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A POESIA DE BARROS PINHO – Jornal O Estado

Dizia Madame de Staël, escritora francesa dos anos oitocentos, que a poesia é a linguagem natural de todos os cultos. Bem mais cedo, Ovídio, vivido no então Império Romando, asseverava que a poesia nasce simples de uma mente serena. O livro “Poemas para orvalhar o outono”, de José Maria Barros Pinho, parece merecer as duas observações acima. Barros Pinho, administrador, professor, político e, acima de tudo, poeta, é uma dessas pessoas diferenciadas em seu jeito incisivo, retraído – quando necessário -, ardente, cálido, prestativo e sabe que veio ao mundo com missões múltiplas. Vejam-no: “o comércio/faz a festa da vitrine/nos olhos dos meninos/o operário/desfila na fila do governo/sob a plácida complacência/na espera eterna/da bondade burocrática/nas ruas/a vida/ é uma máquina”.
A capacidade de síntese é a característica deste registro poético que também não deixa de ser uma crônica, um relato social. Rimbaud, um dos maiores poetas de todos os tempos, afirmava: “Digo que o poeta precisa ser vidente, far-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-essências. Inefável fartura em que tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo sábio”.
Tudo o que Rimbaud disse está inscrito na seleção dos setenta poemas de Barros Pinho escolhidos para este livro que o revela por inteiro. As memórias, essas que voltam sem ser chamadas, estão no poema O velho longe do Rio: “meu avô morreu/na chapada da distância/procurando a lua de olhos/vivos no rio o rio mais/longe de sua vontade/as mãos sem carne/ os pés sem perfume/a rastejar fantasmas/na superfície das pedras/o engenho abrigo do tempo/moendo moendo seus ossos/ossos no destino do vento/vento vento outro vento/não o vento de sua terra/hoje passa montado no cavalo/ arco-íris pelos céus e as esporas/ a rasgar as nuvens da chuva”. Belo, contundente.
J. Ortega y Gasset, filósofo espanhol quase contemporâneo, pois morto em 1955, admitia que não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria. Assim, tem sido a poesia de Barros Pinho. Gera, metaforicamente, as suas verdades, mostrando ou camuflando as suas dores, fazendo de seus versos sístoles e diástoles. Consegue sintetizar tudo, assim: “o rio encheu/os olhos/do menino/cheio de espanto/a menina/encheu-lhe a vida/de paralelas”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/11/2010

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O BRASIL DESEJADO – Diário do Nordeste

Agora que as eleições passaram. Enquanto todos se preparam para o Natal, seria um bom tempo para se pensar no Brasil. No final de outubro, a revista Época, edição 01.11, contratou pesquisa, elaborada pela Marcondes Consultoria, sobre o país que o brasileiro quer ter. Essa pesquisa fala dos desejos dos brasileiros. Em 160 cidades de todo o país foram feitas 2.544 entrevistas com pessoas em idade de votar. Havia uma lista de 70 palavras envolvendo valores básicos, tais como responsabilidade, respeito, corrupção, iniciativa, justiça, ética etc. Cada entrevistado (a) deveria responder quais os itens mais identificados com ele próprio, quais os que mais importariam para o país e ainda como a pessoa gostaria de ver o Brasil no futuro. Não houve surpresa quando responderam os fatores que definem o Brasil atual. Saíram, pela ordem: corrupção, pobreza, crime/violência, desemprego, analfabetismo, poluição ambiental, agressividade, incerteza sobre o futuro, desperdício de recursos e discriminação racial. Paralelo a isso, os fatores que poderão identificar o país no futuro. Eles, pela ordem, são: justiça, redução da pobreza, moradia confortável, cuidados com os idosos, oportunidades de emprego, cuidados com a saúde, respeito, qualidade de vida, justiça social, honestidade, cidadania, democracia, inovação, liberdade pessoal, criatividade, liderança e liberdade de expressão. Como se vê, na hora de pensar com seriedade, o brasileiro, seja de que parte for, sabe ordenar seus pensamentos. Você poderá dizer que ele recebeu uma lista com 70 palavras, mas é preciso lembrar que ele tinha a liberdade de escolha. Em um dos quadros-resumo há a indicação de como o brasileiro se vê. Ele dá valor à amizade, família, honestidade, respeito, alegria, humildade, saúde, justiça, esperança, paciência, responsabilidade e, por último, coragem. Este artigo/pesquisa é uma forma de fazê-lo pensar um pouco em você e na forma como se vê no pedaço de chão que ocupa no Brasil. As pesquisas não são necessariamente verdades, mas indicam tendência do rumo que cada um deve tomar para a solução dos seus problemas pessoais e, igualmente, ajudar o Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/11/2010

