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CARNAVAL. CARNAVAIS

Até que fiz planos para este carnaval. Tinha duas boas alternativas. Neste domingo, com certeza, onde estiver, e com quem estiver, terei livros por perto. Pena que já tenha concluído o inteligente romance “Equador”, do português Miguel Sousa Tavares, mas penso reler partes do bom “Tudo Faz Sentido”, ensaios de Raul Bellow, ou lerei algo novo. Mas, o que gostaria mesmo era falar de carnavais passados, sem essa de saudosismo, só lembrança mesmo. Era assim:
Quando meninote, em um dia de carnaval, junto com uma turma, estávamos trepados na carroceria de um caminhão que nos levava ao corso, percorria a av. Dom Manuel e entrava na Duque de Caxias. Na D. Manuel, as famílias sentavam às calçadas e o mais que acontecia era serem saudadas com talco, serpentinas e confetes pelas pessoas dos veículos que passavam buzinando com gente nos estribos ou sentada em seus para-lamas. Na Duque de Caxias, era o carnaval de fato, em uma pista, os veículos, na outra, os blocos e maracatus. Música, gente pulando, o bloco dos “sujos”, mas a polícia só fazia olhar. Não havia brigas e, quando ocorriam, logo serenavam. Pois não é que nesse dia aspergi todo um tubo de lança-perfume em uma encabulada colombina que tentava se equilibrar dos solavancos do caminhão.
Já adolescente, azucrinei meu pai para me levar a uma festa noturna. Só consegui na terça –feira. Seria minha estreia em carnavais noturnos, alegria total. Com jeito de homem, o juizado de menores não encheria o saco, pois estaria acompanhado dos pais. Acontece que já havia combinado ir a uma festa vespertina – tinha disso- na casa de uma amiga. Nada mais que uma sala decorada com qualquer coisa, discos, sucos, sanduíches e vontade de pular de mãos dadas. Resolvi que iria às duas, à da tarde e à da noite. Fui à da tarde, tudo do jeito que imaginara e a paquera foi legal. Cheguei em casa lá pelas oito da noite, tomei um banho, decidi descansar um pouco e só acordei na quarta-feira. O sono era tão profundo que meu pai teve pena de me acordar.
Casado, convidei casais para um drinque na minha casa, antes de irmos à festa no Ideal Clube. Para completar, vestíamos todos uma mesma fantasia e lá fomos nós de apito na boca e muita disposição para brincar. Mesa grande, bebida farta e diversão limpa, sadia. Depois, vieram as festas infantis, mas aí as estrelas eram as filhas e agora, por acaso, estou olhando para uma foto delas brincando em uma matinée. Evoé.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2006.

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MULHERES, SUTILEZA E CAPACIDADE

A revista Forbes, editada no Brasil, resolveu escolher a alguns meses, mediante eleição pela Internet — o que é democrático, justo e evita direcionamento, — as mulheres mais influentes do país. A ideia e o fato demonstram que mulheres estão saindo de meras coadjuvantes para figurarem na vanguarda. Imaginem, há mulheres comandando ou liderando áreas tão diversas quanto agronegócios, hotelaria, preservação do meio ambiente, política, jornalismo, varejo, cosmético, literatura, gastronomia, finanças, medicina e outros.
Não faz muito tempo, o Código Civil restringia as ações da mulher. Precisava da autorização do marido para realizar atos de comércio. Era assim e isso acabou. Acabou, não por deferência dos homens, mas pela mudança na velocidade dos acontecimentos. Isto nos alegra e mostra ser essa transformação mais célere que a capacidade masculina pode absorver. Ela é um terremoto feminino benéfico, eclodido para ficar e alterar as relações interpessoais.
Em ocasião recente, estive em uma roda da qual fazia parte uma das mulheres eleitas. Ela comanda um grande negócio em todo o Brasil. Impressionou-me o seu jeito de levar a conversa para o rumo desejado, mesmo sendo pressionada por interlocutor alemão, sem precisar levantar a voz ou alterar o gestual. O exemplo citado não é fato isolado. Hoje, mulheres ainda jovens, exercem profissões liberais ou lideram pessoas com segurança e leveza, deixando de lado a ideia botocuda de que seus acessos ao poder, quando ocorriam, seriam frutos de concessão masculina.
Os homens, ainda ciosos do poder unilateral, quando não cedem espaço, são atropelados pela sutileza, capacidade, firmeza de atitudes aliadas a rostos simpáticos, mas reguladores de comportamento. Do que tenho visto e de algumas conversas ocasionais com mulheres de ponta, fica bem claro, que elas sabem definir quem são e quais os objetivos pessoais e profissionais a serem alcançados. Haverá um tempo ainda, espera-se breve, no qual homens e mulheres lutarão, explícita ou tacitamente, questionando essa avalanche do sexo feminino como profissionais de bom quilate. Até lá, é bom todos procurarem entender que mérito e capacidade independem de sexo, mas de história de vida, desempenho, garra e liderança.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/03/2006.

