Inédito

INVASÃO DE PRIVACIDADE

Grande parte dos brasileiros, por comodidade, economia e para facilitar o controle de despesas mensais, paga as suas contas com cartões de crédito. Você paga com cartões de crédito estrangeiros. Eles têm seu endereço, CPF, sabem em que você gasta, quanto gasta por mês, que lugares frequenta, quando e para onde vai. Querem um exemplo? Soube-se que o escritor Dias Gomes, antes de morrer acidentado, jantou no restaurante paulista “Famiglia Mancini”, o que comeu, quanto pagou e saiu às 1:53 horas do dia 18.05.99. A precisão das informações, inclusive o horário de saída, 1:53, deve-se ao registro do pagamento eletrônico feito por cartão de crédito.
No instante em que se liga o telefone, em uma companhia privada controlada ou de propriedade estrangeira, tudo fica registrado e um simples detetive bisbilhoteiro pode saber para quem se liga, se não ousar gravar a conversa.
Não se passa um dia sem que a imprensa informe algo inovador na forma de invadir a privacidade individual. Tomemos, por exemplo, uma notícia, na primeira página da insuspeita Gazeta Mercantil, de 17.05.99: “O recrutamento de executivos está chegando à era dos Jetsons. Recrutadoras como a Korn/Ferry, a Heidrich & Strugells e a Russel & Reinolds estão implantando a busca de profissionais via Internet. …A Korn & Ferry desenvolveu um recrutamento para lá de futurista, que deve chegar este ano ao Brasil. Profissionais selecionados pelo “site” Futurestep (Degrau do futuro, trad. nossa) recebem em suas casas envelopes da Federal Express. Dentro dos pacotes, está uma minicâmera chamada de videofone, que eles devem plugar na tomada de seus telefones. Um headhunter (caçador de talentos, trad. nossa) liga para esses profissionais e eles são entrevistados e filmados, enquanto podem ver o entrevistador na tela suas minicâmeras “.
O mundo está ficando globalizado, como já previa a “aldeia global” de Marshall McLuhan, nos anos 60, e nós não temos mais privacidade. Paradoxalmente, o livro “1984”, de George Orwell, falava do perigo de um Big Brother (Irmão Grande) comunista que saberia tudo das nossas vidas. A realidade nos mostra o contrário. São as grandes empresas e o Estado, dito democrático, quem grampeia telefones, filma escondido e sabe o que querem de nós, através dos registros feitos ao longo de nossas vidas. Um dia desses, assisti ao filme americano “O Inimigo do Estado” e saí do cinema, mesmo descontados os exageros, abismado com a parafernália utilizado para conhecer a vida de um advogado. As informações, a tecnologia e a eletrônica são espiões silenciosos, eficientes e de relativo baixo custo.
Nós não deveremos mais ter a ilusão de que a nossa intimidade nos pertence. Cada ato de consumo seu, seja o simples crediário preenchido inocentemente, uma mera ficha cadastral para receber um cartão de crédito ou uma passagem aérea, vai definindo o seu perfil e lhe colocando nas malas diretas vindas de todos os cantos, oferecendo tudo. Sem que saiba, você passa a ser um registro vendido pelas empresas de mala direta e isto lhe torna, independente de autorização, uma pessoa sem privacidade, mas um “cidadão global”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/1999.