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SÃO PAULO E O JABUTI – Jornal O Estado

Estive agora em São Paulo. Dizia Edson Queiroz que a cidade era tão legal que o povo falava a língua portuguesa, entre outras. É claro que não é o português brasileiro, mas qual seria o português brasileiro? O quase castiço do Maranhão? O dos “esses” dos cariocas? O jeitão duro e o emprego do tu pelos gaúchos? Ou a ginga dengosa baiana? Importa não, todos se desentendem na mesma íngua. Enquanto andava por várias partes da cidade, inclusive na região que os paulistas chamam de Berrini, uma nova Avenida Paulista, pude ver, ali perto, sob pontes e viadutos, lugares de morar dos sem teto. Muitos lugares, centenas de sem teto. Não estou falando de favela, mas de tocas humanas. Ao mesmo tempo, a cidade zoa veloz por sobre os tetos dos sem teto. Carrões e carrinhos, ônibus articulados, tipo três em um, motocicletas, táxis e assemelhados formam uma grande lagarta modorrenta multicolorida iluminada no entardecer. A terra recebe a chuva forte para minimizar a baixíssima umidade do ar, essa secura deixando a todos nervosos e suarentos E as emissoras de TV, a exaustão, falavam da “ocupação” do complexo do Alemão, no Rio. Todos paravam, vidrados. Foi preciso juntar as polícias e as forças armadas para a operação ficar ao gosto do sensacionalismo de certos canais de televisão. Esquecem os paulistanos que já aconteceu isso em Sampa. Não precisam ficar espantados. Basta lembrar o passado recente. Ônibus queimados, delegacias metralhadas etc. Foi neste século. Juro que não queria escrever sobre isso, a intenção era dizer que a região dos jardins é maravilhosa, especialmente o Jardim Europa. Por lá, revendedoras de veículos, envidraçadas e iluminadas, açulam a cobiça dos que podem e frequentam, entre outros, o Clube Harmonia, nas proximidades. Mas, no duro mesmo, o que gostaria de falar seria sobre a confusão criada pelos editores paulistas Luiz Schwarcz (Cia. Das Letras) e Sérgio Machado (Record) acerca da escolha concedida pelo Prêmio Jabuti a Chico Buarque, o escritor. É briga de cachorro grande e tem a ver com a não eleição do jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre, que lançou um romance e já seria o premiado, não fosse Chico quem é. Depois, talvez conte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/12/2010.

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TELES, BEZERRA E EDNILO – Diário do Nordeste

