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PROPAGANDA – Diário do Nordeste

Agora que o mundo está em crise, descobre-se que o Brasil responde por 4,7% do mercado de propaganda do mundo. É o sexto país em gastos de propaganda/publicidade: US$ 26,6 bilhões de dólares por ano. Esses dados são da pesquisa World Advertising Trend 2008. O que isso quer dizer? Que a soma do dinheiro consumido anualmente em propaganda no mundo corresponde a US$ 563 bilhões. Desse total, 34,0% são com mídia impressa; 46,0% com a Tv; 7% com a Internet; e 13% com rádio, cinema e outdoors. Esses números mostram o quanto é agregado de custo a um produto ou serviço para ele ter uma boa aceitação no mercado. Você, certamente, perguntaria: o que tenho a ver com isso? Muito, pois a propaganda não poupa ninguém. Um torcedor de futebol, que vai ao estádio ver o seu time jogar, estará também, por 90 minutos, sujeito às propagandas das empresas que o estão patrocinando, na camisa, calção e até nos meiões dos atletas. Ao ver a novela da Tv ou filme, somos sugestionados por marcas de veículos, roupas, utensílios e até locais. Isso é ‘merchandising’, propaganda disfarçada. Talvez seja esta a razão, por exemplo, pela qual você pode achar que a Petrobrás queima dinheiro patrocinando, entre outros, ‘roadshows’ pelo Brasil afora; um carro estrangeiro de Fórmula Um; espetáculos de arte, teatro e cinema; clubes e centenas de atletas de todos os esportes e categorias. Ora, se a Petrobrás é a única fornecedora de petróleo, qual a razão de tanta propaganda? Não seria melhor, você argumentaria, ter combustíveis mais baratos? A resposta fica com você, mas leia até o final. Lembre-se que até a Igreja Católica, quando se viu ameaçada por Lutero e pela Igreja Anglicana, resolveu, em 1622, por ordem do Papa Gregório XV, criar a sua ‘Congregatio de Propaganda Fide’. Em 1627, criou um Colégio de Propaganda para difundir a fé católica pelo mundo. Não sei se São Tomé, o que só acreditava no que via, é benquisto pelos que fazem propaganda, mas basta, entre outros fatos, somar o número emissoras de rádio e TV públicas, católicas e evangélicas para entender o jargão: “a propaganda é a alma do negócio”. E aí?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/12/2008.

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O VESTIBULAR, O CURSO E O TEMPO – Jornal O Estado

Quando fizemos vestibular para direito, o Latim era obrigatório. Exigia-se ainda uma língua estrangeira e bom conhecimento de Português. Havia provas escritas e orais. Não era fácil passar. Só existia uma faculdade, a da Universidade Federal do Ceará. Afinal, passamos. Éramos uma mistura de quase adolescentes com pessoas maduras. Uns, saídos direto do curso secundário. Outros, já casados e trabalhando, reescrevendo suas histórias ou procurando novos caminhos. Todos, uns e outros, subíamos os degraus dos sonhos que nos levavam ao prédio novo da velha Faculdade de Direito. Uns para o curso diurno, outros para as aulas noturnas. Em todos, esperança e vontade de aprender. Cada um vinha de diferentes caminhos na busca de uma identidade pessoal, de ser alguém. E a sala climatizada parecia nos acolher com certa frieza. Ou seria o “frisson” de estarmos construindo a tarefa de ser gente? O fato é que fomos os últimos daquela faculdade a usar paletós. Foi só um semestre. A crise na cadeira de Introdução à Ciência do Direito, com o Prof. Heribaldo Costa, fez estragos e todos dela saíram com mangas arregaçadas. E assim o fizemos por cinco anos. Além do estudo das matérias, houve política, muita. Jânio renunciou. Jango assumiu e Tancredo foi um breve Primeiro Ministro, até que em plebiscito o povo optou pelo presidencialismo. O Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, inclusive, havia adotado o Parlamentarismo. Depois, Jango caiu. O sonho quase vira pesadelo. E aí a história mudou, mas não de tal forma que impedisse a conclusão de nosso curso, mesclado com greves, denúncias e manifestações. Afinal, a euforia do prof. Antônio Martins Filho, no esplendor de seu reitorado, nos contagiou e acolheu na Concha Acústica da Reitoria do Benfica e de lá saímos de beca para a vida real, esta que nos colocou na lida desde 16 de dezembro de 1965. Todos nós, os que viraram operadores do Direito e os que não, estamos, certamente, dando uma mirada no retrovisor existencial e, incontinentes, continuamos na estrada, certos de que construímos, individual e coletivamente, significados e razões para as nossas vidas.
(este artigo é em homenagem aos colegas de 65, na pessoa de Stênio Carvalho Lima, organizador de nossas reuniões anuais)

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/12/2008.

