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REPÓRTER – Jornal O Estado

Gosto de notícias pelo rádio, jornal, televisão e Internet. Não a notícia requentada, mas aquela originada do trabalho de um repórter. O que vai atrás dos fatos, pesquisa, conversa, analisa, critica e a transmite, mesmo sabendo que a história possa estar incompleta ou em desdobramento. Atualmente, seja dirigindo o carro, sentado no computador, olhando a televisão ou folheando jornal, ficamos ouvindo, vendo ou lendo sobre o que acontece do mundo. É claro que há ênfase no noticiário local, mas os veículos de comunicação dão destaque ao que acontece no país e no mundo. Basta ver que jornais, agências de notícias e de televisão mantêm repórteres e até estúdios nos centros geradores de notícias. O que vale no repórter é não só a pauta ou tarefa que lhe é passada, mas o seu descortino, o jeito de ir fundo na matéria brotando de seus contatos, fontes básicas de informação, da conversa pretensamente solta com o povo e das testemunhas circunstanciais de quaisquer acontecimentos. Um exemplo desse fato é Macário Batista, viajante à cata de notícia pelo mundo. Escreve e mora aqui ao lado, mas vive de mala e cuia por tudo o que é lugar. Outro, o Wilson Ibiapina, saiu de Fortaleza para cobrir notícias de Brasília para o Sistema Verdes Mares e já mora a vários lustros naquela cidade. Todas as manhãs dá notícias na programação da Rádio Verdes Mares. Em Paris, Realli Jr., jornalista da Folha de São Paulo, se fixou e até escreveu livro sobre os fatos e as pessoas noticiadas em sua faina lá exercida há dezenas de anos.
Além dos repórteres generalistas, há os especializados em cobrir áreas diversas como política, economia, esportes, clima, artes, cultura etc. Todos esses ramos da reportagem nos mantêm – na comodidade de nossas vidas – capazes de saber o que está acontecendo com o país e os políticos; como vai indo o nosso trabalho ou dinheiro; as razões para nosso time ter ganhado ou perdido; o que temos para ver de melhor nos cinemas, teatros, exposições; a roupa que vestiremos etc. Ninguém se dá conta de como seria o mundo sem informação, sem o repórter que, no mínimo, procura destrinchar fatos e oferecer um sentido profissional à comunicação tão importante à vida de todos. Como todos têm o direito ao seu dia, amanhã será o Dia do Repórter, a quem a sociedade tanto deve e talvez nem disso saiba.

JOÃO SOARES NETO,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/02/2008.

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LUTAS PRIMÁRIAS – Diário do Nordeste

Parece que os tempos andam mudando de verdade. Surge nos Estados Unidos Barack Hussein Obama. Vejam o nome, sugere ligação com o terror do Al Qaeda. Não tem. É filho de um queniano que foi estudar no Havaí, lá se encontrou com uma americana e com ela casou. Ali Nasceu Obama. Se brasileiro fosse, seria mulato. Nos Estados Unidos, ele é negro. O fato, independente de sua cor, é que Obama nasceu dois anos antes de John Kennedy ser assassinado e acontecer o fim legal da discriminação. Sua mãe o levou para a Indonésia onde passou anos. Voltou, estudou na Universidade de Colúmbia e, posteriormente, frequentou a Universidade de Harvard, de onde saiu advogado com louvor. Aos 46 anos, senador pelo Illinois, primeiro mandato, enfrenta Hillary Clinton, também senadora, herdeira política de seu marido Bill e figura proeminente do Partido Democrata que acredita ter chegado a sua vez de retomar a Casa Branca.
As eleições primárias, essas em curso, são uma peculiaridade americana. Custam milhões de dólares e quase nunca apontam surpresas. Neste ano, Obama é a novidade, consegue apoio forte dos jovens que, até bem pouco, não se interessavam em votar, pois lá o voto é opção. É claro que só em agosto sairão os nomes dos candidatos que irão disputar as eleições para Presidente dos Estados Unidos em novembro, mas cresce uma onda de adesões e contribuições financeiras de alto quilate para Obama. E isso só é lógico se os grupos econômicos que o apoiam acreditam na possibilidade de sua indicação e consequente eleição. Ele é casado, evangélico, duas filhas, fluente, articulado, longilíneo e autor de dois livros (Sonhos Desde Meu Pai e A Audácia da Esperança), realmente escritos por ele e são bons. Não se sabe se foi dele a simples frase de duas palavras que está mexendo com a América: nós podemos (we can). Para a turma jovem brasileira seria o caso de dizer que ele está, realmente, podendo. O que ainda não fica claro é como será o desfecho dessa história. Parece cedo demais para já se falar em final feliz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2008.

