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ALCIDES PINTO – Diário do Nordeste

Estava a virar meninote. Vizinho à casa dos meus pais havia uma criação de marrecos barulhentos. Lá aparecia um sujeito magro, esquisito, idade do meu pai, mas diferente. Dias, de paletó branco e gravata; meses depois, vestido de franciscano e, vezes, quase normal. Era irmão da D. Mirian, a vizinha da esquerda. Procurei saber o que ele fazia. Poeta, foi a resposta. Essa a minha iniciação com JAP. Distante, o quanto pode ser a relação de um menino com um homem estranho. Próxima, por me encantar a forma como se portava, sem ser o que os outros eram. Um dia, tive a ousadia de mostrar-lhe um escrito. Olhou, riu e disse: vá em frente. Décadas se passaram. Agora, em figura de admirador confesso, estou a amealhar palavras para dizer alguma coisa sobre o poeta, ensaísta, ficcionista e teatrólogo, o eterno visitante da casa dos marrecos. Premiado, consagrado, maduro e lúcido como pode ser quem vive além do real, tal novo Quixote de muitas dulcinéias. Não vê moinhos de vento, mas faz, com seus escritos, mudar o vento da mesmice da literatura brasileira, especialmente a que se configurou como a geração pós 45. Eis que, tempos depois, nos tornamos amigos, pois os maduros não têm idade, amealham lembranças e servem-se de benquerenças para o dia a dia, São, ao mesmo tempo, meninos com sonhos de usar baladeiras, jovens a sentir o cheiro de mulher, maduros a lutar pela vida, não como a traçamos. O fato é que passei a fazer parte dos que estavam próximos ao JAP, sem que pedíssemos prefácios, olhadas em manuscritos, ajudinhas literárias, coisas assim. Esse grupo, entre outros, tem gente como Sérgio, Teles e Carlos Augusto. Gente que o incitava a sair de casa, a escrever e a aceitar os loiros que procuravam sua cabeça gris e o seu coração de curumim. E lá estava ele bebericando uma cervejinha, o olhar iluminado ao passar de uma mulher faceira e sabendo estar entre os seus. Agora, JAP, tal como desejava, volta para o lugar marcado, no Estreito. Encantado por Machado de Assis que, mesmo em sua casmurrice, por ironia do calendário, resolveu, enfim, premiá-lo e, paradoxalmente, o fará em duas dimensões. Os poetas não morrem. Viram versos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/06/2008.

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NAMORAR, VERBO ANTIGO – Jornal O Estado

Não sei se vocês ainda lembram: ontem foi o dia dos namorados. Classicamente, namorar é procurar inspirar amor a alguém. É cortejar, cativar, desejar ardentemente, requestar etc. Ora, em tempos que as pessoas estão perdendo a ilusão e que cortejar é tão antigo, requestar é palavra que não se usa mais, não se pode traduzir, literalmente, o que hoje possa ser namorar. As mulheres ainda românticas acreditam que é um passo inicial de uma relação duradoura que leva ao casamento. Mas, para ser atual, há tantas variações desse verbo da primeira conjugação. Os jovens “ficam”. Os menos jovens tem “casos” e os maduros, os que saíram da primeira conjugação, não a do verbo, procuram entender e definir o nome da relação que os remete para a difícil tentativa de estar, de forma consistente, com outra pessoa. Tenho ido a casamentos na condição de padrinho, isto é, de amigo dos pais dos noivos ou de ‘conselheiro’ de um dos casantes. E ouço com atenção as homilias dos padres que, via de regra, são fracas, pois ditas por quem não viveu o que tenta explicar ou louvar. Pode até ter tido alguma relação, mas foi acidental, escondida. Não conviveu, não teve filhos e, se os teve, não os educou como pai, mas como ‘tio’. Assim, os padres estão fora, por não terem a vivência da história do amor entre um homem e uma mulher. Creio que os pastores e os rabinos têm mais autoridade para dizer o que significa o matrimônio, mas são presos aos seus evangelhos e se perdem também na idealização de uma relação real entre pessoas que, quase nunca, fizeram cursos de relacionamento humano e têm sexos diferentes, daí as visões não complementares sobre as coisas e os sentimentos do mundo. Mas, eu ia falando sobre namoro, palavra que está perdendo o sentido de arte, de descoberta do outro, pois tudo está tão direto e óbvio, a partir das roupas, dos gestuais e das ações de cada um. Com a morte do Artur da Távola, esse grande cronista que a política contaminou, o Brasil perde um dos grandes incentivadores do namoro, pois ele – que gostava também de música clássica- quer soubesse ou não, acreditava no amor tal um conservador ou um dinossauro, como os mais jovens veem os mais velhos. Em tempos de ‘união estável’, de divórcios sem necessidade de juiz, de mulheres que ainda dão o golpe da gravidez e da cobiça pelo que imagina que a outra pessoa possa ser ou ter, há falta de ilusão, enlevo, cortesia e de descoberta e isso vai dando uma versão ainda não bem definida do novo namoro, do novo casamento ou da relação como a arte do encontro e não da mera consumação do desejo. Vinicius e Drummond estão mortos. Chico desencantou-se com a tardia solteirice e Caetano volta ao seio dos meninos do Rio, daí restam os ‘bregas’ a falar obviedades do amor, sem apresentar nada de novo em tempos de Internet, Msn, de fins de semana sem pais e de uma liberdade que ainda não disse a que veio. Namorar não é fugir da solidão. É o encontro do riso, da alegria, mas é, sobretudo, a conjugação de esperanças, o compartilhamento de sonhos, de dores e a parceria na elaboração do rascunho de uma vida em comum que se pretende feliz, mas a escrita definitiva tem muitas versões.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/06/2008.

