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SER CRIANÇA

Já faz muito tempo. Eu era criança quando se podia ir à escola a pé ou de ônibus, ficar brincando na praça perto de casa sem ninguém importunar, jogar futebol com bola de pito.
Eu era criança quando se acordava cedo, orava, tomava banho, vestia a farda, bebia-se café com leite e pão com manteiga ou uma vitamina onde a banana era o carro chefe, levava-se merenda e voltava faminto para almoçar. Mas se aguardava a chegada do pai.
Eu era criança quando se colecionava carteira de cigarros, flâmulas, lápis, moedas, cartões postais, álbuns com artistas de cinema e jogadores de futebol. Jogava-se triângulo, bila, que depois virou bola de gude, soltava-se arraia, que mudou para pipa, e todo menino tinha um time de botão cujo melhor jogador, não sei porque, era sempre o “Paulo Caminha”.
Eu era criança quando quiseram me ensinar a escrever com a mão direita. Não aceitei. Até hoje continuo usando a mão esquerda para tudo e a direita para quase nada.
Eu era criança quando minha mãe queria mandar uma empregada me levar ao colégio segurando minha mão. Não concordei. Fizemos um armistício: a empregada iria pelo outro lado da calçada.
Eu era criança quando um diretor de escola puxou a minha orelha porque me atrasei no recreio. Joguei o refresco que estava tomando em seu corpo, pedi para falar com o meu pai e disse que não ficaria mais ali. Ele concordou.
Eu era criança quando se marchava no dia 7 de setembro puxando carneirinhos ou com caixas de sapato às costas, cobertas de papel branco com uma cruz vermelha, como se fôssemos enfermeiros.
Eu era criança quando no carnaval havia corso, as pessoas passeavam em caminhões e carros conversíveis, sentavam nos para-lamas ou pisavam nos para-choques. Jogavam-se talco, serpentina, confete e dois tipos de lança-perfumes, um dourado e outro de vidro.
Eu era criança quando a praia ainda se fazia distante, pois a cidade lhe dava as costas. Não havia edifícios e os pescadores misturavam-se aos banhistas. Os calções eram frouxos, a areia era branca, limpa e boa para jogar futebol, vôlei ou frescobol.
Eu era criança, imaginem, de rezar o terço, das missas aos domingos, ir às lojas com minha mãe, acompanhar procissões, comungar às primeiras sextas feiras de cada mês, mas não deixava de aprender jiu-jitsu.
Hoje, já não sei bem o que é ser criança. Acompanhei, passo a passo, a vida de minhas filhas, desde o pré-natal. Agora, meio sem jeito e sentindo que estou como que sobrando, tento me misturar com duas pequeninas netas. Mas, não sei mais, de verdade, o que é ser criança Nem sei que presentes dar no Dia das Crianças. As opções são tantas e nada parece ser novidade.
Não gosto do “no meu tempo”. Cada tempo tem suas próprias cores e vida e as cores e a vida de hoje resplandecem de outra forma. Não sou e nem pretendi ser saudosista, quis apenas lembrar o que, à época, se fazia com alegria e simplicidade que, talvez, fossem, para os de então, a essência da felicidade.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/10/1999.

