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AO TRABALHO OU CADA UM COMO DEUS QUER – Jornal O Estado

Acabaram-se o 2008 e as festas. Estamos na ressaca da preguiça. Aproveite, como faz o Sérgio Braga, para limpar gavetas, rasgar o que não serve mais, e planejar o que deve ser feito nestes muitos dias que faltam para acabar o 2009. Dê uma de Airton Monte e tome a última cerveja da geladeira. Faça como o Carlos Augusto Viana, que cofia os bigodes, enquanto repassa a literatura brasileira. Curta a vida como o César Montenegro. Seja leal como o Marco Aurélio. Enérgico e suave como o Ubiratan Aguiar que traça metas para o TCU apertar mais, o que pode infernizar relapsos e afins da administração pública. Procure furos como o fazem Moacir Maia, Bezerrinha e Roberto Moreira, que falam com políticos com a mesma desenvoltura do Édison Silva. Poetize como o Barros Pinho. Seja romântico como o Iranildo. Calado e bom ouvinte como o Lúcio. Obediente como o Ademar Gondim. Persiga objetivos como o Vinícius Castelo. Chegue e saia discreto como o Saraiva. Curta as amigas como o Siqueirinha. Não adoeça, mas se não tiver plano de saúde, converse com o Narcélio. Se for fazer um show ou filme não esqueça do Ricardo Guilherme, Pardal, Fausto Nilo, Falcão, Rodger, com texto sutil do Augusto Pontes, produção do Giordane e direção de Francis Vale. Em casos médicos complicados fale com o Mariano e o Dionísio. Ame filhos e netos como Luiz César Façanha. Olhe as águas do mar com os olhos do Pitombeira, que confere tabelas e imagina mais navios partindo e atracando off-shore no Pecém. Escreva muito como José Lira, Almir de Castro, BC Neto e Airton Farias. Dirija um jornal onde escreva Dorian Filho com o aprumo e a parcimônia do Ricardo Palhano. Polemize, como o Ruy Câmara. Seja paciente como Josino Lobo. Faça um cerimonial descontraído como o Zé Teles, enquanto Humberto Cavalcante, ao lado, dá uma risada. Dê uma passada sistemática na Biblioteca Lustosa da Costa, em Sobral, como faz o Francisco José. Distribua livros, como planeja fazer Auto Filho. Discurse. Veja o que acontece quando o Juarez Leitão fala. Procure, no exemplo de Cláudio Pereira, a força necessária à vida. Tenha a presteza e a pontualidade do Ednilo Soárez, acolitando jovens para o futuro. Compre livros, como o faz Zé Augusto Bezerra com raras primeiras edições. Adquira obras de arte na surdina como o Newton Freitas. Registre tudo em atas – servem agendas ou diários – como quer o Eduardo Fontes. Cate e descubra contos, histórias e crônicas e as publique como o interessante Assis Almeida. Encurte a sua semana, tal qual o Machadinho.Poderá até usar gravata listrada como faz Pedro HS Leão, mas de mangas curtas para realizar planos na Academia.Cuide-se, com determinação, como está fazendo Eduardo Fiúza. Modernize o seu socialismo, tal o Inácio de Almeida. Seja “cool” como o Tarso Melo, leve como o Igor Martins, pai como o César Renato e voe seguro como o comandante Márcio Andrade. Viaje como o Beto Studart, um “easy-rider” pelo mundo afora. Seja discreto, perspicaz e verdadeiro como as palavras e as tintas do Audifax Rios. More na serra, como faz Antônio Torres, para escrever mais e brilhar sempre. Seja acadêmico com o saber do Marcos Vilaça. Aposente-se, se for o caso, com a ajuda do Elmar Arruda. Ou faça o que sabe fazer. Ore, mas não espere por milagres. E, acima de tudo, faça o bem, sempre. Olhe as estrelas, mas acorde cedo, ande, e sinta a energia do sol. Viva com plenitude e aceite as circunstâncias. Lá para o final dos dias que restarem para este ano virar dez, conversaremos sobre o que andará fazendo Obama, a tal da crise mundial e aí virão papos sobre as eleições para Presidente da República, governadores, senadores e deputados, e a Copa do Mundo de Futebol. Brasil, sil,sil. sil. Bem-vindo 2009.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/01/2009

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PASSO A PASSO – Diário do Nordeste