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PORTE DE ARMA

Ao ler, no pachorrento domingo passado, o caderno Veículos da Folha de São Paulo, deparei-me com a reportagem de capa sobre o Salão do Automóvel ora em consumação em Genebra, na Suíça. Não se preocupem, não vou falar dos veículos, seus modelos arrojados e futuristas, mas de uma observação quase solta, que mostra como é vista a segurança em nosso país. Ao comentar determinado modelo, cuja marca não vem ao caso, o repórter diz de forma corriqueira, acidental e banal que “o teto fechado ajuda em países violentos como o Brasil”.
É assim como nos enxergam hoje, um país violento, ilhado pela desigualdade que gera insegurança individual e coletiva, o que está causando paranoia em muitas pessoas. Todos querem ficar fechados, isolados em suas casas gradeadas, com medo do que possa acontecer nas ruas, como se não bastassem os outros golpes comedidos por espertos.
Fiquemos apenas nas ruas. Hoje, todos conhecemos pessoas que foram vítimas de assaltos quando estavam aguardando em seus carros a abertura do sinal, dito semáforo. Todas as cidades têm pontos considerados “negros”, isto é, onde os assaltos ocorrem com frequência regular. A própria polícia nomina os cruzamentos perigosos e a imprensa os divulga. Assim, ao invés de eliminá-los, torná-los livres para todos, indica-se que é preciso contorná-los ou correr o risco.
Estar sitiado em sua própria cidade passa a ser um fato que pode modificar comportamentos de pessoas pacatas, responsáveis e sérias. Avultam os assaltos em transportes coletivos e em veículos particulares. Nesta semana, ouvi relato em roda de amigos, dito pela própria senhora assaltada, ao cair da tarde, voltando de seu trabalho, em uma avenida de grande circulação. Ouviu um grande barulho e teve dois vidros do seu carro quebrados simultaneamente por assaltantes. Um, quebrou o vidro traseiro esquerdo. O outro, o vidro direito, lado do passageiro, no banco dianteiro. Ao mesmo tempo, um roubava a sua bolsa que estava no chão traseiro do carro e, o outro, armado de uma faca, ameaçava-a e desferia palavras de baixo calão, tomando-lhe pertences, inclusive celular.
Atônita, tentou reagir e teve a sorte de sair viva, embora traumatizada. Em seguida, fez o registro da ocorrência na polícia, sem esperança de solução. Resolveu tomar uma atitude, vai fazer um curso de tiro e tentar obter um porte de arma, pois este foi o segundo assalto que sofreu.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/03/2006.

