Sem categoria

CRÔNICA DA SEMANA – Jornal O Estado

Esta semana foi intensa. Vi mais de 70 pessoas, de todas as idades, participando de um curso de bombeiro voluntário e primeiros socorros. Este curso é para quem pensa no outro e admite ter uma atitude modificando uma situação de emergência. Ser bombeiro voluntário é importante para todos e sua ação poderá salvar vidas e fazer a diferença.
Vi também a exposição de gravuras de Rembrandt (pintor e gravador holandês do século XVII, de arte realista) na Unifor e fiquei maravilhado não só com a obra em si, de todos já conhecida, mas com a forma profissional, didática e ‘classuda’ como aquela Universidade trata os acontecimentos de arte. Uma pessoa, mesmo sem nunca ter comparecido antes a uma mostra, sai de lá com uma sensação de inclusão, pois, de forma bem sutil, é guiada nas formas, no conteúdo e na vida do autor exposto. Sem medo de errar, acredito terem as exposições da Unifor um tratamento de alto nível técnico e plástico, só encontrado no Brasil em São Paulo e em grandes eventos.
Esta semana também estive, por várias vezes, no Hospital Geral da Unimed visitando amigos e pude verificar o zelo, a atenção e o espírito da equipe comandada pela Dra. Emair Borges. Há um compromisso disseminado entre todos, com a qualidade. Não a baboseira da total, mas a qualidade em si, a começar pelo tratamento paisagístico, o respeito ao meio ambiente pelos cuidados com os resíduos gerados. Vi a atenção aos usuários na tarja amarela identificando os degraus de cada escada e os avisos nos elevadores anunciando eventos e mudanças de comportamento. Vi também paciente sendo bem atendido e tendo alta médica um dia após cirurgiado, sem isso demonstrar pressa ou economia.
Nesta semana também tive o prazer de trocar horas de prosa com amigos inteligentes e instigantes. Tão instigantes a ponto de o tempo passar sem nos apercebermos. É bom estar com gente de bem com a vida, sem esconder sentimentos e deixar, apenas pelo companheirismo, a conversa correr sem policiar palavras, frases ou atitudes. E a tarde anoitou e a noite madrugou. E nesses dois momentos distintos e raros de enlevo renovamos a fé na amizade, não a travestida em interesses ou ademanes, mas a espontânea como a fala de uma criança.
E a semana já ia terminando quando falei ao telefone com o escritor Antonio Torres, candidato ao prêmio (nacional) Jaboti, por quem torço, não por compadrio, mas por já ter lido e gostado do seu novo romance “Pelo fundo da agulha”, um dos bem cotados em seu gênero. E gostei de ter ouvido a simplicidade do Antonio Torres dizer: “como este dinheirinho me faria bem”. Estou torcendo, Antonio.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/07/2007.

Sem categoria

ESCAPEI? – Diário do Nordeste

Sérgio Braga perdeu a vesícula. Foi nesta semana. Vocês conhecem o Sérgio Braga? Ele mede 1,85m e pesa mais de 100 quilos. Pois esse ‘homão’ teve uma boba de uma crise de vesícula e ficou apavorado. Fez todos os exames com muito medo e, só após ter realizado o seu testamento, submeteu-se a uma ressonância magnética. Não tinha jeito, tinha de entrar na faca. O seu irmão e médico, Paulo, já não aguentava mais as perguntas e as medições diárias da pressão arterial.
Eu, ‘paramédico’ conhecido, fui incumbido de indicar o cirurgião e sugeri o nome do Dr. Campos. Ele, mesmo com toda a sua comprovada experiência, foi ainda submetido a uma sabatina pelo Sérgio. Eu não estava lá, mas imagino o doente, com aquele jeito de boi manso, perguntando: Doutor, o Sr. se garante, tem perigo de algo sair errado e eu morrer? O Dr. Campos teria rido e respondido: todos nascem e morrem um dia. O Sérgio quase desmaia e foi logo ligando para o anestesiologista José Teles pedindo-lhe para acompanhar a cirurgia, como garantia pessoal. Para culminar os preparativos, ele me liga e diz: João, será possível um cardiologista acompanhar a minha cirurgia? Lá vou eu ligar para a Dra. Emair, diretora do Hospital.
Data da cirurgia. O Sérgio, depois de inopinado registro, está deitadão na cama de seu quarto no hospital vestindo apenas uma minúscula bata. O relógio marca 10 horas e o Dr. José Teles se atrasa. O Sergio sua, apesar do ar-condicionado no máximo. O Dr. Campos entra no quarto, dá um bom dia e vê aquele gigante metido na sumária bata e pergunta se ele está pronto para a operação. Ele revira os olhos, reza para São Francisco, seu santo protetor, deixa cair duas lágrimas e vê o Dr. José Teles chegando. Apertam-se as mãos, o sangue corre melhor em suas veias e ouve, desconfiado, a conversa – em linguagem médica – mantida pelos dois médicos. A pré-anestesia começa a fazer efeito, uma maca chega e são necessários três maqueiros para transferir o Sérgio da cama para a maca. Ele sorri amarelo, os olhos pesados e apaga. Acorda, horas depois, são e salvo, e pergunta: escapei?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/07/2007.