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NATAL SEGURO – Diário do Nordeste

Não se preocupe. Não vou falar de preservativos. Tampouco aconselhar que coma, beba ou deixe de fazê-lo. Neste Natal a preocupação é com a violência em geral e contra os que andam de carros, sejam pequenos, financiados ou carrões. Não vou escrever nada novo. Apenas uma visão pessoal do que li como dicas. Morando em casa ou apartamento, verifique o ambiente ao sair. Não ande -nunca- de vidros abertos, mesmo fumando, não tenha ar e more em lugares muito quentes. Tranque as portas. Não fique ligado ao som, seja notícia ou música. Ponha os retrovisores e os olhos para funcionar. Fique alerta. Infelizmente, não se pode dar carona. Tampouco, sem piedade, socorrer acidentados no meio da via. Se baterem no seu carro e o prejuízo for pequeno, não pare, mesmo que anotem a placa. Se olhar sempre para os retrovisores verificará se um mesmo carro o segue. Dobre, sem sinalizar. Aumente a velocidade. Cuidado com flanelinhas e motos, não dê chances. Se for o caso, pare enviesado. Se o pneu furar, vá até a um posto de combustível ou pare junto a uma delegacia, quartel ou supermercado. Pneus e aros há aos montes. Sua vida é única. Não cole adesivo ou marcas nos vidros e na lataria do carro com símbolos de profissões, entidades, ou com o seu nome e o da pessoa querida. Se puder, não dirija à noite. Os serviços de tele táxis são confiáveis e até livram você das multas. Se, mesmo assim, tiver o azar de ser assaltado, fique calado, conte carneirinhos, e só fale o que lhe for perguntado. Não discuta, não barganhe, não grite ou chore. Não levante os olhos. Mire o painel e veja quantos km o seu carro tem. Não dê uma de valente, mesmo que o assaltante seja franzino e a arma não esteja visível. Lembre-se que tudo aquilo vai passar. Depois do susto, vá a uma delegacia, preferencialmente com um advogado amigo, e registre a ocorrência. Desculpe os lembretes. As cidades nos forçam a egoísmos para sobrevivermos da violência e do trânsito caótico. Procure gostar de ficar em casa, familiarize-se. Livros são bons companheiros, melhores que noticiários de televisão falando de assaltos e mortes. Cuide-se. Feliz Natal, mas duvide de Papai Noel.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2008.

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PARA UM ANO NOVO – Jornal O Estado

