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A VISITA – Diário do Nordeste

Trocamos telefonemas. Tensão constante. Fui apanhá-lo no outro lado da cidade. Manhã alta. Dia de semana, trânsito caótico. Cheguei. Veio de lá com seu jaleco branco bem passado, olhar turvo por trás das lentes espessas, os ralos e gris cabelos da cabeça e bigode mostravam sinais de cuidado. Sabíamos o que iríamos fazer. Falamos do acontecido e o que se poderia tentar. Ouvi dos contatos preliminares, da ambulância e da necessidade de pedir boa assistência. Conseguimos estacionar, entramos no hospital. Direto ao elevador para a UTI, onde ficam os necessitados de tratamento intensivo. Lavamos as mãos, falamos com o médico intensivista, olhamos o quadro clínico no prontuário e nos encaminhamos para o leito. De repente, o homem do jaleco já não era mais médico, o que pastorea almas desesperadas, recomenda moderação, ouve queixumes e medica. Era o filho-menino do pai inerte, mas de face serena, sua cópia em sépia. Quem ali estava deitado, cheio de tubos, cercado de máquinas, era o velho “pairmão” amado e reclamão. O coma e o respirar por instrumentos obrigava a pensar na sua vida de atleta, jogador de futebol que fora, da lida em livraria para sustentar a família e das andanças etílico-sociais nas redondezas. A realidade se confundia com o tom monocórdio dos reguladores da vida a se esvair. E tivemos, sem trocar palavras, ciência de que a Caetana rondava e cobrava os dividendos do tempo. Pouco havia a fazer. Cumpri o estabelecido e coloquei o homem de jaleco em contato com a direção que prometeu cuidados maiores. Depois, tal como subimos, baixamos à vida espremida entre buzinas, camelôs, engarrafamentos e o calor abrasador do sol zenital. E, silentes, tivemos noção do provável infortúnio. A volta foi mais lenta e o jaleco, agora amarfanhado, parecia um cobertor a agasalhar o homem-menino que saia, pouco a pouco, do transe e se reencontrava com o ceticismo natural dos seguidores de Hipócrates. Parei. Ele desceu, acendeu o cigarro, abriu o portão e, penso, foi chorar sozinho. O resto é silêncio, como queria um certo William.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/12/2009.

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O LIMITE DO BARULHO – Jornal O Estado

Domingo passado assisti ao filme americano “Passando dos limites”.(Noise). Nele, Tim Robbins protagoniza um cidadão comum, empregado, casado, uma filha, apartamento etc. Ele começa a ficar incomodado com os barulhos noturnos das sirenas dos alarmes dos milhões de carros que, por qualquer razão, são disparados. A partir daí, ele desenvolve um transtorno obsessivo compulsivo que o enfurece ao ouvir o som ensurdecedor de alarmes a qualquer hora do dia ou da noite. Passa, então, de cidadão comum, a ser uma espécie meio paranóide de vigilante desligando cabos das baterias de carros até chegar ao ápice da sua semi-destruição com os pés e marretas, invocando, para si, um “papel social”. Vai preso, reincide, passa 30 dias no xadrez e, ao sair, o casamento é desfeito. Fica, além de obsessivo, desempregado. Procura, então, formar um grande “abaixo-assinado” para coibir a instalação de alarmes em carros. Logo, consegue adeptos para ajudar a mostrar que, em Nova Iorque, ninguém se importa mais quando um alarme soa. Deixemos o filme em suspenso. No dia seguinte, segunda-feira, o professor da FGV, Bresser Pereira, escreveu na Folha de SP, o artigo “Direito ao Silêncio”. Ele reclama dos alto-falantes dos aeroportos brasileiros que incomodam mais que informam. Fala também do que tenho escrito há algum tempo: o zumbido monocórdio dos hélices das torres de energia eólica. Cita até o “Le Monde Magazine”, de 28 de novembro passado, como fonte de clamor de franceses contra o som forte, grave e repetido que parece estar causando insônia, náusea, irritação e até depressão aos vizinhos desses grandes geradores. São duas narrativas distintas. A primeira é ficção, baseada na zoeira de qualquer grande cidade. A segunda, real e comprovada. Não bastam as descolagens e aterragens de aviões, ainda temos que ouvir os alto-falantes dizendo o que já se vê nos monitores de televisão, isto sem falar, nas constantes mudanças de portão de embarque. Além dos alarmes disparados, dos alto-falantes dos aeroportos, há muita coisa mais a fazer barulho. Espaços públicos com cantores e pastores. Pouca gente sabendo se comportar em restaurante. Fala-se alto, gesticula-se e os vizinhos, desconcertados. Nas ruas, camelôs, pedintes, buzinas e caixas de sons de alguns carros ultrapassam, em muito, os limites naturais da tolerância. Falar alto em ambiente público, usar caixas de som ensurdecedoras, acelerar quando o sinal abre são provas inequívocas de falta de educação. Diz o Talmud: “uma palavra vale uma moeda; o silêncio vale duas”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/12/2009

