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MAUÁ E UNIFOR – Diário do Nordeste

Com o zelo, a plasticidade e a classe costumeira, a Universidade de Fortaleza, com o apoio da Braspetro, está apresentando exposição sobre Irineu Evangelista de Souza, o empreendedor do século XIX, quando essa palavra ainda não existia. Sou fã dos empreendedores que aliam seu trabalho à criação diferenciada para a humanidade. Assim é que descobri há muito Monteiro Lobato, não apenas o grande escritor, mas o nacionalista e sofrido empresário, que até preso foi pela ditadura. Seu livro, “A Barca de Gleyre”, é o meu preferido. Ele previu até em “O presidente negro”, a eleição de um negro nos EUA, isso na década de 30. Voltando ao fio, a própria UNIFOR é fruto de um visionário. Edson Queiroz criou, do zero, uma universidade diferenciada que irrompeu com um magnífico campus, simplicidade, paisagismo exuberante, estratégia acadêmica, gestão eficaz e alcançou o reconhecimento público. A dedicação do Chanceler Airton Queiroz alia ao seu “hardcore” de ensino o declarado amor às artes e fez brotar ali um teatro com diferencial de qualidade pela escolha de peças, autores e atores de nível. Cuida de cada detalhe das exposições. Elas primam pela gentileza cultural e ambiental dando ao visitante uma aula preliminar até que se depare com a arte exposta. Agora, com a exposição sobre Mauá alia a arte a um necessário mergulho sobre a história brasileira do Século XIX e a empreitadas difíceis e díspares como a implantação de uma indústria naval; a criação de ferrovias; a navegação pela Amazônia; a iluminação à gás do Rio, sede do Império; a atividade agropecuária e empréstimos ao Uruguai. Até a pá entregue a D. Pedro II para um ato público tem a marca da ousadia privada. Mauá teve altos e baixos, como todo sonhador com o pé no chão e a cabeça no futuro. Conseguiu inovar até na contratação de técnicos e mão de obra da Europa e da China, quando só se usava escravos. Mauá é também a história financeira nacional quando da criação, subscrição e ingerência oculta nas ações do Banco do Brasil. Ele é, enfim, a lição de que o trabalho inovador, como obra de arte, também faz História.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/11/2008.

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EXPLICANDO O QUE NÃO SEI – Jornal O Estado

Alguns perguntam o que é a crise. Já ouvimos isso de pessoas tomando uísque doze anos. De empresários, com ou sem empresa, de caloteiros contumazes, de jornalistas econômicos, ex-ministros da fazenda, economistas, ex-dirigentes do Banco Central, políticos que mudam de partido, mas não saem do governo, e até de pessoas sérias que trabalham duro e estão meio tontas. Não é para menos. Há um bombardeio da mídia nacional e internacional falando sobre a crise, da quebradeira de empresas e bancos que alavancavam. Alavancar é termo usado pelos economistas para dizer que determinada empresa ou banco trabalha com muito capital (dinheiro) de terceiros. Aliás, os economistas passaram longe do faro para descobrir essa crise. Sabem explicar o antes no depois. Mas, ninguém previu nada. Era uma euforia geral, até quando as hipotecas americanas deixaram de ser pagas, a crise de confiança aconteceu e as pessoas começaram a tirar dinheiro dos bancos, das bolsas e colocaram debaixo dos colchões. Aí os governos tiveram que correr para salvar o possível. O problema de muitos economistas, especialmente dos econometristas e dos que tratam da macroeconomia, é que procuram soluções matemáticas para problemas sociais. Os Estados Unidos têm vivido em crise desde 2000, quando as ações das empresas de tecnologia caíram assustadoramente, pelo simples fato de serem uma bolha financeira. Muita propaganda, euforia do mercado e a realidade: a queda. Depois, em 11 de setembro de 2001, a outra queda, o ataque muçulmano aos EUA, morrem milhares de pessoas e, em consequência, surge a Guerra do Iraque, alimentada pelos interesses armamentistas, do petróleo e da reconstrução do que foi bombardeado. Em 2002, somando a queda da Nasdaq ao problema causado pelos ataques aéreos, as empresas do ramo de tecnologia sofreram desvalorização de cinco trilhões e os que estavam na Bolsa de NY também perderam. Agora, em 15 de setembro deste 2008, o mundo ameaçou ir para o espaço, mas havia uma eleição americana com grandes interesses e a operação de emergência aconteceu. Disso se valeu o candidato Barack Obama para reforçar o que já dizia: “nós podemos” recuperar a economia americana que, quer queiramos ou não, ainda é o fiel da balança financeira do mundo. Essa minha explicação é banal, com um pouco de esforço de memória, e a guarda de recortes de jornais paulistas especializados em economia que previam que a Bovespa, bolsa de São Paulo, estaria com 85.000 pontos agora em dezembro. Dezembro está aí e a Bovespa luta para chegar aos 40.000 pontos, depois de ter atingido 73.000 em agosto. O petróleo que foi a perto de 150 dólares o barril, está em 50. Esta é a nossa rasa explicação. Pouco sabemos do que acontece no mundo, pois muitos confiaram em empresa, banco e gente. Alguns, desonestos, que continuam enganando por aí, mentindo e ocupando funções que não pedem folha corrida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/11/2008