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RUPTURAS

É próprio do ser humano viver de rupturas. Aliás, as rupturas são o cerne do crescimento e progresso, sejam eles pessoais ou coletivos. Todo ato de romper, criar é, em sua essência, uma desobediência, uma quebra com o estabelecido, a procura do novo, mesmo que o novo seja até a reencarnação do velho.
Neste momento que estamos vivendo no mundo, no Brasil e em nossas vidas pessoais tão plenas de problemas e carentes de soluções, é chegada a hora das rupturas, de cada um entender que a mesmice, seja ela coletiva ou pessoal, não nos levará a nada, a não ser a vala comum da mediocridade, onde todos são enterrados como cadáveres desconhecidos ou indigentes mentais.
É preciso ter a coragem de ousar, de olhar o dia, a vida, as pessoas e o mundo que nos cerca como algo a ser modificado, a partir de nossas informações, conhecimentos e valores que, necessariamente, sofreram abalos sísmicos desde os nossos nascimentos. Os valores e a cultura que nos foram passados por nossos ancestrais, pais e mestres, embora essenciais à nossa formação, já não são mais referências pétreas. Até porque a velocidade das transformações ocorreu em todos os campos do conhecimento humano. O certo, o justo e o correto são decorrência de valores em mutação e isto causa um desconforto tanto na “Terra de Marlboro” como aqui na pátria do “levar vantagem em tudo”. Até os amorais e imorais, naturalmente infensos a questões existenciais, estão sendo atingidos por essa aura benfazeja.
Francis Fukuyama, um polêmico professor americano da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, já havia escrito há mais de uma década que estávamos no fim da História. Segundo ele, as nações tenderiam a ser democracias liberais e, quando atingissem esse fim, a História terminaria. Iria acabar por falta de objetivo, a ausência da luta pelo domínio, a conquista e o reconhecimento, próprios do ser humano.
Agora, passados dez anos, ele nos propõe uma nova leitura sobre o mesmo tema. Com o seu novo livro, a “Grande Ruptura” (The Great Disruption), ele fala das grandes crises ocorridas nas décadas de 60 a inícios da de 90, como o aumento de criminalidade, divórcios, filhos naturais e, do outro lado, o descrédito pelas instituições sociais e a perda da confiança pessoal.
Citando Fukuyama, Anthony Gottlieb, do “The NYT Book Review”, destaca esse trecho de seu livro: “os seres humanos sempre criam regras morais pelas quais se pautam, em parte porque a natureza os fez assim e em parte pela busca de satisfação de seus próprios interesses”. Gottlieb deseja, na verdade, criticar. E o faz com veemência: “esse é um fenômeno para o qual Fukuyama oferece apenas respostas insatisfatórias”. Ele insiste que nossa recuperação da Grande Ruptura não teve nada de automático.
Eu concordo com Gottlieb. Creio que, rompendo, nós todos estamos crescendo e avançando e isto faz a diferença. Hoje, cada um está, a seu modo, vivendo a sua ruptura continuada, descobrindo novos caminhos, fazendo releituras de suas histórias e tentando obter respostas. E isso é bom.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/10/1999.

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O SENTIDO DAS COISAS

Tem muita gente procurando o sentido das coisas. Compra livros, vai a analistas, escolhe um guru, reza, mas não o encontra. Claro, não há encontro com o sentido das coisas.
Para se saber o sentido das coisas é preciso criá-lo. Você é que deve fazer com que as coisas tenham sentido. Não adianta a muleta dos livrinhos de autoajuda, dos analistas cheios de problemas pessoais a resolver, dos gurus ascéticos e carentes de realidade e da oração sem fé, como uma troca.
Não basta também a boa vontade dos parentes, amados ou dos amigos, você tem de descobrir a sua própria história, viver as suas próprias dores e despedaçar-se, pois, segundo Cecília Meireles “quanto mais me despedaço mais fico inteira e serena”.
Para as coisas terem sentido é preciso que a pessoa se despedace, com o condão de ficar inteira, como resgate.
Todos nós temos ouvido frases como: “a minha vida não faz sentido”, “isto não faz sentido”. E o que faz sentido para você? A vida dos outros? Calcem as suas botas e descubra o seu mundo. Não é preciso ir a Santiago de Compostela para encontrar o Ser Supremo, nem ir a um “ashana” na Índia para ficar zen.
Você é que tem o caminho, o cajado e a escolha. Faça-o sem medo, no dia a dia, em meio à pontaria dos que lhe atiram flechas, como se você fosse o alvo. Você não é alvo, você é algo, torne-se especial, sendo simples. Não precisa usar as sandálias do pescador para se tornar puro, a pureza não vem do vestuário, nem dos olhos dos outros, ela assoma do seu coração e quem o redime é a sua consciência, não o julgamento dos outros.
Cuide de você e já terá um grande trabalho. Que ser complexo é ser você. Ser você é ser único e não uma cópia de alguém ou do modelo que imaginam lhe cair bem. “É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la”, já dizia Fernando Pessoa. Torne-se romântico sem ser piegas.
Não pense, por exemplo, que “As time goes by”, “She” ou “New York, New York” foram compostas para você, mas se permita sentí-las. Da mesma forma, não se sinta embriagado com Marisa Monte, Fernando Brandt, Milton Nascimento e, vá lá, Roberto Carlos, mas os considere como reserva técnica de seus devaneios. Não deixe que os outros façam as suas coisas e escolham seu destino, calce os seus próprios sapatos, caminhe a dura estrada e se, não encontrar estrada, faça uma. Seja um Rondon, sem medo de florestas e de feras. Quem tem medo fica acuado e não vive, perde-se no labirinto e não encontra a saída e ela pode estar bem aí à sua frente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/1999.

