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REGISTROS DA VIDA – Jornal O estado

Não importam a idade, o sexo, a cor, o que faça e o estado civil, todos vão recebendo registros da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidões, encontros e coisas que tais. De repente, os registros vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas.
Esses registros são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que promessas e juras são frutos de um contexto a se transformar com a lucidez ou a mudança de personagens. Os registros ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que a outra pessoa não é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza.
Ninguém tem respostas para você, ninguém sabe o tempero que nutre as suas esperanças e a alegoria a embalar os seus sonhos. Basta de procurar explicar-se e de admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo. Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios e passam a companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. Só temos a capacidade de falar por nós mesmos e as respostas para os dilemas humanos e os nossos registros são singulares, não há receita pronta para isso.
A confiança em si é um pressuposto básico para a independência sem a qual não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas a reduzir os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa.
A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e o sinal a abrir sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬-se ou confundir-se com você.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2007.

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A ÚLTIMA LIÇÃO – Diário do Nordeste

Meu pai, infelizmente, já morreu. Era um homem simples, inteligente, cara de duro, mas pleno de ingenuidade. Era charmoso, atraente mesmo e nunca posou de santo. Casou cedo, trabalhou, viveu plenamente, criou nove filhos, todos independentes, nível superior de instrução e cidadãos do mundo. Morreu aos 70, de infarto, fim de tarde, no jardim de sua casa, ao lado de minha mãe. De repente, tento saber se fui seu amigo, se conversei com ele o desejado e se não fui egoísta. Só ele poderia responder. Sei que, após aposentado, veio ter comigo e me ajudava, dizendo não entender porque eu trabalhava tanto, se da vida nada se levava. Repetia isso, sempre.
E isso calou em mim. Nunca falei para ninguém, mas resolvi, passo a passo, diminuir o ritmo de trabalho e deixei de pensar em ser mais ou ter mais. Diminuí, faz muito tempo, só não pude parar, pois a dinâmica da vida nos impõe ação. Desacelerei. Passei a fazer coisas prazerosas, menos chatas, ver os netos, aceitar meus erros e ter mais tempo para o que sempre gostei: viajar, conversar, ler, escrever e fazer pouco, mas diferente, com responsabilidade.
Agrupei-me com dessemelhantes e dispensei o aparato burguês de viver. Tive baixos e altos e vi-me livre, foi duro. Essa liberdade não se transformou em ócio, mas me aprumou no rumo do novo. E, certamente, conheci pessoas erradas, até desonestas, posando de gente boa. Farsantes. Também conheci gente séria, simples, valiosa e desprovida de interesses. E penso que essa mudança se deu também por conta das ponderações repetidas do meu pai. Na hora de sua morte, corri para o hospital para onde foi levado, mas ele já não respirava. O médico que o atendeu, pediu gentilmente, ao sair do quarto e me deixar só com ele, que retirasse logo a aliança de seu dedo. Depois, seria impossível. Olhei, perplexo, para o seu semblante acalmado eternamente, segurei sua mão esquerda e tirei a aliança. Relembrei do que ele sempre dizia: “do mundo nada se leva”. Pois é, ele, através de sua mão, me repetia, pela última vez, a lição.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2007.

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MARCELO LINHARES – Jornal O Estado