Estou entre o ano acabado e o chegado. Ainda guardo em mim cheiros de ontem, rastreio olfatos esmaecidos e descubro o sem fim do tempo e a finitude das pessoas. Meu pé esquerdo ficou no passado e o direito teima em ser presente. Mexo em ordenadas e abscissas e não encontro o Equador. É preciso estar na linha para encontrá-lo. Mas minha pele sente o seu calor visceral. Não sei bem se venho do passado ou se meus passos fugiram de lá. Meus caminhos são triviais, há sempre as mesmas pedras, mas, por elas, já passaram outros pés e a areia pisada deixa as minhas solas e cai, grão a grão, entre as fendas. Minha alegria tem dioptrias certas e o meu riso é criança. Nas barricadas da vida luto, muitas vezes, como um infante sem fuzil ou quartel, mas vou quebrando lanças e seguindo, passo a passo. Sonhei com o futuro e ele se fez presente, como presente. E o agora já é passado e o futuro passa. Albergo pensamentos e fazeres trazidos até aqui pelas carroçáveis da vida, ultrapassando porteiras e ribeiras, evocando a lua sem vergonha e dormindo sem sombras. Raras são as chuvas de lágrimas, mas consigo tirar do úbere da terra a semente para o plantio do novo dia. Mesmo tendo havido tormentas, elas se quedaram com as enxurradas do ontem. Miro a essência da vida e sinto as tramelas das portas se abrirem e assomo o seu umbral. E isto importa se há sempre mais portas a abrir? Estou na calçada de um novo tempo, não embarquei em suas veredas e desconheço suas entranhas. Não tenho passaporte para todos os dias, cada um precisa de um visto diferente, depende da lua, depende do sol e de nós, navegantes em terra firme. E se há flores na calçada onde estou foram por mim plantadas, regadas com meu suor e podadas com minhas mãos. E, certamente, há espinhos, também meus. Os passos de cada dia têm registros no cerne da alma e formam a vida com a tonalidade merecida. Os olhos das estrelas podem não ver os meus passos, mas as estrelas têm olhos e registros siderais. Beijo a boca da noite a se aproximar, deixo-me por ela amar e cingir meu corpo com esperança.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2009

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CONSTRUÇÃO – Jornal O Estado

Meus queridos, foi linda a cerimônia. Ela teve a marca de vocês. A hora, o local, as músicas, as lágrimas, os risos, as crianças, as famílias e poucos amigos. Ela foi tal como vocês queriam e a fizeram. Ainda bem. É preciso saber querer, mesmo sendo diferente do usual. Cada um tem sua passagem e o voo do sonho não tem limites. Os seus anseios nunca serão iguais. Somos semelhantes, mas distintos. Estive, nestes últimos tempos, pensando em vocês dois. Muito mesmo, mas sou esse ser estrangeiro no meu bem querer, sentir e dizer. Queria ter tido com vocês uma conversa sem peias. E, no meu pensar, teria sido à hora do pôr-do-sol, sob a tocha avermelhada assomando lá da Barra. Eu teria dito da minha alegria em vê-los de mãos dadas na construção do seu futuro. De ver, em vocês, o sorriso fácil dos amantes e repassaria, talvez, algumas experiências. Enfim, o século virou e nos mostrou cada um em seu ninho e, agora, de forma ousada, vocês vão construir o seu. Não apenas com estrutura, adornos, mas, especialmente, com sentimentos, fazeres e deveres. A vida, queridos, nos experimenta a cada dia. Quase sempre, não temos sabedoria para colher as lições surgidas das formas as mais singulares. Erramos, por humanidade. Se vocês me pedissem para dizer quais argamassas são necessárias para a construção de uma vida em comum, falaria primeiro em compartilhamento, em troca de energia, cumplicidade, adesão e identidade de linguagem. Depois, aí sim, falaria de amor. Há, acreditem, pessoas com amor comum, mas sem saber compartilhar a vida, com todas as suas sutis nuances, medos, falhas, faltas, alegrias, circunstâncias, disputas, ciúmes e palpite de terceiros. Depois, falaria no trabalho árduo, consciente e contínuo a dignificar o ser humano e o torná-los, por sua conta e risco, senhores de seus próprios destinos. Diria também: sejam pacientes e cuidadosos um com o outro, especialmente nos detalhes. Não se tranquem em silêncio quando os dissabores ocorrerem. Abram as veias dos seus corações e não tenham medo de sangrar. Há sempre suturas fortes onde existe amor. O não entendido, o não visto ou o não explicado podem ir se transformando em ressentimentos e isso só desabrocha sem a crença no diálogo. Enfim, peço desculpa pelo alinhavado, mas isso é coisa minha, especialista em erros e alguns acertos. Não acreditem na perfeição do ser humano. Juntos, tenham fé no amor, no trabalho, no estudo continuado, no riso a dois, na esperança, na tolerância, na prudência, na compaixão e na confiança. Sejam felizes. Contem comigo, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/01/2009.