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CONSTRUTOR DE SONHOS

Sonhei que eu era um construtor de sonhos. Amo sonhar o impossível, como diria Goethe. Um menino nascido em meio a uma realidade dura, tentando transformá-la, abençoado por Deus, pela esperança, por pessoas e pelos ventos dos tempos.
Nesse sonho, entre os bocejos da noite e o espargir da aurora, cuidei de plantar. Preparei o solo, eu que nem de terra entendo, adubei-a com o sal do suor, misturado a raras, mas sofridas lágrimas e a reguei com afinco, como se fora uma chuva fina e constante que molha, mas não encharca.
Sonhei que não acreditavam no meu plantio, mas não sabiam que as sementes tinham na sua composição as qualidades do destemor e da perseverança e, se pareciam fenecer, era apenas o entretempo certo ao desabrochar radioso. E eu jardineiro estava ali presente, sempre. Os jardineiros têm as mãos marcadas por espinhos, mas não perdem a sensibilidade, nunca.
Raras sementes e a espera, após a rega, se fizeram demorar, pois não eram couves, imaginavam-se bambus, poucos que fossem. E furaram a terra difícil e viram o despontar do sol em meio a um quase deserto. Como eram bambus ou queriam ser bambus não tinham medo dos açoites dos ventos e os recebiam com um aparente vergar. Engano ledo. Logo voltavam, eretos e se faziam fortes para florescer em meio às daninhas ervas.
E como em sonho tudo é permitido, os poucos bambus foram se enfeixando, metamorfoseando-se em um jovem baobá. Sentindo a licença poética dessa transmutação genética, advertiam que os baobás eram uma espécie em extinção. Importava não, a licença poética permitiria a ação transgênica, ora bambu, ora baobá.
Cada sonho é, digamos uma utopia e nem todos são Thomas Morus, mas há os que acreditam nas suas utopias pelo relativismo das coisas. E o sonho não era mais um sonho, posto realidade com a clareza e os matizes da vida. E o sonho amadureceu. Amanheceu.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/10/1999.

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O FUTURO MEXICANO

O México está vivendo neste domingo, 02 de julho, uma data extremamente importante. Serão realizadas eleições gerais em todos os níveis. Cerca de 58 milhões de mexicanos irão às urnas para escolher o novo Presidente da República, 500 deputados, 128 senadores, prefeitos e vereadores.
O México é pouco conhecido para a maioria dos brasileiros que o associam a “sombreros”, “tequillas”, “tacos”, mariacchis”, às praias de Cancún e Cozumel, às novelas que a SBT retransmite e à grande população (20 milhões) de seu Distrito Federal. O México é mais que isso .É um país que luta tenazmente para conseguir um estágio de crescimento que permita a diminuição das suas desigualdades sociais. E o faz demonstrando uma grande pujança econômica, após a crise eclodida em dezembro de 1994. O petróleo e as empresas montadoras decorrentes do NAFTA, entre outros, dão ao México um relativo suporte para seguir em busca de seu grande destino.
Com uma população de quase cem milhões de habitantes, vive um instante importante nas suas exportações com 150 bilhões de dólares neste ano de 2000 a uma taxa de crescimento de 5% do seu Produto Interno Bruto, com uma característica especial. Das 40 mil empresas exportadoras estabelecidas no México, 95% são pequenas e médias
Sendo a segunda economia latino-americana – e o país latino mais próximo dos Estados Unidos- está sob os holofotes da imprensa internacional, inclusive brasileira, neste instante significativo de sua trajetória em busca da sua consolidação democrática.
Observadores, jornalistas e integrantes de organizações governamentais internacionais e ONG’s estão dando especial atenção ao processo eleitoral de hoje que escolherá, para um único mandato de seis anos, o novo presidente da República, pois no México não há nem reeleição, tampouco segundo turno.
Esse caldeirão,reunindo progresso e ainda desigualdades, tem sido o principal argumento dos três principais candidatos à sucessão do Presidente Ernesto Zedillo que assegura um pleito limpo, pois, segundo ele “o sistema eleitoral mexicano é eficiente e os resultados serão transparentes”.
Os três candidatos mais fortes são Francisco Labastida Ochoa, do Partido Revolucionário Institucional, Vicente Fox Quesada, da Aliança pela Mudança (Pan/Pvem) e Cuaúhtemoc Cárdenas da Aliança por México (Prd/Pt/Psn/Pás/Cd).
Os candidatos com mais chances de vencer são Francisco Labastida Ochoa e Vicente Fox Quesada que estão praticamente empatados em todas as pesquisas de opinião levadas a efeito.
Com matizes ideológicos semelhantes, os dois principais candidatos focaram as suas campanhas em ataques aos adversários e na indicação de soluções para os problemas da nação, sob a proteção da dualidade cósmica da águia e do jaguar, que representam o dia e a noite, o céu e a terra mexicanos. Isto sem falar em orações à Virgem Morena (N.Sra. de Guadalupe), apesar do país ser laico.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/07/2000.

