Sem categoria

VIOLÊNCIA URBANA – Diário do Nordeste

Qualquer pessoa com um mínimo de sentimento de mundo ou responsabilidade social, como se diz agora, fica apavorada com a sucessão de atos de violência urbana e se pergunta por qual razão as polícias, civil e militar, não têm capacidade de coibir ou resolver as demandas que, todos os dias, entulham as delegacias, são exploradas em programas policiais de televisão em reportagens sensacionalistas, com presos, vítimas e familiares. Esses programas são reprisados e servem, dizem, até como fonte de referência entre a marginalidade para estabelecer uma gradação de periculosidade e prestígio.
Procurei, com atenção, conversar com autoridade no assunto. Fiquei estarrecido em saber que são reservados como custeio, anualmente, apenas R$ 3,00 (três reais, repito), para a proteção de cada cidadão. Temos somente cerca de 170 delegados na ativa e o último concurso foi realizado em 1999.A polícia, pasmem, tem apenas 67 viaturas nas ruas, com restrição de combustível e não há um sistema “on line” de localização geográfica de chamadas feitas por delinquentes. Não existe um Código de Ética que defina parâmetros para a ação de policiais que têm a idade média de 34 anos, o que demonstra a necessidade de novos concursos públicos. Há, no interior, 139 municípios sem delegado e os 13 mil soldados da Polícia não têm equipamentos de qualidade, motivação e incentivos para a dura luta contra o crime.
Por outro lado, repórteres policiais relatam que há cerca de dez presos que comandam, de suas celas, parte da atividade criminosa. Como esses presos não são isolados e usam, livremente, telefones celulares, aproveitam centenas de marginais e menores espalhados com áreas de atuação diferenciadas. É provável que os clamores nacional e local, somados às ações novas anunciadas que serão desencadeadas pelo governo estadual, a partir de maio, possam começar a fazer diferença. O que a sociedade, pacífica e apavorada, precisa é de uma gestão policial contemporânea, inteligente, integrada, consequente e eficaz com baixo nível de tolerância. Chega de insegurança e medo coletivo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/04/2007.

Sem categoria

BRASIL BENTO – Diário do Nordeste

O Papa Bento XVI, o erudito Joseph Ratzinger, chega quarta ao Brasil. Já conseguiu retocar a Basílica de Aparecida, santificar Frei Galvão como o primeiro santo genuinamente brasileiro e conversará com bispos latinos. A propósito: por que tanto santo europeu, poucos santos africanos e quase nenhum da América Latina. Talvez sigam Romanos 3:23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Por que, há 507 anos os brasileiros sofrem, fazem milagres para sobreviver, vivem sob governos parvos ou truculentos que fariam o Império Romano parecer o Paraíso, cultivam e professam a fé católica e, só agora, mediante ingerência política, é que se reconhece um único santo.
Frei Galvão certamente merece, mas não é possível que, entre milhões de brasileiros, nestes cinco séculos de Brasil, não se entreveja outras pessoas mortas com as condições exigidas pelo Vaticano. Mexendo em meus livros, descubro o Sacrosanctum Concililium, 32: “… não se fará acepção(distinção) de pessoas ou de classes sociais, quer nas ações litúrgicas, quer no ornato externo”. Um santo antigo, Tiago, dizia: “minha fé em Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Assim, pois se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo um anel de ouro, ricamente vestida, e outra pobre, com suas roupas sujas, e derdes mais atenção à rica… não estais fazendo distinções em vosso coração?” Será que os teólogos e doutores do Vaticano estão atentos para isso? Será que nós somos apenas pobres pecadores, embora, por nossa religiosidade, tenhamos aprendido, desde cedo, a ser pagadores de promessas?
A resposta parece estar na palavra Roma. É lá, no pequeno Vaticano, em palácios, que a Igreja toma decisões com burocracia indiferente. Não valem o esforço e a fé de padre vivendo a Amazônia ou dando apoio a desvalidos dos sertões. É preciso milagre, algo sobrenatural. O milagre pode ser também lutar, não ceder a poderosos e ter vida santa, qualificadas por ações. Igreja é, sobretudo, assembleia, reunião que deve reunir iguais, o povo de Deus. Precisamos de mensagens novas e pouco discurso.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2007.