Marcelo Caracas Linhares, bancário, advogado, deputado federal por quatro legislaturas, intelectual, historiador e, sobretudo, homem de bem, viajou para o eterno na terça, dia 14. Há muito o seu coração fraquejava. Vi-o, minutos antes da derradeira missa, após cumprimentar sua mulher, Irismar. Ele estava ele. A doença não lhe tirara os traços fidalgos e o jeito sereno de ser. Ano passado, dentro de um projeto ainda em curso, o entrevistei. Conversei com ele, amigos que éramos e colegas da Academia Fortalezense de Letras, e pedi-lhe para responder a 40 perguntas. Ele o fez, gentilmente. Aproveito, partes de suas respostas, e ele mesmo escreverá esta crônica. Paro aqui, agora é ele.
“Nos meus oitenta anos nunca imaginei responder perguntas sobre mim mesmo. Lembro-me sempre que a um Lorde inglês indagaram como havia chegado tão rápido àquela posição, eis que só tinha cinquenta anos. A resposta foi: ‘falando muito das coisas, pouco das pessoas e nada sobre mim mesmo’. A minha infância foi vivida em Guaramiranga, sozinho. Daí a influência na minha personalidade ser muito de minha família. Por outro lado, creio ser um pouco autodidata eis que tenho a impressão de haver feito o pior curso de direito de um aluno da Faculdade de Direito do Ceará. Parte dele estava no Crato e parte em Quixadá, vindo a Fortaleza fazer as provas. Deu-me muito trabalho recuperar, com novos estudos, o que deixei de fazer durante o curso. Na época em que entrei no Banco do Brasil, essa era uma das carreiras mais cobiçadas da mocidade de então. Ocorre que fui transferido para o Crato e depois para Quixadá. Mesmo assim, não me arrependo de haver nele ingressado. Fui aposentado, na última letra da carreira de advogado. Na realidade, fui um felizardo.
Não sei o que teria sido de mim sem a âncora que encontrei, Irismar. Se você verificar em todos os livros que escrevi – e são oito até agora – sem contar com aqueles de menos de 50 páginas que não se mantêm em pé, os oferecimentos são a ela. Nos momentos de maiores dificuldades, inclusive na vida política, foi ela que me ajudou a delas sair. Deus foi pródigo comigo pondo-a no meu caminho. Logo que nos casamos, filhos era uma meta. Depois, com o passar dos tempos, fomos vendo – Irismar e eu – os dramas que muitos amigos passavam com os seus descendentes. Hoje vemos que Deus, mais uma vez, nos abençoou. Fora o meu casamento, a coisa melhor que fiz na vida foi ser deputado federal. Preciso dizer nunca haver sido derrotado. Cada eleição obtinha mais votos que a anterior.
Só a fé nos conduz no reto cumprimento do dever. Nunca duvidei, graças a Deus, e minha fé continua inabalável”. Marcelo.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2007.

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MENOR E CRIME – Diário do Nordeste

Segundo as estatísticas e as ONGs, cerca de 30 mil jovens, entre 12 e 24 anos, são mortos a cada ano no Brasil. O crescimento demográfico do século XX foi desordenado. Graças à posição da Igreja não se permitiu o controle de natalidade. Por falta de ação do Estado e do elevado grau de pobreza, parte significativa da população brasileira, egressa do interior, ocupou favelas e margens de cursos de água das áreas urbanas. A grande maioria da juventude está sem rumo, perspectiva e é presa fácil para ser cooptada por criminosos.
Só no Rio, existem 5 mil adolescentes participando do crime organizado. Estas considerações refletem a nossa indignação quando um adolescente mata, a troco de nada, alguém que contraria a sua vontade ao não entregar, de pronto, o carro ou os bens que porta. Um exemplo, entre tantos: esta semana, um professor, ao lado de sua mulher, foram mortos por um grupo de adolescentes que já tinha cometido delitos. Chegava em casa de carro, apenas isso.
O Estatuto da Criança e do Adolescente é “coisa de Primeiro Mundo”, dizem alguns. Mas, no Primeiro Mundo, os adolescentes são julgados como adultos. Não criticamos a lei ou sugerimos mudanças, mas cobramos do Estado a sua aplicação na tão falada ressocialização que, na prática, não existe. Não sabemos se a redução da maioridade resolveria, mas sabemos que as famílias precisam ser assistidas, quando seus filhos são recrutados para ingressar na marginalidade. O pai de um dos acusados do crime do professor, disse: “foi difícil para mim, mas assim que soube, fui lá dizer que era meu filho porque acho que ele deve ser detido”. A que ponto, chegamos.
Enquanto isso, no Congresso Nacional, corre a ideia de dar estabilidade a 300 mil funcionários que entraram no serviço público sem concurso, fruto do apadrinhamento. Esse caos nacional não é só aéreo, é subterrâneo, pois está nas entranhas de uma ação política nefasta que perdeu o senso do limite e da compostura. Millôr Fernandes lançou um desafio: qual a diferença entre político e ladrão? Uma pessoa respondeu: o político, eu escolho e o ladrão me escolhe. Enfim, existe uma diferença.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/08/2007.