Sem categoria

O QUE É UM AMIGO? – Jornal O Estado

Hoje é o dia do amigo. Você sabia?
O que é um amigo? Será aquele que ampara e defende? Ou o que protege e acolhe? Ou o que ouve calado as nossas lamúrias? Ou o que está pronto para o que der e vier e vem sem ser chamado?
Nelson Rodrigues, um frasista cínico e inteligente, tem várias versões sobre o que seja amigo. Na primeira, ele é negativo e diz: “Os homens, individualmente, não são amigos dos homens. O ódio começou quando, pela primeira vez um homem viu outro homem. E assim tem sido através de todas as manhãs e de todas as noites: – o “outro” continua sendo o inimigo de cada um de nós e de todos nós.” Em seguida, ele muda: “Daí porque o grande acontecimento é, sempre, o amigo. Ele é a desesperada utopia que todos perseguimos até a última golfada de vida.” Sendo polêmico, Nelson tinha humores e isso o fazia pensar diferente sobre amizade, dependendo do estado de espírito. Assim é que, em outra feita, ele chora: “A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas as relações com o passado ficam alteradas”.
Afinal, o que é um amigo? Atrevo-me a dizer que é aquele que quer bem ao outro. É o companheiro, aliado e simpatizante. Segundo Machado de Assis, “não é amigo aquele que alardeia a amizade; é traficante; a amizade sente-se, não se diz…”
Procuro na história e valho-me de Aristóteles quando diz: “Não podemos nos contemplar a partir de nós mesmos. Do mesmo modo que quando queremos contemplar nosso rosto fazemo-lo olhando-nos num espelho, assim também quando queremos conhecer-nos a nós mesmos, conhecemo-nos vendo-nos em um amigo. Porque o amigo, dizemos, é um outro de nós mesmos.”
Vejo em Michel Foucault, na obra “A palavra e as coisas” uma distinção epistemológica entre simpatia (que gera amizade) – o poder de assimilar, de fazer com que as coisas passem a ser semelhantes, ajustadas, de interesse comum – e antipatia, como contraponto que se caracteriza pela dispersão e dessemelhança.
A amizade é uma relação em duplo sentido, onde a complementaridade, o respeito, a crítica que ajuda, o incentivo que estimula e o apoio que conforta, não devem faltar como condimento à convivência entre pessoas distintas.
Socorro-me de Cícero quando fala da perda das amizades: “Se o acaso as faz cair por falta de discernimento em uma amizade, não se creiam ligados a ponto de não poder abandonar seus amigos gravemente culpáveis”.
Há pessoas a confundir amizade com cumplicidade e subserviência, formas pouco leais de convivência. Ser amigo é, antes de tudo, saber lidar com a verdade, mesmo isso se tornando doloroso. A verdade relativa de cada um nos impõe uma característica de vida. Ela nos distingue dos demais, sem deixar de sermos semelhantes. Isto é a nossa integridade. E com poucos, mas escolhidos amigos, estamos mais seguros, com identificação clara, capacidade de servir e dizer ao outro o quanto o estimamos e estamos dispostos a relevar discórdias e eliminar frustrações. O poeta inglês William Blake disse: “tudo que vive, não vive sozinho, nem para si mesmo”. Por estarmos vivos e não vivermos isolados, não podemos deixar de ter amigos e de nos tornar integrantes de um elo comum a necessitar de permanente atenção e cuidado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/07/2007.

