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AMOR FALADO – Jornal O Estado

Não gosto de amor cantado aos ventos ou mirado pelos próximos. Próximos, mas não tanto que possam saber ou sentir a intensidade – ou não – dos que procuram amar ou têm o desejo de, juntos, acertar o passo da afetividade sem interferências, palpites ou fofocas. Contardo Calligaris, cidadão do mundo, psicanalista, escritor e maduro, refere que as declarações de amor são “constatativas” ou “performativas”. As constatativas seriam, como se diz hoje, tipo assim: “digo que amo porque constato que amo”. As performativas seriam quando “acabo amando à força de dizer que amo”. É o eco do que digo fazendo morada por repetição. Contardo não fica no muro, prefere o amor que não fala e não aceita o que chama de “verborragia amorosa”, a esquecer conflitos e nuances da vida real em que somos múltiplos. Trabalhamos, temos descendentes, amigos e uma teia de relações que nos envolvem e essa singularidade, no geral, não é conhecida na essência pelos outros e somos vistos como uma ‘persona’ que não somos. Assim, também faço fé no amor silencioso ou sem palavras, porém com atitudes, gestos, linguagem de corpo e sentimento. Tem mais consistência e faz mais sentido que o amor-show, mãos dadas em público, aparições performáticas ou aquele baseado no olhar do outro sobre o que na verdade não somos. Nós, primeira pessoa do plural, pode ser apenas o eu e o tu, mas pode ser também o eu, o tu e muitos outros. Deste modo, para acertar o passo afetivo é preciso apenas duas pessoas, o eu e o tu ou você. Os demais são coadjuvantes e acessórios, inclusive ascendentes, descendentes e amigos. Daí, sempre é bom ouvir o que autores consagrados disseram sobre o amor. Não importa que tenham ou não sido bons amantes. Procuraram entender esta pequena palavra – em todas as línguas – de tantos significados. Balzac dizia que “o amor não passa de uma fome, de uma sede, embelezada por nossa imaginação”. Wertheimer contava que “o amor, para durar, exige incertezas”. Shakespeare era duro: “o amor é um desperdício de alma num deserto de vergonha” e Cervantes revelava: “muito te ama quem te faz chorar”. Eu, (des)aprendiz de amor, digo que palavras têm pouco peso. Ações, gestos, os olhos, o cuidado, a consequência dos atos, venturas a dois e a aceitação das falhas mútuas, são os insumos básicos do amor.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/07/2008.

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VIOLÊNCIA E SEGURANÇA – Diário do Nordeste

Estamos estarrecidos com a incapacidade dos órgãos policiais de coibir ações e atentados à segurança das pessoas. Assistimos acuados e impotentes a crimes cada vez mais ousados. As cidades brasileiras estão loteadas pela marginalidade. E é pena se misturar marginalidade com pobreza. A pobreza é uma situação de risco, que não leva, necessariamente, à marginalidade. O próprio Presidente da República é exemplo disso. Filho de retirante, mãe abandonada pelo marido, muitos irmãos e deu certo. Trabalhou, tornou-se sindicalista e é hoje quem é. Assim, não há como aceitar ou atenuar ações de marginais que se dizem pobres e se arvoram em “donos” de áreas físicas das cidades, fecham o comércio, roubam, matam, vendem drogas, sequestram e até são conhecidos da polícia. São conhecidos, sim. “Esse é o território do fulano”, “aquele é de sicrano” e por aí vai. Algumas televisões, concessionárias do poder público, têm programação de baixo nível, entrevistando delinquentes, ouvindo pais descontrolados pela morte de filhos e ninguém toma providência. “Não é comigo”, dizem uns. “Acho é pouco, dizem outros.” Enquanto isso, pessoas e famílias são submetidas a constrangimentos, humilhações e extorsões por assaltos em prédios, em engarrafamentos por “flanelinhas”, roubos de veículos e sequestros. Os bandidos são articulados e citados por policiais que não os prendem. Até quando se vai conviver com a insegurança a amedrontar e maltratar a coletividade? O país cresce, há empregos. Indústria, comércio, serviços e a construção civil voltam a ocupar mão-de-obra com pouca ou nenhuma escolaridade. Organizações sociais, entidades e empresas trabalham, de verdade, em projetos de inclusão social, mas, paralelo a isso, a marginalidade sobe e a polícia não dá cabo dos delitos. Ninguém sabe o que se gasta no Brasil com segurança privada. Estimam em 10 bilhões R$/ano. Esses fatos mostram que a segurança pública deve ser prioridade, além da verborréia. Na prática e de fato. E, mais que toque de sirenes, é preciso que a polícia se ajuste ao novo modelo da sociedade brasileira que, de forma pacífica, paga tributos de primeiro mundo e recebe tratamento de terceiro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2008.

