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ANIVERSÁRIO

Pois não é que hoje é o dia do meu aniversário. Nasci no meio da Segunda Guerra Mundial e, no dia em que completei um ano, o Brasil declarava guerra ao Eixo. Os alemães deviam estar tremendo nas bases enquanto eu me lambuzava de bolo, recebendo a atenção comum aos filhos primogênitos. Comecei a estudar quando os Estados Unidos outorgaram uma Constituição ao Japão e implantavam o Plano Marshall na Europa.
Fiz minha primeira comunhão logo após o Brasil ter perdido a Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Terminei o ginásio quando Juscelino inventou de criar Brasília. Conclui o colegial após o Brasil ter ganho a sua primeira Copa do Mundo. Entrei na Universidade quando Jânio aparecia com sua vassoura. Fiz minha primeira viagem ao Exterior no ano em que John Kennedy morreu. Conclui administração no ano da Revolução e Direito quando foram criados o cruzeiro novo, o MDB e a Arena.
Casei no ano em que o homem pisou na Lua e a minha primeira filha nasceu quando a China foi admitida na ONU. A segunda filha nasceu enquanto Ernesto Geisel era indicado para Presidente da República. A terceira filha nascia enquanto morria Mao Tse Tung e a última no ano em que o divórcio foi instituído no Brasil.
Nos anos do milagre brasileiro eu cuidava de minha firma que havia sido fundada à época da morte de Costa e Silva e da Constituição outorgada. No ano em que foi decretada a Anistia ela completava dez anos. Dei um duro danado e fui queimando etapas.
Completei a idade em que Cristo morreu quando foi inaugurada a Ponte Rio – Niterói. Descobri-me quarentão quando o Aiatolá Khameine foi escolhido presidente do Irã. Desde cedo aprendi e continuei a fazer, como hobby, o que Carlos Heitor Cony faz por profissão. Andei meio mundo, conheci muita gente e cultivei alguns poucos amigos, dentre os quais o que faz censura prévia em quase tudo o que escrevo. Concordo com o doido do Paulo Francis quando ele dizia que “as amizades mais profundas vêm desse sofrimento a dois, ou a três”.
Todas as manhãs, bem cedo, ando com um grupo de amigos. Às sextas-feiras e sábados, quase sempre, almoço com amigos que fazem da crítica inteligente o prato principal da refeição. Tomo, aos sábados, café com uma colega de universidade e os domingos eu reservo para intimar com minha mãe que se tornou mandona depois da morte do meu pai, no ano em que completei dez lustros de vida. Nesse dia ela dá carão nos seus filhos marmanjos e puxa o saco das “santas filhas”.
Faltando três anos para a virada do século (não do milênio) eu tive a alegria de ser avô, dose repetida no ano seguinte. E cá estou eu lépido e fagueiro com muitos cabelos, embora mal distribuídos, esperando minhas filhas e netas acordarem para decidir o que faremos hoje. Sei que uma delas, pelo menos, vai chegar atrasada. Não faz mal, estou acostumado.
Aproprio-me de versos anônimos para encerrar: “conta teu jardim pelas flores, nunca pelas folhas que caem. Conta teus dias pelas horas douradas, e esquece por completo as nuvens. Conta tuas noites pelas estrelas –não pelas sombras. Conta tua vida pelos sorrisos, não pelas lágrimas. E, alegremente, conta tua idade por feitos, não por anos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/1999.

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SEM TERRA, SEM RUMO E STRAVINSKY

