Sou o mais velho de uma família de nove irmãos. Cinco homens e quatro mulheres, todos vivos, hígidos, espalhados e independentes. Família essa cheia de defeitos e poucas virtudes. Gente comum, sem glória, pompa ou circunstância. Pessoas que foram, desde cedo, obrigadas a compartilhar quartos, roupas e entender que seria necessária muita luta para conseguir um lugar ao sol, mesmo uma réstia.
Hoje, as famílias são bem menores e, em todas as classes, parece não existir mais sentimento de união, superação das tão comuns brigas entre irmãos, motivadas por tudo ou por nada.
Estudávamos em colégios privados, com a merenda ou dinheiro contado para a cantina, lá íamos nós a pé. É bem verdade que a distância era pequena e a cidade não oferecia o menor perigo. No final de cada ano, os livros encapados e as fardas passavam para os mais novos. Não se ouvia falar em mesada, em prêmio por ter cumprido a obrigação de ser aprovado, e nem viagens à Disney. Só existiam esportes, poucas rádios para ouvir emissora de TV em preto e branco, ficando a televisão na sala, dividindo com o piano surrado, os lugares de honra.
Brigava-se muito, a tapas e socos. Não ficava mágoa. A rixa se exauria no banho que a mãe mandava os filhos tomarem após as refregas. Havia o terço, a missa aos domingos, as primeiras sextas-feiras e as procissões. Quando o dinheiro dava – e sempre dava – ia-se ao cinema e ninguém reclamava do calor, entretido nos filmes e nos seriados.
Quando um dos irmãos brigava na rua lá se iam os outros tomar satisfações e dar – ou levar – surra do desafeto. Sem essa de psicólogo ou analista, nada disso. Tomava-se pouco remédio. Uma ou duas vezes por ano, um remédio para vermes. De quando em quando, um Calciogenol irradiado, Emulsão de Scott, Biotônico Fontoura, Phimatosan, Melhoral e muita abacatada, bananada ou “vitamina”, que era uma espécie de salada de frutas batida no liquidificador.
Cada casa tinha uma bicicleta que ia passando de mão em mão ou de pé em pé. Estudava-se inglês, aprendia-se datilografia e jiu-jitsu e as meninas tinham aulas de piano. Quem era mais interessado em livros ia à biblioteca pública fazer pesquisas ou pedir empréstimos para entrega em 15 dias. Fazia-se uma ficha e nos entregavam os livros que os colégios nos obrigavam a ler e resumir. Ou se lia por prazer.
Estas recordações, pessoais e desinteressantes, vieram a propósito do filme que vi em vídeo “Férias em família”, de Jodie Foster, em que se mostra a relação neurotizante de uma família americana que, quase obrigada, se reúne para o feriado do dia de Ação de Graças, a data em que todos se reúnem por lá, mais do que no Natal. De tudo, fica uma lição e a certeza de que irmãos, mesmo que espalhados pelo mundo, diferentes, vivendo outras culturas e distantes, são necessários e indispensáveis e, ao revê-los, a gente se dá conta de que a família ainda é base de todos os princípios, mas sem essa dos moralismos caretas da época.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/01/2007.
CULTURA NO CEARÁ – Diário do Nordeste
Há cerca de quatro meses passei uma hora conversando com Francisco Auto Filho. Mostrava exposições de arte que estava coordenando, costureiras trazidas do interior para fazer bonecas de pano e um anjo de cipó que um artesão fez, a partir de um tronco ressequido de árvore. E ele dava baforadas em seu cachimbo, enquanto se via livros novos na sua sacola plástica aberta.
