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TAM-CHÁ DE AEROPORTO

Saio de São Paulo pela Marginal Pinheiros em direção a Guarulhos. Vejo a beleza dos novos prédios ser contraposta com a rudeza dos casebres de zinco, madeira, papelão e alvenaria que assomam em quaisquer espaços sob viadutos e praças. O dia está no zênite e o caminho se faz lento. O progresso fez mais carros que estradas e já é comecinho da tarde quando, à direita, se espraia o aeroporto, batizado Mário Covas. Desço, consigo um carrinho e vou com a mala em direção ao despacho da Tam. Fila maior que a paciência. Que jeito! Meia hora depois, sou atendido. O bilhete e a bagagem estão certos. Pergunto se o avião está no horário. Claro, a Tam assegura. Olho o relógio, duas da tarde.
Vejo conhecidos, troco dedos de prosa e vou ler Marina Colasanti. O avião deve sair às três. Estou na sala de embarque junto com colegas eventuais de voo. O auto-falante agora diz que o vôo vai atrasar um pouco. Pergunto o que significa um pouco. Não sabem. Já são cinco da tarde e nada de embarque. Pessoas abarrotam o balcão à procura de explicações que não são dadas. O ar fica pesado e começam reclamações. Outro aviso ao alto-falante: o voo sairá às sete. Já é uma esperança. Vou dar uma voltinha e como um brioche requentado, pois não há outra opção.
São 18:40h e nada do aviso de embarque. Alguém respeitável pede explicações e o Assistente de Aeroporto da Tam só tem desculpas polidas. Sete horas da noite e estou com os pés doídos de tanto pisar e repisar na sala de embarque. Afinal, às oito, sai uma certeza: o voo foi cancelado. Pedem para nos encaminharmos a outro piso a fim de definir o que faremos. Tomo o elevador e encontro uma nova e tamanha fila. Uma jovem supervisora diz que a “Tam estará disponibilizando hotel e ônibus”. Lá vem gerúndio e besteirol treinado. Canso de tudo, vou atrás da mala, tomo um táxi, dirijo-me a um hotel. Faço o check-in, peço um drinque, janto e tento dormir, longe de onde esperava chegar, desde que acordei, e já é meia noite. Telefono para a Marta Suplicy e ela saiu. Então, não há como relaxar e gozar. Ela me paga. Ligo o som: ouço Jobim, desligo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/10/2007.

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JORGE TUFIC, FORTALEZENSE – Jornal O Estado