Sem categoria

IGREJA BENTA? – Diário do Nordeste

Quando menino, os padres e minha mãe recomendavam não conversar com “crente”, tampouco ter a audácia de pisar nas calçadas de igrejas evangélicas ou de centros espíritas. Nunca obedeci. As missas eram então em latim e, antes da bênção final, três ave-marias rezadas contra o “comunismo ateu”. Foi assim até o Concílio Ecumênico (62 a 65), que deu ares renovados a uma Igreja precisada de expurgar culpas antigas e novas, como a do Papa Pio XII na 2ª. Guerra. Estive em Roma em 65 e, bem jovem, saí de lá informado, alegre, inclusive dando carona para Paris a bispos cearenses.
Nos anos 80 houve solidariedade com os pobres e diálogo com outras religiões, ao tempo em que a caridade anônima era incentivada. Depois, veio João XXIII e a Igreja voltava ao passado. Agora, 42 anos após o ecumenismo, vem o Papa Bento XVI e diz: “A única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica”. O ecumenismo parece enterrado nas catacumbas romanas e o catolicismo toma ares do fundamentalismo tão criticado por nós nos aitolás e talibãs. Neste breve papado de Bento (ou Benedito?) XVI há uma preocupação – ultrapassada – em ressuscitar a missa em Latim, língua morta, não aceitar a camisinha e teimar em não acolher o fim do celibato dos padres, ocasionando o pagamento de indenizações altíssimas por conta de abusos sexuais contra fiéis.
Agora mesmo, em Los Angeles, o arcebispo fez um acordo com 500 vítimas e pagou 660 milhões de dólares. Nos Estados Unidos, onde a lógica permite o resgate da honra com dinheiro, a Igreja já gastou bilhões com pedofilia de padres. Não se pode mudar a natureza humana e os padres são homens, carentes e solitários. Um dos ensinamentos básicos aprendidos na minha fé torta foi o de que somos todos iguais e devemos cultivar a humildade. O catolicismo é maior que seus erros e os dos seus padres. O que a Igreja fez no seu ato da Congregação para a Doutrina da fé, em 29, dia de São Pedro, de junho de 2007, foi dizer que somos os escolhidos. Como fica a humildade (“melhor é ser humilde de espírito…”, Prov. 16:19) pregada por Cristo?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/07/2007.

Sem categoria

A CULPA É NOSSA – Jornal O Estado

Quando acontecem acidentes que comovem a Nação ou atingem familiares e amigos nossos, ficamos perplexos e cobramos atitudes, reclamamos e, momentaneamente, nos indignamos.
Nós, brasileiros, temos o hábito de reclamar dos políticos em quem votamos. Isso é produto da cultura e do comportamento nacional de não escolher com atenção dirigentes, amizades e parceiros. De vez em quando ou muitas vezes, somos surpreendidos com decepções e até desonestidades. Por qual razão isso acontece? Por que não temos o cuidado de examinar quase nada, de nos aprofundarmos em reflexões e análises e nos deixamos levar pela empolgação, a conversa fiada e a falsa aparência de gente boa.
Falamos dos banqueiros, mas eles são, por dever de ofício, cuidadosos ao conceder um crédito. Nós, pelo contrário, somos abertos demais, damos crédito fácil, seja de que natureza for, a quem não conhecemos em profundidade e temos a memória curta. Isso nos leva a escolha errada em muitas situações. Essa constante na nossa vida, por outro lado, é fruto, além da desatenção e falta de análise, apanágio do subdesenvolvimento, do descompromisso com nós mesmos. Fazemos tudo às pressas, como se nada merecesse um tempo de expectativa, tão comum em outros povos, que levam muito tempo para chegar a uma decisão. Por outro lado, tomada a decisão, mergulham, com profundidade, na luta para que ela se transforme em realidade, em êxito e, certamente, monitoram comportamentos e corrigem desvios, não tendo receio de excluir pessoas que falham, denigrem, roubam e têm cara de gente boa. Nós, não. Todos sabem que fulano de tal é desonesto ou trambiqueiro, mas ele continua saindo por aí, enganando pessoas, escudado, muitas vezes, em advogados que provocam chicanas em processos que tentam desmascará-lo.
Se desejarmos um melhor destino para nós mesmos e para o Brasil será preciso que mudemos de conduta. Tornemo-nos, forçosamente, desconfiados, deixemos de aceitar os que fingem ser e não são, os que se apoderam de posições públicas, privadas, sindicais ou de associações de classe, apenas em benefício próprio, propalam isso e aquilo em relações públicas que nada mais são que mistificação e promoção pessoal furada, não conferida por quem as veicula. Temos que parar com a hipocrisia ou aceitar o que diz o ministro da Cultura, Gilberto Gil, atualmente em férias no exterior: “A hipocrisia é uma ferramenta da civilidade”. Será?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/07/2007.

