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PARATY E A FLIP Jornal O Estado

Devo estar em Paraty, cidade entre Angra dos Reis e Ubatuba, quase à margem da estrada Rio-Santos. São quase quatro horas do Rio de Janeiro para cá. É inverno por aqui. Nada que um agasalho ou um blazer não resolva. Paraty é cidade histórica, com preservação de algumas áreas e prédios. Tem praia, bares, restaurantes e pousadas de todos os tipos. Vive do turismo, férias e pacotes de viagens, especialmente neste início de julho, quando tudo triplica de preço. Vim, curioso que sou, ver a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Há dúvidas sobre a essência literária dessa festa. Vim para conferir. Neste ano, por exemplo, discute-se a obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que, imaginem só, são apresentados cantores (os eternos Francis Hime e Olívia Hime), filmes e até histórias em quadrinhos (HQs). Parte-se daí para agitar o relacionamento amoroso, nas visões do cineasta Domingos de Oliveira, diretor de “Separações” e do escritor Rodrigo Lacerda. Claro que existem atrações internacionais. A primeira atração é o neodarwinista, Richard Dawkins. Depois, Chico Buarque e Milton Hatoun, conversando sobre o que as suas obras ajudam na formação do país. A música é objeto de bate-papo com Alex Ross, da revista New Yorker. A família cai na dança e é debatida por Anne Enright e James Salter. Gay Talese, autor, entre outros, de “Fama e Anonimato”, conversa sobre o novo jornalismo, de que é profundo conhecedor, com Mário Sérgio Conti, TV-Senac. O mexicano Mário Bellatin e o brasileiro Cristóvão Tezza procuram explicar suas experiências pessoais como literatos. E, para não cansar vocês, Catherine Millet, aquela que escreveu, quando jovem, a “Vida Sexual de Catherine M”, fala sobre o que viveu. Ao final, Zuenir Ventura e Edson Nery da Fonseca, encerram o tema Manuel Bandeira, a quem conheceram em vida. Como se vê, é realmente uma festa, em que há muita badalação e até um pouco de literatura. É, sem dúvida, um encontro midiático que atrai nomes internacionais, cujos cachês não estão nas alturas. Para alegria dos que gostam de Chico Buarque, ele é figura de proa nesta festa. É a “gota d’água”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/07/2009

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A ROUPA E O MONGE – Diário do Nordeste

Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe. Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros veem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. Lembro: em 1965, o Concílio Vaticano II tornou opcional a batina ou “hábito” fora dos atos litúrgicos. Assim, esse ditado parece não estar valendo para o Papa Bento XVI que usa batinas, estolas e sapatos de marca, apesar da pobreza ser louvada e glorificada pela Igreja Católica. Voltemos a Steve Jobs. O seu temperamento forte, dinâmico e difícil foi surpreendido pela doença. Em 2004 teve de retirar um tumor maligno no pâncreas. Agora, em 2009, como sequela da primeira doença, fez um transplante de fígado. Ele já era simples, porém abusado, ficou hoje, aos 54 anos, mais simples ainda. Tanto isso é verdade que, para substituí-lo – ou ajudá-lo – na direção dos negócios contratou, há anos, um executivo, Tim Cook, também usuário de calça jeans, mora em casa alugada, afável, trabalhador incansável e não gosta de aparecer. Jobs e Cook seriam, pois, o oposto de Donald Trump, aquele empresário, também americano, sempre na mídia social, que até marca de perfume virou. Afinal, cada um tem o seu jeito e, sendo maior de idade, deve-se saber que estilo é o que fica quando a moda passa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/07/2009

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MOTOTAXISTAS E A LEI – Jornal O Estado

