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A GALINHA E O TRIGO – Diário do Nordeste

Reconto, com adaptação minha, estória atribuída a George Orwell que corre há décadas. Ela mostra a diferença entre os que não plantam e os que cuidam de plantar. Consta que existia uma galinha vermelha. Ela achou alguns grãos de trigo e perguntou a seus colegas de fazenda: vocês me ajudam a plantar? A vaca disse: não. O pato: nem eu. Eu também não, falou o porco. Eu, muito menos, completou o ganso. Então, eu mesma planto, falou. E o trigo foi plantado, cresceu e amadureceu em grãos dourados, Da mesma forma, na colheita, perguntou: quem me ajuda a colher o trigo? O pato disse um não, seco. Não faz parte das minhas funções, disse o porco. Não, estou só contando o tempo de serviço para me aposentar, disse a vaca. Vou nada, posso perder o seguro-desemprego, respondeu o ganso. Então eu mesma vou colher o trigo, disse a galinha. Um dia, ela convocou a todos, mais uma vez, para ajudar a preparar e assar o pão. As respostas continuaram a ser negativas: um queria hora extra; outro gozava, agora, do seguro-doença; uma disse que não sabia fazer. Enfim, nada. Ela assou sozinha, cinco pães. Cheiravam, estavam bonitos e todos se achegaram seguindo o aroma de pão novo e querendo comê-los. A galinha falou que não, pois estava cansada de trabalhar só e faminta. Foi aí que houve uma reunião dos quatro. A vaca falou em egoísmo e sovinice. O pato chamou-a de capitalista safada. O ganso exigia os seus direitos e o porco só grunhiu. Resolveram ir até o governo da fazenda, mas antes pintaram faixas com palavras de ordem, tipo justiça social e pão para todos. O funcionário do governo, um jaboti, os recebeu, ouviu cada relato, mandou que preenchessem formulários em cinco vias, pediu que reconhecessem as firmas, cobrou uma taxa e os despachou para o chefe. Este, do alto de sua crista, pois era um galo, disse: que se faça justiça, todos tem direito aos pães. E mandou uma intimação à galinha, dizendo que ela deveria, sob pena de prisão, repartir os pães e que aquilo era apenas redistribuição de renda, meta da fazenda. Ela aceitou calada e nunca mais fez nada. Consta ter ela entrado em um movimento social e recebe uma bolsa qualquer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2009.

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ROBINHO E OUTROS – Jornal O Estado

A revista Veja, edição de 04 de fevereiro de 2009, trouxe uma longa reportagem sobre o comportamento de atletas que, nascidos pobres, alcançam sucesso e fortuna no começo da sua vintena de anos. A partir daí, suas cabeças entram em parafuso e começam a aprontar. Não são só os que alcançam sucesso e fortuna que se metem em enrascadas. Todos os dias, em emissoras de rádios e de televisão do Brasil, são inúmeros os programas policiais que contam casos de estupros, brigas em festas, mortes de cônjuges, assaltos, sequestros, assassinatos, roubos etc. O que há, no caso dos atletas, é a sua superexposição à mídia e a voracidade de certa imprensa e de pessoas ávidas por fama, dinheiro e sensacionalismo. Os mostrados em programas policiais são os delinquentes ou são pessoas do povo, todos tratados sem muito escrúpulo para um público cativo, sequioso por desgraças, escândalos e lágrimas. Vale lembrar ainda que há muitos cantores, atletas e artistas brasileiros que têm filhos pelo Brasil e mundo afora. Após os shows e jogos, caíam na gandaia e transavam com as fãs. Não havia ainda a preocupação com preservativos, pois a Aids não existia. Tampouco se falava de exame de DNA. Posteriormente, foram aparecendo filhos não desejados, frutos de relações ocasionais e, em alguns casos, de mútuas inexperiências ou irresponsabilidades dos envolvidos. As mulheres, sempre tratadas como vítimas, apareciam chorosas em programas de televisão e rádio, mostrando os filhos nascidos e o descaso do “pai desnaturado”. Não faltavam – e não faltam – advogados para defendê-las e, passado o tempo, surge o DNA, para configurar ou não a paternidade. Não há como defender pessoas que, no seu juízo perfeito ou mesmo em baladas, se envolvem com mulheres que não conhecem bem e por quem não têm nada, além da circunstancial atração física. Entretanto, não se pode demonizar essas pessoas que apenas se imaginavam desejadas e não conjeturavam a armadilha da gravidez. Voltando ao começo, é preciso que a mídia, seja brasileira ou estrangeira, acabe com o sensacionalismo barato que envolve celebridades ou não. Quem sabe se o tempo utilizado nesses programas ou reportagens poderia ser mais bem aproveitado com outros temas?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/02/2009.

