Nunca imaginei que um dia viesse a ter uma irmã alemã. Quis o destino que Luiza Helena, socióloga, conhecesse Wini, médico. Foi aqui mesmo, faz mais de 20 anos, antes do turismo sexual invadir o Brasil. Wini veio fazer residência médica, casou e levou minha irmã e nos deu duas sobrinhas, Júlia e Isabella, minha afilhada. Por conta disso, principalmente, amiudei minhas andanças pela Europa que começaram em 1965, ainda frangote. São 42 anos e, mesmo sem querer, vi muita coisa acontecer por lá. Vi o fim das ditaduras de Salazar (1974) e Franco(1975) e a queda do muro de Berlim(1989). Por acidente ou sorte, andava batendo perna por lá por esses tempos tão conturbados dos anos 70 e 80. Lembro de Lisboa quando da “Revolução dos Cravos”, da euforia dos espanhóis pós-Franco e de quão atônito fiquei quando em 89 vi, literalmente, o muro de Berlim ser derrubado, enquanto jovens arrancavam pedras com as mãos, gritavam e cantavam.
Agora, neste ano de 2007, exatos no mês passado, completa 50 anos o Tratado de Roma que definiu os rumos do que é hoje a União Europeia, um complexo e bem cuidado sistema que tem como princípios fundamentais a democracia representativa, coíbe a pena de morte, não aceita o trabalho escravo, defende a liberdade de falar e escrever e expressa a igualdade por gênero, etnia, religião ou orientação. Todos os seus 494 milhões de habitantes são livres para circular e trabalhar, como cidadãos supranacionais, nos 27 países da comunidade, hoje tão rica quanto os Estados Unidos.
Essa ideia engenhosa e trabalhosa, que não tem similar no mundo, pois o Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Americano, que reúne Estados Unidos, Canadá e México, está longe de ser referência em igualdade de direitos e oportunidades para os cidadãos desses três países norte-americanos. Aqui na nossa América, a tentativa do Mercosul ainda engatinha, ao mesmo tempo em que o Chile se isola, a Venezuela grita e o Brasil sofre por falar e agir de forma diferente dos que têm a língua de Cervantes como meio de expressão e o arquétipo de Simon Bolívar, como herói continental.
Como seria bom que tivéssemos uma semana de trabalho de 35 horas, igual à França. Como exultaríamos se a tarde de sexta-feira fosse enforcada, como na Espanha. Que alegria se o nosso SUS fosse substituído pelo quase igualitário modelo de Estado de bem-estar social, em que todos são, além de outros benefícios, atendidos e providos assistência e de remédios, sem distinção. Para isso, foi preciso muito trabalho, e o fim da tacanha patriotada e eugenia que provocaram duas guerras mundiais (1914-1917 e 1939-1945) no século XX. Essa luta iluminista culminou com a criação, em nível transnacional de órgãos tão diferentes quanto: um Conselho que estabelece as diretrizes gerais, uma Comissão que executa, um parlamento que legisla, uma corte de justiça que arbitra litígios e um banco central europeu que consolidou, administra o Euro e determina baixas taxas de juros. Tudo isso sem picuinhas e respeitando as individualidades nacionais. Sonhar com modelos semelhantes para nós é uma forma de pensar em sair desse círculo vicioso de quase riqueza e muita pobreza, permeada por ainda gritantes índices de mortalidade infantil e desigualdade social, tudo amparado na promiscuidade e impunidade que vicejam na política e incentivam desvios de conduta.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/06/2007.
OUVIR DIZER – Jornal O Estado
Ricardo Guilherme, para os que não sabem, é, além de ator consagrado e diretor de teatro, um apaixonado por leitura. E dessa a paixão e maturidade profissional, surgiu um projeto seu, acolhido pelo Centro Cultural do BNB, em que textos, poesias e prosas de poetas e autores cearenses, são levados à cena, mensalmente, em datas previamente marcadas e divulgadas, sempre às 16.00 horas, ali no auditório da Rua Floriano Peixoto. O cenário é apenas um pano preto de fundo, cor essa que também é a vestimenta do Ricardo, realçando apenas os seus grandes óculos, a vasta cabeleira branca e a voz sonora, modulável e que vai tomando o compasso e a harmonia de suas emoções.