Já andei de moto. Ainda tenho pequena cicatriz de queda levada. Eram outros tempos. A cidade comportava a convivência entre motos e carros. Hoje, tempos outros. Motos e carros disputam as faixas de pista sobradas das vans de aluguel, ônibus e caminhões. As avenidas e ruas são palcos diários de acidentes. O problema com as motos é que os acidentes são mais frequentes e o impacto é maior pela pouca proteção. As motos levam, quase sempre, duas pessoas. Uma é o guiador, dono da moto ou arrendatário. A outra é um passageiro apressado. Falo das mototáxis, produto típico de país ainda subdesenvolvido. Imagina, falar de mototaxistas para um inglês. What? Até os chineses, ainda pobres, já adaptaram os seus riquixás puxados à força humana para motos. Assim, são triciclos. Menos perigosos. No Brasil existem, neste 2009, 500 mil mototaxistas, espalhados em 3.500 cidades e, segundo se sabe, atendem a 10 milhões de passageiros. Por que isso acontece? Porque pessoas cansam de procurar emprego a exigir qualificações acima da média e o transporte coletivo não é suficiente. O brasileiro comum, desempregado, compra uma moto, aprende a guiá-la para sobreviver e pagar com o apurado. Os incomuns, segundo se diz, estão no Senado. Pois é esse Senado, em meio ao tiroteio interno e da mídia, que aprova, nestes dias, a carreira em que o profissional tem que estar sempre sobre duas rodas, em processo de equilíbrio a misturar lei da física, pressa ou estresse, pavimento ruim e desempenho dos outros veículos que o acossam nas maltratadas vias das cidades. Assim, enquanto se nega reserva de mercado para pessoas formadas em comunicação, se abre – ou se regulariza –nova categoria profissional. Brevemente, os sindicatos dessa categoria elegerão líderes para câmaras municipais, assembleias e até para o Congresso. Quem sabe, daqui a algum tempo, um mototaxista-congressista, atrás de votos, apresente condolências às famílias de Josés e Joões, seus colegas mortos pela “insanidade do trânsito”. Ao Presidente Lula, depois da aprovação no Senado, cabe vetar ou sancionar a lei. O que acontecerá?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/07/2009

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OBSERVAÇÃO – Diário do Nordeste

Rio. Estava lá e não se encontrava. Habituara-se a grupos pequenos. Muita gente não fascinava a seus olhos. Torcia o nó da gravata. O vozeio aumentando e o relógio de pé, antigo, marcava o tempo. Tinha o olhar da observação e captava descompassos sociais após cada chegada triunfal e a saudação aos próximos. Luzes havia e o calor das mãos não irmanava pessoas. Elas poderiam, sim, enaltecer o momento, descobrindo-se umas para as outras ou procurar o caminho da prosa factual. Mas eram estranhos entre si. Nem o aprumo na decoração e o ambiente iluminado e criativo, análogo a outros, eram admirados. Como deveriam ser por quem estava ali por motivações quaisquer. Apresentações e saudações feitas. Eram muitos os previstos e os inesperados, mas tudo correu no mundo da cortesia e civilidade a presidir encontro entre pessoas de falas e saberes variados, sem faltar o disse-me-disse costumeiro, de soslaio.
Uns ficaram próximos, outros distantes, mas isso sempre aconteceu, desde a Grécia antiga. Palavras amáveis foram trocadas, umas com alma, outras por arte. Houve até, imaginem, a invocação do Senhor em meio laico e todos se compraziam com o papel de ser ou eram apenas como os outros imaginavam que fossem. E a comida saborosa e benfazeja ia ocupando espaços em estômagos não tão prenhes de fome, mas as papilas gustativas desempenharam seus papéis e muitos pareciam estar em mesas formadas. E bebeu-se. Cada um a de sua preferência e vezes sem conta, pois conta não havia. E havia música, de múltiplas formas, ritmos e andamentos. E, na euforia, uns dançavam ao som que se transmudava em decibéis pedindo conversas em tom mais alto. E, vez por outra, pessoas se acercavam das mesas para falar sobre os seus pares e ímpares. Em fala natural ou estranha. Eram adventícios, a maioria. E havia risos, chistes, e o tempo fluía como se tivesse sido confinado pelo frescor da noite.
Sobremesas ricas e bebidas para paladares ávidos foram servidas com elegância para muitos que esqueceram o rumo de volta. E a narrativa se perdeu no sono da madrugada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/07/2009.

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CORÍN TELLADO – Jornal O Estado

