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VATICANO, WOJTYLA E VOTO

Corria o ano de 1965, era outubro, e eu estava em Roma. Primeira viagem à Europa e acontecia o Concílio Vaticano II. Ver como ele acontecia era um desejo curioso de um jovem adulto. Por sorte, havia um bispo amigo da família. Ele, literalmente, abriu as portas e passei sob as vistas da guarda suíça. Vi o alvoroço interno. Eram cardeais, bispos, padres e civis cuidando daquela reforma que marcaria o pontificado de Paulo VI. Depois, fui ao Colégio Pio Brasileiro e conversei com padres que faziam doutorado em teologia.
Vivia-se um tempo diferente. O mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e as posições ideológicas eram extremadas. Mas, a Igreja Católica Romana, analisava e montava suas novas estruturas teológica, pastoral, política e social, desde 1962. O Concílio, no meu olhar, trabalhava a partir da ideia de fé e fraternidade universal, considerando o domínio de novas técnicas, o progresso da ciência, as transformações psicológicas, morais e religiosas da humanidade e os muitos problemas pessoais, familiares e coletivos. Tudo isso, objetivando satisfazer as aspirações do gênero humano e tendo Jesus, como solução e resposta.
Depois de sentir o pulsar do Concílio Vaticano II, fui ver a Capela Sistina e os museus do Vaticano. Confesso ter ficado chocado com a riqueza, pompa e tradição. Ao mesmo tempo, lembrava das parcas coletas de esmola para as ditas Obras das Vocações Sacerdotais aqui no Brasil. Não tinha eu ainda a noção da Igreja como Estado e de que seu acervo de obras de arte se confunde com ela própria. Se tudo fosse vendido e repartido, a miséria do mundo não acabaria. A miséria é maior e mais profunda.
O tempo passou. Veio 1978, o ano dos três papas. A morte de Paulo VI; a escolha e infarto fatal, 35 dias após, de João Paulo 1º; e, a eleição de João Paulo 2º, ora sepultado. Wojtyla, eslavo, operário, ex-soldado, ex-ator, quebrou a centralidade italiana de 450 anos, foi um grande diplomata e midiático propagador da Igreja. Alguns teólogos, L. Boff entre eles, o intitulam de ultraconservador. No tempo do seu pontificado, participando ele ou não, foi que a guerra fria acabou, o muro de Berlim caiu, a URSS se dividiu e a Comunidade Europeia surgiu. Neste 2005 ainda é cedo para julgar o pontificado de 26 anos desse polonês que misturava, é verdade, uma mão de ferro na gestão da Igreja ao carisma nas muitas viagens pelo mundo. Sabe-se que o Vaticano, lento em mudanças, costuma ser rápido, como regente de votos, em tempos de crise. E a morte, apesar da ressurreição sonhada e prometida, ainda é uma grande crise.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2005.

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SAINDO DA FOSSA

O tempo de cada pessoa passa, segundo a segundo. A consciência desse detalhe acaciano nos faz pensar em não gastar mal a nossa máquina de viver, o corpo, que se imagina também possa abrigar uma alma. Como o tempo pode nos oferecer, sem que se peça: rugas, gorduras, celulites, dor nas costas, olheiras, pressão alta, insônia, visão curta, torcicolos, cabelos ralos etc., vamos nos olhando nos espelhos e procurando respostas. A resposta é o próprio tempo. Essa ampulheta cruel que não para. Entretanto, muita gente acredita que há formas de ir enganando o tempo, como se fora um Mefistófeles, e imagina fazer plásticas, regimes que aparecem em revistas e se submeter a uma ditadura da estética que não tem referência padrão, mas que mexe com a cabeça de muitos. Ou ler autoajuda.
Um cara, sem profissão conhecida, resolve escrever um livro de medicina alternativa e vende milhares de exemplares. Mera e insossa colagem de publicações antigas de medicina natural. Mas os incautos compram e acreditam que, fazendo isso e aquilo, conseguem atrasar o seu relógio vital. Outros oferecem respostas prontinhas para o dia-a-dia em livros dito interessantes ou milagrosos que servem para dar conselhos, lições de vida, imaginam muitos. Cópias deslavadas. Apesar de tudo isso, de repente, caem na real vida e lá vem crise existencial. Um dia desses, por exemplo, uma pessoa amiga ligou e falou que a sua vida não valia mais nada, pois mesmo com plástica, regime, botox, alongamento, personal, acumputura, Reik, florais de Bach e uma vidente, o seu relacionamento havia ido para o brejo. Estava na fossa. Não concluiu. Caiu no choro e desligou.
Dei um tempo e liguei de volta. Vi que não adiantava repisar conselhos manjados. Não era simples fossa, parecia uma depressão pra valer. Imaginei que só resolveria com ajuda psiquiátrica. Foi daí que perguntei a tal pessoa: você tem plano de saúde tal? Ela falou que sim. Recomendei, então, o nome de um amigo psiquiatra. Maduro, fumante, ouve música, toma umas e outras nos fins de semana, escreve sempre e lê tanto que está quase cego, mas entende de farmacologia e da alma humana, vivido e sofrido que é.
Havia esquecido do fato. Após poucos meses eis que a pessoa me liga de volta, voz firme: “alegre e feliz com o que tem e o que é, sem essa de chorar o relacionamento que já estava falido mesmo” e diz que está “partindo para outra”. E ressalta que a ligação era para agradecer-me a indicação do nome do médico que a ajudou a “sair do buraco e recuperar a autoestima”. O que mais destacou: “não pagou nada”, bastou mostrar o cartão do plano de saúde e foi atendida com profissionalismo e descontração”. E pede para que eu faça uma crônica e diga o nome do médico que a atendeu. Não sei se ele vai gostar, mas o nome é Airton Monte. Pedido satisfeito.