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SOBRE ESCREVER – Diário do Nordeste

Algumas pessoas perguntam: como você tem tempo para escrever? Respondo: faço isso de há muito. É sempre uma tentativa de ir aprendendo a escrever ou, como diz Gabriel García Márquez: “para que me queiram(ler)”. Quem escreve deseja ser lido, aliviar-se, falar do que o alegra ou incomoda e também, se possível, interagir com o olhar e o pensar do outro. Gosto de escrever quando estou só, preferencialmente em casa e quando o silêncio só é banido por raros latidos do “Tico” ou o incômodo do telefone. Escrevo o que vem à mente, de memória, do que leio e vivo, mas estou sempre atento àquela frase de Shakespeare: “os loucos guiam os cegos”. Como todos somos cegos, quem escreve não passa de um louco a falar de sonhos, passado, presente, futuro, alegria, tristeza, filhos, família, pobreza, riqueza, desditas, vitórias, espertalhões, verdades e mentiras. Juntar tudo isso, da primeira palavra ao ponto final, é que nos torna diferentes, não especiais. Os que escrevem têm a mania, mesmo que inconsciente, de dizer isso e aquilo sobre a vida, lugares e pessoas. Acresça-se a isso a capacidade inesgotável de nos metermos onde não somos chamados e acreditar que poderemos melhorar o mundo com meras palavras. Desculpem, somos assim mesmo. As injustiças e os desmandos nos amolam, mesmo que sejamos participes ou coniventes. Vivemos a catar histórias e estórias e não descobrimos respostas para questões fundamentais: por que o homem mata outro homem? Os animais, ditos irracionais, só matam quando estão esfaimados. Se estiverem saciados, nada os incomoda, nem a presença do homem. Nós nos incomodamos com tudo e pouco fazemos de objetivo. Todos os dias compramos pão, mas nos esquecemos de dar bom dia a quem nos atende de pé e com um sorriso. Esse sorriso é a esperança vã ou séria a contaminar aos que não têm tempo de dizer olá, obrigado, bom dia, desculpe, fique bem, gosto de você etc. Por outro lado, a educação nos manda não dizer verdades e, sem querer, nos tornamos hipócritas. Não deveríamos ser, mas ter compaixão pelo outro, senti-lo, mesmo sem empatia ou reciprocidade no afeto. Mas eu falava nas razões de escrever e perdi o fio da meada. Isso é escrever.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/06/2008.