Maria Del Socorro Tellado López era uma mulher comum do interior da Espanha. Casou-se, teve dois filhos e, mesmo acreditando no amor, divorciou-se após 03 anos, aos 36. Virou escritora e nunca parou de escrever sobre os temas que considerava importante: amor e infidelidade. Escrevia sob o nome de Corín (derivado de Socorrín, diminutivo de Socorro) Tellado e sempre teve contra si o preconceito da maioria dos intelectuais da Espanha. Volto ao passado e lembro que meu pai era seu leitor inveterado. Eu apenas li páginas avulsas. Achava, na minha pseudo-sapiência juvenil, que era uma escritora menor, pois os seus livros, quase sempre, acabavam bem. O amor vencia, após os dramas. Ainda lembro das brochuras lá em casa em que suas pequenas estórias eram escritas. Tinham, quase sempre, figuras de mulher ou de casais na capa e as letras dos títulos eram rebuscadas, como se manuscritas. Agora, nesta semana, no dia 12, aos 82 anos, Corin Tellado morreu de acidente vascular cerebral. E o mundo ficou pasmo em descobrir que ela, com sua literatura cor-de-rosa, vendeu 400 milhões de livros. Repito: 400 milhões de livros e só é desbancada na Espanha pelo genial Miguel de Cervantes, autor do Dom Quixote. Entrou para o Guiness Book por tal feito e por ter escrito 4.000 novelas de cordel, romances e fotonovelas. Ganhou da Unesco o reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Corin nunca deixou a cidade interiorana de Gijón, onde passou a residir nos anos 50 e de onde enviava os seus escritos para as editoras. Rica, famosa e simples, enveredou também pelo rádio, televisão, cinema com suas novelas, e até pela Internet, com a obra “Milagro en el Camiño”. Agora, passado tudo isso, procuro a razão de meu pai ter lido, entre outros autores, Corin Tellado e admito que era, quem sabe, uma forma simples de devaneio para aliviar a cabeça das agruras do mundo real. A partir desse fato, imagino que os romancistas – especialmente os que não conseguem vender suas obras ou serem lidos – precisam compreender que escrevem para si, mas se quiserem alcançar um público razoável precisam interagir com os leitores que, muitas vezes, têm um vocabulário limitado e não penetram no âmago de questões profundas e intrincadas e se contentam com o visível, mas não necessariamente risível. É bom lembrar o que dizia o grande romancista francês, Émile Zola, em seu livro “O Romance Experimental”: “O romancista compõe-se de um observador e de um experimentador. Nele, o observador fornece os fatos no modo como os observou, determina o ponto de partida, estabelece o terreno sólido sobre o qual caminharão as personagens e se desenvolverão os fenômenos. Depois aparece o experimentador e institui a experiência, quero dizer, faz mover as personagens numa história particular, para mostrar que nela a sucessão de fatos será tal como exige o determinismo dos fenômenos analisados”. Corin Tellado sabia disso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/04/2009.

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BALDAR AS AULAS – Diário do Nordeste

Não sou dos que fazem muita fé no acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Não acredito que trema, hífen, acento etc. sejam a solução para as nossas diferenças no falar e escrever. Somos 190 milhões de brasileiros. Os do sul do país falam com sotaques e vocabulários diferentes dos do Nordeste e do Norte. Os do centro-oeste têm peculiaridades que os do Leste não compreendem. Imaginem os outros países lusofônicos com diferenças nítidas na comunicação. O Português em África é distinto do falado em Portugal. Essas regras são uma tentativa para dar identidade ortográfica ao Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Timor Leste. Eles somam 30 milhões de pessoas. Fique claro que não sou linguista (se escreve com trema ou sem trema?), mas leitor compulsivo. Agora mesmo, estive lendo o livro alemão “Neblina sobre Mannheim” traduzido, em Portugal, por Fátima Freire Andrade. Cito exemplos de textos e palavras com significados distintos para portugueses e brasileiros. Vejam: sobre um percurso de carro que “foi feito em pára-arranca, e eu teria gostado de ter três pés para embraiar, travar e acelerar”. O que foi dito? Que um carro aumentava e diminuía a velocidade (pára-arranca), usando-se a embreagem (embraiagem), travando(freando) e acelerando. “Agarrei na mão do miúdo”, segurei a mão do menino. “Berma” expressa acostamento. “Era patusco de se ver” é engraçado de se ver.” Empregados e empregadas de mesa” são garçons. “Uma balda às aulas” é gazetear, faltar às aulas. Estudantes portam “badamecos”, que são pastas ou bolsas. O “urinol” não é o de antigo uso, mas o mictório público. “Descapotável” é o carro conversível. “Comboio” é trem e “autocarro” é ônibus que tem bicha(fila). Maria “está a me fazer olhinhos”, está a piscar os olhos para mim. “Isco” é isca de peixe. Português não usa paletó, usa “fato”, que pode estar na “montra” (vitrina). Enfim, ortografia não disciplina linguagem. Vou parar por aqui, certo de que vocês estão confusos, mas não estão sós. Também estou. Pois, pois.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/04/2009

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A ARMÊNIA E O 24 DE ABRIL – Jornal O Estado

