Sem categoria

24 DE SETEMBRO: AMOR POR A+B – Jornal O Estado

Um desmaio. A perda da direção. Carro desgovernado. Uma árvore, o choque. Hospital. O telefonema recebido ao longe. E eu vim voando do Rio, chorando em silêncio. Aqui, soube da perda no primeiro contato com o médico. Aguentei firme, calado. Dias depois, a délivrance. Fiz o caminho entre aquelas árvores frondosas com o filho morto aos braços levado. A dor nublava a manhã de sol que me fazia desvalido.
O tempo, este curativo da vida, foi passando. E como um raio de luz, chegou saudável, querida, a primeira das filhas. Recebida com a alegria de pais novatos, mas já sofridos. E era o caminho do fulgor de um 24 de setembro, a data de hoje, a que consagrei para sempre, ao vestir, simbolicamente, o manto aconchegante da paternidade querida. Agora, ali no berçário da maternidade, repousava a bela menina, ralos cabelos aloirados, que passara por todos os exames preliminares de sanidade. E aí voltou a emoção.
A dor atravessada se transmudava em alegria incontida. Precisava contá-la a meus pais, irmãos, parentes e amigos. E fui a uma gráfica. Escrevi o texto anunciando a alegria do seu nascimento. A afeição derramada em palavras na comunicação escrita com letras cursivas em cartão de linho vincado. E assim foi feito, querida filha. Dias depois, chegava à nossa casa, plena de cuidados, posta em berço em madeira de lei, detalhes artesanais torneando suas grades, como a dizer da alegria de bem recebê-la com o protetor cortinado de renda e bicos. E quis Deus, que essa menina, com nome belo e forte, anos após, comemorasse um aniversário.
Por e com amor, havíamos, eu e sua mãe, construído uma casa de boneca. Fizemo-la em alvenaria, coberta com telhas coloniais, janelas, portas, piso e água corrente na micro-pia da cozinha. E, já pronta para a festa aniversária, sua mãe, grávida de oito meses, abaixou-se para olhar o interior daquela belezoca de brinquedo. E aí se deu o rompimento da bolsa placentária envolvendo uma outra irmã, prestes a nascer.
E essa irmã e filha, de tão fraterna, possa ter dado um solavanco maior naquele mundo aquoso em que navegava para vir participar dessa festa neste planeta azul. E assim se fez. Você chegou de improviso, no mesmo 24 de setembro. E enriqueceu com a sua vinda, graça e brejeirice antecipada a brincadeira naquela casinha de bonecas feita para vocês, bonecas vivas. A vocês, neste seu dia deste novo século, com realidades, dores, amores e sonhos, renovo meu amor pronto, decidido, encabulado, talvez melhor escrito que falado, mas não menor que o maior que um pai possa dedicar a filhas queridas. Parabéns.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/09/2010.

Sem categoria

LULA, O DIPLOMATA – Diário do Nordeste

Os Estados Unidos têm sindicalismo forte há muitas e muitas décadas. Lembro que, ainda universitário, vi como a mais poderosa universidade do país, a Harvard, situada na rica Nova Inglaterra, respeita e até convida a maior e mais poderosa central sindical do país, a AFL-CIO, para seus cursos. Naquela ocasião, o “speaker” dessa central nos dizia algo como: a minha família era muito pobre, mas orgulhosa. Todas as visitas não passavam da sala bem cuidada. O que estão fazendo com vocês é semelhante, mostram a parte bilionária e bonita da América. E aí começou a falar do que considerava a parte oculta do país.
Agora, de Washington para o Valor, o jornalista Alex Ribeiro, refere ser o presidente Lula fiel amigo da AFL-CIO e, especialmente, do advogado, com curso na Harvard, Stanley Gacek, de quem recebe, há 27 anos, conselhos de como lidar com os vários públicos com os quais interage no governo, sindicalismo e mundo empresarial dos USA. Gacek já foi diretor internacional da AFL-CIO e, agora, assumiu cargo no Departamento (ministério) do Trabalho do governo Obama. O que se depreende da reportagem é que Gacek foi e é um “conselheiro” informal de Lula e, ao mesmo tempo, avalista das políticas do governo brasileiro, mostrando-o distante do “Eixo do Mal”, formado por Venezuela e Cuba. A frase de Obama: “Lula é o cara”, pode ter sido soprada por Gacek, acreditado por ser harvardiano, tal como Obama.
Agora, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, acaba de estar em Cuba para dizer da necessidade daquele país dar mais ênfase ao processo de distensão da política interna e externa, com a liberação de prisioneiros com voz dissonante da dos irmãos Castro e conseguir o fim do embargo. De Havana, o embaixador Celso Amorim foi direto para Nova Iorque onde se reuniu com a ex-prisioneira do Irã, a americana Sarah Shourd. Esta, em reunião pública, elogiou os esforços do governo brasileiro para auxiliar a sua libertação, ora acontecida. Disso tudo fica claro que Lula tem mantido sua imagem midiática internacional para a conquista de um relevante posto em organismo internacional. 2011 confirmará?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/09/2010.

