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FORMANDO GESTORES – Jornal O Estado

Faço parte, não por mérito, da direção Escola de Formação de Governantes do Ceará. Essa Escola, fruto de uma visão de longo prazo, procura, como o próprio nome o diz, treinar pessoas e qualificá-las para a prestação de serviços na área pública como gestores. Elas não precisam ter, necessariamente, curso superior concluído, mas é importante que estejam vinculadas a uma entidade pública, nas esferas do Executivo, Legislativo e Judiciário, ou a atividades do Terceiro Setor, como ONGs, Institutos etc. Neste ano de 2009, estamos começando o XIII Curso que envolve aulas e práticas. A intenção é que pessoas, em início de carreira, ou as que queiram se reciclar, possam, com frequência de apenas dois dias por semana, no horário noturno, ter um ganho de qualidade em suas vidas profissionais. A abrangência do currículo permite que cada integrante possa ter um espectro crítico básico sobre democracia, direito, cultura, política, governabilidade, ética, desenvolvimento humano, teoria da complexidade e educação para a cidadania. Como entidade sem fins lucrativos que luta por um ideal maior de seriedade na gestão pública, a Escola de Formação de Governantes vive de parcos recursos que consegue, com excessivos esforços, de órgãos e empresas. Não há ainda um reconhecimento público a esse trabalho sério que tem como presidente, o notório advogado e professor Roberto Martins Rodrigues e, como executivo principal, o professor Antonio Alberto Teixeira, um abnegado que sente a dificuldade efetiva de cuidar dessa ideia. O imaterial, essência da formação, é o cerne desse curso que não discrimina partidos políticos, sexo ou idade, basta que seja feita uma inscrição que passa por um processo de seleção não ideológico. A turma deste ano tem cerca de 60, já está em andamento, a maioria com graduação universitária e alguns com especialização e mestrado. Os que desejarem conhecer o trabalho da EFG e com ela colaborar podem visitar o site www.efg.org.br. Todos serão bem-vindos, desde que tenham como pressuposto não aceitar que “político é tudo igual”. É possível, sim, fazer diferença. Lutamos por isso, lute também.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/03/2009.

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PESSOA E MULTIDÃO – Diário do Nordeste

Estive a ler artigo de Maria Rita Kehl, psicanalista, com o nome de “A era das multidões”. Nesse trabalho, ela cita a obra do
francês Gustave Le Bon (1842-1931), especialmente o livro “Psicologia das Multidões”, analisando o comportamento de massas formadas por pessoas heterogêneas que, em determinado tempo ou circunstância, passam a ter uma conduta uníssona. Seria, por exemplo, o caso dos seguidores de líderes, sejam democratas, ditadores, chefes de Estado, religiosos etc., a criar ou praticar determinadas teorias que, lato senso, nos levam até a cogitar não ficarem longe, nem muito diferente do procedimento das torcidas organizadas dos grandes times de futebol brasileiro e do mundo. Na África, na recente visita do Papa Bento XVI, três pessoas foram pisoteadas e mortas pela multidão. Vi, também pela TV, a luta entre a torcida do Santos e a Polícia Militar, ao final do jogo em que o Corinthians ganhou por 1X0. Naquele instante, a massa santista, revoltada com a derrota, descarregou sua frustração em qualquer coisa ou pessoa que encontrou pela frente. A Polícia, acuada, passou a reagir por espasmos, sem comando racional. O que se seguiu foram cenas de selvageria, de parte a parte. É lúcido admitir que cada uma dessas pessoas não fosse, necessariamente, delinquente. Mas, quando, estimulados, açodados e liderados em grupo, praticam atos inconscientes e/ou de violência sem nenhuma restrição moral. Coloquei, a propósito, a data da morte de Le Bon (1931), para dizer que o comportamento das multidões só tem piorado, desde então. Freud, também citado, escreveu, em 1920, o livro “Psicologia das Massas e a Análise do Eu”, em que fala, não de forma romântica, sobre a “alma coletiva”, inspirado no que pensava Le Bon. Seria, talvez, lícito admitir que, em todos os tempos, surgem líderes que, por prestígio, carisma ou hipnose, conseguem levar multidões para situações-limites, sem que a maioria se aperceba disso. Foi aí que lembrei, por exemplo, de grandes líderes recentes de multidões. Uns para o bem. Outros, nem tanto. Seriam os casos de Hitler, Mussolini, Ghandi, Mandela, Fidel, João XXIII, Luther King, Bin-Laden, Chavéz, Lula e Obama. Concorda?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/03/2009.