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KEYNES, O FILÓSOFO

Os que mourejam em economia sabem – ou deveriam saber- quem foi John Maynard Keynes. Os outros, naturalmente, não têm a obrigação de sabê-lo. De qualquer sorte, como diria outro economista, Keynes foi o mais famoso economista inglês do atual século, autor da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, e agraciado com o título de Cavalheiro (Sir) pela Casa Real da Inglaterra.
Ocorre que não desejo falar sobre o economista Keynes e sim sobre o pensador Keynes. O estudioso de Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein. O homem que varava horas da madrugada conversando amenidades com um grupo (o badalado “Bloomsbury group”) de amigos intelectuais, dentre os quais Virginia Woolf e os seus lobos imaginários.
Em 1930, Keynes escreveu um ensaio chamado “As possibilidades econômicas de nossos netos”. Nesse trabalho há trechos lindos demonstrando que Keynes era um filósofo, no sentido lato da palavra. Vejamos dois deles: “Quando a acumulação da riqueza não tiver mais uma grande importância social, haverá grandes alterações no código de moralidade. Seremos capazes de nos permitir avaliar em seu real valor o motivo econômico. O amor ao dinheiro como uma posse – diferente do amor ao dinheiro como um meio para o gozo e as realidades da vida – será reconhecido pelo que é: uma morbidade um pouco fastidiosa, uma dessas tendências semicriminosas e semipatológicas que se costuma confiar com arrepios a especialistas em doenças mentais…” “Ele (o homem) não ama o gato, mas os gatinhos do seu gato; na verdade, sequer os gatinhos, mas apenas os gatinhos dos gatinhos, e assim por diante, para sempre, até o fim da gataria. Para ele, uma geléia não é uma geléia, a menos que se trate de uma geléia para amanhã e nunca de uma geléia hoje. Assim, sempre projetando para o futuro sua geléia, ele se esforça em garantir a imortalidade para seu ato de fazê-la”.
Diz mais: “Os ativos e decididos ganhadores de dinheiro podem levar-nos todos ao aconchego da abundância econômica. Mas apenas serão capazes de aproveitar a abundância, quando ela chegar, os que puderem manter viva e cultivar para uma perfeição mais completa a arte de viver, e os que não se vendem pelos meios de vida”.
Nesses trechos Keynes denuncia um defeito comum a quase todos nós: o amor ao dinheiro pela sua mera posse e deixa claro ser essa uma morbidade, só justificando seu uso dignificante para o gozo da vida. Fala também da loucura que é a tendência de muitas pessoas em imaginar que a felicidade é um vir a ser e não o aproveitar as pequenas alegrias do dia a dia, como, por exemplo, admirar e gostar de um simples gatinho.
Ao admitir que os ganhadores de dinheiro poderão levar o mundo a uma abundância, considera apenas que fruirão dessas benesses os que saibam cultivar a arte de viver. Para saber o que Keynes consideraria “cultivar a arte de viver” poder-se-ia dizer, por inferência de seus escritos e dos grupos sociais de que participava, que seria saber dividir o seu tempo entre o dever e o prazer, colocando a amizade e o relacionamento social como um desiderato.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/05/1999.

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AOS SEM NAMORO

E aí você está lendo este artigo e não compreende a razão de tanta falação sobre o Dia dos Namorados. Pois saiba: é o quarto evento do comércio lojista. Lojistas e publicitários, à parte, cá entre nós você talvez esteja é com uma dor de cotovelo por se encontrar só nessa data.
As rosas oferecidas, nas bancas improvisadas por toda a parte, parecem não lhe dizer respeito. Só parecem. Na verdade, você está é como se um espinho virtual tivesse furado o seu dedo de estimação. Aquele dedo usado para ligar para a pessoa querida. Aí o amor acabou e o dedo ficou em riste, apontando para as suas falhas.
Não se culpe, não é bem assim. Os amores podem acabar. Não pode acabar é o amor no seu coração. Não pode deixar de existir é a eterna busca pelo ideal de ser feliz, embora tudo seja mais um caminho que uma meta.
Não há de ser nada. 12 de junho é apenas um dia. Mas logo nessa data, você gostaria de estar com alguém, não é? Sem essa de autocomiseração, bancando a vítima. Coisa feia. Talvez, você precise descobrir porque as coisas deram erradas. Não na busca de culpados, mas na identificação do que pode ser feito hoje e no futuro, o hoje do amanhã.
Vai ver você não dava valor a quem lhe amava. Comprava presente, escrevia até um cartão bonitinho, mas faltava a entrega. Esse se jogar sem medo no poço profundo do amor. Essa capacidade de sentir o coração apertar quando uma simples troca de olhares age como uma flecha.
Tire os óculos escuros, mostre os seus olhos, não importa a cor, as rugas a redor. Mire com firmeza e diga dos seus sentimentos. Fingir saiu de moda. Enganar, já era. Abra a sua caixa de ferramentas e não tenha medo de consertar os seus defeitos. Acabe com o medo de se expor. O mais grave a acontecer é descobrir ser você um mortal comum. Não fique pensando que defeitos são privilégio seu. Sai dessa.
As novelas têm começo, meio e fim. Você não deve imaginar dramas. Afinal de contas, Janete Clair e Dias Gomes estão mortos. Enxugue as lágrimas. Não é preciso fazer da vida uma novela. Desvencilhe-se do novelo em que está enredado e não fique aí esperando alguém cair do céu à sua procura.
Outros dias dos namorados virão, fique certo. Embora só exista um Dia do Namorados por ano, todo santo dia é dia de namorar. Mexa-se, desenferruje a sua capacidade de caçar felicidade. Não estou falando de pedrador e sim do caçador de esperança. Aquele que não esmorece quando tudo fica cinza e as águas da vida parecem turvas.

