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DIA DO PAI – Diário do Nordeste

Ninguém é pai sozinho. É preciso a conjunção de um homem e uma mulher, para, por amor, desejo, negligência ou imprudência, haver o contato físico que, dependendo de fatores vários, transforma-se em fecundação e, passado o período da gravidez, dá origem a uma nova criatura. Assim, mesmo parecendo óbvio, somos o produto de vontades, acaso, talvez educações díspares e ambientes com características distintas. Sob o ponto de vista genético, herdamos o que agradecemos e também o que lamentamos. Desse modo, o pai parece ser apenas o mero detonador de um processo. A mãe é a geradora ou fiel depositária, estabelecendo, por nove meses, laços biológicos, de nutrição e afeição com alguém pulsando em seu interior. Essa elementar conclusão nos leva a crer que o pai possa ser um ente periférico, especialmente se a mãe for alguém a tentar, consciente ou inconscientemente, minimizar o papel do parceiro. É herança dos séculos passados a mistura dos papéis sociais de pai e marido. São coisas absolutamente distintas. Hoje, a sociedade relativiza esse matriarcalismo a conceder às mães uma espécie de tirania do afeto e relegar o pai a um papel secundário e estereotipado de mantenedor ou provedor. Hoje, tempos outros, sem a tutela de padrões superados na práxis da vida, há um esforço conjunto para enfrentar a dura luta pela subsistência e a educação de um ou mais filhos. Estas considerações, limitadas por espaço e conteúdo, são apenas para dizer que os pais precisam formar uma identidade comum de pensamento na condução da família, sob pena de causarem danos aos filhos, desnorteando-os pela divisão afetiva e a não apropriação de responsabilidades, ficando ao sabor dos humores da relação e da vida. Não, não esqueci ser hoje o dia dos pais. Mas é importante não romantizar em demasia a data comemorada, simbolicamente, neste dia. Há uma tarefa continuada e interminável qual seja a preparação de pais e de filhos para o mundo real sem príncipes, princesas ou fadas, pois composto de obrigações e responsabilidades. Para não dizer que não falei de flores, louvo o meu pai, supondo não ter sido filho ingrato. Segundo Shakespeare, em Rei Lear, a ingratidão é pior que a mordida de uma serpente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/08/2009.

