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FORTALEZENSE, ONTEM E HOJE – Jornal O Estado

Este escrito de despedidas não voa em metáforas, ele se prende à materialização dos desejos e atitudes de Matusahila Santiago e José Luís Lira ao fundarem a Academia Fortalezense de Letras. Fui comunicado por Natércia Campos haver sido eleito. Lembrei então do menino que registrava tudo em seu “diário”, do jovem universitário de direito e administração, a escrever, de forma remunerada, por seis anos, todos os dias, nos jornais Associados. Depois, emergiu o adulto com artigos e crônicas aos domingos, há décadas, no Diário do Nordeste. E, posteriormente, às sextas, neste O Estado. Cessado o receio natural, vieram livros. Por outro lado, nascia uma academia. Foi assim. Sempre acreditei no pensamento de Ralph Waldo Emerson: O talento sozinho não consegue fazer um escritor. Deve existir um homem por trás do livro. Assim, em 2008, como homem e escritor, recebi a tarefa de, por voto unânime, presidir a Fortalezense, e tentar escrever dois anos de sua história com autocrítica, acreditando que uma academia de letras é sempre um vir-a-ser, um projeto em construção, original, essencial ou simples. Como disse Clarice Lispector: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.Uma entidade literária, no meu pensar, é produto da sinergia de seus componentes, do somatório de suas qualificações pessoais, de suas produções literárias em múltiplos gêneros, dos seus gestos singulares e personalizantes. Recebi o bastão de Ednilo Soárez, que o ganhara de Cybele de Pontes, e, esta, de Cid Carvalho. Grande responsabilidade, a minha. Seguindo as palavras do escritor mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de Literatura, em 1990: “O homem é um ser que pergunta”. A todos perguntei e, a cada um deles, pedi que o fizessem por escrito. Aos ex-presidentes, solicitei encadernassem o registro histórico de suas gestões e experiências. Li tudo, com respeito, o que haviam proposto, escrito e feito. A partir daí, saí da primeira pessoal do singular para a primeira do plural, procurando fazer, em dois anos, algo qualificado como:1. a participação da Fortalezense, em sessões públicas, em duas bienais do livro do Ceará, fato inédito e acreditado; 2. estimular e acompanhar colégios e jovens estudantes de nível médio para que fundassem e mantivessem academias de letras; 3. realizar os eventos “Viajando nos Livros”, com parceria de colégios públicos e privados e milhares de participantes; 4. idealizar e criar, com o apoio do então presidente da ACL, Murilo Martins, e ajuda de Regina Fiúza, grupo de trabalho multidisciplinar para elaborar projeto visando a obtenção de recursos das leis de incentivo para restauro do Palácio da Luz, patrimônio de nossa anfitriã, a Academia Cearense de Letras; 5. a repercussão da atuação ensejou homenagem e reconhecimento público. Por iniciativa do vereador Paulo Facó, a Fortalezense, em outubro de 2009, foi homenageada, em sessão solene, na Câmara Municipal de Fortaleza; 6. propiciar jantar anual de confraternização natalina; 7. realizar mudanças no Estatuto Social e no Regimento Interno para condicionar candidaturas por editais publicados na imprensa e um conselho fiscal para examinar receitas e aplicação dos nossos recursos, mínimos que sejam; 8. conseguir viver estes dois anos com os nossos próprios recursos, sem recorrer a quaisquer ajudas de pessoas, empresas, instituições ou órgãos públicos. Entregamos, ontem, um caixa saneado e maior do que recebemos; 9. conceber a criação de um Anuário da Cultura, projeto esse encampado pelo Secretário Auto Filho e ampliado pela SECULT- Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, ora em elaboração;10.criar o selo editorial Fortalezense de Letras para uso dos acadêmicos em suas publicações;11. publicar mais um número da Acta Literária; 12. criar um Histórico para cada acadêmico para a memória;13. distribuir broches/ bottons e carteiras de identidades sociais para acadêmicos; 14. lutar para que o “Pacto de Fortaleza, a cidade que queremos para 2020”, contemple a cultura entre os seus eixos. Publicamos artigo, fizemos exposição de motivos à Câmara Municipal e lá comparecemos para, de viva voz, dizer da razão do nosso pleito. Em 24 de setembro passado, o pres. Salmito Filho nos assegurou, pessoalmente, que a cultura será incluída. 15. Realizar eleições diretas, precedidas de editais publicados, escolher e dar posse a três novos acadêmicos.
Agora é almejar harmonia, trabalho e dedicação a todos os que compõem a nova diretoria, encabeçada por Gizela Nunes da Costa, detentora de cultura e experiência, fazendo votos que sua liderança, vontade e sensibilidade confluam para um maior relacionamento entre os acadêmicos, instigando-os a escrever obras de nível, pois como dizia Ítalo Calvino, “Os leitores são os meus vampiros”. A todos colegas da Fortalezense, especialmente os da diretoria que sai, os meus agradecimentos. Aos demais, faço votos que cultivem e propaguem, em outras academias a que pertencem, a atitude de que a cultura contemporânea do Ceará deve ser sustentada, ampliada e consolidada pelo compartilhamento dos saberes, integração de competências e a fusão de ideias para o engrandecimento das letras e da literatura. Por fim, Presidente Gizela, lembre o Eclesiástico, 6:2: “Revestir-te-às dela como de uma estola de glória/ e a porás sobre ti como uma coroa de regozijo”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/10/2010.