Sem categoria

O TEMPO E O ESPELHO – Jornal O Estado

“Quanto mais envelheço, tanto mais desconfio da crença comum de que a idade traz sabedoria” H.L. Mencken
Para todos, o dia tem 24 horas. Temos um relógio incrustado em algum lugar de nossa mente que sempre confirma o passar do tempo. Cada segundo é tempo diminuído da nossa conta-corrente de vida. Não há como pedir tempo, como se estivéssemos jogando uma partida de vôlei, futebol de salão ou basquete. O jogo não tem sequer intervalos. As noites insones, e as de sono inquieto ou profundo, também são lançadas no passivo da vida. Assim, a cada dia, vamos saindo do berço, dos cueiros, para o engatinhar, cair, levantar, andar e daí sair para a escola, a faculdade, o trabalho, a vida a dois, a solidão desejada ou auto-imposta pelas circunstâncias.
Hoje, 1º de outubro, se você não sabe, é o dia consagrado ao idoso, em face do Estatuto nacional que regula e presume proteger as suas relações com a sociedade. Mas, afinal, o que é ser idoso? Será a diminuição das faculdades vitais ou a expulsão, por decurso de prazo, do mercado de trabalho? Será o limiar do desengano? O ponto do não retorno? A ausência de objetivos? A perda do viço ainda existente em árvores centenárias? A não obrigação de fazer? Ou o desamparo sentido ao olhar o tempo perdido? Não o poético andamento proustiano, mas a fala não dita, a atitude não tomada, a posição não assumida, o perdão não obtido, a incapacidade de se auto aceitar em frente ao espelho real, esse aliado eterno do tempo.Ele conhece a nossa face, sabe de nossas rugas, vê os olhos mudando de dioptrias, repara na curvatura das sobrancelhas, não esconde os vincos do pescoço e o cair dos cabelos que se tornam cinza e em brancos se findam. Mas, o que é um espelho? Socorro-me de Clarice Lispector: “É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio… esse alguém percebe o mistério da coisa”.
Por outro lado, estar idoso é ter a dimensão da finitude, de traduzir a vida não como tragédia, comédia ou farsa, mas como uma seqüência de atos que praticamos por nossa própria vontade, herança genética ou dos costumes, bons ou maus, adquiridos no compasso ou sincopado das relações humanas.
Estar maduro, idoso, não é mérito, embora ninguém deseje morrer jovem. Estar idoso pode ser prêmio ou maldição. Depende, sempre, da terra que aramos, das sementes plantadas, da rega que fizemos e do cuidado com as ervas daninhas. Hoje, neste dia dedicado aos maiores de sessenta anos, é preciso que todos nós, idosos e os que os cercam, bem como os que, com ou sem razão, os abandonaram, coloquem a pesar os pratos das contas-correntes que forjam a balança da vida e tirem suas conclusões. Sem esquecer nunca que você é o que sente ou o que deixa ser plantado em sua mente que, quase sempre, mente.
Dedicado a Francisco Lima Freitas, ativo e capaz, na pista oitentona.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/10/2010.