Não há música, tampouco apresentação prévia. Apenas um banco, uma estante e um microfone, certamente iluminados por spots direcionados, em meio à negritude do fundo. E aí Ricardo aparece e começa a falar da pessoa e da obra do escolhido. Digamos, por exemplo, que esteja falando do poeta Francisco Carvalho (que, por sinal, reservado que é, não compareceu no dia em que sua obra foi apresentada, mas sua família estava lá): conta a sua relação pessoal com o grande poeta de forma leve, mas segura e, sem que os ouvintes percebam, mostra as várias faces do autor, quer como amigo, incentivador de iniciantes, funcionário público, professor etc.
Desse jeito sutil e precioso, dá-se uma natural iniciação do público, constituído, em sua maioria, por jovens de escolas públicas, e de escolas privadas, pois o projeto é aberto, democrático, gratuito e, certamente, a direção do Centro Cultural do BNB fará um bem maior se lhe der continuidade. Igualmente, as direções de colégios e universidades fariam um benefício imenso aos estudantes se os levassem para ouvir essas leituras dramáticas que têm consistência, tom intimista e até, algumas vezes, uma pitada de humor. Além disso, Ricardo escolhe autores (por exemplo: o já citado Francisco Carvalho, Moreira Campos, Airton Monte, Patatitva, Carlos Augusto Viana, Luciano Maia etc.) e estuda, com atenção, alguns textos especiais de cada um para ler, repetir e enfatizar, como a montar, na cabeça do ouvinte, um jardim de estética.
Dura apenas uma hora, o que é lamentável, pois vai sendo criada, pouco a pouco, de forma didática, sem deixar de ser teatral, uma empatia entre o apresentador Ricardo Guilherme e o público. E o monólogo, de forma incrível, passa a ser diálogo com o sentimento e a atenção do ouvinte que, mesmo que não conheça nada de literatura, sai do auditório com muita coisa para pensar, ainda que não recorde exatamente tudo o que foi dito com maestria e simplicidade cênica. É um processo – e um projeto – de transformação de pessoas que precisaria do apoio maior do BNB para continuar e também ser mambembe, viajante, volante, aliar a clausura do auditório às quadras de escolas e comunidades, como a dizer que o mundo não é apenas violência das ruas, desatino de políticos, vazio de certos de shows, programas de televisão e de algumas emissoras de rádio que primam pelo chulo e o mau gosto. Há salvação, acredite, esse projeto, não pode ser interrompido, ele é um caminho e caminho se faz, passo a passo.
(para todos os que acreditam na esperança, na escrita e na arte)
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/06/2007
SENTIMENTOS E DESEJOS – Diário do Nordeste
Certa vez, participei de um debate com a médica Carmita Abdo, psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP e responsável por projeto sobre a sexualidade do brasileiro. Ela e a sua equipe fizeram 7.100 entrevistas e descobriram que a sexualidade masculina não vai bem, apesar dos remédios indutores para os que têm ou se imaginam com disfunção erétil. O fato é que nós, jovens ou maduros, precisamos reformular conceitos e relações pessoais e isso passa pelo nosso jeito de viver e parecer. O brasileiro sempre exagera seu desempenho sexual, mas há também gente escondendo suas calamidades pessoais. Primeiro, o homem precisa entender que a ereção resulta de uma conjunção de fatores, a partir do desejo e/ou do sentimento e, em seguida, se integra ao sistema nervoso central, nervos, vasos e testosterona. Pode parecer complicado, mas não é. Imagine procurar relatar como é dirigir um carro (abrir a porta, introduzir a chave, girar a ignição, olhar para frente, ligar a marcha e dar partida). É simples dirigir, é simples ter o desejo, mas tanto na direção do veículo, como na direção do seu espetáculo pessoal, há, por exemplo, influências do álcool, tabaco, obesidade e do estresse da vida. Isso muda.
Outro médico, Gilberto Ururahy, relata que 28 mil homens ativos, entre 30 e 70 anos, foram analisados e, dentre eles, 70% relataram índices altos de estresse, 50% não faziam exercícios, 50% ingeriam álcool, 25% fumavam, 23% eram hipertensos e 50% tinham contas com o colesterol. Resultado: 25% com perda significativa do desejo sexual. Por outro lado, a pressa no viver e a liberação sexual aparente, produzem estilhaços nas relações e carências que não provocam a explosão de sentimentos e desejos. Porque é fácil, não se deseja. Porque poupa sentimentos, leva receios para o encontro, fracassa no amor e desempenho. O que digo aqui é apenas um alerta e cabe a cada um analisar e discutir com a sua parceira que, igualmente, não pode fazer jogo de cena. Sem sentimentos verdadeiros, o desejo passa a ser banalizado “porque em terra que tem fada, tem bruxa também”, dizia I.Legrand.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/06/2007.