João Soares Neto,
Escritor,
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2005

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VESTIBULAR – A PRIMEIRA MARATONA

A imagem que me ocorre no momento é a de que a vida é uma espécie de longa maratona. Você sabe como os atletas se preparam para uma maratona? Fazem exames médicos, usam roupas e sapatos adequados, estudam as regras da corrida, formam um pequeno grupo para treinar junto, contratam um treinador, passam anos e anos a acordar cedo aprendendo a correr.
A vida real, não a ideal, é mais ou menos assim. Sempre – e para tudo – é preciso ter boa saúde. Imagine que você consegue ser empregado(a) de uma farmácia. Além de passar o dia todo de pé, o que exige um bom preparo físico, ainda terá que interagir com clientes, decorar nomes de remédios, saber para quais doenças servem e entregar ficha com o seu nome na hora da venda. Se, ao final do mês, a quantidade de fichas e os valores dos remédios forem compatíveis com o que determina a gerência, você fica. Caso contrário, será despedido(a).
Sendo você mais ambicioso(a), não desejará ser apenas balconista. Digamos que deseje fazer um curso superior sério. Aí vai precisar estudar regularmente, escolher a profissão que mais se assemelha ao seu jeito de ser e tentar um vestibular. A dúvida na escolha da profissão é cruel, pois somos jovens e indecisos à hora de fazer um vestibular. Há tantas carreiras charmosas e a que escolhemos sempre nos parece a mais chata e a que exige maior dedicação. Não é verdade. Todas as carreiras exigem a tal da regularidade no estudo e perseverança. A perseverança é a coragem de ir em frente quando temos vontade de mandar tudo para as cucuias. É deixar de ir àquela festa ou praia e meter a cara nos livros, enquanto o irmãozinho fica nos azucrinando o juízo pedindo para consertar a sua velha bicicleta, que já foi nossa.
O vestibular é também um exercício de memória, a contraprestação do aprendido, sem esquecer dos outros maratonistas que estão ao nosso lado. Todos correm na mesma direção, para entrar na primeira experiência como quase adultos, que é o estudo superior. Ora, se é superior, certamente é porque nos exigem que sejamos acima da média. Se ficarmos na média, estaremos no limbo, que é aquele espaço entre o céu – ou a felicidade – e o inferno – ou a infelicidade. Ninguém deseja ficar no limbo. Para isso é preciso estudar, estudar sempre e com método. O vestibular é uma espécie de hall de entrada da vida, um vestíbulo, em que os espelhos das paredes refletem se estamos adequados para entrar.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/04/2005.

