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VIDA EM GRUPO – Diário do Nordeste

De um modo geral, tentamos ser cordial, sempre procurando entender o pensamento e as idiossincrasias alheias. Ouvindo mais que falando, lembrando das datas de aniversário dos amigos mais chegados, enquanto a maioria não se toca. Procuramos, na medida das nossas imperfeições, ser solidário, discreto, presente e não nos furtar de tentar ajudar. Essa toada acima é de gente que participa de grupos. Seja associação de classe ou religiosa, clubes de serviço, social ou cultural, roda informal de amigos etc. Todos participamos de várias rodas, desde o nascer do sol. A par disso, os grupos criam, via de regra, depois de determinado tempo, uma inércia que cai em vazio existencial, só preenchido pela fofoca, visão distorcida de pessoas, transigência exagerada com alguns e intransigência com outros.
Na realidade, parece haver, quase sempre, uma espécie de inveja latente, nessas manifestações irônicas e isso só desmerece quem as faz, não as pessoas que são objeto do pseudo-chiste ou pseudo-gracejo. Creio que pessoas, tidas e havidas como maduras, não precisam desse humor candente e perverso, para manter uma roda funcionando; alimentada, muitas vezes, por bebida e carência de afetividade. Essa constatação não é nossa. Ela é pública e comum a muitos grupos. A afetividade é atitude, não é gesto encenado para o público. Não são palavras ou discursos ocos de sentimento e plenos de metáforas que traduzem um relacionamento consistente ou uma data. A atitude é aquietada e não precisa de visibilidade. Ela se basta.
Essas questões não são nossas, algumas pessoas que participam de grupos pensam assim, apenas não têm um canal ou a coragem de dizê-las e nos pedem para ser mensageiro. E as escrevemos na procura de caminho que leve grupos e pessoas que os integram, quase sempre de boa vontade, mas carentes de fraternidade, a um encontro não seja presidido apenas por mexericos e inconsequências. Brincar com o outro é uma atitude salutar, mas usar sempre uma pseudo-brincadeira como achincalhe ou disfarce de questões pessoais irresolvidas é outro caso e merece reflexão. Por que faço isso? A que isso me leva? O que quero justificar com essa minha ação?
Eu mesmo, nos grupos de que participo, não me isento de culpa, mas há exagero nessas manifestações em turmas sedimentadas e que emperram no vazio. Nada de ser reformador do mundo, muito menos analista de comportamento, somos mero jogador de palavras. Mas sempre é bom entender que a falsa alegria de alguns no denegrir, mesmo que de brincadeira, contamina o mundo real em que vivemos e a boa relação que deveremos manter, apesar de nossos defeitos estruturais, humanos que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/02/2007.

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VIAJAR POR PRAZER – Diário do Nordeste

Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações e emoções. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem nacional e, especialmente, a internacional, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. E um tempo que reservamos para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, insegurança em aeroportos para fazer conexões ou trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. O primeiro passo de quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe com falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo passo é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, piscina ou o hall do hotel. Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia para lhe indicar teatros, livrarias, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro passo é não forçar a natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia. Defina o que lhe é prazeroso.
O quarto é ousar, é tentar descobrir por seus próprios pés um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, museu com seu pintor preferido ou loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente pelo seu lado positivo, descontração e alegria de viver. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer melhores juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último passo é saber como usar o seu dinheiro. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é bom, mas é você quem merece os melhores presentes. É claro que estes passos não constituem dogmas. São apenas sugestões, referências que, ajustadas a cada situação e pessoas, poderão até servir aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da nossa porta.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/02/2007.