CRÔNICA DA SEMANA – Jornal O Estado
Esta semana foi intensa. Vi mais de 70 pessoas, de todas as idades, participando de um curso de bombeiro voluntário e primeiros socorros. Este curso é para quem pensa no outro e admite ter uma atitude modificando uma situação de emergência. Ser bombeiro voluntário é importante para todos e sua ação poderá salvar vidas e fazer a diferença.
Vi também a exposição de gravuras de Rembrandt (pintor e gravador holandês do século XVII, de arte realista) na Unifor e fiquei maravilhado não só com a obra em si, de todos já conhecida, mas com a forma profissional, didática e ‘classuda’ como aquela Universidade trata os acontecimentos de arte. Uma pessoa, mesmo sem nunca ter comparecido antes a uma mostra, sai de lá com uma sensação de inclusão, pois, de forma bem sutil, é guiada nas formas, no conteúdo e na vida do autor exposto. Sem medo de errar, acredito terem as exposições da Unifor um tratamento de alto nível técnico e plástico, só encontrado no Brasil em São Paulo e em grandes eventos.
Esta semana também estive, por várias vezes, no Hospital Geral da Unimed visitando amigos e pude verificar o zelo, a atenção e o espírito da equipe comandada pela Dra. Emair Borges. Há um compromisso disseminado entre todos, com a qualidade. Não a baboseira da total, mas a qualidade em si, a começar pelo tratamento paisagístico, o respeito ao meio ambiente pelos cuidados com os resíduos gerados. Vi a atenção aos usuários na tarja amarela identificando os degraus de cada escada e os avisos nos elevadores anunciando eventos e mudanças de comportamento. Vi também paciente sendo bem atendido e tendo alta médica um dia após cirurgiado, sem isso demonstrar pressa ou economia.
Nesta semana também tive o prazer de trocar horas de prosa com amigos inteligentes e instigantes. Tão instigantes a ponto de o tempo passar sem nos apercebermos. É bom estar com gente de bem com a vida, sem esconder sentimentos e deixar, apenas pelo companheirismo, a conversa correr sem policiar palavras, frases ou atitudes. E a tarde anoitou e a noite madrugou. E nesses dois momentos distintos e raros de enlevo renovamos a fé na amizade, não a travestida em interesses ou ademanes, mas a espontânea como a fala de uma criança.
E a semana já ia terminando quando falei ao telefone com o escritor Antonio Torres, candidato ao prêmio (nacional) Jaboti, por quem torço, não por compadrio, mas por já ter lido e gostado do seu novo romance “Pelo fundo da agulha”, um dos bem cotados em seu gênero. E gostei de ter ouvido a simplicidade do Antonio Torres dizer: “como este dinheirinho me faria bem”. Estou torcendo, Antonio.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/07/2007.
HOMENS E AVIÕES – Diário do Nordeste
Nesta crise anunciada da aviação comercial fica claro que homens e aviões precisam de muitos e melhores cuidados. Parece que essa certeza básica não está sendo considerada por seus dirigentes públicos e privados. Desde que Santos Dumont voou em Paris em 1906, com o seu “14 Bis”, que o Brasil tem procurado ser uma referência na área. Na primeira metade do Século XX, a aviação era uma atividade perigosa, mas romântica. Até o escritor francês, Antoine Sainte-Exupéry (O Pequeno Príncipe, Correio do Sul, Voo Noturno etc.) era piloto comercial. Exupéry era triste, como também o eram Santos Dumont e Pinto Martins. Hoje, nada de romantismo, apenas empregos e tragédias. Mas, os pilotos continuam tristes.