Sem categoria

IGREJA BENTA? – Diário do Nordeste

Quando menino, os padres e minha mãe recomendavam não conversar com “crente”, tampouco ter a audácia de pisar nas calçadas de igrejas evangélicas ou de centros espíritas. Nunca obedeci. As missas eram então em latim e, antes da bênção final, três ave-marias rezadas contra o “comunismo ateu”. Foi assim até o Concílio Ecumênico (62 a 65), que deu ares renovados a uma Igreja precisada de expurgar culpas antigas e novas, como a do Papa Pio XII na 2ª. Guerra. Estive em Roma em 65 e, bem jovem, saí de lá informado, alegre, inclusive dando carona para Paris a bispos cearenses.
Nos anos 80 houve solidariedade com os pobres e diálogo com outras religiões, ao tempo em que a caridade anônima era incentivada. Depois, veio João XXIII e a Igreja voltava ao passado. Agora, 42 anos após o ecumenismo, vem o Papa Bento XVI e diz: “A única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica”. O ecumenismo parece enterrado nas catacumbas romanas e o catolicismo toma ares do fundamentalismo tão criticado por nós nos aitolás e talibãs. Neste breve papado de Bento (ou Benedito?) XVI há uma preocupação – ultrapassada – em ressuscitar a missa em Latim, língua morta, não aceitar a camisinha e teimar em não acolher o fim do celibato dos padres, ocasionando o pagamento de indenizações altíssimas por conta de abusos sexuais contra fiéis.
Agora mesmo, em Los Angeles, o arcebispo fez um acordo com 500 vítimas e pagou 660 milhões de dólares. Nos Estados Unidos, onde a lógica permite o resgate da honra com dinheiro, a Igreja já gastou bilhões com pedofilia de padres. Não se pode mudar a natureza humana e os padres são homens, carentes e solitários. Um dos ensinamentos básicos aprendidos na minha fé torta foi o de que somos todos iguais e devemos cultivar a humildade. O catolicismo é maior que seus erros e os dos seus padres. O que a Igreja fez no seu ato da Congregação para a Doutrina da fé, em 29, dia de São Pedro, de junho de 2007, foi dizer que somos os escolhidos. Como fica a humildade (“melhor é ser humilde de espírito…”, Prov. 16:19) pregada por Cristo?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/07/2007.