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NÓS E AS ELEIÇOES – Diário do Nordeste

Imagino que você tem mais de 16 anos. Se é esse o caso, tem um compromisso no dia 5 de outubro. Escolherá – entre muitos candidatos – dois nomes: um para prefeito, outro para vereador. Imagino ainda que não seja filiado a nenhum partido e que não acredite em político. Vota porque é obrigado, mas não está nem aí. Se é esse o seu perfil, reflita. Sabe o que é um prefeito? O que faz um vereador? Se não, procure saber. Mas não será nos programas políticos, no rádio e TV, que terão início em 19 de agosto, o local ideal para aprender. Tente formar um grupo. Seja de família, trabalho, amigos, igreja ou clube. Consiga material para ler. Procure em bibliotecas, fóruns, Tribunal Regional Eleitoral, escolas, universidades, igrejas e sindicatos. Descubra, primeiramente, que o (a) prefeito (a) é uma pessoa como você, pois escolhida com o seu voto e, sem ele, não seria eleita. O (a) prefeito (a) é um servidor público com tarefas e metas a cumprir em quatro anos. Você é que o (a) fará importante, se o desejar. E essa importância é estabelecida por leis que definem suas ações como gestor da cidade onde você vive, anda, como estão as ruas, praças, parques e jardins e o atendimento médico nos postos de saúde e hospitais. O prefeito tem outras responsabilidades. Por exemplo, é de sua competência propor e gerir orçamentos, definir prioridade de obras, realizar licitações e concursos e representar a cidade com honestidade, equilíbrio, capacidade e descortino. Enfim, é como se fosse o gerente de uma empresa pública cujos donos somos nós, eleitores. Mas, ele (a) também é político (a), precisa conviver com a Câmara de Vereadores e ter maioria para aprovar projetos. Aí é aonde atua o vereador, uma espécie de deputado municipal, que tem por objetivo principal formular leis e fiscalizar as ações da cidade. Infelizmente há vereadores que passam os 04 anos dando títulos e propondo votos de louvor ou pesar a pessoas e nada fazem de concreto. Comece a pensar um pouco em sua cidade, saber quem são os candidatos, suas histórias pessoais e políticas, onde vivem, o que prometem e se cumprem. Não adianta reclamar depois. A hora é agora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/07/2008.

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NÓS E A INTERNET – Jornal O Estado