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FAIXA DE GAZA – Diário do Nordeste

Imaginem que a cidade de Fortaleza é vizinha de Sergipe. Fortaleza tem a mesma área da Faixa de Gaza. Sergipe, o mesmo tamanho de Israel. A Faixa de Gaza é uma estreita extensão de terra, onde foram alocados parte dos palestinos que ocupavam, até 1948, a área onde hoje fica Israel. Ela tem jurisdição especial, sem ser Estado, possui, junto com a Cisjordânia, parlamento, Presidente e dois partidos políticos: Hamas e Fatah. O Hamas parece uma mistura do antigo PT e do atual PSOL, com tendência sunita e tem o apoio do Irã. O Fatah seria um cruzamento do DEM com o PSDB. Perdeu as eleições, em 2006, e saiu de cena. Em Gaza, a cidade da faixa, moram 1,5 milhões de pessoas, com renda média mensal de 210 reais e um poderio militar comparável a de qualquer pequeno país da África. De cada 100 palestinos adultos de Gaza, 45 estão desempregados, face ao bloqueio econômico de Israel, com o apoio americano e da Europa. Esses desempregados, famintos e revoltados, são a base do terrorismo. O Hamas, inconformado, lança foguetes sobre Israel e treina homens-bomba para ataques aleatórios a prédios públicos e privados. Em Israel habitam 7,1milhões com renda mensal de 5.100 reais. Exército permanente e equipamentos militares de Primeiro Mundo. Há, portanto, desequilíbrio na luta que, certamente, não terminará no próximo cessar fogo, se acontecer. Esse desequilíbrio e o bloqueio, não desautorizam Israel de defender seus cidadãos dos ataques de foguetes e dos homens-bomba. Eu já estive lá e vi. Agora, entretanto, acontece ataque terrestre massivo com apoio aéreo sem distinguir civis e crianças palestinas. Essa é a realidade. Por trás dela está a permanente luta pelo poder, religiões e ideologia. Ocorreu também o combate ao terrorismo do Al Qeda. especialmente após os ataques de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos e o início da Guerra contra o Iraque, país onde existiam, além de um governo truculento e terroristas, milhões de civis e grandes e cobiçadas reservas de petróleo com refinarias. No inverno de Nova Iorque, nos calafetados salões da sede da Organização das Nações Unidas, há demora do Conselho de Segurança em decidir. Até quando?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/01/2009

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SALVE FORTALEZA, 283 – Diário do Nordeste

Nasci em Fortaleza em meio à Segunda Guerra sob o esplendor do sol, mas as noites, conta a minha mãe, eram escuras. Havia blecaute e medo. Fiz a Primeira Comunhão, estudante do Farias Brito, no ano em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo, no Maracanã. Participei de desfiles no Dia da Pátria. Palanques em frente à Igreja do Carmo. Reuníamo-nos na Av. Dom Manuel, dobrando à direita na Av. Duque de Caxias. Íamos com fardas engomadas e pensávamos que as garotas, no cordão de isolamento, estavam olhando só para nós. Depois da dispersão, na Rua General Sampaio, voltava esbaforido para casa, na Rua Major Facundo. Frequentei a Biblioteca Pública, na Rua Sólon Pinheiro, por anos seguidos. Lia tudo o que encontrava e foi lá onde encadernei os meus diários, em oficina no seu subsolo. Ao lado da biblioteca, assisti, por anos, a aulas de inglês no IBEU e, no mesmo quarteirão, ouvia ensaios de música clássica no conservatório que ali funcionava. Já taludo, mudamo-nos para uma casa nova, estilo “funcional”, com coberta aparente de concreto armado, no Bairro de Fátima, tão novo quanto a Igreja de que lhe deu o nome. Ouvia Missa aos domingos no Colégio N. Sra. das Graças, na Mons. Otávio de Castro, a mesma rua onde também moravam o prof. Lauro de Oliveira Lima, dra. Maria de Lourdes Martins Rodrigues, sr. José Machado, cunhado do Alcides Pinto, e o sr. João Colares, pai da cantora Amelinha. Chegou o tempo de servir ao Exército. Fui parar na Av. Bezerra de Menezes, no CPOR, que tinha como vizinhos o prof. Waldemar de Alcântara, do lado direito, e, do esquerdo, o tio Pio Saraiva Leão, pai do Pedro. Entrei em duas faculdades. Administração (manhã), que se iniciava na esquina da Rua Jaime Benévolo com Duque de Caxias, frente ao Colégio Cearense, onde também estudei e, Direito (noite), na Praça Clóvis Beviláqua. Às tardes, ia escrever para o Correio do Ceará, na Rua Senador Pompeu. Mais iria contar, mas o espaço final é para dizer que hoje é dia de saudar os 283 anos desta cidade de Fortaleza, crescida sem planejamento, prostituída nas esquinas, emaranhada em trânsito caótico em bairros nobres e pobres, paupérrimas áreas de risco, eivada de insegurança, bares e medo, mas amada. Salve.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/04/2009.