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EMPRESÁRIO DO IMPÉRIO – Jornal O Estado

Jorge Caldeira, jornalista, sociólogo, cientista político, agora eleito para a Academia Paulista de Letras, utilizou três anos entre a pesquisa e a publicação do livro “Mauá, Empresário do império”, edição da Cia das Letras, em 1995. O resultado das 557 páginas é consagrador.
Por muito tempo na lista dos livros mais vendidos, “Mauá” representa o resgate da figura de um menino pobre do Rio Grande do Sul que chegou ao Rio de Janeiro no ano da independência do Brasil com nove anos de idade. Empregou-se como “caixeiro”; aos 15 já sabia tudo de comércio e aos 30 era um grande empresário, homem à frente de seu tempo e foco de invejas até do Imperador D. Pedro ll, a quem fez, sutilmente, conduzir um carro de mão e utilizar uma pá no lançamento de uma ferrovia.
O trabalho, naquele tempo, era apenas para escravos. lrineu Evangelista de Sousa, o barão de Mauá, desmitificou essa ideia ao contratar técnicos e mão-de-obra na Europa, com visão de mundo que ainda hoje causaria furor. Lançou-se em empreitadas tão dispares como a indústria naval, criação de bancos, estradas de ferro, navegação na Amazônia, empréstimos no Uruguai, iluminação a gás no Rio de Janeiro e, ao final de sua vida, à atividade agropecuária, tendo a coragem de trazer chineses para ajudá-lo nessa tarefa. O livro não é só Mauá. Jorge Caldeira repassa, com uma visão moderna, toda a história brasileira do século XIX, desde a chegada da família real portuguesa enxotada por Napoleão, em 1808, sua estada no Rio de Janeiro, a influência dos traficantes de escravos, a distribuição de empregos públicos para os amigos da Corte e a tutela inglesa em todas as nossas ações. Relata ainda a volta de D.João Vi à Lisboa, as regências, especialmente a do Pe. Diogo Antonio Feijó e sua controvertida figura de filho de padre e de ter tido, tal como seu pai, vários filhos. Destaca a personalidade de D.Pedro I e se detém em D.Pedro II, que nunca teve a dimensão que alguns historiadores lhe conferem nestes duzentos anos da chegada da família real ao Brasil.
“Mauá” é também a história da fundação do Banco do Brasil, das tricas e futricas pela subscrição de suas primeiras ações e do uso, já naquela época, da instituição para beneficiar, a juros baixos, os amigos do Imperador, a quem Caldeira, por descuido ou sutileza, chama de rei em diversas partes de seu livro. Ele deve ser lido por todos os que acreditam no trabalho, na vitória da competência sobre a maledicência, na capacidade de superar obstáculos (faliu e deu a volta por cima) e de aliar tino empresarial a um conhecimento intelectual de fazer inveja, pois lia, em inglês, as obras de Adam Smith, Ricardo, Mill e Bentham. O resgate da figura de “Mauá” por Jorge Caldeira é um presente que se oferece aos jovens e, principalmente aos estudiosos da vida empresarial brasileira do Século XIX. Não basta comprar o livro, melhor que isso é lê-lo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/02/2008.