Águas turvas podem ser ilusão de ótica, mude as lentes do sentimento, recicle-se na gestão de um projeto pessoal verificando que seu ponto forte é ter certeza dos seus pontos fracos lhe tornarem gente. Em amor, como na vida, não há qualidade total.
No amor há loucura. La Fontaine, em uma de suas fábulas, conta que o Amor e a Loucura brigaram um dia. A Loucura furou os olhos do Amor, tornando-o cego. Vênus, mãe do Amor, pediu justiça a Júpiter e aos juízes do Olimpo. E esses sentenciaram que a Loucura serviria de guia eternamente ao cego Amor.
Para de choramingar, vá à luta, o mundo é seu e fique cego de Amor. Mas não esqueça de amar a si próprio.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/06/1999.

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DOUTOR CHICO

Nenhum brasileiro de cultura mediana desconhece a discografia de Chico Buarque. Os que estavam na universidade na década de 60 sabem do engajamento de Chico Buarque aos movimentos de rebelião à ordem vigente no país. Os mais novos conhecem também o escritor Chico Buarque, elogiado por uns, criticado por outros e com livros que não fariam nenhuma falta se não tivessem sido escritos.
Por sua condição social, cultura, tratamento poético, linguístico e musical que dá a sua excelente obra discográfica, Chico Buarque constitui uma referência na história da música brasileira na segunda metade deste século. Quem não conhece, por exemplo, Pedro Pedreiro, A Banda, Apesar de Você, Cálice, Meu Caro Amigo, Samba de Orly, Pelas Tabelas, Suburbano Coração, Bancarrota Blues, Carolina, Geni e Não Existe Pecado ao Sul do Equador.
O seu passado de luta, engajamento político, excelente discografia e a sua sofrível incursão literária, não são motivos – pelo menos, no meu entendimento – relevantes e suficientes para a obtenção de um galardão como um título de Doutor Honoris Causa por uma universidade pública.
Sempre tive em alta conta os títulos conferidos pelas universidades, apesar de entender que, algumas vezes, eles são usados para atender aos poderosos de plantão e a visitantes ilustres. Não conheço os mecanismos de escolha, os critérios adotados e, dessa forma, o meu juízo fica meio capenga. Mas uma universidade, teoricamente um centro de decisões equilibradas e austeras, não pode ficar por ai distribuindo títulos honoríficos como o fazem muitas casas legislativas.
Como o próprio nome traduz, um doutor de causa honrosa deve ser alguém que pugnou, no cenário internacional, nacional ou no âmbito da universidade, por causas de grande significação. Até se poderia dizer que Chico fez isso. Mas quantos artistas de bom nível e politicamente engajados deveriam, segundo os mesmos critérios, ser agraciados?
Ao receber o título, em cerimônia fechada, Chico se auto intitulou o “doutor Chico da Mangueira”. Ora, não seria o caso de, aproveitando a oportunidade, falar de suas ideias e projetos para uma universidade mais ligada à cultura popular, à música como instrumento da realidade? Poderia até ter repetido alguns versos seus, por exemplo:
“De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto “(Fado Tropical c/Ruy Guerra), ou
“Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar “. (Noite dos Mascarados), ou ainda,
“ Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
que eu sou embaixador”. (Não Existe Pecado… c/Ruy
Guerra).
Pareceu-nos sem emoção o recebimento da honraria e sem nenhuma imaginação a sua fala. Talvez encarnasse o seu antigo heterônimo, Julinho de Adelaide, criado à época da repressão, desejando ser o Doutor Chico da Mangueira.
Tem a fala de Chico Buarque muito ou pouco a ver com um título de Doutor Honoris Causa? Ou estarei sendo um estorvo?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/1999.