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OPINIÕES

Algumas pessoas têm me perguntado sobre a repercussão que teve o meu livro “Sobre a Vida e o Amor”. De princípio, evitei falar. Mas, por dever de gratidão, reproduzo, em rigorosa ordem alfabética, algumas opiniões generosas. Nenhuma delas foi provocada. Todas absolutamente espontâneas, umas publicadas na imprensa, outras remetidas diretamente para mim. A todos, meu muito obrigado.
“Tenho lido assim: saboreando aos pouquinhos. Assim, vem a alegria, a ternura, a reflexão, o sonho, o criador, força, nostalgia, saudade, sensualidade, tranquilidade, graciosa descrição, tristeza, ação, fraternidade e verdade. Tantas coisas”. Ana-Isa Barbosa – pedagoga
“Cronista bom é aquele que tem olhos para ver e alma para sentir o drama do cotidiano. Suas páginas agradam não só pela suavidade do estilo como pela objetividade dos conceitos”. Blanchard Girão – escritor
“Gostei bastante da maneira com que você apresenta certos temas, atacando mitos, criticando o ridículo, denunciando o absurdo ou, então, expondo seus sentimentos, suas vivências, suas alegrias, seus sofrimentos. De tudo, o que mais me agradou, foi a sua coragem de se expor”. Claudia Broetto – analista Bacen
“Concordei com suas colocações. Não só concordei. Ri e chorei. A sua linguagem é simples, precisa e correta. Suas ideias são ótimas e você sabe tirar do cotidiano salutares lições de vida”. Célia Vause – professora USA.
” Sabia que você escreve bem, é lido e sabe diversificar os temas para as suas crônicas. Você não me surpreendeu mais, porque o conheço de anos atrás, sempre inteligente…” Eduardo Campos – escritor
“Gostei muito. Também me diverti com as artimanhas que usa para esconder, ou proteger sua individualidade. Parece que é ET, algumas vezes pairando sobre o bem e o mal, a vida e o amor. Conhecedor profundo de seus mistérios, todos”. Eliana Palma, radialista
“Gostei sobremaneira do modo como consegue ser profundo e sucinto ao mesmo tempo. Você se revelou um homem sensível e justo diante da vida, com opiniões e conselhos sábios”. Neusa Veríssimo -mestra de Yoga
“Foi lendo seu livro na varanda da pousada onde me hospedei por três dias que tive o ensejo de violar o espaço sagrado de seu interior através das palavras que suas crônicas me proporcionaram.” Ubiratan Aguiar – dep. federal
“Amei sobretudo ‘Meu pai’ e os artigos em que você fala sobre sua dependência das mulheres, isso é grande, um homem inseguro não revelaria isso”. Nícia Cláudia Marcílio – juíza do trabalho
“Além de um belo conteúdo, este livro tem servido para um leitor atento verificar que, no Brasil, as coisas nunca mudam, e quando mudam, quase sempre, para pior. Eu gostaria de lhe pedir permissão para emprestar este seu material, para alguns amigos, professores e estudantes do Brasil, que se encontram aqui em Cornell.” Raimundo Souza – professor doutor visitante, Cornell University-U.S.A
“Aprendo e me delicio com os seus textos”. Roberto Martins Rodrigues – professor e procurador da república.
” Ficou mesmo bonito. Voltei a folhear os seus artigos e gostei de relê-lo, mais do que da primeira vez”. Saulo Neiva – professor doutor, França, prefaciador do livro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2000.