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VISÕES EM DOSE DUPLA – Jornal O Estado

Deixo claro, de saída, que não sou crítico de arte. Sou apenas um escrevinhador e admirador de olho vário que procura ao longo da vida ter sempre contato com o mundo das artes. especialmente a pintura. Por tal razão é que me atrevo a escrever algo sobre o trabalho de Nicolas Nascimento, cearense, e Píer Giorgio Serralunga, italiano. São pintores calejados, conhecidos de galeristas e marchands, participaram de individuais e coletivas, careciam de um público heterogêneo como o de um shopping, onde há muita energia no ar e se misturam crianças, jovens e adultos. Universitários dividem o espaço com professores, donas de casa com trabalhadores, profissionais liberais com empresários, aposentados com militares, religiosos com ateus etc. É um micro e infinito mundo. Voltando aos dois, Nícolas e Serralunga, deve ser dito que tem formação em escolas e países diversos, artistas deste mundo de hoje em que a pintura não é propriamente um artefato bem acabado, nem se enquadra em uma só característica ou escola, como se fora algo clássico ou industrial, feito em série. Ao contrário, deixa recados nas próprias transgressões e deformações das suas figuras, cores e matizes. As pinturas expostas refletem cada uma, um dos muitos estados de ânimo dos dois pintores, fazendo surgir o que, muitas vezes, nem eles próprios sabiam ou suspeitavam. Ao observar os múltiplos quadros dessa dupla exposição, o visitante terá sentimentos e sutis respostas céticas, enternecedoras, eróticas ou instigantes. Os olhares de cada um dos dois pintores, transformados em quadros por suas telas, tintas, pincéis ou espátulas nunca serão iguais ao que vê o visitante de uma exposição. Nós, os visitantes, vemos, mas impregnamos o que pensamos enxergar com a nossa história pessoal, seja ela com ou sem preconceitos, conhecimento profundo ou raso, curta ou longa admiração pela arte. Então, mais uma vez, a obra recebe outros significados e saberes, embora passageiros, pois o efeito se esvai (ou não?) com a mudança do olhar. Nada, portanto, é o mesmo depois que se vê com vontade de procurar respostas. Elas, na verdade, estão dentro de nós. Os quadros são apenas mensagens que nos enriquecem por seus efeitos estéticos. Elas estão em visitação pública, gratuita, até o dia 15 deste mês, na Galeria Benficarte, no 2º. Piso do Shopping Benfica. Vá e leve a família. Penso que vale a pena. Não custa nada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2009.

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PAIXÃO, RESSURREIÇÃO E MORTE – Jornal O Estado

Neste corre-corre de todos nós, a Semana Santa ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até o domingo. Para os que creem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana é mais que isso. Ela se prende a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois condenados. A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembleia formada por julgadores ou juízes a decidir, em conjunto, os problemas das cidades. No caso de Jesus, reza a tradição ter sido submetido, em Jerusalém, a julgamento por professar uma fé diferente da estabelecida pelas leis judaicas. Assim, Jesus seria um revolucionário, visionário ou dissidente e, por tal razão, condenado. Admitindo-se tal fato, após a humilhação, flagelo e crucificação, vinha a morte. Jesus morre, então. É preciso lembrar ter sido Jesus amigo de José de Arimatéia, importante figura da cidade e em casa de quem ficou hospedado algumas vezes. Na tarde da sexta-feira, José de Arimatéia foi até Pôncio Pilatos, a autoridade romana da cidade, exercer o direito, comum à época, de tomar para si a responsabilidade do sepultamento de Jesus. Pilatos assinou a autorização, José de Arimatéia apresentou-a ao Centurião, retirou o corpo, ungiu-o com ataduras saturadas de mirra e babosa, cobriu-o com lençol de linho e o colocou sobre uma pedra, no interior do novo sepulcro de sua família. Hoje, o dito Santo Sepulcro é um local de visitação permanente, ambiente denso, mas tocante. Estive lá. No domingo, segundo narra a Igreja, Jesus acorda para a vida eterna. É a ressurreição. O historiador evangélico John A. Broadus, sobre o fato, diz: “Se não sabemos que Jesus ressuscitou da morte, não sabemos nada da História.” Assim, independente de suas (des)crenças, procurem ler mais, a fim de que possam, se for o caso, buscar na História respostas para a sua fé e vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/04/2009.

