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OS INSUCESSOS DE CADA UM

Tem gente que na primeira ou segunda paulada na moleira passa a reclamar da vida, das injustiças que recebe, da falta de sorte, de desamparo e coisa e tal. Acredita que é o último dos mortais, esquecido por Deus (quando imagina ter fé), família, amigos e que há uma trama contra ele. Mergulha em um alheamento e, não raro, fica deprimido, sorumbático e macambúzio. Esquece que as moleiras são fechadas na infância e ser humano é bicho de cabeça dura.
Não importa quantos anos tenhamos. Não importa que nos digam que é assim mesmo. Não importa que a gente saiba que poderia ter tido um pouco mais de cuidado, atenção, tenacidade, simplicidade e lutado mais. Na hora do insucesso não há consolo. É quase o fim do mundo. Quase. É preciso que se assimile o insucesso e isso leva um tempo. O tempo é relativo, não é absoluto. E cada um tem o seu próprio tempo.
Os insucessos, se bem assimilados, mastigados, digeridos, podem ser uma grande fonte de aprendizado. Eles podem nos tornar mais lúcidos, atentos e vigilantes com os nossos sonhos e realidades. Nada de se associar aos que consideram um insucesso o tal do fim do mundo. Ele não o é. Ele é didático, sábio e se presta para que descubramos a que viemos, as companhias que escolhemos, como estamos traçando os nossos caminhos, e se há jeito de mudá-los. Sempre há.
Eles podem ter o condão de nos tornar mais humildes, menos vaidosos e mais comuns. Gente. Os insucessos são feitos para mostrar que a vida povoa desencontros, topadas, tempo jogado fora com bobagens, a crueza dos espelhos que teimam em nos mandar recados e não escutamos. Enfim, o insucesso pode até ser uma conquista, se dele tirarmos lições, não estas bobas e óbvias que estão aqui listadas, mas as resgatadas da purgação das dores, da nossa história de vida, seja ela breve ou longa.
Tem também aquela historinha manjada do cara que estava perdido numa ilha e conseguiu com muito esforço fazer uma choupana. A choupana pegou fogo. Ele reclamou de Deus e se considerou derrotado. Um navio viu a fumaça do fogo e o salvou. Pois é.
Insucessos podem também servir para mostrar que nunca estamos sós. Há amigos, sim. Mesmo que poucos ou que não nos façam festas, não endossem os nossos erros e critiquem atitudes. Amigo é bicho esquisito, tão esquisito quanto nós.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2006.

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MICHELLE NÃO É MAIS UMA CANÇÃO

Não sei se todos lembram da canção francesa chamada “Michelle”. Era linda. Hoje, Michelle é nome de presidente de República. Michelle Bachelet, médica, descasada, com três filhos havidos de dois pais diferentes, ex-ministra da Saúde e da Defesa, é eleita presidente do Chile e toma posse agora em março. Ela é a nova mulher, não mais a que recebia o marido ao começo da noite, banhada e empoada, mas a que volta para casa quando a tarefa se esgota. Mas ela não está só.
Neste começo de 2006, mulheres maduras, formação superior destacada, tomam as rédeas de dois países deste mundo emergente em que vivemos. Michelle, no Chile e Ellen Johnson-Sirleaf, assumiu agora o comando da Libéria, país africano, fundado por ex-escravos libertados dos EUA. E na posse de Ellen, economista, pós-graduada em Harvard, estava outra mulher capaz, decidida e de origem simples, pois filha de imigrantes negros: Condoleezza Rice, Secretária de Estado, cabeça pensante americana, mesmo que possa pensar errado. Isto é outra história. O que vale aqui é a vida dessas mulheres. E não é bom esquecer de Angela Merkel, doutora em física, ex-ministra do Meio Ambiente, desde novembro passado, desbancou o poderoso Gerhard Schröder, e é a Premier da Alemanha. Imaginem.
O importante nesta conversa é que mulheres despontam em partes diferentes do mundo e o fazem de jeito bem distintos. Michelle derrotou um empresário multimilionário, Sebastian Piñera, no Chile. Ellen lutou e ganhou de um grande ex-atleta de futebol, George Weah, rico e ídolo famoso. Condoleezza, não tinha ninguém para promovê-la, nem casada é. Há quem diga poder ser em 2008 a candidata, imaginem, do conservador e branco Partido Republicano. Angela era física, morava na parte oriental-comunista e, com a unificação, surgiu como política. E aí está.
Acabaram-se as evitas, as isabelitas, e até as damas de ferro, tipo a Margareth inglesa. Hoje, a lucidez, a coragem, a capacidade, a liderança sutil e o sentimento de inclusão são as forças não só dessas mulheres citadas, mas de todas as outras, anônimas ou não, que não fazem mais só o modelo ‘boa esposa e virtuosa dona de casa’, a espera de um marido exemplar ou de uma pensão, quando o amor finda. É neste mundo novo, tão novo que nós, bichos homens, machistas ou não, ficamos tontos. Há que se aprender a conviver com essas mulheres que crescem, aparecem e permanecem. Deve eclodir um sentimento de júbilo pela nova divisão de tarefas no mundo real, pela certeza de que se poderá ter liderança com delicadeza, profissionalismo com ritmo sensorial, companheirismo sem subserviência ou melodrama, carinho sem hora ou local marcado e amor sem dependência.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/01/2006.