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FIDEL – Diário do Nordeste

O que falar sobre Fidel que já não tenha sido dito? Ditador? Revolucionário? Herói? Mito? Tudo já foi escrito em artigos, teses, livros, jornais, revistas, TV e filmes. O fato é que Fidel Alejandro Castro Ruz, 81 anos, deixou o poder efetivo que manteve por 49 anos sobre a Cuba que tomou de Fulgêncio Baptista. Sua luta hoje parece ser permanecer vivo, dar dignidade ao corpo alquebrado por doença a consumir todas as energias vitais. Não mais fará discursos com horas de duração, tampouco vestirá a sua farda de “Comandante”. Não usará mais os velhos aviões russos em que, garboso, viajava pelo mundo e aparecia na escada como estadista. O homem Fidel sente-se finito, cioso do que lhe resta e já não adiantará mais que assessores revisem – ou escrevam – e publiquem pronunciamentos seus no Granma, o diário oficial de Cuba. Sua voz poderá não ter vez no corpo doente. Talvez nada mais importe para quem não pode fumar os seus charutos, soltar baforadas e desaforos em direção aos Estados Unidos. Suas botas duras estão substituídas por chinelos moles. Seus álbuns de fotos restarão guardados em um velho armário e poucos terão acesso a eles. Lembrará ele do jovem advogado Fidel a descer de Sierra Maestra com seus companheiros e saberá que cada passada sua fechava um ciclo de Cuba e criava outro. Na planície, em La Habana, sonhou com a liberdade e tentou, a seu modo, escrevê-la de outra forma. Mas não há adjetivos para ela. Ou existe ou não acontece. E agora na lucidez que lhe é permitida pelos remédios que minoram suas dores lembrará certamente de seus tempos mexicanos quando cunhou a frase: “Pátria ou morte”. E terá a certeza de que Cuba sobreviverá a ele e nas casas de Havana, Santiago de Cuba e Trinidad jovens e velhos como ele estarão fumando e tomando rum, olhos e ouvidos nas notícias. Fidel talvez não queira mais falar com Chávez, tampouco responderá diretamente as mensagens que receberá ou sequer ouvirá o que prometem fazer por Cuba ou em Cuba os candidatos à eleição presidencial americana. Mas, mesmo se dizendo ateu, talvez agradeça as muitas rezas que mulheres cubanas ainda farão por ele.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2008.

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MADRILENHAS – Diário do Nordeste

Dizia o pintor cearense Antônio Bandeira (Fortaleza, 1922. Paris, 1967) sobre exposições: “Antes era preciso somente o ângulo visual para se olhar um quadro. Hoje necessitamos mais que isso. Queremos também o ângulo do sentimento. Buscamos os olhos não somente na cara, mas também no cérebro e no coração”. Para ver arte é preciso estar atento a todos os sentidos e emoção. Vando Figueirêdo é pintor inquieto. Não é aprendiz. Sabe e o faz em longo percurso. Teve a coragem de, já maduro, sair do casulo, atravessar mares e aportar na terra-mãe, Portugal. Depois, por sentimento atávico ou existencial, retornou. Vive procurando faces novas no imaginário de sua arte. Experimentado na lida contínua e árdua de assumir-se artista, vê sempre com olhos púberes (re)buscado em suas lentes intra-oculares. Agora, expõe estas ”Madrilhenhas” na cidade. O título é o ponto de vista do autor. É o conjunto de obras que teria exposto em Madri, Espanha, se a saudade ou a vida não empurrasse sua nau pictórica de volta aos mares turbulentos e difíceis do Brasil. Neste ano nove deste Século XXI, do Iphone, Google etc ele mergulha a seu modo, com matizes e materiais contemporâneos, por vieses onde usa até palavras. Transfigura a rudeza primitiva de contornos rupestres e outros arranjos para amigos e apreciadores da arte. As razões destas Madrilhenhas podem e devem ter algoritmos e significações. Os olhares de colegas, marchands e visitantes terão múltiplas interpretações. Dizia Benedetto Croce, filósofo italiano, morto em 1952: “arte é visão ou intuição. O artista produz uma imagem ou um fantasma: e quem aprecia a arte volta a olhar para o ponto indicado pelo artista. Observa pela fenda aberta e reproduz dentro de si aquela imagem.” Ou no dizer do poeta americano Ezra Pound: “Toda arte começa na insatisfação física da solidão e da parcialidade”. Eugène. Delacroix, pintor francês do Século XIX, contava precisarem os pintores sempre borrar ou inutilizar o quadro para concluí-lo. Por fim, declaro não ser crítico de arte, mas saber que artistas são, geralmente, solitários e parciais, especialmente pela paixão devotada ao que criam.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/06/2009.