Sem categoria

NÓS E O VOTO – Diário do Nordeste

Não sei a que horas você lerá esta parte do jornal. Espero que seja antes de votar. Não sei sua idade, sexo, cor, religião, ideologia e profissão. Sei que pode ser eleitor (a). Hoje, neste 3 de outubro de 2010, você terá alguns minutos para votar. Vai eleger dois deputados, estadual (10 candidatos para 1 vaga) e federal (13 para 1). Dois senadores, governador e presidente da República. Não brinque com seu voto. Não faça dele uma piada de mau gosto, não se enfureça diante da realidade, nem desacredite na raça humana. Pense.
Exercite sua vontade, aquela da qual está convencido. O voto, já se disse à exaustão, tem efeito. Saiba, hoje, o que acontecerá depois. Não se dê por vencido, faça o seu Ficha Limpa pessoal, veja quais candidatos já foram condenados. Os que mudaram de bairro, casa, costumes, montaram negócios do nada e apareceram em outros mundos, sem descobrir-se o milagre. O milagre é que não há milagre. A escolha é sempre entre a realidade e a ilusão.
Você, na hora que entrar na seção eleitoral e se ver diante da urna eletrônica, mesmo que não queira, estará ligado ao futuro e não ao passado, seja de mágoas, desenganos e fantasias. Estabeleça um elo de conexão com sua terra, seu país. Você não tem obrigação de votar só por votar. Renda-se ao seu próprio julgamento e acredite, por instantes, que é senhor de parte do destino do país. Um aperto de mão, olhar distante ou fixo, jeito de dizer o improviso e raiva contida, podem definir uma pessoa. A vida real não tem ensaios, nada é como a televisão com maquiagem, cortes, iluminação, diretor de arte e a edição final. Olhe as imagens, mas não esqueça do que acontece ao seu redor.
Há uma velha estória que vale a pena contar: uma família queria saber o futuro de um jovem ainda imberbe. Deram-lhe uma maçã, um livro de orações e um valor em dinheiro. Esperaram a sua reação. O jovem comeu a maçã, leu o livro e colocou o dinheiro no bolso. Viram, então, que ele havia escolhido sua profissão: seria político. Brincadeiras à parte, não responsabilize os outros pelo que você faz. O seu voto vai definir o modo como a vida vai girar. Não faça roleta russa. Vote certo. Vote no Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/10/2010.

Sem categoria

MARINA, DILMA E SERRA – Jornal O Estado

Recebi, de presente, em agosto passado, o livro “Marina – a vida por uma causa”, escrito por Marília de Camargo César. Li o livro, que não é dos melhores, mas conta a história – meio romanceada – dessa filha de pais cearenses. Pedro, seu pai, nasceu em Messejana que, no livro, é dado como “no sertão do Ceará”. Sua mãe, Maria Augusta, nasceu em Paracuru, cidade praiana. Pobres, como milhares de outros cearenses, foram tentar a vida no Acre e se uniram sob as bênçãos do patrão de Pedro, um dono de seringal.
Sendo filha de pai e mãe cearenses retirantes, Marina é, de fato, cearense. Esse detalhe, pouco divulgado, talvez demonstre sua fibra, razão de vida, mudanças e sonhos. Por outro lado, não recebi nenhum livro sobre Dilma e Serra. Procurei nas livrarias e não encontrei. Vi resumos na Internet. Ambos fizeram política estudantil, em décadas distintas. Serra, paulista, presidente da União Estadual dos Estudantes, em SP e, em seguida, presidente da União Nacional dos Estudantes, a famosa UNE, de então. Entrou na Ação Popular, movimento ligado à Igreja.
Dilma, mineira, estudou no Colégio católico Sion em BH, fez vestibular para economia e, em seguida, em plena revolução de 64, entrou no movimento Política Operária- Polop, radical, depois Val-Palmares, ao mesmo tempo em que casava com um jornalista. Perseguida, entrou na clandestinidade, separou-se e teve um novo companheiro, com quem divide filha e neta. Serra, também perseguido, abandonou curso de engenharia e daí se mandou para o Chile, onde concluiu mestrado em economia. Lá, casou com uma bailarina, mãe de seus filhos e netos. Por lá, trabalhou até a queda do Presidente Salvador Allende. Aportou nos Estados Unidos e fez doutorado na Universidade de Cornell e, após isso, pesquisa na Universidade de Princeton.
Nos anos 80, Dilma, após amargar cadeia, passa a trabalhar no serviço público no Rio Grande do Sul, onde se forma em economia. Eficiente em funções públicas, sempre seguindo a orientação, já menos radical, de Leonel Brizola, do PDT, partido a que pertenceu até 2001.
Serra fez carreira em São Paulo como deputado, prefeito, senador, ministro e governador, pelo PSDB. Foi derrotado por Lula em 2002 e, agora, em 2010, é salvo pela filha de cearenses Marina Silva, está no 2º. Turno. Dilma, por sua vez, entrou no PT em 2001, vindo do RS e, já em 2003, passou a integrar os quadros do governo Lula. Com a queda de José Dirceu, por conta do Mensalão, assume a Casa Civil e desponta, na visão de Lula, como sua sucessora. Mulher forte, descasada, apaixonada pelo trabalho e obediente às ordens de Lula, pouco a pouco, sendo mostrada aos políticos do PT e aliados como a escolhida. E assim feito, surgiu a Dilma, a mãe do Brasil, na linguagem lulista. Quase ganha no 1º. turno. Serra, estudioso, meticuloso e sisudo, lutou contra Aécio Neves e conseguiu ser candidato. Atrapalhou-se na escolha do vice e fez campanha meio perdida sem muita empatia e aliados.
São estes os nossos candidatos a presidente que, no dia 31 deste outubro, vão se encontrar outra vez. Sendo eu o marqueteiro deles, pediria, agora que têm tempos iguais de propaganda e em debates, menos sisudez, uma pitada de descontração e se deixassem perceber em suas essências como seres humanos. Se eu fosse “âncora” de programa de entrevistas pediria que eles me contassem algumas histórias leves e engraçadas, dissessem uma piada, cantassem uma música, algo assim. O Brasil precisa de gente séria, mas não de carrancudos, o tempo todo. Nem tanto Lula, nem tampouco Dilma ou Serra. O ideal seria misturar a descontração total do Lula com a caturrice dos dois e dividi-la em partes iguais. Um lembrete, Obama, antes de ser presidente, escreveu dois livros biográficos. Agora, em meio a guerras com muçulmanos e problemas com os republicanos, tem 2.000 músicas em seu I-Pod. Um dos seus cantores preferidos é John Coltrane. Quais são os preferidos de Dilma e Serra?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/10/2010