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OS AVISOS DO CORPO

Estou escrevendo no computador e ouço um choro. É a minha secretária esvaindo-se em lágrimas. Recebera um telefonema. Seu pai acabara de morrer. Perguntei a idade. Era mais novo do que eu. Fico meio apavorado. Fumava e bebia muito, ela disse. E aí lembrei do meu amigo poeta ao me passar recado de seu cardiologista, amigo comum, dizendo que ele, o poeta, não era hipertenso. Não era, mas será, certamente. Será, pela simples razão do corpo pedir respeito. Pede com jeito: não coma demais, trabalho muito por conta disso. Pede com calma: não beba exagerado, veja seu fígado e as consequências para os rins. O amigo poeta, muitas vezes, não respeita seus limites. O corpo pede: vá dormir, e ele fica madrugada afora, catando insônia.
Minha secretária continua chorando. O pai morava longe e lá se vai ela. Liga para a mãe e o choro fica mais controlado. Consola a mãe e diz: logo estará chegando. Enquanto ela agora deve estar em uma dessas Brs esburacada, lembro do meu amigo cronista-psi tossindo feito um condenado. Tosse por fumar em demasia. Sabe disso e não cuida, mas diz se preocupar quando a minha pressão ascende ao bom ou ruim futebol do meu time. Continuo lembrando haver o pai da secretária morrido de infarto, mas invento, para mim: ele só morreu porque fumava e bebia. Todos morrem, nada a ver.
E aí lembro do amigo-editor, meio adoentado, semana dessas, por haver recebido um catatau de exames laboratoriais. Todos estavam bem, exceto um, o do colesterol e isso deve ter mexido com a cuca dele, e aí a pressão disparou e ele foi descansar em casa, de castigo. Pensa ser de ferro. Não é. Tem de se cuidar. Há centenas de lançamentos de autores vários, estreantes, repetentes ou delirantes, a serem feitos e só ele sabe cuidar disso com o seu jeito de quem não quer nada, mandando e-mails, correspondência com convite para todo mundo, telefonemas lembrando o compromisso e levando uísque para molhar o bico dos amigos. Tudo boca-livre. Ele é assim.
Estou lembrando também de outro poeta, ora virando memorialista, a comer de forma pantagruélica. Come de ficar triste e vai embora. Come menos, cara. Lembro de outro amigo que se zanga facilmente. Para com isso, você sofre. Lembro de tanta coisa, mas não esqueço das nossas vidas, responsáveis e, quiçá, inconsequentes. A vida precisa ser cuidada. Ouviu, pessoal?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2006.