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SALVE FORTALEZA, 283 – Diário do Nordeste

Nasci em Fortaleza em meio à Segunda Guerra sob o esplendor do sol, mas as noites, conta a minha mãe, eram escuras. Havia blecaute e medo. Fiz a Primeira Comunhão, estudante do Farias Brito, no ano em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo, no Maracanã. Participei de desfiles no Dia da Pátria. Palanques em frente à Igreja do Carmo. Reuníamo-nos na Av. Dom Manuel, dobrando à direita na Av. Duque de Caxias. Íamos com fardas engomadas e pensávamos que as garotas, no cordão de isolamento, estavam olhando só para nós. Depois da dispersão, na Rua General Sampaio, voltava esbaforido para casa, na Rua Major Facundo. Frequentei a Biblioteca Pública, na Rua Sólon Pinheiro, por anos seguidos. Lia tudo o que encontrava e foi lá onde encadernei os meus diários, em oficina no seu subsolo. Ao lado da biblioteca, assisti, por anos, a aulas de inglês no IBEU e, no mesmo quarteirão, ouvia ensaios de música clássica no conservatório que ali funcionava. Já taludo, mudamo-nos para uma casa nova, estilo “funcional”, com coberta aparente de concreto armado, no Bairro de Fátima, tão novo quanto a Igreja de que lhe deu o nome. Ouvia Missa aos domingos no Colégio N. Sra. das Graças, na Mons. Otávio de Castro, a mesma rua onde também moravam o prof. Lauro de Oliveira Lima, dra. Maria de Lourdes Martins Rodrigues, sr. José Machado, cunhado do Alcides Pinto, e o sr. João Colares, pai da cantora Amelinha. Chegou o tempo de servir ao Exército. Fui parar na Av. Bezerra de Menezes, no CPOR, que tinha como vizinhos o prof. Waldemar de Alcântara, do lado direito, e, do esquerdo, o tio Pio Saraiva Leão, pai do Pedro. Entrei em duas faculdades. Administração (manhã), que se iniciava na esquina da Rua Jaime Benévolo com Duque de Caxias, frente ao Colégio Cearense, onde também estudei e, Direito (noite), na Praça Clóvis Beviláqua. Às tardes, ia escrever para o Correio do Ceará, na Rua Senador Pompeu. Mais iria contar, mas o espaço final é para dizer que hoje é dia de saudar os 283 anos desta cidade de Fortaleza, crescida sem planejamento, prostituída nas esquinas, emaranhada em trânsito caótico em bairros nobres e pobres, paupérrimas áreas de risco, eivada de insegurança, bares e medo, mas amada. Salve.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/04/2009.

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CORÍN TELLADO – Jornal O Estado

Maria Del Socorro Tellado López era uma mulher comum do interior da Espanha. Casou-se, teve dois filhos e, mesmo acreditando no amor, divorciou-se após 03 anos, aos 36. Virou escritora e nunca parou de escrever sobre os temas que considerava importante: amor e infidelidade. Escrevia sob o nome de Corín (derivado de Socorrín, diminutivo de Socorro) Tellado e sempre teve contra si o preconceito da maioria dos intelectuais da Espanha. Volto ao passado e lembro que meu pai era seu leitor inveterado. Eu apenas li páginas avulsas. Achava, na minha pseudo-sapiência juvenil, que era uma escritora menor, pois os seus livros, quase sempre, acabavam bem. O amor vencia, após os dramas. Ainda lembro das brochuras lá em casa em que suas pequenas estórias eram escritas. Tinham, quase sempre, figuras de mulher ou de casais na capa e as letras dos títulos eram rebuscadas, como se manuscritas. Agora, nesta semana, no dia 12, aos 82 anos, Corin Tellado morreu de acidente vascular cerebral. E o mundo ficou pasmo em descobrir que ela, com sua literatura cor-de-rosa, vendeu 400 milhões de livros. Repito: 400 milhões de livros e só é desbancada na Espanha pelo genial Miguel de Cervantes, autor do Dom Quixote. Entrou para o Guiness Book por tal feito e por ter escrito 4.000 novelas de cordel, romances e fotonovelas. Ganhou da Unesco o reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Corin nunca deixou a cidade interiorana de Gijón, onde passou a residir nos anos 50 e de onde enviava os seus escritos para as editoras. Rica, famosa e simples, enveredou também pelo rádio, televisão, cinema com suas novelas, e até pela Internet, com a obra “Milagro en el Camiño”. Agora, passado tudo isso, procuro a razão de meu pai ter lido, entre outros autores, Corin Tellado e admito que era, quem sabe, uma forma simples de devaneio para aliviar a cabeça das agruras do mundo real. A partir desse fato, imagino que os romancistas – especialmente os que não conseguem vender suas obras ou serem lidos – precisam compreender que escrevem para si, mas se quiserem alcançar um público razoável precisam interagir com os leitores que, muitas vezes, têm um vocabulário limitado e não penetram no âmago de questões profundas e intrincadas e se contentam com o visível, mas não necessariamente risível. É bom lembrar o que dizia o grande romancista francês, Émile Zola, em seu livro “O Romance Experimental”: “O romancista compõe-se de um observador e de um experimentador. Nele, o observador fornece os fatos no modo como os observou, determina o ponto de partida, estabelece o terreno sólido sobre o qual caminharão as personagens e se desenvolverão os fenômenos. Depois aparece o experimentador e institui a experiência, quero dizer, faz mover as personagens numa história particular, para mostrar que nela a sucessão de fatos será tal como exige o determinismo dos fenômenos analisados”. Corin Tellado sabia disso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/04/2009.

