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NOTÍCIAS MEXICANAS – Diário do Nordeste

Os noticiários internacionais sempre dão destaque aos problemas de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Esses problemas são crônicos e têm relevo por conta da violência com grupos de narcotraficantes dos dois países. O filme “Crossing over”, traduzido erradamente como “Território Restrito” mostra, em parte, o sofrimento dos sem documentos atravessando a fronteira para os Estados Unidos. O filme não trata apenas de “indocumentados” mexicanos, mas de outras nacionalidades e como atuam os policiais de fronteira e os dos setores de imigração. A brasileira Alice Braga faz uma ponta como mexicana e acaba morrendo nas difíceis travessias nas mãos dos coiotes, bandidos que tentam “facilitar” a entrada nas não muito policiadas fronteiras americanas. Agora, neste 2009, o Comitê de Segurança Interna do Senado dos luta para diminuir o tráfico de drogas na área que só existe porque os Estados Unidos são os maiores consumidores do mundo. Onde há droga há armas e aí entra o Brasil. É provável que vocês não saibam, mas o Brasil é um dos grandes vendedores de armas do ocidente e, diz-se, que há negócios ilegais com os narcotraficantes mexicanos e americanos. Na semana passada o presidente mexicano Felipe Calderón recebeu elogios pessoais de Barack Obama por sua luta contra os traficantes. Espera-se que sejam destinados agora 550 milhões de dólares para os problemas da fronteira com a contratação de mais policiais, cães farejadores, helicópteros, veículos, investigadores e inspetores para coibir o tráfico de drogas e armas a evoluir, ano a ano. Por outro lado, pouco se fala no México real, uma potência emergente, entre tantos desafios, lutando ferozmente para desmontar grupos de traficantes com ramificações e apoios nos Estados Unidos. Esse México de que pouco se fala vai, por exemplo, inaugurar em 2010 o Museu Soumaya Polanco com 16.000m2 de área que terá 800 obras de artistas, com destaque para esculturas de Rodin, pinturas de consagrados europeus como Lautrec,Degas, Renoir, Van Gogh, Salvador Dali e mexicanos como Diego Rivera, Frida Kahlo, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo. O México é, saibam, bem maior que seus problemas.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2009.

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AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA E A NOITE – Jornal O Estado

“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Sócrates
Havia tempo que uma conversa noturna não fluía com a desenvoltura da que tivemos com o escritor, professor e crítico da arte Affonso Romano de Sant’Anna. Éramos, além de Affonso, Newton Freitas, Paulo Moraes, o curador de artes Luciano Montezuma, e os artistas plásticos Vando Figueiredo, Cláudio César e Fernando França. Autor de mais de 40 livros, com sedimentação acadêmica em cátedras no Brasil e no exterior, Affonso é um mineiro essencial: saiu de sua terra, viajou mundo afora e assentou, enfim, sua imaginação em Ipanema, esse território mítico que separa a alegria contagiante de Copacabana do olhar meio snob do Leblon. Lá, entre pinturas, livros, lápis, canetas e computadores, divide o espaço com a consagrada escritora Marina Colasanti, sua mulher. Affonso veio a Fortaleza a convite de Newton Freitas para fazer, na Oboé, palestra sobre o que expõe em seu livro “O Enigma Vazio, Impasses da Arte e da Crítica”, ensaios em que discorre sobre a arte no século XX, poupando os artistas brasileiros. Não vou comentar o que ele falou, mas posso dizer que foi instigante e dual, no sentido de mostrar a dupla face das artes e artistas, em todo o transcurso de sua palestra e o debate que se seguiu. Expôs, com a possível simplicidade, fatos e futricas que rondam as vaidades, excentricidades e os múltiplos talentos dos nomes enfocados. Seu trabalho não é diletante, mas de estudioso a procurar descer à essência do que o atraia e, quem sabe, o incomodasse. De Sanctis, não o polêmico juiz brasileiro, mas o crítico literário italiano do século XIX, falava que “o crítico é semelhante ao ator; ambos não reproduzem simplesmente o mundo poético, mas o integram, preenchem as lacunas”. E no caso de Affonso, ficou mais fácil, pois é também poeta e respira arte, daí o fecundo trabalho produzindo com o cuidado linguístico de ter criado um Índice dos nomes e termos selecionados, além de usar 21 ilustrações significativas. Mas dizia que a noite foi agradável por ser regrada de vinho, generosa em questões e fez brotar até a arte espontânea de Vando Figueiredo a retratar, com os recursos de uma mera caneta e de páginas do próprio livro de Affonso, alguns dos presentes. A diversidade de conhecimentos dos presentes era o exato contraponto e enlevo a tornar o restaurante quase vazio pleno de vozes e rostos na madrugada anunciada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2009.