Desde que há algumas semanas os caminhoneiros se reuniram-extremamente bem coordenados, diga-se de passagem – para a sua greve geral que se fala em crise institucional. De repente, na quinta-feira passada, outro grande movimento, o dos sem terra, segundo muitos, e dos sem rumo, segundo FHC, mexeu com o coração de Brasília e escancarou a situação brasileira.
Enquanto isso, no sul e sudeste, aproxima-se a primavera e, segundo os arautos de sempre, o Brasil, em breve, entrará nos eixos. É bom lembrar que o 05 de outubro é nada mais, nada menos, que o “Dia da Ave”, segundo o calendário cívico-histórico brasileiro. Os pássaros ficarão felizes pela escolha, quem sabe, do seu dia para o anúncio do fim dos problemas brasileiros. E voarão em rasantes sobre a Praça dos Três Poderes. Quem acredita em Nostradamus pode acreditar em tudo.
Para quem mora por estas bandas do Brasil, onde as estações se resumem a sol e chuva, ou seca e enchente, a coisa até parece piada. Como parece piada a discussão sobre globalização e o que é ou não é empresa nacional, pois parte das maiores das daqui, se não tivessem sido assistidas com o dinheiro farto e generoso dos incentivos fiscais e dos rombos em bancos estatais, pouco mais seriam que espectros.
Por tudo isso é que fiz, mesmo sem entender de música erudita, uma analogia entre as promessas da primavera, do governo e a obra musical “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky. Recebida como um verdadeiro escândalo quando de sua estréia na primavera de 1913, em Paris, sua força foi tamanha que passou a influir na mudança da postura cultural da época e o choque produzido mexeu com as classes dominantes de então que, estupefatas, a ouviam no Teatro dos Campos Elíseos.
É provável que a analogia que me proponho a fazer se prenda ao próprio conteúdo da peça musical que se compõe de duas partes. O governo atual também tem duas partes, a antes do início do segundo mandato em janeiro de 1999 e a que veio depois.
Voltemos à Strasvinsky. A primeira parte da peça é a Adoração da Terra (seriam a defesa intransigente dos ruralistas e a ação constante dos sem terra?), em que é descrita o renascimento da natureza (seria o respeito ao meio ambiente ou o aproveitamento de terras improdutivas?), os augúrios da primavera: dança das adolescentes (seriam as esperanças e os dramas da nossa jovem democracia?), os jogos de captura (seriam os jogos de poder entre os do governo e as esquerdas?), os jogos das cidades (poderiam ser os interesses e as guerras fiscais entre sudeste-sul e norte- nordeste?), a procissão do sábio (alguma semelhança com alguém e o seu séquito?) e a dança da terra (as invasões, os crimes e a impunidade?).
Espero que esta analogia não se configure também na segunda e última parte da composição de Stravinsky que é iniciada com o sacrifício (seria o nosso holocausto?) e concluída com a dança do sacrifício (seria a vingança dos “sem, sem” com a dança dos “com, com?”).
Stravinsky e analogia à parte, o brasileiro já vive a dança do sacrifício há muito tempo e se penitencia, talvez, da insensatez coletiva que permite a eleição e reeleição de muitos políticos corruptos, despreparados ou maquiavelicamente geniais que se contrapõem a uns tantos capazes e honestos que, pouco ou quase nada, conseguiram nesta década findante.
Vitórias a comemorar? Quais? Não se sabe ainda como o país e a Nação reagirão aos direitos, encargos e diretrizes da globalização, nome que pode ser tão efêmero quanto o tempo que medeia uma e outra estação. Ë bom lembrar que a estação que antecede à primavera é o inverno, sem esquecer que ela é substituída pelo verão, época sujeita a chuvas e trovoadas, especialmente em países tropicais e bonitos por natureza.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/1999