Se tudo ocorrer como esperamos, Jorge Tufic, grande poeta, tão amplo quanto o Acre e o Amazonas reunidos, Estados onde, no primeiro, perdeu o umbigo e, no segundo, adquiriu sabenças e postou-se como profissional capaz de ter vida longa e equilibrada, receberá nesta sexta-feira a comprovação efetiva da benquerença recíproca que, unilateralmente, destinava com seu passionalismo árabe à Fortaleza, esta cidade-mulher, meio volúvel e instável em seus humores.
Afinal, depois de tanto assédio, ela se rende aos afagos ilimitados que, por anos, lhe fez Jorge Tufic, cofiando seus vastos bigodes. E tomo dele, emprestados, versos de seu poema Vênus para mostrar, pintado, o corpo de delito de sua paixão por Fortaleza: “Dá-me, Apeles, o sangue dos teus dedos e as cores deste mar, espuma ardente em que Vênus ressoa e se reparte entre deusas e bichos, céus e terras, para que a louve, prostituta imensa feita de orgasmo e sol”. Sim, é linguagem de amante não correspondido.
Aqui nesta terra ele assentou sua oca, deixando a glória pública, a consagração e o afeto dos muitos amigos e admiradores do Estado do Acre, um prolongamento da força cearense fincada ao norte por Plácido de Castro. Deixou, igualmente, de frequentar academias, saraus e as páginas da imprensa amazônica que lhe devota respeito e admiração. Veio para a adusteza do Ceará, acalentado pelos ventos e os mares que o embeveceram e o tornaram, se possível, maior poeta do que já era.
E o fez por Destino, título de um dos seus poemas em que diz: “Um tear e uma aranha ponteiam meu destino. Quando o tear se esgota a aranha pega o fio e sobe.” O tear do norte se esgotou e ele se enredou nos fios da aranha-fortaleza e com ela subiu, mais ainda.
Se tudo correr como esperamos, Jorge Tufic, este homem que fez o sol de Fortaleza mais brilhante com o esplendor do seu saber poético, esparramado em versos consagrados, aquilatados e premiados, neste dia de hoje, 19 de outubro, será Cidadão fortalezense.
Cidadão do sagrado mundo dos que deliram em versos, não os frutos da consciência, mas os do saber-sentimento denso que responde a inquietações de sua profundeza existencial. Receberá esse título das mãos de um vereador-médico, acostumado a suturas, reduções e ajustes nos esqueletos humanos, mas que sabe das letras e volta sempre os olhos para as almas dos que mourejam palavras. Machado Neto, Machadinho, entregará um sândalo sob a forma de pergaminho perfumado com os olores de sua amada Fortaleza.
E esse pergaminho de cidadania da terra de Alencar terá, em contraponto, um ganho verdadeiro. Em troca, a cidade perderá um amásio e ganhará um filho ilustre que, quem sabe, imortalizará em versos essa sua nova condição humana.
E, tenho certeza, mesmo que não verbalize em seu agradecimento de poeta e fortalezense o amor agora correspondido, Jorge Tufic, tímido e contente, diria, com versos seus já escritos em Restinga’s Bar: “Sou frágil, meu bem, que nada pode separar-me de ti. Teu nome é um sonho que navega em meu sonho.”
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/10/2007.

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O ROLEX DO HUCK – Diário do Nordeste

Muitas pessoas precisam do que se chama de validação. É quando o olho do outro sobre nós dá um “plus” na nossa autoestima ou no que achamos sobre nós mesmos. Relógios, carros, barcos, aviões, casas, roupas, joias e acessórios são sinais que definem ou mascaram uma pessoa. Assim é que soldados usam fardas, sacerdotes celebram paramentados, noivos se engalanam para as bodas etc. Assim é o mundo, desde sempre.
O rolex do apresentador de televisão Luciano Huck, roubado em assalto recente em São Paulo, é símbolo ou referência visual do “status” adquirido com o dinheiro ganho de forma legítima, mesmo que à custa de espectadores de gosto discutível. A maioria das pessoas acha essas exibições desnecessárias e que agridem os pobres e os sem perspectivas. Outras, hedonistas, precisam que seus carros, sapatos, roupas, acessórios, visuais gritem por elas, dizendo: vejam que eu não sou igual a vocês, eu posso, eu quero, eu tenho.
Em um país rico-pobre ou pobre-rico como é o Brasil, dependendo do ângulo em que o vemos, onde há uma estridente injustiça social e concentração de renda é difícil encontrar um ponto de equilíbrio que agrade os que frequentam a alta sociedade e os que, ávidos, ouvem programas policiais ou leem colunas de fofocas para saber das desgraças que acontecem com os mais famosos ou ricos.
O que quase não foi dito nessa história é que Huck não prestou queixa. E não o fez por não acreditar na Polícia, a instituição paga por pobres e ricos para nos proteger, mas que, segundo as pesquisas de opinião, não protege ninguém, nem ela própria. Um policial paulista, Roger Francini, afirmou saber onde o rolex do Huck poderia ser encontrado “e que não iria atrás por ganhar míseros R$ 568,29”. É por esta e outras que ter empresa de segurança é um grande negócio. Mas, todos sabem, vigilantes, guarda-costas e transportadores de valores são pessoas de baixa renda. Um paradoxo, pois são obrigados a arriscar suas vidas para defender indivíduos – e bens -que, quase sempre, odeiam, negam ou invejam por estarem em escala social diferenciada e os tratar, via de regra, com indiferença. Isso é problema.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2007.