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BLANCHARD É INSTITUIÇÃO – Jornal O Estado

“Convenci-me, com o correr dos anos, de que, assim como as pessoas, também as instituições trazem, ao nascer, um signo que indicará para sempre a sua trajetória”.
Blanchard Girão

Neste mesmo jornal, em outro caderno, eu tinha o prazer de ler os escritos semanais de Blanchard Girão. Ele sempre trazia palavras gentis para escritores, iniciantes ou não, que lhes mandavam livros a lançar e cuidava de usá-las com muita sutileza. Aqui no O Estado, que o acolheu em sua maturidade, Blanchard exercia a alegria de escrever sem pauta, com liberdade, aprumo, distinção e graça. Era, quem sabe, nestes tempos de sua vida, uma forma de encontrar o seu eu profundo, relevar as ingratidões e tocar o bonde, não o que levava e trazia do Liceu do Ceará, mas o que conduziu como motorneiro seguro em trilhos certos da sua história pessoal, tornando-o uma instituição como jornalista, ativista político, cronista e memorialista.
Conheci Blanchard ainda menino. Possuíamos algumas afinidades. Éramos ambos torcedores e conselheiros do Fortaleza, esse clube que mexe com nossos sentimentos e coronárias por conta de suas vitórias e tropeços. Depois, por vias indiretas, tivemos tênues laços familiares, mas o que caracterizava o nosso não tão próximo relacionamento era a forma gentil como sempre me acolheu. Ele era um exemplo vivo de sensibilidade e civilidade, qualidades tão em falta, sem perder a capacidade de indignar-se com elegância e tampouco transigir em suas convicções ideológicas.
Não sei dos detalhes que antecederam o infarto que o vitimou, mas sei que a sordidez humana pode, por via telefônica, tecer ameaças contra familiares e isto, para quem ama os seus, causa dor profunda. Não sei também que incompreensão possa ter sofrido recentemente, mas sei que a amargura e o desencanto são hospedeiros de reações que o nosso espírito não aceita e o corpo padece.
Estas palavras, desataviadas, não são um mero registro protocolar. Elas refletem, do meu jeito e modo, o pesar de todos os que conheceram a trajetória do menino que se criou nas areias claras da avenida João Pessoa, passou por tantos domicílios e residências, mas se quedou por destino ao redor da Praia do Mucuripe, na rua do jangadeiro Manoel Jacaré, não menos herói que o Dragão do Mar, mas que repousava sempre nas cercanias de sua Fortaleza querida, por ele decantada e que agora reclama, em vão, por sua presença.

João Soares Neto,
cronista.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2007

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QUEM É NORMAL?

De repente surge uma fissura grave na couraça dos psicólogos, psiquiatras e psicanalistas. As sessões com os pacientes não chegariam a lugar nenhum, dizem alguns. Os problemas e distúrbios de comportamentos hoje são resolvidos com drogas, afirmam outros. Entretanto, na última edição de Veja, de 14.03.07, o psiquiatra americano Peter Kramer, diz que: “todos os remédios da classe dos inibidores de recaptação de serotonina, da qual o Prozac faz parte, são, em minha opinião, antidepressivos medíocres.” Daí, por exemplo, tanta controvérsia sobre o Prozac e seus sucessores que deixaram milhares de divãs sem pacientes. Agora, os tricíclicos voltam para valer. Com quem a verdade ou a certeza?
Será por tal fato que na classe médica há gracejo antigo? Ele diz, mais ou menos, o seguinte: O clínico geral sabe tudo e não faz nada, o cirurgião não sabe nada e faz tudo e o psiquiatra nem sabe nada e nem faz nada. Mera piada, é claro.
Talvez por não terem obtido sucesso em suas visitas a psiquiatras, psicanalistas e psicólogos é que tantas pessoas apelam para o consumo continuado de calmantes, antidepressivos e estimulantes de todas as naturezas, dosagens e composições químicas. Todas têm um médico amigo que as prescreve. As pessoas tomam remédios para aguentar o rojão da vida e se acreditarem normais. Mas o que é ser normal? Quais os referenciais que demonstram o desvio entre o certo e o errado? Será anormal quem não dorme bem, dorme pouco ou demasiado? Ou a anormalidade parte de quem observa? Será normal a pessoa comum, cotidiana que se compraz para acabar com o mofo de sua vida, em fazer cartas anônimas ou espalhar boatos falsos?
A propósito, nos Estados Unidos, o país onde mais se consome remédios para depressão, insônia, neurose etc. foi editado -pela St. Martin Press – o livro “Você é normal?” (Are you normal?), escrito por Bernice Kanner. Por apenas US$ 6,99, o preço de uma refeição ligeira, você saberá que existe muito mais gente “anormal” do que imagina. As pessoas entrevistadas, segundo Bernice Kanner, tinham o compromisso de não mentir e revelar, sob a segurança do anonimato, coisas que não diriam nem para o pai, a mãe, o marido ou a mulher.
As preciosidades colhidas por Bernice nos Estados Unidos mostram a vulnerabilidade, a ausência de altruísmo e outras falhas do caráter dos comuns mortais. Vamos lá: uma em cada quatro pessoas faria qualquer coisa por US$ 10 milhões; uma em cada dez pessoas compra um artigo, usa uma vez e o devolve; 3,9% das mulheres não usam calcinhas; 7,0% das pessoas utilizam o próprio cabelo como fio dental; 10% trocam etiquetas de preços de lojas para pagar menos; 10% admitem já ter visto fantasma; 23,5% não dão descarga quando vão ao banheiro; 25,0% furam filas; 28% admitem fazer xixi na piscina; 28% deixaram de declarar imposto de renda alguma vez; 29% já furtaram em lojas; 39% fofocam em salas de espera;54% reembrulham presentes recebidos e dão para outras pessoas; 58% já inventaram doença para não ir trabalhar; 60% dos homens cospem em público.
Isto tudo nos faz lembrar uma frase de Millôr Fernandes: “Como são maravilhosas as pessoas que não conhecemos bem” ou aquela outra de Bertold Brecht: “Um bom país para viver é aquele em que as virtudes não são necessárias e no qual todos podem ser pessoas comuns, medianas e até mesmo um pouco covardes.”