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CORÍN TELLADO – Jornal O Estado

Maria Del Socorro Tellado López era uma mulher comum do interior da Espanha. Casou-se, teve dois filhos e, mesmo acreditando no amor, divorciou-se após 03 anos, aos 36. Virou escritora e nunca parou de escrever sobre os temas que considerava importante: amor e infidelidade. Escrevia sob o nome de Corín (derivado de Socorrín, diminutivo de Socorro) Tellado e sempre teve contra si o preconceito da maioria dos intelectuais da Espanha. Volto ao passado e lembro que meu pai era seu leitor inveterado. Eu apenas li páginas avulsas. Achava, na minha pseudo-sapiência juvenil, que era uma escritora menor, pois os seus livros, quase sempre, acabavam bem. O amor vencia, após os dramas. Ainda lembro das brochuras lá em casa em que suas pequenas estórias eram escritas. Tinham, quase sempre, figuras de mulher ou de casais na capa e as letras dos títulos eram rebuscadas, como se manuscritas. Agora, nesta semana, no dia 12, aos 82 anos, Corin Tellado morreu de acidente vascular cerebral. E o mundo ficou pasmo em descobrir que ela, com sua literatura cor-de-rosa, vendeu 400 milhões de livros. Repito: 400 milhões de livros e só é desbancada na Espanha pelo genial Miguel de Cervantes, autor do Dom Quixote. Entrou para o Guiness Book por tal feito e por ter escrito 4.000 novelas de cordel, romances e fotonovelas. Ganhou da Unesco o reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Corin nunca deixou a cidade interiorana de Gijón, onde passou a residir nos anos 50 e de onde enviava os seus escritos para as editoras. Rica, famosa e simples, enveredou também pelo rádio, televisão, cinema com suas novelas, e até pela Internet, com a obra “Milagro en el Camiño”. Agora, passado tudo isso, procuro a razão de meu pai ter lido, entre outros autores, Corin Tellado e admito que era, quem sabe, uma forma simples de devaneio para aliviar a cabeça das agruras do mundo real. A partir desse fato, imagino que os romancistas – especialmente os que não conseguem vender suas obras ou serem lidos – precisam compreender que escrevem para si, mas se quiserem alcançar um público razoável precisam interagir com os leitores que, muitas vezes, têm um vocabulário limitado e não penetram no âmago de questões profundas e intrincadas e se contentam com o visível, mas não necessariamente risível. É bom lembrar o que dizia o grande romancista francês, Émile Zola, em seu livro “O Romance Experimental”: “O romancista compõe-se de um observador e de um experimentador. Nele, o observador fornece os fatos no modo como os observou, determina o ponto de partida, estabelece o terreno sólido sobre o qual caminharão as personagens e se desenvolverão os fenômenos. Depois aparece o experimentador e institui a experiência, quero dizer, faz mover as personagens numa história particular, para mostrar que nela a sucessão de fatos será tal como exige o determinismo dos fenômenos analisados”. Corin Tellado sabia disso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/04/2009.