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BALDAR AS AULAS – Diário do Nordeste

Não sou dos que fazem muita fé no acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Não acredito que trema, hífen, acento etc. sejam a solução para as nossas diferenças no falar e escrever. Somos 190 milhões de brasileiros. Os do sul do país falam com sotaques e vocabulários diferentes dos do Nordeste e do Norte. Os do centro-oeste têm peculiaridades que os do Leste não compreendem. Imaginem os outros países lusofônicos com diferenças nítidas na comunicação. O Português em África é distinto do falado em Portugal. Essas regras são uma tentativa para dar identidade ortográfica ao Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Timor Leste. Eles somam 30 milhões de pessoas. Fique claro que não sou linguista (se escreve com trema ou sem trema?), mas leitor compulsivo. Agora mesmo, estive lendo o livro alemão “Neblina sobre Mannheim” traduzido, em Portugal, por Fátima Freire Andrade. Cito exemplos de textos e palavras com significados distintos para portugueses e brasileiros. Vejam: sobre um percurso de carro que “foi feito em pára-arranca, e eu teria gostado de ter três pés para embraiar, travar e acelerar”. O que foi dito? Que um carro aumentava e diminuía a velocidade (pára-arranca), usando-se a embreagem (embraiagem), travando(freando) e acelerando. “Agarrei na mão do miúdo”, segurei a mão do menino. “Berma” expressa acostamento. “Era patusco de se ver” é engraçado de se ver.” Empregados e empregadas de mesa” são garçons. “Uma balda às aulas” é gazetear, faltar às aulas. Estudantes portam “badamecos”, que são pastas ou bolsas. O “urinol” não é o de antigo uso, mas o mictório público. “Descapotável” é o carro conversível. “Comboio” é trem e “autocarro” é ônibus que tem bicha(fila). Maria “está a me fazer olhinhos”, está a piscar os olhos para mim. “Isco” é isca de peixe. Português não usa paletó, usa “fato”, que pode estar na “montra” (vitrina). Enfim, ortografia não disciplina linguagem. Vou parar por aqui, certo de que vocês estão confusos, mas não estão sós. Também estou. Pois, pois.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/04/2009

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NOTÍCIAS MEXICANAS – Diário do Nordeste

Os noticiários internacionais sempre dão destaque aos problemas de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Esses problemas são crônicos e têm relevo por conta da violência com grupos de narcotraficantes dos dois países. O filme “Crossing over”, traduzido erradamente como “Território Restrito” mostra, em parte, o sofrimento dos sem documentos atravessando a fronteira para os Estados Unidos. O filme não trata apenas de “indocumentados” mexicanos, mas de outras nacionalidades e como atuam os policiais de fronteira e os dos setores de imigração. A brasileira Alice Braga faz uma ponta como mexicana e acaba morrendo nas difíceis travessias nas mãos dos coiotes, bandidos que tentam “facilitar” a entrada nas não muito policiadas fronteiras americanas. Agora, neste 2009, o Comitê de Segurança Interna do Senado dos luta para diminuir o tráfico de drogas na área que só existe porque os Estados Unidos são os maiores consumidores do mundo. Onde há droga há armas e aí entra o Brasil. É provável que vocês não saibam, mas o Brasil é um dos grandes vendedores de armas do ocidente e, diz-se, que há negócios ilegais com os narcotraficantes mexicanos e americanos. Na semana passada o presidente mexicano Felipe Calderón recebeu elogios pessoais de Barack Obama por sua luta contra os traficantes. Espera-se que sejam destinados agora 550 milhões de dólares para os problemas da fronteira com a contratação de mais policiais, cães farejadores, helicópteros, veículos, investigadores e inspetores para coibir o tráfico de drogas e armas a evoluir, ano a ano. Por outro lado, pouco se fala no México real, uma potência emergente, entre tantos desafios, lutando ferozmente para desmontar grupos de traficantes com ramificações e apoios nos Estados Unidos. Esse México de que pouco se fala vai, por exemplo, inaugurar em 2010 o Museu Soumaya Polanco com 16.000m2 de área que terá 800 obras de artistas, com destaque para esculturas de Rodin, pinturas de consagrados europeus como Lautrec,Degas, Renoir, Van Gogh, Salvador Dali e mexicanos como Diego Rivera, Frida Kahlo, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo. O México é, saibam, bem maior que seus problemas.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2009.