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GLÓRIA EFÊMERA – Diário do Nordeste

Foi Andy Warhol, americano filho de eslovacos, nascido em 1928, e que se destacou na Pop Art ou arte popular usando a linguagem da publicidade e métodos de serigrafia para fazer suas obras, que incluiam retratos de famosos e reproduções distorcidas da embalagem da sopa Campbell e da garrafa de Coca-Cola, quem disse a frase: “no futuro, qualquer um, será célebre por 15 minutos”. Esse mesmo Warhol foi famoso por pouco tempo, criticado em vida, até atentado sofreu, e morreu um dia após ser operado de uma mera vesícula biliar, exato na data de hoje, 22 de fevereiro, em 1987. Para comprovar que a glória dele era efêmera, basta ouvir o que disse, em 2007, Robert Hughes, crítico de arte da revista Time: “Warhol foi uma das pessoas mais chatas que já conheci, pois era do tipo que não tinha nada a dizer…Mas, no geral, não tenho dúvidas de que é a reputação mais ridiculamente superestimada do Século XX”. Essa lembrança, neste domingo de carnaval em que os que não estão na folia abrem este jornal e leem o que escrevemos, é apenas para dizer da óbvia convicção universal de que nada é mais passageiro que a glória, qualquer que seja ela. Dizia Honoré de Balzac, escritor francês, que “a glória é um veneno que se deve tomar em pequenas doses”. Certa vez, fui a uma feira de quinquilharias, dessas que ocupam grandes áreas de um estacionamento. Em determinada barraca encontrei dois diplomas: um de mestrado e outro de mérito de guerra. Tive a curiosidade de perguntar ao dono quem os tinha vendido para ele. Ele respondeu: “as famílias vendem tudo, não querem saber de glórias passadas”. Comprei um deles e o presenteei a um amigo, como atestado de que somos nada e ao nada voltaremos pela ausência de lembranças futuras de vitórias pessoais, salvo exceções. Quantos adolescentes, por exemplo, sabem quem foi e o que fez Juscelino? Quantos universitários, que não cursam história, sabem onde nasceu e quem foi Capistrano de Abreu? Quem lembra do que fez Thomas Edison? Assim, nestes dias de não fazer nada, lembre-se disso e não esqueça de fazer o que lhe cabe, sem esperar por glória. A não ser que Glória seja alguém que lhe diga respeito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/02/2009.

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CINEMA E CULTURA – Jornal O Estado

A Academia Fortalezense de Letras está tentando levantar a discussão sobre a relação do cinema com o cultura. Não há nada de novo sobre o tema, mas apostaremos em uma abordagem diferente e atualizada. Não será preciso enumerar a quantidade de clássicos da literatura nacional e internacional que foram adaptados para o cinema. Uns, com êxitos de bilheteria. Outros, nem tanto. Não importa. O que vale é a revisita às obras e aos autores que serão apresentados. Escolhemos ouvir, para iniciar a discussão na noite de ontem, a opinião do professor universitário e crítico de cinema Luiz Geraldo Bezerra de Miranda Leão, uma das autoridades no assunto no Brasil, com livros publicados. Ele tem cultura linguística e longo conhecimento de cinéfilo para abrir essa série que, acreditamos, constará da apresentação – aberta ao público – de filmes, precedidos ou seguidos de debates. E esses debates não ocorrerão de forma aleatória, mas no intento de trazer novos públicos às academias, difundir a cultura e oferecer uma visão crítica do autor e sua obra e da teoria e estética dos filmes. Ao mesmo tempo, servirá para mostrar que aceitamos que a cultura é também o conhecimento sedimentado, mas vivemos no hoje e podemos nos valer dos recursos áudios-visuais para democratizar o saber que temos ou podemos adquirir. Vale, por oportuno, destacar que a Academia Brasileira de Letras, na gestão do Acadêmico Marcos Vinícios Vilaça, realizou uma série de seminários e conferências sobre as relações da cultura com a culinária, a moda, a cultura popular, a música popular, a ciência, a arquitetura, o urbanismo e a arte. Estamos, sem imitações, em boa companhia e abertos a associações com a Secretaria de Cultura, academias, cine-clubes e entidades nas discussões e prática. Inclusive, quem sabe, levantando alternativas locais ou regionais para o que se convencionou chamar de “favela movie”. Um exemplo disso está aí nas telas, o filme anglo-indiano “Quem Quer Ser Um milionário?”, dirigido por Danny Boyle que conseguiu vencer o Oscar de 2009, na categoria de melhor filme. Ao contrário do brasileiro “Cidade de Deus”, em que notoriamente se inspirou, procurou uma solução, talvez mágica, mas com encadeamento luminoso, sem deixar de ser um filme-denúncia da pobreza na Índia, porém com leveza e até alegria em meio a dramas pessoais e estruturais. A atual visão brasileira de cinematografia e estética sobre as mazelas das favelas, feita quase sempre por diretores ricos, passeia pela quase-denúncia e fica só nisso, sem trazer esperança que alimente os que vivem o drama narrado e quiçá um pouco de prazer, por que não, aos que se deslocam- pagando ingresso – às salas de cinema. Acrescente-se que, na saída, estarão lá os “guardadores” de carros e os trombadinhas. Mas isso é outro filme.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/02/2009.