Pouco tempo depois, fiz o mesmo trajeto, mostrando as mesmas coisas à Cláudia Leitão. Ela dizia das suas andanças pelo interior, ouvindo mestres populares do saber, difundindo visões simples de que a cultura pode abraçar a todos e, igualmente, todos podem caber dentro da cultura. Agora, Cláudia deixa a Secretaria de Cultura do Ceará e Auto Filho a assume. São visões diferentes, mas complementares e instigantes. Cláudia e Auto são professores universitários. Ela é antropóloga., ele é filósofo. Ambos são polêmicos e cientes de que esta terra precisa ser revolvida e resolvida pela cultura. Não sei se já conversaram, mas fariam bem se trocassem ideias, mesmo que para discordar. Há pouca gente de boa cabeça nesta terra e não se pode, por pensar diferente, se dar o luxo de isolar esse ou aquele. Ambos, devem saber que a vaidade e a insegurança acompanham a todos, inclusive artistas, intelectuais e artesãos. Todos lutam pelo que fazem e precisam do olhar e da palavra do outro, esse que, muitas vezes fica mudo, para não elogiar ou validar o sucesso alheio.
Este Ceará, tão rico e tão pobre, não comporta aposentadoria, alheamento ou desconexão das pessoas que sabem criar, agitar, liderar e fazer cultura. O exemplo do Clube do Bode, entidade etílico-recreativa-cultural, sem estatuto, muito calor e fofoca, é prova certa de que contrários podem sentar em uma mesma mesa, discutir e disso resultar ações anárquicas que são expressões e até instalações culturais pós-modernas, tudo registrado em atas, que poucos leem, mas todos assinam reverentes, destacando apenas os seus pré-nomes.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/01/2007.
CALOTES ANTIGOS E NOVOS – Jornal O Estado
Há alguns anos, quando ainda me impressionava com nomes, sobrenomes e locais de nascimento, fui apresentado a pessoas da melhor estirpe, excelente educação e que desejavam investir em nossa terra. Convocado para uma reunião com eles, tomei o avião e fui a um clube elegante do sul para um primeiro contato. Local refinado, pessoas bem vestidas, bebidas honestas e papo excelente, entremeado de citações a grandes amigos influentes, cursos no exterior, fins de semana memoráveis e, de passagem, algumas frases em inglês e francês. Final da reunião: muitas ideias, negócios em perspectiva e nada de ninguém se lembrar de pagar a conta. Tive que pagá-la.
Certo de que havia feito bons contatos, aguardei a visita. Vieram em voo econômico, com a pose e quem estava chegando de jatinho. Hospedei-os em um bom hotel e, após lagostas e praias, sentamos para discutir negócios. Só se falava em milhões de dólares e no lucro que viria após a obtenção do financiamento, já que o grupo local entraria com o capital inicial para aquisição do terreno, projeto, viagens de técnicos e “alguns contatos importantes”. Eles, os ricos convidados, entrariam com o “know how”. Ouvi tudo, anotei, paguei a conta do hotel, levei-os ao aeroporto e nunca mais dei resposta.
Tudo isso veio à mente por me lembrar de velhas e atuais histórias de calote. Por exemplo, lembro bem da insolvência da empresa Gurgel Motores. Nessa brincadeira, o Banco do Estado do Ceará entrou com 3 milhões de dólares pelo aval concedido perante o Banco do Nordeste. O Ceará passaria ao Primeiro Mundo com uma fábrica de automóveis e, nada mais justo que avalizar a operação. Não acredito que o BNB e o BEC, por seus técnicos, tenham assegurado então que o projeto teria êxito. Só um cego não via que os automóveis da Gurgel eram mais atrasados que os antigos “Ladas” russos e sua tecnologia ficava muito atrás das antigas montadoras de “Buggies” locais que, juntando fibra de vidro e componentes Volkswagen, conseguiam ótimos resultados. O que houve então? Deslumbramento, desonestidade ou a incapacidade de distinguir os que vêm para cá para investir e trabalhar dos que vêm para se arrumar. Será que leram balanços, pediram informações e ouviram a Serasa? Eu sei o que é não olhar cadastro e saber a fundo da história pessoal e empresarial de caloteiro. Sempre cordial, falso como uma nota de 15 reais e pomposo como os néscios costumam ser.