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CARTA ANÔNIMA

Alguém me telefona do sul do país e pergunta o que fazer com uma carta anônima. Respondo, sem titubear: deixá-la anônima, não passar o recibo que o seu autor ou autores desejam.
Segundo Aristóteles, a coragem é a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras. Quem não tem coragem, utiliza, por exemplo, o recurso da carta anônima.
Há uma corrente psicanalítica que considera a carta anônima uma coisa abjeta. Quem escreve uma carta anônima, no mínimo, tem medo de mostrar a sua cara, deixando patente, segundo essa corrente, a sua pequenez.
Ninguém e nenhuma instituição são tão fortes que não possam ser enfrentados. Se você se sente fraco, impotente, procure alguém para lhe aconselhar e respaldar. Una-se à sua associação de classe, procure a polícia, um advogado, a imprensa ou a justiça. Agora, escrever carta anônima é um recurso absolutamente descabido e inócuo. Ninguém pode ou deve acreditar em pessoas que não têm coragem de defender os seus pontos de vista e usar o seu próprio nome ou, se for o caso, do grupo ou instituição que integra.
Imaginemos que uma pessoa A não goste da pessoa B e não tenha coragem de enfrentá-la. Será muito fácil dizer cobras e lagartos de B, utilizando-se do recurso do anonimato. Da mesma forma, se algumas pessoas, em bloco, se julgam prejudicadas, estabeleçam uma estratégia e mostrem a sua identidade. Quem não aparece e não tem coragem de enfrentar o adversário não merece fé.
A carta anônima é uma instituição antiga, usada, segundo especialistas, via de regra, por pessoas invejosas, recalcadas e que se comprazem em denegrir, sem provas, a honra alheia, quase sempre construída a custa de muitos sacrifícios. Ora, como acreditar em quem tem medo de aparecer? O argumento de que a pessoa denunciada tenha um aparato para defendê-la não procede. O Presidente Collor foi apeado do Poder porque os seus denunciantes tinham nomes e assumiram suas acusações. Um dos denunciantes era um simples motorista.
Viver é correr riscos. O autor da carta anônima, quando não identificado – o que quase sempre acontece pelas pistas que deixa – não corre risco nenhum e pode jogar lama nos outros de uma forma condenável para ver se fica alguma sujeira.
“Ninguém pode usar máscara por muito tempo”, já dizia Sêneca. É por isso que os autores de cartas anônimas, mais cedo ou mais tarde, são identificados. Principalmente agora que a tecnologia funciona junto com a criminalística na elucidação do que se imagina secreto.
Quem já foi alvo de alguma carta anônima sabe o quanto é desconfortável não identificar a pessoa que está lhe assacando impropérios. Aquele que tem indícios ou provas, pesquisa, mostra, desmascara, enfrenta, denuncia ou utiliza a imprensa que está ai sequiosa por notícias e manchetes.
Ao receber uma carta anônima não a propague. Jogue-a no lixo. Se você ainda não é, poderá ser a próxima vítima e, nessa ocasião, não estará rindo da desgraça alheia. Ficará atônito e amaldiçoará quem utiliza tal expediente torpe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/09/1999.

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NOVOS MICROCONTOS

Quando tive a coragem de publicar 12 microcontos neste espaço, fiquei tão atônito que até meu e-mail forneci para receber opiniões. Foram várias e, graças a Deus, sempre favoráveis. Bancário, advogado, psicanalista, médico, pedagogo e jornalista (imaginem) foram algumas das profissões de pessoas que, não só gostaram, mas pediram para escrever mais alguns. Aproveito este espaço liliputiano com tipo de letra consorciado a oftalmologistas e óticas, para, apropriadamente, publicar mais alguns microcontos.
MC 01
Os gêmeos univitelinos eram econômicos. Uma só casa, um só carro, um retrato 3X4 para os dois, uma só mulher e um vizinho muito atuante.
MC 02
Deu na televisão. Um brasileiro, afinal, poderia ganhar o Prêmio Nobel da Paz por ter matado um grupo de brancos que dizimara uma tribo de índios.
MC 03
Tinha consciência de sua falsidade e isso o machucava. Subiu no palanque, abriu o sorriso, fez o discurso e se julgou eleito pelo povo.
MC 04
Viúva recente. Os bons costumes pediam recato. Telefonou, pediu uma pizza e entregou-se ao entregador na cama do falecido.
MC 05
Vail, Colorado. Os esquis caíram. A neve a cobria, lentamente, até o pescoço. Gritou e a avalanche chegou em resposta.
MC 06
Hospital cheio e o jovem médico atendia pacientemente a moça estuprada. Limpava o sangue e o seu sangue fervia. Tomou um calmante e deu uma canelada na maca.
MC 07
Pois não é que descobriram umas cartas da Hillary para a Mônica reclamando de sua falta de amor ao Bill. Hillary, indignada, dizia não entender a traição de Mônica.
MC 08
No interior do submarino ele temia ler a carta da mãe. Criou coragem e leu que seu casamento dera água. Sua mulher acabara de fugir com um vendedor de aquários.

MC 09
Estava com fome e não tinha dinheiro. Trocou a roupa do corpo por um sanduíche. Teve botulismo e o corpo pagou.
MC 10
Ajustou os óculos novos. Enxergou o que não via antes: a miséria de sua casa, a pobreza de sua favela e a fealdade do seu rosto. Matou o oculista.
MC 11
Era carnaval. Tímido, usava máscara. Encontrou-se perdido no meio da multidão abraçado a um gay. Gostou. Rasgou a máscara.
MC 12
No curso da invasão de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao chão, o rifle tombou e ela tomou posse dele.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/1999.