Há algumas semanas os irmãos Armen e Boghos Boyadjian, descendentes de armênios, receberam, com suas famílias, os membros da Sociedade Consular para uma reunião social. Era tempo de noite escura. Um piano de cauda, aberto, roubava a cena do salão com telas afixadas às paredes. A área iluminada fronteiriça à praia mostrava, aos nossos pés, um trapiche e o mar remansado por diques de pedras. Nós, representantes de múltiplas nacionalidades, escutávamos músicas clássicas internacionais e as nativas da Armênia. Fez-se silêncio. Ouvimos então um relato dos dramas dos antepassados dos anfitriões quando, exato nesta data de hoje, 24 de abril, no ano de 1915, teve início o genocídio de um milhão e meio de armênios pelo Império Otomano. Para quem não sabe, a Armênia é um pequeno país-com menos de 30.000 km2 – situado entre o fim da Europa e o sudoeste da Ásia, no que se convencionou chamar de Eurásia. Continua vizinho da Turquia, pelo lado leste, fazendo hoje fronteira com o Irã, o Azerbaijão e a Geórgia. Esse país sofreu, em meio à Primeira Guerra Mundial, um grande, desumano e longo ataque do grupo que se convencionou chamar de os Jovens Turcos. Na noite desse fatídico 24 de abril, a intelectualidade, políticos, religiosos e profissionais de destaque armênios foram presos na cidade de Constantinopla pelos turcos e, em seguida, brutalmente assassinados. Começava, nesse dia, o massacre e a fuga de armênios que habitavam os territórios asiáticos à época ocupados pelos turcos. Milhares foram mortos em fuga para a Mesopotâmia, onde eram largados à míngua. Ao fim e ao cabo, repito, segundo historiadores isentos, teriam sido mortos um milhão e meio de pessoas. Nessa diáspora, alguns vieram ter ao Brasil e aqui criaram suas famílias, sempre em obediência ao trabalho árduo e à fé cristã que professam desde o século IV. O que restou do povo armênio foi sendo reintegrado, pouco a pouco, e há agora esperança de que o genocídio seja reconhecido internacionalmente e as almas dos muitos mortos possam sossegar. Noventa e quatro anos após o massacre, feridas profundas não foram saradas e continuam a doer. Voltando ao fio da noite: ela ouvia tudo, no seu escuro silêncio, quando, de repente, o firmamento se fez presente em forma de uma abrupta e copiosa chuva que parecia carpir o que, contritos, ouvíamos. Os grossos pingos d’água eram acompanhados de relâmpagos e do vento forte que irrigava as nossas faces, como se lágrimas nelas estivessem sendo implantadas pela natureza. Depois, tal como havia chegado, a chuva se foi e deixou em seu vácuo o silêncio para que queixas e compaixões saíssem das cordas do violino plangente de Armen e do compasso forte do piano de Boghos. E nós, estrangeiros na dor centenária, estávamos impregnados de um encanto triste que, mesmo tênue, permaneceu em mim deste então e me fez, exato neste 24 de abril, contar para vocês o que vivenciamos naquela noite. Salve a Armênia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/04/2009.

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NOTÍCIAS MEXICANAS – Diário do Nordeste

Os noticiários internacionais sempre dão destaque aos problemas de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Esses problemas são crônicos e têm relevo por conta da violência com grupos de narcotraficantes dos dois países. O filme “Crossing over”, traduzido erradamente como “Território Restrito” mostra, em parte, o sofrimento dos sem documentos atravessando a fronteira para os Estados Unidos. O filme não trata apenas de “indocumentados” mexicanos, mas de outras nacionalidades e como atuam os policiais de fronteira e os dos setores de imigração. A brasileira Alice Braga faz uma ponta como mexicana e acaba morrendo nas difíceis travessias nas mãos dos coiotes, bandidos que tentam “facilitar” a entrada nas não muito policiadas fronteiras americanas. Agora, neste 2009, o Comitê de Segurança Interna do Senado dos luta para diminuir o tráfico de drogas na área que só existe porque os Estados Unidos são os maiores consumidores do mundo. Onde há droga há armas e aí entra o Brasil. É provável que vocês não saibam, mas o Brasil é um dos grandes vendedores de armas do ocidente e, diz-se, que há negócios ilegais com os narcotraficantes mexicanos e americanos. Na semana passada o presidente mexicano Felipe Calderón recebeu elogios pessoais de Barack Obama por sua luta contra os traficantes. Espera-se que sejam destinados agora 550 milhões de dólares para os problemas da fronteira com a contratação de mais policiais, cães farejadores, helicópteros, veículos, investigadores e inspetores para coibir o tráfico de drogas e armas a evoluir, ano a ano. Por outro lado, pouco se fala no México real, uma potência emergente, entre tantos desafios, lutando ferozmente para desmontar grupos de traficantes com ramificações e apoios nos Estados Unidos. Esse México de que pouco se fala vai, por exemplo, inaugurar em 2010 o Museu Soumaya Polanco com 16.000m2 de área que terá 800 obras de artistas, com destaque para esculturas de Rodin, pinturas de consagrados europeus como Lautrec,Degas, Renoir, Van Gogh, Salvador Dali e mexicanos como Diego Rivera, Frida Kahlo, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo. O México é, saibam, bem maior que seus problemas.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2009.