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TRISTEZA NO AR

Nos últimos dias tomei quatro voos diferentes. Como todos sabem, em cada voo há uma tripulação específica: comandante, co-piloto, comissário(a) chefe e comissários(as). Os aviões costumam ter, pelo menos, duas classes: executiva e econômica. Nos voos mais longos, pode haver uma primeira classe. O que distingue essa categorização é o maior tamanho da poltrona, uma tênue cortina que a separa dos demais e o serviço que inclui, nas classes primeira e executiva, bebidas alcoólicas e um cardápio que permite opções nas refeições. Essa tentativa didática, e talvez até dispensável, é para chamar a atenção do que está acontecendo, além do que já se sabe, com a aviação comercial brasileira.
A crise é bem mais profunda que a qualidade do assento e da alimentação servida e sobre ela já falaram tantos. Até agora, nenhuma solução foi encontrada. As dívidas aumentam, empresas fecham, outras devolvem aviões etc. Não tenho a solução para a crise, pois esse assunto se arrasta há anos e, parece, que políticos que voam muito, sempre acenam com prováveis saídas. Que venham.
O que me preocupou nestes últimos quatro voos foi a apatia, uma espécie velada de tristeza, das tripulações. Fazem o serviço seguindo o manual. Teoricamente são polidos, mas está faltando alegria no ato de trabalhar dos aeronautas. Cumprem a obrigação, mas sem amor. E o que digo não é obrigado a ser certo, mas tento errar o menos possível. Em um desses voos, procurei conversar com uma comissária e perguntei porque ela estava visivelmente triste. Foi o bastante para que uma torrente de afirmações saísse. Primeira queixa dela: estava trabalhando em escala apertada, em face das demissões na empresa para diminuir custos. Segunda queixa: não sabia até quando continuaria a trabalhar. Temia uma estafa ou receber o aviso prévio.
No mesmo instante pensei nos pilotos na cabine, aqueles a quem são entregues os sofisticados aviões de hoje em dia e no pessoal da manutenção em terra, a quem cumpre checar se tudo está certo antes da decolagem. Na história da aviação comercial há exemplos claros de erros humanos que causaram a morte de muita gente, mas essas falhas poderiam ser minimizadas se a tripulação estivesse trabalhando com a cabeça tranquila e descansada. Bem que o Departamento de Aviação Civil, sabedor de tudo isso, poderia olhar logo o lado humano da crise, antes da solução financeira, se é que vai haver.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/05/2005.

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INSEGURANÇA, DESONESTIDADE E IMPOSTOS – Jornal O Estado

A maioria das pessoas com as quais converso só tem hoje três assuntos para falar: insegurança, desonestidade dos políticos e o absurdo dos impostos. Vamos à insegurança: falam em assaltos-relâmpagos, sequestros, assaltos e que tais. Já esqueceram a Copa perdida e ainda não se fixaram nas eleições de outubro. Adoram contar casos pessoais, de familiares e de figuras públicas. Contam como se tivessem narrando uma cena de novela e acreditam que suas versões são verdadeiras, pois souberam, por sofrimento próprio, ou narração das vítimas e de amigos íntimos. São detalhes mínimos, alguns meios cruéis, outros romantizados. Falam pouco do descaso na prestação da segurança pelas várias esferas de governo. O fato é que hoje ninguém se sente mais seguro, quer more na periferia, em casa com vigilância ou em condomínio-prisional, pois há guardas, câmeras, alarmes, grades e senhas de entrada. As casas viraram prisões, por conta do medo disseminado como uma peste e contaminando a todos.
A desonestidade dos políticos é outro assunto em moda. Falam com deboche, com escárnio, mas há muitas pessoas esclarecidas, mesmo assim, a prometer repetir votos em candidatos confessadamente comprometidos com os últimos escândalos que movimentaram comissões parlamentares de inquérito e deram manchetes a jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão. Alegam: todos são iguais, farinha do mesmo saco, e que ladrão por ladrão votam nos que ideologicamente lhes são mais próximos. Quanta incoerência, quanta irresponsabilidade e que exemplos dão quando são formadores de opinião e escancaram suas preferências por políticos que não podem negar a participação ativa ou passiva em corrupção pública.
A alta carga tributária é o terceiro assunto que mais ouço falar. Todos, do trabalhador avulso ao mais bem remunerado dos executivos, dão mais de quatro meses de salário ao governo. Ou dão sob a forma direta de imposto de renda ou sob a forma velada ao pagar ICMS da energia, de telefone, água e esgoto. De IPI na compra de bicicletas, motos, carros, roupas, sapatos e alimentos. Em tudo se paga imposto, desde o IPTU da casa onde moramos, ISS nos serviços, ao IPVA quando temos carros, como a CPMF em cada cheque que emitimos para pagar compromissos e impostos.
Se estivermos satisfeitos com insegurança, desonestidade dos políticos e a alta carga tributária que pagamos, devemos votar nos mesmos candidatos que elegemos e não fizeram nada para modificar a situação. Prometeram, mas não tiveram tempo em quatro anos para nos dar um mínimo de segurança, de cuidar de ser honestos e de baixar a carga tributária. Preocupem não, estão prometendo para o próximo mandato. Votem neles, de novo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2006.