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BRASIL SUJO – Diário do Nordeste

Daqui a uma semana você estará escolhendo a pessoa que governará o Brasil. Você tem sete dias para pensar, decidir, confirmar o seu voto no primeiro turno ou mudá-lo. Como hoje é domingo, pense um pouco no Brasil de hoje, esse gigante de quase 200 milhões de habitantes, tomado, sem grandes traumas, dos portugueses, nossos colonizadores. Em 1799, o Brasil tinha três milhões de habitantes e, pasmem somente 12 médicos, todos formados no exterior. Nessa época, as sujeiras das casas eram jogadas pelas janelas. Quem passava pelas ruas, sem pavimento, pisava nelas. Em consequência, as doenças proliferavam e a vida média de uma pessoa era de 30 anos. A médica Cristina Gurgel, professora da PUC- Campinas, SP, publicou o livro “Doenças e Curas: O Brasil nos primeiros séculos”.
Ela diz que no século XVII de cada três crianças nascidas no Nordeste, uma só sobrevivia. É claro que a chegada, forçada por Napoleão Bonaparte, da família real portuguesa, em 1808, trouxe melhoras para o Rio, a capital da colônia, e Salvador, a primeira capital. Cada uma ganhou até uma faculdade de medicina e rudimentos de saneamento básico foram aparecendo. Voltando a 2010 vemos que há ainda situações similares em favelas, especialmente no norte e nordeste. Quase todas as casas têm aparelhos de TV, sons, refrigeradores, movidos à energia elétrica legal ou não. Faltam atenção para a urbanização, a provável ausência de água e esgotos públicos, pavimentação decente e um arruamento simples que dê um ordenamento aos caminhos, vielas e os transforme em ruas iluminadas, com um mínimo de segurança.
A propósito, o filme “Tropa de Elite-2”, mostra agora outra face das favelas do Rio, a existência de milícias paramilitares que, a título de proteção, extorquem pequenos comerciantes. Não faço apologia do filme, tampouco o critico, apenas registro que ele é o maior fenômeno de bilheteria no Brasil, comprovado pela Nielsen, empresa que monitora a bilheteria dos cinemas no mundo. Do que vi e li, há uma percepção geral de que os espectadores saem meio pasmos do filme, como se tivessem levado um soco no estômago. E pisam nas ruas com medo de tudo e de todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/2010.

