Até que fiz planos para este carnaval. Tinha duas boas alternativas. Neste domingo, com certeza, onde estiver, e com quem estiver, terei livros por perto. Pena que já tenha concluído o inteligente romance “Equador”, do português Miguel Sousa Tavares, mas penso reler partes do bom “Tudo Faz Sentido”, ensaios de Raul Bellow, ou lerei algo novo. Mas, o que gostaria mesmo era falar de carnavais passados, sem essa de saudosismo, só lembrança mesmo. Era assim:
Quando meninote, em um dia de carnaval, junto com uma turma, estávamos trepados na carroceria de um caminhão que nos levava ao corso, percorria a av. Dom Manuel e entrava na Duque de Caxias. Na D. Manuel, as famílias sentavam às calçadas e o mais que acontecia era serem saudadas com talco, serpentinas e confetes pelas pessoas dos veículos que passavam buzinando com gente nos estribos ou sentada em seus para-lamas. Na Duque de Caxias, era o carnaval de fato, em uma pista, os veículos, na outra, os blocos e maracatus. Música, gente pulando, o bloco dos “sujos”, mas a polícia só fazia olhar. Não havia brigas e, quando ocorriam, logo serenavam. Pois não é que nesse dia aspergi todo um tubo de lança-perfume em uma encabulada colombina que tentava se equilibrar dos solavancos do caminhão.
Já adolescente, azucrinei meu pai para me levar a uma festa noturna. Só consegui na terça –feira. Seria minha estreia em carnavais noturnos, alegria total. Com jeito de homem, o juizado de menores não encheria o saco, pois estaria acompanhado dos pais. Acontece que já havia combinado ir a uma festa vespertina – tinha disso- na casa de uma amiga. Nada mais que uma sala decorada com qualquer coisa, discos, sucos, sanduíches e vontade de pular de mãos dadas. Resolvi que iria às duas, à da tarde e à da noite. Fui à da tarde, tudo do jeito que imaginara e a paquera foi legal. Cheguei em casa lá pelas oito da noite, tomei um banho, decidi descansar um pouco e só acordei na quarta-feira. O sono era tão profundo que meu pai teve pena de me acordar.
Casado, convidei casais para um drinque na minha casa, antes de irmos à festa no Ideal Clube. Para completar, vestíamos todos uma mesma fantasia e lá fomos nós de apito na boca e muita disposição para brincar. Mesa grande, bebida farta e diversão limpa, sadia. Depois, vieram as festas infantis, mas aí as estrelas eram as filhas e agora, por acaso, estou olhando para uma foto delas brincando em uma matinée. Evoé.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2006.