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INTIMIDADE

Muitas pessoas imaginam ser agradáveis ao tentar pensar sobre os seus sentimentos. Algumas são tão falsas quanto uísque do Paraguai. São melosas, fingem uma intimidade que não têm e, como não querendo nada, disparam: como vai você? Conte-me os seus problemas. Você não se sente só? Você precisa de alguém para compartilhar as suas tristezas e alegrias? Essas são as mais perigosas e esquecem que seu disco já está gasto e as frases de efeito não produzem mais resultados. A não ser nas pessoas incautas ou carentes.
Há outras, honestas no perguntar a quantas andam a sua vida, mas não dispõem de ferramentas para apertar as porcas frouxas das suas dores ou de óleo para lubrificar suas ilusões. No fundo, são bisbilhotices e a solidariedade mostrada em nada resolve os seus males, sejam eles reais ou imaginários.
Muitas pessoas se aproximam e dizem que gostam de nós. Ora, como podem gostar do que não conhecem? É preciso conhecer, saber quem o outro é, o que fez e faz, como vive, para admitir o bem querer. Não o bem querer de coquetéis com vinhos e destilados atilando uma intimidade fugaz. Para gostar é preciso caminhar uma mesma estrada, identificar os sinais do corpo e as mazelas do espírito. Não é, por exemplo, a nudez moteliana que torna as pessoas íntimas, é algo mais profundo como sentir os olhos, beber os sentimentos, entender os silêncios e perdoar os ditos malditos.
Não permita que devassem a sua intimidade. Importa não que fabriquem versões a seu respeito. Se isso acontecer, paciência. Faz parte da vida. As pessoas que não dão vida às suas vidas vivem do que imaginam ser a vida dos outros. Fantasiam, xingam, caluniam e nisso vão agregando uma couraça invisível, mas sensível a quem conhece um pouco esses amigos de araque.
Os amigos não precisam alardear afinidades. Afinidades não são trombeteadas, são guardadas com o carinho especial dos que não necessitam provar nada. Basta o fluir da vida e elas se agregam de uma forma misteriosa e bela. Os verdadeiros amigos não perguntam, eles sentem. São presenças sem serem chamados. São ouvidos atentos para os nossos silêncios ou queixumes. São uma força magnética imantando atitudes desinteressadas e não pedidas.
Os caros e poucos amigos não devassam a nossa intimidade, eles fazem parte dela, desnudam-na sem perguntas e nos tornam fortes em meio às fraquezas comuns aos humanos. Os amigos não adulam. Apoiam e confortam. Os amigos têm o direito da crítica pela capacidade de saberem tocar os nossos sentimentos. Mesmo que, às vezes, isso possa doer.
Os amigos tomam partido e não assumem atitudes dúbias, convivendo com os nossos inimigos. Eles nos defendem em nossas ausências e procuram entender as nossas razões. André Malraux disse certa vez: “Amizade não consiste em apoiar os amigos quando eles têm razão, mas quando erram”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/1999.