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AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA E A NOITE – Jornal O Estado

“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Sócrates
Havia tempo que uma conversa noturna não fluía com a desenvoltura da que tivemos com o escritor, professor e crítico da arte Affonso Romano de Sant’Anna. Éramos, além de Affonso, Newton Freitas, Paulo Moraes, o curador de artes Luciano Montezuma, e os artistas plásticos Vando Figueiredo, Cláudio César e Fernando França. Autor de mais de 40 livros, com sedimentação acadêmica em cátedras no Brasil e no exterior, Affonso é um mineiro essencial: saiu de sua terra, viajou mundo afora e assentou, enfim, sua imaginação em Ipanema, esse território mítico que separa a alegria contagiante de Copacabana do olhar meio snob do Leblon. Lá, entre pinturas, livros, lápis, canetas e computadores, divide o espaço com a consagrada escritora Marina Colasanti, sua mulher. Affonso veio a Fortaleza a convite de Newton Freitas para fazer, na Oboé, palestra sobre o que expõe em seu livro “O Enigma Vazio, Impasses da Arte e da Crítica”, ensaios em que discorre sobre a arte no século XX, poupando os artistas brasileiros. Não vou comentar o que ele falou, mas posso dizer que foi instigante e dual, no sentido de mostrar a dupla face das artes e artistas, em todo o transcurso de sua palestra e o debate que se seguiu. Expôs, com a possível simplicidade, fatos e futricas que rondam as vaidades, excentricidades e os múltiplos talentos dos nomes enfocados. Seu trabalho não é diletante, mas de estudioso a procurar descer à essência do que o atraia e, quem sabe, o incomodasse. De Sanctis, não o polêmico juiz brasileiro, mas o crítico literário italiano do século XIX, falava que “o crítico é semelhante ao ator; ambos não reproduzem simplesmente o mundo poético, mas o integram, preenchem as lacunas”. E no caso de Affonso, ficou mais fácil, pois é também poeta e respira arte, daí o fecundo trabalho produzindo com o cuidado linguístico de ter criado um Índice dos nomes e termos selecionados, além de usar 21 ilustrações significativas. Mas dizia que a noite foi agradável por ser regrada de vinho, generosa em questões e fez brotar até a arte espontânea de Vando Figueiredo a retratar, com os recursos de uma mera caneta e de páginas do próprio livro de Affonso, alguns dos presentes. A diversidade de conhecimentos dos presentes era o exato contraponto e enlevo a tornar o restaurante quase vazio pleno de vozes e rostos na madrugada anunciada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2009.

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DILMA E O LINFOMA – Diário do Nordeste

“O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro
Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Rousseff, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”. Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí? Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. Ela fará quimioterapia para exorcizar o mal que pode voltar e usará o protocolo C-Chop, o “premium” em hematologia e precisará de boa cabeça. O seu jeito mineiro dá a sensação de que é forte ou se faz forte. Pode ter chorado, antes ou depois, são franciscos de lágrimas, mas soube se comportar com altivez defronte de jornalistas que não gostam de notícias boas. Certamente, às noites, na solidão do leito, meditará sobre a recorrente indagação: “por que comigo e logo agora?” Há um provérbio árabe que diz: “Deus não completa nada para ninguém”. Passado o susto, poderá vencer a batalha e isso a transformará, quer queira ou não, em alguém mais humana e ciente da sua finitude. Certa de que, desta vez, está do outro lado, contra uma guerrilha cujos passos podem ser seguidos. Voltará a ser militante em sua defesa, com as armas da Ciência, que não tem partido, mas atira certo e é trabalhadora. Saúde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2009