Aprendi a mexer em computador meio sem jeito. Fiz um curso há muito tempo na IBM. Era em uma sala gelada e o computador, imenso. O formal professor usava o inglês-ferramenta e a linguagem era Cobol. Sai mais tonto que entrei, porém ficou alguma coisa. Comprei um micro – que ainda era grande – e fui mexendo aqui e ali, mais errando que acertando. O tempo passou, vieram novos computadores e as limitações diminuiram. Hoje sou ainda um mero usuário, sem método e sem fundamentação teórica (agora, tudo tem que se basear “em fundamentos”, o que também não sei bem o que significa). Como não tenho outro jeito, vou fazendo, errando e tentando aprender. Tenho até uma assistente de sobreaviso, rápida e preparada, a quebrar os meus galhos – e de amigos – quando o computador para e parece dizer que não sou inteligente. Ligo, ela vem e resolve, na maioria das vezes. E ainda diz: só isso? Pois bem, de tanto mexer, pesquisar, catar ensaios, livros e que tais, convivo com a Internet e o Google, o “buscador” que responde tudo ou quase tudo, mas dá também informações furadas. Se não sei, por exemplo, sobre Chopin, escrevo a palavra e mando procurar. É aí surge o problema: tudo o que é Chopin aparece. Assim é preciso refinar a pesquisa, dizer qual Chopin e eu escrevo Frederic – sem acentos – Chopin, pois ele não trabalha com acentos nas palavras. Brevemente, sim. Enquanto isso, não coloco til, cedilha, circunflexo ou qualquer tipo de acento. O que estou dizendo é o básico, óbvio. Voltando à pesquisa: procuro o que desejo de Frédéric Chopin, o compositor polonês, amigo do pintor Delacroix e de Liszt. Leio e seleciono o que interessa. Assim, não pensem que sei muita coisa. Pesquiso e, às vezes, encontro. Também ocorre de procurar um fato e descobrir outro ou me perder no imenso labirinto. Há, pasmem, bilhões de páginas na Internet. Mas, o que eu queria mesmo dizer é que no próprio Google descobre-se o “google earth”. Earth é terra, em inglês. O “google earth” é um programa que se serve de satélites com recursos para mostrar fotos aéreas de tudo no planeta Terra. É verdade. Tentei e apareceu a cidade onde moro, vista de cima. Tem uma mãozinha que você vai comandando com o “mouse”, e ela lhe leva para onde você quer. Pois não é que vi onde trabalho e moro e até os calçadões das praias. A propósito, li há algum tempo, que as tecnologias para exploração das profundezas da internet são consideradas questões e ferramentas de Estado. Paranoia ou medo? Valha-nos Deus.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/07/2008.

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05 DE NOVEMBRO – Diário do Nordeste

Voltei. Passei oito anos relutando em ver “in loco”. Todos lembram daquela manhã de terça, 11 de setembro. Vimos tudo pela TV, até a exaustão. Atônito, minha reação imediata foi escrever onze contos e enfeixá-los em livro. Nesse livro (Sobre a Gênese e o Caos), tento explicar, na gênese, as razões motivadoras do atentado, as lições não aprendidas e até ouso escrever uma carta para Bush e Bin Laden. Na segunda parte, ficção absoluta, falo do drama pessoal de uma cleptomaníaca; do menino afegão treinado para o terrorismo; de um casal que se separa enquanto tudo explode; de um velho e cansado vigilante; do amor carnal entre zeladora e segurança; de sessão espírita; do primeiro dia de trabalho de um jovem executivo negro; do voo de um Boeing 767; dos sonhos da viúva de um bombeiro morto; do imigrante judeu e sua família; e dos terroristas em ação. Em minha imaginação, tudo parecia um filme e criei os detalhes de cada conto. Faltou, quem sabe, Spielberg ou um Fernando Meireles para a direção. O fato é: voltei lá na quinta-feira, 05, deste novembro. O “Ground Zero” estava cercado por tapumes. Era hora do almoço, os trabalhadores saíam com suas marmitas para a grade acolhedora do jardim fronteiriço da capela de St. Paul, ilesa no ataque. Aproveitei, meti a cabeça, e vi o grande vazio em que as duas gêmeas se transformaram. Ao fundo, a construção do memorial Torre da Liberdade e gruas espanando os céus. Naquele mesmo dia 05 e hora, em Fort Hood, Texas, eclodia atentado dentro de base militar. 13 pessoas morreram e outras ficaram feridas. Soube logo depois, também pela TV. Não havia como não ligar os dois fatos, especialmente se um dos suspeitos, embora major do exército americano, é de fé muçulmana. No dia seguinte, apanhei um táxi com motorista etíope. Conversamos sobre o ocorrido e perguntei sua opinião. Ele disse que não entendia a razão, pois tinha sido bem acolhido no seu novo país. O tratavam como igual e aquilo poderia ser um novo caos. Relembrei dos contos publicados e o que narro a vocês agora ainda me causa estranheza pela incapacidade coletiva de se descobrir o caminho da convivência humana sem guerra.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/11/2009.