Sem categoria

A CULPA É NOSSA – Jornal O Estado

Quando acontecem acidentes que comovem a Nação ou atingem familiares e amigos nossos, ficamos perplexos e cobramos atitudes, reclamamos e, momentaneamente, nos indignamos.
Nós, brasileiros, temos o hábito de reclamar dos políticos em quem votamos. Isso é produto da cultura e do comportamento nacional de não escolher com atenção dirigentes, amizades e parceiros. De vez em quando ou muitas vezes, somos surpreendidos com decepções e até desonestidades. Por qual razão isso acontece? Por que não temos o cuidado de examinar quase nada, de nos aprofundarmos em reflexões e análises e nos deixamos levar pela empolgação, a conversa fiada e a falsa aparência de gente boa.
Falamos dos banqueiros, mas eles são, por dever de ofício, cuidadosos ao conceder um crédito. Nós, pelo contrário, somos abertos demais, damos crédito fácil, seja de que natureza for, a quem não conhecemos em profundidade e temos a memória curta. Isso nos leva a escolha errada em muitas situações. Essa constante na nossa vida, por outro lado, é fruto, além da desatenção e falta de análise, apanágio do subdesenvolvimento, do descompromisso com nós mesmos. Fazemos tudo às pressas, como se nada merecesse um tempo de expectativa, tão comum em outros povos, que levam muito tempo para chegar a uma decisão. Por outro lado, tomada a decisão, mergulham, com profundidade, na luta para que ela se transforme em realidade, em êxito e, certamente, monitoram comportamentos e corrigem desvios, não tendo receio de excluir pessoas que falham, denigrem, roubam e têm cara de gente boa. Nós, não. Todos sabem que fulano de tal é desonesto ou trambiqueiro, mas ele continua saindo por aí, enganando pessoas, escudado, muitas vezes, em advogados que provocam chicanas em processos que tentam desmascará-lo.
Se desejarmos um melhor destino para nós mesmos e para o Brasil será preciso que mudemos de conduta. Tornemo-nos, forçosamente, desconfiados, deixemos de aceitar os que fingem ser e não são, os que se apoderam de posições públicas, privadas, sindicais ou de associações de classe, apenas em benefício próprio, propalam isso e aquilo em relações públicas que nada mais são que mistificação e promoção pessoal furada, não conferida por quem as veicula. Temos que parar com a hipocrisia ou aceitar o que diz o ministro da Cultura, Gilberto Gil, atualmente em férias no exterior: “A hipocrisia é uma ferramenta da civilidade”. Será?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/07/2007.

Sem categoria

HOMENS E AVIÕES – Diário do Nordeste

Nesta crise anunciada da aviação comercial fica claro que homens e aviões precisam de muitos e melhores cuidados. Parece que essa certeza básica não está sendo considerada por seus dirigentes públicos e privados. Desde que Santos Dumont voou em Paris em 1906, com o seu “14 Bis”, que o Brasil tem procurado ser uma referência na área. Na primeira metade do Século XX, a aviação era uma atividade perigosa, mas romântica. Até o escritor francês, Antoine Sainte-Exupéry (O Pequeno Príncipe, Correio do Sul, Voo Noturno etc.) era piloto comercial. Exupéry era triste, como também o eram Santos Dumont e Pinto Martins. Hoje, nada de romantismo, apenas empregos e tragédias. Mas, os pilotos continuam tristes.
Na infância, convivi com pilotos – meu pai era um deles – e pude ver que eram audaciosos e imaturos. Depois, como passageiro, estive em avião da TAP que fez pouso forçado, após emergência, em Las Palmas. Nesse episódio, vi o descortino do comandante e tripulantes. Eles tinham uma crise e precisavam decidir. Demorou 90 minutos, mas pareceu uma vida. Agora, com o acidente do Airbus da TAM, precedido de avisos, desde a queda do avião da Gol no ano passado, ficou claro que os homens da aviação precisam ser melhor cuidados para ter calma e decidir em emergências. Mas, os pilotos lutam contra o desemprego (Transbrasil, Vasp e Varig demitiram) e as novas empresas são vorazes na maximização do uso de seus equipamentos. Há ainda o caso dos controladores de voo. Têm apenas o nível médio e três categorias: militares (sargentos), funcionários públicos civis e CLT. É uma mistura explosiva com salários diversos e lutas sindicais. Do mesmo modo, os pilotos comerciais só têm o segundo grau, estudam em apostilas, aprendem a voar por instrumentos e obtém brevês de piloto em aeroclube, não em faculdade. Os aviões, mantidos em terra, voam no limite, apresentam defeitos, são consertados por mecânicos mal remunerados, e usam aeroportos construídos e gerenciados por leigos, indicados por políticos. Dá no que deu. Por que não entregar tudo ao ITA ou à Embraer, que constrói aviões, mas não o do Presidente?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2007

