 anos desse polonês que misturava, é verdade, uma mão de ferro na gestão da Igreja ao carisma nas muitas viagens pelo mundo. Sabe-se que o Vaticano, lento em mudanças, costuma ser rápido, como regente de votos, em tempos de crise. E a morte, apesar da ressurreição sonhada e prometida, ainda é uma grande crise.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2005.

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SAINDO DA FOSSA

O tempo de cada pessoa passa, segundo a segundo. A consciência desse detalhe acaciano nos faz pensar em não gastar mal a nossa máquina de viver, o corpo, que se imagina também possa abrigar uma alma. Como o tempo pode nos oferecer, sem que se peça: rugas, gorduras, celulites, dor nas costas, olheiras, pressão alta, insônia, visão curta, torcicolos, cabelos ralos etc., vamos nos olhando nos espelhos e procurando respostas. A resposta é o próprio tempo. Essa ampulheta cruel que não para. Entretanto, muita gente acredita que há formas de ir enganando o tempo, como se fora um Mefistófeles, e imagina fazer plásticas, regimes que aparecem em revistas e se submeter a uma ditadura da estética que não tem referência padrão, mas que mexe com a cabeça de muitos. Ou ler autoajuda.
Um cara, sem profissão conhecida, resolve escrever um livro de medicina alternativa e vende milhares de exemplares. Mera e insossa colagem de publicações antigas de medicina natural. Mas os incautos compram e acreditam que, fazendo isso e aquilo, conseguem atrasar o seu relógio vital. Outros oferecem respostas prontinhas para o dia-a-dia em livros dito interessantes ou milagrosos que servem para dar conselhos, lições de vida, imaginam muitos. Cópias deslavadas. Apesar de tudo isso, de repente, caem na real vida e lá vem crise existencial. Um dia desses, por exemplo, uma pessoa amiga ligou e falou que a sua vida não valia mais nada, pois mesmo com plástica, regime, botox, alongamento, personal, acumputura, Reik, florais de Bach e uma vidente, o seu relacionamento havia ido para o brejo. Estava na fossa. Não concluiu. Caiu no choro e desligou.
Dei um tempo e liguei de volta. Vi que não adiantava repisar conselhos manjados. Não era simples fossa, parecia uma depressão pra valer. Imaginei que só resolveria com ajuda psiquiátrica. Foi daí que perguntei a tal pessoa: você tem plano de saúde tal? Ela falou que sim. Recomendei, então, o nome de um amigo psiquiatra. Maduro, fumante, ouve música, toma umas e outras nos fins de semana, escreve sempre e lê tanto que está quase cego, mas entende de farmacologia e da alma humana, vivido e sofrido que é.
Havia esquecido do fato. Após poucos meses eis que a pessoa me liga de volta, voz firme: “alegre e feliz com o que tem e o que é, sem essa de chorar o relacionamento que já estava falido mesmo” e diz que está “partindo para outra”. E ressalta que a ligação era para agradecer-me a indicação do nome do médico que a ajudou a “sair do buraco e recuperar a autoestima”. O que mais destacou: “não pagou nada”, bastou mostrar o cartão do plano de saúde e foi atendida com profissionalismo e descontração”. E pede para que eu faça uma crônica e diga o nome do médico que a atendeu. Não sei se ele vai gostar, mas o nome é Airton Monte. Pedido satisfeito.

João Soares Neto,
Escritor,
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2005

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VESTIBULAR – A PRIMEIRA MARATONA

A imagem que me ocorre no momento é a de que a vida é uma espécie de longa maratona. Você sabe como os atletas se preparam para uma maratona? Fazem exames médicos, usam roupas e sapatos adequados, estudam as regras da corrida, formam um pequeno grupo para treinar junto, contratam um treinador, passam anos e anos a acordar cedo aprendendo a correr.
A vida real, não a ideal, é mais ou menos assim. Sempre – e para tudo – é preciso ter boa saúde. Imagine que você consegue ser empregado(a) de uma farmácia. Além de passar o dia todo de pé, o que exige um bom preparo físico, ainda terá que interagir com clientes, decorar nomes de remédios, saber para quais doenças servem e entregar ficha com o seu nome na hora da venda. Se, ao final do mês, a quantidade de fichas e os valores dos remédios forem compatíveis com o que determina a gerência, você fica. Caso contrário, será despedido(a).
Sendo você mais ambicioso(a), não desejará ser apenas balconista. Digamos que deseje fazer um curso superior sério. Aí vai precisar estudar regularmente, escolher a profissão que mais se assemelha ao seu jeito de ser e tentar um vestibular. A dúvida na escolha da profissão é cruel, pois somos jovens e indecisos à hora de fazer um vestibular. Há tantas carreiras charmosas e a que escolhemos sempre nos parece a mais chata e a que exige maior dedicação. Não é verdade. Todas as carreiras exigem a tal da regularidade no estudo e perseverança. A perseverança é a coragem de ir em frente quando temos vontade de mandar tudo para as cucuias. É deixar de ir àquela festa ou praia e meter a cara nos livros, enquanto o irmãozinho fica nos azucrinando o juízo pedindo para consertar a sua velha bicicleta, que já foi nossa.
O vestibular é também um exercício de memória, a contraprestação do aprendido, sem esquecer dos outros maratonistas que estão ao nosso lado. Todos correm na mesma direção, para entrar na primeira experiência como quase adultos, que é o estudo superior. Ora, se é superior, certamente é porque nos exigem que sejamos acima da média. Se ficarmos na média, estaremos no limbo, que é aquele espaço entre o céu – ou a felicidade – e o inferno – ou a infelicidade. Ninguém deseja ficar no limbo. Para isso é preciso estudar, estudar sempre e com método. O vestibular é uma espécie de hall de entrada da vida, um vestíbulo, em que os espelhos das paredes refletem se estamos adequados para entrar.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/04/2005.