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O GRITO DE DOLORES – Jornal O Estado

A Independência do México, país a que sirvo como Cônsul Honorário, não foi pacata como a do Brasil. Lá, houve um longo conflito. Aliás, a História do México é plena de guerras. Ao contrário, o nosso país até faz revoluções sem grandes perdas humanas. O conflito que levou à Independência do México teve várias nuances. O D. Pedro I do México foi um sacerdote católico, o padre Miguel Hidalgo y Costilla, dito Miguel Hidalgo. No México, como nos outros países hispânicos, o primeiro nome de família – ou sobrenome – é o do pai. O nome da mãe, embora conste do registro de nascimento, não é usado. Assim, Miguel Hidalgo foi o protagonista do “Grito de Dolores”, no dia 16 de setembro de 1810. Esse grito eclodiu dentro de uma simples Paróquia do lugar Dolores Hidalgo, no hoje estado de Guanajuato. Como se vê, no próximo ano de 2010, o México completará 200 anos como país independente e, certamente, terá muito que comemorar, pois hoje é o mais importante e o mais culto país de língua hispânica das Américas. Voltando ao fio da história: não bastou o grito para que o México, então Vice-Reino da Nova Espanha, ficasse independente. Oito anos se passaram para a poeira assentar e terminar com a guerrilha que acontecia nas serras do sul daquela pátria. De 1810 para cá, o México passou por outras tantas lutas, sendo a mais cruenta a que travou (1846-48) com os Estados Unidos quando perdeu metade de seu território. Eram mexicanos os territórios da Califórnia, Nevada, Texas, Utah, Novo México e parte do Arizona, Colorado e Wyoming. Por outro lado, essa perda significou, paradoxalmente, o caminho para a libertação dos escravos americanos, pois no México já não mais havia escravatura. Voltando ao hoje, nesta quarta-feira, 16 de setembro, data nacional mexicana, o Consulado Geral do México no Rio de Janeiro, dirigido pelo intelectual e diplomata de carreira, Andrés Ordóñes, abriu no Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo, a mostra “Cumplicidades” em que realça o centenário de nascimento da pintora Frida Kahlo e o cinquentenário da morte de seu companheiro de tintas e vida, o singular e grande artista Diego Rivera. São “36 fotografias que mostram as paixões compartilhadas por ambos os artistas, suas cumplicidades, durante mais de 25 anos de relação”. Por fim, como lá se diz:” Viva México!”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/09/2009.

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EUCLYDES, O HOMEM – Diário do Nordeste

Tenho procurado ler sobre Euclydes da Cunha(1866-1909). Não falo sobre o livro “Os sertões”, mas seu autor. Euclydes, com y – pois o alfabeto atual da língua brasileira assim o comporta – era tímido, muito tímido. Marco Antonio Villa, professor de História da Universidade Federal de São Carlos, é autor do livro “Canudos – O Povo da Terra”, tendo autoridade para descrever a personalidade do mais famoso representante da família Cunha. Cita o próprio Euclydes ao dizer que: “nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja”. Apesar disso, Villa o considera um homem de Estado, pois “toda a sua reflexão foi dirigida ao poder: em momento nenhum falou para o povo”. Uma semana antes de morrer teria dito para o cunhado: “Vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis… Tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas… Nunca se berrou tanta asneira sob o sol… Este país é organicamente instável”. Um amigo seu, Francisco Escobar, tentou sondá-lo para se candidatar a deputado. Euclydes respondeu: “Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer – para a qual não me preparei”. Vejam, tudo isso aconteceu na primeira década do século passado. Há exatos cem anos. Euclydes, entretanto, se beneficiou da frouxidão moral da política. Conseguiu ser nomeado professor do Colégio Pedro II, que era à época o Ginásio Nacional, graças à interferência de grupo de amigos que pediu a sua nomeação a Afonso Pena, o presidente (1902-1906) da época, em detrimento de Raimundo de Farias Brito(1862-1917), o grande e esquecido filósofo cearense, que havia tirado o primeiro lugar( Euclydes foi o segundo colocado) no concurso público para ensinar Lógica. Assim, uma coisa era o que via e pensava, outra a que vivia. Mas, como dizia minha avó Luiza, a justiça divina se fez e Euclydes só conseguiu dar dez aulas, pois logo foi assassinado por Dilermando de Assis, aquele que viria a ser marido de sua viúva. Mas, isso é outra história.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/09/2009.