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CONY, 80 ANOS

O jornalista e escritor carioca Carlos Heitor Cony completou 80 anos. Lúcido, capaz, irônico, irreverente e lido. Os números redondos são importantes, devem ser lembrados e comemorados, pois definem épocas diferentes nas vidas das pessoas. Cada época com seu encanto e dores. Sou leitor cativo de Cony desde a minha juventude. Ele é referência do jornalismo brasileiro, expoente da crônica e consagrado palestrante.
Há dois fatos na vida de Cony que considero importantes, pelo menos na minha visão. Um é o conteúdo de sua vida como jornalista combativo e temido, o outro é a obra literária que criou, parecendo sem pretensões e que o consagrou. Destaco, entre tudo o que escreveu, o livro “Quase Memória, quase romance” em que fala de sua vida, da infância suburbana, do seu tempo de seminário com a falta de fé inata, família, do amor extremado ao pai e, como suspense constante, a existência de um pacote atado por barbante que nunca é aberto até a última página da história.
Em 28 de fevereiro de 1999, escrevi uma crônica aqui neste mesmo local do Diário do Nordeste, com o título “Eu, filho. Eu, pai. Eu, filho”, e a iniciei assim: “Todos nós, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a não ser mais daquela forma, as tintas tomam tons amenos e a acidez das críticas perde as peremptoriedades”, e aí me refiro a Machado de Assis em Dom Casmurro.
Nessa crônica de 99 falo de autores brasileiros, Machado de Assis, Zuenir Ventura, Érico e Luiz Fernando Veríssimo, mas o destaque é Cony. Lá pelo meio, digo: “Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as relações com o seu pai, jornalista que quase deu certo, já morto. E o faz com olhos de um homem maduro, já setentão, o que lhe permite sempre dourar a pílula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupação com a educação dos filhos, o microcosmo do seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore”.
É este homem simples e grande, que soube e ainda sabe ser filho de pai morto – e que chorou por escrito com a perda de sua cadela de estimação – que está merecendo os nossos parabéns pelo que nos deleita e ensina. Cony.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2006.

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ORAÇÃO, CÔCO, CHUVA E SOL

Estava andando pela areia da praia. Em meio a nuvens carregadas o sol pedia licença para sair e mostrar-se pleno. Era manhã cedo e procurei ver o meu derredor. Do lado esquerdo, perto de um espigão, um grupo de pessoas orava. Havia uma cruz de madeira fincada ao solo. Delimitava espaço e definia atitude. Estavam sentados em bancos improvisados de madeira, formando círculos. Não cheguei tão perto para ouvir o que oravam, mas dava para ver o estado de contrição de cada um. Pareciam estar a pedir proteção para as suas vidas, famílias e atividades. Mais à frente, na primeira curva, alguém montara uma venda improvisada de água de coco que poderia ser tomada em copos descartáveis ou em canudos devidamente encapsulados. Na precariedade do trabalho havia um mínimo de higiene e um atendimento cordial de um trabalhador desse tal mercado informal.
Ele estava ali porque certamente perdera emprego ou viera de uma paragem qualquer de uma cidade distante, banido pelo desengano. Mas tomara tento. Acreditava no que estava fazendo e usava uma flanela meio suja e úmida para limpar os cocos guardados em um grande isopor com gelo. A roupa, o corpo e as atitudes não mostravam uma pessoa derrotada, mas alguém que lutava com as forças que tinha e do jeito que podia para apenas varar o dia.
Logo à frente, um misto de guardador de carros ou flanelinha acena e ri com a fortaleza dos que sabem descobrir saídas, mesmo que tudo esteja adverso. Outra imagem, outro ensinamento a colher, por tantos que imaginam estar se cuidando e não ousam ver o seu derredor, tão pobre e tão rico.
Vou caminhando, o sol desaparece, cai uma chuva rápida, mas bastante forte para misturar-se ao suor de cada um, como se fosse unção a dizer que a água é símbolo de refrigério, de bênção, de lavagem das mágoas, ressentimentos e, ao mesmo tempo, um toque sutil em cada pessoa dando-lhe esperanças, limpando-a e preparando-a para o novo dia. E o sol volta, agora com força, e os seus raios recaem sobre um grupo de estrangeiros sentado ao derredor de uma barraca a beber e conversar, mais por mímica e afetos que por palavras, com jovens mulheres ainda em trajes usados para a noite de trabalho que podem ter tido, não se sabe a que preço, por quais razões e com quais sentimentos.
Pouco além, muitas pessoas obedecem a um instrutor e tentam alongar seus músculos, como se estivessem procurando estirar seu tempo no mundo. E o instrutor fala firme, corrige, exemplifica e vai mudando de comando, assim como a dizer que pés, pernas, coxas, cintura, abdome, ombros, braços, mãos, pescoço e cabeça, precisam de atenção como se cada um deles estivesse cobrando a parte que lhe toca neste bailado sem música, mas ritmado pela esperança.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/03/2006.