Não é só a edição desta semana da revista Veja que escreve sobre a morte anunciada de parte da África. Há dezenas de anos, desde o século passado, que sabemos disso e pouco fazemos. Uma vez, faz tempo, vi um filme em que gente africana, tangida pela fome, tentava atravessar o Estreito de Gibraltar. Causava um transtorno grande na Europa. Agora, correu pela internet um raro e-mail sério em que se fala expressamente que toda a fome do mundo seria resolvida com 40 bilhões de dólares. Milhões de pessoas poderiam entrar na história da civilização como as que sobreviveram da fome e das guerras tribais, graças a uma ação conjunta da humanidade. Digamos que, cessadas essas guerras e a fome dessas pessoas, se investisse mais 40 bilhões de dólares com habitações, infraestrutura, geração de empregos, alimentação e educação. Total: 80 bilhões de dólares. Pois bem, sabem quanto os Estados Unidos e a União Europeia já gastaram para tentar resolver o problema da atual crise financeira do mundo? Dois trilhões de dólares. Não escrevo em numeral, pois são tantos os zeros. E esses dois trilhões não asseguram nada, pois são injetados não diretamente na economia, mas para socorrer empresas e agentes financeiros que quebraram ou estavam a quebrar por conta de suas ganâncias ou incompetências. Havia executivo de empresas multinacionais que recebia, por ano, mais que a arrecadação fiscal de uma cidade média de um país em desenvolvimento. Pela minha própria história de vida não poderia ser contra pessoas que crescem profissionalmente e têm recursos e recato, até de sobra, para seus herdeiros. Daí a compactuar com a ação de bancos centrais e governos que se aliam para socorrer os que não souberam gerir seus negócios e créditos ou limitar suas ambições, a estória é outra. Esta crise anunciada poderá até ser benéfica se, no bojo dela, existir um tempo para a análise coletiva e profunda de suas causas com soluções globais. Não a análise de economistas que não viram o “tsunami” se formando e apenas explicam o óbvio, depois do fato acontecido. A análise deve ser feita por sociólogos, antropólogos e gestores públicos e privados que não tenham ainda sido mordidos pelas certezas de convicções e tampouco sejam frequentadores de convescotes em Davos ou similares. Nós, os do planeta Terra, temos de admitir que talvez não estejamos aproveitando os últimos avanços tecnológicos para o bem da humanidade, mas como instrumentos de intimidação, espionagem e até de devastação dos recursos verdes. Essa conversa poderia ser em outro tempo e não no limiar de um Novo Ano. Acontece que os que têm algum espaço, não podem perdê-los com o desfrute do próprio umbigo. O ano será novo se mudarmos, mesmo que um pouco, os nossos pensares individuais e coletivos. Caso contrário, é bom lembrar que um 8 é quase igual a um 9, bastar apertar um pouquinho do lado de dentro. Viva 2009.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/12/2008

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2009- NOVES FORA – Diário do Nordeste

Daqui a quatro dias o ano será findo. As previsões feitas pelos economistas não são boas, mas há um consolo: eles não são bons em presciência. Há ameaças de desemprego, por conta do fechamento de fábricas, mas a Igreja proíbe o controle da natalidade, a publicidade custa mais caro que os produtos ou serviços, os impostos comem 1/3 do que ganhamos e o Governo dá seis meses sem trabalho para as mães em curso. Que nasçam mais crianças. O país procura ter linguagem e ações de potência, mas patina no Índice de Desenvolvimento Humano. Empresas brasileiras viram multinacionais, mas não esquecem de pedir recursos ao BNDES. Os senadores querem aumentar o número de vereadores. Ótimo, esses poderiam ser pagos com parte do que os pais da pátria ganham. O ano foi sacudido com a crise financeira, a eleição de Obama e a sapatada no Bush. Mas, daqui a quatro dias, este ano e suas mazelas terão ido embora, em meio aos eventos finais em todo o mundo, com seus fusos diferentes e as mesmas histórias contadas por locutores maquiados defronte a câmeras de televisão. Esqueça o que passa e vá em frente. O companheiro Lula está no leme e nós somos bons marinheiros, havemos de encontrar terra firme, aquela em que se plantando tudo dá. Mas, os índios dizem que as terras eram deles. E eram, mas não esquente. O Brasil é grande demais, dá para todas as tribos, não importam os nomes dos morubixabas. Faça a sua parte, pegue o seu tacape e cuide de sua oca. Não deixe que queimem o seu roçado, nem se aproxime dos que vivem de não fazer nada, apenas enganando e tentando se arrumar. Achegue-se aos que fazem com dentes e unhas, mesmo que elas sangrem. Descubra-se novo, não em tempo, mas em ideias, sentimentos e atitudes. Estas valem mais que tudo, especialmente se não forem propagadas. Realimente-se de energia, palmilhe sonhos, não faça greve de benquerença, desestimule brigas e ausculte o seu coração, sem esquecer que em toda criatura humana bate também um similar ao seu. Viver é perigoso, já se disse, mas é uma dádiva e não podemos desperdiçá-la. Em 2009 sobram dois, você e o seu sonho. O resto são “noves fora”. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/12/2008

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CIVILIDADE – Diário do Nordeste