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LER E ESCREVER – Jornal O Estado

Ainda parece estranho para alguns poucos o fato de eu escrever há tanto tempo. Parece igualmente esquisito para outros o fato de eu continuar a gostar de ler. Incomodam-se alguns ao saberem que a boa música me enternece. Deveriam estranhar que eu nunca soube cantar. Sou absolutamente desafinado. Tentei ser pianista e desisti com a desculpa de que era canhoto. Seis meses foi o tempo que a pianista Maria Helena Cabral perdeu comigo. Fui um péssimo jogador de futebol, só entrei em time de basquete quando não havia ninguém para completar o quinteto. Meti-me a participar de peladas de vôlei e quebrei o escafódio. Deixei o vôlei, mas descobri que tem um ossinho no punho com esse nome. No Exército, pus-me a atirar com revólver, fuzil e metralhadora e fui um fiasco. Passei por um triz. O que me restava era ler e isso eu fazia em um canto da casa dos meus pais por onde não passava ninguém. Era uma passagem de serviço por trás da garagem. Ninguém me via, nem ouvia, pois o ato de ler merece silêncio. E lia sempre desconfiando de quem escrevia. Será que isto é assim mesmo? E usava um lápis como arma para sublinhar, rabiscar e – pasmem – até discordar do autor que estava lendo. Como não conhecia nenhum escritor vivo, não tinha como imaginar a sua figura. Eu me imaginava um roteirista ou diretor de cinema e ia formando imagens do que estava a ler. Comecei a ler José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. Como não tinha participado de rodas literárias, pus-me a ler o que não era devido. Assim é que me apaixonei pelos escritos de Monteiro Lobato, não os livros infantis, mas A Barca de Gleyre. Li um pouco de André Maurois. Ele tinha sido presidente da Academia Francesa e eu pouco me importava com isso. Gostava de seus textos e pronto. Depois, encarei Dostoievski sem saber dos muitos nomes de cada personagem e da densidade de seus temas. O lápis era meu aliado na concatenação das idéias para fazer anotações à margem ou inventar uma espécie de glossário. Não desistia. E foi assim, errando e descobrindo, que o hábito da leitura tomou conta de mim. A propósito, a Bienal do Rio de Janeiro terminou agora e a maior atração foi José Mayer lendo texto de Érico Veríssimo. Está na hora de se repensar a função e a relação das bienais com o público. O povo que entender o que os escritores dizem. As bienais não podem ser fogueiras da vaidade de A ou B. Voltando ao fio: nada me agrada mais que um bom livro e fico triste quando recebo um best-seller de presente. Tenho, então, a certeza de que a pessoa não conhece os meus hábitos ou quis se basear em lista dos livros mais vendidos. Este ano, por exemplo, ganhei dois exemplares de um livro que não sai do primeiro lugar. Uma lástima melosa falando de um pai e morte da filha. Assim é que a minha desconfiança na leitura ou uma espécie de distanciamento crítico parece ter uma explicação psicanalítica. Complexo, não? Fui criando coragem e comecei a escrever diários para me acostumar com o fato de que poderia ler o que havia escrito. É bom ler o que se escreve, mesmo que seja bobagem. Melhor ainda é reler. É por estas razões acima expostas que o consegui trazer até o ponto final. Consegui?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/09/2009

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CONVERSAS DE DOMINGO – Diário do Nordeste