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2007.

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A HISTÓRIA DE FRANCISCO, TAMBÉM JOSÉ. – Jornal O Estado

Depois de uma série de e-mails e telefonemas trocados, marco encontro com Luiza Amorim e seu marido, Kildare. Jovens, bem-apessoados, chegam e estou com visitas. Mesmo assim, atendo-os, e peço meia hora de tolerância. Na hora azada voltam, sentam e ela diz de seu projeto em fase de conclusão: escrever a biografia de Lustosa da Costa, o filho primeiro de “Seu Costa” e D. Dolores. Ela fala de sua vida acadêmica e da interrupção do trabalho como repórter de televisão para se dedicar integralmente ao final da história do Lustosa. Entrega-me um exemplar do livro que escreveu sobre a jornalista Adísia Sá. Vem munida de um MP-3 que usa, com a ajuda do marido, como gravador. Faz perguntas objetivas, certeiras e tem o cacoete de não querer ficar na superfície, mas mergulhar na essência da vida pessoal e profissional do procurador, jornalista e intelectual Francisco José Lustosa da Costa. Digo-lhe o que todo mundo sabe. O Francisco veio de Cajazeiras, Paraíba, onde perdeu o umbigo. O José cresceu em Sobral, sob os olhares vigilantes de sua família e as bênçãos de D. José Tupinambá da Frota, um dos seus ícones religiosos que talvez o tenha convencido a ser seminarista, por um tempo. O Lustosa surgiu em Fortaleza, depois dos anos no Seminário, com os Diários Associados, misturando faculdade, jornal e uma televisão incipiente em que o improviso abrigava os talentosos e dizimava os incapazes. Fez-se cronista político do primeiro time, ao tempo em que concluía direito e descobria que esta cidade era apenas uma Sobral maior e que ele poderia ser o exemplo da família que morava bem ao pé da Igreja da Piedade. E assim o fez. Foi abrindo caminho certo para os outros irmãos que, tendo a mesma carga genética, viraram deputado federal, ministro, historiadora, geógrafa, médico, jornalistas e escritores. E é desse tempo o meu conhecimento com ele. Alçávamos voos diurnos em direção aos ventos da realidade, mas tínhamos noites de quimeras no Náutico, Ideal e no restaurante Lido com Lúcio Brasileiro, Danilo Marques, Fernando Távora, Frota Neto e alguns mais. Depois, irmanado a Dorian Sampaio, ressuscita o Anuário do Ceará, dando-lhe nova feição e perspectiva exitosa. Aí a história muda e entra a cidade do Rio de Janeiro em sua vida, apenas um hiato, em que passa a ser jornalista maior. Mas, seria longe, além da costa, aonde resplandeceria o fulgor de seu talento. Brasília era a menina do cerrado e ele, Costa, curioso, atento e desbravador, queria conhecer seus meandros, participar das conversas que se transformavam em ações, leis, acompanhar o seu crescimento e criar seus filhos candangos, frutos da benfazeja união com Verônica. E o restante, quem quiser saber, compareça ao lançamento da biografia do Lustosa quando setembro chegar. Cuidem de reservar lugares, pois o Clube do Bode ocupará quase uma centena de cadeiras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/06/2008.