Sem categoria

DORIAN OU DORIANUÁRIO – Jornal O Estado

Desculpem-me os editores Jocélio Leal e Fábio Campos. Desculpe-me Demócrito Dummar, mas ainda associo o Anuário do Ceará a Dorian Sampaio. Reconheço estar o Anuário a viver outros tempos, cumprindo nova função e ocupando espaço importante na área de pesquisa e construção da história cearense. Sei do cuidado no seu planejamento, comercialização, elaboração, dos novos métodos de gestão e dos sistemas de informática alimentando informações, tornando-as atuais, veras e consequentes.
Mas, vi o Anuário renascer nas mãos de Dorian Sampaio. Era um projeto parado com a morte de Waldery Uchoa e Dorian teve a coragem de ressuscitá-lo. Participei dessa história. Era 1969. Dorian Sampaio, jornalista e ex-deputado estadual, não aceitava o revés de uma cassação injusta e o trauma causado, não fora a sua inquietude, talento e vontade de provar-se e dar a volta por cima. Um belo dia, ele me indagou se eu admitiria participar de um projeto de recriação do Anuário do Ceará contando e cantando as glórias do nosso povo. Respondi: estudaria o assunto, bastando me apresentar, por escrito, a ideia. Com o seu jeitão característico, ele me retrucou quanto ao volume de trabalho para fazer tal estudo e só o realizaria se eu garantisse: a) participar do negócio; b) ou, em caso contrário, pagar uma determinada quantia pelo trabalho. Aceitei.
Li o projeto – devolvido anos depois – e disse ser uma empreitada diversa da natureza do meu trabalho, não combinando com o meu jovem e irrequieto perfil. Melhor seria convidar alguém do ramo para, juntos, tocarem a ideia. Paguei a quantia combinada. Surgiu então a parceria Dorian Sampaio e Lustosa da Costa, dois não-cearenses, talvez mais autênticos que 99% dos nascidos por estas terras tórridas.
Com o gás e a sede de retomar o caminho abruptamente cortado, a dupla Dorian e Lustosa se materializou no Anuário do Ceará. Os primeiros anos do Anuário foram levados a quatro mãos. Com a ida do Lustosa para Brasília, a família de Dorian, incorporada, assume e dá a sua forma empresarial na Stylus, a editora-mãe. Lembro quando, ao completar 25 anos, escrevi na sua edição comemorativa: “estes 25 anos têm demonstrado o valor de uma ideia, a capacidade de uma pessoa, a importância da união de uma família em torno de um objetivo e o poder aglutinador de fazer e refazer equipes. A todos: ao líder, à família, à equipe e ao próprio Ceará, meu reconhecimento, minha homenagem e amizade”.
Com a morte de Dorian, o Anuário do Ceará passou ao controle das empresas O Povo. Novamente, fui consultado. Dessa vez, por Demócrito Dummar e verifiquei, triste, não ter mesmo o perfil de gestor ou editor e não aceitei a parceria. Desejei sorte. Agora, por dever de justiça, rendo homenagem a esse veículo precioso a nos orgulhar e a registrar, de forma profissional em 660 páginas, na sua edição 2007-2008, a saga cearense. Parabéns ao editor-geral Fábio Campos, ao editor-executivo Jocélio Leal e ao Demócrito Dummar. Mas como esquecer Dorian Sampaio?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/08/2007.