Tenho amigos que, por conta dos seus afazeres, vivem viajando mundo afora. Não são turistas acidentais. Viajam com olhos para ver e “sentimento de mundo”, captam nuances nos contatos com seus iguais e o povo. Reconhecem, entristecidos, que nós, brasileiros, salvo exceções, somos ainda muito pouco educados, cordiais e incultos em nossos contatos e relacionamentos. Por questões até de sobrevivência, cultivamos hábitos que não passam pela polidez, gentileza com o outro, respeito ao trânsito e aos imóveis públicos e privados. Em qualquer cidade brasileira, do Oiapoque ao Chui, fácil é constatar a ausência de delicadeza no gesto das pessoas em contato com semelhantes ou, por exemplo, na intimidade dos banheiros. De princípio, eram apenas os homens os indelicados. Hoje, por terem jornadas duplas, as mulheres estão entrando no time dos que não primam pelo cuidado no falar, na gentileza de ouvir e na capacidade de entender a diversidade, essa realidade que distingue as pessoas, mas que, paradoxalmente, as nivela.
Recentemente, uma pessoa me contou que ao guiar no estrangeiro foi abordada por um policial de trânsito “pelo simples fato de ter mudado de faixa de direção”. Ora, os sinais de trânsitos são internacionais e no país onde ela se encontrava ficam muitos claros. Ela havia, por força de hábito, cometido infração de trânsito comum em nosso país. Não nos incomodamos com os carros que vem atrás e apenas nos desviamos dos que cruzam à frente. É assim mesmo, acontece todo instante e isso faz com que acidentes entre veículos proliferem e impeçam a circulação ideal por conta de perícias que tardam. Falta-nos civilidade.
Houve um tempo em que se estudava civilidade nas escolas. Lembro que a edição do livro era F.T.D. Hoje, certamente, isso pode ser considerado perda de tempo, mas não é. Dizia Mark Twain que “a gente não se liberta de um hábito, atirando-o pela janela. É preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau”. Isto vale para o trânsito, para as escadas da prepotência, para a bisbilhotice da vida alheia e ao desrespeito pelos direitos dos outros. É básico. É civilidade.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2007

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AS PORTAS DE ENTRADA – Diário do Nordeste

Entrei o ano por quatro portas distintas. A primeira, e mais importante, foi a da família nuclear. Juntos, esquecendo diferenças, respeitando-se e integrando-se de forma leve, saudável e emotiva. Até umas parcas lágrimas pediram passagem e fizeram com que uma neta perguntasse: por que você está chorando, vovô? Chora-se, quando nunca se chora, por saber-se meio peixe neste mundo em que os decibéis das músicas abafam sentimentos não aflorados por falta de eco. Mas, deu meia-noite e o céu se encheu de luz, fogos traçavam artifícios no espaço enquanto rosas, guirlandas, chuveiros, estrelas, bouquets e outras formas de pirotecnia me tornavam menino, na esperança de que o próximo arranjo de luz e som me embevecesse ainda mais.
Acabaram os fogos, cada um se foi na rota da vida no ano despontado e me dispus a entrar na segunda porta, bem perto, também defronte ao mar, vizinha do celeiro da alegria popular e coletiva, do outro lado do muro de pedra. E, mais uma vez, o império dos decibéis brigava com meus tímpanos. Abracei amigos. E entre as bolhas de um espumante eu via as mutações temporais da vida. Ali, naquele lugar, por tantos anos, estive junto com a mesma família nuclear que cresceu e se fez múltipla. E me achei, em meio a tantos, com a incapacidade de falar ao telefone. Vivemos a época da impaciência e minutos desconectados nos tornam isolados, mesmo que multidões pululem à volta. E aí entrei na terceira porta, a da rua, no meio do povo misturado com autoridades que capricharam na concepção nova e manifesta da estética bela, mais profunda que a vã superficialidade possa imaginar. E, em meio ao povo, com suas cadeiras e mesas de plástico, cervejas, sandubas e afins, me vi brasileiro, essa mescla de raças, ritmos, harmonias e cores, plenos de singularidade. E havia duas mulheres loiras, uma liderava, outra cantava, ambas acreditando em novos limiares e atitudes. E, passo a passo, na rua, a senha da noite me acenava em direção à quarta porta, a dos sonhos.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/01/2007.