Na infância, convivi com pilotos – meu pai era um deles – e pude ver que eram audaciosos e imaturos. Depois, como passageiro, estive em avião da TAP que fez pouso forçado, após emergência, em Las Palmas. Nesse episódio, vi o descortino do comandante e tripulantes. Eles tinham uma crise e precisavam decidir. Demorou 90 minutos, mas pareceu uma vida. Agora, com o acidente do Airbus da TAM, precedido de avisos, desde a queda do avião da Gol no ano passado, ficou claro que os homens da aviação precisam ser melhor cuidados para ter calma e decidir em emergências. Mas, os pilotos lutam contra o desemprego (Transbrasil, Vasp e Varig demitiram) e as novas empresas são vorazes na maximização do uso de seus equipamentos. Há ainda o caso dos controladores de voo. Têm apenas o nível médio e três categorias: militares (sargentos), funcionários públicos civis e CLT. É uma mistura explosiva com salários diversos e lutas sindicais. Do mesmo modo, os pilotos comerciais só têm o segundo grau, estudam em apostilas, aprendem a voar por instrumentos e obtém brevês de piloto em aeroclube, não em faculdade. Os aviões, mantidos em terra, voam no limite, apresentam defeitos, são consertados por mecânicos mal remunerados, e usam aeroportos construídos e gerenciados por leigos, indicados por políticos. Dá no que deu. Por que não entregar tudo ao ITA ou à Embraer, que constrói aviões, mas não o do Presidente?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2007
DORIAN OU DORIANUÁRIO – Jornal O Estado
Desculpem-me os editores Jocélio Leal e Fábio Campos. Desculpe-me Demócrito Dummar, mas ainda associo o Anuário do Ceará a Dorian Sampaio. Reconheço estar o Anuário a viver outros tempos, cumprindo nova função e ocupando espaço importante na área de pesquisa e construção da história cearense. Sei do cuidado no seu planejamento, comercialização, elaboração, dos novos métodos de gestão e dos sistemas de informática alimentando informações, tornando-as atuais, veras e consequentes.
Mas, vi o Anuário renascer nas mãos de Dorian Sampaio. Era um projeto parado com a morte de Waldery Uchoa e Dorian teve a coragem de ressuscitá-lo. Participei dessa história. Era 1969. Dorian Sampaio, jornalista e ex-deputado estadual, não aceitava o revés de uma cassação injusta e o trauma causado, não fora a sua inquietude, talento e vontade de provar-se e dar a volta por cima. Um belo dia, ele me indagou se eu admitiria participar de um projeto de recriação do Anuário do Ceará contando e cantando as glórias do nosso povo. Respondi: estudaria o assunto, bastando me apresentar, por escrito, a ideia. Com o seu jeitão característico, ele me retrucou quanto ao volume de trabalho para fazer tal estudo e só o realizaria se eu garantisse: a) participar do negócio; b) ou, em caso contrário, pagar uma determinada quantia pelo trabalho. Aceitei.
Li o projeto – devolvido anos depois – e disse ser uma empreitada diversa da natureza do meu trabalho, não combinando com o meu jovem e irrequieto perfil. Melhor seria convidar alguém do ramo para, juntos, tocarem a ideia. Paguei a quantia combinada. Surgiu então a parceria Dorian Sampaio e Lustosa da Costa, dois não-cearenses, talvez mais autênticos que 99% dos nascidos por estas terras tórridas.
Com o gás e a sede de retomar o caminho abruptamente cortado, a dupla Dorian e Lustosa se materializou no Anuário do Ceará. Os primeiros anos do Anuário foram levados a quatro mãos. Com a ida do Lustosa para Brasília, a família de Dorian, incorporada, assume e dá a sua forma empresarial na Stylus, a editora-mãe. Lembro quando, ao completar 25 anos, escrevi na sua edição comemorativa: “estes 25 anos têm demonstrado o valor de uma ideia, a capacidade de uma pessoa, a importância da união de uma família em torno de um objetivo e o poder aglutinador de fazer e refazer equipes. A todos: ao líder, à família, à equipe e ao próprio Ceará, meu reconhecimento, minha homenagem e amizade”.
Com a morte de Dorian, o Anuário do Ceará passou ao controle das empresas O Povo. Novamente, fui consultado. Dessa vez, por Demócrito Dummar e verifiquei, triste, não ter mesmo o perfil de gestor ou editor e não aceitei a parceria. Desejei sorte. Agora, por dever de justiça, rendo homenagem a esse veículo precioso a nos orgulhar e a registrar, de forma profissional em 660 páginas, na sua edição 2007-2008, a saga cearense. Parabéns ao editor-geral Fábio Campos, ao editor-executivo Jocélio Leal e ao Demócrito Dummar. Mas como esquecer Dorian Sampaio?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/08/2007.