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A ARMÊNIA E O 24 DE ABRIL – Jornal O Estado

Há algumas semanas os irmãos Armen e Boghos Boyadjian, descendentes de armênios, receberam, com suas famílias, os membros da Sociedade Consular para uma reunião social. Era tempo de noite escura. Um piano de cauda, aberto, roubava a cena do salão com telas afixadas às paredes. A área iluminada fronteiriça à praia mostrava, aos nossos pés, um trapiche e o mar remansado por diques de pedras. Nós, representantes de múltiplas nacionalidades, escutávamos músicas clássicas internacionais e as nativas da Armênia. Fez-se silêncio. Ouvimos então um relato dos dramas dos antepassados dos anfitriões quando, exato nesta data de hoje, 24 de abril, no ano de 1915, teve início o genocídio de um milhão e meio de armênios pelo Império Otomano. Para quem não sabe, a Armênia é um pequeno país-com menos de 30.000 km2 – situado entre o fim da Europa e o sudoeste da Ásia, no que se convencionou chamar de Eurásia. Continua vizinho da Turquia, pelo lado leste, fazendo hoje fronteira com o Irã, o Azerbaijão e a Geórgia. Esse país sofreu, em meio à Primeira Guerra Mundial, um grande, desumano e longo ataque do grupo que se convencionou chamar de os Jovens Turcos. Na noite desse fatídico 24 de abril, a intelectualidade, políticos, religiosos e profissionais de destaque armênios foram presos na cidade de Constantinopla pelos turcos e, em seguida, brutalmente assassinados. Começava, nesse dia, o massacre e a fuga de armênios que habitavam os territórios asiáticos à época ocupados pelos turcos. Milhares foram mortos em fuga para a Mesopotâmia, onde eram largados à míngua. Ao fim e ao cabo, repito, segundo historiadores isentos, teriam sido mortos um milhão e meio de pessoas. Nessa diáspora, alguns vieram ter ao Brasil e aqui criaram suas famílias, sempre em obediência ao trabalho árduo e à fé cristã que professam desde o século IV. O que restou do povo armênio foi sendo reintegrado, pouco a pouco, e há agora esperança de que o genocídio seja reconhecido internacionalmente e as almas dos muitos mortos possam sossegar. Noventa e quatro anos após o massacre, feridas profundas não foram saradas e continuam a doer. Voltando ao fio da noite: ela ouvia tudo, no seu escuro silêncio, quando, de repente, o firmamento se fez presente em forma de uma abrupta e copiosa chuva que parecia carpir o que, contritos, ouvíamos. Os grossos pingos d’água eram acompanhados de relâmpagos e do vento forte que irrigava as nossas faces, como se lágrimas nelas estivessem sendo implantadas pela natureza. Depois, tal como havia chegado, a chuva se foi e deixou em seu vácuo o silêncio para que queixas e compaixões saíssem das cordas do violino plangente de Armen e do compasso forte do piano de Boghos. E nós, estrangeiros na dor centenária, estávamos impregnados de um encanto triste que, mesmo tênue, permaneceu em mim deste então e me fez, exato neste 24 de abril, contar para vocês o que vivenciamos naquela noite. Salve a Armênia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/04/2009.

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NOTÍCIAS MEXICANAS – Diário do Nordeste

Os noticiários internacionais sempre dão destaque aos problemas de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Esses problemas são crônicos e têm relevo por conta da violência com grupos de narcotraficantes dos dois países. O filme “Crossing over”, traduzido erradamente como “Território Restrito” mostra, em parte, o sofrimento dos sem documentos atravessando a fronteira para os Estados Unidos. O filme não trata apenas de “indocumentados” mexicanos, mas de outras nacionalidades e como atuam os policiais de fronteira e os dos setores de imigração. A brasileira Alice Braga faz uma ponta como mexicana e acaba morrendo nas difíceis travessias nas mãos dos coiotes, bandidos que tentam “facilitar” a entrada nas não muito policiadas fronteiras americanas. Agora, neste 2009, o Comitê de Segurança Interna do Senado dos luta para diminuir o tráfico de drogas na área que só existe porque os Estados Unidos são os maiores consumidores do mundo. Onde há droga há armas e aí entra o Brasil. É provável que vocês não saibam, mas o Brasil é um dos grandes vendedores de armas do ocidente e, diz-se, que há negócios ilegais com os narcotraficantes mexicanos e americanos. Na semana passada o presidente mexicano Felipe Calderón recebeu elogios pessoais de Barack Obama por sua luta contra os traficantes. Espera-se que sejam destinados agora 550 milhões de dólares para os problemas da fronteira com a contratação de mais policiais, cães farejadores, helicópteros, veículos, investigadores e inspetores para coibir o tráfico de drogas e armas a evoluir, ano a ano. Por outro lado, pouco se fala no México real, uma potência emergente, entre tantos desafios, lutando ferozmente para desmontar grupos de traficantes com ramificações e apoios nos Estados Unidos. Esse México de que pouco se fala vai, por exemplo, inaugurar em 2010 o Museu Soumaya Polanco com 16.000m2 de área que terá 800 obras de artistas, com destaque para esculturas de Rodin, pinturas de consagrados europeus como Lautrec,Degas, Renoir, Van Gogh, Salvador Dali e mexicanos como Diego Rivera, Frida Kahlo, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo. O México é, saibam, bem maior que seus problemas.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2009.