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DILMA E O LINFOMA – Diário do Nordeste

“O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro
Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Rousseff, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”. Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí? Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. Ela fará quimioterapia para exorcizar o mal que pode voltar e usará o protocolo C-Chop, o “premium” em hematologia e precisará de boa cabeça. O seu jeito mineiro dá a sensação de que é forte ou se faz forte. Pode ter chorado, antes ou depois, são franciscos de lágrimas, mas soube se comportar com altivez defronte de jornalistas que não gostam de notícias boas. Certamente, às noites, na solidão do leito, meditará sobre a recorrente indagação: “por que comigo e logo agora?” Há um provérbio árabe que diz: “Deus não completa nada para ninguém”. Passado o susto, poderá vencer a batalha e isso a transformará, quer queira ou não, em alguém mais humana e ciente da sua finitude. Certa de que, desta vez, está do outro lado, contra uma guerrilha cujos passos podem ser seguidos. Voltará a ser militante em sua defesa, com as armas da Ciência, que não tem partido, mas atira certo e é trabalhadora. Saúde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2009

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A VOLTA À PRAÇA – Jornal O Estado

Estava ali parado. Sentara na praça de sua infância, mas não era a mesma. Haviam-na mudado. Ficaram o nome e a memória. A propósito de revitalizá-la tinham copiado um projeto estrangeiro e ela era apenas um simulacro de sua arquitetura. Ali não era mais o seu lugar e, paradoxalmente, o era pelas lembranças invocadas. A primeira delas e a mais forte era a da festa popular após a vitória da Copa do Mundo de Futebol em 29 de junho de 1958. Nessa tarde havia feito uma promessa: se o Brasil ganhasse, não vibraria. Iria apenas ver a alegria dos outros. Chegara à praça com a mão esquerda metida no bolso da calça de brim afagando as contas de um terço aliviando a sua fé dúbia, mas a cobrar respeito à promessa feita. Agora, lustros passados, sentara na mesma posição daquela tarde, mas o banco era outro e os transeuntes, estranhos. Pensava com os seus botões e admitia se encontrar entre a lembrança do passado e o tédio daquele involuntário passeio em procura de sua alma. Agora, está preocupado com o tempo dissipado desde aquela afastada tarde do dia de São Pedro. Em meio ao barulho do ir e vir das pessoas, camelôs em profusão, sua alma se investe de silêncio e faz girar a ampulheta do tempo, grão a grão, a se esvair em sua existência sem grande expressão. A época do encantamento havia tomado outro rumo. Não sabia bem a razão de estar ali, em dia da semana, ao cair da tarde. Vivia um momento trafegando entre a paz ilusória e o vazio da solidão imposta pela aposentadoria e a separação de corpos da mulher, levando, de roldão, os filhos. Na sua cabeça era 1958 outra vez e se sentia o menino refugiado no silêncio não compartilhado. O futuro era a porta da vida, pensara naquela tarde festiva quando todos se rejubilavam pela vitória na Suécia. Agora, já estava no futuro e se lembrava do seu ego passado, o mesmo a acompanhá-lo até agora e, dentro dele, voltara à praça. Ego envelhece ou permanece tal qual era? Não sabia a resposta e isso pouco importava, pois aquilo não era uma equação matemática, mas existencial onde os números contam pouco e valem as pessoas. Limpava o silêncio do passado com as lembranças armazenadas em seu cantil de lágrimas quando o peito se fez em fogo por uma bala perdida com dores ziguezagueadas. Tombou e ouviu o cinza do silêncio.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/05/2009.