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O DINOSSAURO E O FUTURO

Eu sou um dos dinossauros da profissão de administração. Fui aluno da primeira turma e, se me lembro bem, junto com um punhado de colegas, andei ajudando no processo de reconhecimento do curso de administração, na regulamentação da profissão e até nas escolhas do símbolo e da cor da pedra do anel de formatura.
A profissão era absolutamente nova. Ninguém tinha idéia exata do que aprender e, muitos professores, do que ensinar. Era um processo de ajuda mútua, de erros e acertos, ajuste de currículos e mudança de sede emprestada, para alugada e, finalmente, própria.
Foi uma luta muito grande. Pouca gente sabe disso e, os poucos que sabem, não lembram ou fazem idéia das idas ao MEC e das vindas de comissões do Ministério de Educação para aprovar o curso. Vestibular, pasmem, foram dois. O primeiro não valeu, apesar de aprovados e cursando até outubro. Tivemos que fazer um novo e repetir o primeiro ano. Alguns desistiram, outros foram em frente.
Hoje, passados tantos anos, vejo que a luta não foi sem sentido. Da Escola de Administração já saíram ministros, um governador e um vice (os atuais), prefeitos, senadores, deputados federais e estaduais, administradores de empresas multinacionais, nacionais, regionais, estaduais e locais. Isso é um dado bastante positivo e pode servir de referência para a história.
Por outro lado, sei que isso pode parecer coisa do passado e “o passado não move moinhos”. Acontece que não temos moinhos de vento e o passado, neste caso, é que dá autoridade a algumas pessoas para propor uma revisão crítica da carreira do administrador e a conseqüente melhoria da qualidade do ensino. Melhorar significa dar uma qualidade maior às coisas boas que são feitas. Melhorar é tornar-se capaz em face das condições emergentes deste século novo que vai começar em poucos meses.
A globalização e a competição desenfreada germinaram tudo isso. Nós estamos ai com um mundo completamente diferente, por exemplo, de há dez anos. A velocidade das transformações dos processos de gestão cria essa angústia em profissionais recém formados que não têm ferramentas para ingresso no escasso mercado de trabalho e, por outro lado, elimina os que não souberam se ajustar ao mundo informatizado e prenhe de novas informações e conhecimentos.
Não basta, por exemplo, fazer esses cursos de especializações e MBAs, muitos sem consistência e visando apenas fornecer diplomas em troca de dinheiro.
Recentemente, soube de um processo de seleção promovido por um “headhunter” para “trainees” ou profissionais recém-formados. Fizeram uma pré-seleção com avaliações específicas da profissão e de conhecimentos gerais. Passaram uns 20% dos inscritos. Na segunda etapa, colocaram todos em uma sala às 7.30 horas da manhã e disseram: quem não leu os jornais de hoje pode sair da sala. Em seguida: quem não falar inglês fluentemente, pode sair da sala. Quem não souber utilizar a informática como ferramenta básica, até logo. Os poucos que ficaram ainda tiveram que fazer uma última prova.
O mercado está a exigir mais capacitação, excelência e eficácia. E o mercado não manda mais avisos. Age de olho no futuro que se prenuncia nebuloso para as pequenas e médias empresas e cruel para os profissionais que não estiverem de acordo com as suas exigências, cada dia maiores e mutantes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/07/2000.