Sem categoria

RÉVIA, ROBERTO E SERIDIÃO – Jornal O Estado

A noite da última quarta-feira, 13 de outubro de 2010, foi memorável para a Academia Fortalezense de Letras. Celebramos, com efusão, a eleição de três novos colegas, pelo voto direto e secreto. Eles vão agregar à Fortalezense suas capacidades e os amores crescentes pela literatura. Antes, gostaria de falar um pouco de seus predecessores. Começo com Yolanda Montenegro, difusora do Ceará na Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro. Ciosa do seu nome e das restrições que a idade impõe, houve por bem renunciar, de forma digna, à metáfora da imortalidade. Cláudio Pereira, referência na dinamização da cultura popular em Fortaleza, hoje deslimitado do nosso convívio, asperge de forma infinita sua energia e criatividade por outras ondas do universo. Ele será sempre saudade. Roberto Pires de Oliveira, carioca que adotou o Ceará como sua terra, optou por ver o desembocar do rio, não o de Janeiro, mas o Coreaú que atravessa a região norte e banha Camocim, seu definitivo amor de duas águas.
Coube aos novéis acadêmicos a honra de saudar seus patronos. O romancista, autor de Luzia-Homem, Domingos Olímpio foi saudado por Révia Herculano; o bibliófilo José Bonifácio Câmara foi apreciado por Roberto Ribeiro; e o historiador Mozart Soriano Aderaldo, meu ex-professor, foi louvado por Seridião Montenegro.
Ao colega Antonio Colaço Martins foi conferida a missão protocolar de dar eruditas boas-vindas aos novos integrantes da Academia Fortalezense de Letras, os já citados Révia Herculano, Roberto Ribeiro e Seridião Montenegro. Gostaria de referir que Révia Herculano é graduada em letras, especialista em literatura brasileira e em educação pela UFC e no MEC- Brasília, autora de livros e detentora de prêmio em concurso literário. Seja bem-vinda Révia Herculano, fortalezense no esporte e na literatura. Roberto Ribeiro é administrador pela UECE, possuidor de voz maviosa que o tornou em forma e conteúdo mestre da retórica, bibliófilo, autor de um dicionário singular e com outros originais no prelo. Seja bem-vindo Roberto Ribeiro, com a sua presença portentosa e constante. Seridião Montenegro é ex-professor universitário no Ceará e em Brasília, procurador da Fazenda Nacional capaz e probo, autor de monografias técnicas e de livro de quase-memória. Seja bem-vindo Seridião Montenegro, de quem tive o prazer de ser colega de turma na Faculdade de Direito da UFC. Aos três, Révia, Roberto e Seridião os meus votos para que sejam acadêmicos criativos, propagadores da literatura, atuantes e presentes na vida da Academia Fortalezense de Letras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/10/2010.