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MARGARIDA, 91

“Agora, pois, filhos, ouvi-me/bem aventurados os que guardam os meus caminhos/Ouvi as minhas instruções, e sede sábios, /e não queirais rejeitá-las”. Provérbio, 8:32
Dona Margarida completa noventa e um anos amanhã. Tentei, de todas as formas, mandar confeccionar um bolo com 91 metros de comprimento. Não consegui. Não dava para ser transportado e não havia ambiente, tampouco balcão disponível que comportasse essa guloseima gigante. De qualquer modo, juntei ingredientes vindos das barrancas do meu coração, untei-os com o liame a nos unir e com uma colher de pau gigantesca fiz nascer esse bolo enorme, cheiroso, confeitado, saboroso como o amor e caseiro.
Esse bolo virtual/real terá apenas duas velas. Uma, simbolizará a nona década de sua vida e, outra, o numeral um, a dizer que ela está iniciando a trilha para o seu centenário. Ele será compartilhado por irmãos, filhos, netos, bisnetos e por pessoas amigas que, certamente, ficarão alegres em louvar a vida dessa mulher de fibra, chefe de família exemplar, irmã querida, mãe vigilante, avó crítica e dona de sensatez profunda. Haverá bênção e todos, contritos, mesmo sendo pecadores, agradecerão a descendência que lhes coube na árvore dessa bonita mulher baobá, filha do farmacêutico João Caminha Monteiro e de D. Luiza Saraiva Caminha, educada no Colégio da Imaculada Conceição. Seu pai, João, morreu cedo, deixando uma grande, honrada e sacrificada família em face das despesas de sua longa enfermidade.
Sua mãe, Luiza, ainda restou grávida do 12º. filho, mas conduziu com dignidade o desígnio que lhe coube. O fato é que dessa tribo eu sai curumim e aprendi que a nossa oca tem fraternidade, olho no olho, decisão de chegar junto no momento preciso. À Dona Margarida, viúva há quase duas décadas, dorida e ciosa de sua casa, cabelo de algodão doce, resposta lúcida e pronta a qualquer questão, mesa posta como se fora uma tasca de estrada, o amor e carinho de seus nove filhos, adultos, independentes e capazes, aqui e alhures. O respeito de netos sem conta, médica, advogados, administradores, arquiteto, psicóloga e que tais e, de bisnetos que, se não levam mais seu sobrenome, têm, sem que o saibam, o indulto da genética a repatriá-los e a cobri-los, não com mimos, mas com o exemplo traduzido em sentido de vida, da aurora ao arrebol, a inocular a todos dignidade e temperança. Saiba, Dona Margarida, que agradecemos por sua lida e louvamos sua vida. Como filhos adultos, estamos e estaremos, agora e sempre, a seu lado, na sua casa com jardim e quintal sombreados por árvores frutíferas, na varanda de tantas conversas sem fim, nas cadeiras que não têm donos, pois somos iguais quando nelas sentamos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/10/2010.

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A CONTA DA ENERGIA – Jornal O Estado

Thomas Edson, final do século 19, inventou a lâmpada incandescente e iluminou uma rua para espanto dos moradores de Menlo Park, em New Jersey, USA. A partir daí começa a utilização efetiva da energia elétrica. Não é segredo para ninguém que a conta da energia elétrica no Brasil é uma das mais caras do mundo. O detalhe que escapa a muitos é que a maior parte da energia brasileira é de geração hidráulica, de custo baixo. É só lembrar, por exemplo, das hidrelétricas de Itaipu, movida pelo rio Paraná, no sul do país, e a de Paulo Afonso, na Bahia, pelo “velho Chico” ou o rio São Francisco, tão festejado por políticos e trovadores, mas maltratado desde Minas até o Atlântico. Se você morasse na Inglaterra, Portugal, Alemanha, Espanha, México, França, Estados Unidos e mais países pagaria menos pela energia consumida. Imagine a sua conta mensal final como sendo de cem reais. Coloquei final, de propósito, pois do valor da compra da energia, ao custeio da operação e a manutenção das empresas públicas e privadas que operam no setor, 45,08% são referentes à carga tributária e encargos da conta de sua casa, empresa, indústria, hospital etc. Os tributos federais (Cofins, Imposto de Renda, Pis/Pasep), estaduais (ICMS), municipais (ISS) e encargos trabalhistas (INSS e FGTS), além de algo como R$ 9,00 para a universalização, estímulo a fontes alternativas e subsídio a algumas termelétricas. O que todos pedem – e a Justiça está abarrotada de ações nesse campo – é que o ICMS seja reexaminado e não incida da forma como hoje é feita. Este artigo, que foge ao habitual, história apenas o que foi levantado por técnicos do estatal BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, na sua revista no. 29, reeditada pelo Instituto Acende Brasil e Folha de São Paulo. Além da conta tem que ser paga ainda a Taxa de Iluminação Pública. Nós, os brasileiros, precisamos saber que todas as contas chegam às nossas mãos acrescidas de muitos tributos e que as tais agências reguladoras devem justificar suas criações, não como fonte de empregos, mas como fiscais do que a maioria dos brasileiros não sabe, tampouco tem acesso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/11/2010.