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TOLICES JORNALÍSTICAS

Recentemente, o francês Philippe Mignaval resolveu reunir em livro as bobagens escritas na imprensa do seu país. Sob o nome de “Le Sottisier des Journalistes”, Mignavil reuniu uma coletânea de bobagens, impropriedades e até, vamos lá, idiotices publicadas em jornais franceses. Tal procedimento, como se verá, não é privilégio de brasileiro. Ainda bem.
Escrever é uma faca de dois gumes. Tanto pode engrandecer como denegrir a imagem de quem escreve. Diz o jornalista português Edson Athayde, colecionador desses deslizes: “acidentes lingüísticos e semânticos apenas demonstram que a escrita também pode ser uma arma”.
Só para vocês terem uma idéia de como são comuns os erros na imprensa, vou citar dois exemplos brasileiros, de órgãos do primeiro escalão, antes de entrar nos franceses. O prestigiadíssimo Jornal “Folha de São Paulo”, publica, diariamente, no caderno Cotidiano, ao lado da seção “Mortes” um aviso que tem o seguinte título: “O que fazer em caso de morte” – “você deve procurar o serviço funerário do Município de São Paulo pelo telefone (011) 2377000 ou pelo fax (011) 2321203.” Quem é você? O morto, a família?, Quem, afinal?
A revista Veja, edição de 23.06.99, página 39, publicou um quadro (box) com o título: “Eles querem seu emprego”. Em seguida, diz: “O Brasil tem cerca de 30.000 imigrantes que vieram para trabalhar. Saiba quais são os países campeões na exportação de mão-de-obra e quantas pessoas cada um deles mandou para cá até hoje: 5.000(EUA), 2.300(Inglaterra), 1.950(França), 1.800(Japão), 1.750(Alemanha) e 1.500(Argentina). ” Ora, é tão ridículo, os números são tão fora da realidade e a observação furada “quantas pessoas cada um deles mandou para cá até hoje”. Ora, cada um desses países mandou muitos mais imigrantes.Não indicando o período de tempo, a notícia é errada e absolutamente sem sentido.
As tolices francesas são engraçadas. Vamos lá: “Parece que ela foi morta pelo seu assassino”. “Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça”. Os antigos prisioneiros terão a alegria de se reencontrar para lembrar os anos de sofrimento”. “O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos”. “A polícia e a Justiça são as duas mãos de um mesmo braço”. “Ela contraiu a doença na época em que ainda estava viva”. “O aumento de desemprego foi de 0% em novembro”. ”A conferência sobre prisão-de-ventre foi seguida de um farto almoço”. “À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel”.
E tem mais: “O presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos”. ” Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério para satisfação dos habitantes”. “Os sete artistas compõem um trio de talento”. “Um surdo-mudo foi morto por um mal-entendido”. “Este ano, as festas do 04 de setembro coincidem exatamente com a data de 04 de setembro, que é a data exata, pois o 04 de setembro é um Domingo”. “O Tribunal, após breve deliberação, foi condenado a um mês de prisão”. “Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio”. “As circunstâncias da morte do chefe de iluminação permanecem obscuras”. “Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente”. “O velho reformado, antes de apertar o pescoço de sua mulher até a morte, suicidou-se”.
E, para finalizar, esta pérola: “Nossos leitores nos desculpem por este erro indesculpável”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/07/1999.