BREGA BRASIL – Diário do Nordeste
Vocês sabiam, amigos Airton Monte e Carlos Augusto, amantes de música, que a agência de publicidade F/Nazca Saatchi, contratou agora os serviços do Datafolha para fazer uma pesquisa sobre o gosto musical dos brasileiros? Pesquisaram, do norte ao sul, 2.166 pessoas, maiores de 16 anos, em 135 cidades e chegaram a uma conclusão que parece surpreender a paulicéia, mas que mostra a cara brega do Brasil, esse que chora e ri nas novelas e se esgoela acompanhando músicas de dor de cotovelo e cantores sertanejos. Se você pensou, amiga Eliana, que ia dar Zizi Possi ou Marisa Monte, quebrou a cara. Nada de Betânia, Gil, Gal, Caetano ou Chico, tidos como “cults”. O brasileiro comum parece não gostar de metáforas, só entende letras acessíveis, diretas, rimas claras a mexer com o seu emocional conturbado pelas tragédias, desesperanças e falta de oportunidades.
Nenhum dos letristas sofisticados foi, sequer, lembrado. Não é triste, Colares? E a grande campeã não tem nem gravadora. Ela mesma produz os seus discos, ouviram Sílvia, Sônia e Josino? Não está situada no eixo Rio – São Paulo. É do norte do país, da terra do Tacacá e do Caruru, Belém do Pará e é a Banda Calypso. Segundo Eduardo Miranda, produtor do programa Ídolos, a “A Calypso é a verdade do povo brasileiro”.
Vocês sabem, Alexa, Cris, Mel e Bruna, quem são Zezé e Chimbinha? São as figuras de proa da Calypso. Depois, em segundo lugar, vem Zezé Di Camargo e Luciano, bem lembrados pelo filme-romance de suas vidas. Bruno e Marrone ficam em terceiro. E Roberto Carlos, meloso e agora plastificado, está em quarto lugar. Depois, aparecem, pela ordem, Daniel, Leonardo, Ivete Sangalo, Calcinha Preta, Amado Batista, Aviões do Forró e Jota Quest.
Não, não fiquem tristes, amigos, pois sei de gente que, na intimidade de seus quartos, deixam rodar músicas bregas e posam de ouvidos refinados, dizendo-se admiradores de Milton Nascimento. Não adianta fugir à natureza, à genética produtora desse povo tão singular a desaprovar governos, mas adorando líderes com discursos plenos de emoções. Só cantando somos o que somos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/08/2007.
REGISTROS DA VIDA – Jornal O estado
Não importam a idade, o sexo, a cor, o que faça e o estado civil, todos vão recebendo registros da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidões, encontros e coisas que tais. De repente, os registros vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas.
Esses registros são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que promessas e juras são frutos de um contexto a se transformar com a lucidez ou a mudança de personagens. Os registros ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que a outra pessoa não é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza.
Ninguém tem respostas para você, ninguém sabe o tempero que nutre as suas esperanças e a alegoria a embalar os seus sonhos. Basta de procurar explicar-se e de admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo. Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios e passam a companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. Só temos a capacidade de falar por nós mesmos e as respostas para os dilemas humanos e os nossos registros são singulares, não há receita pronta para isso.
A confiança em si é um pressuposto básico para a independência sem a qual não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas a reduzir os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa.
A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e o sinal a abrir sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬-se ou confundir-se com você.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2007.
A ÚLTIMA LIÇÃO – Diário do Nordeste
Meu pai, infelizmente, já morreu. Era um homem simples, inteligente, cara de duro, mas pleno de ingenuidade. Era charmoso, atraente mesmo e nunca posou de santo. Casou cedo, trabalhou, viveu plenamente, criou nove filhos, todos independentes, nível superior de instrução e cidadãos do mundo. Morreu aos 70, de infarto, fim de tarde, no jardim de sua casa, ao lado de minha mãe. De repente, tento saber se fui seu amigo, se conversei com ele o desejado e se não fui egoísta. Só ele poderia responder. Sei que, após aposentado, veio ter comigo e me ajudava, dizendo não entender porque eu trabalhava tanto, se da vida nada se levava. Repetia isso, sempre.