Há identidades análogas nos três novos eleitos para a Academia Cearense de Letras, a decana das academias brasileiras. Capazes, maduros e ativos no que fazem. José Teles é reconhecido médico, José Augusto Bezerra é administrador de empresa e Ednilo Soárez dirige de faculdade de nível. São oriundos da Academia Fortalezense de Letras. O primeiro a tomar posse foi Teles, livros publicados, entre eles “O Solo das Chuvas”, “O Lacre do Silêncio” e “Sermões da Padraria”. É poeta apaixonado refinando seus versos. Dante Alighieri dizia, em “Purgatório”, o que é poeta: “Sou um que escreve apenas/quando me fala o amor e tenta relatar fielmente/o que ele dita dentro de mim”. Assim é Teles, da Sociedade Brasileira dos Médicos Escritores, dirige o capítulo cearense da Alane, dirigente operoso da área de cultura do Ideal Clube que, sob sua tutela, promove certames para jovens, intelectuais consagrados e edita regularmente “Poemas de Mesa”, prenhe de lírica. O segundo é José Augusto Bezerra, ora empossado, bibliófilo Mindliano, detentor de rica biblioteca e a quem Maria Luiza, irmã de Rachel de Queiroz, escolheu para guardião de seu acervo, neste ano do centenário da autora de “O Quinze”. Agrega o galardão de Grão-Mestre da Maçonaria. Coube a ele a difícil tarefa de substituir a Eduardo Campos, cultura poliforma, orador nato e então presidente do Instituto do Ceará. Bezerra, tal qual o biografado em seu livro “O Espírito do Sucesso”, Alexandre, o Grande, destacou a personalidade de seu antecessor e soube, com prudência e zelo, imprimir característica pessoal na condução da entidade. O terceiro é Ednilo Suárez, administrador e mentor de jovens por hereditariedade. A ele coube a incumbência de ser o diretor acadêmico de faculdade de nível. Como intelectual tem-se mostrado merecedor de críticas lisonjeiras de quem costuma ser rigoroso em suas apreciações sobre o seu romance “A Brisa do Mar” e o ensaio “Miscigenação nos Trópicos” (tristeza ou alegria?) que tem como referência o escritor português Ramalho Ortigão. Sua posse, tão aguardada, ficará como presente de ano novo. Parabéns à Cearense e, especialmente, a Teles, Bezerra e Ednilo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/12/2010.

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HORA DA DECISÃO – Diário do Nordeste

Todos os dias somos obrigados a decidir. Fazer ou não exercícios, qual roupa vestir, tomar café ou não, qual rota ou meio de transporte tomar para o trabalho, como melhorar no serviço, como crescer profissionalmente. As decisões podem ser aparentemente automáticas, mas são frutos de processos complexos. Uns, analíticos, racionais. Outros, instintivos ou emocionais. Quase todos têm uma ou mais histórias para contar da decisão certa não tomada ou da precipitação na decisão errada acontecida. Não há regra geral, tudo é casuístico. Ninguém é totalmente razão, tampouco só emoção. Há um cientista português, reconhecido por seu saber, o professor de Neurociência da Universidade Southern Califórnia, nos Estados Unidos, António Damásio. Ele escreveu dois livros sobre o tema: “O Erro de Descartes” e “Sentimento de Si”. A redação talvez corrija o prenome dele. Colocará Antônio, maneira brasileira de escrever o nome. Isso é decisão, pois baseada na lógica da língua. Voltando ao Damásio, ele diz: “se a pessoa tem que decidir sobre a sua vida, a sua saúde, as suas relações humanas, a sua educação, é evidente que não toma decisões instantâneas”. Por outro lado, afirma ele, se alguém lhe apontar uma arma a sua reação será imediata, não precisa de elaboração ou deliberação. Ela faz parte da memória evolutiva, do aprendido com avós, pais, amigos, ambiente social etc. É comum ver gente sem saber decidir qual sapato comprar, o filme a assistir, a escolha no cardápio do restaurante. Imaginem então o dilema do(a) jovem ao decidir aos 17/18 anos o curso ou faculdade a fazer. Falta experiência e sobra ansiedade. A capacidade de decidir pode ser treinada, afirma Damásio, mas há muitas variáveis em jogo, especialmente saber se a personalidade é dual, reflexiva ou imediatista. Pensar cobra partes da intuição e razão para dar respostas certas aos desafios, medos e oportunidades. Um jogador de futebol, por exemplo, não tem tempo para pensar se entra ou não naquela bola dividida ou se chuta assim ou assado. Ele chuta como pode. O resultado depende da capacidade, treinamento e personalidade. Pelé que o diga. E o Dunga?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/06/2010.