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ELA MUDOU – Diário do Nordeste

Resisti o quanto pude. Ela veio e foi ficando. Não entendia a capacidade que ela tinha de ser múltipla. Zangava-me por saber que ela era o futuro e que deveria me ajustar ao seu charme, aos seus modos sutis, sua linguagem cifrada, sua velocidade, cada dia maior. Tinha que aprender a lidar com ela, o que não era fácil. Não dependia só de mim, mas de terceiros. De princípio, o telefone nos ligava e depois caía. Comecei brincando. Testava e ela fazia. Mudava o jeito e ela se ajustava, como se fosse tão maleável quanto alguém de boas maneiras. Tudo começou no meio da década passada. Precisamente, em 1996. A minha curiosidade era um meio de ir apagando saudades abertas. O jeito foi ir me apegando a ela que, nesse tempo, tinha que ser via Embratel. Primeiro, foi a mera comunicação. Precisava de um canal de comunicação e ela abriu, pouco a pouco, as portas do futuro para mim. A abertura era diretamente proporcional à minha capacidade de ver o novo, entender que o ontem havia passado e que o hoje era só mudança. Depois, paralelo a tudo isso, fui vendo que ela me ajudava com informações. Muitas vezes, a informação era fajuta, boba, superficial, mas ela estava lá, bastava procurá-la e ter paciência, para separar o lixo do que importava. Anos de assimilação. Até que não precisava mais de fios, nada de Embratel, era tudo rápido, cada vez mais, e podia ser em qualquer lugar que estivesse. Fiquei dependente dela e tinha vergonha de dizer isso. Tudo era dentro de quatro paredes. Às vezes no claro, outras até no escuro. Eu e ela. Ela tinha energia própria, singular. Foi então que descobri o óbvio, o que não queria enxergar. Ela não se ligava só em mim, tinha muitos outros, milhares, até que virou milhões e eu caí na real. Agora, que tudo já passou, ainda mantemos relações. Quando a procuro, ela me atende. Pode ser a qualquer hora, em qualquer lugar, nos basta a senha que combinamos. Ainda me surpreende, pois altera a dicção sem prévio aviso e tenho que procurar novos meios de vê-la. E, dessa forma, vamos indo, sem fazer planos para o futuro, pois ela mudou demais nestes nossos anos de relacionamento. Não é mais a mesma. A Net é fogo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/11/2008.

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A ERA DO NENO – Jornal O Estado