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ARGENTINA, CRISTINA – Jornal O Estado

Daqui a dois dias haverá eleições para presidente na Argentina, ume país é bonito e paradoxal. Acredita-se europeu em meio aos trópicos, embora tenha parte de seu território na Antártida. A grande maioria da população tem sobrenome italiano, outros são de origem hispânica, alguns árabes, alemães e inclusive judeus. Todos se vestem como europeus, dizem as más línguas, pensando que são ingleses de costeletas.
Os estrangeiros contam que eles são machistas, mas se deixam dominar por mulheres. Quem iniciou tudo foi o presidente Juan Domingos Perón, mal comparando, uma espécie de Vargas argentino. Perón teve duas mulheres metidas em política. A primeira, Evita, era uma espécie de mãe assistencialista de todos. Cantora apenas razoável, embora com idade de filha de Perón, se finou em 1952, vítima de câncer aos 33 anos. Teve um velório de 14 dias e está enterrada no cemitério da Recoleta onde, diariamente, flores naturais são colocadas em seu rico túmulo.
Passado algum tempo, criado e cultivado o mito Evita, Perón casa com Isabelita, igualmente bem mais nova, artista iniciante de teatro e loira como a primeira. Não contente em ter casado, já alquebrado pelo tempo, Perón resolve fazê-la sua vice-presidente da República. E o consegue. Morre em 1974, Isabelita assume e a corrupção aumenta em níveis despudorados, tendo sido destituída pelos militares, em 1976. Só homens vieram depois. Agora, neste domingo próximo, 28 de outubro, a Argentina volta a optar entre duas mulheres. A favorita é Cristina Kirchner, mulher do Presidente Néstor Kirchner, que desistiu da reeleição. Peronista, cinquentona, senadora há vários mandatos, visual novo, grande capacidade de diálogo, o que falta a seu marido, tido como de sangue quente reeleição. A outra candidata é Elisa Carrió, da frente oposicionista Coalização Cívica, com poucas chances de vitória, dizem as pesquisas.
Assim, a partir de segunda, o país vizinho que oscila entre a alegria com que encara o futebol e a amargura com que se deixa dominar pelo dramático compasso do tango e pelas tragédias pessoais, amanhece com a mesma face e isso já pode ser dito, pois Néstor e Cristina formam uma dobradinha e governam juntos, sem nenhum preconceito. A grande maioria dos argentinos encara a eleição com indiferença.
A Argentina-2007 é um país em franca recuperação, mas teve a renda de sua classe média achatada, ao mesmo tempo em que a outrora rica Buenos Aires cedeu espaços para o surgimento de favelas que podem, por exemplo, ser vistas ao longo da estrada que demanda ao aeroporto de Ezeiza. A propalada autoestima elevada que o argentino diz ter pode não ser tão verdadeira. Citando Ortega Y Gasset é lícito dizer que “há uma permanente dissociação entre a imagem que têm de si mesmo e a realidade”. Esse fato se verifica no próprio jeito de falar dos argentinos. Quase sempre, iniciam com a palavra não(no) quando querem dizer sim.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/10/2007.

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O POETA DO TRAÇO – Diário do Nordeste