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TOLERÂNCIA

A convivência social nos obriga a ser tolerante. Engolir sapos é uma arte que vamos aprendendo ao longo de nossas vidas. Começamos a ser tolerantes com os pais que, desde cedo, na ânsia de nos transformar em “gente”, nos obrigam a seguir horários, tomar banhos, ir à escola, cortar cabelos e unhas, comer o que não queremos, respeitar os mais velhos, aguentar o chato do irmão, tomar remédios que nos tornarão fortes e saudáveis, rezar para pedir perdão (de quê?) a Deus etc.
Na escola ficamos horas e horas ouvindo professores falarem, muitas vezes sobre coisas que não nos interessam. Apesar disso, além da tolerância em assistir aulas enfadonhas, passamos a estudar matérias chatas e com pouco ou nada a ver conosco. Em outras palavras, devemos ser bons em assuntos que não são bons para nós. Muita gente dirá que as crianças e os adolescentes ainda não têm a capacidade de saber o que é importante ou bom para os seus futuros e é preciso colocar muitas informações em suas cabeças, na ilusão de que isso possa se transformar em conhecimento.
Não concordo com essa ideia. Desde cedo deveríamos estudar aquilo que nos atrai, aguça a curiosidade e mexe com a inteligência. Sei, por outro lado, que é preciso de um instrumental básico, a partir do qual se pode ir estudando com prazer. Sei também que há um conjunto de regras sociais necessárias à convivência.
Tudo isso não deve invalidar o prazer de estudar. Esse é um dado que professores e pedagogos parecem levar pouco em conta. Se isso é verdade, eles não estarão sendo tolerantes com crianças e adolescentes que precisam estímulos e emulações para acordar cedo, cumprir horários e ter regras de vida. A escola deve atrair o aluno, ser prazeirosa, alegre e receptiva.
Há um equívoco muito grande dos pais em imaginar que as escolas farão de seus filhos os geniozinhos desejados. Seu filho querido é, via de regra, apenas um no meio de dezenas de outros. Você é que deve ser tolerante com ele. Ouvir suas queixas, entender suas reações com os colegas e professores e lhe mostrar o mundo não como uma versão de Walter Disney ou de Federico Fellini, mas esse mundo real em que os contrários têm que conviver e aprender que a tolerância é sempre um grande aval de boas maneiras nessa vida competitiva e pluralista.
Entranhe-se com seu filho, ao invés de estranhe-se. Misture-se, envolva-se, participe e acredite no potencial dele, sem endeusá-lo, mas o aceitando como uma pessoa autônoma que não é um clone seu. O DNA não é tudo. O amor, a compreensão e a tolerância são ferramentas para torná-lo forte, sem que perca a sensibilidade tão necessária ao equilíbrio emocional indispensável aos embates que terá por toda a sua vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/09/1999.

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FILOSOFANDO

De repente, um grupo heterogêneo de pessoas, sem nenhuma razão aparente resolve estudar filosofia. São, na maioria, empresários e alguns professores e estudiosos do assunto, sob a coordenação de um doutor em filosofia. A propósito, é bom ler o que disse Michel Foucault sobre a busca de conhecimento: ”Não há relação de poder sem a constituição correlativa de um campo de conhecimento, como também não há nenhum conhecimento que não pressuponha e constitua ao mesmo tempo relações de poder”.
Como não havia um nivelamento entre todos os participantes, o professor optou por uma visão abrangente da história da filosofia e de suas principais figuras. Cada sessão tem a duração mínima de duas horas, uma vez por semana. Já estamos nisso há mais de dois meses e, passo a passo, vamos chegando à modernidade.
Didático, preparado e com uma capacidade incrível de se recuperar após perguntas de toda ordem, o professor vai mostrando aos que nunca tinham estudado filosofia e aos que imaginavam saber alguma coisa, as diversas concepções acerca do ser, dos seres e dos papéis do homem no universo dentro das variáveis espaço e tempo.
Imagino que se criou no meio do grupo – uma espécie de babel de formações pragmáticas e acadêmicas – a consciência da necessidade de uma atitude crítica, a partir de reflexões. Já se observa, como produto dessas reflexões, um amadurecimento do raciocínio lógico e de especulações, talvez até inconscientes, sobre a moral, a ética e a semiologia com sua linguagem dos signos.
Muitas vezes, após as aulas, alguns ficam confusos e sentem o peso das informações recebidas, mesmo com a ressalva da bibliografia, cuidadosamente preparada para neófitos. Pois não é que ä frequência tem aumentado e muitos já não se sentem acanhados em associar os seus raciocínios à lógica das escolas filosóficas. Ora, se filosofia, do ponto de vista etimológico, significa “amor à sabedoria”, os que estão tateando têm consciência de suas limitações e o fazem na certeza de que precisam refletir sobre o pensar e o agir humanos. Essas atitudes reflexivas vão sendo agregadas e servirão, provavelmente, para balizar suas condutas.
Certamente, após esse curso, não serão conferidos diplomas e ninguém se sentirá um novo filósofo, mas, por certo, a formulação de seus pensamentos práticos ou teóricos obedecerá, mesmo sem perceberem, a novos critérios, ideias e juízos de valor, a partir da perplexidade, base primeira da filosofia, segundo Aristóteles.
Durante algum tempo, considerando que tudo não venha a ser absorvido e ficar de todo sedimentado, pensarão no que ouviram sobre a filosofia grega, os filósofos cristãos, a reforma, o iluminismo, a modernidade e nessa coisa meio louca que é o pós-modernismo, a partir do niilismo que nos conduziu a este mundo de hoje, com poucas crenças e muitas desavenças.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/09/1999.