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TREINANDO PARA VOTAR – Diário do Nordeste

Eleitores precisam de informações sobre os cargos e os candidatos, conhecer suas histórias de vida, seus atos públicos, ouvir menos propaganda enganosa e ter responsabilidade com os seus votos, pois não votam uma vez no dia 01 de outubro, mas várias.
João Soares Neto

Em crônica que publiquei em 1987, dizia que os eleitores não têm o direito de reclamar dos políticos eleitos. Eles foram eleitos por nós. Tem o nosso jeito. Os eleitos são, quer queiramos ou não, parecidos conosco. Agora, neste 2006, haverá nova eleição. A que escolhe deputados estaduais e federais, um senador, vice e governador, vice e presidente da República. Deputados e senadores são delegados diretos do povo, não despachantes a serviço de eleitores. Governadores são gestores, administradores e controladores das várias e complexas faces dos estados. O presidente da República é o mais graduado funcionário público do país, e a ele compete gerir com equilíbrio, segurança e honradez uma nação que já seria maior não fora os incontáveis desvios acontecidos ao longo da história brasileira republicana.
Nada de novo no que escrevi, mas esta obviedade precisa ser repetida, entendida e vivenciada por eleitores e candidatos. Por incrível que pareça, algumas pessoas querem ser deputados porque não deram certo em outras atividades. Outros acreditam que exercem um cargo vitalício. Ser deputado é uma tarefa nobre, com tempo certo, e pressupõe que a pessoa exerce tal cargo com a dimensão da sua responsabilidade pública. O governador é um delegado-empregado da sociedade e a ela deve satisfações. O presidente é o funcionário público mais graduado do país. Tudo isso seria mais bem percebido se os partidos políticos tivessem a humildade de dar cursos de iniciação política e, principalmente, cuidassem que seus candidatos aprendessem, pelo menos, rudimentos de direito eleitoral, ética, noções de direito constitucional, representação popular, fidelidade partidária e por aí iria.
Por essa razão, tomo a liberdade de sugerir aos coordenadores dos cursos de direito que assumam essa função: escrevam cartilhas simplificadas com perguntas e respostas sobre eleições. A idéia deveria ser discutida com os alunos. Dessa forma, pelo menos na minha ótica, seus úteis ensinamentos poderiam – ou poderão – gerar uma aura benfazeja junto aos partidos políticos, candidatos, Justiça Eleitoral e até para a mídia que a repassaria aos eleitores. Ora, se não sei o que vem a ser um deputado ou senador, qual o compromisso que tenho como eleitor? Se não conheço os limites da responsabilidade fiscal, dos graves problemas de segurança pública e educação, como me atrever a bem escolher um governador? Saberei que o presidente é “o mais alto dignatário da República”? Ora, para ser dignatário é óbvio que precisa ser digno, preparado, capaz. Eleitores precisam de informações sobre os cargos e os candidatos, conhecer suas histórias de vida, seus atos públicos, ouvir menos propaganda enganosa e ter responsabilidade com os seus votos, pois não votam uma vez no dia 01 de outubro, mas várias. É tempo. Há tempo.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/08/2006