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PARA LULA, ALCKMIN, SERRA, GAROTINHO E OUTROS

Era um vez, um cara chamado Peter Drucker, o mais importante guru da teoria da administração do século XX. Canadense, mas naturalizado americano, influenciou gerações e gerações de administradores, gerentes, executivos e donos de pequenas, médias, grandes e imensas empresas. Seus livros são conhecidos de todos e não há – ou não deveria existir – uma só pessoa que tenha estudado administração, gerenciado ou dirigido uma empresa sem haver lido algo que Drucker escreveu. Se há alguém, deve ser a exceção para confirmar a regra, mas sugiro procurar qualquer livro de Drucker e comece a ler urgentemente. Ele não dará as respostas que desejamos saber mas, certamente, incitará você a descobri-las com mais atenção e método.
Drucker, morto recentemente, era alto, pachorrento no falar, desengonçado, requisitado para fazer palestras, dirigir seminários e receber honrarias. Por ser um guru já idoso e não se omitir quando questionado, foi, certa vez, indagado que conselhos daria a um presidente da República. O jornal que o questionou foi o The Wall Street Journal, de Nova Iorque, e o presidente eleito se chamava Bill Clinton.
Estou escrevendo na esperança de que alguém faça chegar este ao candidato Lula e aos demais. A experiência de Drucker o fez condensar em 06 pequenas regras o sucesso de uma gestão presidencial. Creio poder valer até para governadores e prefeitos.
As regras foram retiradas de histórias de antigos presidentes americanos, ajustadas por Drucker e condensadas por mim. São elas: 01. O que fazer? É a primeira pergunta que deve ser feita pelo eleito. 02. Concentre-se, não diversifique. Tenha foco, isto é, escolha o que tem de fazer de saída e o faça rapidamente. Cause impacto, execute e conclua. 03. Não aposte ou acredite em uma coisa ou projeto dito seguro. Quase sempre o tiro é falho, faça pesquisas e não siga a sua intuição. 04. Um verdadeiro dirigente não micro administra, não faz varejo e nem tem secretário-geral. E nunca faça uma coisa que alguém possa fazer em seu lugar. Tome a decisão, designe alguém competente para fazê-lo e deixe que o faça. 05. Um Presidente não tem amigos na administração, tem servidores. Essa máxima é de Lincoln. O dirigente que se esquecer disso, viverá para lamentá-lo. Os amigos sempre ficam tentados a abusar da posição e o poder que isto implica. 06. Uma vez eleito, desça do palanque, pare de fazer campanha e governe. Isso foi dito por Truman a John Kennedy.
Alguém vai entregar aos candidatos?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/02/2006.

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O QUE É UM AMIGO? – Jornal O Estado

Hoje é o dia do amigo. Você sabia?
O que é um amigo? Será aquele que ampara e defende? Ou o que protege e acolhe? Ou o que ouve calado as nossas lamúrias? Ou o que está pronto para o que der e vier e vem sem ser chamado?
Nelson Rodrigues, um frasista cínico e inteligente, tem várias versões sobre o que seja amigo. Na primeira, ele é negativo e diz: “Os homens, individualmente, não são amigos dos homens. O ódio começou quando, pela primeira vez um homem viu outro homem. E assim tem sido através de todas as manhãs e de todas as noites: – o “outro” continua sendo o inimigo de cada um de nós e de todos nós.” Em seguida, ele muda: “Daí porque o grande acontecimento é, sempre, o amigo. Ele é a desesperada utopia que todos perseguimos até a última golfada de vida.” Sendo polêmico, Nelson tinha humores e isso o fazia pensar diferente sobre amizade, dependendo do estado de espírito. Assim é que, em outra feita, ele chora: “A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas as relações com o passado ficam alteradas”.
Afinal, o que é um amigo? Atrevo-me a dizer que é aquele que quer bem ao outro. É o companheiro, aliado e simpatizante. Segundo Machado de Assis, “não é amigo aquele que alardeia a amizade; é traficante; a amizade sente-se, não se diz…”
Procuro na história e valho-me de Aristóteles quando diz: “Não podemos nos contemplar a partir de nós mesmos. Do mesmo modo que quando queremos contemplar nosso rosto fazemo-lo olhando-nos num espelho, assim também quando queremos conhecer-nos a nós mesmos, conhecemo-nos vendo-nos em um amigo. Porque o amigo, dizemos, é um outro de nós mesmos.”
Vejo em Michel Foucault, na obra “A palavra e as coisas” uma distinção epistemológica entre simpatia (que gera amizade) – o poder de assimilar, de fazer com que as coisas passem a ser semelhantes, ajustadas, de interesse comum – e antipatia, como contraponto que se caracteriza pela dispersão e dessemelhança.
A amizade é uma relação em duplo sentido, onde a complementaridade, o respeito, a crítica que ajuda, o incentivo que estimula e o apoio que conforta, não devem faltar como condimento à convivência entre pessoas distintas.
Socorro-me de Cícero quando fala da perda das amizades: “Se o acaso as faz cair por falta de discernimento em uma amizade, não se creiam ligados a ponto de não poder abandonar seus amigos gravemente culpáveis”.
Há pessoas a confundir amizade com cumplicidade e subserviência, formas pouco leais de convivência. Ser amigo é, antes de tudo, saber lidar com a verdade, mesmo isso se tornando doloroso. A verdade relativa de cada um nos impõe uma característica de vida. Ela nos distingue dos demais, sem deixar de sermos semelhantes. Isto é a nossa integridade. E com poucos, mas escolhidos amigos, estamos mais seguros, com identificação clara, capacidade de servir e dizer ao outro o quanto o estimamos e estamos dispostos a relevar discórdias e eliminar frustrações. O poeta inglês William Blake disse: “tudo que vive, não vive sozinho, nem para si mesmo”. Por estarmos vivos e não vivermos isolados, não podemos deixar de ter amigos e de nos tornar integrantes de um elo comum a necessitar de permanente atenção e cuidado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/07/2007.