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SOLIDÃO NA INTERNET – Diário do Nordeste

Recebo de amigos convites para entrar em redes sociais de comunicação pela Internet. A alguns, respondo que não me agradam as redes sociais. A outros, deixo o silêncio e a inação como respostas. Nasci analógico, escrevendo carta com a mão esquerda, lambendo a parte gomada do envelope para postá-lo nos Correios. Bem que gostaria de ter de volta algumas cartas que escrevi. Elas falariam de mim, de como me situava em relação a este futuro que chegou de forma avassaladora com os aparelhos celulares cada vez menores e mais sofisticados e os computadores com tantos recursos que um mero usuário como eu perca a parte maior e, talvez, a melhor. Recentemente, um sociólogo francês, Dominique Wolton, diretor do Centro de Pesquisa Científica de Paris, afirmou aqui no Brasil que “a comunicação será a grande questão do século XXI”. Concordo, em parte, um século é muito tempo e só gastamos, até agora, um décimo do 21. O que virá nos próximos 90 anos? Creio que ninguém, mesmo da comunidade científica, tem noção do que as novas gerações, as nascidas neste século, viverão com alegria ou pena. Segundo ele, as comunicações tipo Facebook são provas de solidão interativa. O José não preenche a solidão da Maria que, mesmo se comunicando com ele e outras pessoas, continua só com sua esperança e (des)ilusão. Para ele, há um conceito de sociedade individualista de massa. Ora, digo eu, se é sociedade, não pode ser individualista. Isto quer dizer que os componentes de uma sociedade possam ser individualistas, mas a sociedade, não. Ele acredita que a procura da liberdade individual é um modelo que remete à herança do século 18 e a igualdade que todos parecem ter na Internet seria um arquétipo singular de socialismo. Claro que o objetivo das redes sociais é fazer com que as pessoas leiam os anúncios sutilmente visíveis e se descubram face a face, em carne e osso. Deixam de ser as “personas” que se mostravam em suas faces escritas ou visuais e passam a enfrentar o eterno problema e solução dos seres humanos, a capacidade de comunicação real, sem mistificação e idealização, na hora do encontro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/11/2010.

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CHICO DA SILVA –ARTE E VIDA – 100 ANOS – Jornal O Estado