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RECEITA MÉDICA – Diário do Nordeste

Todos, crianças, adultos, maduros e idosos, precisamos de remédios. Alguns precisam de forma continuada. Outros, para debelar doenças oportunistas e afins, os tomam apenas por ouvir dizer que alguém se deu bem. A verdade sobre os remédios ou drogas manipuladas por laboratórios farmacêuticos ainda está nublada. Os remédios vêm, na maioria das vezes, das plantas. Há os criados, sintetizados, extraídos de animais etc.
Recomendo a médicos, jornalistas e a todos a leitura do livro “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”, escrito por Marcia Angell, com a autoridade crítica de médica e ex-editora-chefe do “New England Journal of Medicine”. Traduzido para o português pela Editora Record, esclarece dúvidas e pretende deitar luz sobre como os grandes laboratórios engajam médicos e escolas de medicina imaginando estar participando de pesquisas para o bem da humanidade. Segundo ela, um mito que cai por terra é o dos elevados custos das pesquisas. Ela revela que a maioria das pesquisas tem origem em universidades ou institutos governamentais e são apropriados pelos laboratórios farmacêuticos. Angell fala ainda em vícios de dados para produzir resultados positivos de futuras drogas ou a mera mudança de nomes como se fossem novos produtos.
Pesquisando, li que, neste ano, um estudo do “Archives of Internal Medicine”, da American Medical Association, mostrou como agem alguns laboratórios. Lembram-se do anti-inflamatório Vioxx? Pois bem, ele deveria ter saído de circulação não em 2004, mas em dezembro de 2000, quando foram comprovados riscos do produto para doenças cardiovasculares e cerebrais. Assim, as pessoas com artrite e dores agudas, alegraram-se com a chegada do Vioxx em 1999. O que não se comenta é que esse remédio causou cerca de 139 mil eventos cardiovasculares, com até, dizem, 40% de casos fatais. Dessa forma, ao adoecer – ou cuidar de mal crônico – procure inteirar-se do seu médico sobre o bem e o mal que as drogas receitadas possam causar. O cáustico Molíére, em “O amor médico”, dizia: “Morreu de quatro médicos e dois farmacêuticos”. Errado. O médico deve e pode salvar vidas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/12/2009.

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O DONO DA FESTA – Jornal O Estado

Conta a História que, em Belém de Judá, nasceu um menino. Filho de José, um velho carpinteiro, e de Maria, uma jovem virgem. Ele, Jesus, nasceu em meio a festas pagãs do mundo hebraico. Faziam celebrações para louvar a Saturno, o deus da fartura ou da colheita, e a Mitras, o deus da luz e do sol. Esse menino era de uma pobre família nazarena e nasceu numa manjedoura ou gruta em noite alta em um 25 de dezembro. Consta que uma estrela brilhante desceu dos céus a anunciar a sua vinda. Ele foi crescendo e se descobriu diferente, pois pregava o amor, a fraternidade e a união, em meio a discórdias já existentes em seu tempo. E tornou-se homem. Saiu de Nazaré e foi trabalhar na Galileia com Zebedeu, ajudando-o a construir barcos. Depois, deu início a uma pregação nova. Seria anarquista, sábio ou patriota? O que ficou claro é que pregava o amor ao próximo, o perdão e dizia que para se viver eternamente seria preciso morrer. Falava de ressurreição e de um paraíso comandado por Deus, o senhor supremo. Condenado por blasfêmia, apedrejado e crucificado, aos 33 anos, em meio a dois ladrões comuns, sua morte foi fato restrito a uma província da Judeia, dominada então pelos romanos. Sua importância, século a século, foi aumentando por tradição oral e pelos seus seguidores, escritos dos evangelistas e pela consolidação do Cristianismo, no final dos anos 300 da nossa era. A contagem do tempo, no mundo ocidental, se faz a partir de seu nascimento, há 2009 anos, agora comemorado. A Ele e à sua Família reverenciamos neste Natal que se deseja cristão, ecumênico, amoroso e de congraçamento. Cada pessoa se dê conta de que possui alma ou espírito, aura ou juízo crítico a nos balizar frente às duras questões do dia-a-dia e do viver. Diz uma pastoral da juventude que a vinda de Cristo foi espontânea, gratuita e generosa. Ele veio sem ser pedido. Não olhava para o merecimento, mas redimia pelo amor. E não pedia nada em troca. Dessa forma, fazer o bem não seria contraprestação, mas dever de consciência e de amor ao próximo, àquele a quem devemos chamar de irmão. O Natal sempre é tempo de festas, confraternização, mas pede, igualmente, reflexão, revisão de princípios, e a tomada de consciência de que somos finitos, transitórios, embora acenados por perspectivas eternas, se justos. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/12/2009.