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IGREJA BENTA? – Diário do Nordeste

Quando menino, os padres e minha mãe recomendavam não conversar com “crente”, tampouco ter a audácia de pisar nas calçadas de igrejas evangélicas ou de centros espíritas. Nunca obedeci. As missas eram então em latim e, antes da bênção final, três ave-marias rezadas contra o “comunismo ateu”. Foi assim até o Concílio Ecumênico (62 a 65), que deu ares renovados a uma Igreja precisada de expurgar culpas antigas e novas, como a do Papa Pio XII na 2ª. Guerra. Estive em Roma em 65 e, bem jovem, saí de lá informado, alegre, inclusive dando carona para Paris a bispos cearenses.
Nos anos 80 houve solidariedade com os pobres e diálogo com outras religiões, ao tempo em que a caridade anônima era incentivada. Depois, veio João XXIII e a Igreja voltava ao passado. Agora, 42 anos após o ecumenismo, vem o Papa Bento XVI e diz: “A única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica”. O ecumenismo parece enterrado nas catacumbas romanas e o catolicismo toma ares do fundamentalismo tão criticado por nós nos aitolás e talibãs. Neste breve papado de Bento (ou Benedito?) XVI há uma preocupação – ultrapassada – em ressuscitar a missa em Latim, língua morta, não aceitar a camisinha e teimar em não acolher o fim do celibato dos padres, ocasionando o pagamento de indenizações altíssimas por conta de abusos sexuais contra fiéis.
Agora mesmo, em Los Angeles, o arcebispo fez um acordo com 500 vítimas e pagou 660 milhões de dólares. Nos Estados Unidos, onde a lógica permite o resgate da honra com dinheiro, a Igreja já gastou bilhões com pedofilia de padres. Não se pode mudar a natureza humana e os padres são homens, carentes e solitários. Um dos ensinamentos básicos aprendidos na minha fé torta foi o de que somos todos iguais e devemos cultivar a humildade. O catolicismo é maior que seus erros e os dos seus padres. O que a Igreja fez no seu ato da Congregação para a Doutrina da fé, em 29, dia de São Pedro, de junho de 2007, foi dizer que somos os escolhidos. Como fica a humildade (“melhor é ser humilde de espírito…”, Prov. 16:19) pregada por Cristo?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/07/2007.

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A CULPA É NOSSA – Jornal O Estado

Quando acontecem acidentes que comovem a Nação ou atingem familiares e amigos nossos, ficamos perplexos e cobramos atitudes, reclamamos e, momentaneamente, nos indignamos.
Nós, brasileiros, temos o hábito de reclamar dos políticos em quem votamos. Isso é produto da cultura e do comportamento nacional de não escolher com atenção dirigentes, amizades e parceiros. De vez em quando ou muitas vezes, somos surpreendidos com decepções e até desonestidades. Por qual razão isso acontece? Por que não temos o cuidado de examinar quase nada, de nos aprofundarmos em reflexões e análises e nos deixamos levar pela empolgação, a conversa fiada e a falsa aparência de gente boa.
Falamos dos banqueiros, mas eles são, por dever de ofício, cuidadosos ao conceder um crédito. Nós, pelo contrário, somos abertos demais, damos crédito fácil, seja de que natureza for, a quem não conhecemos em profundidade e temos a memória curta. Isso nos leva a escolha errada em muitas situações. Essa constante na nossa vida, por outro lado, é fruto, além da desatenção e falta de análise, apanágio do subdesenvolvimento, do descompromisso com nós mesmos. Fazemos tudo às pressas, como se nada merecesse um tempo de expectativa, tão comum em outros povos, que levam muito tempo para chegar a uma decisão. Por outro lado, tomada a decisão, mergulham, com profundidade, na luta para que ela se transforme em realidade, em êxito e, certamente, monitoram comportamentos e corrigem desvios, não tendo receio de excluir pessoas que falham, denigrem, roubam e têm cara de gente boa. Nós, não. Todos sabem que fulano de tal é desonesto ou trambiqueiro, mas ele continua saindo por aí, enganando pessoas, escudado, muitas vezes, em advogados que provocam chicanas em processos que tentam desmascará-lo.
Se desejarmos um melhor destino para nós mesmos e para o Brasil será preciso que mudemos de conduta. Tornemo-nos, forçosamente, desconfiados, deixemos de aceitar os que fingem ser e não são, os que se apoderam de posições públicas, privadas, sindicais ou de associações de classe, apenas em benefício próprio, propalam isso e aquilo em relações públicas que nada mais são que mistificação e promoção pessoal furada, não conferida por quem as veicula. Temos que parar com a hipocrisia ou aceitar o que diz o ministro da Cultura, Gilberto Gil, atualmente em férias no exterior: “A hipocrisia é uma ferramenta da civilidade”. Será?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/07/2007.