Quem deseja conhecer um pouco mais da obra, da vida e da história do pintor Chico da Silva não deve perder a grande exposição já aberta ao público na Galeria Benficarte, no Shopping Benfica, todos os dias, das 10 às 22 horas. Não paga nada. É só entrar, olhar com vontade de entender o turbilhão que era o pincel/imaginário de Chico da Silva. Ela ficará aberta até o dia 30 de novembro e é comemorativa dos 100 anos de vida desse grande pintor primitivista ou naïf, como querem os franceses, que deixou seguidores e imitadores. Lembro que corria o ano de 1966. Um dia, recebo telefonema de Fernando Heráclio Silva, colecionador de artes, que me pergunta de bate – pronto se eu conhecia as pinturas do Chico da Silva. Claro, respondi. Chico da Silva, naquele mesmo ano, havia ganhado, com suas pinturas primitivas e alucinadas, Menção Honrosa na Bienal de Veneza, Itália. Fernando, objetivo, disse: procure-o e compre todos os quadros que encontrar. Dia seguinte, peguei o carro e fui procurar/encontrar a velha casa do Chico da Silva no coração do Pirambu. O Pirambu, nesse tempo, havia recebido uma demão de boa vontade do padre Hélio Campos que, por sua estatura moral e eclesiástica, bradara alto sobre a miséria da área favelada e a carência de documentação legal das ocupações. O fato é que me vi dentro da casa do Chico, uma mistura de moradia, ateliê e bodega, pois sempre havia família, ajudantes/aprendizes, comida e aguardente por perto. Fiz a compra solicitada, paguei o devido, recebi parte das telas. As outras, o Chico iria me entregar depois. A partir dessa entrega, o Chico, vez por outra, aparecia com uma porção de quadros. O táxi ficava esperando e ele, já meio alto, vendia, agradecia, prometia voltar. E voltava. Esta introdução diz da alegria de ver esta exposição dos supostos 100 anos de vida de Chico da Silva e dos reais 25 anos de sua morte. O acervo apresentado é quase todo do colecionador Lincoln Machado. Para ele, “o que importa é saber quem foi o artista que se dizia índio do Acre (para onde foram e voltaram tantos cearenses, observação minha) e que levou o nome do Ceará para… Moscou, Paris, Veneza e tantos outros”. Roberto Galvão, pintor e mestre, fala da inserção na revista Cahier D’ Art, de Paris, de reportagem com oito páginas quando Chico ganhou a Menção Honrosa… Entretanto, diz Galvão: “É necessário que se faça um resgate de sua obra. Torna-se urgente um registro completo de suas pinturas e as de seus seguidores”. A Secretaria da Cultura do Ceará está associada a essa homenagem e “sente-se no dever e o cumpre ao apoiar esta iniciativa que considera relevante.” A Câmara Municipal de Fortaleza se associou às homenagens. A mostra tem a curadoria do artista plástico João Jorge Melo e apreciações técnicas de Roberto Galvão, conhecedor da vida e da obra de Chico da Silva, figura tão surrealista quanto suas linhas e curvas multicores, urdidoras da tessitura predecessora de figuras como as das aves aladas do filme Pandora. O convite está feito. Veja os comentários, confira o delírio e a arte e desse homem simples e grande que, 25 anos após sua morte, estão sendo discutidos, mostrados e apreciados. Não perca.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/11/2010

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ELIMINAÇÃO DA POBREZA – Diário do Nordeste

Semana passada recebi convite de uma revista para fazer uma pergunta ao governador eleito, Cid Gomes. Não sei se a minha pergunta será considerada, mas a que me veio à cabeça na hora foi a seguinte: o senhor acredita na eliminação ou erradicação da pobreza até o ano 2020? No Brasil, pobre é alguém que tem renda per capita até 140 reais. Indigentes são os que têm renda de até 70 reais. Na verdade, o número ideal seria o do salário mínimo. Mínimo quer dizer pequeníssimo ou ínfimo. O Nordeste ainda possui 13,5 milhões de indigentes e 17,6 milhões de pobres. Estes dados são do Censo de 2.000, mas atualizados pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios. Em estudo recente da Fundação Getúlio Vargas/CPS/FSP determinou-se um custo médio per capita para eliminar a pobreza, por mês, de R$ 9,33. No Ceará, o custo foi R$ 16,16. Verificou-se quanto cada área influi no aumento do rendimento individual e familiar. A resposta veio do trabalho: 71%. Os programas sociais/bolsa família respondem por 5,3% e a previdência social com 24%. O trabalho é a alavanca que deve dignificar a vida da pessoa. O que fica claro é que é preciso aumentar o número de oportunidades de trabalho, seja para o autônomo, o vinculado a cooperativas e a empresas. Há queixas recorrentes sobre os custos sociais de cada empregado e a morbidade crescente de micro, pequenas e médias empresas que, por não terem condições de pagar as obrigações sociais e os impostos diretos e indiretos, encerram suas atividades. É cena comum, nas médias e grandes cidades brasileiras, o movimento noturno de artesãos, vendedores, ambulantes, distribuidores e afins que se acercam dos pontos que, já na madrugada, são visitados por compradores que abastecem seus pontos comerciais com essas mercadorias feitas de forma artesanal ou, quando muito, com algum viés industrial. Essas aglomerações urbanas se fincam, criam raízes e aumentam a economia informal que não tem, por mais que deseje, condições de se estruturar até como microempresários. A transferência de renda dos programas sociais é um caminho, mas não a saída para a verdadeira inclusão social.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/2010