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QUE ANO! – Diário do Nordeste

Este é o meu 52º. escrito dominical de 2009. Como escrevo, em média, 385 palavras por texto, calculo ter digitado cerca de 20.000. Que palavras foram essas? Sei que, reunidas, tentam refletir o meu pensamento, sentimento ou o acontecido naquela semana. Pode ter sido artigo, crônica ou até arremedo de mini-ensaio. Falei de pessoas, cidades, cultura, viagens, comportamento, problemas brasileiros, fatos mundiais etc. Quem escreve deseja melhorar o texto, aprimorar linguagem, estabelecer comunicação com o conhecido e, especialmente, o desconhecido leitor. Não sei se o meu texto melhorou, tampouco quantas mil pessoas me leem. Algumas vezes, encontro pessoas fazendo referência a um texto específico e procurando aproximação para concordar ou discordar. Isso é bom. O leitor deve ter juízo crítico para analisar cada sentença e o sentido geral do texto. Leitores não devem ser seguidores, mas pensadores. Leitores são pessoas que elegem, dentro do jornal, algo para ler. Existe sempre diálogo surdo entre quem escreve e quem o lê. Quem escreve não é, necessariamente, um formador de opinião. Ele dá a sua ideia que pode ou não coincidir com a do leitor. É veleidade admitir que o que se escreve possa mudar- de cara – comportamentos, gerar atitudes ou formar conceitos. O importante é que alguém o leia e o discuta. Não existe escritor sem leitor. Óbvio. E o leitor é o elo mais importante dessa história. Sem ele não haveria ambiente para continuar a escrever. E por tal razão escrevo hoje para agradecer a você, caro leitor ou leitora, neste final de 2009. Que ano! O ano em que o Brasil mostrou cara enfezada ao mundo. O ano em que um negro assumiu o comando de um país de maioria branca e, até bem pouco, preconceituosa. O ano em que os filmes 2012 e Avatar anteveem catástrofes. O ano em que 192 países se reuniram para discutir a prevenção desses fenômenos e perderam o clima. O ano do fim da crise econômica mundial. O ano em que a China passou a ser a maior produtora de veículos. O ano em que nenhum escritor brasileiro ganhou o prêmio Nobel de Literatura. O ano Lula, personalidade do jornal “Le Monde”. Para você, feliz 2010.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/12/2009.

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VIAJAR – Jornal O Estado

Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, vez em quando, precisa de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo países ou cidades, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem, seja qual for o destino, é sempre uma porta aberta ao conhecimento. É também um tempo para nada fazer ou cuidar de nossas manias ou sonhos. O ideal é apenas viajar, observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua ou insegurança em aeroportos lotados, as conexões ou a trabalheira com malas, câmbio de moeda e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo, usando uma boa operadora de turismo. O primeiro mandamento de quem viaja é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe em falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo mandamento é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, a não ser que… Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça para lhe indicarem shows, livrarias, parques, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro mandamento é não forçar a sua natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia, mas saiba o que o satisfaz.
O quarto é ousar, é tentar descobrir, por seus próprios pés, um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, um museu com seu pintor preferido, um livraria-sebo com primeiras edições baratas ou uma loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente positiva, alegre e comunicativa. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, seja ela qual for. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último é saber como usar o seu dinheiro ou o cartão de crédito. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é opcional. Você é quem merece os melhores presentes. É claro que estes mandamentos não constituem dogmas. São recomendações e servem apenas como sugestão aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da sua porta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2008.