Tem gente que pensa agradar quando escreve empolado, usa metáforas pessoais e faz do seu mundo o mundo alheio. Tem gente que é previsível,
risível e pouco aprazível de ler. Neno é o contrário de tudo isso. Escreve como fala, diz o que pensa na hora e não pondera entre o fato jornalístico e a conveniência. Sua irreverência é desmedida e caminha, lado a lado, com o seu quixotismo onde muitos são os sanchos, suburbanos ou não, que lhes indicam motes para destruir os moinhos de vento da impunidade, do descalabro administrativo, da falsa virtude de arautos do nada, da jactância de políticos que usam os repórteres de aeroporto como porta-vozes de suas não-falas em plenário federal. Neno é aquele que fala pelos cidadãos do Alto do Bode, é o eco da torcida indignada do Ceará, o espadachim que mexe suas mãos sobre o computador e registra, com sarcasmo e humor, as desditas de uma cidade sitiada pela marginalidade e pelo descaso de políticos encamisados com as gomas das benesses recebidas. Neno é indignado por todos os que não têm voz e precisam de um alento para circular, após o trabalho, entre os terminais de ônibus e tomar o último trago antes de chegar, exaurido, em casa. José Mairton Quezado Cavalcante, dito Neno Cavalcante, completou 30 anos de jornalismo crítico e comemorou a data cercado de amigos e admiradores de todos os naipes e o fez de forma singular e airosa, mostrando-se em livro que recebeu, ao vivo, vivas louvações decassílabas de Carlos Augusto Viana, seu stand by, e escritos carinhosos de Airton Monte, Ronaldo Salgado e Henrique Silvestre. Como se tudo isso não bastasse, na mesma noite, tira de sua cartola, o mágico violão de Manasses e banda e, após horas, a noite se queda na espontânea erupção de Raimundo Wagner em forma amisto-xistosa em violão cedido por Peninha. Finda a noite, voltemos ao livro. Ele deveria ter o título “A Era do Neno”, por configurar um tempo de vida fecunda, mas ficou apenas Era… Nas suas quase duzentas páginas, Neno desnuda-se e se declara amante apaixonado da mulher, pai vidrado nas filhas, amigo de seus amigos e defensor perpétuo de Fortaleza. Vale a pena ler as estórias breves que compõem a quase-história da cidade nestes 30 anos e formam a estrutura social do seu discurso jornalístico coerente, sutil, apaixonado e engajado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/12/2008.

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MÉXICO – Jornal O Estado

Na reunião havida na semana passada, em Davos, na Suíça, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calderón, do México, por terem discordado de aspectos político-institucionais de alguns países latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abraço, como a dizer: somos diferentes, mas somos irmãos. Isso é verdade, acreditem.
O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana, graças aos aztecas e à sua cultura. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso.
O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é a questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar?
A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida.
Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem brasileiro que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim, as pessoas têm coração e atitude. Nós, também.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/02/2007.

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SONHOS DE CONSUMO – Jornal O Estado

Tenho amigos e familiares espalhados pelo mundo. De vez em quando, um deles vem dá com os costados pelo Brasil. Da mesma forma, uma vez por outra, os visito. Um dos temas recorrentes de nossas conversas é o deslumbramento da classe média brasileira. Gastam o que podem e o que não podem. Estabelecem padrões de comportamento que são, de há muito, superados nos lugares citados.
Exemplos 1: Fulano tem um bom emprego ou uma empresa que está crescendo. Compra um apartamento novo, chama uma decoradora que o enche de mesas, cadeiras, espelhos, cortinas, gravuras ridículas e tudo o mais que couber. O carro já não condiz com o apartamento e “os vizinhos ficam reparando”. O que fazer? Compra um novo. E não fica só nisso, aí vem a festa de inauguração e sua mulher resolve mostrar às amigas o quanto está bem de vida. Contrata serviço de “buffet”, som e o marido já reclamando dos compromissos que vai ter que honrar.
Exemplo 2: A filha mais velha vai completar 15 anos e diz que todas as amigas fizeram uma festa maravilhosa. A mãe faz finca pé e se alia à filha. Conseguem. Sai a festa com cerimonial e tudo. O pai se sente meio ridículo dentro de um terno com gravata l apertando seu pescoço. Vê a quantidade de gente entrando e, sem querer, vai fazendo cálculos de como pagar as despesas da festa e a promissória vencida do seu negócio.
Exemplo 3: Mariazinha tem 09 anos e Carlinhos vai completar 08 anos e ainda não foram à Disneyworld e “todo mundo já foi”. “Isso é um absurdo”. “Temos que dar um jeito” e lá se vai o pai comprar um pacote para os filhos não ficarem frustrados. A humilhação começa no pedido de visto, pedem comprovante de salário, original do Imposto de Renda, passagens de ida e volta e o diabo a quatro. Finalmente chega o grande dia e toda a família vai para o aeroporto deixar os heróis.
Por outro lado, vamos dar só dois exemplos de estrangeiros
Exemplo 1: Wini é médico, alemão, tem clínica bem montada em Frankfurt e todo dia pedala sua bicicleta que deixa na estação e toma um tem para o trabalho. Volta ás sete, ajuda a mulher a fazer a comida e ensinar os deveres das filhas. No final de cada ano, planejam férias sempre procurando opções econômicas. Exemplo 2: Nako é engenheiro mecânico, japonês, trabalha distante 02 horas de casa, e sua mulher deixa os filhos numa escola pública enquanto rala como bibliotecária. Só têm folga aos domingos para um piquenique em um parque próximo de sua casa. Férias? Há anos que não gozam. Viagem? Foram uma vez a Kioto. Parece estar havendo alguma coisa errada nessas informações, mas, não. Os relatos são verdadeiros e mostram visões diferentes de mundo. Cristopher Larsh, autor de «A rebelião das elites”, deixa claro que a decadência das nações está intimamente ligada aos hábitos da classe média.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/02/2007.