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MEIO AMBIENTE – Jornal O Estado

Meio ambiente e sustentabilidade são temas novos, sem literatura considerável. Muitas instituições, entidades, empresas e pessoas que não leram nada de significativo sobre esses temas – e tampouco as praticam em suas vivências como cidadãos ou como gestores – se arvoram em arautos e defensores pífios do que não conhecem. Já faz algum tempo, desde o ano de 1988, tenho procurado ler, conversar e participar de seminários, eventos e congressos que incluam o meio ambiente como foco. A maioria não sabe o que diz, afora os chavões da moda, as frases de efeito e o olhar sedento pelo aplauso ou pelo `reconhecimento’ do que acreditam praticar. Frases tipo “cuidar da casa, da vida, do planeta” podem soar vazias se não tiverem embasamento, justificação legal e compromisso. Um exemplo real? A Petrobrás vende diesel com alto teor de enxofre desde 2002 e agora pede mais quatro anos ao Conselho Nacional do Meio Ambiente para um cronograma de adaptação. Diz o prof. Victor Aquino, professor de publicidade da USP, que “temos que reconhecer que a questão ambiental ainda não faz parte das prioridades das pessoas”. Isso é pura verdade, o resto é demagogia ou tratamento superficial de um problema que deve envolver conhecimento, responsabilidade social e atitude definida. Algumas pessoas, entretanto, procuram estudar com afinco e trazem a lume raras preciosidades sobre o tema. Uma delas é o livro “Competências Constitucionais dos Municípios para legislar sobre Meio Ambiente”, editora Letra da Lei, da Dra. Lucíola Maria de Aquino Cabral, uma constitucionalista titulada que escreve de forma clara, concisa e certa. A partir da análise do Poder Local, ela se embrenha na Constituição de 1988, discute os aspectos do sistema federativo e da descentralização política, ao mesmo tempo em que analisa a definição de critérios interpretativos das normas ambientais. Não, o livro não é complicado. Ele é bom de ler. Cada página serve de base para o que é dito a seguir, sempre ancorado em saberes acadêmicos e a interpretação de artigos da Constituição. Em suas conclusões, diz a autora que “a relevância da norma ambiental municipal caracteriza-se pelo fato de que esta será tanto mais eficaz quanto mais diretamente abrigar aspectos da realidade política, social e econômica da população”. Assevera ainda que “as esferas de poder local estão mais habilitadas para atender os anseios da comunidade e que o direito ao meio ambiente adequado exige a aplicação do princípio do desenvolvimento sustentável.” Mais não digo para não tirar o prazer dos que realmente precisam ou desejam ler mais sobre meio ambiente e transformar em ações os discursos escritos por assessores e as propagandas midiáticas que, quase sempre, pouco têm a ver com a realidade do que fazem e vivem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/09/2008.

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ARRIBA MÉXICO! – Diário do Nordeste