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AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA E A NOITE – Jornal O Estado

“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Sócrates
Havia tempo que uma conversa noturna não fluía com a desenvoltura da que tivemos com o escritor, professor e crítico da arte Affonso Romano de Sant’Anna. Éramos, além de Affonso, Newton Freitas, Paulo Moraes, o curador de artes Luciano Montezuma, e os artistas plásticos Vando Figueiredo, Cláudio César e Fernando França. Autor de mais de 40 livros, com sedimentação acadêmica em cátedras no Brasil e no exterior, Affonso é um mineiro essencial: saiu de sua terra, viajou mundo afora e assentou, enfim, sua imaginação em Ipanema, esse território mítico que separa a alegria contagiante de Copacabana do olhar meio snob do Leblon. Lá, entre pinturas, livros, lápis, canetas e computadores, divide o espaço com a consagrada escritora Marina Colasanti, sua mulher. Affonso veio a Fortaleza a convite de Newton Freitas para fazer, na Oboé, palestra sobre o que expõe em seu livro “O Enigma Vazio, Impasses da Arte e da Crítica”, ensaios em que discorre sobre a arte no século XX, poupando os artistas brasileiros. Não vou comentar o que ele falou, mas posso dizer que foi instigante e dual, no sentido de mostrar a dupla face das artes e artistas, em todo o transcurso de sua palestra e o debate que se seguiu. Expôs, com a possível simplicidade, fatos e futricas que rondam as vaidades, excentricidades e os múltiplos talentos dos nomes enfocados. Seu trabalho não é diletante, mas de estudioso a procurar descer à essência do que o atraia e, quem sabe, o incomodasse. De Sanctis, não o polêmico juiz brasileiro, mas o crítico literário italiano do século XIX, falava que “o crítico é semelhante ao ator; ambos não reproduzem simplesmente o mundo poético, mas o integram, preenchem as lacunas”. E no caso de Affonso, ficou mais fácil, pois é também poeta e respira arte, daí o fecundo trabalho produzindo com o cuidado linguístico de ter criado um Índice dos nomes e termos selecionados, além de usar 21 ilustrações significativas. Mas dizia que a noite foi agradável por ser regrada de vinho, generosa em questões e fez brotar até a arte espontânea de Vando Figueiredo a retratar, com os recursos de uma mera caneta e de páginas do próprio livro de Affonso, alguns dos presentes. A diversidade de conhecimentos dos presentes era o exato contraponto e enlevo a tornar o restaurante quase vazio pleno de vozes e rostos na madrugada anunciada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2009.

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DILMA E O LINFOMA – Diário do Nordeste

“O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro
Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Rousseff, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”. Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí? Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. Ela fará quimioterapia para exorcizar o mal que pode voltar e usará o protocolo C-Chop, o “premium” em hematologia e precisará de boa cabeça. O seu jeito mineiro dá a sensação de que é forte ou se faz forte. Pode ter chorado, antes ou depois, são franciscos de lágrimas, mas soube se comportar com altivez defronte de jornalistas que não gostam de notícias boas. Certamente, às noites, na solidão do leito, meditará sobre a recorrente indagação: “por que comigo e logo agora?” Há um provérbio árabe que diz: “Deus não completa nada para ninguém”. Passado o susto, poderá vencer a batalha e isso a transformará, quer queira ou não, em alguém mais humana e ciente da sua finitude. Certa de que, desta vez, está do outro lado, contra uma guerrilha cujos passos podem ser seguidos. Voltará a ser militante em sua defesa, com as armas da Ciência, que não tem partido, mas atira certo e é trabalhadora. Saúde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2009