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JOÃO SANTOS E DIX-HUIT – Jornal O Estado

Já confessei ser leitor compulsivo. Caiu-me ontem às mãos um folheto de uma fábrica de cimento. Depois de lê-lo, parei e fiquei pensando em um dia no princípio dos anos setenta. Começara a vida real, a da luta pela sobrevivência, e estava em Mossoró, Rio Grande do Norte, dirigindo uma equipe e elaborando o Plano Diretor da cidade. Havia ganhado o serviço em concorrência do Ministério do Interior e o trabalho era árduo. Um dia, detalhando para o prefeito Dix-Huit Rosado, uma mudança urbana necessária, ele levou a mão a cabeça, como se lembrasse de algo, e disse “vamos ao aeroporto que já estou atrasado”. Lá, um pequeno avião taxiava, e dele desceu um homem de jeito e compleição nordestina, “slacks” branco, chapéu e testa larga. Era João Santos, o dono de fábricas de cimento que chegava. De lá, fomos almoçar. Dix-Huit disse para ele que eu estava mexendo em toda a cidade. João Santos olhou para mim, perguntou quais as minhas ideias, ouviu calado. Ao fim do almoço, nos despedíamos. Ele, João, olhou para mim, chamou-me a um canto, e perguntou de chofre: quer largar isso e vir trabalhar comigo? Engoli seco e respondi que não, queria ser dono do meu tempo e do meu destino. Agora, mais de trinta anos passados, lendo o tal folheto das primeiras linhas referidas, revejo que aquele homem simples, já falecido, construtor um império a partir do nada. Era um menino do interior de Pernambuco, igual a tantos outros. Mas havia nele o germe da esperança, da inquietação e, formado cedo em economia, meteu-se pelo mundo afora, lutando como sabem fazer os obstinados. Aportando na Bahia e, pouco a pouco, disseminando força por todo o Nordeste, em múltiplos e vitoriosos empreendimentos, inclusive comunicação. E veio, como já disse, a imagem nítida desses momentos importantes para mim, um jovem fincando base para o futuro em meio ao calor abrasador da terra dos Rosados. E lembrei também de Dix-Huit, um desengonçado, culto e doce grandalhão, político de têmpera que, logo depois, seria preterido para o governo do Rio do Grande do Norte, apenas por ter, como Senador que fora acompanhado à China a comitiva do então vice-presidente João Goulart. No dia seguinte à derrota, me desloquei à sua fazenda, e lá encontro o futuro ex-governador sozinho, de botas, chapelão. Pegou a sua velha pickup Toyota e saiu conversando comigo, como se nada tivesse acontecido e a mostrar as plantações e irrigações que fazia.
(dedicado a todos os que subiram a escada da vida por seus próprios pés)

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/11/2009.

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VIDA E MORTE – Diário do Nordeste

Um rio separa a morte da vida. Estão ligadas por pontes. Do lado da vida estão majestosos edifícios, em rigorosa linha imaginária, tendo como referência de vitória um obelisco granítico. Acreditam os habitantes transitórios dessa linha da vida estar defendendo princípios, definindo missões, estabelecendo padrões de valores, mas convivem, a um relance da vista, com a morte. Dizia o poeta cego John Milton, em certa parte do “Paraíso Perdido”, o maior poema épico da língua inglesa: “Ele jaz estendido então na terra/ na terra fria: ali entre ais amiúde/a sua criação amaldiçoa/e amiúde a morte de tardia acusa/porque não vinha já, sendo presente/para o dia da ofensa perpretada.” O rio Potomac corre lento em margens amareladas pelas folhas do outono deste novembro de 2009. Por escolha, fiquei na mesma avenida em que mora, por tempo definido, o afrodescendente que prometeu esperança e o bordão “sim, nós podemos.” Nestes poucos dias em que estive por lá, revi o visto antes, especialmente a colina dos mortos, abrigando os que, enviados por decisões germinadas no grande “mall” atravessaram mares e espaços e morreram lutando pelo que bem não sabiam. Estão lá na terra fria, cobertos por relva, lápides e o respeito mudo de quem os visita por laços de família, comiseração ou curiosidade. E vi, no destaque, as poucas pedras marmóreas horizontais sobre o chão, alumiados por uma pira, juntando sobrenomes irlandês e francês, em uma união desfeita pela morte noutro novembro, em 1963. E lá, insolentemente como um aposto, há o sobrenome grego de um Aristóteles, não o sábio, mas o mercador. E neste novembro, uma noite mais fria se fez, enquanto se decidia sobre a saúde pública albergar os pobres e seus descendentes, os vindos de outras pátrias, em busca do milagre. E fiquei, por horas, acompanhando a votação ganha por cinco votos pelo quarentão nascido no Havaí, de pai queniano. E, no dia seguinte, o sol de fez claro, como se seus raios e halos cobrissem de energia os que não haviam perdido a esperança na terra onde limusines brilhantes e tão antiquadas quanto um réptil são símbolos da desigualdade e da injustiça entre os homens.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/11/2009