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A HISTÓRIA DE FRANCISCO, TAMBÉM JOSÉ. – Jornal O Estado

Depois de uma série de e-mails e telefonemas trocados, marco encontro com Luiza Amorim e seu marido, Kildare. Jovens, bem-apessoados, chegam e estou com visitas. Mesmo assim, atendo-os, e peço meia hora de tolerância. Na hora azada voltam, sentam e ela diz de seu projeto em fase de conclusão: escrever a biografia de Lustosa da Costa, o filho primeiro de “Seu Costa” e D. Dolores. Ela fala de sua vida acadêmica e da interrupção do trabalho como repórter de televisão para se dedicar integralmente ao final da história do Lustosa. Entrega-me um exemplar do livro que escreveu sobre a jornalista Adísia Sá. Vem munida de um MP-3 que usa, com a ajuda do marido, como gravador. Faz perguntas objetivas, certeiras e tem o cacoete de não querer ficar na superfície, mas mergulhar na essência da vida pessoal e profissional do procurador, jornalista e intelectual Francisco José Lustosa da Costa. Digo-lhe o que todo mundo sabe. O Francisco veio de Cajazeiras, Paraíba, onde perdeu o umbigo. O José cresceu em Sobral, sob os olhares vigilantes de sua família e as bênçãos de D. José Tupinambá da Frota, um dos seus ícones religiosos que talvez o tenha convencido a ser seminarista, por um tempo. O Lustosa surgiu em Fortaleza, depois dos anos no Seminário, com os Diários Associados, misturando faculdade, jornal e uma televisão incipiente em que o improviso abrigava os talentosos e dizimava os incapazes. Fez-se cronista político do primeiro time, ao tempo em que concluía direito e descobria que esta cidade era apenas uma Sobral maior e que ele poderia ser o exemplo da família que morava bem ao pé da Igreja da Piedade. E assim o fez. Foi abrindo caminho certo para os outros irmãos que, tendo a mesma carga genética, viraram deputado federal, ministro, historiadora, geógrafa, médico, jornalistas e escritores. E é desse tempo o meu conhecimento com ele. Alçávamos voos diurnos em direção aos ventos da realidade, mas tínhamos noites de quimeras no Náutico, Ideal e no restaurante Lido com Lúcio Brasileiro, Danilo Marques, Fernando Távora, Frota Neto e alguns mais. Depois, irmanado a Dorian Sampaio, ressuscita o Anuário do Ceará, dando-lhe nova feição e perspectiva exitosa. Aí a história muda e entra a cidade do Rio de Janeiro em sua vida, apenas um hiato, em que passa a ser jornalista maior. Mas, seria longe, além da costa, aonde resplandeceria o fulgor de seu talento. Brasília era a menina do cerrado e ele, Costa, curioso, atento e desbravador, queria conhecer seus meandros, participar das conversas que se transformavam em ações, leis, acompanhar o seu crescimento e criar seus filhos candangos, frutos da benfazeja união com Verônica. E o restante, quem quiser saber, compareça ao lançamento da biografia do Lustosa quando setembro chegar. Cuidem de reservar lugares, pois o Clube do Bode ocupará quase uma centena de cadeiras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/06/2008.

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CULTURA E PENÚRIA – Diário do Nordeste

A maioria das pessoas não tem ciência da situação de penúria das entidades – privadas, especialmente – que cuidam da difusão da cultura no Brasil. Exceção é feita à Academia Brasileira de Letras – com renda imobiliária própria – e algumas poucas. As demais, representando mais de 95% da ação cultural brasileira, não possuem sequer sede, equipamentos e orçamento, vivendo das minguadas mensalidades de seus consócios que, muitas vezes, premidos por outros compromissos, deixam de pagá-las. As leis de incentivos à cultura, sejam municipais, estaduais ou federais, precisam de mudanças que lhes deem agilidade e capacidade de resolver essa situação que se agrava a cada dia. A figura do Mecenas, aquele que disponibiliza valores para auxiliar a cultura em suas várias formas, está cada vez mais difícil. Tentando procurar soluções, foi realizado na semana passada, em São Paulo, encontro com foco nas “Perspectivas do Investimento em Cultura”. Esse encontro aconteceu na Pinacoteca de SP, a mesma que teve agora quadros roubados por conta de ineficaz estrutura de vigilância. Do discutido ficou o consenso de que a Lei Rouanet, que destina recursos mediante projetos, precisa de reparos, pois não há gerenciamento eficaz dos processos apresentados e tampouco critérios na escolha e ação dos “pareceristas”, os que analisam os pleitos em nome do Ministério da Cultura. Duras críticas foram feitas à gestão da cultura nacional. Foi sugerida a criação de um Fundo Nacional de Cultura, o que seria ideal para todos, mas cultura não dá voto. De tudo o que lá foi exposto, sem reservas, ficou claro que essas entidades, sejam academias, institutos, produtoras de cinema, museus, teatros ou outras organizações sociais, precisam parar um pouco e pensar em ter gestões eficazes e outras soluções, não apenas as que passam por contribuições de doadores que, em contrapartida, recebem títulos disso e daquilo. Não há desdouro em revelar problemas, erros e improvisações. O mundo real perpassa o universo da cultura, pede atitudes, ações e soluções que não cabem em filmes, peças, pinturas, esculturas, ensaios, versos e nem na boa prosa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2008.