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TOLERÂNCIA

A convivência social nos obriga a ser tolerante. Engolir sapos é uma arte que vamos aprendendo ao longo de nossas vidas. Começamos a ser tolerantes com os pais que, desde cedo, na ânsia de nos transformar em “gente”, nos obrigam a seguir horários, tomar banhos, ir a escola, cortar cabelos e unhas, comer o que não queremos, respeitar os mais velhos, aguentar o chato do irmão, tomar remédios que nos tornarão fortes e saudáveis, rezar para pedir perdão (de quê?) a Deus etc.
Na escola ficamos horas e horas ouvindo professores falarem, muitas vezes sobre coisas que não nos interessam. Apesar disso, além da tolerância em assistir aulas enfadonhas, passamos a estudar matérias chatas e com pouco ou nada a ver conosco. Em outras palavras, devemos ser bons em assuntos que não são bons para nós. Muita gente dirá que as crianças e os adolescentes ainda não têm a capacidade de saber o que é importante ou bom para os seus futuros e é preciso colocar muitas informações em suas cabeças, na ilusão de que isso possa se transformar em conhecimento.
Não concordo com essa ideia. Desde cedo deveríamos estudar aquilo que nos atrai, aguça a curiosidade e mexe com a inteligência. Sei, por outro lado, que é preciso de um instrumental básico, a partir do qual se pode ir estudando com prazer. Sei também que há um conjunto de regras sociais necessárias à convivência.
Tudo isso não deve invalidar o prazer de estudar. Esse é um dado que professores e pedagogos parecem levar pouco em conta. Se isso é verdade, eles não estarão sendo tolerantes com crianças e adolescentes que precisam de estímulos e emulações para acordar cedo, cumprirem horários e ter regras de vida. A escola deve atrair o aluno, ser prazerosa, alegre e receptiva.
Há um equívoco muito grande dos pais em imaginar que as escolas farão de seus filhos os geniozinhos desejados. Seu filho querido é, via de regra, apenas um no meio de dezenas de outros. Você é que deve ser tolerante com ele. Ouvir suas queixas, entender suas reações com os colegas e professores e lhe mostrar o mundo não como uma versão de Walter Disney ou de Federico Fellini, mas esse mundo real em que os contrários têm que conviver e aprender que a tolerância é sempre um grande aval de boas maneiras nessa vida competitiva e pluralista.
Entranhe-se com seu filho, ao invés de estranhe-se. Misture-se, envolva-se, participe e acredite no potencial dele, sem endeusá-lo, mas o aceitando como uma pessoa autônoma que não é um clone seu. O DNA não é tudo. O amor, a compreensão e a tolerância são ferramentas para torná-lo forte, sem que perca a sensibilidade tão necessária ao equilíbrio emocional indispensável aos embates que terá por toda a sua vida.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2006.

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A PRAIA DE LUA GRANDE

O mês de março de 2006 teve uma brisa forte soprando sobre a maturidade de Ednilo Soárez, debutante no difícil campo do romance. A brisa chegava do mar, ali em frente de quem entra no Ideal Clube pela Monsenhor Tabosa. Até uma lua grande (ou seriam os refletores?) aparecia, despistava e voltava trazendo os personagens do romance de estreia do adolescente que deixou sua terra, entrou na Marinha, andou por mares inéditos em nós lentos, de olhos à escuta. Mas, voltando apascentado à terra-mar, não retratou os mares dos outros, mas o das nossas paragens. Ateve-se a falar de pessoas, intrigas, assassinato e amarrar um desfecho que permite, se o desejar, sequencia-lo.
Tinha mais gente por lá que em Lua Grande e, certamente, de patamares diferentes, formava um microcosmo assaz rico para os olhos vários dos que, convidados, chegam nos trinques e ficam a passear de livro às mãos, como se fosse uma prenda arrematada em pregão literário. Mas não era um pregão, posto que um sarau de classe, digno de qualquer recanto, de Lua Grande à já grande e marejada Fortaleza.
O livro é um primor gráfico, os breves comentários na sua orelha esquerda ecoam sóbrios. A educação de Ednilo pediu que agradecesse e dedicasse os seus dois anos de labor. Reconhecido ao jeito de sempre, descontraído, gentil, aberto e leal. A apresentação de Carlos Augusto Viana é a reafirmação de seu talento, quer como poeta, ensaísta e crítico. Com sentido didático e erudição, como se aquelas páginas certificassem o seu estilo e com aprumo atestasse o “imprimatur”, no reconhecer pessoas, falar de coisas e sentimentos de forma apropriada. Tudo nos conformes.
Mas, e o livro? Vou deixar que cada um que o tenha comprado ou o compre, faça a tarefa de ir descobrindo a jangada “Brisa do Mar”, seus tripulantes, as figuras mais importantes de Lua Grande, o Conselho Municipal, a visita do Governador, as intrigas, o crime em Fortaleza e o enredo que se renova a cada capítulo, como se fosse uma breve narrativa que vai tecendo nós de marinheiros.
Por último, este livro é prova ratificada de cearensidade, mar de escavação existencial, praia cheia de simplicidade, entrelaçamento e areias onde dramas, percalços e alegrias se encontram.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/04/2006.