Sem categoria

A CORUJA E A CULTURA – Diário do Nordeste

Consta na História da mitologia grega que Athena (Minerva, na mitologia romana), considerada a deusa da guerra e da sabedoria, possuía uma coruja como mascote. Sendo a coruja um animal noturno, os gregos, que apreciavam a noite como o tempo de meditação, da filosofia e o da revelação intelectual, a escolheram como seu símbolo. Dessa forma, a coruja passou a ser cultuada, por seus grandes olhos, como referência da busca pelo conhecimento. Da zoologia se depreende que a coruja não aceita bem ser criada em cativeiro, tem visão 180% superior à espécie humana, enxergando muito, apesar de daltônica. Como tem os olhos separados e pescoço flexível, possui a capacidade de girar a cabeça para mirar tudo ao seu redor. Daí a suposição de que teria inteligência, argúcia, sensibilidade e audição privilegiadas.
Consta ainda da história que, em uma língua nórdica antiga, a coruja recebeu o nome de “uglia”, em face do som que emite. Algo como ugli ou uglia. Em inglês, a palavra “ugly” significa feio e ninguém, na realidade, vai afirmar ser a coruja um animal bonito. A partir dessa ilação, consolidou-se mais a ideia ou o estereótipo do sábio, pessoa silenciosa, tal como a coruja, mais preocupada com o mundo interior que com as aparências, segundo afirma o professor da Universidade de São Paulo, Antônio Medina Rodrigues, especialista em estudos helenistas.
Estas explicações alinhavadas são uma introdução para dizer que a Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará – Apesc, acreditada entidade de classe presidida pelo prof. Ari Othon Sidou, tem a coruja como seu troféu maior e, escolhe, em assembleia geral, personalidades/entidades para homenagear, ao seu julgar, por terem contribuído de forma relevante para o desenvolvimento da educação e da cultura.
Neste ano de 2010, em solenidade realizada última quinta-feira, véspera do dia do professor, os agraciados foram a Fundação Beto Studart; o Ministro do STJ, Francisco César Asfor Rocha; o Ministro do TCU, Ubiratan Diniz Aguiar, o prefeito de Maracanau, Roberto Pessoa; e este escriba que, lisonjeado, resolveu, em agradecimento, fazer este registro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/10/2010.