Sem categoria

DORIAN OU DORIANUÁRIO – Jornal O Estado

Desculpem-me os editores Jocélio Leal e Fábio Campos. Desculpe-me Demócrito Dummar, mas ainda associo o Anuário do Ceará a Dorian Sampaio. Reconheço estar o Anuário a viver outros tempos, cumprindo nova função e ocupando espaço importante na área de pesquisa e construção da história cearense. Sei do cuidado no seu planejamento, comercialização, elaboração, dos novos métodos de gestão e dos sistemas de informática alimentando informações, tornando-as atuais, veras e consequentes.
Mas, vi o Anuário renascer nas mãos de Dorian Sampaio. Era um projeto parado com a morte de Waldery Uchoa e Dorian teve a coragem de ressuscitá-lo. Participei dessa história. Era 1969. Dorian Sampaio, jornalista e ex-deputado estadual, não aceitava o revés de uma cassação injusta e o trauma causado, não fora a sua inquietude, talento e vontade de provar-se e dar a volta por cima. Um belo dia, ele me indagou se eu admitiria participar de um projeto de recriação do Anuário do Ceará contando e cantando as glórias do nosso povo. Respondi: estudaria o assunto, bastando me apresentar, por escrito, a ideia. Com o seu jeitão característico, ele me retrucou quanto ao volume de trabalho para fazer tal estudo e só o realizaria se eu garantisse: a) participar do negócio; b) ou, em caso contrário, pagar uma determinada quantia pelo trabalho. Aceitei.
Li o projeto – devolvido anos depois – e disse ser uma empreitada diversa da natureza do meu trabalho, não combinando com o meu jovem e irrequieto perfil. Melhor seria convidar alguém do ramo para, juntos, tocarem a ideia. Paguei a quantia combinada. Surgiu então a parceria Dorian Sampaio e Lustosa da Costa, dois não-cearenses, talvez mais autênticos que 99% dos nascidos por estas terras tórridas.
Com o gás e a sede de retomar o caminho abruptamente cortado, a dupla Dorian e Lustosa se materializou no Anuário do Ceará. Os primeiros anos do Anuário foram levados a quatro mãos. Com a ida do Lustosa para Brasília, a família de Dorian, incorporada, assume e dá a sua forma empresarial na Stylus, a editora-mãe. Lembro quando, ao completar 25 anos, escrevi na sua edição comemorativa: “estes 25 anos têm demonstrado o valor de uma ideia, a capacidade de uma pessoa, a importância da união de uma família em torno de um objetivo e o poder aglutinador de fazer e refazer equipes. A todos: ao líder, à família, à equipe e ao próprio Ceará, meu reconhecimento, minha homenagem e amizade”.
Com a morte de Dorian, o Anuário do Ceará passou ao controle das empresas O Povo. Novamente, fui consultado. Dessa vez, por Demócrito Dummar e verifiquei, triste, não ter mesmo o perfil de gestor ou editor e não aceitei a parceria. Desejei sorte. Agora, por dever de justiça, rendo homenagem a esse veículo precioso a nos orgulhar e a registrar, de forma profissional em 660 páginas, na sua edição 2007-2008, a saga cearense. Parabéns ao editor-geral Fábio Campos, ao editor-executivo Jocélio Leal e ao Demócrito Dummar. Mas como esquecer Dorian Sampaio?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/08/2007.