Sem categoria

BREGA BRASIL – Diário do Nordeste

Vocês sabiam, amigos Airton Monte e Carlos Augusto, amantes de música, que a agência de publicidade F/Nazca Saatchi, contratou agora os serviços do Datafolha para fazer uma pesquisa sobre o gosto musical dos brasileiros? Pesquisaram, do norte ao sul, 2.166 pessoas, maiores de 16 anos, em 135 cidades e chegaram a uma conclusão que parece surpreender a paulicéia, mas que mostra a cara brega do Brasil, esse que chora e ri nas novelas e se esgoela acompanhando músicas de dor de cotovelo e cantores sertanejos. Se você pensou, amiga Eliana, que ia dar Zizi Possi ou Marisa Monte, quebrou a cara. Nada de Betânia, Gil, Gal, Caetano ou Chico, tidos como “cults”. O brasileiro comum parece não gostar de metáforas, só entende letras acessíveis, diretas, rimas claras a mexer com o seu emocional conturbado pelas tragédias, desesperanças e falta de oportunidades.
Nenhum dos letristas sofisticados foi, sequer, lembrado. Não é triste, Colares? E a grande campeã não tem nem gravadora. Ela mesma produz os seus discos, ouviram Sílvia, Sônia e Josino? Não está situada no eixo Rio – São Paulo. É do norte do país, da terra do Tacacá e do Caruru, Belém do Pará e é a Banda Calypso. Segundo Eduardo Miranda, produtor do programa Ídolos, a “A Calypso é a verdade do povo brasileiro”.
Vocês sabem, Alexa, Cris, Mel e Bruna, quem são Zezé e Chimbinha? São as figuras de proa da Calypso. Depois, em segundo lugar, vem Zezé Di Camargo e Luciano, bem lembrados pelo filme-romance de suas vidas. Bruno e Marrone ficam em terceiro. E Roberto Carlos, meloso e agora plastificado, está em quarto lugar. Depois, aparecem, pela ordem, Daniel, Leonardo, Ivete Sangalo, Calcinha Preta, Amado Batista, Aviões do Forró e Jota Quest.
Não, não fiquem tristes, amigos, pois sei de gente que, na intimidade de seus quartos, deixam rodar músicas bregas e posam de ouvidos refinados, dizendo-se admiradores de Milton Nascimento. Não adianta fugir à natureza, à genética produtora desse povo tão singular a desaprovar governos, mas adorando líderes com discursos plenos de emoções. Só cantando somos o que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/08/2007.

Sem categoria

REGISTROS DA VIDA – Jornal O estado

Não importam a idade, o sexo, a cor, o que faça e o estado civil, todos vão recebendo registros da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidões, encontros e coisas que tais. De repente, os registros vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas.
Esses registros são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que promessas e juras são frutos de um contexto a se transformar com a lucidez ou a mudança de personagens. Os registros ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que a outra pessoa não é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza.
Ninguém tem respostas para você, ninguém sabe o tempero que nutre as suas esperanças e a alegoria a embalar os seus sonhos. Basta de procurar explicar-se e de admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo. Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios e passam a companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. Só temos a capacidade de falar por nós mesmos e as respostas para os dilemas humanos e os nossos registros são singulares, não há receita pronta para isso.
A confiança em si é um pressuposto básico para a independência sem a qual não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas a reduzir os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa.
A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e o sinal a abrir sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬-se ou confundir-se com você.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2007.