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MACHADO JÁ DIZIA – Diário do Nordeste

Estou passando dois anos como presidente de uma academia de letras. A festa de posse foi bonita. Discursos feitos, inclusive promessas. Depois, vem a realidade nua e crua do dia-a-dia. A academia tem despesas a pagar, sessões a cumprir, revistas e livros a publicar, realizar concursos literários oferecendo prêmios, mas falta dinheiro, a vil moeda que não frequenta as arcas da maioria das academias. A primeira ideia é procurar Mecenas. Alguém que tem dinheiro e pode dar um pouco do que lhe sobra. Hoje, o dinheiro escasseia. Os tempos, parcos. E os verdadeiros Mecenas, raros. Outra ideia é procurar as leis de incentivo cultural, quer no Município, Estado ou União. Aí entram um cipoal de certidões, documentos, reuniões, estudos, projetos, contador a fazer balanço e demonstrações financeiras. O que era letra vira número. Os projetos demoram a ser feitos, analisados burocraticamente, os agentes públicos que os liberam têm cargos de confiança e, vez por outra, são mudados. Aí tudo recomeça. Por outro lado, como acadêmicos são vitalícios e imortais, alguns não se sentem motivados a comparecer às sessões. Cada reunião é precedida de correspondência, e-mails e telefonemas. Mesmo assim, o comparecimento é baixo. É há imprevistos como afazeres, doenças, viagens, e há a falta de segurança pública à noite no centro da cidade. O que é verdade. Soube que Machado de Assis, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, agradecia quando a presença atingia a dois dígitos. Como se sabe, dois dígitos se contam a partir do numeral 10. É preciso esclarecer que as academias seguem o modelo da Academia Francesa e tem 40 membros. Ora, se dez comparecem, só 25% da sua força vital está presente. Mesmo assim, é um feito. Este relato é para mostrar aos leitores, à sociedade e às autoridades públicas que as academias precisam ser vistas não como uma reunião de pessoas excêntricas que adoram ler livros, falar, escrever em prosa e versos e, na sua maioria, tem cãs. As academias, apesar de todos esses problemas, são fontes geradoras de saber continuado e sem elas o mundo ficaria mais pobre, pois amar a leitura e a cultura é fugir de uma cegueira existencial.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/04/2009.

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PAIXÃO, RESSURREIÇÃO E MORTE – Jornal O Estado

Neste corre-corre de todos nós, a Semana Santa ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até o domingo. Para os que creem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana é mais que isso. Ela se prende a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois condenados. A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembleia formada por julgadores ou juízes a decidir, em conjunto, os problemas das cidades. No caso de Jesus, reza a tradição ter sido submetido, em Jerusalém, a julgamento por professar uma fé diferente da estabelecida pelas leis judaicas. Assim, Jesus seria um revolucionário, visionário ou dissidente e, por tal razão, condenado. Admitindo-se tal fato, após a humilhação, flagelo e crucificação, vinha a morte. Jesus morre, então. É preciso lembrar ter sido Jesus amigo de José de Arimatéia, importante figura da cidade e em casa de quem ficou hospedado algumas vezes. Na tarde da sexta-feira, José de Arimatéia foi até Pôncio Pilatos, a autoridade romana da cidade, exercer o direito, comum à época, de tomar para si a responsabilidade do sepultamento de Jesus. Pilatos assinou a autorização, José de Arimatéia apresentou-a ao Centurião, retirou o corpo, ungiu-o com ataduras saturadas de mirra e babosa, cobriu-o com lençol de linho e o colocou sobre uma pedra, no interior do novo sepulcro de sua família. Hoje, o dito Santo Sepulcro é um local de visitação permanente, ambiente denso, mas tocante. Estive lá. No domingo, segundo narra a Igreja, Jesus acorda para a vida eterna. É a ressurreição. O historiador evangélico John A. Broadus, sobre o fato, diz: “Se não sabemos que Jesus ressuscitou da morte, não sabemos nada da História.” Assim, independente de suas (des)crenças, procurem ler mais, a fim de que possam, se for o caso, buscar na História respostas para a sua fé e vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/04/2009.