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EUCLYDES, O CEARÁ, OS SERTÕES E A TRAGÉDIA – JORNAL O ESTADO

Interessará aos raros leitores desta coluna, inserida em caderno social, saber ‘notícias de primeira’ do fim do século XIX e começo do século XX? Direi, em rápidas pinceladas, que amanhã, 15 de agosto, faz cem anos que Euclydes da Cunha morreu. Por enquanto, respondo que Euclydes era carioca e não gostava de cearenses. E conto: o primeiro a quem criticou, por escrito, foi Antonio Maciel, dito Conselheiro, tecendo-lhe uma imagem sombria, preconceituosa e até racista. O que Antônio fez? Mandou-se de Quixeramobim, -onde fazia de tudo, pois ensinava e trabalhava avulso – para os cafundós da Bahia por conta da prima e mulher Brazilina que lhe traíra. Já observará o atento leitor que Euclydes era escritor. Bingo. Depois, poderá indagar por qual razão ele não gostava do Antônio? Vamos lá: Euclydes fora cadete, tendo sido expulso por suas ideias republicanas, estudou engenharia, reintegrado como tenente e a mando da novíssima República Brasileira foi à Chorrochó, Bahia, às margens do Velho Chico, para cobrir a Guerra ou Campanha de Canudos, morticínio de milhares de indefesos. A guerra, com Exército e tudo, partira da premissa falsa de que um mero povoado fundado e liderado por Antônio – que congregava e aconselhava (daí o nome conselheiro) a todos com fé fanática -, ameaçava a Pátria republicana emergente. Euclydes, tísico que era, passou duas semanas entre tosses, conversas e anotações no local, chegando pouco antes do assassínio do Conselheiro, em 22 de setembro de 1897. Levou também, de volta ao Rio, a foto do Antônio morto, batida por Flávio de Barros, fotógrafo do Exército. (O incrível é como essa foto se assemelha com a do cadáver de Che Guevara) Euclydes foi e voltou sem dar um tiro. Tiro ele deu em Dilermando Assis, cadete, o jovem e bem-apessoado amante de Ana Emília, sua mulher. Aguardem, conto logo mais. Assim, Euclydes e Antônio, apesar das divergências sociais, tinham um ponto comum: sofreram a traição das suas mulheres. Mas, esse tiro só ocorreria muitos anos depois. Euclydes, intelectual que era, perdeu, em 1903, o concurso para professor de Lógica do Colégio Pedro II, no Rio, logo para outro cearense, Raimundo de Farias Brito. De pura inveja, ele disse: Farias Brito é um “pobre filósofo, cearense e anônimo, autor de um livro que ninguém leu”. A palavra cearense, reparem, é usada como pejorativo. Aí, os amigos de Euclydes, do grupo positivista “Jardim da Infância”, uma espécie de Clube do Bode de então, deram um jeitinho e Euclydes conseguiu ser nomeado professor. Pulei, de propósito, o fato de que as anotações dele feitas nas duas semanas em Canudos geraram, em fins de 1902, o seu famoso livro: “Os Sertões”, bem aceito, reeditado várias vezes, com venda de 10.000 exemplares. Era um número alto para um país com 18 milhões de habitantes, dos quais 95% da gente era analfabeta. Piorando da tuberculose, Euclydes foi admitido, ainda em 1903, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e na Academia Brasileira de Letras. Mas, a glória seria efêmera. Parece que o fantasma de Antônio Conselheiro rondava a sua vida. E tudo se maximizava em sua cabeça de deprimido. Em um domingo, 15 de agosto de 1909, armado de um revólver emprestado, calibre 22, partiu, manhã cedo, para a casa do amante de Ana, sua mulher, o tal Dilermando de Assis que, adiante-se, era bom em tiro ao alvo. Chegou, bateu à porta, foi entrando e atirando em Dilermando que revidou com arma mais forte e certeira, um 32, matando-o na hora. A história não termina aqui. A alma de Antônio Conselheiro continuou azucrinando a honra da família Cunha. Em 1916, Euclydes Filho, resolve vingar a morte de seu pai. Mais uma vez, Dilermando levou vantagem e o filho foi fazer companhia ao pai no cemitério. Então, Dilermando casou com a Ana, a viúva e mãe dos Euclydes assassinados. “Em sociedade de tudo se sabe”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/08/2009.

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E AGORA? – Diário do Nordeste

Era uma vez uma procissão de caravelas. Perderam-se por falta de vento de popa e acabaram dando com a proa em terras nunca dantes navegadas. Com vento ou sem vento, desceram pela terra a dentro e viram, estupefatos, “quase-pessoas”. E essas quase-pessoas eram donas de tudo, mas ainda não havia cartório nessa época para registrar as terras e cobrar os emolumentos, depois de muito protocolo. Como tal aconteceu é só ler a carta do Caminha, o escriba. E armaram uma cruz em torno da qual rezaram. E por conta dessa cruz quase-todos ainda estão crucificados. Quase-todos são os muitos dos que foram gerados nas relações entre as quase-pessoas e os quase-perdidos, pois navegar não sabiam. Se o soubessem cá não teriam chegado. Mas chegaram. E como os quase-perdidos não eram de trabalhar, imitaram os ingleses e trouxeram vozes e corpos de África. Mais corpos que vozes. E todos se embaralharam. Surgiu uma raça nova, essa que é produto de toda a turma. E aí começou a vir ao mundo uma gente peculiar, fruto do usufruto da gandaia geral estabelecida por toda a orla e das picadas pelo interior para escavar metais. E levaram, levaram tudo. O que ficou virou geleia. E essa geleia tem o nome do lugar de origem. Esse lugar com progenitores na cidade-estado quase copiada das ideias de Le Corbusier. E os pais do berço esplêndido usam ternos com muitos bolsos – para que será? – e gravatas para indicar que não são gente comum. E resolveram dar ordem à desordem e todos tinham muitos parentes e aderentes precisando de ocupação e distração. E lá ficaram na grande quenga de coco em que todos se empavonam de ser suas excelências. E como o circo precisava de animação colocaram uma televisão que não mostra o vazio das reuniões tribais em que se fantasiam de defensores de tudo. E o jogo não acontece por falta de atacantes. Quando aparece algum, pedem para sussurrar e não sujar a água bebida em comum. E de água semi-suja se faz a vida acontecer em três dias da semana. Os outros quatro são para as tramas. Aboliram os tremas, urdiram as tramas e tiraram as tramelas de janelas que continham o fétido odor da ambiência sem a qual não podiam respirar. E agora?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/08/2009.