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CARTA DE DESPEDIDA E RESPOSTA – Jornal O Estado

Esta crônica consta de uma carta minha e a resposta, quem sabe. A carta:não importa que você não tenha entendido integralmente o que escrevi. Importa a minha conduta, leitura da realidade, pois sei que tudo é relativo Mas, sei também que os livros bobos dizem que o passado já passou e o futuro vem depois. Não é bem assim. Prefiro pensar com W. Faulkner: O passado nunca morre, nem é mesmo passado “. Já havia escrito e enviado, quando você disse, ao telefone, da sua apreensão com a visita feita, pois era o passado que não é nem mesmo passado, chegando, incomodando, interferindo no seu bem-estar.
Não falei em despedida, você o disse. Falei de óbices e as metáforas que usei foram uma forma não linear de dizer que acredito em você, que me considero uma pessoa com quem você pode contar, sempre. Estarei por aqui.
A resposta :Sem dúvida os encontros e desencontros permeiam a vida, tornando-a rica e inusitada, pois ambos têm sua função, desde que bem aproveitados. Acredito que os encontros mais importantes são os intrapessoais, os internos. Sem encontrar e unir as próprias partes interiores, sem definir e conhecer as “formas” que se possui, os desencontros interpessoais serão uma constante e o único encontro possível e certo será com o “caos”. Talvez os desencontros internos expliquem exatamente a “gênese do caos”. Muitos se habituam ao “caos” de tal forma que nem mais percebem a perda daquilo que nunca tiveram. E nem terão, pois o “caos” torna-se um porto seguro. Obviamente não possui “formas”, muito menos fronteiras entre interno e externo. Para esses tantos, o dismorfismo torna-se tão imprescindível para a própria sobrevivência que optam pelo caminho mais fácil. E taxam tudo aquilo que for diferente da referência que possuem, digo, da ausência de referência, como desencontro. Não consigo imaginar uma forma fixa, além da beleza do viver, especialmente a dois, que consiste em ajustar formas, encaixá-las e procurar por alguns segundos tornar-se una, coesa e harmônica. Um dia, quando ou se as formas não mais se encaixarem, o “caos” ressurgirá, mas como mero visitante, não como dono da casa.
Penso que pouco tempo pode valer muito, afinal uma característica da felicidade é não perceber que as horas se passaram, assustar-se ao olhar o relógio, seja ele original ou falsificado….Essa questão do tempo para mim, a famosa quarta dimensão, como pura subjetividade que é, diante do real, do concreto, torna-se insignificante. Ontem eu falei que você me surpreendeu. Hoje posso repetir a mesma frase, mas com sentimentos diferentes. Sei que os paradoxos existem, mas fico agora a questionar em quem as “formas” estão precisando de refinamento e ajuste de conduta, assim como discordo da “quase-lucidez”. Apenas para terminar, quase esqueço de dizer o que penso sobre a sua citação de “milhas e milhas a percorrer”, do poeta Robert Frost ou dos quilômetros que poderiam ser percorridos no Brasil. Que pena! Entretanto, você me fez bem por me fazer voltar a acreditar em sentimentos, afinal, em pouco tempo, segundo sua matemática, vivi momentos que permanecerão por muitos anos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/01/2007

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PORTA DOS SONHOS – Diário do Nordeste

Concluí a crônica da semana passada escrevendo que estava entrando na porta dos sonhos. Foi o bastante para mexerem comigo: que porta é essa? Você poderia me emprestar a chave? O que há por trás dela? Como saber se ela existe?
Pois bem, a porta dos sonhos é a capacidade de continuar pensando alto e acreditar que as pessoas são fonte de esperança. Pessoas diferem das coisas e atos. Não é o que se compra, o carrão para disfarçar a insegurança, o jeito prepotente de beber vinho caro, sem o mínimo conhecimento de enologia, o desejo de aparecer transformando comemorações íntimas em atos públicos, ou viajando – desde que noticiado – para lugares onde não se percebe nada além da ostentação e vazio. Ter sonhos é descobrir que a festa e o espaço a ser percorrido são o que está na nossa essência, com crença ou descrença. Não há chave na porta dos sonhos, ela é como aquelas portas de saloon de filmes de cow-boy em que o machão entra com dois revólveres e sai com a cara amassada por um pacato cidadão que foi desacatado. Logo, não há como emprestar a chave. Ela não existe. A chave é atitude, não o destempero verbal, a bravata, a demonstração burguesa de poder, quando se sabe que a impermanência é a única coisa duradoura nesta vida. Por trás da porta há o que plantamos, sonhos, quimeras, devaneios que nos conduzem, por exemplo, à realização de desejos, do amor juvenil ao maduro, com coragem de romper grilhões e preconceitos temporais. Ora, se a porta é virtual, logo ela poderá existir para uns e não existir para os só preocupados em saber da vida dos outros e que não param para se autocentrar e entender seus atos, talvez infantis, toldando sua relação com a realidade. E assim, tal como comecei, sei que estes escritos são meros alinhavos, mesclados com os confrontos naturais do existir e isso dá a confiança de que não posso deixar de sonhar e repetir o que muitos já disseram e poucos atingem: sonho bom mesmo é vivido a dois, atravessando portas, virtuais ou reais.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/01/2007.