Três milhões de dólares é dinheiro, por exemplo, suficiente para fazer uma porção de micro e pequenas empresas saírem de suas crises de capital de giro. Imaginem, por exemplo, esse dinheiro financiando lojistas e fabricantes da Av. Mons. Tabosa ou aos microindustriais do Montese. Seriam centenas de empregos, gente feliz, trabalhando dia e noite para pagar os empréstimos e não sujar o nome. Seriam famílias inteiras procurando economizar e reformar galpões feitos de forma improvisada nos quintais de suas casas. Mas essa gente, na maioria, não tem acesso livre a bancos, não frequenta reuniões elegantes, não tem cadastro e suas mãos calosas não têm classe para segurar uma caneta “Mont Blanc” e assinar, sorrindo, uma promissória de milhões de dólares que, antecipadamente, já sabem que não irão pagar.
Fica mais uma lição, para os que ainda se deslumbram com os caloteiros da terra, que vão sendo conhecidos por todos, apesar de usarem laranjas, e com visitantes-caloteiros, tidos como ilustres, recebidos com pompa e circunstância e apresentado por lobistas empresariais. O amadurecimento de um Estado passa pela isenção com que todos devem ser recebidos, analisados, independente do nome, da pose ou da propaganda enganosa que fazem. Estado pobre, recursos limitados, carências mis, nada melhor que um pouco de cautela dos que dirigem as instituições de crédito oficiais na hora de financiamentos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/01/2007.
REDE DE BABOSEIRAS – Diário do Nordeste
A Internet é, sem dúvida, grande ferramenta de pesquisa e trabalho. E, naturalmente, oferece lazer para milhões de pessoas desocupadas por conta de aposentadoria, doença, férias ou de seus empregos públicos que pouco cobram. Mas, dá um misto de tristeza e desconforto o recebimento de e-mails primários, coloridos, músicas batidas e acompanhados de adjetivos: lindo!. Imperdível! Sensacional etc. E têm uns que dividem em sílabas a palavra adjetivada: ma-ra-vi-lho-sa. E, quase sempre, escrevem isso com letras maiúsculas em fundos de tons de róseo ou lilás que fazem qualquer pessoa de relativo senso estético perder a paciência.
Peço, por favor, não me mandem essas baboseiras que rolam pela Internet. Recebo, mesmo sem querer, todos os tipos de Spams. Os Spams são e-mails genéricos, não solicitados: falam de vendas, cura de cânceres, crianças perdidas, testes, orações com melosas músicas e escritos piegas, supostos textos de intelectuais, correntes de felicidade, prova de amizade pedindo resposta para o próprio remetente etc.
Sei que existe o mecanismo de bloqueio de remetentes e mensagens, mas sei também que as pessoas deveriam usar bom senso e não atazanar a paciência de quem tem pouco tempo disponível. Para bloqueio definitivo ou excluir os spams se perde um tempo que poderia ser mais bem utilizado. Essa rede de afetividade, interesses e afins deveria ser restrita a amigos íntimos de gostos similares, mas o que se vê, pelo contrário, é a exposição de dezenas de e-mails pessoais que, mesmo sem saber, passam a ser alvo, além dos spams, de vírus de todas as naturezas. Quem quiser me agradar, não me mande spams. Recebo, com prazer, quaisquer manifestações pessoais, individualizadas, curtas ou longas, mas rejeito tudo aquilo que vem como genérico, apenas cumprimento de tarefa de repassar ou alardear redes de relações, quando muitos não passam de meros conhecidos. Mas, como dizia Homero: “Sê paciente, alma minha, já passastes por coisas piores”.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/01/2007.
MÉXICO – Jornal O Estado
Na reunião havida na semana passada, em Davos, na Suíça, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calderón, do México, por terem discordado de aspectos político-institucionais de alguns países latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abraço, como a dizer: somos diferentes, mas somos irmãos. Isso é verdade, acreditem.