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DE OLHO NA EXPOSIÇÃO – Jornal O Estado

José Augusto Lopes é avis rara. Por ter sensibilidade acurada e notar, desde cedo, existir – quem sabe – uma carência no feedback relacional com a maioria das pessoas, tenha optado por entrar na viagem, sem volta, da descoberta do mundo cinematográfico. Esse mundo em que fotogramas em determinada velocidade se transformam em movimento contínuo gerando arte, a partir de uma história ou estória, misturando glamour, amor, mesmo que falso, ciúme, ódio, crime, paz e muito mais. Bem que fez Direito e Comunicação Social, aqui e alhures, mas era preciso mais, descobrir nos livros, revistas, conversas e, principalmente, no interior das salas semi-escurecidas de cinema, a sua essência humana. E aí sentiu a imanência da arte dos irmãos Lumiére. Abro os meus diários de anotações dos anos de 58 e 59, e revejo que Brasil se preparava para as eleições presidenciais do ano seguinte. Cai um avião da Vasp e morrem 42 pessoas. Discute-se a importância de comprar um porta-aviões, o Minas Gerais, o açude Orós está em construção, enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Eleazar de Carvalho apresenta o pianista Jacques Klein no José de Alencar. Outros tempos. O chique em Fortaleza era: e as badalações no Ideal, Maguary e Náutico, o San Pedro Hotel, os lanches do Tonny’s, a vitrina da Aba Film mostrando fotos das “moças de família”. As conversas eram feitas sem medo em 15.000 telefones pretos de galalite. O Theatro José de Alencar abrigava um festival de declamações de D. Violeta Modesto de Almeida, com o patrocínio das Damas de Jacarecanga. Os filmes mais significativos do ano eram Bela e Canalha, com Vittorio de Sicca e Sophia Lauren. Congotanga, dirigido por Joseph Pewney, com George Nader e Virginia Mayo. As sete filhas do Amor, com Maurice Chevalier. O Alucinado, com Arturo de Córdoba. Os Corruptos, dirigido por Fritz Lang, com Glenn Ford e Gloria Grahme. Blefando a morte com Antony Quinn e Kátia Jurado. O Fantasma do Gen. Custer (7ª. Cavallary) com Randolph Scott e Bárbara Hale. A Janela Indiscreta, de Hitchcock, com James Stewart e Grace Kelly. Foi nesse clima e tempo que José Augusto Lopes mergulhou no mundo do cinema e ainda navega. Todas as semanas mantém o olho nas telas, onde descobre não só o que diretores, atores, roteiristas, figurinistas aspiram mostrar, mas, por exemplo, vê os erros dos continuistas, a farsa de atores apaixonados por atrizes, mesmo que vivam realidades díspares. José Augusto poderia, quem sabe, ser comparado a um Rubem Ewald Filho pela capacidade de se empolgar, adorar ou criticar o que não aceita. Ele não é neutro, é o que escreve aos domingos no Diário do Nordeste. A Exposição no Benficarte foi a forma escolhida para mostrar ao público parte de sua intimidade, sejam pesquisas, manias, devaneios, fetiches e até glórias transformadas em troféus. O que está sendo exposto, de forma gratuita e aberta, é a parte visível de sua vida como comentarista de cinema. Algumas pessoas reagem com uma pergunta estranha quando se deparam com os “guardados” de alguém: Só isso?. Saibam, pois, que além do que é exposto com formas, matizes, desgastes do tempo, há um cuidado de quem coleciona, para desvendar o essencial. E o essencial varia para cada um. Esta é uma oportunidade para quem realmente gosta de cinema não apenas como diversão. Lembranças serão revividas. É uma trilha para os que estão começando a descobrir o que é cinema, como um filme é produzido, a fidelidade ou não do tema – baseado em enredo de um livro –, a capacidade cênica dos artistas, efeitos de som e luz, a diferença que faz um grande diretor, a publicidade gerada e a coerência ou disputa entre a crítica e o público. Enfim, é ver com os olhos este “making off “da alma e da razão de José Augusto Lopes que mistura o real e a fantasia e descobre que somos também aquilo que vemos, porque uma rosa não é meramente perfume. Há espinhos, à espreita. Viver entre espinhos e o néctar das rosas vermelhas ou brancas pode ter sido o paradoxo ou desafio da vida de José Augusto Lopes que está aqui, jovial no début de seus 70 anos, sabedor que pode voltar à tona, tirar o escafandro da reflexão, olhar para cima e ver estrelas no firmamento.