Anos 70. Rio de Janeiro. Esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica. Manhã cedo. Um Dodge Dart para. Desce um homem maduro. De onde estou, posso vê-lo por inteiro. Baixo, calvo, calça escura, blazer bege, camisa sem gravata e sapatos com saltos mais altos que o normal. Sobe à calçada, cumprimenta-me com um menear de cabeça e entra no prédio à esquerda. Era ele. Tinha certeza. Lembrei da primeira vez que fui a Brasília, quando tudo começava e o Plano Piloto mostrava grandes vazios. Embeveci-me com a genialidade do urbanista Lúcio Costa e os traços precisos e futuristas dos prédios concebidos por Oscar Niemeyer. Nesse tempo, tomara as dores de Lúcio Costa em rodas ditas letradas. A maioria achava que Brasília tinha sido planejada por Niemeyer. Não, foi Lúcio Costa, disse eu. Niemeyer projetou – e bem – as edificações.
E Niemeyer, o poeta do traço arquitetônico, era aquele homem maduro que acabara de passar à minha frente. Depois desse dia, sempre o via fazer esse curto percurso. E, outras vezes, almoçando no restaurante Alcazar, vizinho à minha mesa. Mas, havia uma timidez a não me deixar quebrar o gelo e conversar com ele. Iria dizer da minha admiração por tudo o que vi dele aqui e em Israel.
Sábado passado, lá estava eu de novo. Ele entrara no Ed. Ypiranga, um prédio simples, antigo, com varandas arredondadas, de cor ocre, onde trabalha na cobertura. Chovia grosso. Criei coragem e apertei a campainha. Hoje, o prédio está gradeado. O porteiro pergunta o que quero. Respondo: falar com o Dr. Oscar. Ele pede para usar o interfone para o número 1101. Um secretário atende. Digo que desejo apenas cumprimentar o Dr. Oscar pelos cem anos. Ele pede que ligue do meu celular para o número que me dá e fale com D. Vera Lúcia, mulher do Niemeyer. A chuva aumenta. Ela atende, ouve-me, e diz que ele está muito atarefado com a equipe e lamenta que não possa me atender naquela hora. Pergunto-lhe a que horas ele iria sair e ela diz: ele não tem hora para sair. E foi assim que perdi a oportunidade de dizer, antecipadamente: parabéns, Dr. Oscar, pelo dia 15. Ontem, por sinal.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2007.

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FELIZ LIVRO NOVO – Jornal O Estado

Este virar de ano nos acena com uma conspiração nova, a de retomar o gosto pela leitura. Uma espécie de ONG ‘Leia Mais’ e uma organização social ‘Fique Lendo e não seja assaltado’ estão propagando nomes de autores cearenses que poderão ser visitados em livrarias e de lá saírem com você para a sua casa. Eles vão mostrar a você todos os seus sonhos, desejos, indignações, amores e desditas. Eles se revelam no que escrevem. Seja em prosa ou verso. Você ficará íntimo deles,
Você passa, por exemplo, na livraria Livro Técnico e pergunta ao Sérgio Braga o que tem de bom na atual literatura cearense e, certamente, ele mostrará muitos títulos e autores. Depende do que você gosta de ler: poesia, crônica, conto, ensaio e romance. Há tanta pessoa iluminada nesta terra que você pode, por falta de informação, preconceito ou comodismo, estar perdendo momentos prazerosos de leitura.
O livro é um mundo pequeno ou grande, só depende do olhar de quem o lê e de sua história pessoal, pois há um entrelaçamento entre o que você lê e o que sente. Muitas vezes, tem perguntas e respostas que não sabemos ou ousamos formular. Você que lê jornal está a um passo dos livros. Ao terminar de ler este jornal, espreguice-se, olhe o lá fora e pergunte a si mesmo qual foi o último livro que leu. Não lembra? Ótimo, está na hora de voltar a ler. Vamos começar pelas mulheres. Não deixem de ler Ana Miranda, Ângela Gutiérrez, Beatriz Alcântara, Giselda Medeiros, Natércia Campos, Regine Limaverde, Tércia Montenegro e tantas outras.
Entre os homens, para falar só nos vivos, vou lembrando de Airton Monte, Alcides Pinto, Almir Gomes de Castro, Audifax Rios, Carlos Augusto Viana, Carlos Emílio, Barros Pinho, Batista de Lima, Dimas Macedo, Francisco Carvalho, José Teles, Juarez Leitão, Pedro Salgueiro, Luciano Maia, Lustosa da Costa, Rui Câmara e uma pá de outros valorosos escrevinhadores, todos servidores de leitores desconhecidos.
Acredite, ler não é perda de tempo, é entrar em sintonia fina com você mesmo, sem precisar de testemunha. Basta um livro, luz do sol ou da lâmpada e pernas jogadas sobre qualquer rede ou sofá velho. Ia esquecendo: eu, por exemplo, leio sempre e mais de um livro ao mesmo tempo, alternando a leitura. Gosto de ler com um lápis à mão, especialmente se tiver uma borracha acoplada. Com ele vou grifando, discordando ou anotando o que me parece certo, risível ou errado. Faça isso nesse ano novo. Essa é uma forma segura de alimentar a sua alma, essa que conhece todas as suas mazelas e glórias e, nas noites insones, diz em seu silêncio: vai dormir, deixe de frescura.
Na primeira nervura do ano alvoreça o seu espírito, esqueça os erros seus e os do mundo e vá de livro novo, esse companheiro silencioso, capaz e disponível, que está ali ao seu lado, todas as horas, para o que der e vier. Feliz 2008.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/12/2007.