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CINCO MILHÕES – Jornal O Estado

Um apresentador de televisão domingueira acaba de renovar seu contrato com uma rede nacional. Vai ganhar cinco milhões por mês, entre salário e merchandising. Ou seja, a propaganda, disfarçada ou não, em que aparece.
Então, alguns poderão perguntar: por que fazer vestibular, cursar cinco anos e depois ralar muito? Para que tanta gente se mata estudando para concursos? Para que muitos ficam pendurados em bancos, financeiras e afins? Dirão ainda: Entenda a razão pela qual médicos, engenheiros e advogados, as profissões antigas, ganham uma insignificância por mês. Vocês poderão pensar: isso é despeito, talento é assim, ganha milhões. Poderiam pensar ainda: vai lá e veja se faz o que ele faz?
Não se trata disso, o que nós, os mortais comuns, os sem talento, não entendemos é como um cristão fica duas ou três horas vendo e ouvindo alguém a dizer uma série interminável de bobagens, entrevistar pessoas que precisam estar no ar para aparecer, ouvir cantores de vozes esganiçadas, fazer um júri com aspirantes ou decadentes artistas e, no final do mês, levar cinco milhões. Ele tem público, se não gerasse receita seria despedido. Não sei qual o público que o assiste, se das classes A, B, C, D ou E? Aliás, pessoas não deveriam ser classificadas como se fossem produtos, mas quem fica ali postado vendo diatribes merece sofrer. Uma dica: faz muito tempo, surgiu o controle remoto, esse aparelho pequeno, movido a pilha, que tem o condão de nos libertar do que não podemos ou queremos ver e ouvir. Faça um bem a você mesmo. Higienize a sua mente. Leia jornal, livros e revistas. Ouça o silêncio. É bom. Pare de ver tolices.
Não só as do apresentador, mas outras em programas policiais, fofocas, shows de calouros, de realidades etc. Faça de sua televisão uma aliada. Desligue-a ou escolha. Mude, compare e acredite: há programas de bom gosto, populares e eruditos. A televisão nos põe a prova, mas a escolha é nossa. Se, ao final de uma tarde de domingo, depois de almoço mais caprichado, aceitar alguém na tela é porque concorda com a presença em sua casa. Aí, quando isso acontece, não vale reclamar. Olhe para o espelho e veja quem pode ser o culpado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/06/2009.

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BRIGAS ENTRE GRUPOS – Jornal O Estado