João Soares Neto é cinemeiro.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/08/2009.

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VÔO NOTURNO – Diário do Nordeste

Por duas vezes passei situações de risco em voos. Vou contar uma: foi de Portugal para o Brasil. O avião decolou à noite, serviram o jantar e me acomodei para dormir com máscara sobre os olhos. Cochilei. Depois, recebi um cutucão. Era o vizinho de poltrona, um português de olhos arregalados a dizer sem meias palavras: Tu sabes que vamos morrer? Procurei acordar de todo e ele me apontou o motor parado, ao lado. Já todas as luzes da cabine estavam acesas e havia um corre-corre de comissários a verificar cintos e que tais. De repente, o comandante do avião se identifica pelo microfone e diz para permanecermos sentados e obedecer a instruções dadas a seguir. Aí, o comissário chefe pede para todos tirarem cintos, óculos, sapatos, objetos pontiagudos, mostra coletes salva-vidas etc. Estamos em noite escura sobre o Atlântico. A Europa ficou para trás. Procuro na mente as aulas de geografia e vejo só existir alternativa em África, nas ilhas de Cabo Verde ou Canárias. O resto é oceano profundo. Meia hora se passa e o comandante volta dizendo: vai voar baixo para liberar combustível, ficar mais leve e seguirá para as Ilhas das Canárias. O avião inclina a sua proa e vai baixando de forma lenta, quase imperceptível. Começa a operação de esvaziar tanques. Já faz uma hora do primeiro aviso, todos estão seguindo as ordens, calados, alguns rezam, outros choram baixinho. Repasso minha vida. Minutos duram horas, enfim o comandante volta a falar e diz estar pousando em Las Palmas, Grã Canária. O avião faz o turno de pista, desce suavemente, enquanto ambulâncias e carros de bombeiros nos acompanham, lado a lado. Todos estavam aliviados. Foram longos e duros 90 minutos e 03 dias de espera por uma nova turbina Rolls-Royce vinda da Inglaterra. Lembrei disso por conta da tragédia do AirBus da Air France. Eles só tiveram 04 minutos e um fim trágico. O Criador os acolha. Lembrei também do escritor francês Antoine Exupéry, autor, entre outros, de Vôo Noturno e piloto pioneiro a trazer o correio da França para a América do Sul. Morreu, em acidente aéreo, no mar da Sardenha. Fica apenas o consolo de Caymmi: “é doce morrer no mar”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/06/2009

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BRIGAS ENTRE GRUPOS – Jornal O Estado

Gostaria que essa estorinha que vou contar fosse concluída por você, caro (a) leitor (a). Veja que situações poderá criar. Use o seu talento, descubra-se escrevendo e trace o rumo de sua prosa. Escrever não é difícil, tampouco chato. A dificuldade é começar. Eis a estória: Encontraram-se, não por acaso, a Alegria, a Paz, a Harmonia, a Força e a Coragem. Formavam um grupo coeso, mas tinham adversários. Haviam sido desafiados pelo grupo rival, constituído pela Tristeza, a Guerra, a Desavença, a Fofoca e o Medo. Esse encontro, coletivo, era o primeiro. Um a um, já havia acontecido encontro. A Alegria quase sempre vencia a Tristeza. A Paz vencia e perdia. A Desavença levava vantagem com a Harmonia. A Força tentava sobrepujar a Fofoca, que era tinhosa. E a Coragem era sempre tentada pelo Medo. Assim, iam vivendo temerosos. Um grupo temendo o outro. Agora estavam, reunidos, tentando agir junto. Decidiram que a Paz seria a líder do grupo, pois sabia conter os ímpetos da Alegria, dar uma mão à desencantada Harmonia e usar a Força e a Coragem contra os inimigos. Por outro lado, os do outro grupo, nomearam a Guerra como seu chefe supremo, apesar das ponderações da Fraqueza e do Medo. Foram votos vencidos. Houve então a seguinte conversa. Começa assim: A Guerra ligou para a Paz: – Sou chefe do meu grupo, queremos briga. A Paz respondeu:- Guerra querida, você não muda. Mas tenho esperança que isso aconteça. Venha tomar um chá de bom senso comigo. A Guerra, explodindo de raiva, retrucou:- Só tomo chá de pólvora misturado com arsênico. O resto é para fracote. -Não importa que você me chame de fracote, mas queria abraçá-la e ver se pode criar juízo nessa cabeça pirada, disse a Paz. – Deixe de conversa mole, escolha as suas armas e vamos à luta. Será amanhã, às 4 da tarde, nas campinas perto do Lago, falou a Guerra, soltando fogo pelas narinas. -Estaremos lá, sem armas, fique bem e durma com tranquilidade, disse a PAZ. E a Guerra: – Bem que eu poderia dormir com você, mas aí a estória seria outra, quente. -Crie juízo, finalizou a Paz, desligando o telefone. A estória, contada por mim, terminou. Será que você poderia continuá-la? Dizer como foi o encontro dos dois grupos? Quem venceu? Que armas usaram? Quem se destacou? As respostas são suas, mas se quiser enviá-las para mim use o e-mail oestado@gmail.com.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/06/2009.