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O RIO, A AMIGA E O HOTEL

Parece nítida a imagem. A Av. Atlântica ainda era estreita e abrigava, do posto 02 ao 06, vários casarões e sobrados. Em um deles, a proprietária, uma ex- nobre viúva de muitos e muitos anos, hospedava moças de “fino trato, bem recomendadas e de boa família”. Entre elas, uma amiga que viera passar as férias de julho no Rio. Eu me deslocava para visitá-la lá da Ilha do Governador, onde ficava na casa de uma tia.
Em horários marcados para sair e voltar, passeávamos alegres e despreocupados. Um desses passeios era ir até à esquina da Rua Sá Ferreira, onde se erguia o bonito e majestoso Miramar Palace Hotel. Lá, um empresário destas plagas, hospedava-se com toda a sua família por semanas seguidas. Éramos recebidos no “lobby” e os meus olhos de jovem ficavam impressionados com a suntuosidade da escadaria, a beleza dos lustres, o brilho dos mármores e a vista do mar descortinada de suas sacadas.
Aquilo ficou gravado na minha memória. Anos após, já formado e começando a minha vida profissional, hospedei-me no Miramar para tentar sentir a mesma sensação gerada no primeiro impacto visual. Era julho, novamente, fazia o mesmo friozinho gostoso e comportado do Rio e recebi amigos no mesmo “lobby” e no bar. Senti-me infantilmente vaidoso de estar no lugar idealizado na primeira juventude.
Semana passada, mesmo sem precisar, mas para um ajuste de contas com o passado, voltei a ficar no Miramar. Aos meus olhos de hoje, não passa de mais um velho e razoavelmente conservado grande hotel do Rio, que perdeu parte de seu charme ao ceder sua varanda térrea, defronte ao mar, para uma cadeia estrangeira de sorvetes sofisticados.
Hospedei-me no nono andar e vi, por breves dias o mar encoberto pela fria neblina deste novo julho, décadas depois. Fiquei olhando o imenso apartamento, com sofás, mesa de jantar e quarto de dormir, e tudo voltou à tona. Mas não havia mais perguntas e as respostas pareciam não fazer mais sentido.
A Av. Atlântica, alargada, já não comporta mais o fluxo de veículos, e é ainda essa mistura de encanto, sedução – e agora – permanente medo. Os sobrados e casarões foram, há muito, implodidos em nome do progresso e a amiga de então quedou-se sozinha em sua vida povoada de leituras, pela madrugada, de livros, pareceres e processos. Eu, por outro lado, já não tenho os fervores da juventude e da imaturidade e, o barulho seqüenciado – e monocórdio – do mar parece mostrar, sem nenhuma dúvida, que os sonhos são engolfados pela realidade, que nos puxa para frente, mesmo que as lembranças do passado estejam por perto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2000.

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O ESCREVER EFÊMERO

Li, com interesse, um artigo do filósofo e escritor (nem todo filósofo é escritor e recíproca é verdadeira) espanhol Fernando Savater sobre “A importância do efêmero”. Nele, Savater fala de sua preocupação com as novas gerações virem a esquecer de ler jornais, em troca da navegação pela Internet e dos “chats” de conversação.
Eu penso que sempre existirão jornais, talvez as formas venham a ser diferentes, mas as pessoas gostam do prazer tátil de abrir um jornal e procurar o que lhe interessa ou atrai. As novas gerações precisam ser incentivadas, especialmente pelas famílias e os próprios jornais, deveriam ser mais alegres, menos sisudos e ter uma forma de comunicação mais leve para conquistar novos e jovens leitores.
Voltando a Savater. Para alegria minha, ele elogia os artigos publicados em jornais – mesmo os de tipia tão diminuta como este, que força a vista do leitor. Ele diz que a efemeridade do artigo é o fundamental: “Nenhum artigo, por melhor ou certeiro que seja, sobrevive muito além do dia em que sai impresso. Pelo menos não é saudável para quem o escreva pense que está cunhando um ditame para os séculos vindouros, devendo contentar-se em se dirigir àqueles que compartilham com ele a luz desse mesmo amanhecer”.
No meu caso, é o que tento fazer, com os poucos dotes de que disponho. Compartilhar com os meus escassos leitores, entre eles, por exemplo, uma advogada, uma procuradora, um renomado engenheiro, uma funcionária pública e uma cerimonialista que me alegraram, em encontros fortuitos, falando, no mesmo dia, sobre o artigo do domingo passado (O Rio, o mar e a amiga).
“A arte do articulista com certa inspiração a aprofundar seus temas consiste em falar das coisas que passam como se não fossem passar. É um autêntico desafio, alegre e difícil ao mesmo tempo”, afirma Savater. Vamos por partes.
Quem escreve por prazer, gosta de saber-se lido. Quem escreve, não tem também o direito de perder-se em fraseado bonito, ôco e inconsequente. Tem que ser simples e rápido, pois o articulista é um sequestrador do tempo de seus leitores e imagina poder criar uma espécie de “síndrome de Estocolmo” em que refém e sequestrador possam vir a gostar um do outro. O articulista deve saber sequestrar o leitor da sua realidade, especialmente o escrevinhador dominical que compete com a preguiça, o sol, o mar, o rio, a televisão, o cinema, o futebol, o ofício religioso e o velho e bom livro ali do lado.
Savater fala dos artigos de Chesterton (Gilbert Chesterton, escritor inglês, falecido em 1936) e diz: “nada por aqui, nada por ali, e de repente surge uma brevíssima teoria sobre o que quer que seja, em que se concentra mais pensamento e mais sabedoria que em qualquer volume filosófico escrito por alguns de meus colegas acadêmicos… Para essa escória, nada mais respeitável que o pedantismo que ocupa calhamaços e vem com notas de rodapé”.
O segredo parece estar nisso, sair falando sobre coisa e lousa e,de repente, passar uma ideia, mínima que seja, como a de se mostrar aos filhos o suplemento infantil em uma atitude sábia, para incutir-lhes o hábito prazeroso da leitura.Pois ler nunca é tempo perdido, mesmo que o escrito não seja bom. Nesse caso, exercitou-se, no mínimo, o juízo crítico. No máximo, pode-se virar a página.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/07/2000.