Gostaria que essa estorinha que vou contar fosse concluída por você, caro (a) leitor (a). Veja que situações poderá criar. Use o seu talento, descubra-se escrevendo e trace o rumo de sua prosa. Escrever não é difícil, tampouco chato. A dificuldade é começar. Eis a estória: Encontraram-se, não por acaso, a Alegria, a Paz, a Harmonia, a Força e a Coragem. Formavam um grupo coeso, mas tinham adversários. Haviam sido desafiados pelo grupo rival, constituído pela Tristeza, a Guerra, a Desavença, a Fofoca e o Medo. Esse encontro, coletivo, era o primeiro. Um a um, já havia acontecido encontro. A Alegria quase sempre vencia a Tristeza. A Paz vencia e perdia. A Desavença levava vantagem com a Harmonia. A Força tentava sobrepujar a Fofoca, que era tinhosa. E a Coragem era sempre tentada pelo Medo. Assim, iam vivendo temerosos. Um grupo temendo o outro. Agora estavam, reunidos, tentando agir junto. Decidiram que a Paz seria a líder do grupo, pois sabia conter os ímpetos da Alegria, dar uma mão à desencantada Harmonia e usar a Força e a Coragem contra os inimigos. Por outro lado, os do outro grupo, nomearam a Guerra como seu chefe supremo, apesar das ponderações da Fraqueza e do Medo. Foram votos vencidos. Houve então a seguinte conversa. Começa assim: A Guerra ligou para a Paz: – Sou chefe do meu grupo, queremos briga. A Paz respondeu:- Guerra querida, você não muda. Mas tenho esperança que isso aconteça. Venha tomar um chá de bom senso comigo. A Guerra, explodindo de raiva, retrucou:- Só tomo chá de pólvora misturado com arsênico. O resto é para fracote. -Não importa que você me chame de fracote, mas queria abraçá-la e ver se pode criar juízo nessa cabeça pirada, disse a Paz. – Deixe de conversa mole, escolha as suas armas e vamos à luta. Será amanhã, às 4 da tarde, nas campinas perto do Lago, falou a Guerra, soltando fogo pelas narinas. -Estaremos lá, sem armas, fique bem e durma com tranquilidade, disse a PAZ. E a Guerra: – Bem que eu poderia dormir com você, mas aí a estória seria outra, quente. -Crie juízo, finalizou a Paz, desligando o telefone. A estória, contada por mim, terminou. Será que você poderia continuá-la? Dizer como foi o encontro dos dois grupos? Quem venceu? Que armas usaram? Quem se destacou? As respostas são suas, mas se quiser enviá-las para mim use o e-mail oestado@gmail.com.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/06/2009.

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ENTRAR E SAIR – Diário do Nordeste

O ser humano tem ambições. Uns, aspiram apenas sobreviver. Outros, vencer. Para a maioria vencer é estudar, conseguir emprego, ter filhos ou ser dono do seu destino. Mas, há os que almejam muito mais. Precisam de fama, sucesso, força, dinheiro ou possuir poder, seja ele qual for. O caso do Senador José Sarney é emblemático. Conseguiu tudo o que um homem comum ambicionaria ser. Casou, teve filhos, formou-se, tornou-se deputado, senador por dois estados, governador e até Presidente da República. Além disso, é membro da mais prestigiada instituição cultural do Brasil, a Academia Brasileira de Letras. É um pai à moda antiga, cuida bem dos seus, mas tem a política como ópio. Assim, aos 79 anos, sofre uma série de denúncias de adversários, jornalistas e até de aliados. Não entro no mérito da questão, mas indago-me se não teria sido mais sensato para ele, nesta quadra da vida, escrever sua biografia, criar outro romance como o bom “Saraminda” ou presidir a Academia? Entretanto, aceitou, pela terceira vez, ser candidato a presidente do Senado, derrotando Tião Viana em luta feroz que deixou sequelas. Ao mesmo tempo, pelejava para reverter o quadro real da eleição do Maranhão e, ao final, fez de sua filha querida, Roseana, novamente governadora. Ela, doente, apoiou-se no pai extremado para vencer a batalha perdida nas urnas. Outra guerra, mais inimigos. Roseana, tal como o pai, também era senadora. Volta ao governo e, em seguida, se licencia. Possui crônicos problemas de saúde, tendo sofrido quase 20 cirurgias, lutou à exaustão para voltar ao Palácio dos Leões. Agora mesmo, acaba de sair de intervenção neurológica, por conta de aneurisma. Lembro de Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, de 1936, admitindo que a família quando se torna poderosa vira exigente, e sua sombra, persegue os seus mesmo fora do ambiente familiar. Assim, a família, como entidade privada, passa a preceder sempre a entidade pública. Estas poucas linhas não julgam, apenas relatam fatos públicos e tentam mostrar sempre ser difícil entender os múltiplos atos e momentos de nossas vidas. Vale a pena?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/06/2009.