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É NAMORO? NÃO É NAMORO? – Jornal O Estado

Namorados precisam de data? Ou tudo é decorrente da tal da mão invisível idealizada por Adam Smith? Será? Abro os olhos e vejo as íris resistentes a me mostrarem o espelho fronteiriço. Na constatação do tempo percorrido vem a pergunta sorrateira: qual a razão da data? Lembram-se do falado na frase inicial? Agora, é ir procurando o caminho dessa estrada enevoada onde a proa e a popa do barco da vida escondem navegantes à procura de respostas à indagação fundamental: o que represento para você se não tenho remos? Cada par de pernas escolhe as hipóteses do trajeto e, se encontram outras duas pelo caminho e formam quatro no mesmo diapasão, há o que comemorar. O namoro é quando a fulgor acende, nunca quando mitiga. É quando há emoções e se escreve, de novo, uma história de todos conhecida, mas própria, pessoal e intransferível. Há namoro se as mãos se deparam como astros absortos, envolvidas pelo calor dos suores trocados a cada suspiro. Namoros não têm prazo de validade. Têm marca de identidade, de sutilezas percebidas pelas celebrações dos corpos, nos registros da bênção aspergida pelo encontro. É namoro quando se sonha junto, quando se descobre o abismo e uma ponte salvadora emerge do nada. É namoro quando há pensamento insone, quando a lanterna da esperança permanece azeitada e o fulgor do encontro é maior que as adversidades do dia-a-dia. É namoro se alma e corpo estão no mesmo tempo do verbo, se sei que não sabes que sei, mas desejo que saibas. É namoro quando imaginas ser criança e o jardim da infância não mais existe. Não é namoro quando as mágoas amadurecem e se transformam em ódio. Não é namoro quando se contam os minutos do encontro e se reza para tudo ter fim. Não é namoro se há interesse e não achas a pessoa interessante. Não é namoro se precisas da inteligência para dirigir o tempo. Não é namoro quando mede frases. Namoro é perdição de tempo no encontro sem horas. É namoro quando não há parcimônia, tampouco cerimônia. É namoro quando não há autoridade, mas afeição e identidade. Há namoro quando não se comanda, mas se anda, passo a passo, sem deixar rastro de desencanto. É namoro quando o outro não é um meio, tampouco fim, é sempre um vir-a-ser. É namoro quando os sussurros abafam gritos e quando os dias têm mais cores embora as horas e os astros sejam os mesmos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/06/2010.

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BRUNO, HEPTANETO – Diário do Nordeste

É março, cedo da noite, estaciono o carro sobre o asfalto, dou boa noite, passo o portão, entro no elevador e subo quarenta metros. Toco a campainha, ouço vozes, alegro-me, desde já, com a graça da criança no berço esplendido da simplicidade. “Seja feita a luz e a luz se fez”. Beijo-o com carinho e sou advertido. Devo me conter. Deixe para depois, pai. E assim fiz. Esperei meses, quase coincidindo a data com o aniversário da mãe, quinta comemorado, para anunciar: sou hepta. Sem essa de futebol e copa. Estou louvando a chegada do meu heptaneto. Nada de penta ou hexa, sou heptavô. Luana foi a primeira e Bruno é o sétimo neto. Filho da terceira filha que havia me dado o penta. Chegou a alegria na noite molhada pela brisa marinha alforjando pedras protetoras na curva da avenida. Veio sem muitos choros e dengues, pleno de promessas na pele macia como avelã, clara como a esperança de bons tempos, envolto nos panos da benquerença. Bruno foi apresentado pelos pais para a alegria e deleite de tios, primas e avós, olhando-o com a ternura só concebida pelo amor. Vejo, agora, meses depois, o registro do seu nascimento e lembro do dito pelo escritor russo Antonin Tchekhov: “nas certidões de nascimento escreve-se onde e quando um homem vem ao mundo, mas não se especifica o motivo e o objetivo”. Caro Tcherkhov, o motivo da vinda do Bruno foi o desejo de um casal em tê-lo como filho não com objetivo definido, preciso, matemático. O objetivo é sutil, tênue e arriscado como todo projeto de vida, mas forte como a perseverança e a fé. Vem com o selo do afeto. Não é produto para ter selo de qualidade do InMetro, é gente, fruto da clarividência de seus pais, quilates acima de egoísmos e apegos. Vem para ser irmão de Nicolas, risonho, brincalhão, galhofeiro, contando números, lendo letras e já contando muito para todos nós, os vindos antes a este mundo de tantos ais. O saúdo, Bruno, com a liberdade concedida pela maturidade, essa a não apagar caminhos limpos, pois se alegra deles. O saúdo com a força deste ano 10, do século da maioridade brasileira, o 21, e o faço em nome dos que constam de seu sobrenome, regado por letras, lutas e lampejos de fraternidade. Deus o abençoe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/06/2010.