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ESTORINHA DA INVEJA – Jornal O Estado

Começo de uma estorinha do faz de conta: Um dia, alguém com os óculos na ponta do nariz, depois do cafezinho e com um olho na TV, abre o jornal e começa a folheá-lo. Vê jornal com fotos, escritos e notícias destacadas com nomes de pessoas, algumas conhecidas, especialmente uma. Essa sim, conhece bem. Gosta de promoção pessoal, propaganda disfarçada e faz mal feita. Só pode ser matéria paga, pensa. Assim, até eu, que não iria querer aparecer à custa de pagamento, só por pura vaidade. Não acredita em notícias boas, só notícia ruim é que vale: falência, separação, desastre, assalto, sequestro, doença e morte. O restante é arrumação. Quaisquer que sejam elas. E vai em frente na maledicência: Essa pessoa não é nada disso. Ela foi de minha turma por muito tempo e não tinha nada de especial. Houve um tempo, se lembro bem, ela quase arrebenta. Não sei se foi isso, mas é como se fosse e fica sendo. Ora já se viu, só pode ter alguma coisa por trás disso. Não adianta querer enganar, sempre tem alguma coisa de errado no reino dos escritos e das notícias. Meio descrente olha, mais uma vez, o nome da pessoa. Torce para que não seja ela, mas é. Também, só pensa em aparecer e se promover, sem ajudar a ninguém. Deixa pra lá, tenho mais o que fazer do que perder tempo com vaidades alheias. Eu, sim, é que merecia reconhecimento por tudo o que lutei na vida, assumindo responsabilidades e dando conta do recado. Mas, não ando me mostrando, bancando importante, dizendo que fiz isso ou aquilo. Prefiro ficar em meu canto, com a minha consciência tranquila, tomando as minhas biritas, pois não tenho inveja de ninguém, graças a Deus. Tive oportunidade de ganhar fácil, mas ninguém pega na minha munheca. Fim da estorinha.
Essa historinha, fictícia, uma parábola, mostra, quem sabe, a reação de muitos diante do que vê ou lê, especialmente sobre outras pessoas a quem não conhecem bem e delas falam mal. Ela está muito mais relacionada com a estória pessoal de quem vê e lê, com sua vida interior e frustrações, do que realmente sabe e pensa sobre os outros ou o que está escrito nos jornais ou suplementos. Os olhos dessas pessoas, muitas vezes, acompanham ressentimentos e não se despegam de mágoas, decodificações, idiossincrasias, desvios e queixumes. Aliás, a questão não se restringe a quem se olha ou o que se olha, e sim o que se fica a ruminar de inveja sobre o que se vê. A inveja é não querer que o outro tenha ou seja, mesmo sem saber de verdade quem o outro é, sente ou vive.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/06/2008.

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A BOSSA DO JOÃO – Diário do Nordeste