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PARATY E A FLIP Jornal O Estado

Devo estar em Paraty, cidade entre Angra dos Reis e Ubatuba, quase à margem da estrada Rio-Santos. São quase quatro horas do Rio de Janeiro para cá. É inverno por aqui. Nada que um agasalho ou um blazer não resolva. Paraty é cidade histórica, com preservação de algumas áreas e prédios. Tem praia, bares, restaurantes e pousadas de todos os tipos. Vive do turismo, férias e pacotes de viagens, especialmente neste início de julho, quando tudo triplica de preço. Vim, curioso que sou, ver a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Há dúvidas sobre a essência literária dessa festa. Vim para conferir. Neste ano, por exemplo, discute-se a obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que, imaginem só, são apresentados cantores (os eternos Francis Hime e Olívia Hime), filmes e até histórias em quadrinhos (HQs). Parte-se daí para agitar o relacionamento amoroso, nas visões do cineasta Domingos de Oliveira, diretor de “Separações” e do escritor Rodrigo Lacerda. Claro que existem atrações internacionais. A primeira atração é o neodarwinista, Richard Dawkins. Depois, Chico Buarque e Milton Hatoun, conversando sobre o que as suas obras ajudam na formação do país. A música é objeto de bate-papo com Alex Ross, da revista New Yorker. A família cai na dança e é debatida por Anne Enright e James Salter. Gay Talese, autor, entre outros, de “Fama e Anonimato”, conversa sobre o novo jornalismo, de que é profundo conhecedor, com Mário Sérgio Conti, TV-Senac. O mexicano Mário Bellatin e o brasileiro Cristóvão Tezza procuram explicar suas experiências pessoais como literatos. E, para não cansar vocês, Catherine Millet, aquela que escreveu, quando jovem, a “Vida Sexual de Catherine M”, fala sobre o que viveu. Ao final, Zuenir Ventura e Edson Nery da Fonseca, encerram o tema Manuel Bandeira, a quem conheceram em vida. Como se vê, é realmente uma festa, em que há muita badalação e até um pouco de literatura. É, sem dúvida, um encontro midiático que atrai nomes internacionais, cujos cachês não estão nas alturas. Para alegria dos que gostam de Chico Buarque, ele é figura de proa nesta festa. É a “gota d’água”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/07/2009

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A ROUPA E O MONGE – Diário do Nordeste

Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe. Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros veem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. Lembro: em 1965, o Concílio Vaticano II tornou opcional a batina ou “hábito” fora dos atos litúrgicos. Assim, esse ditado parece não estar valendo para o Papa Bento XVI que usa batinas, estolas e sapatos de marca, apesar da pobreza ser louvada e glorificada pela Igreja Católica. Voltemos a Steve Jobs. O seu temperamento forte, dinâmico e difícil foi surpreendido pela doença. Em 2004 teve de retirar um tumor maligno no pâncreas. Agora, em 2009, como sequela da primeira doença, fez um transplante de fígado. Ele já era simples, porém abusado, ficou hoje, aos 54 anos, mais simples ainda. Tanto isso é verdade que, para substituí-lo – ou ajudá-lo – na direção dos negócios contratou, há anos, um executivo, Tim Cook, também usuário de calça jeans, mora em casa alugada, afável, trabalhador incansável e não gosta de aparecer. Jobs e Cook seriam, pois, o oposto de Donald Trump, aquele empresário, também americano, sempre na mídia social, que até marca de perfume virou. Afinal, cada um tem o seu jeito e, sendo maior de idade, deve-se saber que estilo é o que fica quando a moda passa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/07/2009