Sem categoria

FORTALEZENSE, ONTEM E HOJE – Jornal O Estado

Este escrito de despedidas não voa em metáforas, ele se prende à materialização dos desejos e atitudes de Matusahila Santiago e José Luís Lira ao fundarem a Academia Fortalezense de Letras. Fui comunicado por Natércia Campos haver sido eleito. Lembrei então do menino que registrava tudo em seu “diário”, do jovem universitário de direito e administração, a escrever, de forma remunerada, por seis anos, todos os dias, nos jornais Associados. Depois, emergiu o adulto com artigos e crônicas aos domingos, há décadas, no Diário do Nordeste. E, posteriormente, às sextas, neste O Estado. Cessado o receio natural, vieram livros. Por outro lado, nascia uma academia. Foi assim. Sempre acreditei no pensamento de Ralph Waldo Emerson: O talento sozinho não consegue fazer um escritor. Deve existir um homem por trás do livro. Assim, em 2008, como homem e escritor, recebi a tarefa de, por voto unânime, presidir a Fortalezense, e tentar escrever dois anos de sua história com autocrítica, acreditando que uma academia de letras é sempre um vir-a-ser, um projeto em construção, original, essencial ou simples. Como disse Clarice Lispector: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.Uma entidade literária, no meu pensar, é produto da sinergia de seus componentes, do somatório de suas qualificações pessoais, de suas produções literárias em múltiplos gêneros, dos seus gestos singulares e personalizantes. Recebi o bastão de Ednilo Soárez, que o ganhara de Cybele de Pontes, e, esta, de Cid Carvalho. Grande responsabilidade, a minha. Seguindo as palavras do escritor mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de Literatura, em 1990: “O homem é um ser que pergunta”. A todos perguntei e, a cada um deles, pedi que o fizessem por escrito. Aos ex-presidentes, solicitei encadernassem o registro histórico de suas gestões e experiências. Li tudo, com respeito, o que haviam proposto, escrito e feito. A partir daí, saí da primeira pessoal do singular para a primeira do plural, procurando fazer, em dois anos, algo qualificado como:1. a participação da Fortalezense, em sessões públicas, em duas bienais do livro do Ceará, fato inédito e acreditado; 2. estimular e acompanhar colégios e jovens estudantes de nível médio para que fundassem e mantivessem academias de letras; 3. realizar os eventos “Viajando nos Livros”, com parceria de colégios públicos e privados e milhares de participantes; 4. idealizar e criar, com o apoio do então presidente da ACL, Murilo Martins, e ajuda de Regina Fiúza, grupo de trabalho multidisciplinar para elaborar projeto visando a obtenção de recursos das leis de incentivo para restauro do Palácio da Luz, patrimônio de nossa anfitriã, a Academia Cearense de Letras; 5. a repercussão da atuação ensejou homenagem e reconhecimento público. Por iniciativa do vereador Paulo Facó, a Fortalezense, em outubro de 2009, foi homenageada, em sessão solene, na Câmara Municipal de Fortaleza; 6. propiciar jantar anual de confraternização natalina; 7. realizar mudanças no Estatuto Social e no Regimento Interno para condicionar candidaturas por editais publicados na imprensa e um conselho fiscal para examinar receitas e aplicação dos nossos recursos, mínimos que sejam; 8. conseguir viver estes dois anos com os nossos próprios recursos, sem recorrer a quaisquer ajudas de pessoas, empresas, instituições ou órgãos públicos. Entregamos, ontem, um caixa saneado e maior do que recebemos; 9. conceber a criação de um Anuário da Cultura, projeto esse encampado pelo Secretário Auto Filho e ampliado pela SECULT- Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, ora em elaboração;10.criar o selo editorial Fortalezense de Letras para uso dos acadêmicos em suas publicações;11. publicar mais um número da Acta Literária; 12. criar um Histórico para cada acadêmico para a memória;13. distribuir broches/ bottons e carteiras de identidades sociais para acadêmicos; 14. lutar para que o “Pacto de Fortaleza, a cidade que queremos para 2020”, contemple a cultura entre os seus eixos. Publicamos artigo, fizemos exposição de motivos à Câmara Municipal e lá comparecemos para, de viva voz, dizer da razão do nosso pleito. Em 24 de setembro passado, o pres. Salmito Filho nos assegurou, pessoalmente, que a cultura será incluída. 15. Realizar eleições diretas, precedidas de editais publicados, escolher e dar posse a três novos acadêmicos.
Agora é almejar harmonia, trabalho e dedicação a todos os que compõem a nova diretoria, encabeçada por Gizela Nunes da Costa, detentora de cultura e experiência, fazendo votos que sua liderança, vontade e sensibilidade confluam para um maior relacionamento entre os acadêmicos, instigando-os a escrever obras de nível, pois como dizia Ítalo Calvino, “Os leitores são os meus vampiros”. A todos colegas da Fortalezense, especialmente os da diretoria que sai, os meus agradecimentos. Aos demais, faço votos que cultivem e propaguem, em outras academias a que pertencem, a atitude de que a cultura contemporânea do Ceará deve ser sustentada, ampliada e consolidada pelo compartilhamento dos saberes, integração de competências e a fusão de ideias para o engrandecimento das letras e da literatura. Por fim, Presidente Gizela, lembre o Eclesiástico, 6:2: “Revestir-te-às dela como de uma estola de glória/ e a porás sobre ti como uma coroa de regozijo”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/10/2010.