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INTIMIDADE DEVASSADA

Recebi, de alguns leitores, cartas ou e-mails falando sobre o artigo Intimidade, que publiquei no dia 04 deste. Para quem não leu o referido artigo – e apenas para acompanhar o raciocínio dos leitores que me escreveram – digo que ele tratava do sagrado direito que temos de preservar a nossa intimidade e dos poucos amigos que a conhecem, sem precisar devassá-la, pois dela participam.
Voltando ao que recebi. Escolhi três leitores diferentes, identificados apenas pelas iniciais, que, cada um a seu modo, escreveram sobre o artigo
“Intimidade”. Como os textos são longos, tomo a liberdade de condensá-los.
O primeiro leitor(AJL) limitou-se a remeter o texto muito conhecido “Procura-se de um amigo”, de Vinícius de Moraes. Aí vão algumas partes: “Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir… Deve guardar segredo sem se sacrificar…Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar…Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo dever ser o de amigo…Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive”.
A segunda carta é de uma leitora (LPCC). Diz ela: “Sagradas as amizades. Você já definiu tão bem o que é um verdadeiro amigo. Posso acrescentar? E o que é necessário para que duas pessoas sejam amigas? Algumas afinidades, uma ética rigorosa no comportamento, uma lealdade inquestionável, e, o mais importante, aquela coisa que não se define, nem na amizade nem no amor, que não se sabe porque acontece: o gostar… Com os amigos deve-se fazer como fazem os bancos recadastrar periodicamente. As pessoas infelizmente mudam, e às vezes para pior.”
A terceira carta é de uma leitora do Rio, psicanalista de profissão(TSPO) que escreve: “ Você deve perturbar muito seus leitores… e provavelmente, também, enchê-los de prazer…Você utiliza um recurso que obriga o leitor a se deter, a prestar atenção ao que está lendo. É também um ‘chega prá lá’ que você parece dar, no real, aqueles que, justamente, querem chegar perto demais sem que para isso tenham conquistado o direito. É algo que você usa, desconsertando o invasor, pedrinhas que coloca no caminho como se dissesse que não é tão fácil assim chegar perto de pessoas atentas…Combina a delicadeza da sensibilidade à crueza daquele que não faz concessões… Agora, uma discordância(e ela me cita): “ algumas pessoas se aproximam e dizem que gostam de nós. Ora, como podem gostar do que não conhecem”(termina a citação). E ela continua: “ E eu digo: o pior é que quase sempre os que gostam de nós não nos conhecem. Pelo menos por inteiro. Mas e se nós mesmos não nos conhecemos? E quem pode impedir que o outro goste de uma coisa em nós que ele inventou (idealização)? Ele ( o outro), às vezes precisa, para sobreviver, amar o que não existe. Mas que existe para ele. E logo existe…”
Obrigado aos três.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/07/1999.

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BIP

Gosto de ler o que escreve Carlos Heitor Cony e acompanho seus artigos e romances há anos. Fala de tudo, especialmente do que nos aflige e sufoca neste país ainda sem destino certo. Critica, mostra erros, dá exemplos e sugere soluções. Diz do seu ateísmo e não esquece o seu tempo de seminário. Se considera um homem antipático, não gostar de muito papo e conversar com muita gente. Criou o seu mundo particular e, nesse mundo, havia um lugar para o amor que dedicou a um cão. Falava dele com um enlevo que enternecia e deixou claro a sua dor quando o seu animal de estimação morreu. Mandou enterrá-lo em cemitério zoológico e se fez triste por um bom tempo. Visita o túmulo do seu cão e, vez por outra, deixa claro que a ferida ainda não cicatrizou.
Há pouco mais de um ano ganhei um cãozinho de presente, pequeno, castanho, peludo, mistura de duas raças estrangeiras e de uma meiguice que aplaca a raiva de recolher o seu cocô pelos cantos que escolhe. É solícito, gosta de brincar com bolas e se põe bípede quando chego do trabalho ou lhe acaricio a cabeça pequena e irrequieta. Agora, no quarto crescente da maturidade, passo a entender o sentimento de Cony e de muitas pessoas que se apegam a um cão ou a um gato. Os animais não falam, não discutem, não criticam, contentam-se com pouco e são extremamente reconhecidos a quaisquer gestos.
Um dia desses assisti a um filme sueco em que um menino foge de casa porque os pais não deixaram que criasse um cão. Fugiu de bicicleta, com o cão dentro de um cesto no bagageiro. Os pais ficaram aflitos e depois de muita procura conseguem localizar o filho e aceitam o cão que rejeitavam. E ai entenderam que o seu filho único precisava de uma companhia leve, como não costumam ser os pais.
Não sei o que dizem psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas e psiquiatras sobre a criação de animais domésticos, mas a minha pouca experiência demonstra que eles ajudam a dar paz às pessoas a quem estimam. É claro que não estou dizendo que um “pet” substitui os relacionamentos humanos, saudáveis, indispensáveis e enriquecedores. Gente precisa de gente, sempre. Mas, tenho consciência de que há uma complementação sutil no lidar com o silêncio, o olhar indecifrável e a alegria manifestada em movimentos do corpo de um pequeno cão. Agora, neste instante em que escrevo, o “Bip”, meu cão de estimação, está aqui dormitando, esperando que eu levante do computador para brincar com ele e, se não o faço, cobra em latidos a minha atenção.
Pode parecer tolo o que escrevo, mas nós precisamos, de vez em quando, ficar tolos, se é que não o somos sempre. Dizia Churchill que “os tolos, às vezes, estão certos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/08/1999.