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ALMOÇO, DE PASSAGEM – Jornal O Estado

Aconteceu longe daqui. Na terra do nunca. Ou na terra da incomunicabilidade. Foi assim: era um almoço de confraternização ou não era? Frater é irmão e isso já havia sido dito até altas horas entre todas. Vamos dizer que sim, era uma confraternização. Lato senso, todos são irmãos. Estavam ali com toda a tropa, casais, filhos, empregadas e até uma solitária cadela branca. Foram para ver um senhor, não o Deus, mas o que as havia ajudado a gerar com a energia do seu corpo. Fora há tempos, lustros atrás e tudo havia sido desfeito. Até a casa virará pó. Sobraram cobres, distribuídos, mas isso é outra história. Chegaram uns, outros vieram depois com sentimento de preguiça, e o senhor, como se tivesse fazendo uma paródia de si mesmo, veio conduzindo o peso de maletas portáteis, com rodízios, portando, cada uma, em seu exterior a foto e o nome do Superman. Era o que ele não era, pois se o fosse, ali não estaria mais, tantas as vezes que havia cedido por ausências, gestos, críticas e dores que só lhe diziam respeito. Mas, invocando, quem sabe, o amor definitivo e a força dos super-homens que conduzia com carinho, trouxera cartões individuais e afetivos para cada um dos vários pares que a vida unira. E juntou quinquilharias nessas bolsas de super-homem, somou atenções, brincadeiras e um pouco da veia espirituosa, como a dizer que não havia mudado. Era e seria o de sempre. Elas, sim, haviam mudado. Até o olhar. Ele juntara tudo, sem saber fazer as escolhas certas, pois todas eram refinadas e ele um senhor atrapalhado. Até repetira presentes anteriores e não obedecera a recomendações de só trazer o que fosse certificado pelo Inmetro, o órgão do governo que dá muito emprego e faz de conta que verifica pesos, medidas e qualidade. E ele estava ali e ouvia, de passagem, que uma delas iria se mudar para um pouco mais longe dali e não tão cerca do mar onde hoje habitava, mas para um condomínio novo, sofisticado, com áreas onde as crianças brincariam com seus iguais. E até foi sugerido, levemente, que outra também lhe fizesse companhia, cedendo o seu apartamento para a última, a que casaria em breve, andaria dez passos até o altar e precisava de cerimonialista competente para dizer a todos como andar dez passos sem errar. E estavam ali de passagem, pois a maioria subiria, em seguida, às montanhas, pois havia cansaço muito a ser refeito na mansão construída com o denodo e a qualidade de tudo o que a progenitora fazia. E cujo endereço, diga-se, o senhor não conhecia. E choveu.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/11/2009.