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A POESIA DE BARROS PINHO – Jornal O Estado

Dizia Madame de Staël, escritora francesa dos anos oitocentos, que a poesia é a linguagem natural de todos os cultos. Bem mais cedo, Ovídio, vivido no então Império Romando, asseverava que a poesia nasce simples de uma mente serena. O livro “Poemas para orvalhar o outono”, de José Maria Barros Pinho, parece merecer as duas observações acima. Barros Pinho, administrador, professor, político e, acima de tudo, poeta, é uma dessas pessoas diferenciadas em seu jeito incisivo, retraído – quando necessário -, ardente, cálido, prestativo e sabe que veio ao mundo com missões múltiplas. Vejam-no: “o comércio/faz a festa da vitrine/nos olhos dos meninos/o operário/desfila na fila do governo/sob a plácida complacência/na espera eterna/da bondade burocrática/nas ruas/a vida/ é uma máquina”.
A capacidade de síntese é a característica deste registro poético que também não deixa de ser uma crônica, um relato social. Rimbaud, um dos maiores poetas de todos os tempos, afirmava: “Digo que o poeta precisa ser vidente, far-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-essências. Inefável fartura em que tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo sábio”.
Tudo o que Rimbaud disse está inscrito na seleção dos setenta poemas de Barros Pinho escolhidos para este livro que o revela por inteiro. As memórias, essas que voltam sem ser chamadas, estão no poema O velho longe do Rio: “meu avô morreu/na chapada da distância/procurando a lua de olhos/vivos no rio o rio mais/longe de sua vontade/as mãos sem carne/ os pés sem perfume/a rastejar fantasmas/na superfície das pedras/o engenho abrigo do tempo/moendo moendo seus ossos/ossos no destino do vento/vento vento outro vento/não o vento de sua terra/hoje passa montado no cavalo/ arco-íris pelos céus e as esporas/ a rasgar as nuvens da chuva”. Belo, contundente.
J. Ortega y Gasset, filósofo espanhol quase contemporâneo, pois morto em 1955, admitia que não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria. Assim, tem sido a poesia de Barros Pinho. Gera, metaforicamente, as suas verdades, mostrando ou camuflando as suas dores, fazendo de seus versos sístoles e diástoles. Consegue sintetizar tudo, assim: “o rio encheu/os olhos/do menino/cheio de espanto/a menina/encheu-lhe a vida/de paralelas”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/11/2010

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O BRASIL DESEJADO – Diário do Nordeste