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A ARMÊNIA E O 24 DE ABRIL – Jornal O Estado

Há algumas semanas os irmãos Armen e Boghos Boyadjian, descendentes de armênios, receberam, com suas famílias, os membros da Sociedade Consular para uma reunião social. Era tempo de noite escura. Um piano de cauda, aberto, roubava a cena do salão com telas afixadas às paredes. A área iluminada fronteiriça à praia mostrava, aos nossos pés, um trapiche e o mar remansado por diques de pedras. Nós, representantes de múltiplas nacionalidades, escutávamos músicas clássicas internacionais e as nativas da Armênia. Fez-se silêncio. Ouvimos então um relato dos dramas dos antepassados dos anfitriões quando, exato nesta data de hoje, 24 de abril, no ano de 1915, teve início o genocídio de um milhão e meio de armênios pelo Império Otomano. Para quem não sabe, a Armênia é um pequeno país-com menos de 30.000 km2 – situado entre o fim da Europa e o sudoeste da Ásia, no que se convencionou chamar de Eurásia. Continua vizinho da Turquia, pelo lado leste, fazendo hoje fronteira com o Irã, o Azerbaijão e a Geórgia. Esse país sofreu, em meio à Primeira Guerra Mundial, um grande, desumano e longo ataque do grupo que se convencionou chamar de os Jovens Turcos. Na noite desse fatídico 24 de abril, a intelectualidade, políticos, religiosos e profissionais de destaque armênios foram presos na cidade de Constantinopla pelos turcos e, em seguida, brutalmente assassinados. Começava, nesse dia, o massacre e a fuga de armênios que habitavam os territórios asiáticos à época ocupados pelos turcos. Milhares foram mortos em fuga para a Mesopotâmia, onde eram largados à míngua. Ao fim e ao cabo, repito, segundo historiadores isentos, teriam sido mortos um milhão e meio de pessoas. Nessa diáspora, alguns vieram ter ao Brasil e aqui criaram suas famílias, sempre em obediência ao trabalho árduo e à fé cristã que professam desde o século IV. O que restou do povo armênio foi sendo reintegrado, pouco a pouco, e há agora esperança de que o genocídio seja reconhecido internacionalmente e as almas dos muitos mortos possam sossegar. Noventa e quatro anos após o massacre, feridas profundas não foram saradas e continuam a doer. Voltando ao fio da noite: ela ouvia tudo, no seu escuro silêncio, quando, de repente, o firmamento se fez presente em forma de uma abrupta e copiosa chuva que parecia carpir o que, contritos, ouvíamos. Os grossos pingos d’água eram acompanhados de relâmpagos e do vento forte que irrigava as nossas faces, como se lágrimas nelas estivessem sendo implantadas pela natureza. Depois, tal como havia chegado, a chuva se foi e deixou em seu vácuo o silêncio para que queixas e compaixões saíssem das cordas do violino plangente de Armen e do compasso forte do piano de Boghos. E nós, estrangeiros na dor centenária, estávamos impregnados de um encanto triste que, mesmo tênue, permaneceu em mim deste então e me fez, exato neste 24 de abril, contar para vocês o que vivenciamos naquela noite. Salve a Armênia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/04/2009.

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NOTÍCIAS MEXICANAS – Diário do Nordeste

Os noticiários internacionais sempre dão destaque aos problemas de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Esses problemas são crônicos e têm relevo por conta da violência com grupos de narcotraficantes dos dois países. O filme “Crossing over”, traduzido erradamente como “Território Restrito” mostra, em parte, o sofrimento dos sem documentos atravessando a fronteira para os Estados Unidos. O filme não trata apenas de “indocumentados” mexicanos, mas de outras nacionalidades e como atuam os policiais de fronteira e os dos setores de imigração. A brasileira Alice Braga faz uma ponta como mexicana e acaba morrendo nas difíceis travessias nas mãos dos coiotes, bandidos que tentam “facilitar” a entrada nas não muito policiadas fronteiras americanas. Agora, neste 2009, o Comitê de Segurança Interna do Senado dos luta para diminuir o tráfico de drogas na área que só existe porque os Estados Unidos são os maiores consumidores do mundo. Onde há droga há armas e aí entra o Brasil. É provável que vocês não saibam, mas o Brasil é um dos grandes vendedores de armas do ocidente e, diz-se, que há negócios ilegais com os narcotraficantes mexicanos e americanos. Na semana passada o presidente mexicano Felipe Calderón recebeu elogios pessoais de Barack Obama por sua luta contra os traficantes. Espera-se que sejam destinados agora 550 milhões de dólares para os problemas da fronteira com a contratação de mais policiais, cães farejadores, helicópteros, veículos, investigadores e inspetores para coibir o tráfico de drogas e armas a evoluir, ano a ano. Por outro lado, pouco se fala no México real, uma potência emergente, entre tantos desafios, lutando ferozmente para desmontar grupos de traficantes com ramificações e apoios nos Estados Unidos. Esse México de que pouco se fala vai, por exemplo, inaugurar em 2010 o Museu Soumaya Polanco com 16.000m2 de área que terá 800 obras de artistas, com destaque para esculturas de Rodin, pinturas de consagrados europeus como Lautrec,Degas, Renoir, Van Gogh, Salvador Dali e mexicanos como Diego Rivera, Frida Kahlo, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo. O México é, saibam, bem maior que seus problemas.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2009.