Imagine uma pequena cidade baiana na margem direita do Rio São Francisco no ano de 1931. Tinha curso o governo provisório de Vargas e Juazeiro, isolada, energia precária, olhava para Petrolina, Pernambuco, na outra margem do rio. Ainda não havia sido feita a ponte que as ligaria, no Governo Dutra. Ali, em 10 de junho de 1931, nos braços de uma parteira, nasceu João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, menino comum. Aos 14 anos ganha um violão e a vida muda. A cidade fica pequena e se larga aos 18 para Salvador onde conhece Dorival Caymmi. Agitado, dali vai para o Rio, participa da banda ‘Garotos da Lua’, é excluído por desobediência e por não gostar dos ritmos tocados. Conhece, anos depois, Tom Jobim, pianista clássico que tem profunda admiração pelo Jazz e a história de sua vida vira para sempre. Surge, ali entre Copacabana e Ipanema, o seu primeiro disco, ‘Chega de Saudade’, fins dos anos 50. O restante todos conhecem, pois João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlinhos Lyra e alguns mais modificaram a forma de tocar o samba, tornando-o uma mistura de ritmo sincopado da percussão mais simplificada e, paradoxalmente, mais sofisticada. Desde então, João Gilberto é o monstro sagrado da Bossa Nova e suas excentricidades o fazem desejado pelo público que aceita as suas exigências nos poucos shows que dá no Brasil e mundo. Assim, aproveitando o ano em que a Bossa Nova completa 50 anos e o mês em que ele faz 77, deu um show agora na principal sala do Carnegie Hall, em New York, reclamando do ar condicionado – tosse várias vezes – e da posição do microfone. Canta 22 músicas, começando com Doralice, passa por Chega de Saudade, Corcovado, Morena Boca de Ouro, Preconceito, O Pato, Caminhos Cruzados, Wave, Rosa Morena, Este seu olhar, Samba do Avião, Lígia, Desafinado. Ao final, homenageia os gringos com a versão de Braguinha da música de Irving Berlin, ‘God Bless América’ e fecha com Garota de Ipanema. É aplaudido de pé pelas duas mil pessoas que lotavam a sala. Para Sérgio Dávila, da Folha-SP: “João Gilberto desafiou o tempo e o vento em sua primeira apresentação no ano em que a Bossa Nova completa 50 anos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/06/2008.

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AMOR FALADO – Jornal O Estado

Não gosto de amor cantado aos ventos ou mirado pelos próximos. Próximos, mas não tanto que possam saber ou sentir a intensidade – ou não – dos que procuram amar ou têm o desejo de, juntos, acertar o passo da afetividade sem interferências, palpites ou fofocas. Contardo Calligaris, cidadão do mundo, psicanalista, escritor e maduro, refere que as declarações de amor são “constatativas” ou “performativas”. As constatativas seriam, como se diz hoje, tipo assim: “digo que amo porque constato que amo”. As performativas seriam quando “acabo amando à força de dizer que amo”. É o eco do que digo fazendo morada por repetição. Contardo não fica no muro, prefere o amor que não fala e não aceita o que chama de “verborragia amorosa”, a esquecer conflitos e nuances da vida real em que somos múltiplos. Trabalhamos, temos descendentes, amigos e uma teia de relações que nos envolvem e essa singularidade, no geral, não é conhecida na essência pelos outros e somos vistos como uma ‘persona’ que não somos. Assim, também faço fé no amor silencioso ou sem palavras, porém com atitudes, gestos, linguagem de corpo e sentimento. Tem mais consistência e faz mais sentido que o amor-show, mãos dadas em público, aparições performáticas ou aquele baseado no olhar do outro sobre o que na verdade não somos. Nós, primeira pessoa do plural, pode ser apenas o eu e o tu, mas pode ser também o eu, o tu e muitos outros. Deste modo, para acertar o passo afetivo é preciso apenas duas pessoas, o eu e o tu ou você. Os demais são coadjuvantes e acessórios, inclusive ascendentes, descendentes e amigos. Daí, sempre é bom ouvir o que autores consagrados disseram sobre o amor. Não importa que tenham ou não sido bons amantes. Procuraram entender esta pequena palavra – em todas as línguas – de tantos significados. Balzac dizia que “o amor não passa de uma fome, de uma sede, embelezada por nossa imaginação”. Wertheimer contava que “o amor, para durar, exige incertezas”. Shakespeare era duro: “o amor é um desperdício de alma num deserto de vergonha” e Cervantes revelava: “muito te ama quem te faz chorar”. Eu, (des)aprendiz de amor, digo que palavras têm pouco peso. Ações, gestos, os olhos, o cuidado, a consequência dos atos, venturas a dois e a aceitação das falhas mútuas, são os insumos básicos do amor.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/07/2008.