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VERMELHO E VERDE – Diário do Nordeste

Neste seis, domingo, dia dos Reis Magos, vá despertando para o ano real. Não vivemos tempos de reis, somos vassalos de uma máquina estatal a impor regras, cobrar impostos e a nos fazer, a cada semáforo, deparar com pedintes, flanelinhas, entregadores de propaganda, vendedores e malabaristas.
Na realidade, malabarista é quem consegue, a cada sinal, sair ileso ou imune aos gestos, acenos, apelos, batidas no vidro da janela pedindo um trocadinho ou vendendo. É claro que a maioria tem bom coração, mas as cidades estão sitiadas para quem se locomove em veículo próprio. Deduz-se que não há magos que nos façam acreditar estarmos vivendo todos uma época de bonança. A maior bonança para o ser humano é a oportunidade de trabalho, sentir-se digno e capaz de levar para si e os seus o resultado de sua faina. O dinheiro que lhe dá o sustento e respeito por si próprio. Sei que os indicadores sociais revelam melhoria na renda da população mais pobre, mas há ainda um número grande de sem-teto, desempregados e crianças abandonadas em qualquer cidade brasileira.
É claro que alguns recebem dinheiro do bolsa-família e outros programas. Mesmo assim, mendigam. Falta-lhes trabalho, um elo básico entre o homem e a sua dignidade. Se não ganha a vida com o suor do rosto, a vida perde sentido. Como não há mais reis e magos, é preciso que os dirigentes do Brasil, estados e municípios, que veem no turismo um caminho para o crescimento econômico, atentem para o choque que estrangeiros sentem ao ver cenas de crianças, homens, mulheres grávidas e esquálidas, disputando os segundos que medeiam o vermelho e o verde dos sinais. E o sinal vermelho pode ser um momento de reflexão para todos nós, fechados em nossas casamatas móveis olhando, com piedade ou indiferença, a cena a centímetros, e desviando dos catadores. Não há como não ver, não ser atingido. Não importa que o verde do sinal abra, pois, em seguida, outro vermelho nos fará parar, ver, e pensar no próximo, aquele que apela, pede, movido pela desigualdade que o revolta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/01/2008.

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DE LEIGO PARA LEIGOS – Jornal O Estado

Estou convivendo com duas pessoas queridas que lutaram contra o câncer. Um homem e uma mulher. Ambos maduros e que, apesar de inteligentes, não se cuidavam bem. O homem não fazia os exames rotineiros para detectar o câncer de próstata. Quando foi cuidar, ele havia se instalado e ameaçava a área periférica. Chorou, reclamou, desanimou. Pessoas amigas falaram duro e ele se mandou para São Paulo. Fez radioterapia e quimioterapia, reclamava muito dos enjoos e do sofrimento. Voltou mais magro e com o marcador (psa)ainda alterado. Tomou injeções de hormônio na barriga e já está com ótimo peso, marcador (psa) no nível normal, retocou o cabelo, anda de moto nos fins de semana e trabalha com afinco.
A mulher, esclarecida e decidida, agiu ainda a tempo e conseguiu debelar o que invadia suas células. Tem o bom senso de fazer exames periódicos e mudou a sua cabeça. Agora, reserva mais tempo para ela e sua família.
Não estou devassando a privacidade de pessoas queridas. O que estou tentando fazer é utilizar este espaço em que escrevo para alertar a todos, mulheres e homens, da necessidade de ser informado, fazer prevenções de saúde. Basta reservar algum tempo e fazer os exames por um plano de saúde ou até pelo SUS. O que não se pode é ignorar que existem formas de prevenir. Admitindo, só para continuar o papo, que alguém seja surpreendido por um câncer. Chore, reclame, dê muro na parede. Quando o choro secar, vá à luta. Não se considere derrotado de véspera. Há muitos recursos médicos, desde que bem utilizados e no tempo adequado.
Se você não tiver dinheiro, venda qualquer bem, reúna a família e os amigos, conte a sua história e peça ajuda sem medo. Se não tiver quem ajude, vá atrás de seus direitos de cidadão na Secretaria de Saúde, no Decon ou denuncie a um promotor ou procurador. O direito à cura é fundamental. A única coisa que um doente com câncer não pode fazer é desanimar e deixar que a depressão roube as suas defesas. Pelo contrário, descubra-se forte, pergunte, leia, encha o saco dos médicos, converse com quem já passou por algo semelhante e vá em frente, com fé e sem essa de coitadinho.
Se tudo estiver bem com a sua saúde, dê graças a Deus e, se for o caso, cuide para não ficar obeso, ande, mantenha uma dieta balanceada com frutas, legumes e carnes brancas, apague o cigarro, modere no álcool, informe-se, não esqueça dos exames de rotina e faça as pazes com quem brigou. Ódio é a pior doença.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/01/2008.