Sem categoria

BREGA BRASIL – Diário do Nordeste

Vocês sabiam, amigos Airton Monte e Carlos Augusto, amantes de música, que a agência de publicidade F/Nazca Saatchi, contratou agora os serviços do Datafolha para fazer uma pesquisa sobre o gosto musical dos brasileiros? Pesquisaram, do norte ao sul, 2.166 pessoas, maiores de 16 anos, em 135 cidades e chegaram a uma conclusão que parece surpreender a paulicéia, mas que mostra a cara brega do Brasil, esse que chora e ri nas novelas e se esgoela acompanhando músicas de dor de cotovelo e cantores sertanejos. Se você pensou, amiga Eliana, que ia dar Zizi Possi ou Marisa Monte, quebrou a cara. Nada de Betânia, Gil, Gal, Caetano ou Chico, tidos como “cults”. O brasileiro comum parece não gostar de metáforas, só entende letras acessíveis, diretas, rimas claras a mexer com o seu emocional conturbado pelas tragédias, desesperanças e falta de oportunidades.
Nenhum dos letristas sofisticados foi, sequer, lembrado. Não é triste, Colares? E a grande campeã não tem nem gravadora. Ela mesma produz os seus discos, ouviram Sílvia, Sônia e Josino? Não está situada no eixo Rio – São Paulo. É do norte do país, da terra do Tacacá e do Caruru, Belém do Pará e é a Banda Calypso. Segundo Eduardo Miranda, produtor do programa Ídolos, a “A Calypso é a verdade do povo brasileiro”.
Vocês sabem, Alexa, Cris, Mel e Bruna, quem são Zezé e Chimbinha? São as figuras de proa da Calypso. Depois, em segundo lugar, vem Zezé Di Camargo e Luciano, bem lembrados pelo filme-romance de suas vidas. Bruno e Marrone ficam em terceiro. E Roberto Carlos, meloso e agora plastificado, está em quarto lugar. Depois, aparecem, pela ordem, Daniel, Leonardo, Ivete Sangalo, Calcinha Preta, Amado Batista, Aviões do Forró e Jota Quest.
Não, não fiquem tristes, amigos, pois sei de gente que, na intimidade de seus quartos, deixam rodar músicas bregas e posam de ouvidos refinados, dizendo-se admiradores de Milton Nascimento. Não adianta fugir à natureza, à genética produtora desse povo tão singular a desaprovar governos, mas adorando líderes com discursos plenos de emoções. Só cantando somos o que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/08/2007.

Sem categoria

REGISTROS DA VIDA – Jornal O estado

Não importam a idade, o sexo, a cor, o que faça e o estado civil, todos vão recebendo registros da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidões, encontros e coisas que tais. De repente, os registros vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas.
Esses registros são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que promessas e juras são frutos de um contexto a se transformar com a lucidez ou a mudança de personagens. Os registros ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que a outra pessoa não é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza.
Ninguém tem respostas para você, ninguém sabe o tempero que nutre as suas esperanças e a alegoria a embalar os seus sonhos. Basta de procurar explicar-se e de admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo. Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios e passam a companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. Só temos a capacidade de falar por nós mesmos e as respostas para os dilemas humanos e os nossos registros são singulares, não há receita pronta para isso.
A confiança em si é um pressuposto básico para a independência sem a qual não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas a reduzir os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa.
A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e o sinal a abrir sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬-se ou confundir-se com você.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2007.

Sem categoria

A ÚLTIMA LIÇÃO – Diário do Nordeste

Meu pai, infelizmente, já morreu. Era um homem simples, inteligente, cara de duro, mas pleno de ingenuidade. Era charmoso, atraente mesmo e nunca posou de santo. Casou cedo, trabalhou, viveu plenamente, criou nove filhos, todos independentes, nível superior de instrução e cidadãos do mundo. Morreu aos 70, de infarto, fim de tarde, no jardim de sua casa, ao lado de minha mãe. De repente, tento saber se fui seu amigo, se conversei com ele o desejado e se não fui egoísta. Só ele poderia responder. Sei que, após aposentado, veio ter comigo e me ajudava, dizendo não entender porque eu trabalhava tanto, se da vida nada se levava. Repetia isso, sempre.
E isso calou em mim. Nunca falei para ninguém, mas resolvi, passo a passo, diminuir o ritmo de trabalho e deixei de pensar em ser mais ou ter mais. Diminuí, faz muito tempo, só não pude parar, pois a dinâmica da vida nos impõe ação. Desacelerei. Passei a fazer coisas prazerosas, menos chatas, ver os netos, aceitar meus erros e ter mais tempo para o que sempre gostei: viajar, conversar, ler, escrever e fazer pouco, mas diferente, com responsabilidade.
Agrupei-me com dessemelhantes e dispensei o aparato burguês de viver. Tive baixos e altos e vi-me livre, foi duro. Essa liberdade não se transformou em ócio, mas me aprumou no rumo do novo. E, certamente, conheci pessoas erradas, até desonestas, posando de gente boa. Farsantes. Também conheci gente séria, simples, valiosa e desprovida de interesses. E penso que essa mudança se deu também por conta das ponderações repetidas do meu pai. Na hora de sua morte, corri para o hospital para onde foi levado, mas ele já não respirava. O médico que o atendeu, pediu gentilmente, ao sair do quarto e me deixar só com ele, que retirasse logo a aliança de seu dedo. Depois, seria impossível. Olhei, perplexo, para o seu semblante acalmado eternamente, segurei sua mão esquerda e tirei a aliança. Relembrei do que ele sempre dizia: “do mundo nada se leva”. Pois é, ele, através de sua mão, me repetia, pela última vez, a lição.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2007.