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SOLIDÃO NA INTERNET – Diário do Nordeste

Recebo de amigos convites para entrar em redes sociais de comunicação pela Internet. A alguns, respondo que não me agradam as redes sociais. A outros, deixo o silêncio e a inação como respostas. Nasci analógico, escrevendo carta com a mão esquerda, lambendo a parte gomada do envelope para postá-lo nos Correios. Bem que gostaria de ter de volta algumas cartas que escrevi. Elas falariam de mim, de como me situava em relação a este futuro que chegou de forma avassaladora com os aparelhos celulares cada vez menores e mais sofisticados e os computadores com tantos recursos que um mero usuário como eu perca a parte maior e, talvez, a melhor. Recentemente, um sociólogo francês, Dominique Wolton, diretor do Centro de Pesquisa Científica de Paris, afirmou aqui no Brasil que “a comunicação será a grande questão do século XXI”. Concordo, em parte, um século é muito tempo e só gastamos, até agora, um décimo do 21. O que virá nos próximos 90 anos? Creio que ninguém, mesmo da comunidade científica, tem noção do que as novas gerações, as nascidas neste século, viverão com alegria ou pena. Segundo ele, as comunicações tipo Facebook são provas de solidão interativa. O José não preenche a solidão da Maria que, mesmo se comunicando com ele e outras pessoas, continua só com sua esperança e (des)ilusão. Para ele, há um conceito de sociedade individualista de massa. Ora, digo eu, se é sociedade, não pode ser individualista. Isto quer dizer que os componentes de uma sociedade possam ser individualistas, mas a sociedade, não. Ele acredita que a procura da liberdade individual é um modelo que remete à herança do século 18 e a igualdade que todos parecem ter na Internet seria um arquétipo singular de socialismo. Claro que o objetivo das redes sociais é fazer com que as pessoas leiam os anúncios sutilmente visíveis e se descubram face a face, em carne e osso. Deixam de ser as “personas” que se mostravam em suas faces escritas ou visuais e passam a enfrentar o eterno problema e solução dos seres humanos, a capacidade de comunicação real, sem mistificação e idealização, na hora do encontro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/11/2010.

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CHICO DA SILVA –ARTE E VIDA – 100 ANOS – Jornal O Estado