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CULTURA E PENÚRIA – Diário do Nordeste

A maioria das pessoas não tem ciência da situação de penúria das entidades – privadas, especialmente – que cuidam da difusão da cultura no Brasil. Exceção é feita à Academia Brasileira de Letras – com renda imobiliária própria – e algumas poucas. As demais, representando mais de 95% da ação cultural brasileira, não possuem sequer sede, equipamentos e orçamento, vivendo das minguadas mensalidades de seus consócios que, muitas vezes, premidos por outros compromissos, deixam de pagá-las. As leis de incentivos à cultura, sejam municipais, estaduais ou federais, precisam de mudanças que lhes deem agilidade e capacidade de resolver essa situação que se agrava a cada dia. A figura do Mecenas, aquele que disponibiliza valores para auxiliar a cultura em suas várias formas, está cada vez mais difícil. Tentando procurar soluções, foi realizado na semana passada, em São Paulo, encontro com foco nas “Perspectivas do Investimento em Cultura”. Esse encontro aconteceu na Pinacoteca de SP, a mesma que teve agora quadros roubados por conta de ineficaz estrutura de vigilância. Do discutido ficou o consenso de que a Lei Rouanet, que destina recursos mediante projetos, precisa de reparos, pois não há gerenciamento eficaz dos processos apresentados e tampouco critérios na escolha e ação dos “pareceristas”, os que analisam os pleitos em nome do Ministério da Cultura. Duras críticas foram feitas à gestão da cultura nacional. Foi sugerida a criação de um Fundo Nacional de Cultura, o que seria ideal para todos, mas cultura não dá voto. De tudo o que lá foi exposto, sem reservas, ficou claro que essas entidades, sejam academias, institutos, produtoras de cinema, museus, teatros ou outras organizações sociais, precisam parar um pouco e pensar em ter gestões eficazes e outras soluções, não apenas as que passam por contribuições de doadores que, em contrapartida, recebem títulos disso e daquilo. Não há desdouro em revelar problemas, erros e improvisações. O mundo real perpassa o universo da cultura, pede atitudes, ações e soluções que não cabem em filmes, peças, pinturas, esculturas, ensaios, versos e nem na boa prosa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2008.

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ESTORINHA DA INVEJA – Jornal O Estado

Começo de uma estorinha do faz de conta: Um dia, alguém com os óculos na ponta do nariz, depois do cafezinho e com um olho na TV, abre o jornal e começa a folheá-lo. Vê jornal com fotos, escritos e notícias destacadas com nomes de pessoas, algumas conhecidas, especialmente uma. Essa sim, conhece bem. Gosta de promoção pessoal, propaganda disfarçada e faz mal feita. Só pode ser matéria paga, pensa. Assim, até eu, que não iria querer aparecer à custa de pagamento, só por pura vaidade. Não acredita em notícias boas, só notícia ruim é que vale: falência, separação, desastre, assalto, sequestro, doença e morte. O restante é arrumação. Quaisquer que sejam elas. E vai em frente na maledicência: Essa pessoa não é nada disso. Ela foi de minha turma por muito tempo e não tinha nada de especial. Houve um tempo, se lembro bem, ela quase arrebenta. Não sei se foi isso, mas é como se fosse e fica sendo. Ora já se viu, só pode ter alguma coisa por trás disso. Não adianta querer enganar, sempre tem alguma coisa de errado no reino dos escritos e das notícias. Meio descrente olha, mais uma vez, o nome da pessoa. Torce para que não seja ela, mas é. Também, só pensa em aparecer e se promover, sem ajudar a ninguém. Deixa pra lá, tenho mais o que fazer do que perder tempo com vaidades alheias. Eu, sim, é que merecia reconhecimento por tudo o que lutei na vida, assumindo responsabilidades e dando conta do recado. Mas, não ando me mostrando, bancando importante, dizendo que fiz isso ou aquilo. Prefiro ficar em meu canto, com a minha consciência tranquila, tomando as minhas biritas, pois não tenho inveja de ninguém, graças a Deus. Tive oportunidade de ganhar fácil, mas ninguém pega na minha munheca. Fim da estorinha.
Essa historinha, fictícia, uma parábola, mostra, quem sabe, a reação de muitos diante do que vê ou lê, especialmente sobre outras pessoas a quem não conhecem bem e delas falam mal. Ela está muito mais relacionada com a estória pessoal de quem vê e lê, com sua vida interior e frustrações, do que realmente sabe e pensa sobre os outros ou o que está escrito nos jornais ou suplementos. Os olhos dessas pessoas, muitas vezes, acompanham ressentimentos e não se despegam de mágoas, decodificações, idiossincrasias, desvios e queixumes. Aliás, a questão não se restringe a quem se olha ou o que se olha, e sim o que se fica a ruminar de inveja sobre o que se vê. A inveja é não querer que o outro tenha ou seja, mesmo sem saber de verdade quem o outro é, sente ou vive.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/06/2008.