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ESPERAR, POR QUEM?

Tem gente esperando o 1º de janeiro de 2000, como se esse dia venha a ser milagroso e traga, nas suas 24 horas, respostas para as nossas questões, aspirações e sonhos. Sem querer ser um desmancha-prazeres vou apenas dizendo que esse tal 01 de janeiro será apenas o dia da maior ressaca, essa sim, totalmente globalizada.
De Narvik, no pólo norte, à Patagônia, no pólo sul, homens e mulheres, tiradas as exceções de praxe, tomarão os seus pileques, engordarão gramas ou quilos, farão juras de amor, provocarão acidentes de trânsito, gastarão mais do que podem e devem, darão telefonemas melosos, orarão em suas crenças e aproveitarão o grande feriado de 02(sábado) e 03 (domingo) para preparar a entrada na realidade do dia 04 de janeiro, a primeira segunda feira do último ano do século XX. Pois é, o século XXI só começará no dia 01 de janeiro de 2001. Os séculos vão do ano 01 a 00 e, como é óbvio, têm 100 anos.
Tudo bem, mas a virada do milênio será no dia 01 de janeiro, dirão vocês. Será não, segundo alguns poucos cientistas que falam na mudança do calendário gregoriano, no acúmulo dos dias a mais dos anos bissextos e no movimento da obliqüidade da eclítica (palavrinha complicada) terrestre. Vamos admitir que esses cientistas estejam errados e que a virada seja mesmo ao final deste ano. E daí?, Direi eu. O novo milênio pagará suas contas, enxugará suas lágrimas, melhorará sua saúde, aplacará sua solidão e manterá o seu trabalho? Portanto, cada um cuide de sua vidinha e trate de acabar com essa frescura de achar que um novo ano, século ou milênio mudará o seu destino. Isso é conversa de agente de viagem, vidente, cartomante, pai de santo, programas de televisão de segunda classe e os aproveitadores de sempre. Cuide-se não e espere pelo milagre e você estará ferrado. É o mesmo que esperar por promessa de político e governante. Papo furado.
Trate do seu dia a dia, vá vivendo a sua própria realidade e procure transformá-la com seu trabalho e suas forças. Sem essa de achar que as coisas caem do céu. A propósito, o Vaticano rendeu-se à ciência e admitiu que o paraíso celeste não fica no firmamento ou no espaço sideral. O paraíso é um lugar virtual, onde os virtuosos ressuscitarão um dia. Não vale mais dizer: Meu Deus do Céu. Deus está, como sempre esteve, em todas as partes e a matéria… Bem isso já é outra conversa.
É bom lembrar os versos de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Diz um velho brocado americano: “ Todo aquele que espera que as coisas melhorem e não colabora com o tempo, verá, bem cedo, que aquele que não esperou estará tão longe que jamais será alcançado”. Ou com o fala um matuto conhecido: “Quem espera por tempo bom é vazante”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/10/1999.