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VIAJAR SEMPRE

Um dia desses fui tomar café em um flat da orla. Alta estação, muita gente com a parafernália típica de turista ao lado das mesas.
De repente, um senhor colega em idade do FHC, mas já assumido como velho, pede a uma garçonete para tirar uma foto dele ao lado do “buffet” e ainda fez um gesto como se tivesse bebendo alguma coisa. Logo após, no “lobby” vi que ele fazia parte de um grupo de terceira idade que estava em desses pacotes turísticos que prometem o céu e a terra, sem dizer que falar com Deus é opcional.
Vi muitos deles em passos arrastados, uma das características do declínio corporal. Apesar disso, pareciam vivazes, acompanhados de suas gordas mulheres, subindo, com a ajuda de um guia, os degraus de um ônibus de turismo que atrapalhava o trânsito e impedia, inclusive, que meu carro saísse.
Fiquei quieto, esperando o último subir e, nesse entretempo, me perguntei porque muita gente só começa a viajar quando o corpo já não é tão ágil e os programas parecem longos e cansativos, a ponto de, no horário da tarde, ser comum que muitos turistas cochilem, enquanto os guias se esgoelam falando das belezas do lugar.
Viajar é, para mim, uma das melhores formas de se aumentar conhecimento, de crescer como pessoa, de entender as diferenças entre os povos, ter uma exata dimensão do local em que vivemos e captar o ridículo dos que viajam sem norte, sendo guiados como cordeirinhos em visitas tão superficiais quanto os seus interesses.
No século XXI que já desponta, em poucos meses, de parto natural, seria importante que os colégios, as faculdades, as associações de classe, os clubes de serviço, as congregações religiosas e, especialmente, as famílias, estimulassem viagens a seus membros. Sei que alguns já fazem isso, mas são as exceções.
Viagens para poucos e escolhidos lugares, onde a pessoa tivesse mais tempo de conhecer o que lhe interessasse, de passear sem destino, de tomar um ônibus e se misturar com o povo, em meio a feiras, comícios, passeatas, concertos, ofícios religiosos e nos parques onde muita gente lagarteia olhando o céu.
Não valem as viagens a Disney, as compras em New York, nem as excursões de três semanas à Europa com visitas a cinco ou seis países, onde o que mais se faz é mala e tomar trem, avião ou ônibus. O que deve valer é sair do quadrado do imposto por agentes de viagens, muitos deles sem cultura, loquazes em propagar maravilhas de lugares de onde recebem comissões.
Para isso, é preciso aprender a viajar cedo, sem medo de errar, sem compromissos, por exemplo, com grupos onde sempre um se perde ou atrasa, prejudicando os demais. É preciso mudar, pois como já dizia Camões há quinhentos anos: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a esperança”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/08/2000.