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A BOSSA DO JOÃO – Diário do Nordeste

Imagine uma pequena cidade baiana na margem direita do Rio São Francisco no ano de 1931. Tinha curso o governo provisório de Vargas e Juazeiro, isolada, energia precária, olhava para Petrolina, Pernambuco, na outra margem do rio. Ainda não havia sido feita a ponte que as ligaria, no Governo Dutra. Ali, em 10 de junho de 1931, nos braços de uma parteira, nasceu João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, menino comum. Aos 14 anos ganha um violão e a vida muda. A cidade fica pequena e se larga aos 18 para Salvador onde conhece Dorival Caymmi. Agitado, dali vai para o Rio, participa da banda ‘Garotos da Lua’, é excluído por desobediência e por não gostar dos ritmos tocados. Conhece, anos depois, Tom Jobim, pianista clássico que tem profunda admiração pelo Jazz e a história de sua vida vira para sempre. Surge, ali entre Copacabana e Ipanema, o seu primeiro disco, ‘Chega de Saudade’, fins dos anos 50. O restante todos conhecem, pois João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlinhos Lyra e alguns mais modificaram a forma de tocar o samba, tornando-o uma mistura de ritmo sincopado da percussão mais simplificada e, paradoxalmente, mais sofisticada. Desde então, João Gilberto é o monstro sagrado da Bossa Nova e suas excentricidades o fazem desejado pelo público que aceita as suas exigências nos poucos shows que dá no Brasil e mundo. Assim, aproveitando o ano em que a Bossa Nova completa 50 anos e o mês em que ele faz 77, deu um show agora na principal sala do Carnegie Hall, em New York, reclamando do ar condicionado – tosse várias vezes – e da posição do microfone. Canta 22 músicas, começando com Doralice, passa por Chega de Saudade, Corcovado, Morena Boca de Ouro, Preconceito, O Pato, Caminhos Cruzados, Wave, Rosa Morena, Este seu olhar, Samba do Avião, Lígia, Desafinado. Ao final, homenageia os gringos com a versão de Braguinha da música de Irving Berlin, ‘God Bless América’ e fecha com Garota de Ipanema. É aplaudido de pé pelas duas mil pessoas que lotavam a sala. Para Sérgio Dávila, da Folha-SP: “João Gilberto desafiou o tempo e o vento em sua primeira apresentação no ano em que a Bossa Nova completa 50 anos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/06/2008.