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SER CRIANÇA

Já faz muito tempo. Eu era criança quando se podia ir à escola a pé ou de ônibus, ficar brincando na praça perto de casa sem ninguém importunar, jogar futebol com bola de pito.
Eu era criança quando se acordava cedo, orava, tomava banho, vestia a farda, bebia-se café com leite e pão com manteiga ou uma vitamina onde a banana era o carro chefe, levava-se merenda e voltava faminto para almoçar. Mas se aguardava a chegada do pai.
Eu era criança quando se colecionava carteira de cigarros, flâmulas, lápis, moedas, cartões postais, álbuns com artistas de cinema e jogadores de futebol. Jogava-se triângulo, bila, que depois virou bola de gude, soltava-se arraia, que mudou para pipa, e todo menino tinha um time de botão cujo melhor jogador, não sei porque, era sempre o “Paulo Caminha”.
Eu era criança quando quiseram me ensinar a escrever com a mão direita. Não aceitei. Até hoje continuo usando a mão esquerda para tudo e a direita para quase nada.
Eu era criança quando minha mãe queria mandar uma empregada me levar ao colégio segurando minha mão. Não concordei. Fizemos um armistício: a empregada iria pelo outro lado da calçada.
Eu era criança quando um diretor de escola puxou a minha orelha porque me atrasei no recreio. Joguei o refresco que estava tomando em seu corpo, pedi para falar com o meu pai e disse que não ficaria mais ali. Ele concordou.
Eu era criança quando se marchava no dia 7 de setembro puxando carneirinhos ou com caixas de sapato às costas, cobertas de papel branco com uma cruz vermelha, como se fôssemos enfermeiros.
Eu era criança quando no carnaval havia corso, as pessoas passeavam em caminhões e carros conversíveis, sentavam nos para-lamas ou pisavam nos para-choques. Jogavam-se talco, serpentina, confete e dois tipos de lança-perfumes, um dourado e outro de vidro.
Eu era criança quando a praia ainda se fazia distante, pois a cidade lhe dava as costas. Não havia edifícios e os pescadores misturavam-se aos banhistas. Os calções eram frouxos, a areia era branca, limpa e boa para jogar futebol, vôlei ou frescobol.
Eu era criança, imaginem, de rezar o terço, das missas aos domingos, ir às lojas com minha mãe, acompanhar procissões, comungar às primeiras sextas feiras de cada mês, mas não deixava de aprender jiu-jitsu.
Hoje, já não sei bem o que é ser criança. Acompanhei, passo a passo, a vida de minhas filhas, desde o pré-natal. Agora, meio sem jeito e sentindo que estou como que sobrando, tento me misturar com duas pequeninas netas. Mas, não sei mais, de verdade, o que é ser criança Nem sei que presentes dar no Dia das Crianças. As opções são tantas e nada parece ser novidade.
Não gosto do “no meu tempo”. Cada tempo tem suas próprias cores e vida e as cores e a vida de hoje resplandecem de outra forma. Não sou e nem pretendi ser saudosista, quis apenas lembrar o que, à época, se fazia com alegria e simplicidade que, talvez, fossem, para os de então, a essência da felicidade.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/10/1999.