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ENTRAR E SAIR – Diário do Nordeste

O ser humano tem ambições. Uns, aspiram apenas sobreviver. Outros, vencer. Para a maioria vencer é estudar, conseguir emprego, ter filhos ou ser dono do seu destino. Mas, há os que almejam muito mais. Precisam de fama, sucesso, força, dinheiro ou possuir poder, seja ele qual for. O caso do Senador José Sarney é emblemático. Conseguiu tudo o que um homem comum ambicionaria ser. Casou, teve filhos, formou-se, tornou-se deputado, senador por dois estados, governador e até Presidente da República. Além disso, é membro da mais prestigiada instituição cultural do Brasil, a Academia Brasileira de Letras. É um pai à moda antiga, cuida bem dos seus, mas tem a política como ópio. Assim, aos 79 anos, sofre uma série de denúncias de adversários, jornalistas e até de aliados. Não entro no mérito da questão, mas indago-me se não teria sido mais sensato para ele, nesta quadra da vida, escrever sua biografia, criar outro romance como o bom “Saraminda” ou presidir a Academia? Entretanto, aceitou, pela terceira vez, ser candidato a presidente do Senado, derrotando Tião Viana em luta feroz que deixou sequelas. Ao mesmo tempo, pelejava para reverter o quadro real da eleição do Maranhão e, ao final, fez de sua filha querida, Roseana, novamente governadora. Ela, doente, apoiou-se no pai extremado para vencer a batalha perdida nas urnas. Outra guerra, mais inimigos. Roseana, tal como o pai, também era senadora. Volta ao governo e, em seguida, se licencia. Possui crônicos problemas de saúde, tendo sofrido quase 20 cirurgias, lutou à exaustão para voltar ao Palácio dos Leões. Agora mesmo, acaba de sair de intervenção neurológica, por conta de aneurisma. Lembro de Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, de 1936, admitindo que a família quando se torna poderosa vira exigente, e sua sombra, persegue os seus mesmo fora do ambiente familiar. Assim, a família, como entidade privada, passa a preceder sempre a entidade pública. Estas poucas linhas não julgam, apenas relatam fatos públicos e tentam mostrar sempre ser difícil entender os múltiplos atos e momentos de nossas vidas. Vale a pena?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/06/2009.

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PARATY E A FLIP Jornal O Estado

Devo estar em Paraty, cidade entre Angra dos Reis e Ubatuba, quase à margem da estrada Rio-Santos. São quase quatro horas do Rio de Janeiro para cá. É inverno por aqui. Nada que um agasalho ou um blazer não resolva. Paraty é cidade histórica, com preservação de algumas áreas e prédios. Tem praia, bares, restaurantes e pousadas de todos os tipos. Vive do turismo, férias e pacotes de viagens, especialmente neste início de julho, quando tudo triplica de preço. Vim, curioso que sou, ver a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Há dúvidas sobre a essência literária dessa festa. Vim para conferir. Neste ano, por exemplo, discute-se a obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que, imaginem só, são apresentados cantores (os eternos Francis Hime e Olívia Hime), filmes e até histórias em quadrinhos (HQs). Parte-se daí para agitar o relacionamento amoroso, nas visões do cineasta Domingos de Oliveira, diretor de “Separações” e do escritor Rodrigo Lacerda. Claro que existem atrações internacionais. A primeira atração é o neodarwinista, Richard Dawkins. Depois, Chico Buarque e Milton Hatoun, conversando sobre o que as suas obras ajudam na formação do país. A música é objeto de bate-papo com Alex Ross, da revista New Yorker. A família cai na dança e é debatida por Anne Enright e James Salter. Gay Talese, autor, entre outros, de “Fama e Anonimato”, conversa sobre o novo jornalismo, de que é profundo conhecedor, com Mário Sérgio Conti, TV-Senac. O mexicano Mário Bellatin e o brasileiro Cristóvão Tezza procuram explicar suas experiências pessoais como literatos. E, para não cansar vocês, Catherine Millet, aquela que escreveu, quando jovem, a “Vida Sexual de Catherine M”, fala sobre o que viveu. Ao final, Zuenir Ventura e Edson Nery da Fonseca, encerram o tema Manuel Bandeira, a quem conheceram em vida. Como se vê, é realmente uma festa, em que há muita badalação e até um pouco de literatura. É, sem dúvida, um encontro midiático que atrai nomes internacionais, cujos cachês não estão nas alturas. Para alegria dos que gostam de Chico Buarque, ele é figura de proa nesta festa. É a “gota d’água”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/07/2009