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PAIXAO CINQUENTONA- TJA – Jornal O Estado

Tenho uma paixão cinquentona por ele. Era meninote e me punha a pé da Rua Major Facundo, desde a Praça do Carmo, para lá. Ia com a despreocupação dos enlevados pela oportunidade do encontro. Morava na cidade calma, com 270 mil pessoas, 15.000 “aparelhos telefônicos”, um grande hotel, o San Pedro, cinco emissoras de rádio, um novo e lindo cinema, o São Luiz. Admirava as vitrines da Aba Filme, na Rua Barão do Rio Branco, mostrando as fotos das meninas bonitas da cidade que tomavam lanches no Tonny’s. Era ainda o velho palco, o mesmo de 1910. Burle Marx não burilara a vegetação hoje ensombrando o lado incorporado da Rua General Sampaio, nem era dele o antigo prédio da escola, depois faculdade, olhando para a entrada da casa da Maria Luiza Rodrigues e o Edifício Lord. Sabia que ele me abriria, como espectador, de alguma forma, as frestas das artes, da interpretação, do canto, da música. Queria apurar sentidos, tinha pressa e curiosidade de saber. E foi lá que vi, entre outros, Paulo Autran, Tonia Carrerro, Procópio e Bibi Ferreira, Eva Todor e até o Zé Trindade, um fracasso, diga-se. Paquerava por lá, ouvindo moças da sociedade declamando poemas aprendidos sob a tutela da Sra. Violeta Modesto de Almeida, em festival promovido pelas “Damas de Jacarecanga”, em benefício dos pobres do Pirambu. Estava lá vendo o piano negro iluminando a magia de Jacques Klein, cearense do Aracati, já famoso concertista internacional, ao tocar sonatas de Beethoven. Em tempos de Semana Santa via o Gólgota, depois Paixão de Cristo. Foi nele que acompanhei o crescimento da Comédia Cearense, de muitos atores e o despertar do teatrólogo Eduardo Campos. . Anos depois, em festa de gala, subi os degraus que levam a seu palco, ao lado do meu pai, para receber orgulhoso o pergaminho da faculdade. Vi tantas peças, anos a fio. Como veem, não é amor recente, nascido depois que Bia Lessa comandou suas mudanças, os jardins surgiram e a frente cresceu, respondendo por todo o lado sul da Praça José de Alencar. É paixão antiga, dos que o conheceram sem climatização, vendo o porteiro “Muriçoca” e o Clóvis Matias, desde sempre. E não poderia deixar de louvar este 17 deste junho, sua data centenária, meu velho amigo, o Theatro José de Alencar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/06/2010.

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CINEMA E SUBSTÂNCIA – Diário do Nordeste

Sabem José Augusto Lopes, Miranda Leão e Pedro Martins Freire, entre outros, do meu velho amor pelo cinema. Não o dos blockbusters/ grandes produções, mas o cinema-arte, aquele a nos intrigar pela não obviedade da trama, a identificação precisa dos cânones do diretor, a estética da composição plástica, a marcação dos protagonistas, a iluminação acertada, os cortes, a trilha musical, o trabalho do continuísta, a remontar cenas interrompidas pelos intervalos obrigatórios, causados pela mudança da luz ou estafa do elenco. Ontem, 19 de junho, foi o dia consagrado ao cinema brasileiro. E o que me alegrou, além da data, foi a lembrança e a honra de um convite recebido. Falo do convite da Editora Valer para ontem participar do lançamento do livro do escritor manaura Márcio Souza, “A substância das sombras – a arte do nosso tempo”, seguido de debate sobre cinema. Márcio Souza é escritor premiado, nascido nos bastidores de jornal, a fazer crítica de cinema, ainda adolescente. Márcio é autor, entre muitos, do clássico livro “Galvez, Imperador do Acre”, tendo sido professor convidado de literatura da University of Califórnia, Berkeley, Estados Unidos. O que isso tem a ver comigo? Muito. Adolescente, entrei, de metido, no Clube de Cinema, dirigido por Darcy Costa. E, como já o fazia, continuei a anotar, com mais precisão de detalhes, todos os filmes assistidos e até fazer apreciações sobre eles. Não duvidem. Tenho os cadernos. Estão lá as páginas amareladas relatando, com despreocupação juvenil, a minha crítica. Por outro lado, gente há ainda a não saber da minha experiência continuada e diária, como jornalista. Fui, sim, por anos, a convite de Eduardo Campos, nos Associados. O pagamento era feito, todos os meses, por Anastácio de Souza, tesoureiro. Um dia desses, com ajuda da historiadora Walda Weyne, consegui resgatar, digitalizado, parte desses escritos jornalísticos dos anos sessenta. São centenas de páginas. Voltando ao fio da meada, gostaria de ter ido a esse lançamento e, principalmente, comparecido ao debate. Parabéns, Márcio Souza. Obrigado, Editora Valer pelo convite. Cinemeiros, somos sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/2010.