Conta a tradição nacional que foi preciso o Grito do Ipiranga para acontecer a Independência do Brasil em 1822. No México, doze anos antes, em 1810, no mesmo mês de setembro, exato no dia 16, terça, aconteceu o Grito de Dolores. Há quase três séculos os espanhóis colonizavam o México, mas, tal qual ao Brasil, existiam divergências políticas com a Corte, Madrid. O fato é que o Padre Miguel Hidalgo, na paróquia de Dolores, em Guanajuato, na madrugada de 16 de setembro de 1810, fez uma Declaração considerando o país como Império Mexicano, uma monarquia independente da Espanha. A semelhança entre as independências brasileira e mexicana para por aqui. No Brasil, houve o rápido aceite de Lisboa, pois D. Pedro I era português, a monarquia lusitana acabava e acreditava-se que tudo continuaria na mesma. No México, a história foi diferente. Após a declaração feita por Miguel Hidalgo que faleceu em 1811, houve sangrenta luta pela Independência concreta, chefiada por José Maria Morelos y Pávon. Essa luta transformou-se em guerrilha, inicialmente em Oaxaca, comandada por Vicente Guerrero e Guadalupe Victoria, uma suposta mulher, que na verdade era Manuel Félix Fernandez. Com foco nas montanhas do Sul, a guerra durou anos. Foi o coronel criollo, nascido em Valladolid, Agustín de Iturbide, quem, de fato, negociou com o Rei Fernando VII, de Espanha, em 24 de agosto de 1821, a Independência, pelo Tratado de Córdoba. Em 27 de setembro de 1821 foi instalado, finalmente, o Império Mexicano que se baseava em três princípios ou garantias de independência: o México seria uma nação independente, mas governada pelo rei Fernando VII; criollos e peninsulares teriam os mesmos direitos, obrigações e privilégios; e a Igreja manteria o monopólio religioso. Assim, se iniciou a implantação do ‘Plano de Iguala’ sob a égide de Iturbide, agora um paladino da independência, que satisfazia liberais e conservadores, dando início à construção do que viria a ser, como hoje o é, o mais culto, o maior e mais desenvolvido país de língua hispânica de todas as Américas, atualmente com 109 milhões de habitantes em rumo forte de desenvolvimento. Arriba México!

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2008.

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SEMANA DIFERENTE – Jornal O Estado

Esta semana está sendo diferente. A Bolívia vive em estado de guerra civil. O 4º. Maior banco americano quebrou, as bolsas de todo o mundo caem e Lula tem o maior índice de popularidade da República. E é porque agosto era o mês tido como aziago. Estamos em setembro, na véspera da primavera, faltando dois dias para o Dia da Árvore (plante uma, por favor) e ouvindo o tempo marcar hora para as eleições municipais do próximo dia 05 de outubro. Em janeiro, teremos novos ou reeleitos prefeitos, novos ou reeleitos vereadores. Milhares de funcionários públicos estarão lutando para manter ou obter um cargo comissionado, enquanto estranhos a esse quadro querem nele entrar como recompensa ao trabalho que dizem ter feito. Receberam promessas e cobrarão, certamente. Quem perder, vai limpar gavetas, apagar registros em computadores, reclamar da família, amigos, colegas, apoiadores e deixar dívidas que não serão quitadas, pois a desgraça só se completa com o abandono do barco pelos que já acenam para outras naus. Evo Morales, em meio ao confronto, é tido pelos “cambas”, os ricos de Santa Cruz de La Sierra, como um “colla” exótico em seu marxismo-indígena-bolivariano, que prende um governador e é recebido em Santiago do Chile como ‘avis rara’, alguém que, dizem, não sente estar em plena primeira década do século XXI, essa tal pós-modernidade que abomina o passado, especialmente os pensamentos sedimentados e transmitidos no Século XIX por filósofos e pensadores. O Lehmans Bank, do alto dos seus 156 anos de idade, deixa um rastro de destruição, bolsas despencam e há prejuízo de bilhões de dólares no encontro das finanças com a realidade de um mercado sem compromisso com a longevidade de seus pares. Enquanto isso, Lula lê as pesquisas favoráveis e dialoga com o espelho complacente. Vê, com alegria, os dentes refeitos, por ortodontistas, enquanto cofia a barba bem aparada, olha as não-rugas de sua “galega” e pergunta a si mesmo: há alguém mais feliz que eu? O não, não, não, ecoa pelos corredores do Palácio, acordando fantasmas dispostos em fotos na galeria que contempla indicados, impostos e eleitos. O vento encontra a noite desavisada e faz cair ao chão um outdoor da Coca-Cola.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/09/2008.