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PAIS E PAZ

Já vai bem longe o tempo em que os pais faziam e aconteciam. Hoje os pais, via de regra, pisam em ovos ao falar com os filhos. Quando falo de pais, estou falando do plural de pai, o bicho homem.
Os que foram e são pais nestas três últimas décadas sabem a diferença entre o que viveram, enquanto filhos, e o que tentaram ao quebrar as barreiras do relacionamento humano, estabelecer vínculos de amor e laços de ternura.
Há muitos dilemas no relacionamento pai e filho. É lógico, racional e educativo estabelecer limites, agir com firmeza, mas o coração amolece e a vaca vai para o matadouro. Os filhos, desde cedo, são exímios em testar os pais, pedindo o que podem e não podem, o que devem e não devem. Ao menor sinal de fraqueza o tiranozinho ou tiranazinha vai ganhando terreno e adquire hábitos que, quase sempre, comprometem a sua vida. Como as coisas do mundo não são fáceis, os que recebem tudo podem ficar despreparados para os embates do dia a dia, por toda a vida.
É preciso que se deixe claro o que é certo e errado e isso vai depender dos valores dos pais. Daí é essencial que a relação pai x filho seja baseada na franqueza e não se crie um escudo protetor isolando o filho da realidade. Os erros provocam consequências e isso os pais, mesmo cortando seus corações, devem deixar que aprendam para não repeti-los.
Os filhos costumam exagerar na atenção que necessitam. Nem tanto ao rio, nem tanto à margem. Distribua o seu tempo. Há tempo para tudo e isso não quer dizer que os filhos tenham o direito a usar todo o seu. Você tem compromissos e desejos outros. Use o bom senso e não fique com sentimento de culpa por umas férias necessárias ou um fim de semana para desanuviar o juízo.
Não prometa o que não pode e não fique estabelecendo comparações. Os filhos são severos na cobrança do prometido e não aceitam referências ao filho de fulano ou ao irmão que dá bom exemplo. Os filhos podem até mentir, mas não gostam de saber que seus pais mentem.
É bom que você tenha fé para transmitir a seu filho, mas é ruim que transmita a idéia de um Deus que pune e cobra. O “novo Deus” deve ser solidário e entender as fraquezas de todos nós. É como se fora um Deus-gente ao invés de um Deus-bicho papão.
Não enrole nas respostas. Se não sabe, diga. Um dia o filho vai saber que também não sabe. Não banque o durão. Há uma diferença entre ser firme e duro. As pessoas firmes têm e mostram sentimentos. As pessoas duras escondem ou escamoteiam.
Respeite os medos do seu filho. Não brinque com os fantasmas dele, você ainda tem os seus. Por outro lado, mostre que o medo faz parte da vida e só quando o entendemos é que podemos superá-lo.
Não queira que o seu filho seja você. Ele tem 50% de outros genes e vive um tempo novo que não é o seu. No máximo, queira que ele conheça você para entendê-lo e estabelecer uma relação de paz em que o bem querer não é uma virtude, mas um processo de aprendizado contínuo, a partir da tolerância e do respeito à individualidade do outro.
Posso ter me contradito? Paciência, pai é assim mesmo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/1999.