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2008 É 10 – Diário do Nordeste

Percebi que, somando todos os números do ano de 2008, se obtém 10. No sistema decimal, 10 é a nota máxima. Os jovens, ao se referirem a alguém que é bom, dizem ´você é 10! ´. Dessa forma, vamos todos crer que o novo ano que chega será o máximo ou, no mínimo, bom. Terá a força da cor vermelha a lembrar sangue, vida, energia e movimento. Dizem os que entendem – o que não é o meu caso – que números que somam 10 significam 1 em numerologia, pois nela o zero nada representa. Assim, poderíamos supor que será, igualmente, o primeiro, o 1 que se expressa pela criatividade, inteligência, argúcia, competência e independência. Essa divagação, pseudo-esotérica, é um alerta de que nós fazemos o ano, com a nossa vida, sangue, energia e movimento. Esses elementos se somam à nossa capacidade de trabalhar, inventar, criar algo de forma original e, acima de tudo, ser independente. Usar o seu sangue, energia e movimento significa que você não deve ficar aí parado. Novos rumos podem ser encontrados, sendo inventivo e livre. Desse modo, ao chegar o próximo dia 01, terça-feira, feriado, faça limpeza na bagunça de seus relacionamentos, papéis, roupas, entulhos mentais ou de sua casa e trabalho. Mantenha algo natural, vivo, ao seu lado, preferencialmente uma árvore, um vaso de plantas ou flores, e aceite que o meio ambiente é seu e sua preservação depende de você.
E, mais que isso, é necessário que você propague a ideia de que, se bem cuidado, ele melhorará a nossa vida com ar puro, oxigênio e coisas tais. Abra as janelas, mas cuide de saber se não há gente negativa ou ladrões por perto, deixe que o sol entre em todos os cantos, especialmente no seu lugar de dormir ou trabalhar, que deve estar asseado. Use roupa limpa, mesmo que velha. E não esqueça de ter fé e acreditar no que faz, sem essa de fingir ser isso quando é aquilo. Assuma-se, respeitando o seu corpo magro ou gordo, a idade que tem, sem pensar que o tempo não passa. Mas passará bem melhor se você souber usá-lo a seu favor, vivendo o hoje, pois o futuro sempre será o amanhã.

JOÃO SOARES NETO,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2007.

