Pois não é que hoje é o dia do meu aniversário. Nasci no meio da Segunda Guerra Mundial e, no dia em que completei um ano, o Brasil declarava guerra ao Eixo. Os alemães deviam estar tremendo nas bases enquanto eu me lambuzava de bolo, recebendo a atenção comum aos filhos primogênitos. Comecei a estudar quando os Estados Unidos outorgaram uma Constituição ao Japão e implantavam o Plano Marshall na Europa.
Fiz minha primeira comunhão logo após o Brasil ter perdido a Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Terminei o ginásio quando Juscelino inventou de criar Brasília. Conclui o colegial após o Brasil ter ganho a sua primeira Copa do Mundo. Entrei na Universidade quando Jânio aparecia com sua vassoura. Fiz minha primeira viagem ao Exterior no ano em que John Kennedy morreu. Conclui administração no ano da Revolução e Direito quando foram criados o cruzeiro novo, o MDB e a Arena.
Casei no ano em que o homem pisou na Lua e a minha primeira filha nasceu quando a China foi admitida na ONU. A segunda filha nasceu enquanto Ernesto Geisel era indicado para Presidente da República. A terceira filha nascia enquanto morria Mao Tse Tung e a última no ano em que o divórcio foi instituído no Brasil.
Nos anos do milagre brasileiro eu cuidava de minha firma que havia sido fundada à época da morte de Costa e Silva e da Constituição outorgada. No ano em que foi decretada a Anistia ela completava dez anos. Dei um duro danado e fui queimando etapas.
Completei a idade em que Cristo morreu quando foi inaugurada a Ponte Rio – Niterói. Descobri-me quarentão quando o Aiatolá Khameine foi escolhido presidente do Irã. Desde cedo aprendi e continuei a fazer, como hobby, o que Carlos Heitor Cony faz por profissão. Andei meio mundo, conheci muita gente e cultivei alguns poucos amigos, dentre os quais o que faz censura prévia em quase tudo o que escrevo. Concordo com o doido do Paulo Francis quando ele dizia que “as amizades mais profundas vêm desse sofrimento a dois, ou a três”.
Todas as manhãs, bem cedo, ando com um grupo de amigos. Às sextas-feiras e sábados, quase sempre, almoço com amigos que fazem da crítica inteligente o prato principal da refeição. Tomo, aos sábados, café com uma colega de universidade e os domingos eu reservo para intimar com minha mãe que se tornou mandona depois da morte do meu pai, no ano em que completei dez lustros de vida. Nesse dia ela dá carão nos seus filhos marmanjos e puxa o saco das “santas filhas”.
Faltando três anos para a virada do século (não do milênio) eu tive a alegria de ser avô, dose repetida no ano seguinte. E cá estou eu lépido e fagueiro com muitos cabelos, embora mal distribuídos, esperando minhas filhas e netas acordarem para decidir o que faremos hoje. Sei que uma delas, pelo menos, vai chegar atrasada. Não faz mal, estou acostumado.
Aproprio-me de versos anônimos para encerrar: “conta teu jardim pelas flores, nunca pelas folhas que caem. Conta teus dias pelas horas douradas, e esquece por completo as nuvens. Conta tuas noites pelas estrelas –não pelas sombras. Conta tua vida pelos sorrisos, não pelas lágrimas. E, alegremente, conta tua idade por feitos, não por anos”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/1999.