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AMOR FALADO – Jornal O Estado

Não gosto de amor cantado aos ventos ou mirado pelos próximos. Próximos, mas não tanto que possam saber ou sentir a intensidade – ou não – dos que procuram amar ou têm o desejo de, juntos, acertar o passo da afetividade sem interferências, palpites ou fofocas. Contardo Calligaris, cidadão do mundo, psicanalista, escritor e maduro, refere que as declarações de amor são “constatativas” ou “performativas”. As constatativas seriam, como se diz hoje, tipo assim: “digo que amo porque constato que amo”. As performativas seriam quando “acabo amando à força de dizer que amo”. É o eco do que digo fazendo morada por repetição. Contardo não fica no muro, prefere o amor que não fala e não aceita o que chama de “verborragia amorosa”, a esquecer conflitos e nuances da vida real em que somos múltiplos. Trabalhamos, temos descendentes, amigos e uma teia de relações que nos envolvem e essa singularidade, no geral, não é conhecida na essência pelos outros e somos vistos como uma ‘persona’ que não somos. Assim, também faço fé no amor silencioso ou sem palavras, porém com atitudes, gestos, linguagem de corpo e sentimento. Tem mais consistência e faz mais sentido que o amor-show, mãos dadas em público, aparições performáticas ou aquele baseado no olhar do outro sobre o que na verdade não somos. Nós, primeira pessoa do plural, pode ser apenas o eu e o tu, mas pode ser também o eu, o tu e muitos outros. Deste modo, para acertar o passo afetivo é preciso apenas duas pessoas, o eu e o tu ou você. Os demais são coadjuvantes e acessórios, inclusive ascendentes, descendentes e amigos. Daí, sempre é bom ouvir o que autores consagrados disseram sobre o amor. Não importa que tenham ou não sido bons amantes. Procuraram entender esta pequena palavra – em todas as línguas – de tantos significados. Balzac dizia que “o amor não passa de uma fome, de uma sede, embelezada por nossa imaginação”. Wertheimer contava que “o amor, para durar, exige incertezas”. Shakespeare era duro: “o amor é um desperdício de alma num deserto de vergonha” e Cervantes revelava: “muito te ama quem te faz chorar”. Eu, (des)aprendiz de amor, digo que palavras têm pouco peso. Ações, gestos, os olhos, o cuidado, a consequência dos atos, venturas a dois e a aceitação das falhas mútuas, são os insumos básicos do amor.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/07/2008.

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VIOLÊNCIA E SEGURANÇA – Diário do Nordeste

Estamos estarrecidos com a incapacidade dos órgãos policiais de coibir ações e atentados à segurança das pessoas. Assistimos acuados e impotentes a crimes cada vez mais ousados. As cidades brasileiras estão loteadas pela marginalidade. E é pena se misturar marginalidade com pobreza. A pobreza é uma situação de risco, que não leva, necessariamente, à marginalidade. O próprio Presidente da República é exemplo disso. Filho de retirante, mãe abandonada pelo marido, muitos irmãos e deu certo. Trabalhou, tornou-se sindicalista e é hoje quem é. Assim, não há como aceitar ou atenuar ações de marginais que se dizem pobres e se arvoram em “donos” de áreas físicas das cidades, fecham o comércio, roubam, matam, vendem drogas, sequestram e até são conhecidos da polícia. São conhecidos, sim. “Esse é o território do fulano”, “aquele é de sicrano” e por aí vai. Algumas televisões, concessionárias do poder público, têm programação de baixo nível, entrevistando delinquentes, ouvindo pais descontrolados pela morte de filhos e ninguém toma providência. “Não é comigo”, dizem uns. “Acho é pouco, dizem outros.” Enquanto isso, pessoas e famílias são submetidas a constrangimentos, humilhações e extorsões por assaltos em prédios, em engarrafamentos por “flanelinhas”, roubos de veículos e sequestros. Os bandidos são articulados e citados por policiais que não os prendem. Até quando se vai conviver com a insegurança a amedrontar e maltratar a coletividade? O país cresce, há empregos. Indústria, comércio, serviços e a construção civil voltam a ocupar mão-de-obra com pouca ou nenhuma escolaridade. Organizações sociais, entidades e empresas trabalham, de verdade, em projetos de inclusão social, mas, paralelo a isso, a marginalidade sobe e a polícia não dá cabo dos delitos. Ninguém sabe o que se gasta no Brasil com segurança privada. Estimam em 10 bilhões R$/ano. Esses fatos mostram que a segurança pública deve ser prioridade, além da verborréia. Na prática e de fato. E, mais que toque de sirenes, é preciso que a polícia se ajuste ao novo modelo da sociedade brasileira que, de forma pacífica, paga tributos de primeiro mundo e recebe tratamento de terceiro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2008.