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HOMENS E AVIÕES – Diário do Nordeste

Nesta crise anunciada da aviação comercial fica claro que homens e aviões precisam de muitos e melhores cuidados. Parece que essa certeza básica não está sendo considerada por seus dirigentes públicos e privados. Desde que Santos Dumont voou em Paris em 1906, com o seu “14 Bis”, que o Brasil tem procurado ser uma referência na área. Na primeira metade do Século XX, a aviação era uma atividade perigosa, mas romântica. Até o escritor francês, Antoine Sainte-Exupéry (O Pequeno Príncipe, Correio do Sul, Voo Noturno etc.) era piloto comercial. Exupéry era triste, como também o eram Santos Dumont e Pinto Martins. Hoje, nada de romantismo, apenas empregos e tragédias. Mas, os pilotos continuam tristes.
Na infância, convivi com pilotos – meu pai era um deles – e pude ver que eram audaciosos e imaturos. Depois, como passageiro, estive em avião da TAP que fez pouso forçado, após emergência, em Las Palmas. Nesse episódio, vi o descortino do comandante e tripulantes. Eles tinham uma crise e precisavam decidir. Demorou 90 minutos, mas pareceu uma vida. Agora, com o acidente do Airbus da TAM, precedido de avisos, desde a queda do avião da Gol no ano passado, ficou claro que os homens da aviação precisam ser melhor cuidados para ter calma e decidir em emergências. Mas, os pilotos lutam contra o desemprego (Transbrasil, Vasp e Varig demitiram) e as novas empresas são vorazes na maximização do uso de seus equipamentos. Há ainda o caso dos controladores de voo. Têm apenas o nível médio e três categorias: militares (sargentos), funcionários públicos civis e CLT. É uma mistura explosiva com salários diversos e lutas sindicais. Do mesmo modo, os pilotos comerciais só têm o segundo grau, estudam em apostilas, aprendem a voar por instrumentos e obtém brevês de piloto em aeroclube, não em faculdade. Os aviões, mantidos em terra, voam no limite, apresentam defeitos, são consertados por mecânicos mal remunerados, e usam aeroportos construídos e gerenciados por leigos, indicados por políticos. Dá no que deu. Por que não entregar tudo ao ITA ou à Embraer, que constrói aviões, mas não o do Presidente?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2007

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DORIAN OU DORIANUÁRIO – Jornal O Estado