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2006 E NÓS

Estamos aqui. 2005 já era. Não vale mais falar dele, passou. É passado. Depois da preguiça, da missa, da premissa, entra na liça o 2006. Vem com tudo o que tem de direito: cpi, carnaval, copa do mundo, eleições, secas, enchentes, inverno e tudo o que os outros anos têm de pior e do bom. O que é óbvio não se diz, mas os anos são feitos por nós. Nós, as pessoas. E os nós que atamos ou deixamos que atem ao nosso redor. Se admitirmos que nós fazemos o ano, então é hora de cada um ir arrumando o jeito de fazer a sua parte, com arte, destarte. Se acreditarmos que estamos cheios de nós, os que nos enredam, prendem o nosso hoje e quiçá o futuro, é bom lembrar da história de Alexandre, o Grande, o líder guerreiro macedônio que conquistou a Ásia e deu sentido ao império helênico, sobre o tal do nó Górdio.
O rei, chefão, imperador da Górdia, por onde passaria Alexandre, em sua guerra de conquista criou um nó. Esse nó era um entrelaçamento de cordas e não havia ninguém que conseguisse desatá-lo. Era um nó cego, onde não se via forma de desatar o seu emaranhado. Até que um dia, conta a história, Alexandre resolveu aparecer por lá e foi tentar desatar o nó. Chegou com o seu jeito de conquistador decidido, passo firme e encarou o dito nó. Olhou, matutou, coçou a cabeça coroada, não via como resolver o problema e não podia sair de lá desmoralizado. Olhou para o chefão da Górdia e, sem avisar a ninguém, desembainhou a espada e cortou o nó ao meio. Estava resolvido o problema, de forma inusitada, e a fama de Alexandre foi aumentando.
Assim é na vida real. De vez em quando precisamos tirar a nossa espada imaginária e cortar os nós que atam as nossas vontades, atitudes e decisões. Imagine o que deve ter passado pela cabeça de Alexandre. Muitos já tinham tentado desatar o nó górdio e todos voltavam de cabeça baixa. Ele, não. Da mesma forma que os demais, não sabia o jeito de desmanchá-lo, pois não conseguia que as pontas penetrassem no novelo que se formara. Deu uma de doido. Partiu o nó com a espada e todo novelo se desfez. Dar uma de doido, temporário, pode não só desatar nós, mas liberar o que temos aprisionado por medo, acomodação ou indiferença.
Sem querer dar uma de Paulo Coelho e assemelhados, é bom que, de vez em quando, se faça algo inesperado, diferente do que esperam e que nos deixe livre de aporrinhações antigas. Começo de ano é tempo de amolar espada, verificar que a bainha está lubrificada e não vai impedir que, a qualquer dia ou hora, se ouse empunhá-la. O importante é não ficar segurando o cabo da arma, pois até a paz precisa ser conquistada pela audácia e surpreender os que se imaginam reis da Górdia.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/01/2006

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O OUTRO LADO DE MIM

Algumas pessoas falam que não gostam de ler best-sellers. Nada a ver. Conheço intelectuais de verdade que gostam de ler esse tipo de romance. É melhor ler um best-seller que nada. Eles são fantasiosos e têm um condão de nos tirar da realidade, de mostrar um mundo diferente e, quase sempre, seus protagonistas conseguem superar dificuldades e vencem. E ninguém pode falar desse tipo de literatura sem mencionar Sidney Sheldon. Ele já vendeu mais de 300 milhões de livros. Seus livros são lidos da primeira à última página, com avidez e à espera do desfecho quase óbvio. É como se todas as populações brasileira, mexicana e portuguesa, juntas, tivessem lido um livro seu. Eu li vários. Quem não se lembra de “O Reverso da Medalha”, “A Ira dos Anjos”, “Juízo Final”, “A Herdeira” e tantos outros?
Sheldon tem hoje 88 anos, mantém-se lúcido e acaba de escrever sua autobiografia ou memórias. Em “O outro lado de mim” fala de sua vida, vitórias e fracassos. No dizer do jornalista Federico Mengozzi, falando sobre o dito Sheldon, só os bem-sucedidos podem falar de seus fracassos. E Sidney romanceia sua vida, como não poderia ser diferente. Judeu, discriminado e vivendo a juventude em plena Depressão americana, quis se suicidar, de desespero, aos 17 anos. Seu pai, que nunca tinha lido nada, sabia do gosto do filho pela leitura de romances. O flagrou misturando bebida com remédios, e falou para ele: “A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz ideia do que vai acontecer até virar a página”.
Usando essa metáfora, fez com que o filho mudasse de ideia e até de nome. Sidney trocou o sobrenome judeu Schechtel por Sheldon e foi encarar sua múltipla vida. Só aos 52 anos começou a escrever romances. Antes, escrevia peças de teatro e roteiros para cinema. Até um Oscar ganhara como roteirista. Rico, famoso e ciente de sua finitude, resolve agora abrir seu passado e o faz do jeito que sempre soube conquistar leitores ao redor do mundo, parecendo íntimo e semelhante ao homem cotidiano, mas, ao mesmo tempo, misturando fracassos, sonhos, esperanças e bom humor.
Ler memórias, mesmo romanceadas, é uma forma de cada um ir mexendo com os próprios botões, examinando seus significados, erros, medos, necessidades, desejos e atitudes. Como a vida é complexa e diferente para cada pessoa, é sempre bom lembrar o que disse o pensador inglês John Churton Collins: “A metade dos nossos erros na vida vem do fato de que nos deixamos levar pelos sentimentos, quando deveríamos raciocinar, ou de que raciocinamos quando deveríamos nos deixar levar pelos sentimentos”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2006.