O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana, graças aos aztecas e à sua cultura. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso.
O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é a questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar?
A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida.
Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem brasileiro que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim, as pessoas têm coração e atitude. Nós, também.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/02/2007.
SONHOS DE CONSUMO – Jornal O Estado
Tenho amigos e familiares espalhados pelo mundo. De vez em quando, um deles vem dá com os costados pelo Brasil. Da mesma forma, uma vez por outra, os visito. Um dos temas recorrentes de nossas conversas é o deslumbramento da classe média brasileira. Gastam o que podem e o que não podem. Estabelecem padrões de comportamento que são, de há muito, superados nos lugares citados.
Exemplos 1: Fulano tem um bom emprego ou uma empresa que está crescendo. Compra um apartamento novo, chama uma decoradora que o enche de mesas, cadeiras, espelhos, cortinas, gravuras ridículas e tudo o mais que couber. O carro já não condiz com o apartamento e “os vizinhos ficam reparando”. O que fazer? Compra um novo. E não fica só nisso, aí vem a festa de inauguração e sua mulher resolve mostrar às amigas o quanto está bem de vida. Contrata serviço de “buffet”, som e o marido já reclamando dos compromissos que vai ter que honrar.
Exemplo 2: A filha mais velha vai completar 15 anos e diz que todas as amigas fizeram uma festa maravilhosa. A mãe faz finca pé e se alia à filha. Conseguem. Sai a festa com cerimonial e tudo. O pai se sente meio ridículo dentro de um terno com gravata l apertando seu pescoço. Vê a quantidade de gente entrando e, sem querer, vai fazendo cálculos de como pagar as despesas da festa e a promissória vencida do seu negócio.
Exemplo 3: Mariazinha tem 09 anos e Carlinhos vai completar 08 anos e ainda não foram à Disneyworld e “todo mundo já foi”. “Isso é um absurdo”. “Temos que dar um jeito” e lá se vai o pai comprar um pacote para os filhos não ficarem frustrados. A humilhação começa no pedido de visto, pedem comprovante de salário, original do Imposto de Renda, passagens de ida e volta e o diabo a quatro. Finalmente chega o grande dia e toda a família vai para o aeroporto deixar os heróis.
Por outro lado, vamos dar só dois exemplos de estrangeiros
Exemplo 1: Wini é médico, alemão, tem clínica bem montada em Frankfurt e todo dia pedala sua bicicleta que deixa na estação e toma um tem para o trabalho. Volta ás sete, ajuda a mulher a fazer a comida e ensinar os deveres das filhas. No final de cada ano, planejam férias sempre procurando opções econômicas. Exemplo 2: Nako é engenheiro mecânico, japonês, trabalha distante 02 horas de casa, e sua mulher deixa os filhos numa escola pública enquanto rala como bibliotecária. Só têm folga aos domingos para um piquenique em um parque próximo de sua casa. Férias? Há anos que não gozam. Viagem? Foram uma vez a Kioto. Parece estar havendo alguma coisa errada nessas informações, mas, não. Os relatos são verdadeiros e mostram visões diferentes de mundo. Cristopher Larsh, autor de «A rebelião das elites”, deixa claro que a decadência das nações está intimamente ligada aos hábitos da classe média.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/02/2007.