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FORTALEZENSE – NOVOS TEMPOS – Jornal O Estado

A Academia Fortalezense de Letras está de parabéns e alegre com a aprovação, sem nenhum voto contrário, do novo Estatuto e Regimento da AFL, na presença de 23 acadêmicos, maioria absoluta, à Assembleia Geral Extraordinária, de 16 de junho de 2010. A Fortalezense é uma academia do Século XXI. Não cabe mais se fixar no belo modelo “ancien garde” da Academia Francesa e da notável ABL, a Brasileira. Uma academia não apenas se funda. Ela se constrói no tempo pelas obras de seus integrantes, pelo respeito à sua imagem pública. Cresce com atitudes sociais e culturais definidas, mesmo havendo divergências, no foro adequado. Ela têm fundamentos, projeto de futuro, frequência habitual, sócios convergentes em torno dela e criação literária . A criação e funcionamento do www.academiafortalezensedeletras.blogspot. diz da nossa inserção no presente midiático, da vontade de ser plural e usar a Internet como veículo auxiliar da difusão da cultura e da informação institucional. Procuramos ser transparentes. A nossa atuação nas duas últimas Bienais do livro mostra que não viemos para coadjuvantes, mas atores no processo de transformação da cultura fortalezense. A Homenagem prestada pela unanimidade dos vereadores da Câmara Municipal de Fortaleza, em novembro de 2009, diz da nossa aceitação e do respeito gerado. Queremos bons acadêmicos nas vagas abertas. Entendemos por bom acadêmico qualquer pessoa, maior de idade, residente permanente de Fortaleza, com produção literária significativa, socialmente aceito(a), que acate as normas da instituição, deseje se candidatar na forma do Edital da vacância, orgulhe-se de a ela pertencer, defenda-a, não dissemine a cizânia, e procure fazê-la brilhar, a partir do aprimoramento do que faz como intelectual e cidadão. As duas edições, 2009 e 2010, das semanas Viajando nos Livros levaram milhares de jovens à contemplação, participação e entusiasmo pelos livros que foram distribuídos, pelas palestras proferidas, peças encenadas, debates realizados e a presença efetiva das academias de jovens que apoiamos com o aplauso do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Particular do Ceará e o apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. E sem nenhuma despesa da AFL. A atual Administração já editou a Acta Literária. Publicamos boletins eletrônicos e em versão escrita a todos remetida. O Boletim é registro de fatos e feitos. Neste junho de 2010, convocamos uma Assembleia Geral Extraordinária com publicação prévia do edital no jornal O Estado, no dia 03 de junho de 2010. Também houve convocação por escrito, por correio, e-mail e telefone, para todos os acadêmicos. Os projetos do Estatuto e do Regimento estiveram na Secretaria e no blog, aguardando sugestões. Agora, estão, novamente no blog, com as alterações aprovadas. Como Presidente da Fortalezense e seu eventual guardião até setembro, tento fazer o possível e ajudá-la a crescer em harmonia e ciosa de seu nome. A partir desta semana, seremos a única academia de letras a integrar o Pacto por Fortaleza, iniciativa da Câmara Municipal de Fortaleza. Na próxima segunda-feira estaremos na Universidade Federal do Ceará, junto com a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, pensando a cultura da nossa terra.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/06/2010