Sem categoria

BRASIL SUJO – Diário do Nordeste

Daqui a uma semana você estará escolhendo a pessoa que governará o Brasil. Você tem sete dias para pensar, decidir, confirmar o seu voto no primeiro turno ou mudá-lo. Como hoje é domingo, pense um pouco no Brasil de hoje, esse gigante de quase 200 milhões de habitantes, tomado, sem grandes traumas, dos portugueses, nossos colonizadores. Em 1799, o Brasil tinha três milhões de habitantes e, pasmem somente 12 médicos, todos formados no exterior. Nessa época, as sujeiras das casas eram jogadas pelas janelas. Quem passava pelas ruas, sem pavimento, pisava nelas. Em consequência, as doenças proliferavam e a vida média de uma pessoa era de 30 anos. A médica Cristina Gurgel, professora da PUC- Campinas, SP, publicou o livro “Doenças e Curas: O Brasil nos primeiros séculos”.
Ela diz que no século XVII de cada três crianças nascidas no Nordeste, uma só sobrevivia. É claro que a chegada, forçada por Napoleão Bonaparte, da família real portuguesa, em 1808, trouxe melhoras para o Rio, a capital da colônia, e Salvador, a primeira capital. Cada uma ganhou até uma faculdade de medicina e rudimentos de saneamento básico foram aparecendo. Voltando a 2010 vemos que há ainda situações similares em favelas, especialmente no norte e nordeste. Quase todas as casas têm aparelhos de TV, sons, refrigeradores, movidos à energia elétrica legal ou não. Faltam atenção para a urbanização, a provável ausência de água e esgotos públicos, pavimentação decente e um arruamento simples que dê um ordenamento aos caminhos, vielas e os transforme em ruas iluminadas, com um mínimo de segurança.
A propósito, o filme “Tropa de Elite-2”, mostra agora outra face das favelas do Rio, a existência de milícias paramilitares que, a título de proteção, extorquem pequenos comerciantes. Não faço apologia do filme, tampouco o critico, apenas registro que ele é o maior fenômeno de bilheteria no Brasil, comprovado pela Nielsen, empresa que monitora a bilheteria dos cinemas no mundo. Do que vi e li, há uma percepção geral de que os espectadores saem meio pasmos do filme, como se tivessem levado um soco no estômago. E pisam nas ruas com medo de tudo e de todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/2010.

Sem categoria

SÃO PAULO E O JABUTI – Jornal O Estado

Estive agora em São Paulo. Dizia Edson Queiroz que a cidade era tão legal que o povo falava a língua portuguesa, entre outras. É claro que não é o português brasileiro, mas qual seria o português brasileiro? O quase castiço do Maranhão? O dos “esses” dos cariocas? O jeitão duro e o emprego do tu pelos gaúchos? Ou a ginga dengosa baiana? Importa não, todos se desentendem na mesma íngua. Enquanto andava por várias partes da cidade, inclusive na região que os paulistas chamam de Berrini, uma nova Avenida Paulista, pude ver, ali perto, sob pontes e viadutos, lugares de morar dos sem teto. Muitos lugares, centenas de sem teto. Não estou falando de favela, mas de tocas humanas. Ao mesmo tempo, a cidade zoa veloz por sobre os tetos dos sem teto. Carrões e carrinhos, ônibus articulados, tipo três em um, motocicletas, táxis e assemelhados formam uma grande lagarta modorrenta multicolorida iluminada no entardecer. A terra recebe a chuva forte para minimizar a baixíssima umidade do ar, essa secura deixando a todos nervosos e suarentos E as emissoras de TV, a exaustão, falavam da “ocupação” do complexo do Alemão, no Rio. Todos paravam, vidrados. Foi preciso juntar as polícias e as forças armadas para a operação ficar ao gosto do sensacionalismo de certos canais de televisão. Esquecem os paulistanos que já aconteceu isso em Sampa. Não precisam ficar espantados. Basta lembrar o passado recente. Ônibus queimados, delegacias metralhadas etc. Foi neste século. Juro que não queria escrever sobre isso, a intenção era dizer que a região dos jardins é maravilhosa, especialmente o Jardim Europa. Por lá, revendedoras de veículos, envidraçadas e iluminadas, açulam a cobiça dos que podem e frequentam, entre outros, o Clube Harmonia, nas proximidades. Mas, no duro mesmo, o que gostaria de falar seria sobre a confusão criada pelos editores paulistas Luiz Schwarcz (Cia. Das Letras) e Sérgio Machado (Record) acerca da escolha concedida pelo Prêmio Jabuti a Chico Buarque, o escritor. É briga de cachorro grande e tem a ver com a não eleição do jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre, que lançou um romance e já seria o premiado, não fosse Chico quem é. Depois, talvez conte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/12/2010.