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VIAGENS VAPT-VUPT

Eu tenho me especializado em viagens vapt-vupt. Por minha natureza e atividades acostumei-me a ser rápido. Vejo tudo de forma seletiva, faço sempre o possível, mas ainda tenho tempo de olhar os meus sóis e luas, comprar livros, ver teatro, identificar e conversar com tipos estranhos, algumas poucas compras e volto. Não é não gostar de ficar. É claro, gostaria de permanecer sempre um pouco mais. Há, no entanto, um sentimento de urgência e responsabilidade me trazendo de volta, sempre.
Isso, entretanto, não me impediu de ver o sol da meia noite em Narvik, no Polo Norte, de participar de cerimônias budistas em Tóquio, de andar de riquixá em Seul, de fotografar as cataratas do Niágara quase congeladas, voar sobre os Andes, tentar esquiar nos Alpes, andar de camelo no Cairo, tomar um pisco em Lima, perambular pelos corredores da Casa Branca, subir as escadarias das pirâmides do México, ver dois papas em Roma, pisar na calçada da fama em Los Angeles, ser roubado em Nova Iorque, ouvir discursos malucos em Londres, sair vivo do Mar Morto, perder um trem em Baden, mexer em relíquias do campo de concentração em Auschivitz, fazer um check up em Frankfurt, curtir as ladeiras e curvas de San Francisco, passear na cidade proibida em Jerusalém, estudar em Massachusets, ver os destroços da deposição de Allende em Santiago, virar a noite em Madri até a polícia nos mandar para o hotel, jogar em Las Vegas, atravessar o antigo muro de Berlim, aprender a gostar de Miami, aguentar o papo dos gondoleiros de Veneza, conversar uma noite inteira com uma estranha em Saint-Malo, tomar banho em Punta Del Este, repetir as casas de tango de Buenos Aires, passear de navio pelo Caribe, enternecer-me com o Mosteiro dos Jerônimos, andar de barco no Mar da China, discutir sobre Robert Frost em Barcelona, brincar no Tivoli Park em Copenhague e muita coisa mais.
Pode ser que alguém ache – e talvez tenha razão – que quis me mostrar. Quem escreve se mostra e se mostro onde andei de carro, trem, avião e navio aí a coisa fica mais à mostra. Paciência, faço parte de uma família de andarilhos. Começou com Pero Vaz de Caminha, meu “ancestral materno”.
Gosto de ver o mundo do meu jeito, ficar olhando os nativos de cada lugar. Nós somos pessoas de um mesmo planeta, mas como somos diferentes. Não é só questão de raça, religião ou do lugar onde moramos. É algo maior, misturando os costumes, a cultura e o jeito de cada um ser, ver e viver o mundo.
Recentemente, li um livro da jornalista Sônia Nolasco, “Moreno como vocês”, nele ela narra o choque cultural e social de brasileiros morando em Nova Iorque e suas identidades abaladas. É um livro profundo na análise dos comportamentos dos expatriados e lembrei dele porque, nesta última viagem feita, li no “The Brazilian Sun” um depoimento de uma jovem, após quatro anos nos Estados Unidos, resolver entregar os pontos e voltar em meio a desilusões.
Quem sabe se as minhas viagens vapt vupt não sejam para eu não perder o meu senso de lugar e me imaginar fazendo parte de um mundo não meu? O meu é aqui, onde estão as pessoas amadas, conheço até os buracos das ruas, sei quem são as criaturas boas e as maledicentes e me sinto parte dessa coisa informe chamada comunidade que, na verdade, poderia ser mais solidária.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/08/1999.