O PESO DO CHATÔ – Diário do Nordeste
Tive sequelas com uma tenossinuvite provocada pelo peso do livro, “Chatô”, o Rei do Brasil, de Fernando Moraes. Só agora, anos depois, é que me disponho a comentá-lo. Não como crítico, mas mero leitor. Não concordo com amigos afeitos a leitura de biografias que afirmam ser “Chatô” um grande livro. Não é. É grande, com 700 páginas ao longo das quais o autor demonstra pura vaidade flagrada até em retrato seu na orelha do livro, onde com um grosso charuto procura dar um ar “blasé” ao brilhante jornalista.E claro que a audácia de escrever sobre um personagem tão controverso como Assis Chateaubriand é meio caminho para o sucesso, especialmente se respaldado pelo prestigio da Companhia das Letras. Em determinadas partes do livro, chego a desconfiar que Fernando Moraes deixa de ser biógrafo para, no entusiasmo de sua narrativa, tomar-se um fabricante de monólogos e diálogos entre pessoas mortas há tempos. Diálogos sem testemunhas. Exemplo: na pág. 304 ele cita uma conversa entre o Cap. João Alberto (assessor da presidência) e G. Vargas. Ora, se são mortos, não havia testemunhas, como, então, citar frases não ouvidas? imaginação.
Não se pode dizer, por justiça, que o livro seja ruim. Às vezes chega a ser engraçado, contundente, especialmente quando transcreve os famosos artigos de Chatô. Chatô é material para filme hollywoodiano que já deveria estar pronto com o dinheiro recebido do governo, mas o filme não sai. Isso é outra história. Há ainda erros crassos, na pág. 550, Armando Falcão foi citado como deputado udenista. Vivo, o ex-ministro poderá ratificar que integrava o velho PSD. Valho-me de Carlos Heitor Cony que, em crônica na “Folha de São Paulo”, refutou inverdades sobre o comportamento do jurista Nélson Hungria narradas por Moraes. Para finalizar, eu diria que “Chatô” vale pela tentativa de entrelaçar a vida do discutido personagem às histórias política e econômica brasileiras, mostrar como permanecem atuais os seus métodos e como proliferam Chatôs pela imprensa de norte ao sul. Apenas isso.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/02/2007.
VIDA EM GRUPO – Diário do Nordeste
De um modo geral, tentamos ser cordial, sempre procurando entender o pensamento e as idiossincrasias alheias. Ouvindo mais que falando, lembrando das datas de aniversário dos amigos mais chegados, enquanto a maioria não se toca. Procuramos, na medida das nossas imperfeições, ser solidário, discreto, presente e não nos furtar de tentar ajudar. Essa toada acima é de gente que participa de grupos. Seja associação de classe ou religiosa, clubes de serviço, social ou cultural, roda informal de amigos etc. Todos participamos de várias rodas, desde o nascer do sol. A par disso, os grupos criam, via de regra, depois de determinado tempo, uma inércia que cai em vazio existencial, só preenchido pela fofoca, visão distorcida de pessoas, transigência exagerada com alguns e intransigência com outros.
Na realidade, parece haver, quase sempre, uma espécie de inveja latente, nessas manifestações irônicas e isso só desmerece quem as faz, não as pessoas que são objeto do pseudo-chiste ou pseudo-gracejo. Creio que pessoas, tidas e havidas como maduras, não precisam desse humor candente e perverso, para manter uma roda funcionando; alimentada, muitas vezes, por bebida e carência de afetividade. Essa constatação não é nossa. Ela é pública e comum a muitos grupos. A afetividade é atitude, não é gesto encenado para o público. Não são palavras ou discursos ocos de sentimento e plenos de metáforas que traduzem um relacionamento consistente ou uma data. A atitude é aquietada e não precisa de visibilidade. Ela se basta.
Essas questões não são nossas, algumas pessoas que participam de grupos pensam assim, apenas não têm um canal ou a coragem de dizê-las e nos pedem para ser mensageiro. E as escrevemos na procura de caminho que leve grupos e pessoas que os integram, quase sempre de boa vontade, mas carentes de fraternidade, a um encontro não seja presidido apenas por mexericos e inconsequências. Brincar com o outro é uma atitude salutar, mas usar sempre uma pseudo-brincadeira como achincalhe ou disfarce de questões pessoais irresolvidas é outro caso e merece reflexão. Por que faço isso? A que isso me leva? O que quero justificar com essa minha ação?