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GARCÍA E RODRÍGUEZ – Diário do Nordeste

Estou voltando de um voo rasante e pude confirmar o que já havia constatado o “The New York Times”, em novembro passado. Hoje, nos Estados Unidos, entre os dez sobrenomes mais comuns, já há dois nomes hispânicos. Vocês sabem que houve uma guerra entre os Estados Unidos e o México entre os anos de 1846 e 48. Antes disso, o Texas já havia sido anexado à América em 1836. Depois, sem entrar no mérito, apenas citando o fato, durante dois anos, os Estados Unidos guerrearam contra o México e, através do Tratado de Guadalupe-Hidalgo, uma espécie de rendição, em 1848, os atuais estados do Texas, Novo México, Arizona e Califórnia passaram a fazer parte da nação americana.
A área desses estados é maior que a de muitos países europeus e sua grande fronteira com o México tem permitido, desde esse tempo, a imigração sazonal ou permanente de milhões de mexicanos, legais e “indocumentados”. São, na maioria, trabalhadores, temporários ou não, que, inicialmente, mourejavam nas grandes fazendas. Depois, nas indústrias que ali foram sendo instaladas. Hoje, começo de 2008, os Estados Unidos têm 300 milhões de pessoas. Desses, 44 milhões são latinos. A realidade nos mostra que a cultura americana não pode mais desconsiderar a força dessa latinidade espalhada da Califórnia, no Oeste, à Flórida, no sul. Os latinos têm identidade cultural própria que os leva, entre outras coisas, a preservar seus sobrenomes de origem, embora usem prenomes americanos. Assim é que García e Rodríguez estão entre os dez sobrenomes mais comuns nos Estados Unidos, segundo dados do último Senso. E, entre os 25 sobrenomes mais comuns, já há seis latinos. Esses fatos têm motivado escritores, sociólogos, filósofos, antropólogos e cineastas a discutirem sobre uma ‘nova América’, onde todos possam ter direitos, liberdade, igual oportunidade de trabalho e um sentimento de pertença, sem a formação de comunidades isoladas. Essa integração, tão sonhada, passará ainda pela vontade política e já se manifesta na eleição crescente de congressistas com sobrenomes latinos, mas, ciosos de sua cidadania americana.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/01/2008.

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SEM DESTINO – Jornal O Estado

Permiti-me passar uns dias longe de tudo. Distante, sem computador e fora de contato, exceto por raros telefonemas. Não sou acostumado a isso. Sempre fui multiuso, ocupado, cuidando disso e fazendo aquilo. Na virada do ano resolvi dar folga a mim mesmo, família e amigos. E o que fiz? Li um livro (Doublê de Corpo) com mais de 400 páginas, de Tess Gerritsem, uma médica que resolveu abandonar o estetoscópio para escrever romances policiais intrincados com pinceladas de conhecimento científico. Não precisa ter estudado medicina legal, basta ler sem ninguém por perto. Ao mesmo tempo, viajei e deixei que as alturas me conduzissem entre nuvens, cirros ou nimbo-estratos, de uma banda à outra desse mar-oceano que nos banha. E tive, uma vez mais, a sensação aquietada da grandeza do universo, exceto pelos raros solavancos ao cruzar ilhas que permeiam as muitas novas terras do sul e norte.
Desci, vi parques, estradas, praias e gentes. Gentes, assim mesmo no plural, pois eram de muitas partes e de costumes vários. Umas vozes de acentos sincopados, outras com sons guturais fortes, acres, que não têm nada a ver conosco, livres por natureza e atitudes. Andei a esmo, sem destino, uma espécie de “easy rider” maduro, sem o chapéu do James Dean. E parei para rever um mosteiro sombreado. Velho conhecido que estava de cadeado à porta. Em compensação, fui a uma grande livraria. Dessas que têm um charmoso café onde xícaras, copos, livros, computadores, papéis, dividem as mesas entre jovens e maduros que estão lá esquecidos do mundo e um atendente gay fala com erudição afetada. De lá saí mais pesado, com o olhar raso de avidez pelo conteúdo do que levava. Como todo mortal, fiz compras de impulso, nada compulsivo. E até comprei Dvds remasterizados da série Flash Gordon que vou compartilhar com amigos cinemeiros. E, sem que a Cláudia Leitão e o Auto Filho estivessem por perto, entrei, por mera curiosidade, em duas bibliotecas públicas. Modernas, claras, envidraçadas, limpas, bonitas, frequentadas, informatizadas, onde se tira foto ao chegar. Lá, empanturrei-me de tudo, até de jornais, revistas, brochuras apregoando isso e aquilo ou representando valores, não necessariamente os meus.
E, agora, estou de volta. Dirigindo, olhar atento, paro no sinal. Os vidros fechados recebem toques de dedos magros à espera de um trocadinho. Abro o vidro para a realidade e vejo um assalto logo ali na frente. É isso aí.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/01/2008.