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FÓRUM DE LÍDERES – Diário do Nordeste

Sexta e sábado passados no WTC, em São Paulo, reuniu-se, em 32ª. edição, o Fórum de Líderes Empresariais. Trata-se de entidade nacional sem fins lucrativos com clara definição de propósitos, dirigida por Osires Silva, cidadão exemplar, ex-ministro e fundador da Embraer. O presidente do Conselho é Luiz Fernando Levy, antigo controlador da Gazeta Mercantil. Esse Fórum elege de forma idônea, anualmente, empresários de todos os estados. A edição deste ano durou dois dias. Começou com palestra do presidente do Banco Central, Henrique Meireles, sobre a situação do Brasil na retomada de crescimento mundial em 2010 e a preocupação da “administração do custo do sucesso”. Merece relevo a preocupação do Fórum com o desenvolvimento sustentável do país, que deixa a desejar. Governo e empresários foram alertados do perigo de suas possíveis ações predatórias e da urgência de revisão de conceitos e objetivos de todos. Exemplo: os filmes catastróficos “O Dia em que a Terra parou”, já antigo; e “2012”, em exibição, antes de serem apelos comerciais como ‘blockbusters’, independente qualidade de suas direções e argumento, mas os focos no desastre ecológico, seriam, quiçá, alertas piegas do nosso planeta contra a ausência da preocupação dos que o habitam: uso abusivo da água, descaso com a limpeza das cidades pelos habitantes, a ocupação predatória de áreas ribeirinhas e a destruição de florestas. Sabe-se, entretanto, que 50% das moradas não têm esgotos sanitários. Falta conscientização de entidades, empresas e governos que falam, mas não praticam a sustentabilidade. Agora, neste Fórum, o Ceará está representado por nomes de liderança estadual, todos sem vínculos maiores com entidades patronais, premiados que foram, neste novembro 2009, através de Yolanda Queiroz, Ivens Dias Branco, Deusmar Queirós, José Carlos Pontes, Beto Studart e um mais. Criou-se ainda, nessa reunião, um grupo chamado de G-27, que terá um representante de cada estado brasileiro, para agir ativamente em decisões estratégicas nacionais. País desenvolvido é integrado, tem escassos desníveis internos e elege prioridades sociais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/12/2009.

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COPENHAGUE –COP-15 – Jornal O Estado

O que me chamou a atenção em Copenhague foram duas coisas distintas. Uma: 38% da população da cidade usa bicicleta como transporte. E o clima é frio, até na primavera. Há muitas e bem cuidadas ciclovias com raros cruzamentos. A outra: local de resistência à modernidade, a Christiania, comunidade baseada na filosofia hippie de “paz e amor”, instalada nos anos setenta em base militar abandonada. Hoje, definha, acreditando ainda que tendas de artesanato, cds alternativos, pinturas e músicas de artistas emergentes e, naturalmente, o consumo e venda de drogas proibidas, são meios naturais de vida para os que não aceitam a competição desenfreada como “leit-motif”. Nessa cidade, neste invernoso início de dezembro, estão reunidas milhares de pessoas, oficial ou voluntariamentepara a COP-15. Vão de governos às organizações sociais, de grupos multinacionais às instituições multilaterais, de seguranças aos ativistas. Só do Brasil estão, em Copenhague, cerca de mil pessoas. A maioria representa interesses públicos e privados na discussão sobre a possibilidade de redução dos gases-estufa no clima. Esse mal que, se não cuidado com tecnologia e dinheiro, continuará causando inundações como as do sul do país, as desta semana em São Paulo e os tsunamis, todos de triste memória. A estratégia da reunião oficial é dividida em três partes. Discussão com delegados dos países, análise preparatória por ministros e, ao final, o acerto ou desacerto ético-crono-financeiro com a criação -ou não- de Fundo Global pelos chefes de Estado. Há gente preocupada com os interesses que poderão colocar a perder essa oportunidade para a mudança: de hábitos individuais predatórios, de empresas poluidoras de cursos d’água, dizimadoras de florestas, produtoras de C02 e de cidades adensadas sem infraestrutura. Tudo, claro, a partir de governos que descumprem leis, não propiciam saneamento básico, moradas, empregos e aceitam os desmatamentos. Isso dá à crosta terrestre, que abriga nossos corpos, alimentos e casas, o direito de represália. O que vem da terra, a ela voltará, diz o Eclesiástico.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/12/2009.