Quem deseja conhecer um pouco mais da obra, da vida e da história do pintor Chico da Silva não deve perder a grande exposição já aberta ao público na Galeria Benficarte, no Shopping Benfica, todos os dias, das 10 às 22 horas. Não paga nada. É só entrar, olhar com vontade de entender o turbilhão que era o pincel/imaginário de Chico da Silva. Ela ficará aberta até o dia 30 de novembro e é comemorativa dos 100 anos de vida desse grande pintor primitivista ou naïf, como querem os franceses, que deixou seguidores e imitadores. Lembro que corria o ano de 1966. Um dia, recebo telefonema de Fernando Heráclio Silva, colecionador de artes, que me pergunta de bate – pronto se eu conhecia as pinturas do Chico da Silva. Claro, respondi. Chico da Silva, naquele mesmo ano, havia ganhado, com suas pinturas primitivas e alucinadas, Menção Honrosa na Bienal de Veneza, Itália. Fernando, objetivo, disse: procure-o e compre todos os quadros que encontrar. Dia seguinte, peguei o carro e fui procurar/encontrar a velha casa do Chico da Silva no coração do Pirambu. O Pirambu, nesse tempo, havia recebido uma demão de boa vontade do padre Hélio Campos que, por sua estatura moral e eclesiástica, bradara alto sobre a miséria da área favelada e a carência de documentação legal das ocupações. O fato é que me vi dentro da casa do Chico, uma mistura de moradia, ateliê e bodega, pois sempre havia família, ajudantes/aprendizes, comida e aguardente por perto. Fiz a compra solicitada, paguei o devido, recebi parte das telas. As outras, o Chico iria me entregar depois. A partir dessa entrega, o Chico, vez por outra, aparecia com uma porção de quadros. O táxi ficava esperando e ele, já meio alto, vendia, agradecia, prometia voltar. E voltava. Esta introdução diz da alegria de ver esta exposição dos supostos 100 anos de vida de Chico da Silva e dos reais 25 anos de sua morte. O acervo apresentado é quase todo do colecionador Lincoln Machado. Para ele, “o que importa é saber quem foi o artista que se dizia índio do Acre (para onde foram e voltaram tantos cearenses, observação minha) e que levou o nome do Ceará para… Moscou, Paris, Veneza e tantos outros”. Roberto Galvão, pintor e mestre, fala da inserção na revista Cahier D’ Art, de Paris, de reportagem com oito páginas quando Chico ganhou a Menção Honrosa… Entretanto, diz Galvão: “É necessário que se faça um resgate de sua obra. Torna-se urgente um registro completo de suas pinturas e as de seus seguidores”. A Secretaria da Cultura do Ceará está associada a essa homenagem e “sente-se no dever e o cumpre ao apoiar esta iniciativa que considera relevante.” A Câmara Municipal de Fortaleza se associou às homenagens. A mostra tem a curadoria do artista plástico João Jorge Melo e apreciações técnicas de Roberto Galvão, conhecedor da vida e da obra de Chico da Silva, figura tão surrealista quanto suas linhas e curvas multicores, urdidoras da tessitura predecessora de figuras como as das aves aladas do filme Pandora. O convite está feito. Veja os comentários, confira o delírio e a arte e desse homem simples e grande que, 25 anos após sua morte, estão sendo discutidos, mostrados e apreciados. Não perca.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/11/2010

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ELIMINAÇÃO DA POBREZA – Diário do Nordeste

Semana passada recebi convite de uma revista para fazer uma pergunta ao governador eleito, Cid Gomes. Não sei se a minha pergunta será considerada, mas a que me veio à cabeça na hora foi a seguinte: o senhor acredita na eliminação ou erradicação da pobreza até o ano 2020? No Brasil, pobre é alguém que tem renda per capita até 140 reais. Indigentes são os que têm renda de até 70 reais. Na verdade, o número ideal seria o do salário mínimo. Mínimo quer dizer pequeníssimo ou ínfimo. O Nordeste ainda possui 13,5 milhões de indigentes e 17,6 milhões de pobres. Estes dados são do Censo de 2.000, mas atualizados pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios. Em estudo recente da Fundação Getúlio Vargas/CPS/FSP determinou-se um custo médio per capita para eliminar a pobreza, por mês, de R$ 9,33. No Ceará, o custo foi R$ 16,16. Verificou-se quanto cada área influi no aumento do rendimento individual e familiar. A resposta veio do trabalho: 71%. Os programas sociais/bolsa família respondem por 5,3% e a previdência social com 24%. O trabalho é a alavanca que deve dignificar a vida da pessoa. O que fica claro é que é preciso aumentar o número de oportunidades de trabalho, seja para o autônomo, o vinculado a cooperativas e a empresas. Há queixas recorrentes sobre os custos sociais de cada empregado e a morbidade crescente de micro, pequenas e médias empresas que, por não terem condições de pagar as obrigações sociais e os impostos diretos e indiretos, encerram suas atividades. É cena comum, nas médias e grandes cidades brasileiras, o movimento noturno de artesãos, vendedores, ambulantes, distribuidores e afins que se acercam dos pontos que, já na madrugada, são visitados por compradores que abastecem seus pontos comerciais com essas mercadorias feitas de forma artesanal ou, quando muito, com algum viés industrial. Essas aglomerações urbanas se fincam, criam raízes e aumentam a economia informal que não tem, por mais que deseje, condições de se estruturar até como microempresários. A transferência de renda dos programas sociais é um caminho, mas não a saída para a verdadeira inclusão social.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/2010