Sem categoria

A ÚLTIMA LIÇÃO – Diário do Nordeste

Meu pai, infelizmente, já morreu. Era um homem simples, inteligente, cara de duro, mas pleno de ingenuidade. Era charmoso, atraente mesmo e nunca posou de santo. Casou cedo, trabalhou, viveu plenamente, criou nove filhos, todos independentes, nível superior de instrução e cidadãos do mundo. Morreu aos 70, de infarto, fim de tarde, no jardim de sua casa, ao lado de minha mãe. De repente, tento saber se fui seu amigo, se conversei com ele o desejado e se não fui egoísta. Só ele poderia responder. Sei que, após aposentado, veio ter comigo e me ajudava, dizendo não entender porque eu trabalhava tanto, se da vida nada se levava. Repetia isso, sempre.
E isso calou em mim. Nunca falei para ninguém, mas resolvi, passo a passo, diminuir o ritmo de trabalho e deixei de pensar em ser mais ou ter mais. Diminuí, faz muito tempo, só não pude parar, pois a dinâmica da vida nos impõe ação. Desacelerei. Passei a fazer coisas prazerosas, menos chatas, ver os netos, aceitar meus erros e ter mais tempo para o que sempre gostei: viajar, conversar, ler, escrever e fazer pouco, mas diferente, com responsabilidade.
Agrupei-me com dessemelhantes e dispensei o aparato burguês de viver. Tive baixos e altos e vi-me livre, foi duro. Essa liberdade não se transformou em ócio, mas me aprumou no rumo do novo. E, certamente, conheci pessoas erradas, até desonestas, posando de gente boa. Farsantes. Também conheci gente séria, simples, valiosa e desprovida de interesses. E penso que essa mudança se deu também por conta das ponderações repetidas do meu pai. Na hora de sua morte, corri para o hospital para onde foi levado, mas ele já não respirava. O médico que o atendeu, pediu gentilmente, ao sair do quarto e me deixar só com ele, que retirasse logo a aliança de seu dedo. Depois, seria impossível. Olhei, perplexo, para o seu semblante acalmado eternamente, segurei sua mão esquerda e tirei a aliança. Relembrei do que ele sempre dizia: “do mundo nada se leva”. Pois é, ele, através de sua mão, me repetia, pela última vez, a lição.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2007.

Sem categoria

MARCELO LINHARES – Jornal O Estado

Marcelo Caracas Linhares, bancário, advogado, deputado federal por quatro legislaturas, intelectual, historiador e, sobretudo, homem de bem, viajou para o eterno na terça, dia 14. Há muito o seu coração fraquejava. Vi-o, minutos antes da derradeira missa, após cumprimentar sua mulher, Irismar. Ele estava ele. A doença não lhe tirara os traços fidalgos e o jeito sereno de ser. Ano passado, dentro de um projeto ainda em curso, o entrevistei. Conversei com ele, amigos que éramos e colegas da Academia Fortalezense de Letras, e pedi-lhe para responder a 40 perguntas. Ele o fez, gentilmente. Aproveito, partes de suas respostas, e ele mesmo escreverá esta crônica. Paro aqui, agora é ele.
“Nos meus oitenta anos nunca imaginei responder perguntas sobre mim mesmo. Lembro-me sempre que a um Lorde inglês indagaram como havia chegado tão rápido àquela posição, eis que só tinha cinquenta anos. A resposta foi: ‘falando muito das coisas, pouco das pessoas e nada sobre mim mesmo’. A minha infância foi vivida em Guaramiranga, sozinho. Daí a influência na minha personalidade ser muito de minha família. Por outro lado, creio ser um pouco autodidata eis que tenho a impressão de haver feito o pior curso de direito de um aluno da Faculdade de Direito do Ceará. Parte dele estava no Crato e parte em Quixadá, vindo a Fortaleza fazer as provas. Deu-me muito trabalho recuperar, com novos estudos, o que deixei de fazer durante o curso. Na época em que entrei no Banco do Brasil, essa era uma das carreiras mais cobiçadas da mocidade de então. Ocorre que fui transferido para o Crato e depois para Quixadá. Mesmo assim, não me arrependo de haver nele ingressado. Fui aposentado, na última letra da carreira de advogado. Na realidade, fui um felizardo.
Não sei o que teria sido de mim sem a âncora que encontrei, Irismar. Se você verificar em todos os livros que escrevi – e são oito até agora – sem contar com aqueles de menos de 50 páginas que não se mantêm em pé, os oferecimentos são a ela. Nos momentos de maiores dificuldades, inclusive na vida política, foi ela que me ajudou a delas sair. Deus foi pródigo comigo pondo-a no meu caminho. Logo que nos casamos, filhos era uma meta. Depois, com o passar dos tempos, fomos vendo – Irismar e eu – os dramas que muitos amigos passavam com os seus descendentes. Hoje vemos que Deus, mais uma vez, nos abençoou. Fora o meu casamento, a coisa melhor que fiz na vida foi ser deputado federal. Preciso dizer nunca haver sido derrotado. Cada eleição obtinha mais votos que a anterior.
Só a fé nos conduz no reto cumprimento do dever. Nunca duvidei, graças a Deus, e minha fé continua inabalável”. Marcelo.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2007.