Agora que as eleições passaram. Enquanto todos se preparam para o Natal, seria um bom tempo para se pensar no Brasil. No final de outubro, a revista Época, edição 01.11, contratou pesquisa, elaborada pela Marcondes Consultoria, sobre o país que o brasileiro quer ter. Essa pesquisa fala dos desejos dos brasileiros. Em 160 cidades de todo o país foram feitas 2.544 entrevistas com pessoas em idade de votar. Havia uma lista de 70 palavras envolvendo valores básicos, tais como responsabilidade, respeito, corrupção, iniciativa, justiça, ética etc. Cada entrevistado (a) deveria responder quais os itens mais identificados com ele próprio, quais os que mais importariam para o país e ainda como a pessoa gostaria de ver o Brasil no futuro. Não houve surpresa quando responderam os fatores que definem o Brasil atual. Saíram, pela ordem: corrupção, pobreza, crime/violência, desemprego, analfabetismo, poluição ambiental, agressividade, incerteza sobre o futuro, desperdício de recursos e discriminação racial. Paralelo a isso, os fatores que poderão identificar o país no futuro. Eles, pela ordem, são: justiça, redução da pobreza, moradia confortável, cuidados com os idosos, oportunidades de emprego, cuidados com a saúde, respeito, qualidade de vida, justiça social, honestidade, cidadania, democracia, inovação, liberdade pessoal, criatividade, liderança e liberdade de expressão. Como se vê, na hora de pensar com seriedade, o brasileiro, seja de que parte for, sabe ordenar seus pensamentos. Você poderá dizer que ele recebeu uma lista com 70 palavras, mas é preciso lembrar que ele tinha a liberdade de escolha. Em um dos quadros-resumo há a indicação de como o brasileiro se vê. Ele dá valor à amizade, família, honestidade, respeito, alegria, humildade, saúde, justiça, esperança, paciência, responsabilidade e, por último, coragem. Este artigo/pesquisa é uma forma de fazê-lo pensar um pouco em você e na forma como se vê no pedaço de chão que ocupa no Brasil. As pesquisas não são necessariamente verdades, mas indicam tendência do rumo que cada um deve tomar para a solução dos seus problemas pessoais e, igualmente, ajudar o Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/11/2010

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SÃO PAULO E O JABUTI – Jornal O Estado

Estive agora em São Paulo. Dizia Edson Queiroz que a cidade era tão legal que o povo falava a língua portuguesa, entre outras. É claro que não é o português brasileiro, mas qual seria o português brasileiro? O quase castiço do Maranhão? O dos “esses” dos cariocas? O jeitão duro e o emprego do tu pelos gaúchos? Ou a ginga dengosa baiana? Importa não, todos se desentendem na mesma íngua. Enquanto andava por várias partes da cidade, inclusive na região que os paulistas chamam de Berrini, uma nova Avenida Paulista, pude ver, ali perto, sob pontes e viadutos, lugares de morar dos sem teto. Muitos lugares, centenas de sem teto. Não estou falando de favela, mas de tocas humanas. Ao mesmo tempo, a cidade zoa veloz por sobre os tetos dos sem teto. Carrões e carrinhos, ônibus articulados, tipo três em um, motocicletas, táxis e assemelhados formam uma grande lagarta modorrenta multicolorida iluminada no entardecer. A terra recebe a chuva forte para minimizar a baixíssima umidade do ar, essa secura deixando a todos nervosos e suarentos E as emissoras de TV, a exaustão, falavam da “ocupação” do complexo do Alemão, no Rio. Todos paravam, vidrados. Foi preciso juntar as polícias e as forças armadas para a operação ficar ao gosto do sensacionalismo de certos canais de televisão. Esquecem os paulistanos que já aconteceu isso em Sampa. Não precisam ficar espantados. Basta lembrar o passado recente. Ônibus queimados, delegacias metralhadas etc. Foi neste século. Juro que não queria escrever sobre isso, a intenção era dizer que a região dos jardins é maravilhosa, especialmente o Jardim Europa. Por lá, revendedoras de veículos, envidraçadas e iluminadas, açulam a cobiça dos que podem e frequentam, entre outros, o Clube Harmonia, nas proximidades. Mas, no duro mesmo, o que gostaria de falar seria sobre a confusão criada pelos editores paulistas Luiz Schwarcz (Cia. Das Letras) e Sérgio Machado (Record) acerca da escolha concedida pelo Prêmio Jabuti a Chico Buarque, o escritor. É briga de cachorro grande e tem a ver com a não eleição do jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre, que lançou um romance e já seria o premiado, não fosse Chico quem é. Depois, talvez conte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/12/2010.