Eu mesmo, nos grupos de que participo, não me isento de culpa, mas há exagero nessas manifestações em turmas sedimentadas e que emperram no vazio. Nada de ser reformador do mundo, muito menos analista de comportamento, somos mero jogador de palavras. Mas sempre é bom entender que a falsa alegria de alguns no denegrir, mesmo que de brincadeira, contamina o mundo real em que vivemos e a boa relação que deveremos manter, apesar de nossos defeitos estruturais, humanos que somos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/02/2007.
VIAJAR POR PRAZER – Diário do Nordeste
Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações e emoções. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem nacional e, especialmente, a internacional, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. E um tempo que reservamos para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, insegurança em aeroportos para fazer conexões ou trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. O primeiro passo de quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe com falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo passo é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, piscina ou o hall do hotel. Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia para lhe indicar teatros, livrarias, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro passo é não forçar a natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia. Defina o que lhe é prazeroso.
O quarto é ousar, é tentar descobrir por seus próprios pés um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, museu com seu pintor preferido ou loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente pelo seu lado positivo, descontração e alegria de viver. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer melhores juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último passo é saber como usar o seu dinheiro. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é bom, mas é você quem merece os melhores presentes. É claro que estes passos não constituem dogmas. São apenas sugestões, referências que, ajustadas a cada situação e pessoas, poderão até servir aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da nossa porta.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/02/2007.
BLANCHARD É INSTITUIÇÃO – Jornal O Estado
“Convenci-me, com o correr dos anos, de que, assim como as pessoas, também as instituições trazem, ao nascer, um signo que indicará para sempre a sua trajetória”.
Blanchard Girão
Neste mesmo jornal, em outro caderno, eu tinha o prazer de ler os escritos semanais de Blanchard Girão. Ele sempre trazia palavras gentis para escritores, iniciantes ou não, que lhes mandavam livros a lançar e cuidava de usá-las com muita sutileza. Aqui no O Estado, que o acolheu em sua maturidade, Blanchard exercia a alegria de escrever sem pauta, com liberdade, aprumo, distinção e graça. Era, quem sabe, nestes tempos de sua vida, uma forma de encontrar o seu eu profundo, relevar as ingratidões e tocar o bonde, não o que levava e trazia do Liceu do Ceará, mas o que conduziu como motorneiro seguro em trilhos certos da sua história pessoal, tornando-o uma instituição como jornalista, ativista político, cronista e memorialista.
Conheci Blanchard ainda menino. Possuíamos algumas afinidades. Éramos ambos torcedores e conselheiros do Fortaleza, esse clube que mexe com nossos sentimentos e coronárias por conta de suas vitórias e tropeços. Depois, por vias indiretas, tivemos tênues laços familiares, mas o que caracterizava o nosso não tão próximo relacionamento era a forma gentil como sempre me acolheu. Ele era um exemplo vivo de sensibilidade e civilidade, qualidades tão em falta, sem perder a capacidade de indignar-se com elegância e tampouco transigir em suas convicções ideológicas.
Não sei dos detalhes que antecederam o infarto que o vitimou, mas sei que a sordidez humana pode, por via telefônica, tecer ameaças contra familiares e isto, para quem ama os seus, causa dor profunda. Não sei também que incompreensão possa ter sofrido recentemente, mas sei que a amargura e o desencanto são hospedeiros de reações que o nosso espírito não aceita e o corpo padece.
Estas palavras, desataviadas, não são um mero registro protocolar. Elas refletem, do meu jeito e modo, o pesar de todos os que conheceram a trajetória do menino que se criou nas areias claras da avenida João Pessoa, passou por tantos domicílios e residências, mas se quedou por destino ao redor da Praia do Mucuripe, na rua do jangadeiro Manoel Jacaré, não menos herói que o Dragão do Mar, mas que repousava sempre nas cercanias de sua Fortaleza querida, por ele decantada e que agora reclama, em vão, por sua presença.
João Soares Neto,
cronista.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2007
