Já faz muito tempo. Eu era criança quando se podia ir à escola a pé ou de ônibus, ficar brincando na praça perto de casa sem ninguém importunar, jogar futebol com bola de pito.
Eu era criança quando se acordava cedo, orava, tomava banho, vestia a farda, bebia-se café com leite e pão com manteiga ou uma vitamina onde a banana era o carro chefe, levava-se merenda e voltava faminto para almoçar. Mas se aguardava a chegada do pai.
Eu era criança quando se colecionava carteira de cigarros, flâmulas, lápis, moedas, cartões postais, álbuns com artistas de cinema e jogadores de futebol. Jogava-se triângulo, bila, que depois virou bola de gude, soltava-se arraia, que mudou para pipa, e todo menino tinha um time de botão cujo melhor jogador, não sei porque, era sempre o “Paulo Caminha”.
Eu era criança quando quiseram me ensinar a escrever com a mão direita. Não aceitei. Até hoje continuo usando a mão esquerda para tudo e a direita para quase nada.
Eu era criança quando minha mãe queria mandar uma empregada me levar ao colégio segurando minha mão. Não concordei. Fizemos um armistício: a empregada iria pelo outro lado da calçada.
Eu era criança quando um diretor de escola puxou a minha orelha porque me atrasei no recreio. Joguei o refresco que estava tomando em seu corpo, pedi para falar com o meu pai e disse que não ficaria mais ali. Ele concordou.
Eu era criança quando se marchava no dia 7 de setembro puxando carneirinhos ou com caixas de sapato às costas, cobertas de papel branco com uma cruz vermelha, como se fôssemos enfermeiros.
Eu era criança quando no carnaval havia corso, as pessoas passeavam em caminhões e carros conversíveis, sentavam nos para-lamas ou pisavam nos para-choques. Jogavam-se talco, serpentina, confete e dois tipos de lança-perfumes, um dourado e outro de vidro.
Eu era criança quando a praia ainda se fazia distante, pois a cidade lhe dava as costas. Não havia edifícios e os pescadores misturavam-se aos banhistas. Os calções eram frouxos, a areia era branca, limpa e boa para jogar futebol, vôlei ou frescobol.
Eu era criança, imaginem, de rezar o terço, das missas aos domingos, ir às lojas com minha mãe, acompanhar procissões, comungar às primeiras sextas feiras de cada mês, mas não deixava de aprender jiu-jitsu.
Hoje, já não sei bem o que é ser criança. Acompanhei, passo a passo, a vida de minhas filhas, desde o pré-natal. Agora, meio sem jeito e sentindo que estou como que sobrando, tento me misturar com duas pequeninas netas. Mas, não sei mais, de verdade, o que é ser criança Nem sei que presentes dar no Dia das Crianças. As opções são tantas e nada parece ser novidade.
Não gosto do “no meu tempo”. Cada tempo tem suas próprias cores e vida e as cores e a vida de hoje resplandecem de outra forma. Não sou e nem pretendi ser saudosista, quis apenas lembrar o que, à época, se fazia com alegria e simplicidade que, talvez, fossem, para os de então, a essência da felicidade.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/10/1999.