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OS AVISOS DO CORPO

Estou escrevendo no computador e ouço um choro. É a minha secretária esvaindo-se em lágrimas. Recebera um telefonema. Seu pai acabara de morrer. Perguntei a idade. Era mais novo do que eu. Fico meio apavorado. Fumava e bebia muito, ela disse. E aí lembrei do meu amigo poeta ao me passar recado de seu cardiologista, amigo comum, dizendo que ele, o poeta, não era hipertenso. Não era, mas será, certamente. Será, pela simples razão do corpo pedir respeito. Pede com jeito: não coma demais, trabalho muito por conta disso. Pede com calma: não beba exagerado, veja seu fígado e as consequências para os rins. O amigo poeta, muitas vezes, não respeita seus limites. O corpo pede: vá dormir, e ele fica madrugada afora, catando insônia.
Minha secretária continua chorando. O pai morava longe e lá se vai ela. Liga para a mãe e o choro fica mais controlado. Consola a mãe e diz: logo estará chegando. Enquanto ela agora deve estar em uma dessas Brs esburacada, lembro do meu amigo cronista-psi tossindo feito um condenado. Tosse por fumar em demasia. Sabe disso e não cuida, mas diz se preocupar quando a minha pressão ascende ao bom ou ruim futebol do meu time. Continuo lembrando haver o pai da secretária morrido de infarto, mas invento, para mim: ele só morreu porque fumava e bebia. Todos morrem, nada a ver.
E aí lembro do amigo-editor, meio adoentado, semana dessas, por haver recebido um catatau de exames laboratoriais. Todos estavam bem, exceto um, o do colesterol e isso deve ter mexido com a cuca dele, e aí a pressão disparou e ele foi descansar em casa, de castigo. Pensa ser de ferro. Não é. Tem de se cuidar. Há centenas de lançamentos de autores vários, estreantes, repetentes ou delirantes, a serem feitos e só ele sabe cuidar disso com o seu jeito de quem não quer nada, mandando e-mails, correspondência com convite para todo mundo, telefonemas lembrando o compromisso e levando uísque para molhar o bico dos amigos. Tudo boca-livre. Ele é assim.
Estou lembrando também de outro poeta, ora virando memorialista, a comer de forma pantagruélica. Come de ficar triste e vai embora. Come menos, cara. Lembro de outro amigo que se zanga facilmente. Para com isso, você sofre. Lembro de tanta coisa, mas não esqueço das nossas vidas, responsáveis e, quiçá, inconsequentes. A vida precisa ser cuidada. Ouviu, pessoal?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2006.