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BOI CHOCO – Jornal O Estado

Cansado das praias conhecidas, bares, clubes e restaurantes onde sempre encontramos as mesmas figuras, algumas tristes, como as queria Cervantes, outras saltitantes, como manda a vida que escolheram, fui, com pequeno grupo de amigos, levado ao Boi Choco. Certamente, vocês não sabem onde fica o boi choco. Eu também não sabia. Ele não consta de roteiro turístico, tampouco dos lugares aonde os saltitantes espíritos vão ao sair de casa, não para comer ou beber, mas para serem vistos ou ver e falar o que não sabem.
O Boi Choco é um lugar perdido na zona oeste, no lado onde o sol dormita no crepúsculo, depois da barra de um rio, logo após o passar da grande ponte e começa outra cidade. Depois de se passar por um arruamento precário, chega-se a uma nesga de praia com pouca areia, em maré cheia. e uma curva profunda, com barracas de palha, mesas de madeira velha, cadeiras tortas e maresiadas, sons bregas emitidos por toca-fitas de carros com muito tempo de fabricação, múltiplos donos e alquebradas funilarias, mas que se afoitam a varar o areal, munidos de espontâneos capatazes dispostos a empurra-los quando o eixo traseiro afunda.
E foi em um desses bares, onde o próprio dono serve os comes e bebes vestido em encardido calção de cor indefinida e mostra as pelancas de sua protusa barriga, que ficamos. Ao lado, havia pessoas misturando cachaça com sukita e tirando gosto com cerveja, sem esquecer de dar uma colherada em um baião-de-dois que mostrava a independência do feijão e do arroz.
E foi lá que vi um bêbado que não era equilibrista, certamente não ouvira falar em Aldir Blanc, trocando as pernas e tartamudeando palavras, mas não escondia o desejo de mais uma bicada. Não sei se continuará bêbado, mas todo o seu sistema renal deveria estar sendo cobrado e os olhos vermelhos demonstravam a queda dos seus impulsos. E nas paredes estavam sendo afixados cartazes de candidatos, não mais com a velha cola branca, pois são autocolantes, eleição moderna, ora vejam. E quando me distanciei da roda para ver o mar de perto, ouvi o pio do meu celular informar que a bateria havia descarregado e eu estava só, isolado e olhando para a minha cidade, tão perto, mas distantemente silenciosa, não mais aquela que nos aconchegava a todos, mas a que amedronta em todas as esquinas, ruas e lugares. Ali, em meio ao sol da tarde e ao vento agudo que trazia micro grãos de areia vi meus olhos marejarem, mas isto é outra história.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/09/2006

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INDEPENDENCIA OU SORTE? – Diário do Nordeste

Quinta-feira comemorou-se mais um aniversário da Independência do Brasil. Já lá se vão 184 anos desde que D. Pedro I, “às margens do riacho Ipiranga, resolveu cortar os laços com Portugal”. O mais estranho nessa história é que esse mesmo D. Pedro I, Imperador do Brasil, foi, quatro anos depois, escolhido Rei de Portugal, ainda que pelo período mínimo de sete dias, entre abril e maio de 1826, com o nome de D. Pedro IV. Ora, se era para romper os laços, como é que D. Pedro I veio a ser, tempos após, Rei do país que havia perdido a sua mais importante colônia? Coisas de família real, os Orleans e Bragança que mandavam aqui e lá. Será que isso mudou muito?
Agora, nesta antevéspera de uma nova eleição, inclusive para presidente da República, uma espécie de “rei” para grande parte da população, exatamente a que vota agradecida por favores recebidos, pois não possui o menor sentimento de cidadania, não conhece os direitos que tem, analfabeta que é. Não falo do analfabeto político a que se referia Bertold Brecht e é comumente citado, mas do dito analfabeto funcional, o que apenas sabe escrever o seu nome e não possui, pois estudo não teve, capacidade de analisar criticamente virtudes e defeitos de candidatos.
Dessa forma, o país que todos desejamos independente, só o será por sorte, pois o fado não concede prazos para quem não se qualifica aos humores do mundo, que nos cobra desempenho, responsabilidade e atitude. É patético ouvir frases que justificam votos a pessoas sabidamente comprometidas com falcatruas ou incompetentes. “Todos são iguais”, “farinha do mesmo saco” e outros que tais, são exclamações de quem não tem tempo a perder com a escolha consciente de candidatos ou, infelizmente, não sabe mesmo escolher e vai à onda.
Ao ver as paradas militares, os pronunciamentos de políticos e a cegueira de grande parte da imprensa, só nos resta exercer, mesmo com indignação, os votos que somos obrigados a dar. O fato de ser obrigatório, como forma de consolidar o hábito democrático de votar, transformou-se em pesadelo para quem não acredita mais na ordem que está vigendo e não sabe qual a melhor saída que nos tire da opção da sorte e que nos conduza não à morte, mas à vida.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/09/2006.

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ADMINISTRADORES, SENHORES DO FUTURO – Jornal O Estado