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PAIXÃO EXPLÍCITA

Sou filho de Fortaleza e a amo de forma incestuosa. Por ser filho e amante apaixonado, a um só tempo, seria demais pedir isenção na proposta de análises sociológica, econômica, política ou urbanística. Onde já se viu filho andar falando de mãe…
Além de mãe, foi parteira e berço. Foi minha infância e escola. Foi a juventude comprometida com tantos sonhos, o cedo amadurecer e o tentar ser gente. Não vou dizer dos seus defeitos e virtudes. Herdei-os, como os outros filhos que ela mãe prolífera tem. A todos, pobres e ricos, que bebem e sentem a energia vinda de sua luz, do seu sol, do seu mar, ela mostra o seio farto que se espraia da Barra do Ceará ao Mucuripe e o corpo que se deita meio preguiçoso lá para as bandas dos rios Ceará e Cocó.
Não digam que esta é a minha visão apologética de Fortaleza. Esta é a forma como a vejo e a sinto na pele. E por falar em imagem, não posso e não devo esquecer do seu rico imaginário coletivo onde desponta, tenho que repetir, o poeta Paula Ney com a sua “loura desposada do sol”, a cidade hospitaleira com fortes laços de amizade e compadrio entre as pessoas.
Embora pretensamente moderna e, com as desvantagens dessa condição, ainda assim não lhe quebraram, nos subúrbios, o hábito das cadeiras nas calçadas, das fofocas na vizinhança, dos bares com contorias, da solidariedade nas doenças, das missas de sétimo dia repletas de gente no patamar das igrejas, apenas para cumprimento de obrigação social.
Não importa que o imaginário venha cedendo lugar a uma realidade cruel sedimentada em desigualdades sociais, turismo predatório, ausência de perspectivas individuais e a quase morte do sonho. Se morreu, não era sonho. Esta é, definitivamente, uma análise afetiva que comporta erros, omissões e contradições, pois assim é a vida das pessoas que fazem esta cidade.
Os forasteiros que chegam para ficar assumem a sua juventude, se embevecem com a luz que dela irradia e se contagiam com o clima que favorece a mudanças, sedimentações e aventuras. E como num amalgamado “baião-de-dois” formam a teia da mútua boa vontade e do sincero entendimento. É uma jovem mulher de apenas 280 anos, completados nesta semana, em meio à paixão e a páscoa. Parabéns.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/04/2006.