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O PESO DO CHATÔ – Diário do Nordeste

Tive sequelas com uma tenossinuvite provocada pelo peso do livro, “Chatô”, o Rei do Brasil, de Fernando Moraes. Só agora, anos depois, é que me disponho a comentá-lo. Não como crítico, mas mero leitor. Não concordo com amigos afeitos a leitura de biografias que afirmam ser “Chatô” um grande livro. Não é. É grande, com 700 páginas ao longo das quais o autor demonstra pura vaidade flagrada até em retrato seu na orelha do livro, onde com um grosso charuto procura dar um ar “blasé” ao brilhante jornalista.E claro que a audácia de escrever sobre um personagem tão controverso como Assis Chateaubriand é meio caminho para o sucesso, especialmente se respaldado pelo prestigio da Companhia das Letras. Em determinadas partes do livro, chego a desconfiar que Fernando Moraes deixa de ser biógrafo para, no entusiasmo de sua narrativa, tomar-se um fabricante de monólogos e diálogos entre pessoas mortas há tempos. Diálogos sem testemunhas. Exemplo: na pág. 304 ele cita uma conversa entre o Cap. João Alberto (assessor da presidência) e G. Vargas. Ora, se são mortos, não havia testemunhas, como, então, citar frases não ouvidas? imaginação.
Não se pode dizer, por justiça, que o livro seja ruim. Às vezes chega a ser engraçado, contundente, especialmente quando transcreve os famosos artigos de Chatô. Chatô é material para filme hollywoodiano que já deveria estar pronto com o dinheiro recebido do governo, mas o filme não sai. Isso é outra história. Há ainda erros crassos, na pág. 550, Armando Falcão foi citado como deputado udenista. Vivo, o ex-ministro poderá ratificar que integrava o velho PSD. Valho-me de Carlos Heitor Cony que, em crônica na “Folha de São Paulo”, refutou inverdades sobre o comportamento do jurista Nélson Hungria narradas por Moraes. Para finalizar, eu diria que “Chatô” vale pela tentativa de entrelaçar a vida do discutido personagem às histórias política e econômica brasileiras, mostrar como permanecem atuais os seus métodos e como proliferam Chatôs pela imprensa de norte ao sul. Apenas isso.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/02/2007.

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VIDA EM GRUPO – Diário do Nordeste

De um modo geral, tentamos ser cordial, sempre procurando entender o pensamento e as idiossincrasias alheias. Ouvindo mais que falando, lembrando das datas de aniversário dos amigos mais chegados, enquanto a maioria não se toca. Procuramos, na medida das nossas imperfeições, ser solidário, discreto, presente e não nos furtar de tentar ajudar. Essa toada acima é de gente que participa de grupos. Seja associação de classe ou religiosa, clubes de serviço, social ou cultural, roda informal de amigos etc. Todos participamos de várias rodas, desde o nascer do sol. A par disso, os grupos criam, via de regra, depois de determinado tempo, uma inércia que cai em vazio existencial, só preenchido pela fofoca, visão distorcida de pessoas, transigência exagerada com alguns e intransigência com outros.
Na realidade, parece haver, quase sempre, uma espécie de inveja latente, nessas manifestações irônicas e isso só desmerece quem as faz, não as pessoas que são objeto do pseudo-chiste ou pseudo-gracejo. Creio que pessoas, tidas e havidas como maduras, não precisam desse humor candente e perverso, para manter uma roda funcionando; alimentada, muitas vezes, por bebida e carência de afetividade. Essa constatação não é nossa. Ela é pública e comum a muitos grupos. A afetividade é atitude, não é gesto encenado para o público. Não são palavras ou discursos ocos de sentimento e plenos de metáforas que traduzem um relacionamento consistente ou uma data. A atitude é aquietada e não precisa de visibilidade. Ela se basta.
Essas questões não são nossas, algumas pessoas que participam de grupos pensam assim, apenas não têm um canal ou a coragem de dizê-las e nos pedem para ser mensageiro. E as escrevemos na procura de caminho que leve grupos e pessoas que os integram, quase sempre de boa vontade, mas carentes de fraternidade, a um encontro não seja presidido apenas por mexericos e inconsequências. Brincar com o outro é uma atitude salutar, mas usar sempre uma pseudo-brincadeira como achincalhe ou disfarce de questões pessoais irresolvidas é outro caso e merece reflexão. Por que faço isso? A que isso me leva? O que quero justificar com essa minha ação?
Eu mesmo, nos grupos de que participo, não me isento de culpa, mas há exagero nessas manifestações em turmas sedimentadas e que emperram no vazio. Nada de ser reformador do mundo, muito menos analista de comportamento, somos mero jogador de palavras. Mas sempre é bom entender que a falsa alegria de alguns no denegrir, mesmo que de brincadeira, contamina o mundo real em que vivemos e a boa relação que deveremos manter, apesar de nossos defeitos estruturais, humanos que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/02/2007.