Sem categoria

MARCELO LINHARES – Jornal O Estado

Marcelo Caracas Linhares, bancário, advogado, deputado federal por quatro legislaturas, intelectual, historiador e, sobretudo, homem de bem, viajou para o eterno na terça, dia 14. Há muito o seu coração fraquejava. Vi-o, minutos antes da derradeira missa, após cumprimentar sua mulher, Irismar. Ele estava ele. A doença não lhe tirara os traços fidalgos e o jeito sereno de ser. Ano passado, dentro de um projeto ainda em curso, o entrevistei. Conversei com ele, amigos que éramos e colegas da Academia Fortalezense de Letras, e pedi-lhe para responder a 40 perguntas. Ele o fez, gentilmente. Aproveito, partes de suas respostas, e ele mesmo escreverá esta crônica. Paro aqui, agora é ele.
“Nos meus oitenta anos nunca imaginei responder perguntas sobre mim mesmo. Lembro-me sempre que a um Lorde inglês indagaram como havia chegado tão rápido àquela posição, eis que só tinha cinquenta anos. A resposta foi: ‘falando muito das coisas, pouco das pessoas e nada sobre mim mesmo’. A minha infância foi vivida em Guaramiranga, sozinho. Daí a influência na minha personalidade ser muito de minha família. Por outro lado, creio ser um pouco autodidata eis que tenho a impressão de haver feito o pior curso de direito de um aluno da Faculdade de Direito do Ceará. Parte dele estava no Crato e parte em Quixadá, vindo a Fortaleza fazer as provas. Deu-me muito trabalho recuperar, com novos estudos, o que deixei de fazer durante o curso. Na época em que entrei no Banco do Brasil, essa era uma das carreiras mais cobiçadas da mocidade de então. Ocorre que fui transferido para o Crato e depois para Quixadá. Mesmo assim, não me arrependo de haver nele ingressado. Fui aposentado, na última letra da carreira de advogado. Na realidade, fui um felizardo.
Não sei o que teria sido de mim sem a âncora que encontrei, Irismar. Se você verificar em todos os livros que escrevi – e são oito até agora – sem contar com aqueles de menos de 50 páginas que não se mantêm em pé, os oferecimentos são a ela. Nos momentos de maiores dificuldades, inclusive na vida política, foi ela que me ajudou a delas sair. Deus foi pródigo comigo pondo-a no meu caminho. Logo que nos casamos, filhos era uma meta. Depois, com o passar dos tempos, fomos vendo – Irismar e eu – os dramas que muitos amigos passavam com os seus descendentes. Hoje vemos que Deus, mais uma vez, nos abençoou. Fora o meu casamento, a coisa melhor que fiz na vida foi ser deputado federal. Preciso dizer nunca haver sido derrotado. Cada eleição obtinha mais votos que a anterior.
Só a fé nos conduz no reto cumprimento do dever. Nunca duvidei, graças a Deus, e minha fé continua inabalável”. Marcelo.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2007.