Última quinta, lancei o meu quinto livro. Ele é um extrato mínimo de centenas de artigos e crônicas publicadas em jornal. Não os reputo peças literárias. São apenas narrativas breves e, aqui e acolá, artigos de opinião. Não os centrei apenas em meu umbigo. O mundo é o seu picadeiro. Tentei estabelecer a dimensão de fatos, sua conexão com a realidade, com a vida e o comportamento humano. Uso, por limitação de espaço, linguagem curta e simples para me aproximar do leitor. Cada leitor é um crítico e por tal razão os escritos são abertos às suas lupas para reflexões. Não fora a indução de amigos, certamente não sairia este livro. “Conversas de Domingo” é um acidental encontro com o outro, com os meus fantasmas, meus amores e sonhos. Quem escreve em jornal e assina o seu nome é alguém disposto a ser julgado a cada semana por sentimentos revelados ou opiniões emitidas. Raras citações usadas não demonstram erudição. Revelam, quem sabe, a procura de validação de alguém, exemplo ou referência, em sua área de conhecimento. Algumas semanas trato de ideias. Em outras, sou anima e cuore, relatando tristezas, emoções e alegrias. Abordo, vez por outra, aspectos de viagens ao redor deste mundo, rico e pobre, e as impressões capturadas pelo obturador da minha retina, acasaladas no meu hardware mental. Não sou guia, sou apenas curioso. Tenho o olhar pronto para o inesperado. Não sou teórico, detesto falação sem racionalidade ou lógica. Sou traído, algumas vezes, pela indignação ou a emoção à flor da pele, pedindo passagem ou assumindo o espaço da dor contida, revolta ou a alegria da esperança. Entendo o leitor como alguém capaz de tirar conclusões, a partir da sua história pessoal. Não sou noticiarista. Apenas procuro ficar atento a acontecimentos, datas e feitos. Não esquadrinhem certezas nos meus escritos, apenas relato o cotidiano, cuidando de não me tornar monotemático. Como falo de muita coisa é certo não haver aprofundamento. Tento apenas arranhar ou assanhar a curiosidade dos leitores. “Conversas de Domingo tem muito de mim, como vivo, meus estranhamentos e amores”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2009.

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A GERAÇÀO PERDIDA E HEMINGWAY – Jornal O Estado

Terá sido mesmo, como intitulou a escritora americana Gerrude Stein, uma geração perdida, a que, vinda de países diversos, resolveu ocupar Paris nos anos 20 do século passado? A cidade de Paris, então o centro cultural do mundo, virou o exílio dourado ou o paraíso para imaturos escritores e artistas de todos os continentes, especialmente americanos do norte. Acreditavam eles que a elite cultural do planeta vivia ou acontecia nos arredores do Quartier Latin, na margem esquerda do Rio Sena. Essa área, onde se localiza, a Sorbonne, a universidade referência, gerava um espírito alegre coletivo e os cafés, bares, restaurantes, bibliotecas e museus favoreciam o convívio de gente querendo ser famosa e reconhecida. É esse o cenário que Ernest Hemingway usou em seu livro póstumo “Paris é uma festa”. Foi em 1921 o ano em que o jovem casal americano Elizabeth Hadley e Ernest Hemingway chega a Paris. Ernest participara da 1ª. Grande Guerra pela Itália, tinha estilhaços em uma das pernas e usava isso como diferencial. Nos cinco anos em que sedimentou leituras, fatos, relatos e aguçou sua visão objetiva, encontrou o ambiente que o empurrava para os rumos da então famosa livraria-biblioteca Shakespeare and Co. Foi em Paris que Ernenst consolidou a sua formação com leituras definitivas e ordenou os seus cadernos de notas em que registrava o fascínio por Tolstoi, Dostoiewski, Conrad, James Joyce, T.S. Eliot ,Proust e tantos outros. Assim, pouco a pouco, idealiza a sua estética e cria a ambiência para mesclar a sua ficção com o real. Como já havia dito Oscar Wilde: “a ficção antecipa a realidade”. Ao mesmo tempo em que se aprimorava, brigava com amigos, entre eles, Scott Fitzgerald. A seu modo e tempo, Ernest era correspondente de jornal, o que enxugava o seu texto. Nascido em 1899, Tinha pouco mais de 20 anos quando se aventurou no mundo da escrita. Aos 26, já havia escrito contos vanguardistas e lança “O sol também se levanta”. O livro não causou sensação. Descompensado, encharcado de mulheres e bebidas, no bar do Hotel Ritz, começou a contrair dívidas. Divorciou-se de Elizabeth, em 1927, e teve mais três casamentos complicados. Dois anos depois, lança “Adeus às armas”. Mas só após a sua participação como correspondente da Guerra Civil Espanhola, publicou, em 1937, “Por quem os sinos dobram”. Depois, veio “O velho e o mar” e assim a consagração, talvez tardia, em 1954, quando ganha o Prêmio Nobel de Literatura. A esse tempo, já deprimido, diabético, hipertenso e com arteriosclerose acreditava, em seu íntimo, que realmente a frase recorrente e maldita de Gertrude Stein fazia sentido. Ele era parte de uma geração perdida, pois não encarara a dura realidade do viver. Adepto da “evidência trágica”, morreu em 1961.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/10/2009.