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RUPTURAS

É próprio do ser humano viver de rupturas. Aliás, as rupturas são o cerne do crescimento e progresso, sejam eles pessoais ou coletivos. Todo ato de romper, criar é, em sua essência, uma desobediência, uma quebra com o estabelecido, a procura do novo, mesmo que o novo seja até a reencarnação do velho.
Neste momento que estamos vivendo no mundo, no Brasil e em nossas vidas pessoais tão plenas de problemas e carentes de soluções, é chegada a hora das rupturas, de cada um entender que a mesmice, seja ela coletiva ou pessoal, não nos levará a nada, a não ser a vala comum da mediocridade, onde todos são enterrados como cadáveres desconhecidos ou indigentes mentais.
É preciso ter a coragem de ousar, de olhar o dia, a vida, as pessoas e o mundo que nos cerca como algo a ser modificado, a partir de nossas informações, conhecimentos e valores que, necessariamente, sofreram abalos sísmicos desde os nossos nascimentos. Os valores e a cultura que nos foram passados por nossos ancestrais, pais e mestres, embora essenciais à nossa formação, já não são mais referências pétreas. Até porque a velocidade das transformações ocorreu em todos os campos do conhecimento humano. O certo, o justo e o correto são decorrência de valores em mutação e isto causa um desconforto tanto na “Terra de Marlboro” como aqui na pátria do “levar vantagem em tudo”. Até os amorais e imorais, naturalmente infensos a questões existenciais, estão sendo atingidos por essa aura benfazeja.
Francis Fukuyama, um polêmico professor americano da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, já havia escrito há mais de uma década que estávamos no fim da História. Segundo ele, as nações tenderiam a ser democracias liberais e, quando atingissem esse fim, a História terminaria. Iria acabar por falta de objetivo, a ausência da luta pelo domínio, a conquista e o reconhecimento, próprios do ser humano.
Agora, passados dez anos, ele nos propõe uma nova leitura sobre o mesmo tema. Com o seu novo livro, a “Grande Ruptura” (The Great Disruption), ele fala das grandes crises ocorridas nas décadas de 60 a inícios da de 90, como o aumento de criminalidade, divórcios, filhos naturais e, do outro lado, o descrédito pelas instituições sociais e a perda da confiança pessoal.
Citando Fukuyama, Anthony Gottlieb, do “The NYT Book Review”, destaca esse trecho de seu livro: “os seres humanos sempre criam regras morais pelas quais se pautam, em parte porque a natureza os fez assim e em parte pela busca de satisfação de seus próprios interesses”. Gottlieb deseja, na verdade, criticar. E o faz com veemência: “esse é um fenômeno para o qual Fukuyama oferece apenas respostas insatisfatórias”. Ele insiste que nossa recuperação da Grande Ruptura não teve nada de automático.
Eu concordo com Gottlieb. Creio que, rompendo, nós todos estamos crescendo e avançando e isto faz a diferença. Hoje, cada um está, a seu modo, vivendo a sua ruptura continuada, descobrindo novos caminhos, fazendo releituras de suas histórias e tentando obter respostas. E isso é bom.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/10/1999.

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O SENTIDO DAS COISAS

Tem muita gente procurando o sentido das coisas. Compra livros, vai a analistas, escolhe um guru, reza, mas não o encontra. Claro, não há encontro com o sentido das coisas.
Para se saber o sentido das coisas é preciso criá-lo. Você é que deve fazer com que as coisas tenham sentido. Não adianta a muleta dos livrinhos de autoajuda, dos analistas cheios de problemas pessoais a resolver, dos gurus ascéticos e carentes de realidade e da oração sem fé, como uma troca.
Não basta também a boa vontade dos parentes, amados ou dos amigos, você tem de descobrir a sua própria história, viver as suas próprias dores e despedaçar-se, pois, segundo Cecília Meireles “quanto mais me despedaço mais fico inteira e serena”.
Para as coisas terem sentido é preciso que a pessoa se despedace, com o condão de ficar inteira, como resgate.
Todos nós temos ouvido frases como: “a minha vida não faz sentido”, “isto não faz sentido”. E o que faz sentido para você? A vida dos outros? Calcem as suas botas e descubra o seu mundo. Não é preciso ir a Santiago de Compostela para encontrar o Ser Supremo, nem ir a um “ashana” na Índia para ficar zen.
Você é que tem o caminho, o cajado e a escolha. Faça-o sem medo, no dia a dia, em meio à pontaria dos que lhe atiram flechas, como se você fosse o alvo. Você não é alvo, você é algo, torne-se especial, sendo simples. Não precisa usar as sandálias do pescador para se tornar puro, a pureza não vem do vestuário, nem dos olhos dos outros, ela assoma do seu coração e quem o redime é a sua consciência, não o julgamento dos outros.
Cuide de você e já terá um grande trabalho. Que ser complexo é ser você. Ser você é ser único e não uma cópia de alguém ou do modelo que imaginam lhe cair bem. “É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la”, já dizia Fernando Pessoa. Torne-se romântico sem ser piegas.
Não pense, por exemplo, que “As time goes by”, “She” ou “New York, New York” foram compostas para você, mas se permita sentí-las. Da mesma forma, não se sinta embriagado com Marisa Monte, Fernando Brandt, Milton Nascimento e, vá lá, Roberto Carlos, mas os considere como reserva técnica de seus devaneios. Não deixe que os outros façam as suas coisas e escolham seu destino, calce os seus próprios sapatos, caminhe a dura estrada e se, não encontrar estrada, faça uma. Seja um Rondon, sem medo de florestas e de feras. Quem tem medo fica acuado e não vive, perde-se no labirinto e não encontra a saída e ela pode estar bem aí à sua frente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/1999.