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VIOLÊNCIA E SEGURANÇA – Diário do Nordeste

Estamos estarrecidos com a incapacidade dos órgãos policiais de coibir ações e atentados à segurança das pessoas. Assistimos acuados e impotentes a crimes cada vez mais ousados. As cidades brasileiras estão loteadas pela marginalidade. E é pena se misturar marginalidade com pobreza. A pobreza é uma situação de risco, que não leva, necessariamente, à marginalidade. O próprio Presidente da República é exemplo disso. Filho de retirante, mãe abandonada pelo marido, muitos irmãos e deu certo. Trabalhou, tornou-se sindicalista e é hoje quem é. Assim, não há como aceitar ou atenuar ações de marginais que se dizem pobres e se arvoram em “donos” de áreas físicas das cidades, fecham o comércio, roubam, matam, vendem drogas, sequestram e até são conhecidos da polícia. São conhecidos, sim. “Esse é o território do fulano”, “aquele é de sicrano” e por aí vai. Algumas televisões, concessionárias do poder público, têm programação de baixo nível, entrevistando delinquentes, ouvindo pais descontrolados pela morte de filhos e ninguém toma providência. “Não é comigo”, dizem uns. “Acho é pouco, dizem outros.” Enquanto isso, pessoas e famílias são submetidas a constrangimentos, humilhações e extorsões por assaltos em prédios, em engarrafamentos por “flanelinhas”, roubos de veículos e sequestros. Os bandidos são articulados e citados por policiais que não os prendem. Até quando se vai conviver com a insegurança a amedrontar e maltratar a coletividade? O país cresce, há empregos. Indústria, comércio, serviços e a construção civil voltam a ocupar mão-de-obra com pouca ou nenhuma escolaridade. Organizações sociais, entidades e empresas trabalham, de verdade, em projetos de inclusão social, mas, paralelo a isso, a marginalidade sobe e a polícia não dá cabo dos delitos. Ninguém sabe o que se gasta no Brasil com segurança privada. Estimam em 10 bilhões R$/ano. Esses fatos mostram que a segurança pública deve ser prioridade, além da verborréia. Na prática e de fato. E, mais que toque de sirenes, é preciso que a polícia se ajuste ao novo modelo da sociedade brasileira que, de forma pacífica, paga tributos de primeiro mundo e recebe tratamento de terceiro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2008.

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NÓS E AS ELEIÇOES – Diário do Nordeste

Imagino que você tem mais de 16 anos. Se é esse o caso, tem um compromisso no dia 5 de outubro. Escolherá – entre muitos candidatos – dois nomes: um para prefeito, outro para vereador. Imagino ainda que não seja filiado a nenhum partido e que não acredite em político. Vota porque é obrigado, mas não está nem aí. Se é esse o seu perfil, reflita. Sabe o que é um prefeito? O que faz um vereador? Se não, procure saber. Mas não será nos programas políticos, no rádio e TV, que terão início em 19 de agosto, o local ideal para aprender. Tente formar um grupo. Seja de família, trabalho, amigos, igreja ou clube. Consiga material para ler. Procure em bibliotecas, fóruns, Tribunal Regional Eleitoral, escolas, universidades, igrejas e sindicatos. Descubra, primeiramente, que o (a) prefeito (a) é uma pessoa como você, pois escolhida com o seu voto e, sem ele, não seria eleita. O (a) prefeito (a) é um servidor público com tarefas e metas a cumprir em quatro anos. Você é que o (a) fará importante, se o desejar. E essa importância é estabelecida por leis que definem suas ações como gestor da cidade onde você vive, anda, como estão as ruas, praças, parques e jardins e o atendimento médico nos postos de saúde e hospitais. O prefeito tem outras responsabilidades. Por exemplo, é de sua competência propor e gerir orçamentos, definir prioridade de obras, realizar licitações e concursos e representar a cidade com honestidade, equilíbrio, capacidade e descortino. Enfim, é como se fosse o gerente de uma empresa pública cujos donos somos nós, eleitores. Mas, ele (a) também é político (a), precisa conviver com a Câmara de Vereadores e ter maioria para aprovar projetos. Aí é aonde atua o vereador, uma espécie de deputado municipal, que tem por objetivo principal formular leis e fiscalizar as ações da cidade. Infelizmente há vereadores que passam os 04 anos dando títulos e propondo votos de louvor ou pesar a pessoas e nada fazem de concreto. Comece a pensar um pouco em sua cidade, saber quem são os candidatos, suas histórias pessoais e políticas, onde vivem, o que prometem e se cumprem. Não adianta reclamar depois. A hora é agora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/07/2008.