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BRIGAS ENTRE GRUPOS – Jornal O Estado

Gostaria que essa estorinha que vou contar fosse concluída por você, caro (a) leitor (a). Veja que situações poderá criar. Use o seu talento, descubra-se escrevendo e trace o rumo de sua prosa. Escrever não é difícil, tampouco chato. A dificuldade é começar. Eis a estória: Encontraram-se, não por acaso, a Alegria, a Paz, a Harmonia, a Força e a Coragem. Formavam um grupo coeso, mas tinham adversários. Haviam sido desafiados pelo grupo rival, constituído pela Tristeza, a Guerra, a Desavença, a Fofoca e o Medo. Esse encontro, coletivo, era o primeiro. Um a um, já havia acontecido encontro. A Alegria quase sempre vencia a Tristeza. A Paz vencia e perdia. A Desavença levava vantagem com a Harmonia. A Força tentava sobrepujar a Fofoca, que era tinhosa. E a Coragem era sempre tentada pelo Medo. Assim, iam vivendo temerosos. Um grupo temendo o outro. Agora estavam, reunidos, tentando agir junto. Decidiram que a Paz seria a líder do grupo, pois sabia conter os ímpetos da Alegria, dar uma mão à desencantada Harmonia e usar a Força e a Coragem contra os inimigos. Por outro lado, os do outro grupo, nomearam a Guerra como seu chefe supremo, apesar das ponderações da Fraqueza e do Medo. Foram votos vencidos. Houve então a seguinte conversa. Começa assim: A Guerra ligou para a Paz: – Sou chefe do meu grupo, queremos briga. A Paz respondeu:- Guerra querida, você não muda. Mas tenho esperança que isso aconteça. Venha tomar um chá de bom senso comigo. A Guerra, explodindo de raiva, retrucou:- Só tomo chá de pólvora misturado com arsênico. O resto é para fracote. -Não importa que você me chame de fracote, mas queria abraçá-la e ver se pode criar juízo nessa cabeça pirada, disse a Paz. – Deixe de conversa mole, escolha as suas armas e vamos à luta. Será amanhã, às 4 da tarde, nas campinas perto do Lago, falou a Guerra, soltando fogo pelas narinas. -Estaremos lá, sem armas, fique bem e durma com tranquilidade, disse a PAZ. E a Guerra: – Bem que eu poderia dormir com você, mas aí a estória seria outra, quente. -Crie juízo, finalizou a Paz, desligando o telefone. A estória, contada por mim, terminou. Será que você poderia continuá-la? Dizer como foi o encontro dos dois grupos? Quem venceu? Que armas usaram? Quem se destacou? As respostas são suas, mas se quiser enviá-las para mim use o e-mail oestado@gmail.com.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/06/2009.