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IMORTAL SEM FARDÃO

Recebo um telefonema de pessoa querida convidando-me para uma recepção a Marcos Vinicios (com “o”) Villaça. Ele veio lançar a sexta edição do seu livro, feito em parceria com Roberto Cavalcanti de Albuquerque, “Coronel, Coronéis”. Na realidade, “Coronel, Coronéis” é fruto de pesquisa feita em 1963 que virou marco da historiografia nordestina em que trata dos coronéis que davam uma visão peculiar da região.
Chego. A mesa principal está posta de forma retangular e, como contraponto, há uma redonda em que fica um grupo pequeno. De repente, entra Marcos Villaça. Eu que o imaginava de fardão e botões dourados, precedido por rufar de tambores, e o vejo de calça e camisa com cinto esporte de cor, acompanhado da mulher e de um grupo de amigos. Livros chegam junto.
Vem, cumprimenta a todos. Vê, com atenção, a menção especial do caderno de “Cultura” sobre a sua obra e, como mortal comum, beberica alguma coisa e dá autógrafos em pequeno comitê. Marcos Villaça acumula funções “etéreas” de membro da Academia Brasileira de Letras e fáticas de Ministro do Tribunal de Contas da União. Assim, o escritor é também um graduado especialista em finanças públicas. Mas não estava ali para falar das contas governamentais, CPIs ou o que o valha. Ele ocasionalmente me respondia por qual razão não gostava de aquários. Riu e disse: “de onde você desencavou essa história” e o assunto virou um chiste. Quando falo em funções etéreas é porque a maior parte das pessoas não entende o simbolismo da vida acadêmica, como guardiã da língua e da cultura. Ser imortal é como uma figura de retórica, mas tudo foi feito no Brasil à imagem da Academia Francesa. Optou-se por dizer que alguém é imortal quando consegue entrar em uma academia de renome, é imortal não por si, mas pela obra que produz e, certamente, ultrapassará a sua temporalidade.
E a conversa se tornou amena. Recebi, com alegria, o seu discurso de posse na presidência da ABL, em que está escrito: “sou um insistente na esperança e não sou um subalimentado de sonhos”. E ele define, de forma clara, o que deve fazer uma academia: “Seu papel será preservar e valorizar a memória nacional: a língua como instrumento de conhecimento e da convivência; as letras como reveladoras/formadoras da identidade nacional; a cultura preservada e habilmente inserida em processo civilizatório que seja também caracteristicamente brasileiro.”
Pois foi assim que Marcos Villaça entrou na graça dos que não o conheciam e descobriram ter ele inteligência pernambucana, verve cearense e cultura nacional.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/04/2006.

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QUEM SOMOS, REALMENTE?

Alguém pergunta, talvez a título de especulação filosófica: o que leva você a classificar, rotular ou definir lugares e pessoas? Que lugares e pessoas? retruco. Qualquer pessoa, em qualquer lugar. Pode ser em um bar, restaurante, hotel, casa, avião etc. Fiquei pensando. A pergunta era meio vaga e dava margem a pensar em qualquer coisa. E foi aí que pensei na última coisa que imaginaria. Disse: banheiro. A razão, qual a razão?
E me vi em tantos banheiros espalhados pelo mundo, espaços diminutos que dizem muito de quem os construiu, mais ainda de quem os cuida e desnuda quem os usa.
Imagine um restaurante à margem de uma estrada neste nosso Brasil. Estou falando dos lugares onde todos param e já chegam procurando saber onde fica o banheiro. Primeira porta à direita, pois os banheiros são socializados, mas tendem sempre para a destra, mesmo quando são sinistros em odores e formas. E há ainda os que estão fechados e a chave nos é entregue como se fora o condão para o paraíso com um olhar duro pedindo a rápida devolução, depois de avaliar o nosso caráter.
E aí chegamos ao dito cujo. Chegamos, não é bem o termo. Ele chega até nós, em primeiro lugar, pelo evolar de gases e nos deparamos com a realidade sociológica que nos faz lembrar os que imaginam poder decifrar a alma das gentes, tal como proposto no início e já ando meio perdido aqui pelo meio. Pois bem, depois dos gases e odores, vem a realidade crua da descarga quebrada, da tampa cambaia, quando existe, e o desejo de sair rápido dali.
Saíamos do restaurante de estrada e penetremos no “banheiro social” de um clube. A primeira indagação: por qual razão o tal social? A segunda, por que a maioria dos homens faz xixi e não lava as mãos? A terceira, por que os vasos sanitários e mictórios não seguem uma linha cubista a la Salvador Dali e não têm um desvio para a esquerda?
Agora, estamos em um voo longo, desses que varam a noite. Amanhece: o banheiro está sujo, papéis higiênicos ao chão e na pia, detritos. Terra à vista, solo. Vamos direto à casa de um emergente, desses que entregam seu habitat às vontades e ao gosto de quem o ambienta. E aí pensamos, como seria bom que todos tivessem noção que um banheiro ou lavabo deve ser apenas adequado e limpo, sem aqueles adereços, que o fazem parecer uma lapinha.
E então, porque cansamos de andar por aí, voltamos à nossa morada. Chegamos, tiramos a roupa e vamos, imaginem, ao banheiro. E aí, defronte ao espelho e na nudez sem castigo, somos, finalmente, o que realmente somos. E será que caberia a pergunta: quem somos, realmente?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/05/2006.