Desculpem-me os editores Jocélio Leal e Fábio Campos. Desculpe-me Demócrito Dummar, mas ainda associo o Anuário do Ceará a Dorian Sampaio. Reconheço estar o Anuário a viver outros tempos, cumprindo nova função e ocupando espaço importante na área de pesquisa e construção da história cearense. Sei do cuidado no seu planejamento, comercialização, elaboração, dos novos métodos de gestão e dos sistemas de informática alimentando informações, tornando-as atuais, veras e consequentes.
Mas, vi o Anuário renascer nas mãos de Dorian Sampaio. Era um projeto parado com a morte de Waldery Uchoa e Dorian teve a coragem de ressuscitá-lo. Participei dessa história. Era 1969. Dorian Sampaio, jornalista e ex-deputado estadual, não aceitava o revés de uma cassação injusta e o trauma causado, não fora a sua inquietude, talento e vontade de provar-se e dar a volta por cima. Um belo dia, ele me indagou se eu admitiria participar de um projeto de recriação do Anuário do Ceará contando e cantando as glórias do nosso povo. Respondi: estudaria o assunto, bastando me apresentar, por escrito, a ideia. Com o seu jeitão característico, ele me retrucou quanto ao volume de trabalho para fazer tal estudo e só o realizaria se eu garantisse: a) participar do negócio; b) ou, em caso contrário, pagar uma determinada quantia pelo trabalho. Aceitei.
Li o projeto – devolvido anos depois – e disse ser uma empreitada diversa da natureza do meu trabalho, não combinando com o meu jovem e irrequieto perfil. Melhor seria convidar alguém do ramo para, juntos, tocarem a ideia. Paguei a quantia combinada. Surgiu então a parceria Dorian Sampaio e Lustosa da Costa, dois não-cearenses, talvez mais autênticos que 99% dos nascidos por estas terras tórridas.
Com o gás e a sede de retomar o caminho abruptamente cortado, a dupla Dorian e Lustosa se materializou no Anuário do Ceará. Os primeiros anos do Anuário foram levados a quatro mãos. Com a ida do Lustosa para Brasília, a família de Dorian, incorporada, assume e dá a sua forma empresarial na Stylus, a editora-mãe. Lembro quando, ao completar 25 anos, escrevi na sua edição comemorativa: “estes 25 anos têm demonstrado o valor de uma ideia, a capacidade de uma pessoa, a importância da união de uma família em torno de um objetivo e o poder aglutinador de fazer e refazer equipes. A todos: ao líder, à família, à equipe e ao próprio Ceará, meu reconhecimento, minha homenagem e amizade”.
Com a morte de Dorian, o Anuário do Ceará passou ao controle das empresas O Povo. Novamente, fui consultado. Dessa vez, por Demócrito Dummar e verifiquei, triste, não ter mesmo o perfil de gestor ou editor e não aceitei a parceria. Desejei sorte. Agora, por dever de justiça, rendo homenagem a esse veículo precioso a nos orgulhar e a registrar, de forma profissional em 660 páginas, na sua edição 2007-2008, a saga cearense. Parabéns ao editor-geral Fábio Campos, ao editor-executivo Jocélio Leal e ao Demócrito Dummar. Mas como esquecer Dorian Sampaio?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/08/2007.

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BREGA BRASIL – Diário do Nordeste

Vocês sabiam, amigos Airton Monte e Carlos Augusto, amantes de música, que a agência de publicidade F/Nazca Saatchi, contratou agora os serviços do Datafolha para fazer uma pesquisa sobre o gosto musical dos brasileiros? Pesquisaram, do norte ao sul, 2.166 pessoas, maiores de 16 anos, em 135 cidades e chegaram a uma conclusão que parece surpreender a paulicéia, mas que mostra a cara brega do Brasil, esse que chora e ri nas novelas e se esgoela acompanhando músicas de dor de cotovelo e cantores sertanejos. Se você pensou, amiga Eliana, que ia dar Zizi Possi ou Marisa Monte, quebrou a cara. Nada de Betânia, Gil, Gal, Caetano ou Chico, tidos como “cults”. O brasileiro comum parece não gostar de metáforas, só entende letras acessíveis, diretas, rimas claras a mexer com o seu emocional conturbado pelas tragédias, desesperanças e falta de oportunidades.
Nenhum dos letristas sofisticados foi, sequer, lembrado. Não é triste, Colares? E a grande campeã não tem nem gravadora. Ela mesma produz os seus discos, ouviram Sílvia, Sônia e Josino? Não está situada no eixo Rio – São Paulo. É do norte do país, da terra do Tacacá e do Caruru, Belém do Pará e é a Banda Calypso. Segundo Eduardo Miranda, produtor do programa Ídolos, a “A Calypso é a verdade do povo brasileiro”.
Vocês sabem, Alexa, Cris, Mel e Bruna, quem são Zezé e Chimbinha? São as figuras de proa da Calypso. Depois, em segundo lugar, vem Zezé Di Camargo e Luciano, bem lembrados pelo filme-romance de suas vidas. Bruno e Marrone ficam em terceiro. E Roberto Carlos, meloso e agora plastificado, está em quarto lugar. Depois, aparecem, pela ordem, Daniel, Leonardo, Ivete Sangalo, Calcinha Preta, Amado Batista, Aviões do Forró e Jota Quest.
Não, não fiquem tristes, amigos, pois sei de gente que, na intimidade de seus quartos, deixam rodar músicas bregas e posam de ouvidos refinados, dizendo-se admiradores de Milton Nascimento. Não adianta fugir à natureza, à genética produtora desse povo tão singular a desaprovar governos, mas adorando líderes com discursos plenos de emoções. Só cantando somos o que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/08/2007.