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AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA E A NOITE – Jornal O Estado

“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Sócrates
Havia tempo que uma conversa noturna não fluía com a desenvoltura da que tivemos com o escritor, professor e crítico da arte Affonso Romano de Sant’Anna. Éramos, além de Affonso, Newton Freitas, Paulo Moraes, o curador de artes Luciano Montezuma, e os artistas plásticos Vando Figueiredo, Cláudio César e Fernando França. Autor de mais de 40 livros, com sedimentação acadêmica em cátedras no Brasil e no exterior, Affonso é um mineiro essencial: saiu de sua terra, viajou mundo afora e assentou, enfim, sua imaginação em Ipanema, esse território mítico que separa a alegria contagiante de Copacabana do olhar meio snob do Leblon. Lá, entre pinturas, livros, lápis, canetas e computadores, divide o espaço com a consagrada escritora Marina Colasanti, sua mulher. Affonso veio a Fortaleza a convite de Newton Freitas para fazer, na Oboé, palestra sobre o que expõe em seu livro “O Enigma Vazio, Impasses da Arte e da Crítica”, ensaios em que discorre sobre a arte no século XX, poupando os artistas brasileiros. Não vou comentar o que ele falou, mas posso dizer que foi instigante e dual, no sentido de mostrar a dupla face das artes e artistas, em todo o transcurso de sua palestra e o debate que se seguiu. Expôs, com a possível simplicidade, fatos e futricas que rondam as vaidades, excentricidades e os múltiplos talentos dos nomes enfocados. Seu trabalho não é diletante, mas de estudioso a procurar descer à essência do que o atraia e, quem sabe, o incomodasse. De Sanctis, não o polêmico juiz brasileiro, mas o crítico literário italiano do século XIX, falava que “o crítico é semelhante ao ator; ambos não reproduzem simplesmente o mundo poético, mas o integram, preenchem as lacunas”. E no caso de Affonso, ficou mais fácil, pois é também poeta e respira arte, daí o fecundo trabalho produzindo com o cuidado linguístico de ter criado um Índice dos nomes e termos selecionados, além de usar 21 ilustrações significativas. Mas dizia que a noite foi agradável por ser regrada de vinho, generosa em questões e fez brotar até a arte espontânea de Vando Figueiredo a retratar, com os recursos de uma mera caneta e de páginas do próprio livro de Affonso, alguns dos presentes. A diversidade de conhecimentos dos presentes era o exato contraponto e enlevo a tornar o restaurante quase vazio pleno de vozes e rostos na madrugada anunciada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2009.

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DILMA E O LINFOMA – Diário do Nordeste

“O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro
Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Rousseff, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”. Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí? Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. Ela fará quimioterapia para exorcizar o mal que pode voltar e usará o protocolo C-Chop, o “premium” em hematologia e precisará de boa cabeça. O seu jeito mineiro dá a sensação de que é forte ou se faz forte. Pode ter chorado, antes ou depois, são franciscos de lágrimas, mas soube se comportar com altivez defronte de jornalistas que não gostam de notícias boas. Certamente, às noites, na solidão do leito, meditará sobre a recorrente indagação: “por que comigo e logo agora?” Há um provérbio árabe que diz: “Deus não completa nada para ninguém”. Passado o susto, poderá vencer a batalha e isso a transformará, quer queira ou não, em alguém mais humana e ciente da sua finitude. Certa de que, desta vez, está do outro lado, contra uma guerrilha cujos passos podem ser seguidos. Voltará a ser militante em sua defesa, com as armas da Ciência, que não tem partido, mas atira certo e é trabalhadora. Saúde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2009