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FAMÍLIA, RAZÃO PRIMEIRA – Jornal O Estado

Sou o mais velho de uma família de nove irmãos. Cinco homens e quatro mulheres, todos vivos, hígidos, espalhados e independentes. Família essa cheia de defeitos e poucas virtudes. Gente comum, sem glória, pompa ou circunstância. Pessoas que foram, desde cedo, obrigadas a compartilhar quartos, roupas e entender que seria necessária muita luta para conseguir um lugar ao sol, mesmo uma réstia.
Hoje, as famílias são bem menores e, em todas as classes, parece não existir mais sentimento de união, superação das tão comuns brigas entre irmãos, motivadas por tudo ou por nada.
Estudávamos em colégios privados, com a merenda ou dinheiro contado para a cantina, lá íamos nós a pé. É bem verdade que a distância era pequena e a cidade não oferecia o menor perigo. No final de cada ano, os livros encapados e as fardas passavam para os mais novos. Não se ouvia falar em mesada, em prêmio por ter cumprido a obrigação de ser aprovado, e nem viagens à Disney. Só existiam esportes, poucas rádios para ouvir emissora de TV em preto e branco, ficando a televisão na sala, dividindo com o piano surrado, os lugares de honra.
Brigava-se muito, a tapas e socos. Não ficava mágoa. A rixa se exauria no banho que a mãe mandava os filhos tomarem após as refregas. Havia o terço, a missa aos domingos, as primeiras sextas-feiras e as procissões. Quando o dinheiro dava – e sempre dava – ia-se ao cinema e ninguém reclamava do calor, entretido nos filmes e nos seriados.
Quando um dos irmãos brigava na rua lá se iam os outros tomar satisfações e dar – ou levar – surra do desafeto. Sem essa de psicólogo ou analista, nada disso. Tomava-se pouco remédio. Uma ou duas vezes por ano, um remédio para vermes. De quando em quando, um Calciogenol irradiado, Emulsão de Scott, Biotônico Fontoura, Phimatosan, Melhoral e muita abacatada, bananada ou “vitamina”, que era uma espécie de salada de frutas batida no liquidificador.
Cada casa tinha uma bicicleta que ia passando de mão em mão ou de pé em pé. Estudava-se inglês, aprendia-se datilografia e jiu-jitsu e as meninas tinham aulas de piano. Quem era mais interessado em livros ia à biblioteca pública fazer pesquisas ou pedir empréstimos para entrega em 15 dias. Fazia-se uma ficha e nos entregavam os livros que os colégios nos obrigavam a ler e resumir. Ou se lia por prazer.
Estas recordações, pessoais e desinteressantes, vieram a propósito do filme que vi em vídeo “Férias em família”, de Jodie Foster, em que se mostra a relação neurotizante de uma família americana que, quase obrigada, se reúne para o feriado do dia de Ação de Graças, a data em que todos se reúnem por lá, mais do que no Natal. De tudo, fica uma lição e a certeza de que irmãos, mesmo que espalhados pelo mundo, diferentes, vivendo outras culturas e distantes, são necessários e indispensáveis e, ao revê-los, a gente se dá conta de que a família ainda é base de todos os princípios, mas sem essa dos moralismos caretas da época.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/01/2007.