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ENTRAR E SAIR – Diário do Nordeste

O ser humano tem ambições. Uns, aspiram apenas sobreviver. Outros, vencer. Para a maioria vencer é estudar, conseguir emprego, ter filhos ou ser dono do seu destino. Mas, há os que almejam muito mais. Precisam de fama, sucesso, força, dinheiro ou possuir poder, seja ele qual for. O caso do Senador José Sarney é emblemático. Conseguiu tudo o que um homem comum ambicionaria ser. Casou, teve filhos, formou-se, tornou-se deputado, senador por dois estados, governador e até Presidente da República. Além disso, é membro da mais prestigiada instituição cultural do Brasil, a Academia Brasileira de Letras. É um pai à moda antiga, cuida bem dos seus, mas tem a política como ópio. Assim, aos 79 anos, sofre uma série de denúncias de adversários, jornalistas e até de aliados. Não entro no mérito da questão, mas indago-me se não teria sido mais sensato para ele, nesta quadra da vida, escrever sua biografia, criar outro romance como o bom “Saraminda” ou presidir a Academia? Entretanto, aceitou, pela terceira vez, ser candidato a presidente do Senado, derrotando Tião Viana em luta feroz que deixou sequelas. Ao mesmo tempo, pelejava para reverter o quadro real da eleição do Maranhão e, ao final, fez de sua filha querida, Roseana, novamente governadora. Ela, doente, apoiou-se no pai extremado para vencer a batalha perdida nas urnas. Outra guerra, mais inimigos. Roseana, tal como o pai, também era senadora. Volta ao governo e, em seguida, se licencia. Possui crônicos problemas de saúde, tendo sofrido quase 20 cirurgias, lutou à exaustão para voltar ao Palácio dos Leões. Agora mesmo, acaba de sair de intervenção neurológica, por conta de aneurisma. Lembro de Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, de 1936, admitindo que a família quando se torna poderosa vira exigente, e sua sombra, persegue os seus mesmo fora do ambiente familiar. Assim, a família, como entidade privada, passa a preceder sempre a entidade pública. Estas poucas linhas não julgam, apenas relatam fatos públicos e tentam mostrar sempre ser difícil entender os múltiplos atos e momentos de nossas vidas. Vale a pena?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/06/2009.

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PARATY E A FLIP Jornal O Estado

Devo estar em Paraty, cidade entre Angra dos Reis e Ubatuba, quase à margem da estrada Rio-Santos. São quase quatro horas do Rio de Janeiro para cá. É inverno por aqui. Nada que um agasalho ou um blazer não resolva. Paraty é cidade histórica, com preservação de algumas áreas e prédios. Tem praia, bares, restaurantes e pousadas de todos os tipos. Vive do turismo, férias e pacotes de viagens, especialmente neste início de julho, quando tudo triplica de preço. Vim, curioso que sou, ver a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Há dúvidas sobre a essência literária dessa festa. Vim para conferir. Neste ano, por exemplo, discute-se a obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que, imaginem só, são apresentados cantores (os eternos Francis Hime e Olívia Hime), filmes e até histórias em quadrinhos (HQs). Parte-se daí para agitar o relacionamento amoroso, nas visões do cineasta Domingos de Oliveira, diretor de “Separações” e do escritor Rodrigo Lacerda. Claro que existem atrações internacionais. A primeira atração é o neodarwinista, Richard Dawkins. Depois, Chico Buarque e Milton Hatoun, conversando sobre o que as suas obras ajudam na formação do país. A música é objeto de bate-papo com Alex Ross, da revista New Yorker. A família cai na dança e é debatida por Anne Enright e James Salter. Gay Talese, autor, entre outros, de “Fama e Anonimato”, conversa sobre o novo jornalismo, de que é profundo conhecedor, com Mário Sérgio Conti, TV-Senac. O mexicano Mário Bellatin e o brasileiro Cristóvão Tezza procuram explicar suas experiências pessoais como literatos. E, para não cansar vocês, Catherine Millet, aquela que escreveu, quando jovem, a “Vida Sexual de Catherine M”, fala sobre o que viveu. Ao final, Zuenir Ventura e Edson Nery da Fonseca, encerram o tema Manuel Bandeira, a quem conheceram em vida. Como se vê, é realmente uma festa, em que há muita badalação e até um pouco de literatura. É, sem dúvida, um encontro midiático que atrai nomes internacionais, cujos cachês não estão nas alturas. Para alegria dos que gostam de Chico Buarque, ele é figura de proa nesta festa. É a “gota d’água”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/07/2009