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VIAJAR POR PRAZER – Diário do Nordeste

Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações e emoções. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem nacional e, especialmente, a internacional, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. E um tempo que reservamos para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, insegurança em aeroportos para fazer conexões ou trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. O primeiro passo de quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe com falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo passo é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, piscina ou o hall do hotel. Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia para lhe indicar teatros, livrarias, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro passo é não forçar a natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia. Defina o que lhe é prazeroso.
O quarto é ousar, é tentar descobrir por seus próprios pés um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, museu com seu pintor preferido ou loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente pelo seu lado positivo, descontração e alegria de viver. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer melhores juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último passo é saber como usar o seu dinheiro. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é bom, mas é você quem merece os melhores presentes. É claro que estes passos não constituem dogmas. São apenas sugestões, referências que, ajustadas a cada situação e pessoas, poderão até servir aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da nossa porta.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/02/2007.

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BLANCHARD É INSTITUIÇÃO – Jornal O Estado

“Convenci-me, com o correr dos anos, de que, assim como as pessoas, também as instituições trazem, ao nascer, um signo que indicará para sempre a sua trajetória”.
Blanchard Girão

Neste mesmo jornal, em outro caderno, eu tinha o prazer de ler os escritos semanais de Blanchard Girão. Ele sempre trazia palavras gentis para escritores, iniciantes ou não, que lhes mandavam livros a lançar e cuidava de usá-las com muita sutileza. Aqui no O Estado, que o acolheu em sua maturidade, Blanchard exercia a alegria de escrever sem pauta, com liberdade, aprumo, distinção e graça. Era, quem sabe, nestes tempos de sua vida, uma forma de encontrar o seu eu profundo, relevar as ingratidões e tocar o bonde, não o que levava e trazia do Liceu do Ceará, mas o que conduziu como motorneiro seguro em trilhos certos da sua história pessoal, tornando-o uma instituição como jornalista, ativista político, cronista e memorialista.
Conheci Blanchard ainda menino. Possuíamos algumas afinidades. Éramos ambos torcedores e conselheiros do Fortaleza, esse clube que mexe com nossos sentimentos e coronárias por conta de suas vitórias e tropeços. Depois, por vias indiretas, tivemos tênues laços familiares, mas o que caracterizava o nosso não tão próximo relacionamento era a forma gentil como sempre me acolheu. Ele era um exemplo vivo de sensibilidade e civilidade, qualidades tão em falta, sem perder a capacidade de indignar-se com elegância e tampouco transigir em suas convicções ideológicas.
Não sei dos detalhes que antecederam o infarto que o vitimou, mas sei que a sordidez humana pode, por via telefônica, tecer ameaças contra familiares e isto, para quem ama os seus, causa dor profunda. Não sei também que incompreensão possa ter sofrido recentemente, mas sei que a amargura e o desencanto são hospedeiros de reações que o nosso espírito não aceita e o corpo padece.
Estas palavras, desataviadas, não são um mero registro protocolar. Elas refletem, do meu jeito e modo, o pesar de todos os que conheceram a trajetória do menino que se criou nas areias claras da avenida João Pessoa, passou por tantos domicílios e residências, mas se quedou por destino ao redor da Praia do Mucuripe, na rua do jangadeiro Manoel Jacaré, não menos herói que o Dragão do Mar, mas que repousava sempre nas cercanias de sua Fortaleza querida, por ele decantada e que agora reclama, em vão, por sua presença.

João Soares Neto,
cronista.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2007