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MÉXICO – Jornal O Estado

Na reunião havida na semana passada, em Davos, na Suíça, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calderón, do México, por terem discordado de aspectos político-institucionais de alguns países latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abraço, como a dizer: somos diferentes, mas somos irmãos. Isso é verdade, acreditem.
O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana, graças aos aztecas e à sua cultura. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso.
O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é a questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar?
A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida.
Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem brasileiro que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim, as pessoas têm coração e atitude. Nós, também.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/02/2007.

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VIDA EM GRUPO – Diário do Nordeste

De um modo geral, tentamos ser cordial, sempre procurando entender o pensamento e as idiossincrasias alheias. Ouvindo mais que falando, lembrando das datas de aniversário dos amigos mais chegados, enquanto a maioria não se toca. Procuramos, na medida das nossas imperfeições, ser solidário, discreto, presente e não nos furtar de tentar ajudar. Essa toada acima é de gente que participa de grupos. Seja associação de classe ou religiosa, clubes de serviço, social ou cultural, roda informal de amigos etc. Todos participamos de várias rodas, desde o nascer do sol. A par disso, os grupos criam, via de regra, depois de determinado tempo, uma inércia que cai em vazio existencial, só preenchido pela fofoca, visão distorcida de pessoas, transigência exagerada com alguns e intransigência com outros.
Na realidade, parece haver, quase sempre, uma espécie de inveja latente, nessas manifestações irônicas e isso só desmerece quem as faz, não as pessoas que são objeto do pseudo-chiste ou pseudo-gracejo. Creio que pessoas, tidas e havidas como maduras, não precisam desse humor candente e perverso, para manter uma roda funcionando; alimentada, muitas vezes, por bebida e carência de afetividade. Essa constatação não é nossa. Ela é pública e comum a muitos grupos. A afetividade é atitude, não é gesto encenado para o público. Não são palavras ou discursos ocos de sentimento e plenos de metáforas que traduzem um relacionamento consistente ou uma data. A atitude é aquietada e não precisa de visibilidade. Ela se basta.
Essas questões não são nossas, algumas pessoas que participam de grupos pensam assim, apenas não têm um canal ou a coragem de dizê-las e nos pedem para ser mensageiro. E as escrevemos na procura de caminho que leve grupos e pessoas que os integram, quase sempre de boa vontade, mas carentes de fraternidade, a um encontro não seja presidido apenas por mexericos e inconsequências. Brincar com o outro é uma atitude salutar, mas usar sempre uma pseudo-brincadeira como achincalhe ou disfarce de questões pessoais irresolvidas é outro caso e merece reflexão. Por que faço isso? A que isso me leva? O que quero justificar com essa minha ação?
Eu mesmo, nos grupos de que participo, não me isento de culpa, mas há exagero nessas manifestações em turmas sedimentadas e que emperram no vazio. Nada de ser reformador do mundo, muito menos analista de comportamento, somos mero jogador de palavras. Mas sempre é bom entender que a falsa alegria de alguns no denegrir, mesmo que de brincadeira, contamina o mundo real em que vivemos e a boa relação que deveremos manter, apesar de nossos defeitos estruturais, humanos que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/02/2007.

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VIAJAR POR PRAZER – Diário do Nordeste

Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações e emoções. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem nacional e, especialmente, a internacional, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. E um tempo que reservamos para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, insegurança em aeroportos para fazer conexões ou trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. O primeiro passo de quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe com falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo passo é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, piscina ou o hall do hotel. Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia para lhe indicar teatros, livrarias, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro passo é não forçar a natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia. Defina o que lhe é prazeroso.
O quarto é ousar, é tentar descobrir por seus próprios pés um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, museu com seu pintor preferido ou loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente pelo seu lado positivo, descontração e alegria de viver. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer melhores juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último passo é saber como usar o seu dinheiro. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é bom, mas é você quem merece os melhores presentes. É claro que estes passos não constituem dogmas. São apenas sugestões, referências que, ajustadas a cada situação e pessoas, poderão até servir aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da nossa porta.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/02/2007.