E isso calou em mim. Nunca falei para ninguém, mas resolvi, passo a passo, diminuir o ritmo de trabalho e deixei de pensar em ser mais ou ter mais. Diminuí, faz muito tempo, só não pude parar, pois a dinâmica da vida nos impõe ação. Desacelerei. Passei a fazer coisas prazerosas, menos chatas, ver os netos, aceitar meus erros e ter mais tempo para o que sempre gostei: viajar, conversar, ler, escrever e fazer pouco, mas diferente, com responsabilidade.
Agrupei-me com dessemelhantes e dispensei o aparato burguês de viver. Tive baixos e altos e vi-me livre, foi duro. Essa liberdade não se transformou em ócio, mas me aprumou no rumo do novo. E, certamente, conheci pessoas erradas, até desonestas, posando de gente boa. Farsantes. Também conheci gente séria, simples, valiosa e desprovida de interesses. E penso que essa mudança se deu também por conta das ponderações repetidas do meu pai. Na hora de sua morte, corri para o hospital para onde foi levado, mas ele já não respirava. O médico que o atendeu, pediu gentilmente, ao sair do quarto e me deixar só com ele, que retirasse logo a aliança de seu dedo. Depois, seria impossível. Olhei, perplexo, para o seu semblante acalmado eternamente, segurei sua mão esquerda e tirei a aliança. Relembrei do que ele sempre dizia: “do mundo nada se leva”. Pois é, ele, através de sua mão, me repetia, pela última vez, a lição.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2007.
MARCELO LINHARES – Jornal O Estado
Marcelo Caracas Linhares, bancário, advogado, deputado federal por quatro legislaturas, intelectual, historiador e, sobretudo, homem de bem, viajou para o eterno na terça, dia 14. Há muito o seu coração fraquejava. Vi-o, minutos antes da derradeira missa, após cumprimentar sua mulher, Irismar. Ele estava ele. A doença não lhe tirara os traços fidalgos e o jeito sereno de ser. Ano passado, dentro de um projeto ainda em curso, o entrevistei. Conversei com ele, amigos que éramos e colegas da Academia Fortalezense de Letras, e pedi-lhe para responder a 40 perguntas. Ele o fez, gentilmente. Aproveito, partes de suas respostas, e ele mesmo escreverá esta crônica. Paro aqui, agora é ele.
“Nos meus oitenta anos nunca imaginei responder perguntas sobre mim mesmo. Lembro-me sempre que a um Lorde inglês indagaram como havia chegado tão rápido àquela posição, eis que só tinha cinquenta anos. A resposta foi: ‘falando muito das coisas, pouco das pessoas e nada sobre mim mesmo’. A minha infância foi vivida em Guaramiranga, sozinho. Daí a influência na minha personalidade ser muito de minha família. Por outro lado, creio ser um pouco autodidata eis que tenho a impressão de haver feito o pior curso de direito de um aluno da Faculdade de Direito do Ceará. Parte dele estava no Crato e parte em Quixadá, vindo a Fortaleza fazer as provas. Deu-me muito trabalho recuperar, com novos estudos, o que deixei de fazer durante o curso. Na época em que entrei no Banco do Brasil, essa era uma das carreiras mais cobiçadas da mocidade de então. Ocorre que fui transferido para o Crato e depois para Quixadá. Mesmo assim, não me arrependo de haver nele ingressado. Fui aposentado, na última letra da carreira de advogado. Na realidade, fui um felizardo.
Não sei o que teria sido de mim sem a âncora que encontrei, Irismar. Se você verificar em todos os livros que escrevi – e são oito até agora – sem contar com aqueles de menos de 50 páginas que não se mantêm em pé, os oferecimentos são a ela. Nos momentos de maiores dificuldades, inclusive na vida política, foi ela que me ajudou a delas sair. Deus foi pródigo comigo pondo-a no meu caminho. Logo que nos casamos, filhos era uma meta. Depois, com o passar dos tempos, fomos vendo – Irismar e eu – os dramas que muitos amigos passavam com os seus descendentes. Hoje vemos que Deus, mais uma vez, nos abençoou. Fora o meu casamento, a coisa melhor que fiz na vida foi ser deputado federal. Preciso dizer nunca haver sido derrotado. Cada eleição obtinha mais votos que a anterior.
Só a fé nos conduz no reto cumprimento do dever. Nunca duvidei, graças a Deus, e minha fé continua inabalável”. Marcelo.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2007.