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A POESIA DE BARROS PINHO – Jornal O Estado

Dizia Madame de Staël, escritora francesa dos anos oitocentos, que a poesia é a linguagem natural de todos os cultos. Bem mais cedo, Ovídio, vivido no então Império Romando, asseverava que a poesia nasce simples de uma mente serena. O livro “Poemas para orvalhar o outono”, de José Maria Barros Pinho, parece merecer as duas observações acima. Barros Pinho, administrador, professor, político e, acima de tudo, poeta, é uma dessas pessoas diferenciadas em seu jeito incisivo, retraído – quando necessário -, ardente, cálido, prestativo e sabe que veio ao mundo com missões múltiplas. Vejam-no: “o comércio/faz a festa da vitrine/nos olhos dos meninos/o operário/desfila na fila do governo/sob a plácida complacência/na espera eterna/da bondade burocrática/nas ruas/a vida/ é uma máquina”.
A capacidade de síntese é a característica deste registro poético que também não deixa de ser uma crônica, um relato social. Rimbaud, um dos maiores poetas de todos os tempos, afirmava: “Digo que o poeta precisa ser vidente, far-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-essências. Inefável fartura em que tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo sábio”.
Tudo o que Rimbaud disse está inscrito na seleção dos setenta poemas de Barros Pinho escolhidos para este livro que o revela por inteiro. As memórias, essas que voltam sem ser chamadas, estão no poema O velho longe do Rio: “meu avô morreu/na chapada da distância/procurando a lua de olhos/vivos no rio o rio mais/longe de sua vontade/as mãos sem carne/ os pés sem perfume/a rastejar fantasmas/na superfície das pedras/o engenho abrigo do tempo/moendo moendo seus ossos/ossos no destino do vento/vento vento outro vento/não o vento de sua terra/hoje passa montado no cavalo/ arco-íris pelos céus e as esporas/ a rasgar as nuvens da chuva”. Belo, contundente.
J. Ortega y Gasset, filósofo espanhol quase contemporâneo, pois morto em 1955, admitia que não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria. Assim, tem sido a poesia de Barros Pinho. Gera, metaforicamente, as suas verdades, mostrando ou camuflando as suas dores, fazendo de seus versos sístoles e diástoles. Consegue sintetizar tudo, assim: “o rio encheu/os olhos/do menino/cheio de espanto/a menina/encheu-lhe a vida/de paralelas”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/11/2010

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O BRASIL DESEJADO – Diário do Nordeste