Estudo administração desde a década de 60. De lá para cá já convivi com várias designações da carreira. No princípio era Técnico em Administração, depois resolveram transformá-la em Bacharel em Administração. Em seguida, reduziram-na para Administrador. Qualquer que seja o nome, pois hoje o importante é o saber e não o nome que se dá ao detentor do conhecimento, há uma consolidação dessa atividade, ciência ou profissão. A par disso, explodiu no Brasil uma miríade de cursos de MBA e mestrados que, salvo exceções, não acrescentam muito ao que se aprende na graduação e na prática, fazendo, errando, lendo e consertando.
É bom lembrar que em 1903, Henry Ford fundou uma empresa que fabricava veículos e introduziu a linha de montagem e os processos de automação. Surgiam, então os fundamentos do fordismo, tão criticado por Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos” e, posteriormente, no livro “Admirável Mundo Novo”, de Adlous Huxley. Ao mesmo tempo em que Henry Ford praticava gerência, Frederick Winslow Taylor, considerado o pai da profissão, concebia a ideia da racionalização do trabalho e dava o embasamento teórico da “engenharia social”, nome primitivo da atividade.
Do outro lado do mundo, precisamente na França, Henri Fayol começava a definir o lado conceitual da administração. Isso foi apenas o começo. Agora, nestes tempos informáticos e performáticos, há, como já disse, um número imenso de escolas e faculdades de administração pelo Brasil afora. São cursos de montagem relativamente barata e a obtenção de licença de funcionamento do Ministério da Educação não parece ser tão difícil. O fato é que a profissão de Administrador já está quase empatando, em quantidade, com a de Advogado e isso seria positivo se a qualidade dos cursos fosse boa, mas não é o que consta, pelo menos é o que tenho ouvido falar de quem tenta recrutar bons administradores.
Esta é a semana do Administrador, uma profissão de futuro e do futuro, sem a qual a sociedade não mais teria capacidade de entender os mecanismos de funcionamento das empresas, um amálgama de procedimentos, entendimento de legislações, manutenção e prospecção planejada de novos negócios. Por essa razão é que os candidatos a Administrador devem procurar bons cursos. E bons cursos são os que exigem presenças, puxam pelos neurônios nos trabalhos e provas, incentivam leituras e cobram resultados. Os outros são auto-engano.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/09/2006.

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OUTUBRO ESTÁ CHEGANDO – Diário do Nordeste

Dá uma sensação esquisita ver e ouvir candidatos a deputado e até a senador, falando no tempo limitado da propaganda eleitoral gratuita na televisão como se estivessem pleiteando uma função de despachante, estafeta ou algo parecido. Na realidade, há uma parcela significativa de candidatos que não tem realmente nenhuma mensagem, além de serem desconhecidos da maioria dos eleitores; são os que se intitulam assim (Zé do Box) ou assado (Maria Parteira), colocando-se à disposição da comunidade em que atuam. E estou falando de candidatos pelo Brasil afora, pois me atrevo a sair catando essas preciosidades por aí.
Faltam duas semanas para as eleições, as esquinas estão cheias de bandeiras acenadas por “militantes” pagos, muros são pichados por todas as cidades, carros são adesivados e outdoors dizem das maravilhas que são os tais zés e marias. E assim, em meio a esse engenho, o Brasil mostra a sua cara, os candidatos, com exceções, é claro, são o que plantamos e colhemos em nosso tímido exercício de cidadania, nossa indignação capenga e na inapetência da maioria da população com o destino do país.
Em 01 de outubro, o Brasil informatizado, “coisa de primeiro mundo”, totalizará as urnas eletrônicas e dirá rapidamente a nós e ao mundo o nome dos vencedores aos cargos majoritários, os que passarão ao segundo turno e os dos novos e velhos representantes nas assembleias legislativas e Congresso Nacional. E as Comissões Parlamentares de Inquéritos, as tais CPIS, ainda por terminar, se arrastarão, os projetos prontos para a aprovação pela Câmara e Senado como “redenção” do país passarão para a próxima legislatura. O tempo que sobrará no ano que já finda será gasto com os segundos turnos, aonde e se acontecerem, para diplomação dos eleitos, arranjos, troca de partidos, limpeza de gavetas pelos derrotados, composição de ministérios, secretariados, estatais, descontingenciamento de verbas, confecção, distribuição e leitura de milhares de currículos de candidatos aos milhares de cargos comissionados e funções gratificadas, esse time que, meio desconhecido dos ocupantes do segundo e terceiro escalões, tece toda a trama burocrática brasileira, tão complexa quanto modorrenta, embora cheia de computadores e carimbos.
E o que importa é que dentro de pouco tempo, o programa eleitoral acabará, muitos muros continuarão pichados, o campeonato nacional entrará na fase decisiva, as compras de Natal ficarão aguardando a liberação do 13o salário. No próximo ano, teremos os jogos pan-americanos no Rio com a pompa e circunstância e a segurança pública cuidará de todos, que alegres e felizes poderemos comemorar a passagem do ano e nos prepararmos para o carnaval, pois ninguém é de ferro.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/09/2006.