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A ROUPA E O MONGE – Diário do Nordeste

Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe. Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros veem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. Lembro: em 1965, o Concílio Vaticano II tornou opcional a batina ou “hábito” fora dos atos litúrgicos. Assim, esse ditado parece não estar valendo para o Papa Bento XVI que usa batinas, estolas e sapatos de marca, apesar da pobreza ser louvada e glorificada pela Igreja Católica. Voltemos a Steve Jobs. O seu temperamento forte, dinâmico e difícil foi surpreendido pela doença. Em 2004 teve de retirar um tumor maligno no pâncreas. Agora, em 2009, como sequela da primeira doença, fez um transplante de fígado. Ele já era simples, porém abusado, ficou hoje, aos 54 anos, mais simples ainda. Tanto isso é verdade que, para substituí-lo – ou ajudá-lo – na direção dos negócios contratou, há anos, um executivo, Tim Cook, também usuário de calça jeans, mora em casa alugada, afável, trabalhador incansável e não gosta de aparecer. Jobs e Cook seriam, pois, o oposto de Donald Trump, aquele empresário, também americano, sempre na mídia social, que até marca de perfume virou. Afinal, cada um tem o seu jeito e, sendo maior de idade, deve-se saber que estilo é o que fica quando a moda passa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/07/2009

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MOTOTAXISTAS E A LEI – Jornal O Estado

Já andei de moto. Ainda tenho pequena cicatriz de queda levada. Eram outros tempos. A cidade comportava a convivência entre motos e carros. Hoje, tempos outros. Motos e carros disputam as faixas de pista sobradas das vans de aluguel, ônibus e caminhões. As avenidas e ruas são palcos diários de acidentes. O problema com as motos é que os acidentes são mais frequentes e o impacto é maior pela pouca proteção. As motos levam, quase sempre, duas pessoas. Uma é o guiador, dono da moto ou arrendatário. A outra é um passageiro apressado. Falo das mototáxis, produto típico de país ainda subdesenvolvido. Imagina, falar de mototaxistas para um inglês. What? Até os chineses, ainda pobres, já adaptaram os seus riquixás puxados à força humana para motos. Assim, são triciclos. Menos perigosos. No Brasil existem, neste 2009, 500 mil mototaxistas, espalhados em 3.500 cidades e, segundo se sabe, atendem a 10 milhões de passageiros. Por que isso acontece? Porque pessoas cansam de procurar emprego a exigir qualificações acima da média e o transporte coletivo não é suficiente. O brasileiro comum, desempregado, compra uma moto, aprende a guiá-la para sobreviver e pagar com o apurado. Os incomuns, segundo se diz, estão no Senado. Pois é esse Senado, em meio ao tiroteio interno e da mídia, que aprova, nestes dias, a carreira em que o profissional tem que estar sempre sobre duas rodas, em processo de equilíbrio a misturar lei da física, pressa ou estresse, pavimento ruim e desempenho dos outros veículos que o acossam nas maltratadas vias das cidades. Assim, enquanto se nega reserva de mercado para pessoas formadas em comunicação, se abre – ou se regulariza –nova categoria profissional. Brevemente, os sindicatos dessa categoria elegerão líderes para câmaras municipais, assembleias e até para o Congresso. Quem sabe, daqui a algum tempo, um mototaxista-congressista, atrás de votos, apresente condolências às famílias de Josés e Joões, seus colegas mortos pela “insanidade do trânsito”. Ao Presidente Lula, depois da aprovação no Senado, cabe vetar ou sancionar a lei. O que acontecerá?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/07/2009