Agora que as eleições passaram. Enquanto todos se preparam para o Natal, seria um bom tempo para se pensar no Brasil. No final de outubro, a revista Época, edição 01.11, contratou pesquisa, elaborada pela Marcondes Consultoria, sobre o país que o brasileiro quer ter. Essa pesquisa fala dos desejos dos brasileiros. Em 160 cidades de todo o país foram feitas 2.544 entrevistas com pessoas em idade de votar. Havia uma lista de 70 palavras envolvendo valores básicos, tais como responsabilidade, respeito, corrupção, iniciativa, justiça, ética etc. Cada entrevistado (a) deveria responder quais os itens mais identificados com ele próprio, quais os que mais importariam para o país e ainda como a pessoa gostaria de ver o Brasil no futuro. Não houve surpresa quando responderam os fatores que definem o Brasil atual. Saíram, pela ordem: corrupção, pobreza, crime/violência, desemprego, analfabetismo, poluição ambiental, agressividade, incerteza sobre o futuro, desperdício de recursos e discriminação racial. Paralelo a isso, os fatores que poderão identificar o país no futuro. Eles, pela ordem, são: justiça, redução da pobreza, moradia confortável, cuidados com os idosos, oportunidades de emprego, cuidados com a saúde, respeito, qualidade de vida, justiça social, honestidade, cidadania, democracia, inovação, liberdade pessoal, criatividade, liderança e liberdade de expressão. Como se vê, na hora de pensar com seriedade, o brasileiro, seja de que parte for, sabe ordenar seus pensamentos. Você poderá dizer que ele recebeu uma lista com 70 palavras, mas é preciso lembrar que ele tinha a liberdade de escolha. Em um dos quadros-resumo há a indicação de como o brasileiro se vê. Ele dá valor à amizade, família, honestidade, respeito, alegria, humildade, saúde, justiça, esperança, paciência, responsabilidade e, por último, coragem. Este artigo/pesquisa é uma forma de fazê-lo pensar um pouco em você e na forma como se vê no pedaço de chão que ocupa no Brasil. As pesquisas não são necessariamente verdades, mas indicam tendência do rumo que cada um deve tomar para a solução dos seus problemas pessoais e, igualmente, ajudar o Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/11/2010

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SÃO PAULO E O JABUTI – Jornal O Estado

Estive agora em São Paulo. Dizia Edson Queiroz que a cidade era tão legal que o povo falava a língua portuguesa, entre outras. É claro que não é o português brasileiro, mas qual seria o português brasileiro? O quase castiço do Maranhão? O dos “esses” dos cariocas? O jeitão duro e o emprego do tu pelos gaúchos? Ou a ginga dengosa baiana? Importa não, todos se desentendem na mesma íngua. Enquanto andava por várias partes da cidade, inclusive na região que os paulistas chamam de Berrini, uma nova Avenida Paulista, pude ver, ali perto, sob pontes e viadutos, lugares de morar dos sem teto. Muitos lugares, centenas de sem teto. Não estou falando de favela, mas de tocas humanas. Ao mesmo tempo, a cidade zoa veloz por sobre os tetos dos sem teto. Carrões e carrinhos, ônibus articulados, tipo três em um, motocicletas, táxis e assemelhados formam uma grande lagarta modorrenta multicolorida iluminada no entardecer. A terra recebe a chuva forte para minimizar a baixíssima umidade do ar, essa secura deixando a todos nervosos e suarentos E as emissoras de TV, a exaustão, falavam da “ocupação” do complexo do Alemão, no Rio. Todos paravam, vidrados. Foi preciso juntar as polícias e as forças armadas para a operação ficar ao gosto do sensacionalismo de certos canais de televisão. Esquecem os paulistanos que já aconteceu isso em Sampa. Não precisam ficar espantados. Basta lembrar o passado recente. Ônibus queimados, delegacias metralhadas etc. Foi neste século. Juro que não queria escrever sobre isso, a intenção era dizer que a região dos jardins é maravilhosa, especialmente o Jardim Europa. Por lá, revendedoras de veículos, envidraçadas e iluminadas, açulam a cobiça dos que podem e frequentam, entre outros, o Clube Harmonia, nas proximidades. Mas, no duro mesmo, o que gostaria de falar seria sobre a confusão criada pelos editores paulistas Luiz Schwarcz (Cia. Das Letras) e Sérgio Machado (Record) acerca da escolha concedida pelo Prêmio Jabuti a Chico Buarque, o escritor. É briga de cachorro grande e tem a ver com a não eleição do jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre, que lançou um romance e já seria o premiado, não fosse Chico quem é. Depois, talvez conte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/12/2010.