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AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA E A NOITE – Jornal O Estado

“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Sócrates
Havia tempo que uma conversa noturna não fluía com a desenvoltura da que tivemos com o escritor, professor e crítico da arte Affonso Romano de Sant’Anna. Éramos, além de Affonso, Newton Freitas, Paulo Moraes, o curador de artes Luciano Montezuma, e os artistas plásticos Vando Figueiredo, Cláudio César e Fernando França. Autor de mais de 40 livros, com sedimentação acadêmica em cátedras no Brasil e no exterior, Affonso é um mineiro essencial: saiu de sua terra, viajou mundo afora e assentou, enfim, sua imaginação em Ipanema, esse território mítico que separa a alegria contagiante de Copacabana do olhar meio snob do Leblon. Lá, entre pinturas, livros, lápis, canetas e computadores, divide o espaço com a consagrada escritora Marina Colasanti, sua mulher. Affonso veio a Fortaleza a convite de Newton Freitas para fazer, na Oboé, palestra sobre o que expõe em seu livro “O Enigma Vazio, Impasses da Arte e da Crítica”, ensaios em que discorre sobre a arte no século XX, poupando os artistas brasileiros. Não vou comentar o que ele falou, mas posso dizer que foi instigante e dual, no sentido de mostrar a dupla face das artes e artistas, em todo o transcurso de sua palestra e o debate que se seguiu. Expôs, com a possível simplicidade, fatos e futricas que rondam as vaidades, excentricidades e os múltiplos talentos dos nomes enfocados. Seu trabalho não é diletante, mas de estudioso a procurar descer à essência do que o atraia e, quem sabe, o incomodasse. De Sanctis, não o polêmico juiz brasileiro, mas o crítico literário italiano do século XIX, falava que “o crítico é semelhante ao ator; ambos não reproduzem simplesmente o mundo poético, mas o integram, preenchem as lacunas”. E no caso de Affonso, ficou mais fácil, pois é também poeta e respira arte, daí o fecundo trabalho produzindo com o cuidado linguístico de ter criado um Índice dos nomes e termos selecionados, além de usar 21 ilustrações significativas. Mas dizia que a noite foi agradável por ser regrada de vinho, generosa em questões e fez brotar até a arte espontânea de Vando Figueiredo a retratar, com os recursos de uma mera caneta e de páginas do próprio livro de Affonso, alguns dos presentes. A diversidade de conhecimentos dos presentes era o exato contraponto e enlevo a tornar o restaurante quase vazio pleno de vozes e rostos na madrugada anunciada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2009.

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DILMA E O LINFOMA – Diário do Nordeste

“O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro
Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Rousseff, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”. Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí? Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. Ela fará quimioterapia para exorcizar o mal que pode voltar e usará o protocolo C-Chop, o “premium” em hematologia e precisará de boa cabeça. O seu jeito mineiro dá a sensação de que é forte ou se faz forte. Pode ter chorado, antes ou depois, são franciscos de lágrimas, mas soube se comportar com altivez defronte de jornalistas que não gostam de notícias boas. Certamente, às noites, na solidão do leito, meditará sobre a recorrente indagação: “por que comigo e logo agora?” Há um provérbio árabe que diz: “Deus não completa nada para ninguém”. Passado o susto, poderá vencer a batalha e isso a transformará, quer queira ou não, em alguém mais humana e ciente da sua finitude. Certa de que, desta vez, está do outro lado, contra uma guerrilha cujos passos podem ser seguidos. Voltará a ser militante em sua defesa, com as armas da Ciência, que não tem partido, mas atira certo e é trabalhadora. Saúde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2009