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A ROUPA E O MONGE – Diário do Nordeste

Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe. Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros veem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. Lembro: em 1965, o Concílio Vaticano II tornou opcional a batina ou “hábito” fora dos atos litúrgicos. Assim, esse ditado parece não estar valendo para o Papa Bento XVI que usa batinas, estolas e sapatos de marca, apesar da pobreza ser louvada e glorificada pela Igreja Católica. Voltemos a Steve Jobs. O seu temperamento forte, dinâmico e difícil foi surpreendido pela doença. Em 2004 teve de retirar um tumor maligno no pâncreas. Agora, em 2009, como sequela da primeira doença, fez um transplante de fígado. Ele já era simples, porém abusado, ficou hoje, aos 54 anos, mais simples ainda. Tanto isso é verdade que, para substituí-lo – ou ajudá-lo – na direção dos negócios contratou, há anos, um executivo, Tim Cook, também usuário de calça jeans, mora em casa alugada, afável, trabalhador incansável e não gosta de aparecer. Jobs e Cook seriam, pois, o oposto de Donald Trump, aquele empresário, também americano, sempre na mídia social, que até marca de perfume virou. Afinal, cada um tem o seu jeito e, sendo maior de idade, deve-se saber que estilo é o que fica quando a moda passa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/07/2009

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MOTOTAXISTAS E A LEI – Jornal O Estado

Já andei de moto. Ainda tenho pequena cicatriz de queda levada. Eram outros tempos. A cidade comportava a convivência entre motos e carros. Hoje, tempos outros. Motos e carros disputam as faixas de pista sobradas das vans de aluguel, ônibus e caminhões. As avenidas e ruas são palcos diários de acidentes. O problema com as motos é que os acidentes são mais frequentes e o impacto é maior pela pouca proteção. As motos levam, quase sempre, duas pessoas. Uma é o guiador, dono da moto ou arrendatário. A outra é um passageiro apressado. Falo das mototáxis, produto típico de país ainda subdesenvolvido. Imagina, falar de mototaxistas para um inglês. What? Até os chineses, ainda pobres, já adaptaram os seus riquixás puxados à força humana para motos. Assim, são triciclos. Menos perigosos. No Brasil existem, neste 2009, 500 mil mototaxistas, espalhados em 3.500 cidades e, segundo se sabe, atendem a 10 milhões de passageiros. Por que isso acontece? Porque pessoas cansam de procurar emprego a exigir qualificações acima da média e o transporte coletivo não é suficiente. O brasileiro comum, desempregado, compra uma moto, aprende a guiá-la para sobreviver e pagar com o apurado. Os incomuns, segundo se diz, estão no Senado. Pois é esse Senado, em meio ao tiroteio interno e da mídia, que aprova, nestes dias, a carreira em que o profissional tem que estar sempre sobre duas rodas, em processo de equilíbrio a misturar lei da física, pressa ou estresse, pavimento ruim e desempenho dos outros veículos que o acossam nas maltratadas vias das cidades. Assim, enquanto se nega reserva de mercado para pessoas formadas em comunicação, se abre – ou se regulariza –nova categoria profissional. Brevemente, os sindicatos dessa categoria elegerão líderes para câmaras municipais, assembleias e até para o Congresso. Quem sabe, daqui a algum tempo, um mototaxista-congressista, atrás de votos, apresente condolências às famílias de Josés e Joões, seus colegas mortos pela “insanidade do trânsito”. Ao Presidente Lula, depois da aprovação no Senado, cabe vetar ou sancionar a lei. O que acontecerá?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/07/2009